Entrevista | Thales Banzai, Camila Cornelsen e Iraci Estrela falam sobre “Antônio Odisseia”
- Vinicius Oliveira

- há 22 horas
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Filme, que é uma coprodução Brasil e EUA, terá sua première mundial no Slamdance Film Festival

Foto: Divulgação
Primeiro longa-metragem do diretor paranaense Thales Banzai, Antônio Odisseia foi um dos filmes escolhidos para compor a programação deste ano do Slamdance Film Festival, que será realizado em Los Angeles entre 19 e 25 de fevereiro e é dedicado a primeiros longas, curtas e produções de baixo orçamento sem distribuição comercial. No filme, co-roteirizado por Banzai e Kelson Succi, o protagonista Antônio (Succi) e sua melhor amiga Ivone (Iraci Estrela) decidem assaltar o boteco onde ele trabalha para roubar uma nova droga, dando início a uma jornada surreal que os conduz a encontros improváveis — inclusive com Deus.
O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Banzai, Camila Cornelsen (produtora, diretora de fotografia do filme e esposa de Banzai) e Estrela a respeito da natureza experimental de Antônio Odisseia, seu processo de produção, o caráter mais teatral das performances e as expectativas para a première mundial do filme em Slamdance. Confira a entrevista abaixo:
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme convida o espectador a se relacionar com ele numa dimensão que é muito sensorial e experimental, passeando por essa “odisseia” psicológica e metafísica. Por quais maneiras foi pensada essa jornada do protagonista em busca de Deus e a sua transposição para as telas através da linguagem cinematográfica (o uso do P&B, a trilha, os efeitos visuais, as diferentes partes do filme)?
Thales Banzai: Eu acho que desde o começo a ideia do filme já era ir para um caminho um pouco mais experimental, mais subjetivo, que não ficasse numa linha narrativa tão linear. Desde quando eu comecei a trocar a ideia do projeto com o Kelson [Succi], eu tinha meio que um primeiro storyline do que poderia ser o filme. Já tinha essa ideia de a partir do primeiro ato a gente já romper e caminhar para um lugar que não fosse essa narrativa linear e que a gente conseguisse entrar em memórias, num psicológico do personagem, coisas que ele viveu na infância, sonhos, desejos de explorar mais esse lugar.
O grande desafio ia ser como não virar um grande filme de “arte” no sentido pejorativo do termo de ser um filme que às vezes pode ser meio chato, ou que as pessoas podem se perder, ou que é muito didático. A gente tentou achar um balanço que funcionasse. Íamos entrar na viagem e ao mesmo tempo tentar criar uma estrutura de roteiro que funcionasse pra ir trazendo o público com a gente, e ter alguns arcos narrativos de personagens ao longo do filme pra que, mesmo dentro da viagem, a gente tivesse alguma lógica nela, mesmo que essa lógica não fosse muito lógica [risos]. Mas isso acho que estava desde o começo.
Sobre a fotografia, eu particularmente gosto muito de filme preto-e-branco, e na nossa realidade, do filme de um filme de baixo orçamento, também ajuda muito, acho que fortalece a narrativa. Primeiramente foi uma escolha de fato criativa, mas também ajudava muito a gente a conseguir produzir o filme em pouquíssimo tempo, que foi o que a gente fez, filmamos em 17 diárias. Mas mesmo assim tivemos um resultado em que a gente conseguia ser rápido no set, ter uma luz mais expressiva, trazer uma cara pro filme.

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Camila Cornelsen: Eu trabalho muito nesses dois universos, de filme e televisão como diretora de fotografia e de publicidade como diretora. E na publicidade normalmente a gente tenta iluminar tudo, mostrar tudo, e no cinema, principalmente no cinema independente, você quer trazer o foco para algumas coisas específicas. Você quer que o olhar do espectador vá para algum lugar. E quando você trabalha com uma gama de cores, principalmente no cinema independente, você não consegue controlar todas as cores, então vai ter uma placa lá que é vermelha e de repente essa placa vermelha vai levar o teu olhar para lá.
Então existia obviamente uma escolha, um desejo do Thales. Ele trabalha muito com preto-e-branco, mas nesse projeto em especial, o preto-e-branco vem um pouco para ajudar, não só na construção da história, mas também no jeito de filmar, o que nos ajuda a gastar tempo nas coisas que realmente importam. Então já na pesquisa de locação e na decupagem do filme, a gente mudou o celular de todo mundo da equipe técnica, da equipe de arte, da equipe de maquiagem, equipe de figurino, para que todo mundo já começasse a ver o filme em preto-e-branco. Então a gente tirou a cor do celular de todo mundo, e começamos a treinar também a nossa equipe para assistir as coisas e olhar em preto-e-branco.
Apesar de ter sido uma escolha narrativa e também de produção, a gente tentou se adaptar ao máximo a tudo, não foi algo que só iríamos mudar na pós. Se você vê a maquiagem dos atores, as roupas, ao vivo, com cor, é terrível [risos]. Mas ajudou muito a gente a pensar no visual do filme como uma forma também de linguagem. Era como transformar nada em ouro, já que a gente tinha pouco recurso. Nós somos os produtores do filme, então o meu olhar ali era de diretora de fotografia, mas também de um lugar criativo, de entender que o dinheiro fala mais na tela, não atrás da tela. Então tem uma certa inteligência de produção.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Sinto que o filme aproveita essa proposta não-narrativa para recusar um certo naturalismo, e isso se dá muito nas performances, antes mesmo de Antônio e Ivy consumirem a “pasta”. Como vocês trabalharam isso? Havia uma demanda da performance já marcada desde o roteiro ou isso foi sendo improvisado no decorrer das gravações?
Iraci Estrela: A gente teve preparação, foi mais de uma semana com o Éder dos Anjos, e foi muito legal para mim como atriz, porque foi meu primeiro filme e a gente acha que vai fazer um primeiro filme super dramático, com choros e essas coisas. Então para mim foi muito desafiador, o Éder falava assim: "Gente, abandonem seus corpos, abandonem o drama, tragédia, abandona tudo isso, a gente vai ler, a gente vai trocar a ideia e a gente vai fazer uns exercícios".
Então teve muito trabalho de conexão, minha com Kelson, minha com a Ivone, Kelson com o Tony, a gente com os outros personagens. Então, o que eu acho que rolou foi um trabalho de conexão com o texto e entre a gente. Então, isso se tornou um conforto no set mesmo. Porque não era sobre eu fingir que estou ali sob efeito de alguma substância. Era sobre o que esse texto tá falando, sobre o que esse corpo pede agora. Esse corpo tem algum tique? Esse corpo tem uma voz diferente? Ele tá com a voz mais rouca?
Então, acho que teve uma preparação muito massa do Éder, que foi essa coisa da gente abandonar mesmo o drama burguês e experimentar. Eu acho um filme muito teatral e eu e o Kelson somos atores teatrais. Então isso foi massa também, porque a gente trouxe muita coisa do teatro ali para cena também, pudemos misturar essas linguagens que nem sempre os diretores gostam que se misture. Isso deu muita liberdade para a gente agir em cena e fazer a cena mesmo, no geral.

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Thales Banzai: Desde o começo já se tinha essa ideia bem clara de não ir para esse caminho necessariamente naturalista, de explorar outros lugares, que acho que se conectam com cinema no Brasil dos anos 60, 70, por aí. Mas acho que o roteiro do Kelson já se apresenta de uma forma meio espetacular. Eu quis chamar o Kelson em parte porque ele é do teatro, na verdade, porque a gente sabia que era um filme que a gente queria fazer independente.
E a gente estava bem consciente de ir tanto para esse caminho mais teatral, como também não ser teatro, porque é cinema, mas que bebe de algumas fontes também. A gente gostava muito de Macunaíma, por exemplo, que tem essa loucura, e tem uma outra atuação, e tem outras fontes que funcionam, que não tá no lugar do naturalismo. A gente vinha desse lugar que era quase uma sátira do cinema brasileiro: drogas, armas, guerra, bar, assalto, não sei o quê, para te pegar e te levar para outro lugar. E daí entrando cada vez mais nos monólogos, nos textos. Mas não improvisamos muito não, só algumas ações minhas em relação ao set.
Camila Cornelsen: O teste da Iraci foi o primeiro teste que a gente assistiu para essa personagem, e a gente ficou muito impressionado com a leitura que ela teve da Ivone, porque ela leu uma Ivone completamente diferente de todas as outras atrizes que leram esse papel. Ela trouxe para a personagem algo que não estava no papel, não estava nas linhas. Ela trouxe uma graça, um deboche, deu à Ivone um alívio que a gente não conseguiu enxergar.
A questão da droga é a primeira leitura, e a que eu acho a mais óbvia é que a Ivone é uma cracuda, está sempre high, está sempre buscando alguma coisa. E aí Iraci trouxe um brilho para essa personagem, que é a viajante. Ela é uma pessoa que está em busca de algo e isso não necessariamente está atrelado ao consumo da droga. Então ela trouxe uma leveza para a personagem, trouxe todo um brilho para o filme e para Ivone, e isso fechou a dupla. A gente precisava de um contraponto para Antônio, e eles ficam nessa troca de energia ao longo do filme.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme será exibido no festival de Slamdance, que é uma grande vitrine para o cinema independente. Qual a sensação de ter o filme exibido no festival e que tipo de recepção vocês esperam encontrar por lá?
Thales Banzai: Quando a gente fez o filme, ele estava na nossa lista de festivais que queríamos estrear e ficamos muito feliz que rolou. É um festival super importante, principalmente aqui nos Estados Unidos, porque é meio que um berço do cinema independente, onde vários diretores atuais que estão aí ganhando o Oscar mainstream começaram com seus primeiros filmes. É onde o Christopher Nolan passou o primeiro filme dele, o Sean Baker passou o primeiro filme dele, é um festival que lança carreiras.
São filmes que eu acho que o teto de orçamento deles é 1 milhão de dólares, então não tem nenhum filme que tenha um super orçamento de estúdio, o que significa que a forma de curadoria e entrada no festival também é diferente. A gente entende que nos festivais grandes como Sundance, Tribeca, Cannes, Berlinale, enfim, em todos os grandes selos existe um grande lobby das distribuidoras, das produtoras, uma diretriz de cima para baixo. Já o Slandance, ele surgiu faz uns 30 anos, e nasceu para ser um festival meio punk, anarquista. E com essa curadoria que fizeram ao longo desses 30 anos, outros festivais no mundo olham para ele e pensam: "Ah, se eles escolheram esses filmes é porque esses filmes merecem serem vistos".
É sempre uma resposta muito positiva saber que é um selo que valida muita coisa, e que as pessoas sabem que é um filme independente, sabem que é um filme que foi feito a suor e lágrimas. A estreia vai ser bem no DGA [Sindicato dos Diretores], que é um puta cinema foda. E a galera também está ligada no boom do cinema brasileiro.
Iraci Estrela: Eu achei muito chique e muito simbólico o meu primeiro filme estar estreando fora do Brasil. Eu sou uma mulher periférica do subúrbio de Salvador. Então ninguém vai imaginar que eu vou sair de Vista Alegre para estrear um filme em Los Angeles. E realizar esse sonho contando essa história escrita por um homem preto, onde basicamente boa parte do elenco é de pessoas pretas. A gente tá falando de várias outras coisas, a gente tá falando de sonhar, de desejar, de querer, de buscar. Então é emocionante, porque a gente quer falar de outras coisas, a gente quer viver outras coisas. E acho que o filme é isso.
É um filme também sobre migração e que tá migrando, espero que migre para outros países também. É muito simbólico um filme brasileiro selecionado, só um brasileiro lá na lista, entre 10 filmes, é um filme com muitas primeiras vezes. Toda a equipe estava buscando fazer o filme acontecer. Enfim, acho que é metalinguístico [risos].
Camila Cornelsen: Eu acho que pra gente é legal como uma porta de entrada que vai abrir para outros festivais também. Ficamos sempre na expectativa de onde seria o festival de estreia, e estamos super felizes que foi nesse festival. A gente até tentou aplicar para alguns festivais brasileiros no ano passado e não entramos, então é bem possível que depois de entrar lá fora a gente consiga entrar em algum brasileiro, porque tem um pouco disso, a gente só valoriza o filme quando outros deram o selo de que ele é importante. Acho que tem um orgulho real de ser brasileiro, mas ele também às vezes precisa de uma certa validação. Então esse festival vem para validar a qualidade do filme, a qualidade da história, o valor da história.
E a gente tá com um anúncio que vai sair em breve também de um outro festival, aqui nos Estados Unidos. Então a gente tá bem empolgado com tudo que tá para sair. Porque agora é isso, eu acho e o mais desafiador é para nós é realmente fazer o filme chegar e ser visto e quem que vai assisti-lo. Então, como a gente ainda não tem distribuidor e esse suporte de fazer o filme chegar nas pessoas, esses selos são importantes justamente para validar. Porque com essas validações, as distribuidoras entendem que o filme tem o seu respeito, seu valor e que tem o seu público.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos aos nossos entrevistados que indiquem filmes nacionais que acham que o público deva assistir. Quais seriam suas indicações?
Thales Banzai: Eu vou pegar algum que tem a ver com o nosso filme, então eu indicaria O Bandido da Luz Vermelha, do [Rogério] Sganzerla, que acho que tem muito a ver com essa São Paulo que a gente retrata ali no filme, acho que é uma boa conexão.
Camila Cornelsen: Los Angeles é uma cidade muito do cinema e passa muito filme, a gente engole filme aqui. E reassistimos recentemente um filme que eu lembro de ter visto quando criança, mas que faz muito sentido com esse momento do nosso cinema após Bolsonaro, que é o Carlota Joaquina – A Princesa do Brasil.
Esse filme foi o primeiro feito depois de uma baita recessão no país, e eu acho que de certa forma estamos vivenciando isso no pós-Bolsonaro. A obra em si é a reunião de dois gênios da dramaturgia, a Marieta Severo e o Marco Nanini. Então apesar de não ser exatamente o tipo de filme que eu amo e gosto de assistir, eu me diverti muito revendo e eu acho que ele tem um espírito incrível e é meio que um grande clássico.
Iraci Estrela: Eu indico assim que tá no universo do nosso filme, mesmo que de forma distante, que é Bacurau. Esse é um filme que eu assisto todas as vezes que tá passando, porque todas as vezes que eu assisto vejo uma coisa nova. Então eu indico ele porque está no nosso subconsciente, até mesmo com a substância [usada pelos personagens em Antônio Odisseia].



















