Entrevista | Lilih Curi e Josi Varjão falam sobre a inquietação de se buscar a própria voz em “Anastácia”
- Vinicius Oliveira

- 25 de mai.
- 6 min de leitura
Curta-metragem baiano foi o único filme brasileiro em festival qualificador para o Oscar e o Goya.

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Nesta semana está realizada a 26ª edição do Festival Internacional de Cine de Lebu (CINELEBU), no Chile. Trata-se de um dos festivais mais prestigiados da América Latina, sendo qualificador oficial para o Oscar e para o Prêmio Goya. Neste ano, apenas um filme brasileiro foi selecionado para ser exibido no CINELEBU: o curta-metragem baiano Anastácia, dirigido e roteirizado por Lilih Curi e produzido pela Segredo Filmes.
Anastácia acompanha a história da sua personagem-título (Josi Varjão), a qual, após ser impedida de trabalhar devido à perda da voz, se vê diante de um relacionamento abusivo que a aprisiona. O filme já acumula prêmios e exibições na Espanha, França e Estados Unidos, e conta no elenco com nomes como Bruno Fatumbi Torres, Luciana Souza, Carlos Francisco, Mallu Santana Cunha, AC Costa, Evani Tavares e Barbara Borgga.
O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Lilih Curi e Josi Varjão, para falarem a respeito do entrelaçamento entre a perda da voz física e simbólica da personagem, a trajetória da Segredo Filmes e suas perspectivas para o audiovisual baiano. Confira a entrevista abaixo:
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Lilih, você vem construindo uma trajetória de filmes marcados pela intersecção entre gênero, violência e deficiência. De onde nasceu a ideia de Anastácia, e como você buscou trabalhá-la pensando em como o filme adota uma estrutura não-linear para retratar a deficiência da personagem e as violências que ela sofre?
Lilih Curi: Essa ideia surgiu dentro de casa mesmo, com Josi, já que a gente é um casal. E Josi só era chamada para fazer personagens subalternizados, e aí eu fiquei muito sensibilizada, porque também venho da atuação, do teatro. Eu já estava nesse trânsito do teatro para o cinema, e falei a ela que escreveria um roteiro onde ela seria a protagonista, isso foi uns 13, 14 anos atrás. E assim nasceu a Segredo Filmes, porque eu tinha uma inquietação lá atrás, quando atuava como atriz, de fazer trabalhos que fossem urgentes, em que de alguma maneira eu tivesse uma voz, literalmente.
Então, acho que Anastácia é a busca da minha própria voz. Claro que é Josi falando, mas eu estou falando por ela de uma violência que sinto também. Independentemente de ser mulher branca, mas por ser mulher eu sinto também, sempre senti esses silenciamentos impostos de várias maneiras. Então o filme chega nesse mix de urgências que eu tinha de escrever, sobre algo que me tocasse profundamente e, ao mesmo tempo, proporcionar a Josi uma possibilidade de fala.
E esse roteiro atravessou a formação toda minha como cineasta; foi o primeiro roteiro que eu escrevi e vai virar um longa, já está no terceiro tratamento. A gente fez vários curtas de lá para cá, e eu acho que eu precisei passar por todas essas mulheres que a gente trouxe nos meus outros filmes – Teresa, Carolina, Distopia, etc. –, inclusive em termos de estética também, onde a imagem fala mais alto que qualquer palavra. E isso também parte da minha pesquisa do mestrado, sobre narrativa visual. É possível narrar a partir das imagens e da potência dessas imagens, e também do que é o trabalho do ator e da atriz, colaborando para que o texto, a retórica, o discurso venham à tona não necessariamente com o uso da palavra.
Eu venho de uma formação teatral mais contemporânea, fui cria de Antunes Filho no SESC São Paulo – sou mineira, mas morei 13 anos em São Paulo e agora há 16 moro em Salvador. Então, essa minha formação no teatro de São Paulo também interferiu completamente no meu processo de criação como roteirista e diretora. E meu trabalho de mestrado é sobre a narrativa visual nas obras de Frida Kahlo, então a questão da deficiência era uma questão que já vinha a reboque de toda uma pesquisa.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Josi, nós nunca vemos sua personagem falar, com exceção de alguns sons emitidos na cena inicial. Considerando que a voz é um dos principais recursos de expressão de um ator, quais foram os maiores desafios que você vivenciou neste trabalho para comunicar aquilo que a sua personagem precisava transmitir?
Josi Varjão: Foi um grande presente, e ao mesmo tempo um desafio, porque a gente tem a oportunidade que realmente tem o trabalho de uma atriz ali. Tinha um professor de escola de teatro que morou muitos anos em Salvador e falava assim: “a gente conhece o bom ator quando ele chega e arria as malas”. Ou seja, não é quando o ator está falando e sim quando ele está fazendo alguma ação, e essa ação é preenchida de subtextos, pensamentos, sentimentos.
Eu já conheço o trabalho de Lilih como diretora, e gente vem fazendo um trabalho muito profundo, de dentro para fora mesmo. Quando eu estou para atuar em um filme, o meu interesse é escutar quem escreveu para tentar entender. O nosso trabalho na atuação é mergulhar nesse roteiro, enquanto que o roteirista faz todo um trabalho de profundidade. Eu gosto muito da comparação com o iceberg, em que a ponta do iceberg é o texto e tudo que está embaixo é o subtexto. Então, há todo esse trabalho que a gente tem que mergulhar para entender esses subtextos, para conseguir atuar da melhor maneira possível.
No primeiro momento ela queria fazer um filme para eu atuar e protagonizar, mas ela não sabia ainda exatamente do que que ia falar, e a gente viveu muita coisa que nos atravessou. Por exemplo, a gente morou em dois apartamentos em que ouvíamos violência doméstica. No primeiro era a vizinha de cima apanhando, a gente chegou a denunciar, depois a mulher foi lá retirou a queixa. A gente depois viveu isso de novo em outro apartamento, agora com a vizinha de baixo. Então tudo isso que a gente viveu influenciou bastante, sentíamos que eram sinais e que tínhamos de falar sobre isso. Ela começou a trabalhar em cima desse tema, mas muita coisa veio das nossas conversas, então eu tive esse privilégio de acompanhar todo esse processo e de poder estar nessa profundidade para poder trazer essa atuação.

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Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): a Bahia sempre teve um papel muito relevante no cinema brasileiro, desde Roberto Pires, Glauber Rocha e por aí vai. Recentemente temos visto uma produção extensa de curtas e longas-metragens que tem obtido alcance nacional e internacional, como é o caso do próprio Anastácia, além de um ecossistema bastante rico de produtoras como a Segredo Filmes. Quais suas perspectivas a respeito do momento atual do cinema baiano e quais as expectativas para o futuro?
Lilih Curi: Você tocou num ponto difícil, porque eu acho que a gente teve e está tendo resultados a reboque dos editais que aconteceram durante a pandemia e no pós-pandemia, como a Lei Paulo Gustavo e o PNAB. Mas em 2024, 2025 e 2026 quase já não teve mais edital. Os editais do governo do estado estão bem pulverizados pelo estado, o que eu acho bem digno, tem que se interiorizar, mas menos de 2% do valor total do PNAB investido no audiovisual. Já a prefeitura [de Salvador], mesmo que seja uma gestão de direita, está investindo bastante no audiovisual, mais do que o governo do estado. Para a gente que é da capital, por exemplo, nos últimos editais foram apenas 10 curtas, com R$ 100.000,00 para cada um. Então é um cenário bem complexo e contraditório.
Josi Varjão: A gente esteve com Anastácia no Panorama Internacional Coisa de Cinema [festival realizado em Salvador], e vimos muitas produções baianas maravilhosas. Acho que até estamos com dificuldade de entrar em alguns festivais porque tem muita produção. Tem muita coisa ruim [risos], mas também tem muita coisa maravilhosa. Então eu sou mais positiva, acho que teve sim essa redução nos editais, mas ao mesmo tempo a gente amadureceu mais nossos projetos, eles estão mais fortes, sejam curtas ou longas. Eu mesma participei de dois longas, e não lembro de ter visto tanta produção assim, então há um lado positivo nisso tudo.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos aos nossos entrevistados(as) que indiquem filmes brasileiros que achem que o público deva assistir. Quais seriam suas indicações?
Josi Varjão: Eu gostei muito de Mambembe, que a gente viu no Panorama. Não tem exatamente a ver com Anastácia, mas gosto demais dessa linguagem dele, de misturar documentário e ficção. Também gosto muito dos filmes da Carolina Markowicz, Carvão e Pedágio. E tem alguns que não podem ficar de fora, como Bacurau.
Lilih Curi: Quero indicar mulheres, então vou indicar Sagrado, da Alice Riff, e A Fabulosa Máquina do Tempo, da Eliza Capai, que a gente viu no É Tudo Verdade. Bora botar as mulheres na fita aí.



















