Crítica | Corrida dos Bichos
- Ávila Oliveira

- há 3 horas
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Distopia brasileira se sustenta na ação bem trabalhada.

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Inspirado no universo da loteria animal brasileira, um jovem destemido precisa vencer uma corrida mortal para salvar sua irmã em um futuro distópico onde cada animal do jogo é agora representado por um corredor que disputa um prêmio.
Corrida dos Bichos parte de uma premissa sagaz que não demora a estabelecer as regras do seu próprio universo. O filme quer apresentar ao público uma distopia brasileira de fácil compreensão, mas acaba sendo didático em excesso na maneira como conduz essa apresentação. Logo na abertura, a narração de Anitta se encarrega de deixar tudo explicado, como se o espectador precisasse receber um manual de instruções antes mesmo de a história começar. A partir daí, o roteiro mantém esse comportamento ao longo da narrativa, voltando constantemente a explicar seus próprios elementos em vez de confiar que eles possam ser assimilados pelas imagens e pelas situações. É uma escolha que torna a experiência menos orgânica e reduz parte do impacto de uma proposta interessante que poderia ser descoberta aos poucos.
É na ação, porém, que o longa encontra sua melhor forma. As sequências construídas a partir do parkour são inventivas e demonstram um domínio muito maior da linguagem visual do que o roteiro apresenta em sua construção dramática. Há enquadramentos engenhosos, movimentações de câmera que acompanham bem o deslocamento dos personagens e um trabalho de dublês que merece destaque. O filme entende que uma corrida precisa transmitir velocidade, risco e sensação de percurso, e consegue transformar os espaços em parte importante dessas sequências. Não é apenas uma sucessão de obstáculos colocados diante dos personagens, mas uma ação pensada para explorar fisicamente cada ambiente.
Essa atenção aos espaços também aparece na ambientação. Corrida dos Bichos constrói uma distopia visualmente interessante ao alternar cenários amplos, registrados em planos bastante abertos, com momentos em que a câmera se aproxima dos personagens para aumentar a sensação de tensão e confinamento. Existe um cuidado evidente em fazer com que aquele futuro tenha uma identidade própria, ainda que a história percorra caminhos bastante familiares. A escala dos cenários ajuda a vender a dimensão daquele mundo, enquanto os enquadramentos mais fechados funcionam especialmente bem durante a corrida. É um filme que demonstra saber onde colocar a câmera mesmo quando não sabe exatamente o que fazer com alguns de seus personagens.

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E são os personagens secundários que mais evidenciam as limitações da narrativa. Há gente demais circulando pela história sem que isso represente necessariamente uma expansão de seus significados. Muitos deles aparecem, cumprem uma função imediata e desaparecem sem acrescentar novas camadas ao universo ou aos conflitos apresentados. Em alguns momentos, parece que a quantidade de personagens existe mais para ocupar tempo de tela do que para enriquecer a história. Isso contribui para uma estrutura narrativa conhecida demais, na qual a trajetória do protagonista é conduzida por etapas previsíveis até o confronto seguinte, sem que o filme consiga explorar todas as possibilidades sugeridas por seu próprio conceito.
De todo modo, Corrida dos Bichos funciona dentro daquilo que se propõe a fazer. É um filme divertido, movimentado e tecnicamente competente, especialmente quando coloca seus personagens para correr, literalmente. Suas limitações estão menos na execução da ação do que na maneira como o roteiro tenta conduzir o espectador pela mão durante praticamente toda a experiência. No entanto, a concepção baseada no imaginário da loteria animal brasileira poderia render uma distopia muito mais provocadora, mas o longa parece mais interessado em construir uma aventura acessível do que em investigar as ideias que existem por trás daquele universo e seus personagens.
Nota: 3/5



















