Entrevista | “Eu tive uma dor de crescimento durante o filme”: Julia Guggisberg Hannud fala sobre “Carcereiras”
- Vinicius Oliveira

- há 13 horas
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Documentário, que estreou no festival É Tudo Verdade, marca o retorno da diretora ao universo do sistema prisional feminino.

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Estreou hoje (10) no festival É Tudo Verdade o documentário Carcereiras, dirigido por Julia Guggisberg Hannud. Ambientado no sistema prisional feminino do estado de São Paulo, o filme acompanha Ana Paula e Mariana, as quais trilham caminhos paralelos como agentes penitenciárias, distantes de suas raízes e laços afetivos. Enquanto Mariana sonha com uma transferência que impulsione sua carreira e vida adulta, Ana Paula almeja o retorno a São Paulo e a vida na metrópole. Os dias exaustivos dentro das unidades prisionais tornam as decisões cada vez mais difíceis pela busca por um futuro.
Essa não é a primeira incursão de Julia Hannud no universo do sistema prisional feminino. Em 2016 ela codirigiu com Catharina Scarpellini Saudade Mundão, que acompanhava de perto a realidade de mulheres marginalizadas muito antes de serem encarceradas. Além da direção, Julia também é fundadora da UMA FILMES, produtora independente sediada em São Paulo dedicada a narrativas autorais e à amplificação de vozes femininas no cinema.
O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Julia para falar sobre Carcereiras. Na ocasião, a diretora comentou sobre como chegou até Ana Paula e Mariana, sobre como buscou aliar elementos do documentário e da ficção e sobre como buscou retratar as mulheres presas, além de refletir sobre sua trajetória desde Saudade Mundão. Confira a entrevista abaixo:
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme traz as trajetórias dessas duas guardas prisionais, Ana Paula e Mariana, uma mais velha e outra mais jovem. Como você chegou até elas? E por que a decisão de nunca cruzar seus caminhos durante o filme, mas apresentá-los paralelamente?
Julia Guggisberg Hannud: Quando eu comecei a escrever o roteiro de Carcereiras, a pensar em como eu gostaria de construir a narrativa desse filme, eu pensava em duas personagens, uma que fosse mais velha e outra que fosse mais nova. Justamente para a gente entender como que talvez a mais nova fosse o espelho da mais velha e que a velha fosse o espelho da mais nova. Será que a Mariana vai ser Ana Paula daqui a 10 anos? Será que a Ana Paula já foi a Mariana de alguma forma? Então eu pensei nessas duas personagens com facetas diferentes, justamente para a gente entender como seria uma ou outra no lugar.
E aí quando eu resolvi que queria uma personagem mais nova para o filme, me perguntei como que acharia essa personagem mais nova, sendo que a maior parte das mulheres que estão já no sistema prisional são mais velhas. Então eu fui para o curso preparatório de agente penitenciário, que existe aqui em São Paulo, perto do antigo Carandiru. E aí eu descobri que tinha uma nova turma se formando e fui lá para ver também quais eram as aulas que elas tinham, nesse momento de pesquisa ainda do filme, e foi onde eu encontrei a Mariana. Eu pedi para entrevistar algumas meninas do curso e aí eu fiz uma entrevista com a Mariana, e ela me pareceu uma pessoa muito interessante, porque tinha um corpo físico bem robusto, imponente, mas ela parece uma menina muito doce.
A Mariana também tem pai e mãe que trabalham no sistema prisional, o que é diferente de muitas das servidoras, a maior parte delas nunca teve contato com o sistema prisional. Então, ela acabou escolhendo essa profissão, mesmo sabendo os riscos. Então foi uma personagem que me instigou desde o começo. E na primeira entrevista que a gente fez, ela disse uma coisa que me chamou muito a atenção, que foi: "Eu tenho medo de ficar com o coração peludo, igual ao meu pai”. E aí eu perguntei: "Bom, o que é ficar com o coração peludo?”, e ela me disse que é essa rigidez que o sistema na verdade vai trazendo quando as pessoas entram para esse trabalho.
E sobre a Ana Paula, eu a encontrei quando já estava na pré-produção do filme. Eu não tinha essa personagem secundária, porque a personagem que eu tinha escolhido acabou saindo do presídio, então tinha que encontrar essa nova pessoa. E aí comecei dentro de Pirajuí [uma das prisões onde o filme foi gravado] a fazer várias também entrevistas, sempre com o caderno, o lápis na mão, porque não pode entrar com o celular, não pode entrar com computador, não pode entrar com nada. E fui entrevistando várias mulheres, carcereiras, mas no último dia ainda não tinha ninguém 100% definido.
Aí eu vi a Ana Paula na enfermaria, e perguntei quem era ela. Comecei a conversar com ela, que falou assim: "Ai, nem vai adiantar você falar comigo porque eu tô saindo de férias amanhã". Eu falei: "Mas não tem problema", e conversamos um pouco. Ela é formada em enfermagem, trabalhava na enfermaria do presídio, mas como agente penal, era servidora. E começou a contar um pouco sobre a vida dela, contou que tinha uma família, que tinha a mãe dela, que tinha um sobrinho, que tinha um hobby, que gostava de cavalo. E aí vi que ela tinha essa vida para além do presídio, o que é uma coisa muito difícil no sistema prisional. Então perguntei se podia falar com ela durante as férias, ela topou e depois conheci sua família.
Eu acho que a Ana Paula, por mais que tenha uma idade um pouco mais avançada que a Mariana, ela é super nova ainda também, já está há 8 anos no sistema prisional, o que já é um tempo de carreira diferente de quem tá começando. Mas Ana Paula tem um lugar do cuidado muito forte, ela por ter essa formação de enfermagem fora do sistema prisional, traz uma outra camada também para essas mulheres, para as servidoras que trabalham dentro do sistema.
Ela tem um conhecimento que não pode exercer dentro do sistema prisional, porque ela não é enfermeira ali dentro, é servidora, mas põem ela trabalhando dentro da enfermaria. E Ana Paula sabe pensar nos outros, está sempre preocupada com a mãe, com o sobrinho, com a presa que tá passando mal, dificilmente ela está ali pensando no que realmente quer. E aí o filme põe um pouco isso em questão: “O que você realmente quer? Você queria voltar para São Paulo? Você queria estar longe da sua família enquanto todo mundo quer estar perto?”. E aí eu acho que Ana Paula entra nesse pequeno dilema também dentro do filme.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Percebo no filme uma forte estética ligada ao docudrama, até mesmo à docuficção. Claro que um documentário não necessariamente “captura” a realidade tal qual ela é, mas houve esse trabalho de encenação, sobretudo nos diálogos entre as protagonistas e outras personagens? Se sim, o que te levou a essa escolha formal?
Julia Guggisberg Hannud: Foi desafiador, acho que é exatamente essa a palavra que eu tenho para te dizer. No Saudade Mundão, que é meu primeiro filme, eu vinha mais de um documentário clássico, até de entrevistas, por mais que não eram entrevistas sentadas, planejadas, mas havia, essas entrevistas com as mulheres. Fiz esse filme em 2016, então faz 10 anos que eu estou trabalhando sobre o sistema prisional. E eu revi o filme, é um filme que eu tenho muito respeito, muito carinho; ele é muito forte, realmente não é para qualquer pessoa, porque é muito doído. Mas eu ficava um pouco incomodada com essa quantidade de informação via verbal, sentia que o filme era muito verborrágico e ficava pensando como que poderia fazer um documentário onde brincasse com essa coisa da ficção ou dessa encenação, sem ter necessariamente essas informações sendo ditas.
Sabe quando é aquela dor de crescimento? Eu tive essa dor de crescimento durante o filme. Porque ficava quebrando muito a minha cabeça, porque por mais que eu planejasse coisas dentro do presídio, é muito difícil de você conseguir ter controle de tudo, praticamente impossível, ainda mais que a gente tá gravando num presídio que está em funcionamento. E eu sugeria e planejava coisas que poderiam ou não acontecer. Quando eu resolvi que queria roteirizar certas coisas dentro do filme, chamei uma diretora de teatro que também me ajudou no processo de ambientação dessas personagens com a câmera – com elas, entre elas, elas comigo –, que ajudou muito no começo do filme, mas a gente nunca chegou a testar nenhuma cena específica.
As ideias iam surgindo conforme eu tinha pensado durante o processo de roteirização do documentário, mas também conforme iam acontecendo ali ao vivo. Então, por exemplo, tem uma cena em que eu queria que Ana Paula começasse a falar sobre o irmão dela ou falasse sobre o pai, ou falasse sobre pessoas que não estavam ali e que não queriam aparecer, esses homens que tinham sumido nesse filme. E eu queria que ela começasse um diálogo com alguém, mas não tinha como eu simplesmente jogar essa pergunta porque ia ficar super falsa. Então, eu ia lá e cochichava no ouvido de uma das mulheres e falava assim: "Olha, se você puder perguntar para ela sobre a família dela, como é que ela vai passar o Natal, não sei o quê". E aí eu cochichava no ouvido de Ana Paula uma outra coisa, e assim ia criando meio que ao vivo as cenas que iam acontecendo.
Então, teve muita coisa espontânea, mas teve muita coisa encenada também. A única coisa que tenho para te dizer é que eu nunca consegui repetir nenhum take. Então tudo que você viu foi take único. E isso foi um dos grandes desafios para mim, porque eu percebi que eu precisava de mais takes para realizar coisas e eu não tinha planejado isso.

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Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): É perceptível que as presas são muitas vezes deixadas fora do quadro, ou vistas de costas, mas vemos o rosto de algumas conforme interagem com as guardas. Muitas são indicadas pelo código do crime cometido, mas vejo que mesmo que não as enquadre diretamente, sua câmera se interessa muito em humanizar essas mulheres, inclusive evitando registrar alguns dos atos de violência e mantendo-os fora do campo, deixando apenas os sons para a gente ouvir. Como foi esse processo de gravar dentro dos presídios? E como definir quais mulheres apareciam ou não na frente da câmera?
Julia Guggisberg Hannud: Sobre o som, vale falar a respeito, porque era um desejo muito forte que eu tinha de trabalhar algo em que você não visse necessariamente o que estava acontecendo. De trabalhar esse som que povoa a cabeça das pessoas que estão dentro do sistema prisional. E eu trabalhei com o Vitor Coroa e o Paulo Gama, que foram os designers de som do filme, e aí o Vitor me falou assim: "Julia, você tem que entender que você tem que gravar muito som. Não existe banco de som de presídio feminino". Têm pouquíssimos filmes feitos em presídios femininos, então tem mais banco de som de presídios masculinos, e não dava para usar. Isso foi uma coisa que pomos na ordem do dia: gravar barulho de cadeado, barulho de grade e tudo mais. Então foi uma escolha narrativa, trabalhar esse som ambiente com uma segunda, terceira camada do filme.
Sobre o rosto das pessoas, existem algumas questões aí. A primeira questão é autorização em relação ao rosto das presas. Eu não podia, por termos legais, estar filmando rostos de presa sem que elas tivessem consentimento, e era completamente oposto também ao que eu queria fazer em relação ao meu filme. Os recortes de corpos e de coisas que você vê é justamente para entender que naquele espaço tem pessoas morando ali.
Então, a forma que eu encontrei para que essas mulheres não fossem simplesmente apagadas do filme, foi conseguir filmar com essa câmera os corpos dessas mulheres que tão atrás das grades. E aí, conforme essas mulheres chegavam perto da equipe enquanto a gente estava filmando pedíamos autorização, que foi o que aconteceu também na enfermaria. A gente antes conversou, explicou do filme, perguntou se ela [a presa na enfermaria] topava participar, e ela falou que sim. E eu também achava muito importante ter uma voz ali representada.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Quais principais diferenças você observa em relação ao seu trabalho e tratamento com as mulheres presas em Saudade Mundão e agora em Carcereiras? Pensando nos 10 anos de diferença entre os dois filmes.
Julia Guggisberg Hannud: Eu sinto que o meu jeito continua sendo muito parecido ainda. Existe um lugar de aproximação e de entrega muito sincero. Porque muitas pessoas falam: "Nossa, como você é uma patricinha de São Paulo e consegue se conectar com essas pessoas?" [risos]. Mas é verdade, existe uma questão de classe muito forte. Eu fiz FAAP, estudei dentro de escola de escola privada, e eu vou para dentro do sistema prisional, onde a gente tem um abismo de classe muito escancarado.
Mas existe um lugar que habita dentro do se fazer documentário do jeito que eu penso e se fazer documentário, que faz com que esse lugar exista. Por mais que essas diferenças de classe sejam muito gritantes, por mais que seja uma questão de classe e falar sobre sistema prisional. E acho que no Carcereiras isso fica muito claro, as mulheres que também estão trabalhando como carcereiras são mulheres pobres. Não têm uma condição de vida 300 vezes melhor do que uma mulher que está presa, muito pelo contrário. Então eu acho que tanto em Saudade Mundão como em Carcereiras existe um lugar do encontro muito importante, de chegar com a sua calmaria de perguntar, delas entenderem o porquê.
E eu acho que do Saudade Mundão para cá, o que muda mesmo é o olhar em relação à estética, de como como fazer esses recortes. Sair da entrevista, tentar fazer mais uma docuficção, tentar experimentar lugares que para mim eram mais difíceis. E também estar falando com um grupo de pessoas que são muito mais rígidas também, porque esse é um trabalho que exige muita rigidez, que exige muita disciplina, que exige muito desconfiar. Eu tinha que estar ali todos os dias de alguma forma pronta para dizer que estava ali para confiar nelas e que elas podiam confiar em mim. Isso foi um trabalho constante, diário.
Para você ter uma noção, no último dia de gravação eu estava filmando com essa presa que estava na enfermaria, e aí chegou a diretora de disciplina e falou para mim: "Que que você tá fazendo? Você não pode fazer isso". Eu falei: "Quem disse que eu não posso fazer isso? De onde veio essa informação agora?”. O tempo todo você estava sendo testada para ver se ia desistir. Acho que o Carcereiras foi muito mais desafiador nesse sentido que o Saudade Mundão, porque no Saudade Mundão a partir do momento que eu entrei, eu fiquei. Acho que nele existia um lugar de troca, de falar do feminino, de falar da mulher, de falar de homem, que eu acho que gerava uma empatia para além do cinema. E eu acho que isso é muito importante quando a gente pensa em fazer documentário.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos às nossas entrevistadas e entrevistados que indiquem filmes nacionais que acham que o nosso público deva assistir. Quais seriam suas indicações?
Julia Guggisberg Hannud: Acho que um filme que para mim foi uma grande referência para o Carcereiras foi o Mato Seco em Chamas, que eu acho que traz um protagonismo feminino muito importante, que traz uma construção de docuficção muito massa. Traz uma realidade muito profunda do Brasil, que eu acho que Carcereiras também traz, por mais que seja em outro aspecto.
O Prisioneiro da Grade de Ferro, do Paulo Sacramento, também foi o que fez eu entrar em todo o universo prisional, me mostrar outras possibilidades de fazer documentário. Ele passa a câmera para os presos, dá essa autonomia de filmagem, sai da mão do diretor, no Saudade Mundão também tem isso. Eu bebi muito da fonte do Paulo Sacramento também. E [Eduardo] Coutinho.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Coutinho sempre, né? Acho que não tem como. Essa capacidade dele de fazer a gente ver o Outro é um negócio. Cada filme dele que eu assisto, eu fico mais maravilhado como que ele faz isso com facilidade, fazendo parecer fácil.
Julia Guggisberg Hannud: Exato. Eu acho que ele tem esse negócio que era uma coisa que me impressionava muito, que é o poder do encontro. Quando você tá com a câmera, quando tudo se junta, parece que você vira uma bolha, o tempo fica suspenso. O filme vira uma espécie de matéria à parte de tudo aquilo, do que é a vida, do que é o mundo. Você entra num universo completamente diferente assim. E isso sempre me impressionou muito no Coutinho, e eu sempre tentei trazer isso para dentro de mim também, como que esses espaços viram espaços suspensos. Enfim, a gente pode brisar muito [risos].



















