Entrevista | “O ‘neocolonialismo’ é uma necessidade ocidental de caracterizar o filme”: Pedro Pinho, Jonathan Guilherme e Cleo Diára falam sobre “O Riso e a Faca”
- Vinicius Oliveira

- há 2 dias
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Longa, que chega aos cinemas brasileiros na próxima quinta (30), ganhou o prêmio de Melhor Atriz na Mostra Un Certain Regard, em Cannes.

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Nesta quinta (30) estreia nos cinemas brasileiros o longa-metragem O Riso e a Faca, do diretor português Pedro Pinho. Uma coprodução entre Portugal, Brasil, França e Romênia, o filme teve sua primeira exibição no Festival de Cannes no ano passado, na Mostra Un Certain Regard, pelo qual ganhou o prêmio de Melhor Atriz pela interpretação da atriz cabo-verdense Cleo Diára, além de concorrer pela Queer Palm.
O filme, cujo título foi tirado de uma música de Tom Zé, é ambientado em Guiné-Bissau, onde o engenheiro Sérgio (Sérgio Coragem) vai trabalhar como engenheiro florestal para uma ONG, na construção de uma estrada entre o deserto e a floresta. Ali, envolve-se numa relação íntima, mas desequilibrada, com dois habitantes da cidade, a moradora local Diára (Cleo Diára) e o brasileiro Gui (Jonathan Guilherme). À medida que adentra nas dinâmicas neocoloniais da comunidade de expatriados, esse laço frágil torna-se o seu último refúgio perante a solidão ou a barbárie.
O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Pinho, Guilherme e Diára. Eles conversaram a respeito da presença brasileira no filme, tanto na produção quanto no trabalho de Guilherme (em sua estreia nas telonas), além da vitória de Diára em Cannes e a importância de sua personagem para ela, sobre como o filme aborda os efeitos do neocolonialismo na África e também dos problemas de reduzi-lo apenas a esse tópico. Confira a entrevista abaixo:
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Pedro e Jonathan, o filme é uma coprodução entre quatro países, incluindo Portugal e Brasil, e a presença brasileira já começa pelo título, que vem de uma música de Tom Zé, mas se estende à presença de Jonathan como um dos protagonistas e também por uma presença massiva de brasileiros na equipe de produção. Como se deu esse interesse em trazer o Brasil e brasileiros para a produção e narrativa do filme, através da figura de Guilherme?
Jonathan Guilherme: Para mim, o meu personagem já vem com essa carga de ser um brasileiro, de ser do interior de São Paulo, de ser um atleta. Então, eu já venho com essa carga toda, já venho com essa preparação minha própria para dentro do filme. E quando eu encontrei o Pedro e toda a produção do filme – é o meu primeiro filme, eu nunca tinha participado de nada relacionado ao cinema –, eu comecei a me sentir em casa nesses encontros, a partir dos primeiros diálogos em que a gente trabalhava.
Eu pensava assim: "Meu Deus, eu tô indo fazer um filme e em que idioma eu vou falar? Como eu vou me relacionar com as pessoas dali?”. Mas eu comecei a entender que não precisava viver mais além daquilo do que já tinha aportado comigo, que seria o meu português brasileiro, que seria o meu corpo atlético, que seria a minha realidade, que seria o meu próprio encontro com o que estava acontecendo ali no dia a dia. Foi muito interessante, porque foi aí onde eu consegui criar o Gui para que ele pudesse se despojar no filme. Então, para mim foi muito importante que eu pudesse trazer a minha brasilidade mesmo para dentro do filme, para que eu pudesse me entender como esse brasileiro na Guiné Bissau, na África, que está de alguma forma perdido ali na Bissau, tentando se encontrar.
Pedro Pinho: No Brasil talvez não se tenha totalmente essa noção, mas a cultura brasileira é muito importante em Portugal. Ela é muito presente em várias dimensões, desde as telenovelas, à música, ao pensamento. E todas as questões que o filme atravessa sobre colonialismo e anticolonialismo são questões vividas de uma forma muito intensa no Brasil e que nós em Portugal, infelizmente, estamos muito aquém da qualidade da discussão e do pensamento que se produz no Brasil; portanto, somos muito influenciados por esse universo. E logo na escrita essa relação surgiu.
Paralelamente a isso, eu tinha estado muitas vezes na Guiné-Bissau e o filme foi se desenvolvendo a partir dessas estadias. E uma das coisas que eu achei mais interessantes de encontrar na Guiné-Bissau foram os muitos estudantes brasileiros que vinham ao país à procura das suas origens. E eu achei que isso era muito importante de estar no filme, essa triangulação entre Brasil, Portugal e Guiné-Bissau.
Isso estava desde a escrita, estava presente no título, claro, mas não só, tinha outras influências muito fortes, que nós inclusivamente discutimos. Por exemplo, o Rico Dalasam era uma pessoa que eu estava a ouvir continuamente enquanto estava a escrever em 2017, 2018, nos primeiros discos que ele lançou, e aquilo influenciou-me enormemente. E eu acho que a personagem do Gui é também influenciada por essa contaminação positiva da música brasileira, do pensamento brasileiro.
Então eu passei muito tempo à procura do ator que fizesse a personagem. Não só personagem, não é só do ator, mas também da pessoa que me pudesse fazer reconhecer aquela personagem, porque ela não estava ainda totalmente escrita. E acho que isso é uma particularidade do filme: as personagens só estão escritas quando encontram a pessoa que vai representá-la. E eu acho que isso é verdade nas três personagens principais. E como o Jonathan foi o último dos três a entrar no barco, essa personagem estava muito indefinida até ele entrar. E isso foi uma felicidade enorme. Logo na primeira conversa que tivemos, eu disse: "Você vai ser o Gui, o casting está concluído", como abertura de conversa. Porque era muito óbvio para mim que que era o Jonathan.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Cléo, sua personagem é o “elo local” no triângulo amoroso do filme, embora você seja cabo-verdense. Como você analisa o papel de Diára dentro da trama e qual impacto você acha que a personagem deixou em você, especialmente considerando sua vitória como Melhor Atriz na Mostra Un Certain Regard em Cannes?
Cleo Diára: Havia uma coisa que me assolava muito, que eu não queria que ela fosse “só” uma mulher negra. Obrigou-me a estar muito alerta, no presente, e acho também que a forma como o Pedro filma obriga-te a estar presente no set. Não tens muito tempo. Se não estiveres, a cena já foi. Já caiu. Então, acho que isso também me ajudou a fazer o meu trabalho de casa, que é o corpo, o pensamento, a forma de estar, o que eu poderia ou não acrescentar, o que de silêncio poderia ou não ter.
Com o Pedro o meu olhar de fora dava ou não o tom da nota, o que é sempre bom. Nem sempre é possível o ator fazer o trabalho junto com o realizador, mas nesse caso era. Então, a Diára surge muito de exemplos de filmes que ele me passou para eu ver, de conversas e de leituras como Toni Morrison, da Audre Lorde, da bell hooks. Então, a partir disso ia me munindo de mundo interno, e Pedro foi encontrando a representação ou aquilo que se vê na tela. Tendo em conta que o Pedro podia mudar as coisas no meio do tempo, ela já tinha que estar em mim, já tinha que estar fixa. Então, ali foi um jogo entre atores.
Relativamente ao impacto, acho que, usando o que o Diogo – o irmão de Jonathan – me disse numa mensagem, foi entender todos os nãos que eu posso dar na vida e receber todos os sim de coração aberto. Acho que a Diára me ensinou, e que estou a aprender agora, é a importância de dizer “não”, dos limites e também da liberdade. Eu gosto tanto dessa palavra, e para mim a coisa mais bonita dela é o fato da sua liberdade poder te fazer ser uma pessoa mais importante para si. E é essa busca que ela implementou dentro de mim e que agora sigo nessa procura.
Ela me trouxe coisas inimagináveis, que só aconteciam entre mim e a minha almofada ou eu no banho com o shampoo [risos]. Então, trouxe-me o olhar de muita gente sobre o meu trabalho e obviamente muitas mensagens de carinho e muitas coisas boas. A Diára significa um presente. Ela ensinou-me a estar no set de uma forma descomprometida, feliz. Eu gostava de ir para o set e não estava preocupada se estava a fazer bem, apenas me ocupava em fazer. Então, ela também me ensinou esse lugar em que eu estou preparada.
E isso obviamente tem a ver com o Pedro. Pelo menos, falando por mim, eu nunca senti que tinha que que provar que era boa, eu não tinha que agradá-lo. Porque se alguma coisa não estivesse a resolver, não era o ator que não sabia. Havia uma consciência de que nós, enquanto equipe, tínhamos que resolver essa cena. E isso para mim trouxe um lugar de poder estar no presente, de poder usufruir, de poder ir além, de cumprir. Porque não iam olhar para mim e dizer: “Ih, meu Deus, essa cena, coitada, ela não conseguiu. Ai, meu Deus, contratamos uma profissional e ela não está entregando”. Então, eu acho que isso me deu essa liberdade e essa possibilidade de explorar.

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Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Pedro, o que te motivou a criar um filme ambientado num país que é uma ex-colônia portuguesa? De que maneiras vocês sentem que os efeitos do neocolonialismo se perpetuam não só em Guiné-Bissau, mas em outros países africanos?
Pedro Pinho: A questão colonial é uma questão completamente presente o tempo todo, e ao mesmo tempo estranhamente ausente. Ou seja, é uma questão que atravessa todas as dimensões da vida, mas que não tem nenhum efeito sobre o discurso público, não tem nenhum efeito sobre a história que é ensinada, não tem nenhum efeito sobre as políticas públicas. Esse pensamento e essa reflexão sobre o que é Portugal, sobre o que é a Europa, sobre o que é essa relação histórica, é uma coisa que esteve sempre muito presente na minha vida e no meu trabalho.
O meu primeiro comentário era sobre pessoas que estavam a tentar entrar na Europa. Então, eu tive esse contato primeiro com a Mauritânia, onde me apaixonei muitas vezes e, portanto, ganhei essa felicidade de conseguir olhar para essa relação a partir de fora da Europa, com os pés fora da Europa. E isso foi muito fundador na minha vida, foi muito importante, mudou-me muito e continua-me a mudar. Para mim era importante fazer este filme sobre esse lugar e sobre essa relação, sobre aproveitar o fato de ter acesso à possibilidade de arranjar dinheiro para fazer um filme para pôr uma série de questões em causa, levantá-las e discuti-las, convidando pessoas de várias naturezas e de várias origens a discutir essas questões.
Jonathan Guilherme: Eu não me questionava muito sobre o neocolonialismo, porque era uma palavra que, até aquele momento, não era usada no meu dia-a-dia. Eu não me preocupava com ela, até porque eu sinto que naquele instante até hoje eu me preocupava em estar vivo. Então eu sempre estava muito mais preocupado com o racismo, estava muito mais ali inserido no que é o racismo.
E de plena sinceridade, o filme inseriu essa palavra na minha vida. Até porque fazia dois anos que eu vivia na Europa, em Barcelona. E sinto que essa discussão é muito mais vinda de uma situação europeia do que da situação em que estamos no Brasil. Aí, a gente está sempre muito preocupado em sobreviver ao racismo e desvencilhar-se dele. Então, o neocolonialismo foi uma coisa totalmente nova para mim. Tipo, o filme me trouxe essa nova vertente do mundo.
Quando eu percebo o que é o neocolonialismo, percebo que faço parte dele todos os dias e que basicamente posso ser o núcleo dele. Então para mim foi essa descoberta de entender mais sobre questões do mundo que eu nem me dava conta, porque eu estava tentando respirar, tentando comer, tentando jogar vôlei, tentando manter meu corpo em pé.
E mesmo assim eu ainda estou preocupado em me manter de pé, porque o filme mudou a minha vida, me trouxe muito holofote, me trouxe mais amigos, me trouxe diretores atrás de mim para poder fazer projetos, mas ainda não é algo que mudou a minha vida, ainda não me colocou onde eu quero estar, não me colocou ainda onde eu acho que deveria estar junto com os meus. Mas é isso, é esse abrir os olhos, esse abrir o dicionário, a mentalidade, entender o que é o neocolonialismo e que fazendo parte dessa engrenagem, eu posso tentar mudar várias coisas também.
Cleo Diára: Vai fazer um ano que o filme estreou, e nesse tempo ele ganhou novos significados. Acho que o “neocolonialismo” é uma necessidade ocidental de caracterizar o filme. Porque a personagem principal é um homem branco que vai para a Guiné-Bissau e tem que lidar com o seu constrangimento de não conhecer aquele espaço. E sinto que muitas vezes só falar do filme nessa perspectiva é reduzir todas outras belezas que eu encontro nele.
Por exemplo, das coisas mais bonitas para mim é a procura do Jonathan – do Guilherme, nesse caso –, por algo mais daquilo que lhe foi dito. Saber que existe mais para além daquilo que a história é contada, e ele vai e se encontra e se desencontra em relações. Depois temos o caso de uma mulher, que reflete muito as mulheres, como as africanas, que cuidam da família, mas que faz a si mesma e que é uma mulher negra, livre e que não tem constrangimento do seu prazer.
Então, quando reduzem sempre ao neocolonialismo, eu sinto que há um apagamento de um reencontrar de uma narrativa nova no cinema, e ficamos sempre presos ao neocolonialismo. Ele existe porque as relações são neocoloniais dentro do capitalismo. Mas dentro disso, há um debate entre gerações no filme, se há ou não uma estrada numa língua que sobreviva ao colonialismo. Então, para mim tira a potência também histórica do que o filme faz.
Há tanta beleza, há tanta inovação, há inovação nos corpos queer. Mas não há celebração de uma pessoa como Jonathan, ou de uma personagem negra que rompe com qualquer estereótipo. E eu só entendi a dimensão quando eu fui ver os comentários de Letterboxd, que ali eu percebi o quanto as mulheres estavam ávidas de uma Diára na tela. Então, eu gostaria mesmo que as críticas, os jornais e o olhar nos vissem de uma outra forma, que não nos invisibilizassem e que não apagassem a história que nós dois fizemos.



















