Entrevista | “Se a nossa história conseguir ajudar outras mulheres a acreditarem mais nelas mesmas, esse projeto já cumpriu uma missão”: diretor e elenco falam sobre 'Girls Just Wanna Have'
- Ana Beatriz Andrade

- há 2 horas
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Série multiplataforma acompanha trajetórias femininas em diferentes cidades do mundo e propõe reflexões sobre identidade e pertencimento.

A luta das mulheres, atravessada por diferentes momentos históricos e movimentos sociais, encontrou no audiovisual um espaço fértil para ampliar vozes e explorar novas narrativas. E embora seja uma pauta milenar, as formas de falar sobre o tema ainda seguem inesgotáveis. Em tempos de crises políticas e conflitos humanitários ao redor do mundo, a liberdade feminina continua exigindo vigilância e interseccionalidade.
É justamente como mais uma dessas maneiras de contar histórias e provocar conversas que nasce a série documental “Girls Just Wanna Have”. E, sim, a clássica música de Cyndi Lauper já ecoa em nossos ouvidos desde os primeiros segundos do episódio.
Criada pela REAL FILMES em parceria com a WE PLAY BRAZIL, a produção acompanha mulheres de diferentes países para investigar como cidades, culturas e modos de vida atravessam suas trajetórias pessoais e profissionais. A série também marca o lançamento de uma plataforma homônima de alcance internacional, pensada para ampliar o debate e ser um espaço de diálogo e informação para mulheres do mundo todo.
Idealizada e dirigida pelo diretor brasileiro Rodrigo Giannetto, a primeira temporada da série percorre cidades como Londres, Sicília, Brasília, Barcelona, Los Angeles, Tóquio, Buenos Aires e Nova York. Em cada episódio, mulheres compartilham experiências, desafios e conquistas, compondo um mosaico de identidades, a partir de diferentes contextos culturais.
O Oxente Pipoca conversou com Rodrigo Giannetto e com quatro participantes do episódio gravado em Londres – Amélia Lino, Francesca Nobile, Deni Balbino e Izabella Rocha – sobre o significado do projeto, o processo de revisitar as próprias trajetórias diante das câmeras e as reflexões que a série espera despertar em quem a assiste.
Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Bom… o título “Girls Just Wanna Have” nos remete imediatamente ao clássico da Cyndi Lauper, mas também me lembrou uma frase da Clarice Lispector. Ela fala: “A liberdade ainda é pouco. O que eu quero ainda não tem nome." Então, ao mesmo tempo em que o título parece deixar a frase em aberto, ele também soa como uma afirmação completa. Gostaria de saber como surgiu essa escolha.
Rodrigo Giannetto: Eu conheço essa frase da Clarice. Inclusive, foi uma das frases que estudei durante a pesquisa, porque precisava me inspirar um pouco nessa história. Mas tem uma frase da Coco Chanel que, para mim, responde muito bem à sua pergunta. Ela diz: "A girl should be two things: who and what she wants (“uma garota deve ser duas coisas: quem e o que ela quiser”).
Acho que essa frase resume bastante o que estamos objetivando com o “Girls Just Wanna Have”. A ideia é proporcionar uma experiência em que mulheres de diferentes culturas, cidades e realidades possam se encontrar através das suas histórias. Que uma possa inspirar a outra.
Mas não só no feminino. Acho que isso é muito importante. Também é um ambiente para o homem. Eu, como diretor, me coloquei no desafio de fazer uma série sobre esse universo. E acho que isso passa muito por fazer perguntas, por ter essa permissão para entrar no universo feminino de uma forma mais leve, aberta. Não é chegar dizendo que sei como é a história das mulheres. Muito pelo contrário. É entrar disposto a ouvir.
O episódio de Londres, por exemplo, me surpreendeu bastante. É um lugar onde a mulher pode, de fato, ser quem ela quer. Existe uma conquista muito grande. Mas, ao mesmo tempo, ainda existem resquícios do passado que continuam presentes. Isso mostra que essa conversa nunca está encerrada. Por isso, a plataforma não nasce como um espaço de militância ou de discussão política. O que queremos é plantar uma semente. Junto com todas essas mulheres, com essas histórias tão inspiradoras, queremos criar um ambiente onde essas experiências possam ser compartilhadas, onde exista troca. E não só entre mulheres.
Quando decidimos fazer o projeto, nunca pensamos que seria uma série apenas para mulheres assistirem ou participarem. O tema é a mulher, claro, e ainda temos muito a conversar e homenagear sobre isso. Mas acho que também existe um efeito muito bonito quando elas assistem à própria história e se enxergam ali. É quase uma homenagem. Muitas vezes elas passam a perceber o quanto são especiais e inspiradoras.
Só o fato de estarem na série já faz com que deem força para outras mulheres. E também ajudam muitos homens a entenderem melhor essa relação, os desafios e, principalmente, a importância dos direitos das mulheres.
No fundo, quando falamos de “Girls Just Wanna Have”, não estamos falando apenas sobre a ideia de "se divertir", como na música da Cyndi Lauper. Estamos falando sobre liberdade. Sobre a mulher poder ser quem ela quiser. Acho que a frase da Coco Chanel traduz isso muito bem. É claro que, como homem, me emociona poder contar essas histórias. Mas também acredito que isso só faz sentido porque existe essa via dos dois lados. A gente precisa ouvir mais, conversar mais, para que exista entendimento e evolução.

Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Ao longo do episódio, fica claro que a trajetória de vocês é atravessada por desafios, mas também por muitas conquistas e momentos de afeto. Houve algum momento das gravações que fez vocês enxergarem a própria história de uma forma diferente?
Amélia Lino: Acho que o Rodrigo, durante o documentário, não faz perguntas muito óbvias. São perguntas profundas, que nos levam a refletir não só sobre a nossa condição feminina, mas também sobre as nossas conquistas. Em muitos momentos eu me emocionei durante as gravações, porque você começa a se enxergar de fora da sua própria história. Você está vivendo aquilo, mas, de repente, olha para si mesma de outro jeito. E pensa: "Poxa, eu sou tudo isso, né? Já fiz tanta coisa."
A intenção do documentário é fazer com que a nossa história reverbere em outras mulheres, para que ela não termine em nós mesmas. Mas, curiosamente, durante esse momento da entrevista, a nossa própria história também começa a nos inspirar.
Foi um momento muito bonito comigo mesma. O Rodrigo não entrega um roteiro, não diz quais perguntas vai fazer. De repente, você está diante da câmera, mas também diante de você mesma, compreende? Está ali para inspirar outras mulheres e acaba se inspirando também. Quando uma história é contada e mexe com a gente, ela deixa de ser apenas individual e passa a ter um sentido coletivo. Acho que é isso que o documentário faz: valoriza a nossa história e faz com que ela possa alcançar outras mulheres.
Francesca Nobile: Estar aqui é muito emocionante porque, na minha visão, o Rodrigo conseguiu tirar para fora algumas verdades importantes de cada uma de nós. E, principalmente, valorizar aquilo que nos torna únicas.
Todas as mulheres que fazem parte dessa série tiveram coragem de seguir aquilo que são e aquilo que sentem. De ouvir a si mesmas. É exatamente isso que eu também tento fazer. Saber que existem outras mulheres vivendo esse mesmo processo me dá força. E gosto de pensar que a minha experiência também pode dar apoio para outras pessoas.
O Rodrigo conseguiu reunir tudo isso em uma série muito verdadeira, muito viva. Eu sou muito grata por ele ter me encontrado, nem sei como, nas redes sociais e me convidado para fazer parte desse projeto.
Izabella Rocha: As perguntas que o Rodrigo faz são muito profundas. Elas me fizeram refletir ainda mais sobre o feminino, sobre a mulher e sobre as minhas próprias conquistas.
Foi muito bonito perceber que essas histórias interessam às pessoas. Acho que o feminino tem, por natureza, essa busca pelo sentido da vida, essa necessidade de olhar para dentro. Então, quando você vê um projeto com a intenção de reunir mulheres do mundo inteiro e, ao mesmo tempo, garimpar dentro delas essas experiências para que possam compartilhar os seus pequenos tesouros, isso é muito forte.
Toda vez que você olha para dentro, encontra as sombras, mas também encontra os seus tesouros. Então, além de contribuir com outras mulheres, senti que também vivi uma espécie de análise interior. A gente vai crescendo junto. Eu já me sinto maior como ser humano e como mulher desde que entrei no projeto. Acho que essa é uma das coisas mais bonitas que ele proporciona.
Deni Balbino: Acho que, na correria da vida, a gente está sempre tentando fazer as coisas acontecerem, correr atrás dos nossos objetivos... e acaba não percebendo o caminho que já percorreu. Até que chega uma pessoa como o Rodrigo, faz essas perguntas, e você começa a olhar para trás. No final da entrevista, eu percebi tudo o que caminhei até chegar aqui.
Foi emocionante porque eu mesma ainda não tinha percebido tudo isso que existe dentro de mim. Essa série me ajudou a enxergar o quanto eu lutei para chegar até aqui e o quanto vale a pena continuar lutando. Quando a gente quer muito alguma coisa, não existe um "não". A gente continua. E acho que foi isso que o documentário me fez lembrar.
Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Acho que muitas meninas e mulheres vão se reconhecer em diferentes momentos da série, nas histórias de vocês. Se uma jovem assistisse ao documentário em busca de inspiração para construir o próprio caminho, qual seria a principal mensagem que vocês gostariam de deixar para ela?
Amélia Lino: A principal mensagem que eu deixo para essas meninas, mulheres, para quem for se inspirar nas nossas histórias, é que nunca deixem que limitem aquilo que elas podem ser. Que não se prendam ao que dizem sobre elas, ao que esperam delas.
Acho que esse é justamente o contexto da série. A própria música da Cyndi Lauper fala muito mais do que diversão. Ela fala sobre liberdade, sobre o direito da mulher ocupar espaços, fazer as próprias escolhas e não viver apenas para corresponder às expectativas dos outros.
O documentário vem com essa mesma ideia. Espero que, ao conhecerem essas histórias, essas meninas entendam que têm autonomia para fazer as próprias escolhas, sem viver apenas para atender às expectativas da família ou da sociedade. E que elas também possam aproveitar a vida. A música fala sobre diversão, e eu gosto muito dessa ideia de que a gente possa se divertir com os nossos talentos, que eles também sejam fonte de prazer. Espero que as nossas histórias transmitam leveza, independência e igualdade.
Izabella Rocha: O que eu gostaria de dizer para todas essas meninas e mulheres que têm sonhos é que todo sonho é uma construção. Para que ele se torne realidade, principalmente para nós, mulheres, é preciso construir dentro da gente essa força para enfrentar os desafios. Muitas vezes, esse espaço de conquista precisa ser desenvolvido por nós todos os dias.
Deni Balbino: Eu espero que aquilo que passou na série, tanto na minha história quanto na das outras meninas, consiga mostrar para muitas mulheres que elas não devem desistir dos seus sonhos. A gente é capaz de muito mais do que imagina. Às vezes, nem sabe disso ainda. Se a nossa história conseguir ajudar outras mulheres a acreditarem um pouco mais nelas mesmas, acho que esse projeto já cumpriu uma missão muito bonita.
Francesca Nobile: O meu conselho é ouvir a si mesma. Não é um trabalho fácil. Exige coragem, exige determinação, exige auto-observação. Mas acredito que esse é o caminho mais sincero.
Existem muitas vozes dizendo o que devemos fazer ou quem deveríamos ser. O desafio é conseguir deixar essas vozes um pouco de lado para ouvir a própria voz. E encontrar essa voz também leva tempo. É um trabalho de voltar para casa, de voltar para si mesma. Acho que esse é o melhor conselho que eu poderia deixar: começar esse caminho e seguir adiante sem deixar de escutar quem você realmente é.
Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Para encerrar, queria voltar a conversar com você, Rodrigo. Depois de ouvir essas histórias e acompanhar esse processo, qual é a principal conversa que você espera que o público leve consigo ao terminar a série?
Rodrigo Giannetto: Espero, acima de tudo, que as pessoas saiam inspiradas. Vivemos um momento em que o audiovisual busca cada vez mais histórias originais e autênticas. Ao mesmo tempo em que convivemos com tantas transformações tecnológicas e com o avanço da inteligência artificial, acredito que experiências humanas verdadeiras se tornam ainda mais valiosas. É justamente isso que queremos construir.
A série é apenas o começo. A plataforma vai continuar crescendo junto com as mulheres que fazem parte dela, com suas histórias, talentos e experiências. Queremos que as pessoas possam se conectar com aquilo que viram, encontrar essas mulheres novamente, participar de novas conversas e acompanhar o desenvolvimento dessa comunidade. No fim das contas, essa é a maior ambição de “Girls Just Wanna Have”, é oferecer uma experiência que ultrapasse a tela e continue existindo nas relações que surgem a partir dela.
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A plataforma “Girls Just Wanna Have” pode ser acessada pelo site gjwh.online, além do Instagram e do canal no YouTube @girlsjustwannahave.official. Os episódios serão lançados em estreias mensais, com o capítulo dedicado a Londres já disponível, seguido por Sicília, em 1º de setembro, e Brasília, em 1º de outubro.



















