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- Festival Internacional de Cinema de Itabaiana fortalece audiovisual sergipano e reafirma o protagonismo do interior na 5ª edição
Com programação gratuita entre os dias 19 e 22 de agosto, festival consolida o interior sergipano como espaço de produção, formação e circulação do cinema brasileiro. Imagem: Divulgação Durante os últimos anos, o audiovisual brasileiro tem vivido um período de fortalecimento interno e reconhecimento internacional, impulsionado pela retomada das políticas de incentivo, pelo crescimento da produção independente e pela presença cada vez mais frequente de filmes nacionais em festivais e premiações. Em Sergipe, esse cenário se fortalece com o surgimento de novos coletivos, que ampliam a visibilidade do cinema sergipano e colocam o estado no circuito de debates e da produção nacional. É nesse contexto que o Festival Internacional de Cinema de Itabaiana chega à sua 5ª edição como um dos principais espaços de difusão e valorização do audiovisual sergipano. Realizado entre os dias 19 e 22 de agosto, na Universidade Federal de Sergipe (UFS) – Campus Itabaiana, o evento reafirma o protagonismo de uma iniciativa que nasceu no interior do estado e hoje conecta o agreste sergipano ao cinema produzido no Brasil e no mundo. Reconhecido como o único festival de cinema realizado no interior de Sergipe, o evento reúne uma seleção de 63 obras nacionais e internacionais, incluindo produções sergipanas, que serão exibidas gratuitamente ao longo dos quatro dias de programação. Além das sessões, o público poderá participar de debates, oficinas, encontros com realizadores e atividades que promovem a troca de experiências entre profissionais, estudantes e espectadores. Confira a programação completa. O coordenador geral do Festival de Itabaiana, Andrei Ferreira, reforça que o grande intuito do evento se baseia em trazer e especializar novos públicos em ambientes descentralizados da Grande Aracaju. Para Andrei, realizar o festival no interior do estado destaca a importância de uma distribuição mais equilibrada dos recursos e da ampliação dos espaços de formação para além da capital. “Temos talentos no interior tão qualificados quanto os da capital. Pela falta de investimentos, vemos que muitos profissionais deixam suas cidades em busca de oportunidades em Aracaju. É certo que no interior as estruturas não são tão desenvolvidas como na capital, até porque esta recebe muito mais aportes financeiros, não só do poder público, mas também do poder privado. Mas o interior já tem esse espaço de divulgação e é interessante ver que também estão nascendo muito mais cineastas no interior” Desde a primeira edição, em 2019, o evento acompanha o crescimento do número de produções realizadas no interior sergipano e o surgimento de novos realizadores. Ao consolidar um espaço de circulação e encontro, o Festival Internacional de Cinema de Itabaiana também inspira novas iniciativas e fortalece a presença do cinema no agreste do estado. “Quando criamos o festival em Itabaiana, as pessoas que faziam cinema na cidade não eram muitas. Agora, temos dezenas de pessoas que produzem audiovisual de fato, como forma de arte. Então, é muito legal ver esses resultados surgindo. Vimos várias pessoas ano passado falando que iam passar a fazer filmes por causa do que assistiam no festival. Isso é bem legal também”, destaca Andrei Ferreira. Ao completar cinco edições em 2026, o evento celebra o encontro entre realizadores, estudantes e público, ao mesmo tempo em que promove atividades fundamentais para democratizar o acesso ao cinema em Sergipe. Consolidando um espaço permanente de circulação e aprendizado, o Festival Internacional de Cinema de Itabaiana também inspira novas iniciativas e reafirma a importância da descentralização dos investimentos, para que cineastas de diversas regiões do estado possam produzir, circular e fortalecer o cinema local.
- “Não Estamos Sonhando”, dirigido pelo alagoano Ulisses Arthur, terá estreia mundial no BlackStar Film Festival
Filme será exibido amanhã (08), na Filadélfia, como destaque da 15ª edição do evento dedicado à celebração de narrativas negras e indígenas. Divulgação Não Estamos Sonhando, longa-metragem dirigido por Ulisses Arthur, terá sua premiere mundial no BlackStar Film Festival. A sessão está marcada para amanhã, na cidade de Filadélfia (Estados Unidos), com venda de ingressos ao público. O evento organizado pela BlackStar Projects celebra anualmente produções de cineastas negros e indígenas de todo o mundo. A 15ª edição do festival foi iniciada ontem, e seguirá até 9 de agosto, exibindo um total de 91 produções, representando mais de 30 países. Antes da seleção para o BlackStar, o projeto de Ulisses Arthur percorreu uma trajetória por importantes laboratórios e eventos de mercado, como o BrLab, Incubadora Paradiso, First Cut Lab, WIP Tiradentes e o programa Goes to Cannes. Com um currículo de curtas-metragens premiados em diversos dos principais festivais do país, o cineasta alagoano estreia na direção de um longa-metragem com Não Estamos Sonhando. “Iniciar a jornada no BlackStar é muito poderoso, pela curadoria contundente, estética e política, além de fazer eco na indústria cinematográfica americana e, consequentemente, no mundo. ‘Não Estamos Sonhando’ é um filme desobediente, e esse festival também é", afirmou Ulisses Arthur. Divulgação Segundo o diretor, Não Estamos Sonhando é uma “investigação visual e sonora do corpo, seja na anatomia (pelos personagens serem da área da saúde), seja nas relações de prazer, dor e cuidado coletivo entre o protagonista e sua comunidade de amigos.” O filme acompanha Ciro, um estudante de medicina de uma universidade pública, que concilia a intensa rotina com as aulas de pole dance, que oferece a outros estudantes. Diante das dificuldades financeiras, Ciro precisa deixar sua casa, e encontra abrigo no apartamento de Antônio, o DJ que mora no prédio ao lado. O BlackStar Film Festival tem se consolidado como uma importante vitrine para novos nomes do audiovisual. Com um crescimento constante, o festival registrou mais de 20 mil ingressos vendidos na edição anterior. Para este ano, também serão realizados painéis e discussões com profissionais da indústria do cinema. “Há quinze anos, o BlackStar busca trazer à Filadélfia tanto novos filmes quanto uma seleção de obras de repertório que não apenas dialogam com o momento que estamos vivendo, mas também aprofundam nossa compreensão coletiva sobre ele”, afirmou a diretora do festival, Nehad Khader. “Com esta programação, damos continuidade a essa tradição.”
- Entrevista | “A ideia é que você esqueça que eles têm essa deficiência intelectual”: Marcelo Galvão, Luiza Godoi e Ariel Goldenberg falam sobre “Colegas e o Herdeiro”
Sequência de “Colegas” expande o universo do primeiro filme, apostando na representação e inclusão de pessoas com síndrome de Down e TEA. Divulgação Estreia na próxima quinta-feira (13) o filme Colegas e o Herdeiro, dirigido por Marcelo Galvão e estrelado por Ariel Goldenberg, Rita Pokk, Luiza Godoi, João Vitor Paiva, dentre outros. O longa é uma continuação de Colegas (2013), também estrelado por Ariel Goldenberg e Rita Pokk e que se destacou à época por ser o primeiro filme brasileiro protagonizado por atores com síndrome de Down. Em Colegas e o Herdeiro, Stalone (Goldenberg) e Aninha (Pokk), após se casarem ao final do filme anterior, agora vivem confortavelmente num hotel decadente no Uruguai. Stalone jura que o hotel é uma herança de sua mãe, mas em seu caminho está Magrelo (Henrique Fernandes), um jovem autista que foi adotado e criado como filho pelo proprietário falecido. Sem esperar pela leitura do testamento, Stallone decide reunir seus antigos amigos com síndrome de Down, do instituto onde viveram no Brasil, para passarem uma semana de férias no hotel, e alguns deles, como Letícia (Luiza Godoi) e Duda (João Vitor Paiva) embarcam em uma aventura pelo Uruguai até chegarem ao hotel. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Marcelo Galvão, Ariel Goldenberg e Luiza Godoi para falarem sobre o filme. Segundo Galvão, seu desejo em voltar ao universo de Colegas se deu pelo interesse em mostrar a potência dos atores e atriz com síndrome de Down, além das experiências que obteve ao viajar internacionalmente para promover o filme. “Conheci muita gente que falava para mim: ‘Cara, eu amei teu filme, mas se você puder fazer um filme com um autista, eu vou adorar, porque meu filho é autista’. E eu não conhecia muito sobre o universo do autismo, né? Eu tinha uma experiência muito grande com a síndrome de Down, por ter criado sido criado junto com o tio com síndrome de Down”, disse ele, que passou a pesquisar, assistir filmes e se relacionar com pessoas autistas, mantendo amizades com várias delas até hoje. Divulgação Galvão também destacou que, apesar dos desafios para se fazer um filme como Colegas e o Herdeiro, a ideia central foi incluir e dar espaço a mais jovens artistas com síndrome de Down, bem como fornecer a representação autista através da figura de Magrelo. “Tem mais de 70 garotos e garotas com deficiência intelectual no filme. Então, a vontade de fazer o Colegas e o Herdeiro foi mais para mostrar que existe muita gente talentosa, porque para mim me incomoda muito assistir um filme e aí você vê um cara que não tem nenhuma deficiência interpretando um personagem que seja PCD”, disse ele, que também enfatizou como o filme não busca girar em torno das deficiências dos personagens: “A ideia é que você esqueça que eles têm essa deficiência e embarque naquela aventura, torça por eles. Eu acho que a maior inclusão tá ali, a partir do momento em que você não fala sobre o assunto, mas se mostra que eles são capazes de fazerem você rir, chorar, se emocionar. Eu acho que esse é o grande diferencial”. Para Luiza, que representa uma geração mais jovens de artistas com síndrome de Down (tendo inclusive codirigido e estrelado A Holandesinha, cuja crítica você pode ler aqui), é perceptível um mercado audiovisual mais aberto a estes artistas, inclusive com a possibilidade de encontrar mais filmes protagonizados por pessoas com síndrome de Down nos streamings. Já Ariel creditou ao sucesso de Colegas a possibilidade que tais filmes existam hoje em dia, bem como a inserção de pessoas com síndrome de Down no ramo artístico, mas no mercado de trabalho em geral. Por fim, tanto Galvão quanto Godoi e Goldenberg enfatizaram a importância do público assistir ao filme na sua primeira semana de estreia nas salas de cinema, para que ele se mantenha por mais tempo e seja visto por um público cada vez maior.
- Crítica | Sterling Point (1ª Temporada)
Série teen da Prime Video abraça os clichês do gênero e mostra que uma boa história adolescente não precisa ser tratada como entretenimento menor. Imagem: Divulgação Há algo quase reconfortante em Sterling Point. A série da Prime Video, lançada nesta quarta-feira (5), não chega exatamente para reinventar o gênero teen. Pelo contrário: ela reúne praticamente todos os elementos que já conhecemos de cor. Um grupo de amigos inseparáveis, romances, conflitos familiares, mistérios, segredos do passado, uma ilha cercada de histórias e aquela atmosfera de verão que parece pedir uma trilha sonora indie. E, ainda assim, funciona muito bem. Criada por Megan Park, Sterling Point acompanha Annie Jacobson, uma adolescente criada em Nova York ao lado do irmão gêmeo e do pai adotivo. A vida dos irmãos muda completamente quando Annie herda uma misteriosa ilha no Canadá deixada pelo avô. A partir daí, a série combina drama familiar, romance, amizade e mistério em uma narrativa que sabe exatamente o público que quer alcançar. E talvez esse seja justamente um dos seus maiores méritos: Sterling Point não parece ter vergonha de ser uma série adolescente. Em um momento em que produções voltadas ao público jovem frequentemente tentam se justificar como algo "maior" do que realmente são, a série entende que falar sobre adolescentes não significa necessariamente produzir uma obra menor. Seus personagens são tratados com seriedade, seus conflitos têm peso e suas relações não existem apenas para preencher os oito episódios da temporada. Os clichês estão todos ali. A diferença é que Sterling Point sabe trabalhar com eles. A série parece entender que originalidade nem sempre está em inventar uma estrutura completamente nova, mas em saber executar bem uma fórmula conhecida. E, nesse aspecto, a produção é um refresco diante de tantas séries recentes que parecem acreditar que adicionar um grande mistério ou uma reviravolta a cada episódio é suficiente para criar envolvimento. O grupo de amigos funciona porque existe química entre eles. A representação LGBT surge de maneira natural, sem transformar a sexualidade dos personagens em uma espécie de evento narrativo obrigatório. São adolescentes vivendo suas relações, descobrindo quem são, se apaixonando e lidando com as próprias inseguranças. É justamente essa naturalidade que torna a representação tão eficiente. Imagem: Divulgação Há também uma sensação deliciosa de identificação. É aquele grupo de amigos que parece familiar, mesmo quando você nunca esteve naquela ilha canadense. As conversas, as implicâncias, os romances e até os pequenos conflitos carregam uma espontaneidade que faz com que seja fácil escolher seus favoritos e torcer por eles. Os diálogos são outro ponto forte. Megan Park consegue escrever personagens jovens sem fazer com que eles pareçam versões caricatas de adolescentes. Há humor, vulnerabilidade e conflitos familiares que ajudam a sustentar a trama para além dos romances. E falando em drama familiar, esse é um dos elementos que mais surpreendem na série. O mistério envolvendo a ilha poderia facilmente engolir todo o restante, mas Sterling Point encontra equilíbrio entre a descoberta do passado da família e as questões pessoais dos personagens. O resultado é uma história que consegue prender tanto pela curiosidade sobre o que aconteceu quanto pelo desejo de acompanhar o que acontecerá com aqueles jovens. As atuações ajudam bastante. O elenco mais jovem demonstra um carisma que sustenta a série, especialmente porque os personagens possuem química suficiente para fazer as relações parecerem genuínas. Mas os veteranos também não ficam em segundo plano. Jeffrey Dean Morgan está especialmente bem, trazendo peso e experiência para uma produção que poderia facilmente cair em interpretações exageradas ou excessivamente melodramáticas. Visualmente, a série também sabe aproveitar seu cenário. A fotografia da ilha canadense é bonita sem transformar cada plano em um cartão-postal gratuito. Existe uma atmosfera quase nostálgica em Sterling Point, que reforça essa sensação de verão, descoberta e passagem para a vida adulta. Em alguns momentos, é impossível não lembrar de The O.C. Não porque as histórias sejam iguais, mas pela maneira como a série entende o prazer de acompanhar um grupo de jovens enquanto eles lidam com amizade, família, romance e segredos que parecem muito maiores do que eles próprios. Existe aquele mesmo tipo de conforto narrativo que fez tantas séries adolescentes se tornarem viciantes. Sterling Point não tenta ser mais inteligente do que é. Não precisa transformar cada conflito adolescente em uma grande discussão existencial. Ela simplesmente conta uma boa história, com personagens interessantes, bons diálogos e uma dose equilibrada de romance, mistério e drama. Os oito episódios passam em um piscar de olhos. É daquelas séries que você começa sem grandes expectativas e, quando percebe, já está no último episódio querendo mais. Talvez Sterling Point não seja a produção mais revolucionária do gênero. E nem precisa ser. Seu maior mérito está em lembrar algo que a indústria parece esquecer de tempos em tempos: uma série teen pode abraçar seus clichês, respeitar seu público e, ainda assim, ser muito, muito boa. Nota: 4.5/5
- 'Terra Bruta': western que expõe a anatomia da masculinidade estreia no 54º Festival de Cinema de Gramado
Produção dirigida por Guilherme Suman e Allan Riggs acompanha o retorno de um jovem ao sul do Brasil em uma jornada marcada por violência, memórias fragmentadas e fantasmas do passado. Imagem: Divulgação O curta-metragem Terra Bruta, dirigido por Guilherme Suman e Allan Riggs, terá sua estreia no 54º Festival de Cinema de Gramado. A parceria entre Riggs Productions e Suman Filmes, em 2025, rendeu resultados expressivos, alcançando prêmios em Hollywood, reconhecimento em festivais por diversas regiões do Brasil e ate uma participação em um festival qualificador para o Oscar nos EUA. Terra Bruta mergulha no século XIX para acompanhar Miguel, um jovem que retorna às suas origens, no sul do Brasil, para enfrentar memórias fragmentadas e ameaças iminentes. Sua jornada é marcada pela busca por purificação em meio a lugares inóspitos e fantasmas do passado. Com roteiro de Thiago Suman, Guilherme Suman e Allan Riggs, o filme propõe uma reflexão intensa sobre a anatomia da masculinidade e suas manifestações tóxicas, compreendidas como resultado de uma construção histórica que associa o ser homem à força, ao domínio e à repressão das emoções. Nesse contexto, a violência transforma-se em um corpo físico e simbólico que molda uma identidade masculina erguida sobre silêncios e feridas jamais elaboradas A direção aposta em uma estética seca e árida, reforçando a brutalidade como paisagem existencial. Thiago Suman e Guilherme Suman também assinam o figurino e a direção de arte, ampliando a densidade visual da obra. Embora dialogue com os códigos mais icônicos do western, Terra Bruta busca justamente desconstruir o imaginário clássico do gênero. O caubói, tradicionalmente marcado pela ambiguidade entre civilização e barbárie, cede espaço a uma visceralidade que costura um mundo devastado, cujos valores foram corroídos para escancarar os mecanismos de construção estrutural do masculinismo ocidental, desde suas manifestações mais cotidianas até suas expressões mais extremas. Mais do que denunciar, Terra Bruta lança uma pergunta ao espectador: até que ponto a violência é inevitável quando a identidade masculina é construída sobre sofrimento e silenciamento? Confira o trailer: https://youtu.be/42eJX9zp3e8?is=4JvJuAD0XxNwierA
- Entrevista | “Se a nossa história conseguir ajudar outras mulheres a acreditarem mais nelas mesmas, esse projeto já cumpriu uma missão”: diretor e elenco falam sobre 'Girls Just Wanna Have'
Série multiplataforma acompanha trajetórias femininas em diferentes cidades do mundo e propõe reflexões sobre identidade e pertencimento. Imagem: Divulgação A luta das mulheres, atravessada por diferentes momentos históricos e movimentos sociais, encontrou no audiovisual um espaço fértil para ampliar vozes e explorar novas narrativas. E embora seja uma pauta milenar, as formas de falar sobre o tema ainda seguem inesgotáveis. Em tempos de crises políticas e conflitos humanitários ao redor do mundo, a liberdade feminina continua exigindo vigilância e interseccionalidade. É justamente como mais uma dessas maneiras de contar histórias e provocar conversas que nasce a série documental “Girls Just Wanna Have”. E, sim, a clássica música de Cyndi Lauper já ecoa em nossos ouvidos desde os primeiros segundos do episódio. Criada pela REAL FILMES em parceria com a WE PLAY BRAZIL, a produção acompanha mulheres de diferentes países para investigar como cidades, culturas e modos de vida atravessam suas trajetórias pessoais e profissionais. A série também marca o lançamento de uma plataforma homônima de alcance internacional, pensada para ampliar o debate e ser um espaço de diálogo e informação para mulheres do mundo todo. Idealizada e dirigida pelo diretor brasileiro Rodrigo Giannetto, a primeira temporada da série percorre cidades como Londres, Sicília, Brasília, Barcelona, Los Angeles, Tóquio, Buenos Aires e Nova York. Em cada episódio, mulheres compartilham experiências, desafios e conquistas, compondo um mosaico de identidades, a partir de diferentes contextos culturais. O Oxente Pipoca conversou com Rodrigo Giannetto e com quatro participantes do episódio gravado em Londres – Amélia Lino, Francesca Nobile, Deni Balbino e Izabella Rocha – sobre o significado do projeto, o processo de revisitar as próprias trajetórias diante das câmeras e as reflexões que a série espera despertar em quem a assiste. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Bom… o título “Girls Just Wanna Have” nos remete imediatamente ao clássico da Cyndi Lauper, mas também me lembrou uma frase da Clarice Lispector. Ela fala: “A liberdade ainda é pouco. O que eu quero ainda não tem nome." Então, ao mesmo tempo em que o título parece deixar a frase em aberto, ele também soa como uma afirmação completa. Gostaria de saber como surgiu essa escolha. Rodrigo Giannetto: Eu conheço essa frase da Clarice. Inclusive, foi uma das frases que estudei durante a pesquisa, porque precisava me inspirar um pouco nessa história. Mas tem uma frase da Coco Chanel que, para mim, responde muito bem à sua pergunta. Ela diz: "A girl should be two things: who and what she wants (“uma garota deve ser duas coisas: quem e o que ela quiser”). Acho que essa frase resume bastante o que estamos objetivando com o “Girls Just Wanna Have”. A ideia é proporcionar uma experiência em que mulheres de diferentes culturas, cidades e realidades possam se encontrar através das suas histórias. Que uma possa inspirar a outra. Mas não só no feminino. Acho que isso é muito importante. Também é um ambiente para o homem. Eu, como diretor, me coloquei no desafio de fazer uma série sobre esse universo. E acho que isso passa muito por fazer perguntas, por ter essa permissão para entrar no universo feminino de uma forma mais leve, aberta. Não é chegar dizendo que sei como é a história das mulheres. Muito pelo contrário. É entrar disposto a ouvir. O episódio de Londres, por exemplo, me surpreendeu bastante. É um lugar onde a mulher pode, de fato, ser quem ela quer. Existe uma conquista muito grande. Mas, ao mesmo tempo, ainda existem resquícios do passado que continuam presentes. Isso mostra que essa conversa nunca está encerrada. Por isso, a plataforma não nasce como um espaço de militância ou de discussão política. O que queremos é plantar uma semente. Junto com todas essas mulheres, com essas histórias tão inspiradoras, queremos criar um ambiente onde essas experiências possam ser compartilhadas, onde exista troca. E não só entre mulheres. Quando decidimos fazer o projeto, nunca pensamos que seria uma série apenas para mulheres assistirem ou participarem. O tema é a mulher, claro, e ainda temos muito a conversar e homenagear sobre isso. Mas acho que também existe um efeito muito bonito quando elas assistem à própria história e se enxergam ali. É quase uma homenagem. Muitas vezes elas passam a perceber o quanto são especiais e inspiradoras. Só o fato de estarem na série já faz com que deem força para outras mulheres. E também ajudam muitos homens a entenderem melhor essa relação, os desafios e, principalmente, a importância dos direitos das mulheres. No fundo, quando falamos de “Girls Just Wanna Have”, não estamos falando apenas sobre a ideia de "se divertir", como na música da Cyndi Lauper. Estamos falando sobre liberdade. Sobre a mulher poder ser quem ela quiser. Acho que a frase da Coco Chanel traduz isso muito bem. É claro que, como homem, me emociona poder contar essas histórias. Mas também acredito que isso só faz sentido porque existe essa via dos dois lados. A gente precisa ouvir mais, conversar mais, para que exista entendimento e evolução. Imagem: Divulgação Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Ao longo do episódio, fica claro que a trajetória de vocês é atravessada por desafios, mas também por muitas conquistas e momentos de afeto. Houve algum momento das gravações que fez vocês enxergarem a própria história de uma forma diferente? Amélia Lino: Acho que o Rodrigo, durante o documentário, não faz perguntas muito óbvias. São perguntas profundas, que nos levam a refletir não só sobre a nossa condição feminina, mas também sobre as nossas conquistas. Em muitos momentos eu me emocionei durante as gravações, porque você começa a se enxergar de fora da sua própria história. Você está vivendo aquilo, mas, de repente, olha para si mesma de outro jeito. E pensa: "Poxa, eu sou tudo isso, né? Já fiz tanta coisa." A intenção do documentário é fazer com que a nossa história reverbere em outras mulheres, para que ela não termine em nós mesmas. Mas, curiosamente, durante esse momento da entrevista, a nossa própria história também começa a nos inspirar. Foi um momento muito bonito comigo mesma. O Rodrigo não entrega um roteiro, não diz quais perguntas vai fazer. De repente, você está diante da câmera, mas também diante de você mesma, compreende? Está ali para inspirar outras mulheres e acaba se inspirando também. Quando uma história é contada e mexe com a gente, ela deixa de ser apenas individual e passa a ter um sentido coletivo. Acho que é isso que o documentário faz: valoriza a nossa história e faz com que ela possa alcançar outras mulheres. Francesca Nobile: Estar aqui é muito emocionante porque, na minha visão, o Rodrigo conseguiu tirar para fora algumas verdades importantes de cada uma de nós. E, principalmente, valorizar aquilo que nos torna únicas. Todas as mulheres que fazem parte dessa série tiveram coragem de seguir aquilo que são e aquilo que sentem. De ouvir a si mesmas. É exatamente isso que eu também tento fazer. Saber que existem outras mulheres vivendo esse mesmo processo me dá força. E gosto de pensar que a minha experiência também pode dar apoio para outras pessoas. O Rodrigo conseguiu reunir tudo isso em uma série muito verdadeira, muito viva. Eu sou muito grata por ele ter me encontrado, nem sei como, nas redes sociais e me convidado para fazer parte desse projeto. Izabella Rocha: As perguntas que o Rodrigo faz são muito profundas. Elas me fizeram refletir ainda mais sobre o feminino, sobre a mulher e sobre as minhas próprias conquistas. Foi muito bonito perceber que essas histórias interessam às pessoas. Acho que o feminino tem, por natureza, essa busca pelo sentido da vida, essa necessidade de olhar para dentro. Então, quando você vê um projeto com a intenção de reunir mulheres do mundo inteiro e, ao mesmo tempo, garimpar dentro delas essas experiências para que possam compartilhar os seus pequenos tesouros, isso é muito forte. Toda vez que você olha para dentro, encontra as sombras, mas também encontra os seus tesouros. Então, além de contribuir com outras mulheres, senti que também vivi uma espécie de análise interior. A gente vai crescendo junto. Eu já me sinto maior como ser humano e como mulher desde que entrei no projeto. Acho que essa é uma das coisas mais bonitas que ele proporciona. Deni Balbino: Acho que, na correria da vida, a gente está sempre tentando fazer as coisas acontecerem, correr atrás dos nossos objetivos... e acaba não percebendo o caminho que já percorreu. Até que chega uma pessoa como o Rodrigo, faz essas perguntas, e você começa a olhar para trás. No final da entrevista, eu percebi tudo o que caminhei até chegar aqui. Foi emocionante porque eu mesma ainda não tinha percebido tudo isso que existe dentro de mim. Essa série me ajudou a enxergar o quanto eu lutei para chegar até aqui e o quanto vale a pena continuar lutando. Quando a gente quer muito alguma coisa, não existe um "não". A gente continua. E acho que foi isso que o documentário me fez lembrar. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Acho que muitas meninas e mulheres vão se reconhecer em diferentes momentos da série, nas histórias de vocês. Se uma jovem assistisse ao documentário em busca de inspiração para construir o próprio caminho, qual seria a principal mensagem que vocês gostariam de deixar para ela? Amélia Lino: A principal mensagem que eu deixo para essas meninas, mulheres, para quem for se inspirar nas nossas histórias, é que nunca deixem que limitem aquilo que elas podem ser. Que não se prendam ao que dizem sobre elas, ao que esperam delas. Acho que esse é justamente o contexto da série. A própria música da Cyndi Lauper fala muito mais do que diversão. Ela fala sobre liberdade, sobre o direito da mulher ocupar espaços, fazer as próprias escolhas e não viver apenas para corresponder às expectativas dos outros. O documentário vem com essa mesma ideia. Espero que, ao conhecerem essas histórias, essas meninas entendam que têm autonomia para fazer as próprias escolhas, sem viver apenas para atender às expectativas da família ou da sociedade. E que elas também possam aproveitar a vida. A música fala sobre diversão, e eu gosto muito dessa ideia de que a gente possa se divertir com os nossos talentos, que eles também sejam fonte de prazer. Espero que as nossas histórias transmitam leveza, independência e igualdade. Izabella Rocha: O que eu gostaria de dizer para todas essas meninas e mulheres que têm sonhos é que todo sonho é uma construção. Para que ele se torne realidade, principalmente para nós, mulheres, é preciso construir dentro da gente essa força para enfrentar os desafios. Muitas vezes, esse espaço de conquista precisa ser desenvolvido por nós todos os dias. Deni Balbino: Eu espero que aquilo que passou na série, tanto na minha história quanto na das outras meninas, consiga mostrar para muitas mulheres que elas não devem desistir dos seus sonhos. A gente é capaz de muito mais do que imagina. Às vezes, nem sabe disso ainda. Se a nossa história conseguir ajudar outras mulheres a acreditarem um pouco mais nelas mesmas, acho que esse projeto já cumpriu uma missão muito bonita. Francesca Nobile: O meu conselho é ouvir a si mesma. Não é um trabalho fácil. Exige coragem, exige determinação, exige auto-observação. Mas acredito que esse é o caminho mais sincero. Existem muitas vozes dizendo o que devemos fazer ou quem deveríamos ser. O desafio é conseguir deixar essas vozes um pouco de lado para ouvir a própria voz. E encontrar essa voz também leva tempo. É um trabalho de voltar para casa, de voltar para si mesma. Acho que esse é o melhor conselho que eu poderia deixar: começar esse caminho e seguir adiante sem deixar de escutar quem você realmente é. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Para encerrar, queria voltar a conversar com você, Rodrigo. Depois de ouvir essas histórias e acompanhar esse processo, qual é a principal conversa que você espera que o público leve consigo ao terminar a série? Rodrigo Giannetto: Espero, acima de tudo, que as pessoas saiam inspiradas. Vivemos um momento em que o audiovisual busca cada vez mais histórias originais e autênticas. Ao mesmo tempo em que convivemos com tantas transformações tecnológicas e com o avanço da inteligência artificial, acredito que experiências humanas verdadeiras se tornam ainda mais valiosas. É justamente isso que queremos construir. A série é apenas o começo. A plataforma vai continuar crescendo junto com as mulheres que fazem parte dela, com suas histórias, talentos e experiências. Queremos que as pessoas possam se conectar com aquilo que viram, encontrar essas mulheres novamente, participar de novas conversas e acompanhar o desenvolvimento dessa comunidade. No fim das contas, essa é a maior ambição de “Girls Just Wanna Have”, é oferecer uma experiência que ultrapasse a tela e continue existindo nas relações que surgem a partir dela. – A plataforma “Girls Just Wanna Have” pode ser acessada pelo site gjwh.online, além do Instagram e do canal no YouTube @girlsjustwannahave.official. Os episódios serão lançados em estreias mensais, com o capítulo dedicado a Londres já disponível, seguido por Sicília, em 1º de setembro, e Brasília, em 1º de outubro.
- Crítica | Corrida dos Bichos
Distopia brasileira se sustenta na ação bem trabalhada. Divulgação Inspirado no universo da loteria animal brasileira, um jovem destemido precisa vencer uma corrida mortal para salvar sua irmã em um futuro distópico onde cada animal do jogo é agora representado por um corredor que disputa um prêmio. Corrida dos Bichos parte de uma premissa sagaz que não demora a estabelecer as regras do seu próprio universo. O filme quer apresentar ao público uma distopia brasileira de fácil compreensão, mas acaba sendo didático em excesso na maneira como conduz essa apresentação. Logo na abertura, a narração de Anitta se encarrega de deixar tudo explicado, como se o espectador precisasse receber um manual de instruções antes mesmo de a história começar. A partir daí, o roteiro mantém esse comportamento ao longo da narrativa, voltando constantemente a explicar seus próprios elementos em vez de confiar que eles possam ser assimilados pelas imagens e pelas situações. É uma escolha que torna a experiência menos orgânica e reduz parte do impacto de uma proposta interessante que poderia ser descoberta aos poucos. É na ação, porém, que o longa encontra sua melhor forma. As sequências construídas a partir do parkour são inventivas e demonstram um domínio muito maior da linguagem visual do que o roteiro apresenta em sua construção dramática. Há enquadramentos engenhosos, movimentações de câmera que acompanham bem o deslocamento dos personagens e um trabalho de dublês que merece destaque. O filme entende que uma corrida precisa transmitir velocidade, risco e sensação de percurso, e consegue transformar os espaços em parte importante dessas sequências. Não é apenas uma sucessão de obstáculos colocados diante dos personagens, mas uma ação pensada para explorar fisicamente cada ambiente. Essa atenção aos espaços também aparece na ambientação. Corrida dos Bichos constrói uma distopia visualmente interessante ao alternar cenários amplos, registrados em planos bastante abertos, com momentos em que a câmera se aproxima dos personagens para aumentar a sensação de tensão e confinamento. Existe um cuidado evidente em fazer com que aquele futuro tenha uma identidade própria, ainda que a história percorra caminhos bastante familiares. A escala dos cenários ajuda a vender a dimensão daquele mundo, enquanto os enquadramentos mais fechados funcionam especialmente bem durante a corrida. É um filme que demonstra saber onde colocar a câmera mesmo quando não sabe exatamente o que fazer com alguns de seus personagens. Divulgação E são os personagens secundários que mais evidenciam as limitações da narrativa. Há gente demais circulando pela história sem que isso represente necessariamente uma expansão de seus significados. Muitos deles aparecem, cumprem uma função imediata e desaparecem sem acrescentar novas camadas ao universo ou aos conflitos apresentados. Em alguns momentos, parece que a quantidade de personagens existe mais para ocupar tempo de tela do que para enriquecer a história. Isso contribui para uma estrutura narrativa conhecida demais, na qual a trajetória do protagonista é conduzida por etapas previsíveis até o confronto seguinte, sem que o filme consiga explorar todas as possibilidades sugeridas por seu próprio conceito. De todo modo, Corrida dos Bichos funciona dentro daquilo que se propõe a fazer. É um filme divertido, movimentado e tecnicamente competente, especialmente quando coloca seus personagens para correr, literalmente. Suas limitações estão menos na execução da ação do que na maneira como o roteiro tenta conduzir o espectador pela mão durante praticamente toda a experiência. No entanto, a concepção baseada no imaginário da loteria animal brasileira poderia render uma distopia muito mais provocadora, mas o longa parece mais interessado em construir uma aventura acessível do que em investigar as ideias que existem por trás daquele universo e seus personagens. Nota: 3/5
- Crítica | A Última Casa
O suspense combinado com ficção científica se cansa cedo demais. Divulgação Em uma situação inexplicável, uma família está confinada em sua casa, incapaz de sair. À medida que os suprimentos diminuem, eles precisam aprender a ser engenhosos para sobreviver e desvendar a força misteriosa que os aprisiona. Há algo de particularmente frustrante em A Última Casa: ele parece saber exatamente quais referências quer evocar, mas nunca acha uma identidade própria para transformar todas elas em alguma coisa que realmente lhe pertença. O novo longa de Louis Leterrier, que chega à Netflix apostando em uma mistura de ficção científica e suspense, não sabe muito bem em qual desses terrenos quer ambientar sua criação. O texto é pouco interessado em se explicar, mas, ao mesmo tempo, parece ansioso demais para entregar respostas. Essa contradição entre ansiedade e letargia perpassa a primeira metade do roteiro. Leterrier é um diretor muito imediatista. Há sempre a impressão de que ele está com pressa para chegar à próxima revelação, ao próximo acontecimento ou à próxima grande ideia, sem permitir que o roteiro amadureça diante da câmera. As situações raramente têm tempo suficiente para ganhar densidade antes que o filme decida explicá-las, alterá-las ou abandoná-las em favor de outra coisa. Greta Lee e Wagner Moura fazem o que podem com o material que recebem. Os dois entregam atuações competentes e, sobretudo, muito carisma, que acaba sustentando boa parte do longa. Quando o filme se concentra nos personagens e na intimidade daquela família, encontra uma força que desaparece quando tenta transformar sua premissa em algo maior, mais espetacular ou conceitualmente grandioso. Divulgação É justamente nesses momentos mais íntimos que A Última Casa constrói suas melhores situações. Existe uma aproximação bastante evidente com as experiências provocadas pela pandemia recente, especialmente na maneira como o isolamento, o medo e a necessidade de convivência forçada atravessam as relações familiares. É quando ele deixa de tentar ser uma grande ficção científica e passa a olhar para pessoas comuns diante de uma situação extraordinária que ele consegue criar alguma identificação com o público. O problema é que esses momentos aparecem quase sempre como ilhas dentro de uma narrativa que parece não saber muito bem como conectá-los. Aqui e acolá, o filme produz boas cenas, algumas ideias interessantes e momentos genuinamente envolventes. Mas, quando observados em conjunto, eles parecem não ter solidez suficiente para sustentar o roteiro a longo prazo. Não há uma (ou mais) razão para acontecer tudo que acontece em cena. A Última Casa também parece se cansar cedo demais. E, quando o próprio filme começa a demonstrar sinais de cansaço, o espectador inevitavelmente acompanha esse desgaste. A narrativa vai acumulando elementos, referências e possibilidades sem conseguir converter essa abundância em personalidade. Em determinados momentos, a sensação é de estar diante de uma colcha de retalhos construída a partir de outras produções que já contaram pedaços muito semelhantes dessa mesma história. E o público provavelmente será capaz de identificar, quase imediatamente, de onde vem cada um desses pedaços, o que não é necessariamente uma questão quando existe uma capacidade de reorganizar influências em uma linguagem que pareça particular. No fim, o longa dá a triste (e esperada) impressão de ser apenas mais uma produção mecânica e seriada de streaming, perdida em meio às inúmeras obras que a plataforma lança ao longo do ano. Um trabalho feito para ocupar um espaço específico no catálogo, cumprir sua função de entretenimento e seguir adiante, sem muito barulho, positivo ou negativo. Uma produção que anseia chegar a um final bem consolidado antes mesmo de descobrir o que gostaria de dizer. Nota: 2,5/5
- Crítica | Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte
Desejo, delírio e (muito) sangue. Imagem: Divulgação Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte é daqueles filmes que tornam difícil separar crítica de ensaio. Não porque seja pretensioso, mas porque Jane Schoenbrun entende que falar sobre o slasher é, inevitavelmente, falar sobre aquilo que aprendemos a desejar, temer e rejeitar através do cinema. O resultado é uma obra que simultaneamente celebra, questiona e implode as convenções de um dos gêneros mais incompreendidos do horror. A premissa já anuncia essa proposta. Um adolescente de um acampamento de verão é morto pelos próprios colegas depois de transgredir as expectativas de gênero ao vestir vestidos durante parte da semana. Afogado no lago, ele retorna como uma entidade imortal e vingativa. A história dá origem à fictícia franquia Camp Miasma, um fenômeno de horror dos anos 1980 que, décadas depois, envelheceu mal. É justamente essa franquia que Kris (Hannah Einbinder), uma jovem cineasta queer, recebe a missão de revitalizar para um estúdio interessado em transformar seu passado transgressor e abertamente preconceituoso em algo aceitável para o público contemporâneo. A trama parece, à primeira vista, apenas uma sátira à atual obsessão de Hollywood por reboots, remakes e propriedades intelectuais. Mas Schoenbrun vai muito além. O filme entende que o problema não está apenas na falta de originalidade da indústria, mas também na forma como esses produtos culturais moldam quem os assiste. Para entender o que Acampamento Miasma está fazendo, é preciso voltar ao próprio funcionamento do slasher. No artigo A Historical Approach to the Slasher Film, Sotiris Petridis divide a história do subgênero em diferentes ciclos e observa como seus elementos narrativos se transformam ao longo das décadas. No ciclo clássico, consolidado entre os anos 1970 e 1980, existe uma relação particularmente forte entre as vítimas e uma espécie de lógica moral do filme. Os personagens são frequentemente organizados em arquétipos, como a virgem, o jovem sexualmente ativo, o usuário de drogas, o adolescente rebelde e o chamado “transgressor sexual”. Não é por acaso que tantos slashers clássicos parecem possuir uma regra não escrita: sexo, drogas e transgressão antecedem a morte. A diversão do gênero estava também em observar quem seria punido e quem sobreviveria. Petridis aponta justamente como, no ciclo clássico, a seleção das vítimas ainda mantém uma relação significativa com a lógica moral estabelecida pelo próprio filme, enquanto essa característica perde força nos ciclos posteriores. E é aqui que Acampamento Miasma encontra seu alvo. O filme pega todas essas regras e pergunta o que aconteceria se, em vez de tratarmos o desejo como algo que precisa ser punido, simplesmente parássemos de puni-lo e a resposta é um filme completamente delirante e delicioso. Imagem: Divulgação Schoenbrun subverte praticamente todas as convenções do slasher sem jamais demonstrar desprezo pelo gênero. Essa talvez seja sua maior qualidade. Acampamento Miasma não parece dizer “olhem como esses filmes eram estúpidos”. Pelo contrário: existe um carinho genuíno por essas obras, por suas imagens exageradas, seus assassinos mascarados, suas mortes absurdas e até por sua cafonice. É uma carta de amor escrita justamente por alguém que conhece profundamente as feridas existentes dentro desse amor. A própria estrutura do filme funciona como uma espécie de espelho. Kris cresceu consumindo um cinema de terror que, mesmo cheio de problemas, oferecia imagens e possibilidades para pessoas que não necessariamente se reconheciam no mundo ao redor. Ela é queer, nerd, estranha e apaixonada por um universo que não foi necessariamente criado para acolhê-la. Ainda assim, encontrou ali alguma coisa. E talvez essa seja uma das ideias mais bonitas do filme: nós não escolhemos necessariamente as obras que nos formam. Às vezes, elas nos encontram antes mesmo de termos vocabulário para explicar por quê. Eu tive isso com a franquia Pânico. Quando adolescente, não enxergava necessariamente todas as estruturas, códigos e contradições presentes naquele filme. Eu apenas sabia que havia alguma coisa ali que me fazia sentir pertencente. Acampamento Miasma parece entender profundamente essa relação entre espectador e obra. O horror pode ser violento, grotesco e problemático, mas também pode ser um lugar de descoberta. Pode ser onde alguém encontra uma linguagem para aquilo que ainda não consegue dizer sobre si mesmo. Por isso, a sexualidade ocupa um lugar tão importante na narrativa. O slasher tradicionalmente colocou o sexo no caminho da morte. Aqui, Schoenbrun transforma justamente esse desejo reprimido em possibilidade de libertação. O que antes era punição passa a ser descoberta. O que antes era vergonha passa a ser prazer. O que antes era monstruoso pode finalmente ser visto como parte da própria existência. É nesse ponto que o filme deixa de ser apenas uma desconstrução do gênero e se transforma também em uma história de amor. Uma história de amor entre pessoas, entre corpos, entre desejos e, sobretudo, entre espectadores e filmes. Ao mesmo tempo, existe uma crítica bastante afiada à própria Hollywood. Kris é contratada para “modernizar” uma franquia problemática, mas a indústria não está realmente interessada em compreender o que tornou aquela obra importante. Ela quer apenas reaproveitar uma propriedade intelectual. A ironia é deliciosa: Hollywood quer transformar o slasher em algo “elevado”, enquanto Schoenbrun demonstra que existe muito mais inteligência e potência em um gênero que durante décadas foi tratado como menor. E o filme é extremamente consciente disso. A metalinguagem poderia facilmente transformar tudo em uma coleção cansativa de referências, mas Schoenbrun encontra algo mais interessante. O cinema dentro do cinema não está ali apenas para que reconheçamos Sexta-Feira 13, Psicose, Acampamento Sinistro ou tantos outros clássicos. Ele existe para discutir o que essas imagens fazem conosco. As referências a personagens como Norman Bates, Buffalo Bill e à própria Angela, de Acampamento Sinistro, tornam ainda mais evidente como o cinema de horror historicamente associou transgressões de gênero e sexualidade ao monstruoso. Hoje, esses filmes podem ser revisitados criticamente justamente porque seus preconceitos também revelam o contexto cultural em que foram produzidos. Acampamento Miasma não tenta apagar esse passado. Ele o encara de frente e pergunta o que podemos fazer com ele agora. Essa transformação acontece também visualmente. O CGI propositalmente exagerado em algumas sequências, especialmente nas que remetem diretamente aos slashers clássicos, contrasta com uma fotografia de enorme delicadeza. Os cenários parecem pinturas, quase como se estivéssemos dentro de uma memória ou de um filme antigo que ganhou vida. Essa dicotomia entre o artificial e o artesanal, entre o grotesco e o belo, faz com que a experiência seja constantemente instável. Imagem: Divulgação A fronteira entre realidade e irrealidade, arte e pastiche, magnetismo e repulsa, segurança e violência parece desaparecer. Tudo colide em uma espécie de fantasmagoria cinematográfica na qual nunca sabemos completamente onde estamos. E essa incerteza é fundamental. Porque Acampamento Miasma também é sobre a possibilidade de acreditar no cinema. Sobre aquilo que acontece quando uma obra deixa de ser apenas uma obra e passa a fazer parte da nossa identidade. Hannah Einbinder e Gillian Anderson estão magníficas. Einbinder consegue equilibrar o humor absurdo de Kris com uma vulnerabilidade sexual que dá ao filme seu coração, enquanto Anderson transforma Billy em uma figura quase mitológica, ao mesmo tempo fascinante, melancólica e profundamente sedutora. A relação entre as duas funciona como o eixo emocional de uma história que poderia facilmente se perder em sua própria loucura. E sim, o filme é uma loucura. É estranho, messiânico, sangrento, engraçado, sexual e, em alguns momentos, completamente delirante. Mas existe um controle impressionante por trás desse caos. Cada escolha visual parece pensada para colocar em conflito aquilo que o slasher tradicionalmente separou: prazer e medo, desejo e violência, monstruosidade e identidade. É justamente por isso que Acampamento Miasma consegue ser simultaneamente uma homenagem fantástica aos slashers e uma demolição de suas próprias regras. O filme não quer destruir o gênero porque o odeia. Quer destruí-lo porque o ama o suficiente para imaginar o que ele poderia ser. Em um momento em que Hollywood parece cada vez mais interessada em ressuscitar propriedades conhecidas, Acampamento Miasma encontra uma maneira de falar sobre a falta de originalidade da indústria enquanto entrega algo genuinamente singular. É uma obra que entende o slasher não como um gênero ultrapassado, mas como uma linguagem que pode ser reescrita. No fim, talvez o verdadeiro monstro nunca tenha sido aquele que saía do lago. Talvez fosse a ideia de que certas pessoas, certos corpos e certos desejos deveriam permanecer escondidos .Acampamento Miasma olha para tudo isso, mergulha de cabeça no sangue e responde com uma das experiências cinematográficas mais estranhas, bonitas e libertadoras do ano. E talvez seja também o filme que eu mais gostaria de ter visto quando era adolescente. Que bom que outras pessoas queer poderão vê-lo agora. Nota: 5/5
- Crítica | Lucky (Minissérie)
Entretém, mas não vai além. Imagem: Divulgação Em mais um caso de “é bacana, mas ninguém lembrará mês que vem”, temos esta nova minissérie do Apple TV, onde Anya Taylor-Joy brilha como uma vigarista em rota de fuga. A história começa com Lucky (Taylor-Joy) e o noivo Cary (Drew Starkey) comemorando um roubo em uma noitada em Las Vegas. Após muita bebedeira e curtição, Lucky acorda sozinha no quarto de hotel, sem o noivo e sem os milhões de dólares roubados. A agente do FBI Billie Rand (Aunjanue Ellis) já está no local à sua procura, bem como os capangas de Priscilla (Annette Bening), a mafiosa, que é mãe de Cary e dona dos milhões. Agora, Lucky precisa lutar pela sua vida, enquanto tenta encontrar Cary. Então, temos a premissa de um filme de ação e suspense que foi transformado em minissérie e felizmente posso dizer que não há uma quebra de ritmo. O fato de ser baseada em um livro escrito por Marissa Stapley, dá a quantidade de acontecimentos necessários para preencher os sete episódios, embora só haja profundidade o suficiente para que eu me importasse com os personagens e não mais do que isso. Eu não li o livro e nem quero julgar a fidelidade da adaptação, porque adaptação boa é aquela que se basta. O fato aqui é que não há muita profundidade em nada. Ou seja, a minissérie é bacana e divertida, mas jamais vai além disso. Imagem: Divulgação O elenco, no entanto, como vocês já viram, é recheado de nomes talentosos e conhecidos. Anya Taylor-Joy está fantástica como a golpista protagonista e ainda que o roteiro não ofereça muita nuance à personagem, a atriz tem um alcance para dar o seu melhor. Aunjanue Ellis é outro baita destaque na pele da agente Rand e assume uma postura imponente e impressiona pelo quão expressiva ela consegue ser, mesmo em um papel não tão rico, mostrando sua potência. Outra veterana que está ótima, obviamente, é Annette Bening. Ela é a antagonista principal e sua presença é sentida mesmo quando ela não está em tela. Drew Starkey não aparece tanto, mas tem carisma de sobra e uma boa química com Anya para que sua escalação seja justificada. Timothy Olyphant, que começa a série preso, é o pai de Lucky e está muito bem no papel, construindo uma relação interessante com a personagem. Ainda que a narrativa não ofereça qualquer complexidade, o entretenimento é garantido e não há uma quebra de ritmo notável, mesmo que após o quarto – e melhor episódio – haja uma mudança drástica, após a única reviravolta que não foi previsível durante a temporada toda. As sequências de ação são muito bem filmadas, são empolgantes e o senso de risco é elevado e mesmo que as surpresas não surpreendam (risos) em sua maioria, a minissérie consegue te manter fisgado ali naquele momento. Os arcos se encerram bem e eu realmente espero que não haja uma 2ª temporada. Não há qualquer necessidade e é o exato tipo de minissérie competente em que a gente se diverte enquanto está assistindo, mas não é memorável. Tipo um cheeseburger de fast food, é bom ali na hora e mata sua fome, mas logo menos você esquece. Nota: 3,5/5
- Crítica | Coyote vs. Acme
Quando o Coiote enfrenta a Acme, o cinema ganha uma batalha que quase perdeu. Imagem: Divulgação Há filmes que chegam aos cinemas acompanhados de uma grande expectativa. E há aqueles que chegam depois de uma verdadeira batalha para sequer existirem. Coyote vs. Acme pertence à segunda categoria. O longa foi produzido pela Warner Bros. e acabou engavetado pelo estúdio mesmo depois de concluído, tornando-se um dos casos mais emblemáticos da onda de cancelamentos de produções em Hollywood. A pressão do público e a repercussão negativa em torno da decisão ajudaram a fazer com que o filme finalmente encontrasse o caminho para as salas de cinema. E, considerando o resultado, seria um desperdício deixá-lo escondido. Com estreia marcada para 27 de agosto nos cinemas brasileiros, o filme acompanha o atrapalhado Coiote, que finalmente decide levar a Acme Corporation aos tribunais depois de anos sendo vítima dos próprios produtos da empresa. Para isso, ele conta com a ajuda de um advogado sem muita experiência, interpretado por Will Forte, enquanto a gigantesca corporação é defendida por um poderoso advogado vivido por John Cena. A partir daí, uma perseguição típica de desenho animado se transforma em uma batalha judicial que mistura o mundo real com o universo completamente absurdo dos Looney Tunes. É justamente nesse encontro entre animação e live action que Coyote vs. Acme encontra uma de suas maiores forças. O filme utiliza muito bem a animação em 3D para inserir os personagens clássicos em ambientes reais, sem fazer com que eles pareçam simplesmente elementos digitais jogados sobre a imagem. Existe uma preocupação genuína em integrar Coiote, Papa Léguas e companhia ao mundo humano, mantendo a lógica física exagerada dos desenhos e, ao mesmo tempo, criando uma identidade própria para o longa. O resgate dos personagens clássicos dos Looney Tunes também funciona como uma ponte interessante entre gerações. Para quem cresceu acompanhando esses personagens, existe uma dose considerável de nostalgia. Para uma nova geração, o filme pode funcionar como uma apresentação desse universo. O problema é que são tantas referências, personagens e pequenas brincadeiras com a história da franquia que quem não possui familiaridade com os Looney Tunes pode sentir, em alguns momentos, que perdeu alguma coisa. Ainda assim, o roteiro encontra um equilíbrio bastante eficiente entre nostalgia e novidade. A metalinguagem é uma das melhores ferramentas do filme, especialmente porque a própria existência do Coiote como personagem permite brincar com a lógica dos desenhos, com Hollywood e até com a maneira como grandes corporações tratam suas próprias criações. As piadas jurídicas e as referências ao universo dos Looney Tunes são particularmente inteligentes, enquanto a violência cartunesca continua sendo uma fonte inesgotável de humor para o público infantil. E talvez essa seja uma das características mais interessantes de Coyote vs. Acme: ele é um filme pensado para funcionar em diferentes níveis. As crianças podem se divertir com a sucessão de acidentes, perseguições e destruição completamente absurda. Já os adultos encontram graça nas referências, na metalinguagem e nas piadas sobre o sistema jurídico e corporativo. Não é necessariamente um filme que provoca gargalhadas durante toda a sessão, mas é consistentemente espirituoso e consegue arrancar boas risadas justamente por ser mais inteligente do que simplesmente barulhento. Por trás das piadas, Coyote vs. Acme ainda encontra espaço para discutir algo surpreendentemente atual: a relação entre indivíduos e grandes corporações. A Acme deixa de ser apenas a empresa responsável pelos produtos que explodem na cara do Coiote e passa a representar uma estrutura empresarial gigantesca, capaz de assumir riscos, esconder responsabilidades e tratar pessoas como danos colaterais. É uma crítica ao capitalismo corporativo que não pesa a mão, mas está presente o suficiente para dar ao filme uma camada adicional. Imagem: Divulgação Isso também torna a própria história de bastidores ainda mais curiosa. Afinal, estamos diante de um filme que fala sobre o poder de uma grande corporação enquanto, na vida real, quase foi vítima das decisões de uma delas. A produção acabou se tornando uma espécie de caso de metalinguagem involuntária: um longa sobre um personagem tentando enfrentar uma empresa poderosa que também precisou enfrentar o poder de um grande estúdio para chegar ao público. E é justamente aí que Coyote vs. Acme se torna maior do que sua própria história. Um filme sobre o Coiote tentando derrotar uma corporação quase foi derrotado por uma corporação de verdade. A ironia seria perfeita se o longa tivesse permanecido engavetado. Coyote vs. Acme não é uma obra prima, nem precisa ser. É um filme divertido, criativo e surpreendentemente consciente do próprio absurdo. Seu maior mérito está em entender que adaptar personagens clássicos não significa simplesmente reproduzir aquilo que já funcionou, mas encontrar uma nova maneira de brincar com eles. Em uma Hollywood cada vez mais dominada por franquias calculadas e decisões corporativas, existe algo genuinamente especial em assistir a um filme que parece ter escapado por pouco da máquina que poderia tê-lo destruído. No fim, talvez a melhor forma de definir Coyote vs. Acme seja justamente como aquilo que ele quase deixou de ser: um filme que conseguiu sobreviver. E, depois de toda a sua história de bastidores, vê-lo finalmente chegar às telas no dia 27 de agosto é, por si só, uma pequena vitória do cinema e do Coiote. Nota: 4/5
- Entrevista | “O arquivo é protagonista da história”: Anita Leandro fala sobre “Anistia 79”
Documentário, que estreia nesta quinta (20), reúne passado e presente ao discutir a Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, realizada em Roma, em 1979. Divulgação No final da década de 1970, diversos representantes de movimentos de esquerda brasileiros, exilados na Europa em decorrência da repressão da ditadura militar, se reuniram em Roma para a I Conferência Internacional pela Anistia no Brasil. O intuito era oferecer um contraponto à Lei de Anistia que vinha sendo elaborada no Brasil e que, como sabemos, veio a anistiar tanto militantes de esquerda quanto os próprios militares. Os arquivos dessa conferência, guardados por décadas em um porão em Paris, foram achados e trabalhados por Anita Leandro, que os apresenta na forma de seu documentário Anistia 79, confrontando passado e presente ao entrevistar vários dos personagens presentes na conferência. O filme estreia nos cinemas nesta quinta (20), e você já pode ler a crítica do filme aqui, escrita em decorrência da sua exibição no 15º Olhar de Cinema. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Anita Leandro, que falou das semelhanças e diferenças entre Anistia 79 e seu filme anterior, Retratos de Identificação, que também se amparava nas imagens de arquivo para tratar da memória de ex-guerrilheiros e militantes. Além disso, a diretora falou da sua estratégia de confrontar passado e presente através das presenças dos(as) entrevistados(as), e do que é possível extrair a partir do retrato de uma esquerda plural no filme, diante do cenário de avanços da extrema-direita no Brasil contemporâneo. Você pode conferir a entrevista abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Anita, a sua filmografia tem sido construída em cima de um trabalho com imagens de arquivo e textos literários. Além de Anistia 79 eu também assisti Retratos de Identificação, e é possível perceber conexões entre os filmes, pra além de discutirem a ditadura e questões em torno de memória, sobretudo dos ex-guerrilheiros e militantes de esquerda da época. O que te motivou a voltar a estes temas com Anistia 79, 12 anos após Retratos? E o que você sente que há de diferente nas abordagens entre os dois filmes? Anita Leandro: Eu me debrucei sobre os arquivos da ditadura a partir de 2010, quando eu vim morar no Rio de Janeiro, e moro muito próximo do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, que tem a guarda dos acervos do DOPS da Guanabara, que é um dos acervos da polícia mais ricos do país. E quando eu conheci o acervo fotográfico do DOPS, fiquei muito impressionada com aquilo e mais impressionada ainda com o fato de que ninguém tinha feito um filme sobre esse acervo. O único até hoje foi o Retratos. Respondendo à sua pergunta inicial, talvez seja esse o ponto comum entre o Retratos de Identificação e o Anistia 79: o arquivo é protagonista da história. O arquivo como matéria viva, como vestígio do passado, o arquivo como conteúdo e forma ao mesmo tempo, como testemunha da história. São arquivos, no entanto muito diferentes nos dois filmes. No Retratos são arquivos da polícia, fotografias, e foi um filme mais difícil ser feito do que o Anistia, porque não tinha material sonoro. Já o Anistia foi um material riquíssimo que eu encontrei lá em 2016, da melhor qualidade, é tudo muito bonito. Embora tenha sido filmado como um material de cobertura, naquele estilo de reportagem, planos rápidos, eles são muito bem enquadrados. E aí eu tive a chance, a sorte de encontrar esse material no meu caminho durante uma pesquisa que eu estava fazendo desde 2015. Fazia pesquisas na Rádio Difusão Francesa e descobri que não tinha imagens de exilados. Pesquisei 14.000 títulos onde havia o nome Brasil e brasileiros durante a ditadura militar, e desses 14.000 a maioria era de Carnaval, Amazônia futebol e tal, mas sobre os exilados mesmo havia cinco reportagens que não ultrapassavam 7 minutos de duração. E isso na França, que é o país que mais acolheu exilados brasileiros. Então quando encontrei o material de Hamilton [Lopes dos Santos, diretor das filmagens originais da conferência], foi um acontecimento. E então eu comecei o filme pela montagem, mas desde o início, desde que eu descobri esse material, eu sabia que ele estruturaria o filme. Aliás, a primeira coisa que eu falei com o Hamilton foi: "O seu filme já tá pronto. Eu posso montá-lo, eu sou montadora, eu posso montar o seu filme. Não preciso fazer outro filme". Ele falou: “Não, mas seria legal. Eu quero saber o que que as pessoas estão pensando hoje”. Era o momento ali do golpe contra Dilma Rousseff e ele estava muito interessado em saber o que estava acontecendo no Brasil. Quando nós tivemos dinheiro, eu comecei a filmar as pessoas que estão presentes nas imagens. É o mesmo dispositivo do Retratos de Identificação, a confrontação de passado e presente, a confrontação de testemunhas da história com documentos de acontecimentos por elas vividas. Mas a diferença entre esses dois materiais é que o material do Retratos de Identificação é extremamente trágico, como se fossem imagens de filme de horror. Eu não fiquei brincando ali de montagem, transformando positivo em negativo, aquilo ali é o negativo, inclusive um negativo muito estragado já, ele tem uma umas manchas de ferrugem. E são imagens muito violentas, tal qual a polícia, o dispositivo de produção dessas imagens tá presente nelas. Já o material do Anistia é atravessado pela alegria dos reencontros, pela perspectiva de retorno ao Brasil. Você tem ali um primeiro um único encontro da diáspora brasileira, onde se tem três gerações de exilados. Você tem a Velha Guarda, os primeiros combatentes ali de 64 que foram presos já no dia primeiro de abril, como o Gregório Bezerra, mas você tem toda a geração de 68, tinha três ex-presidentes da UNE. E você tem a nova geração, que são os filhos dessa geração de 68, que nasceram no exílio, as crianças apátridas, sem papel, sem documento, que a ditadura não deixava serem registradas nem aqui, porque elas não podiam vir aqui, nem lá, porque os consulados, as embaixadas não aceitavam o registro dessas crianças filhas de exilados nascidos no estrangeiro. O grande desafio para mim era justamente mostrar essas imagens de um outro ângulo, não só esse da alegria dos encontros e do retorno ao país, mas também o outro lado da história, que é seu elemento trágico, aquilo que tá por trás dessas imagens e que levou essas pessoas até aquele encontro em Roma e a luta pela anistia: a própria história, uma história de morte, de desaparecimento, de tortura, de muita crueldade à qual os prisioneiros políticos foram submetidos. Então era preciso que a montagem trouxesse esse outro lado, e as falas das pessoas ao se depararem com essas imagens traz isso. Muitas delas evocam tudo que aconteceu depois: a manutenção do aparato repressivo, a impunidade dos torturadores, os atentados feitos pelos esquadrões da morte, depois da anistia, tudo que se seguiu ao processo de anistia. Então isso vem da fala das pessoas, mas também de outro arquivo que nós associamos ao material da conferência de Roma, que é esse registro do Tribunal Russell II. Ele aconteceu em Bruxelas, entre 1973 e 1976, e juntou um conjunto de juristas internacionais, que julgou os crimes de guerra dos ditadores da América Latina, não só do Brasil. E entre as testemunhas cujos depoimentos foram acolhidos pelo tribunal estão vários brasileiros, entre eles Denise Crispin, cujo testemunho foi filmado por uma equipe italiana em 1974. E o testemunho dela é mudo, porque ela não consegue falar, está ali petrificada pela dor e o testemunho dela sobre o assassinato de Eduardo Leite, o marido dela, é lido por um jurista ali presente, um advogado. E a câmera se atém ao rosto dela silencioso. Então, esse testemunho muito forte, que traz ali o depoimento silencioso da Denise, nos permitiu aprofundar na montagem essa dimensão propriamente trágica da anistia. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Você adiantou algumas coisas da minha segunda pergunta, que é justamente sobre esse cerne do filme em contrapor imagens do passado e do presente, sobretudo com as falas dos entrevistados que estiveram na Conferência. Como foi juntá-los e apresentar os vídeos a eles, especialmente sabendo das histórias de alguns, ou daqueles vistos na Conferência que já faleceram? Anita Leandro: Eu não faço perguntas quando eu filmo as pessoas, ou as entrevisto. O que eu busco ali quando eu vou filmá-las é compartilhamento de um certo olhar sobre esse material. “Olha, aqui tem uma foto sua que eu encontrei no dia que você foi preso. O que que aconteceu aqui? Explica para mim como é que foi tirada essa foto”, e entrego a foto. E a pessoa vai buscar na memória as lembranças que tem daquele momento dramático ali de suas vidas. Eu acho isso muito rico em termos de dispositivo de filmagem da fala, porque primeiro ele permite à testemunha viva da história uma relação direta com os documentos da sua própria história. Diferentemente do que faz o historiador, onde ele próprio é quem junta as entrevistas da história oral, ele lê os documentos, interpreta tudo e faz um texto. No cinema você tem uma chance única, diferentemente dos historiadores, e aí que nós podemos contribuir com alguma coisa, trazer algo diferente da historiografia, que é essa possibilidade única de proceder a uma montagem desses documentos. E essa montagem começa lá no momento das filmagens, porque quando eu boto na mão da pessoa uma fotografia e um texto, ela já tem ali que processar, fazer uma ligação. Ou então quando eu as coloco diante de uma imagem, como é imagem em movimento do Anistia 79. As pessoas assistem aquilo ali e não é só um encontro de passado e presente. Lá na hora da filmagem acontece essa interseção de tempos, ela é muito mais complexa e rica do que um mero encontro do presente com o passado. A pessoa se transporta pro passado, a imagem chega até ela. Há uma espécie de compartilhamento, uma experimentação do passado de um ponto de vista interno dentro da imagem, como se aquilo tivesse acontecendo ainda. Então, tem uma presentificação do passado que é muito interessante, e tem um retorno também desse presente ao passado graças a essa mediação do arquivo. E aí nós procuramos na montagem tornar isso ainda mais complexo, multiplicando não só as possibilidades de configuração de apuração do tempo histórico, mas também dos espaços, com as múltiplas telas. Essas múltiplas telas não foram um recurso puramente econômico, por causa do tamanho que o filme tinha de ter, mas elas permitem essa síntese e simultaneidade dos espaços, elas mostram esse fenômeno da intercessão dos tempos que aconteceu ali no momento da filmagem. Eu fui montando aos poucos, na medida em que a filmagem ia acontecendo, porque eu já tinha essa espécie de “baixo contínuo”, como se chama no jazz: aquela nota que te permite devagar ir para tudo quanto é direção que você quiser ir, depois você pode voltar que ela está ali te esperando para te dar o tom. O material do arquivo foi isso, ele dá o tom. Eu acho que a montagem é essa coisa misteriosa. Nós temos que descobrir no próprio material o caminho. A imagem te diz onde que ela quer ser cortada, o ponto de corte já tá dado ali, como se o filme já tivesse ali dentro, só tem que achar. Acho que nós temos que silenciar o nosso discurso diante das coisas, e receber delas um discurso que lhes é inerente, no caso do material de arquivo. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Um dos grandes méritos do filme é mostrar uma pluralidade da esquerda brasileira ali reunida em Roma naquela Conferência, com diversos interesses e representações. Pensando nas deficiências que tivemos com o nosso processo de anistia e como essas deficiências ainda reverberam no Brasil de hoje, que lições você acha que o filme oferece a respeito da pluralidade da esquerda brasileira, em meio a tantas ameaças de retrocesso por causa da extrema-direita? Anita Leandro: Muito interessante e importante isso que você diz, porque a luta pela anistia reuniu todos os setores da sociedade brasileira. Todas as tendências da esquerda no exílio estão representadas ali na conferência de Roma, assim como todas as tendências da esquerda no Brasil que escapou da prisão. 1979 é um momento muito rico, é o momento do surgimento do MST, do MNU [Movimento Negro Unificado], do PT, de um retorno do movimento estudantil, mesmo que aos poucos. E eu acho que o material do Hamilton reflete essa diversidade. E é uma diversidade que existe hoje, mas que, na verdade, existe como um bloco de resistência a um avanço da extrema-direita no Brasil nos últimos anos, que se beneficiou da impunidade que veio de 1979, de uma Lei de Anistia outorgada pelos militares, os quais anistiaram a si mesmos e aos torturadores. Então, embora a tortura seja um crime imprescritível, essa lei ainda não foi revisada. Então, o Brasil vive em cima dessa panela de pressão, porque ele não teve uma justiça de transição, como aconteceu na Argentina. Mesmo com todos os problemas que estão tendo lá, os militares voltaram para a caserna e estão lá calados. Mas aqui no Brasil toda hora tem ameaça de golpe militar. Então, eu espero que o debate sobre a anistia reabra um debate mais profundo sobre as condições de possibilidade para uma democracia sólida, já que o que temos é uma democracia frágil. Então temos um longo caminho pela frente, e como já ouvi dizerem por aí, as eleições deste ano são as eleições das nossas vidas. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos aos nossos entrevistados e entrevistadas que indiquem filmes brasileiros que achem que o público deva assistir. Quais são as suas indicações? Anita Leandro: É uma escolha de Sofia [risos]. Difícil demais você indicar um filme quando tem tantos bons filmes a serem vistos, mas, pedindo de antemão desculpa a todos os outros filmes maravilhosos brasileiros que eu vi nos últimos anos, eu indicaria o filme do Affonso Uchôa, Sete Anos em Maio. Eu acho esse filme uma grande é uma reflexão muito profunda e importante justamente sobre essas sequelas da ditadura e dessa democracia negociada que se seguiu com as oligarquias brasileiras. É um filme que diz muito, no modo ficcional, sobre a manutenção do aparelho repressivo da ditadura no Brasil de hoje. Todo o trabalho do Affonso me toca muito, mas esse filme em particular, eu me sinto muito próxima dele. Tem os filmes do Adirley Queirós também, todos muito bons. Era Uma Vez em Brasília, eu acho um filme fabuloso. E tem um curta-metragem recente, para não ficar só nos filmes mais anteriores e trazer um mais contemporâneo, que é o Entrevista com Fantasmas, do Lincoln Péricles, que eu gosto muito também, o filme é muito bom.












