Entrevista | “Estou firmando a assinatura artística do tipo de cinema que quero contar para minha vida”: Ana do Carmo fala sobre “Nevrose” e “Sol a Pino”
- Vinicius Oliveira

- há 1 dia
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Diretora baiana exibiu “Nevrose” na Mostra Panoramas, no Festival de Tiradentes, e inicia as gravações de “Sol a Pino” ainda este ano.

A diretora e roteirista baiana Ana do Carmo, sócia da Saturnema Filmes, acaba de lançar seu novo curta-metragem, Nevrose, no Festival de Tiradentes, na última sexta-feira (30). Exibido na Mostra Panoramas, que é destinada a obras que expandem os limites da linguagem cinematográfica, o filme conta a história da média Francisca (Josi Varjão), a qual, consumida pela culpa após a morte da filha, se torna obcecada em salvar vidas. Até que tudo muda quando seu caminho se cruza com o de uma suicida, Elizabete (Tainah Paes), que não deseja ser salva.
Além disso, ela se prepara para gravar ainda este seu primeiro longa-metragem: Sol a Pino. A ficção científica é descrita como uma história de amor entre duas mulheres negras da terceira idade que precisam se acolher durante o luto, mas que se desconectam uma da outra ao se refugiarem em um universo de realidade virtual.
O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Ana do Carmo, que falou a respeito das temáticas principais abordadas pelo curta – morte, luto e fé –, o estigma que o formato de curta-metragem ainda sofre no Brasil, seus passos futuros com a produção de Sol a Pino e o percurso do cinema de gênero dentro do nosso audiovisual. Confira a entrevista abaixo:
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): “Nevrose” tensiona as relações entre a morte, o luto e a fé, especialmente a partir do lugar dos dogmas católicos. Suas inspirações vieram de um lugar pessoal? Qual foi seu interesse em trabalhar com o tema?
Ana do Carmo: Eu acho que em todos os filmes que eu trabalho sempre trago a morte como um tema, sobretudo por ser um tema que me intriga, que me movimenta, que me traz mais perguntas do que respostas. Inicialmente Nevrose integrou uma antologia de curtas chamada Insubmissas, e a proposta do Insubmissas era adaptar contos escritos por mulheres do século XIX para os dias de hoje. Então, foram quatro contos adaptados e cada um deles foi dirigido por uma diretora diferente. No meu caso, eu fiquei responsável por adaptar Nevrose de dois contos, um que era homônimo e outro que se chamava A Suicida, ambos de uma autora chamada Délia, pseudônimo de Maria Benedita Bormann.
Dentro dos contos, tanto no de Délia quanto nos outros contos adaptados pelas outras diretoras, a morte e a loucura, fé, redenção, eram temas muito trabalhados entre mulheres no século XIX. Quando a gente leu esses textos pensou na hora: “Nossa, isso daí que é atemporal, porque também faz sentido a gente falar de como nós experienciamos esses temas nos dias de hoje”.
Originalmente esses contos não eram racializados e obviamente, enquanto uma realizadora negra, me interessa muito colocar personagens protagonistas negros nas telas. E foi muito interessante e transformador para a equipe da gente conseguir falar sobre como nós mulheres negras também experienciamos vida e morte enquanto temas existenciais. Então acho que dentro do meu trabalho o que me motiva muito é trazer para as nossas vivências negras temas existenciais, de forma que a gente consiga colocar em tela que temos sentimentos plurais, formas de ver o mundo diferentes. Então é esse tipo de construção de personagem que tem me instigado a pesquisar.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Há um certo preconceito e relutância do público geral de cinema em lidar com o formato do curta-metragem. A que você atribui essa relutância? E quais foram os motivos pelos quais quis trabalhar nesse formato?
Ana do Carmo: Eu acho que justamente porque os longas-metragens estão nesse espaço comercial que os curtas metragens não ocupam, muitas vezes isso faz com que a gente acabe olhando para o curta-metragem como meramente uma porta de entrada para o mercado ou como um exercício de audiovisual. Eu acho um pecado a gente olhar para o exercício curta-metragista com um olhar tão simplório assim, acho que o curta-metragem está num lugar de possibilitar a gente a experimentar de uma forma muito mais ousada que o longa-metragem muitas vezes não está.
Estou inclusive falando disso porque estamos em pré-produção do meu primeiro longa, Sol a Pino. E aí eu estou justamente nesses dois momentos distribuindo Nevrose e fazendo o meu primeiro longa, mas Nevrose é, sei lá, meu 11º curta-metragem. E mesmo já fazendo um longa, eu ainda estou desenvolvendo outros curtas. Então, eu encaro o fazer do curta-metragem tal qual eu encaro qualquer outro tipo de formato. Eu acho que todo fazer audiovisual, em qualquer formato que seja, é muito precioso e o curta comunica de uma forma que o longa não se comunica. E eu acho que a gente deve olhar para isso sem fazer juízo de valor, porque eu acho que cada um dos formatos tem o seu lugar, de janela, de visibilidade, de encontrar as pessoas.
Muitas vezes pelo curta também ter uma minutagem menor, ele me provoca no lugar de me desafiar a contar uma história dentro de uma janela de tempo. Muitas vezes quando a gente vai para o longa, são mil possibilidades e quando a gente vai para o curta, a gente tem aquele desafio. E eu acho esse sentimento enquanto criadora, realizadora me coloca muito no lugar de me sentir realizada. É um desafio gostoso.

Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Aproveitando o gancho, como está a produção de “Sol a Pino”? Nós até noticiamos no nosso Twitter/X há algumas semanas que o filme iria iniciar suas gravações este ano.
Ana do Carmo: É muito simbólico que a gente está filmando o nosso primeiro longa no ano em que fazemos 10 anos de produtora, na Saturnema Filmes. E Sol a Pino é um projeto que a gente vem colocando na estrada faz uns 5 anos. Ele foi selecionado para muitos laboratórios e eventos de mercado, ele foi o finalista do Frapa também, que é o maior concurso de roteiro da América Latina.
E eu aprendi muita coisa com Sol a Pino. Enquanto eu estava ali, escrevendo o meu primeiro longa, eu aprendi a ser roteirista, amadureci muito enquanto roteirista. E ele me abriu muitas portas. Então, eu ganhei o prêmio Cabíria, que é um prêmio voltado para a autoria feminina. Eu ganhei o prêmio de melhor roteiro de longa-metragem e isso me fez entrar no projeto Paradiso também, que é uma organização que tem como objetivo alavancar e internacionalizar carreiras de cineastas brasileiros. E a gente ganhou também edital de desenvolvimento, ganhamos prêmio de desenvolvimento também da Netflix, da Telecine. E aí agora fomos contemplados também para produção, estamos em pré-produção de um sci-fi baiano, negro, que conta histórias de amor entre duas mulheres negras, 60+. Então é um filme LGBT, é um filme negro, é um filme baiano, é um filme de ficção científica, é tudo que eu sempre quis fazer.
Então eu estou muito é feliz com esse momento que a gente está vivendo e de sobretudo conseguir trazer para a nossa equipe técnica pessoas que já trabalham com a gente no nosso curta-metragem. Eu sinto que Sol a Pino é uma continuidade do trabalho que a gente vem desenvolvendo, e fortalecendo dentro da Saturnema. E eu sinto que eu estou firmando a minha assinatura artística do tipo de cinema que eu quero contar para minha vida.
Acho que cada projeto é um desafio novo e a gente está tendo os desafios internos, sobretudo pensando que é muito difícil fazer cinema quando você tem pouca verba. Mas o que não falta na nossa equipe são pessoas talentosas e com sede de ver essa história no mundo tanto quanto eu. Então eu me sinto muito honrada de trabalhar com as pessoas que eu trabalho. A gente está agora em pré-produção, vamos filmar depois do Carnaval, e acho que por enquanto é o que eu posso falar, quero muito que vocês vejam esse filme esse filme da tela muito em breve.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): “Nevrose” integrou a Mostra Panorama do Festival de Tiradentes. Trata-se de um filme que está fortemente ancorado no cinema de gênero, o qual percebo que ainda luta por um certo espaço e respeito dentro da produção audiovisual brasileira. De que maneiras você acredita que o cinema de gênero pode ser mais acolhido como parte da nossa identidade cinematográfica?
Ana do Carmo: É muito complexo porque eu cresci consumindo cinema de gênero, dentro da cultura pop. Eu cresci assistindo Senhor dos Anéis, Star Wars. E sempre eram futuros tão distantes da gente, não somente em termos de estamos falando de ficções distópicas, obviamente, mas ao mesmo tempo tão distantes em representação. Eu não via personagens como eu representados positivamente dentro da cultura pop, e naturalmente, quando eu comecei a fazer cinema, queria produzir o cinema que gostaria de ter assistido na minha adolescência.
E encontramos ainda muitos desafios dentro do Brasil para gente sequer produzir cinema, imagine cinema de gênero. A gente tem sentido que o mercado está cada dia mais fechado então, estamos num lugar em que todas as portas que a gente batia, a gente sempre ouvia o mesmo feedback. “No Brasil não se produz cinema de gênero”, “cinema de gênero é caro”, “cinema de gênero não dá público porque o brasileiro prefere assistir cinema de gênero gringo do que o nacional”, mesmo a gente tendo vários produtos que tem desafiado essa lógica. A gente teve o 3%, que foi um super sucesso. A gente tem o Cidade Invisível como referência também. Tem o próprio Bacurau, que foi um grande fenômeno.
Quando eu nesse lugar, enquanto uma diretora negra, baiana, nordestina, periférica, chego nesse lugar e quero também trabalhar com esse tipo de cinema, todas as portas estão fechadas para uma pessoa como eu. Então eu sinto que o que a gente está fazendo é provocar o mercado mesmo, porque se todas as portas estavam fechadas, a gente precisa precisou ter a nossa própria produtora, o nosso próprio CNPJ, para a gente poder investir nas histórias que a gente acredita, uma vez que muitas pessoas não acreditavam. Sobretudo por não ter a referência, como é que você vai investir num território tão movediço quando você não tem uma referência e um mercado aquecido para o cinema de gênero no nosso país?
E ao mesmo tempo nós tivemos muita honra de conhecer pessoas que também estão dentro desse lugar minoritário batalhando para construir uma diversidade muito grande dentro do cinema nacional. Então, eu me orgulho muito de estar presenciando um momento no audiovisual de disputas de narrativas muito positivas, da gente conseguir ver projetos em desenvolvimento entrando em fase de produção.
Porque quando a gente olha também para o cenário agora não tem só a Saturnema que está neste lugar. Nós temos os nossos parceiros do audiovisual que também começaram com a gente e muitas outras pessoas que já estavam no mercado e abriram portas também pra gente começar a trabalhar no cinema de gênero, que estão provocando esse lugar de outras representações, e eu acho que a gente tem um público que está ávido para ver coisas legais sobre a gente. Na Saturnema a gente tem buscado criar outros mundos e mundos possíveis para nossa existência.
Então, eu tenho olhado para o cinema de gênero como um desafio muito grande, porque muitas vezes é muito mais fácil só escrever uma comédia romântica, que é o que todo filme está buscando. E está tudo bem se em algum momento também eu começar a escrever narrativas que o mercado está buscando, mas eu não quero que sejam as únicas narrativas possíveis para pessoas como eu e para pessoas que vêm de onde eu venho.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, pedimos aos nossos entrevistados que indiquem filmes brasileiros que acham que o público deva assistir. Quais seriam suas indicações?
Ana do Carmo: Acho que há duas indicações que me marcaram muito, sobretudo para construção de Sol a Pino no lugar de inspiração. Acho que o primeiro foi Marte Um, que foi um filme feito com baixíssimo orçamento, um filme negro, de um realizador negro, de uma produtora independente como a Filmes de Plástico, que tem uma trajetória muito semelhante com a nossa, de começar com essa trajetória de curtas-metragens e de fazer um cinema que é muito particular e ao mesmo tempo muito universal.
É um cinema que parte de dentro para fora e mesmo fazendo um filme com baixíssimo orçamento, Marte Um mostrou a potência do cinema negro ao chegar a ser o filme indicado no Brasil para nos representar no Oscar, e eu acho que isso é um grande feito. E Gabriel Martins é uma grande inspiração enquanto cineasta para mim nesse lugar, inclusive nós tivemos a honra de tê-lo como consultor dramatúrgico de Sol a Pino, ele foi um dos primeiros leitores do projeto.
Então é um filme que eu indico muito, e o que eu gosto muito de Marte Um é que ele consegue hackear o gênero. Ele pega um drama familiar, mas coloca uma criança que é protagonista que o sonho dele é ir para Marte. Então, mesmo sendo um filme de um gênero muito pé no chão, ele usa esse poder do sonhar para trazer essa possibilidade afro-futurística para um drama familiar.
E o outro foi O Último Azul. Quando a gente assistiu ele, percebeu que estava no caminho certo, com um filme que traz esse olhar, essa lupa sobre a terceira idade sobre um viés de ficção científica. O diretor, Gabriel Mascaro, ele é esse diretor que também já tem trabalhado esse lugar da experimentação do cinema de gênero dentro do trabalho dele, da estética muito marcada nos filmes dele. Então acho que tanto o trabalho de Gabriel Martins quanto de Gabriel Mascaro tem uma identidade muito própria, que me inspira muito.
E obviamente falando dentro do nosso território não tem como não falar de mulheres negras que estão fazendo cinema acontecer em todo o país. Uma diretora em que eu me inspiro muito é a Safira Moreira, que é uma grande amiga também, cineasta baiana muito potente, e lançou o primeiro longa dela, Cais, que também fala desse lugar da família dela. Safira é uma pessoa que tem uma sensibilidade muito grande, me toca muito assim a forma como ela faz.
Além disso, Safira também é diretora de fotografia, então eu sinto que ela trabalha do lugar dela enquanto diretora muito pensando na imagem, na sensibilidade da imagem. Então isso me inspira muito nesse lugar de olhar para como as nossas mais velhas podem e devem inspirar o nosso cinema assim. E Sol a Pino também é muito disso, tem muito da minha mãe, muito das minhas tias, muito dessa família matriarcal brasileira.



















