top of page
Background.png

Crítica | Honestino

  • Foto do escritor: Aianne Amado
    Aianne Amado
  • há 3 horas
  • 3 min de leitura

Documentário revisita a trajetória de Honestino Guimarães e lembra por que as histórias da ditadura ainda precisam ser contadas.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

A ditadura militar brasileira – ou, mais precisamente, a resistência a ela – produziu inúmeros heróis nacionais. Não se deixem convencer por quem afirma, com certa amargura, que o cinema já esgotou as histórias desse período: por mais que elas sejam contadas, sempre haverá um novo personagem, igualmente fascinante, cuja coragem e compromisso com o país parecem quase inconcebíveis à luz do presente.


É o caso de Honestino Guimarães, figura que – admito com algum constrangimento – me era desconhecida. Dotado de uma inteligência extraordinária, superada apenas por sua determinação em aproximar o Brasil dos valores em que acreditava, Honestino teve sua trajetória profundamente ligada à Universidade de Brasília (UnB) e à União Nacional dos Estudantes (UNE). É surpreendente que sua história ainda seja tão pouco conhecida fora dos círculos militantes.


Felizmente, o cinema ajuda a preencher essa lacuna. Dirigido por Aurélio Michiles e produzido por Nilson Rodrigues, Honestino se apresenta como uma obra híbrida entre documentário e ficção, utilizando Bruno Gagliasso para encarnar o líder estudantil em sequências encenadas.


Na avaliação dessa humilde crítica, porém, o longa funciona essencialmente como um documentário. E digo isso não como uma limitação, mas como um elogio: é justamente na linguagem documental que a obra encontra sua maior força.


A partir de cartas, poemas e outros escritos do próprio Honestino, combinados a depoimentos contundentes (alguns recuperados de arquivos, outros produzidos especialmente para o filme), somos convidados a reconstruir a trajetória daquele que era chamado carinhosamente de “Gui” por amigos e familiares. Da formação política recebida em casa ao sequestro e desaparecimento pelas mãos da ditadura, passando pela experiência transformadora na UnB (mais ligada ao movimento estudantil do que ao curso de Geologia, vale dizer) e pelo nascimento da filha Juliana, o filme reúne detalhes que ajudam a dimensionar a humanidade e a grandeza de seu personagem.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Os depoimentos são acompanhados, em grande parte, por imagens de arquivo. Como o próprio documentário explica, Honestino e seus companheiros evitavam registros fotográficos ou audiovisuais de suas reuniões, receosos de que servissem como prova ou facilitassem a ação dos órgãos de repressão. Diante dessa ausência, o filme recorre a imagens das cidades por onde Honestino passou, além de registros mais amplos do período – manifestações, prisões e confrontos que não correspondem necessariamente aos eventos narrados, mas ajudam a situar o espectador no contexto de violência e perseguição da época. A solução funciona: ainda que não ilustre diretamente os fatos descritos, contribui para transmitir a atmosfera de medo e repressão que permeava aqueles anos.


Imagino que Michiles tenha buscado evitar a repetição de imagens já cristalizadas no imaginário brasileiro sobre a ditadura. Talvez por isso tenha optado por encenações e reconstruções de momentos-chave da trajetória de Honestino, numa tentativa de conferir maior concretude visual a episódios para os quais não existem registros de época. É justamente aí, contudo, que reside o principal problema do filme.


As encenações raramente alcançam a força emocional dos relatos que as antecedem. Em alguns momentos, aproximam-se da estética de reconstruções comuns em programas de true crime de qualidade duvidosa. Ainda mais grave é o fato de que tais inserções frequentemente interrompem o impacto dos depoimentos, quebrando o estado de imersão construído pelo documentário e afastando o espectador, ainda que temporariamente, da experiência narrativa. Também chama atenção uma escolha de elenco no mínimo… curiosa: o moreno Gagliasso interpreta um personagem que os próprios entrevistados descrevem como loiro.


Se, em termos cinematográficos, o longa não impressiona, seu valor histórico e pedagógico é difícil de ignorar. Como documento de memória, Honestino cumpre uma função que ultrapassa os limites da análise estética – e que qualquer nota aqui sugerida, inevitavelmente, não conseguiria mensurar por completo. Em um contexto em que os traumas da ditadura parecem cada vez mais distantes para parte da população, o filme se torna uma ferramenta importante de preservação da memória e reflexão sobre os riscos do autoritarismo. Sob essa ótica, então, trata-se de uma obra fundamental, especialmente em ano eleitoral.


Honestino estreia nos cinemas em 13 de agosto.


Nota: 3/5



LEIA TAMBÉM NO SITE:

FILMES BRASILEIROS DE 2026

bottom of page