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Crítica | Mouse (Mostra de SP 2026)

Foto do escritor: Vinicius Oliveira
Vinicius Oliveira
há 6 horas
3 min de leitura
Coming-of-age explora os lados confusos do luto e os inesperados portos seguros que podemos encontrar no caminho.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Minnie (Katherine Mallen Kupferer) sempre viveu à sombra da melhor amiga, Callie (Chloe Coleman), cuja personalidade expansiva e múltiplos talentos a faziam ser o centro das atenções onde quer que estivesse. Mas quando Callie morre inesperadamente num acidente de carro, Minnie precisa processar o luto e a ausência da amiga, e em meio a isso forma um inesperado laço com a mãe de Callie, Helen (Sophie Okonedo).


Coming-of-age é um dos meus gêneros cinematográficos favoritos, e após ver Chicas Tristes nessa Mostra, não estava preparado para ser tocado por outro tão cedo durante o festival. Claro, a abordagem aqui é outra, embora de início não pareça quando vemos a dinâmica das duas amigas; considerando que a sinopse oficial do filme não revelava diretamente sobre a morte de Callie, vê-la acontecer nos primeiros minutos do filme me pegou de surpresa. Mas é a partir disso que ele vai revelando suas profundas camadas, mostrando como o luto está longe de ser um processo linear ou lógico.


Não reconheci de imediato Katherine Mallen Kupferer como uma das amigas da protagonista de Crescendo Juntas (talvez meu coming-of-age favorito dos últimos anos), mas a jovem atriz, agora mais crescida, consegue dar vida a uma personagem introspectiva e confusa sobre sua própria identidade – inclusive sexual – que encontra seu desabrochar justamente no período mais difícil de sua vida. Dividida entre a necessidade de honrar a memória de Callie e entender quem é e seguir seu próprio caminho, ela vai aos poucos se abrindo para o mundo e para as pessoas à sua volta, um processo que só ocorre por intermédio da relação afetuosa – e conflituosa – que constrói com Helen.


Nesse sentido, Sophie Okonedo tem talvez o trabalho mais difícil do filme. Como dar vida a uma mãe mergulhada no luto? Como entender o vínculo entre ela e Minnie? O longa não está interessado em perguntas e respostas fáceis, mas é impossível não compreender a dor e as nuances de uma figura como Helen através da performance da atriz britânica, que tem aquela rara capacidade de dizer muito com tão pouco: um olhar, uma arqueada de sobrancelha, uma crispada de lábios, uma única lágrima vertida. Desde o início o filme constrói através de planos e contraplanos a relação das duas por intermédio das sutis trocas de olhares, mostrando como Helen parece ser a única a ver Minnie como uma pessoa de verdade (além de ser de fato a melhor amiga da sua filha, ao contrário de outras garotas), de modo que faz todo o sentido que emerja essa relação entre as duas posteriormente, assim como faz todo o sentido que determinados tipos de conflitos surjam dessa relação.


No mais, o filme acaba obedecendo a uma certa cartilha do gênero – a relação conflituosa da protagonista com a mãe (vivida por Tara Mallen, mãe de Katherine na vida real), os coadjuvantes adolescentes com arquétipos bem definidos, a figura do professor mentor, o interesse amoroso – vivido por Iman Kellani com uma certa graça e leveza, embora a atriz seja relativamente subutilizada –, a trilha sonora e muito mais. Até a ambientação em 2002 parece atender a essa cartilha, já que afora referências culturais e tecnológicas específicas, nunca há muito que justifique situar a obra no início do século.


Mas, apesar desse emprego de clichês e de não fugir muito de um lugar-comum esperado para esse tipo de filme, Mouse consegue cravar seu lugar dentro do gênero do coming-of-age por uma abordagem sensível e muito franca sobre o luto, a forma como reagimos com ele e, sobretudo, com quem escolhemos compartilhá-lo. O filme vive e morre nas atuações de Katherine Mallen Kupferer e Sophie Okonedo e, embora a atriz veterana tenha mais destaque por sua atuação discreta e complexa, a dinâmica das duas é a grande alma da obra.


Nota: 3.5/5


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