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  • Crítica | A Guerra dos Mundos

    Nem trágico nem cômico, o que deixa tudo ainda pior. Divulgação Mais uma adaptação da obra homônima de H. G. Wells, em que alienígenas invadem a Terra e começam a matar todo mundo. Desta vez, a intenção é dar uma releitura mais tecnológica à história, mas o tiro sai pela culatra. Acompanhamos William Radford, um agente do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, interpretado por Ice Cube. O diretor Rich Lee achou uma boa ideia que a história fosse contada através de telas, como em Buscando… (2018) e Desaparecida (2022), sendo que aqui não funciona porque não há a construção da tensão que foi crucial para que os outros dois tivessem sucesso. Se nem a ideia foi boa, a execução foi pior ainda. Para não deixar o drama familiar - que é um dos pilares originais - de lado, temos dois filhos do personagem de Cube perdidos em meio ao caos. Ah sim, o personagem é viúvo e ainda está enlutado pela morte da esposa. Nada aqui tem qualquer peso dramático, porque desde o início tudo soa estúpido, sem senso de perigo ou urgência e vai se tornando consideravelmente pior a medida que avança. O fato do protagonista passar o tempo quase todo em frente a uma tela fez parecer que eu estava assistindo a alguém assistindo um filme e a atuação de Ice Cube não consegue convencer ninguém do contrário. Ele faz caras e bocas de preocupação, chora, se desespera, liga no FaceTime, consegue ter acesso a qualquer câmera, manda mensagem para a esposa que morreu no Facebook e por aí vai. Isto, claro, enquanto diz o que está sentindo com o texto mais expositivo possível. Iman Benson é Faith, a filha que está grávida, e apesar das sequências completamente vergonhosas em que é colocada, a atriz é competente. O que não se pode dizer de Henry Hunter Hall, que faz David, o filho hacker e problemático. O roteiro não ajuda em absolutamente nada, o ator não se esforça e o diretor parece muito menos interessado. Eva Longoria, a Gaby de Desperate Housewives, e Clark Gregg, de Agents of SHIELD, dois atores dos quais gosto bastante, são desperdiçados aqui, mesmo tendo algum destaque, as reviravoltas que envolvem os seus personagens são tão imbecis e preguiçosas que dão pena. Divulgação Não há qualquer sutileza e a crítica que o filme tenta fazer da forma mais clara e rasa possível ao sistema de vigilância estadunidense mal se conecta com o caos que acontece no mundo, o que denuncia outro problema grave do longa: a montagem. Uma hora tudo está sendo destruído, há uma pausa para o drama familiar e vice-versa, não conseguindo encontrar um ritmo adequado que justifique as intermináveis 1h30 de duração e seja capaz de estabelecer uma conexão do telespectador com os personagens ou com a narrativa. É uma bagunça completa, que não consegue sequer entreter. Sabe quando alguém diz “é tão ruim que é bom?”, pois aqui o ruim consegue ser piorado. Parece genuinamente um roteiro escrito por uma IA, que reúne todos os clichês do gênero, e uma direção que não consegue dar um lampejo de vivacidade, pouco imaginativa. É um filme feito de má vontade e essa indiferença é o maior sentimento que a produção consegue despertar. Nota: 0/5

  • Crítica | Tijolo por Tijolo

    Documentário sensível registra os sonhos, lutas e laços de uma família periférica. Divulgação O sonho de Cris Martins e sua família é o mesmo de tantos milhões de brasileiros: construir sua casa própria. Nos primeiros minutos de Tijolo por Tijolo, a vemos em lágrimas diante da perspectiva de perder sua casa devido às rachaduras, além do fato dela e o marido estarem sem empregos formais. Junte-se a isso a descoberta de uma quarta gravidez – tudo isso em meio à pandemia da COVID-19 –, e tem-se um palco pronto para uma narrativa de muitas adversidades e que periga ser bastante exploratória e dessensibilizante. Mas ao comporem os créditos com uma sequência de fotografias que contam a história desta família, os diretores Victória Alves e Quentin Delaroche mostram que estão interessados em um outro tipo de abordagem. Sim, Tijolo por Tijolo não se furta a mostrar os muitos obstáculos no caminho de Cris, marido, filhos e as pessoas que os cercam. Mas o documentário está muito mais interessado em acompanhar o cotidiano desta família, pontuar as alegrias, a intimidade, os laços que os estreitam. A câmera de Alves e Delaroche filma, mas não tece comentários a partir de si própria: não há narração em voice over, ou registros das interações dos diretores com o elenco. Na medida do possível, estes personagens narram sua própria história, se apresentam para a câmera e nos tomam pela mão para que sejamos guiados pelo seu dia a dia. Essa escolha se revela o grande acerto da obra, já que traz uma naturalidade a esse cotidiano que nos torna íntimos de Cris e sua família. Há um calor palpável que permeia a obra, explorando também um outro lado do Recife, a sua parte periférica que nem sempre vemos em outras produções ambientadas na cidade. Divulgação No entanto, há também alguns ônus, em particular a ausência de um eixo narrativo mais central. Embora a construção da casa seja o mote principal até certo ponto, ele gradualmente passa a dividir espaço com outros tópicos (como a busca de Cris por uma laqueadura, suas relações familiares e de amizade, seu trabalho como uma influenciadora digital periférica, etc), e nisto é perceptível que algumas abordagens são menos desenvolvidas do que outras, ainda que a ideia é que elas partam da observação orgânica das vivências dos personagens. Além disso, há um certo contentamento com um nível mais superficial daquilo que é exposto em tela: em especial, o filme tem a possibilidade de discutir as ações de Cris como influenciadora como uma forma de se sobressair em meio à recessão econômica, bem como os efeitos de um pensamento neoliberal e meritocrático em populações periféricas, mas nunca vai além nesse ponto. Talvez isso se dê por uma escolha de não tecer comentários próprios e dar ao espectador a possibilidade de tirar suas próprias conclusões, mas fica evidente uma falta de profundidade nesse e em alguns outros pontos da obra. Apesar disso, mesmo nesses instantes mais irregulares, Tijolo por Tijolo se sobressai por sua sensibilidade, pela humanidade que encontra em seus personagens ao transformá-los em agentes ativos de suas próprias histórias. É impossível não torcer e vibrar junto com Cris a cada uma de suas vitórias, se angustiar diante de quaisquer dos seus reveses e não se emocionar com os instantes mais íntimos, na força da coletividade expressa no filme. Como canta a imortal Alcione nos minutos finais, na música que dá nome ao filme: Mesmo que o mundo desabe na minha cabeça Deixando em destroços minha construção Enxugo meus olhos, recolho meus cacos Me entrego de fato à minha oração Pois de tudo posso em quem me fortalece Há sempre um alguém pra lhe estender a mão, oi Nota: 3.5/5

  • As melhores atuações brasileiras de 2025 (até agora)

    As interpretações brasileiras que já marcaram 2025: talentos consagrados e promessas Divulgação O ano ainda nem terminou. Na verdade, resta pouco menos de quatro meses, mas 2025 já nos presenteou com uma leva memorável de atuações no cinema brasileiro. Nesta lista especial, o Oxente Pipoca reúne interpretações que mais se destacaram até agora, por suas formas únicas. Entre os nomes escolhidos, estão lendas como Fernanda Montenegro e Marcélia Cartaxo, além de talentos em ascensão como Gabriel Fuentes e Isaac Amendoim. Também optamos por destacar elencos coletivos, como os de Kasa Branca e Oeste Outra Vez, cujas atuações se fortalecem justamente pela potência do conjunto. Seria injusto separá-los. A única regra para esta seleção foi clara: o longa-metragem precisa ter estreado oficialmente nos cinemas brasileiros a partir de 1º de janeiro de 2025. Produções exibidas apenas em festivais, sem lançamento comercial, ficaram de fora. Mesma regra usada para nossa lista de Melhores Filmes Brasileiros de 2025 (até agora). Então, vamos lá... As melhores atuações brasileiras de 2025 (até agora) foram: Divulgação Jesuíta Barbosa (Homem com H) “Jesuíta Barbosa não entrega nada menos que um trabalho irretocável. Constantemente falo isso em textos sobre cinebiografias, mas fico sempre com um pé atrás quando sei que vou assistir a um filme onde a figura retratada é conhecida por ter traços artísticos ou de personalidade facilmente identificáveis e que costumam ser replicados nas mais diferentes abordagens, positivas ou negativas. Mas o trabalho de Jesuíta nunca soa mimético, desrespeitoso ou artificial, é uma atuação estudada, empolgada e emocionada. O ator sabe ser visceral, delicado e sentimental, na voz, no olhar e especialmente no corpo, três elementos importantíssimos na contação dessa história.” – Ávila Oliveira Crítica completa do Oxente Pipoca Divulgação Elenco de Oeste Outra Vez “Angelo Antonio é o fio condutor da narrativa e brilha na simplicidade de um personagem repleto de sentimentos contidos. Raiva, tristeza, desejo, medo, felicidade, nada ele consegue expressar, nada ele acha que deve expressar. E esse fardo é dividido em partes iguais com os coadjuvantes que, mesmo com tempo de tela diferentes, vibram na mesma frequência limitada do protagonista. Com meias palavras, sempre na busca de dizer mais do que conseguem verbalizar, Babu Santana, Antônio Pitanga e Rodger Rogério dão cores diferentes, mas sempre na mesma paleta, a homens presos por grilhões invisíveis e, na verdade, inexistentes.” - Ávila Oliveira Crítica completa do Oxente Pipoca | Entrevista do Oxente Pipoca com o diretor Divulgação Isaac Amendoim (Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa) “Isso é ainda mais evidente na própria atuação de Isaac Amendoim, que esbanja tamanho carisma e talento que é como vermos o próprio Chico Bento em carne e osso. O humor inocente que ele deposita no personagem (como na sequência em que descreve sua “amizade” com Nhô Lau), a energia caótica típica de suas ações e até mesmo uma tremenda dose de sensibilidade — nos seus sentimentos por Rosinha e na sua relação quase simbiótica com a goiabeira — são marcas de um talento em ascensão. Sem exagero nenhum, Isaac é a alma do filme e entrega aqui provavelmente uma das minhas atuações mirins favoritas no cinema recente.” - Vinicius Oliveira Crítica completa do Oxente Pipoca | Entrevista do Oxente Pipoca com o diretor Divulgação Fernanda Montenegro (Vitória) “A solidão, a indignação e o senso de justiça de Nina são muito bem executados por Fernanda que, sem nenhuma surpresa, entrega mais uma atuação de alto nível. A premissa do filme acerta bem em envolver toda a história ao redor e sob a perspectiva dela, algo que ajuda ainda mais a entender as situações e os desafios que Nina enfrenta em sua rotina por conta da presença da violência tão próxima em sua vida.” - Gabriella Ferreira Crítica completa do Oxente Pipoca Divulgação Gabriel Fuentes (O Melhor Amigo) “Existem atores com uma extensa filmografia de anos à fio que não fizeram em sua carreira metade do que Gabriel faz em meia hora de O Melhor Amigo - seu primeiro trabalho e primeiro protagonista no cinema. Ele dirige buggy nas dunas, canta, dança em cima da mesa e entrega um personagem complexo, volátil, carismático, sensual e misterioso construído e desempenhado com competência e desenvoltura. Pude dizer a ele pessoalmente e repito, fico na expectativa de vê-lo em muitos outros papéis o quanto antes.” - Ávila Oliveira Crítica completa do Oxente Pipoca | Entrevista do Oxente Pipoca com o diretor Entrevista do Oxente Pipoca com o diretor e elenco Divulgação Diana Mattos (Betânia) “Diana Mattos se insere no espaço geográfico e político dos lençóis maranhenses cercada por personagens e atores não-profissionais de forma “stanislavskiana”, tamanha a organicidade com que veste o texto e a cultura daqueles grupos. A atriz, mesmo sendo a protagonista, concede graciosamente abertura para que todos os outros nomes que orbitam ao seu redor tenham seus próprios centros gravitacionais.” Entrevista do Oxente Pipoca com o diretor Divulgação Jamilli Correa (Manas) “A atriz Jamilli Correa vai revelando seu talento e seu potencial gradativamente, e consegue entregar uma atuação imponente, mesmo construída em cima de silêncios. E a menina não se deixou desaparecer em meio aos relevantes nomes com quem contracena. Na verdade todo o elenco trabalha em consonância e mostra que ficou claro o objetivo do roteiro e da direção em dar destaque à personagem em vez das situações de abuso.” - Ávila Oliveira Crítica completa do Oxente Pipoca Divulgação Marcélia Cartaxo (Lispectorante) “Apesar destes percalços, Lispectorante é eficaz no processo de integrar o caráter único da bibliografia de Clarice Lispector a um universo dotado de um sotaque (inclusive fílmico) deliciosamente próprio. Ajuda muito ter uma atriz do cacife de Marcélia Cartaxo, uma das maiores que já vimos neste país, adentrar de corpo e alma na obra para mostrar que sua relação com a autora não se encerrou lá em A Hora da Estrela, mas segue muito viva, 40 anos depois.” - Vinicius Oliveira Crítica completa do Oxente Pipoca | Entrevista do Oxente Pipoca com a diretora Entrevista do Oxente Pipoca com a protagonista Divulgação Shirley Cruz (A Melhor Mãe do Mundo) “Shirley Cruz é arrebatadora. Mesmo nos momentos em que a trama passeia entre o romantismo piegas e o melodrama sofrido, a atuação da protagonista serve de âncora para o foco não ser perder. É impossível desviar o olhar da força, da bravura, da verdade e da qualidade do desempenho da atriz.” - Ávila Oliveira Crítica completa do Oxente Pipoca Divulgação Elenco de Kasa Branca “Vale destacar também as grandes atuações de todo o elenco, com destaque, claro, para a dupla Big Jaum e Teca Pereira, que são cumplicidade e amor de avó e neto desde os primeiros instantes do longa até a sua conclusão.” – Gabriella Ferreira Crítica completa do Oxente Pipoca | Entrevista do Oxente Pipoca com o diretor e elenco Divulgação OUTROS DESTAQUES: Mayara Santos (Ainda Não É Amanhã) Ricardo Teodoro (Baby) Fernando Teixeira (Capitão Astúcia) Gilda Nomacce (Prédio Vazio) Caco Monteiro (A Matriarca) Ravel Andrade e Mari Oliveira (Serra das Almas) Gabriela Corrêa (Virginia e Adelaide)

  • Crítica | Os Enforcados

    Tragédia shakesperiana à brasileira é recheada de trambique e sarcasmo. Divulgação Em Os Enforcados, Regina (Leandra Leal) e Valerio (Irandhir Santos) estão felizes no relacionamento e levam uma vida descontraída na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Mas desde a morte do pai de Valerio, o maior mafioso da cidade, eles procuram uma saída do ninho de vespas criminosas que é o negócio desta família. Mas ao mesmo tempo, o casal também têm despesas e dívidas ​​para quitar e o tio de Valerio, Linduarte (Stepan Nercessian) insiste que o sobrinho assuma o negócio. Numa noite acidental, os dois encontram uma solução para o problema: matar o tio e vender o negócio. Mas ao fazer isso, mergulham ainda mais na violência da qual queriam escapar. É inevitável a lembrança imediata dos textos de Shakespeare logo na primeira meia hora de Os Enforcados: a trama de busca pelo poder presente em MacBeth e a trama de intrigas familiar (e de novo a busca pelo poder) presente em Hamlet embasam, de maneira direta ou não, as motivações centrais do longa brasileiro. A direção precisa de Fernando Coimbra sabe exatamente que tipo de filme está desenhando, um misto de suspense com policial sempre carregado de sarcasmo bem empregado. E sem querer puxar para uma literatura que talvez não tenha tido qualquer intenção de referenciar, mas esse humor atravessado em meio aos dramas de estrutura social deixa ainda mais o roteiro ainda mais shakespeariano. Divulgação Então dadas essas disposições narrativas, é fácil saber que existe ali conteúdo a ser trabalhado, e não apenas palavras vazias. Mas ainda assim o enredo sabe vestir roupas brasileiras muito bem e dar suas cores para essas questões universais. Ao se inserir no contexto de contraversões do submundo carioca, a história ganha uma cara própria, cheia de identidade, que bebe de referências do clássicos filmes de crime dos anos 70 com uma violência quase que orgânica e inerente, mas que imprime sua verdade sem abusar de estereótipos nem tentar fazer humor preguiçoso e barato com seus personagens. Leandra Leal e Irandhir Santos estão irretocáveis com papéis bem construídos em cima de várias camadas e sensíveis à todas elas. O texto, às vezes expositivo demais, faz quase um estudo antropológico da pilantragem dos personagens, usando os coadjuvantes como reflexo, apoio, causas e vítimas de um anseio que nunca pode ser suprido, de uma obra que não acaba nunca. E neste cenário, literalmente falando, a casa dos protagonistas sempre prestes a cair, literal e metaforicamente falando, reflete a ruína dos que sempre estão com a corda no pescoço. É um desbunde, uma Comédia de Erros que se molda a um ritmo nosso para expor, para rir, para analisar, para repensar o “trambique, patrimônio nacional” (São Clemente, 2020). Nota: 4/5

  • Crítica | A Hora do Mal

    Direção habilidosa sabe aproveitar o texto esperto até o final com investigação instigante e sustos bem aplicados. Divulgação A trama começa em plena quarta-feira, quando todas as crianças de uma sala desaparecem misteriosamente — com exceção de um único jovem. Exatamente às 2h17 da manhã, todas elas acordaram e saíram no escuro por livre e espontânea vontade, sem qualquer sinal de violência, e nunca mais voltaram. Agora, todos buscam respostas do porquê apenas os alunos da professora Gandy (Julia Garner) desapareceram. O que teria acontecido com as crianças e, mais importante, quem realmente estaria por trás desse evento? A Horal do Mal parte de uma premissa investigativa, onde as peças do quebra-cabeças vão sendo expostas ao espectador ao mesmo tempo em que vão sendo montadas diante dos seus olhos, mas em nenhum momento, até o início do seu terceiro ato (e seu final bastante climático), o texto entrega o que de fato está acontecendo, todas as interpretações são possíveis ao mesmo tempo em que nada parece fazer sentido. E em meio a isso os sustos pontuais e a tensão constante dão a tonalidade de um terror esquisito, intrigante. Existe uma atmosfera assustadora, que direciona o medo, mas que não aponta exatamente qual o seu destino final. Em 2022 Zach Cregger surpreendeu com seu terror original Noites Brutais, e mostrou dominar completamente a técnica do gênero, no enredo e especialmente na condução filmada. O diretor mais uma vez traz um filme cheio de estilo, cheio de vontade de contar aquela história e se importando com a experiência, com as sensações e com o resultado. Divulgação A Hora do Mal é um conto circular, bem fechado, bem introduzido e bem encerrado. A direção de fotografia de Larkin Seiple merece atenção especial por saber trabalhar jogo de sombras com sutileza e nitidez e por manter a câmera firme mesmo nos momentos mais frenéticos. Atuações relevantes de Julia Garner, Josh Brolin e Alden Ehrenreich. No entanto é Amy Madigan quem rouba as cenas, sendo responsável por reverberar até nos momentos em que não se faz presente em cena. Cheio de detalhes importantes, cheio de simbologias próprias e, mesmo um espectador mais desatento aos pormenores narrativos ou às alegorias conseguirá aproveitar a bizarra jornada de eventos. É revigorante sair de um longa com a cabeça fervilhando com o que acabou de ser assistido, onde você espera de tudo e nada prepara para a resolução, goste você ou não. Nota: 4/5

  • Entrevista | “Sabemos que não vai acabar com a violência, mas pode deixar de ser um tabu”: Caco Souza fala sobre “Atena”

    Em entrevista ao Oxente Pipoca, o diretor discutiu sobre a temática da violência de gênero abordada no filme. Divulgação Estreou nos cinemas nesta última quinta (31) o longa-metragem Atena, dirigido por Caco Souza e estrelado por Mel Lisboa e Thiago Fragoso. Ambientado em Gramado-RS, o filme segue a personagem-título (Lisboa), a qual, marcada pelos abusos do pai na infância, decide fazer justiça criando um grupo que atrai e julga agressores. Com a ajuda do jornalista Carlos (Fragoso), ela encontra seu pai em Montevidéu e inicia uma busca por vingança, confrontando os limites entre justiça e retaliação. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Caco Souza, que falou a respeito das discussões que o filme promove a respeito da violência de gênero e do feminicídio, do seu processo de trabalho e também dos seus projetos futuros. Você pode conferir a entrevista na íntegra abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Quais foram as motivações para ambientar a história no Rio Grande do Sul? Existe algum fator local relacionado à violência de gênero no estado que te motivou a situar a trama em Gramado? Caco Souza: Bom, a gente sabe que violência de gênero é uma coisa mundial, não tem um lugar que não tenha isso. Mas o Enrico Peccin, roteirista do filme, é de Gramado. E Gramado tem toda aquela cara de cenário, é uma cidade toda certinha, toda bonitinha. Mas nesses lugares esse tipo de violência também acontece. Então quisemos provocar um pouco, mostrar que não acontece apenas nas periferias ou nos grandes centros, então essa foi a intenção dele ao escrever o roteiro. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O seu filme parece beber de várias fontes cinematográficas, como “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres”. Quais filmes mais te inspiraram? Caco Souza: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres foi uma das referências que mandei para a Mel [Lisboa], para ajudá-la a construir a personagem. Porque eu acho que a Mel faz um trabalho muito bacana de construção de personagem. Mas especificamente eu acho que tento buscar essas referências como pessoa, como ser humano. Tento colocar na tela aquilo que entendo como esteticamente bacana ou socialmente pertinente. Não tenho esse hábito de assistir muita coisa só no sentido de buscar referências para fazer algo parecido ao que alguém já fez. Isso é uma coisa que é inerente, que tá no nosso dia-a-dia, porque se você assiste tanta coisa, lê tanta coisa, vai em exposições, etc., acaba tendo uma carga muito grande de referências. Mas assistir especificamente a um filme porque eu gostaria que o meu filme tivesse essa cara não é algo que eu já fiz. Eu procuro ler o roteiro e transformá-lo em ação, em sequências, e até deixo que as referências falem porque elas estão impregnadas, mas não de forma explícita. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Como você espera que o filme sirva para discutir o problema da violência de gênero e do feminicídio no Brasil? Por mais que tenhamos ali a falência do sistema em proteger as mulheres – e por consequência a figura vigilante da protagonista –, como ele pode contribuir para o debate e a opinião pública? Caco Souza: Essa construção audiovisual que a gente fez, por mais que seja para uma personagem fictícia, tem uma série de verdades. A gente se depara com isso no dia-a-dia, vê notícias, fica sabendo sobre, então o Enrico, de uma forma muito bacana, conseguiu juntar ali uma série de histórias ligadas a esse tipo de violência contra as mulheres. A gente espera que, de alguma maneira, isso toque as pessoas, que levante alguma discussão. Sabemos que não vai acabar com a violência, mas pode discutir, deixar de ser um tabu, para que as pessoas não se escondam, que denunciem e vão atrás dos direitos. Porque a grande história ali do filme é como Atena não conseguiu essa justiça e acaba indo fazer justiça por ela mesma. Se o filme conseguir trazer essa discussão já vai ser uma grande vitória, porque é de se imaginar que para as mulheres isso é um grande trauma, essa invasão, demonstração de poder. É um exercício de poder muito ruim, tem muito aquela coisa do patriarcado que ainda perdura em nossos dias. Divulgação Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Agora eu queria que você falasse um pouco de seus projetos futuros. Sei que seu próximo filme é intitulado “Mato ou Morro”, então o que pode nos dizer dele e de outros filmes que está preparando para dirigir? Caco Souza: O Mato ou Morro é outro projeto que a gente desenvolveu junto com a A2, com a distribuidora, uma parceria muito bacana. E ele tem outra pegada, já é uma comédia mais ácida, uma comédia de erros, com uma pegada um pouco mais de ação. Deve ser lançado em breve pela A2, a gente tá vendo uma data que seja possível. Porque enfim, você sabe como é, a gente acaba lançando filme junto com um blockbuster americano e a possibilidade de se dar mal é muito grande. Então a gente tá esperando uma data melhor para lançar. Agora no segundo semestre eu vou para uma outra vertente, que é um filme histórico sobre os torpedeamentos de navios brasileiros na costa aqui do Atlântico Sul durante a II Guerra, ali na divisa entre Bahia e Sergipe. Vamos começar a filmar essa história que não é muito conhecida, de que a guerra bateu aqui na nossa porta antes do Brasil se juntar a ela. Vai ser um drama, um romance que começa no Rio de Janeiro, entre a filha de um almirante e um marinheiro preto, e eles vão estar nesse navio que vai ser torpedeado. Então no segundo semestre a gente começa a rodar o Corações Naufragados, que vai se passar em 1942 na divisa da Bahia com Sergipe. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos aos nossos entrevistados que indiquem filmes nacionais que achem que o público deva assistir. Quais seriam suas indicações? Caco Souza: Eu sei que esse é bem óbvio, mas Ainda Estou Aqui é um baita filme no sentido de resgatar essa memória recente do nosso país, essa brutalidade com a qual a ditadura militar tratou o povo brasileiro e a oposição. Nós estamos em um momento político muito estranho, e o cinema pode mostrar que não é bem por aí, porque já vivemos essa experiência. Então acho que o Ainda Estou Aqui tem essa característica muito boa, assim como 400 Contra Um, que é um filme que eu fiz e que também mostra um pouco desse período turbulento do país. Período que a gente quase viveu de novo, porque quando se fala em ditadura militar sabemos que muita gente ainda apoia, que gosta, que acha que o país devia voltar a viver uma. Mas acho que o cinema pode nos dizer: “dá uma olhadinha no que aconteceu lá atrás”, então eu ficaria com essa indicação do nosso vencedor do Oscar.

  • Prêmio Grande Otelo 2025 consagra 'Ainda Estou Aqui' como maior vencedor da história

    Cerimônia evidenciou a crescente projeção do cinema brasileiro no mercado global Divulgação: Sony Pictures Na última quarta-feira (30), a Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, foi palco de uma das maiores celebrações do cinema nacional: a edição 2025 do Prêmio Grande Otelo. Com o tema centrado no destaque do cinema brasileiro no exterior, a cerimônia reuniu artistas e profissionais de diversas áreas para homenagear as melhores produções do último ciclo [maio de 2024-abril de 2025]. Entre os destaques da noite, Ainda Estou Aqui fez o que quase todos imaginavam e ganhou boa parte das categorias em que era possível, levando um montante de 13 troféus para casa e se tornando o filme mais premiado da história da premiação da Academia Brasileira de Cinema. Outro destaque foi o longa Malu, dirigido por Pedro Freire, que levou para casa três prêmios importantes, incluindo Melhor Roteiro Original, Melhor Primeiro Filme e a categoria de Melhor Atriz Coadjuvante para Juliana Carneiro da Cunha. Divulgação Confira abaixo os vencedores (grande parte tem crítica, só clicar no nome) do Prêmio Grande Otelo 2025: Melhor Longa-Metragem de Ficção Ainda Estou Aqui Baby Kasa Branca Malu Motel Destino Melhor Longa-Metragem Documental 3 Obás de Xangô Assexybilidade Fernanda Young – Foge-me ao Controle Luiz Melodia – No Coração do Brasil Milton Bituca Nascimento Othelo, o Grande Melhor Longa-Metragem de Animação Abá e Sua Banda Arca de Noé O Sonho de Clarice Placa Mãe Teca e Tuti: Uma Noite na Biblioteca Melhor Longa Infantil Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa Princesa Adormecida Tudo Por Um Pop Star 2 Melhor Longa Ibero-Americano El Jockey (Argentina) Estimados Señores (Colômbia) Grand Tour (Portugal) La Infiltrada (Espanha) Sujo (México) Melhor Direção Andrucha Waddington (Vitória) Érico Rassi (Oeste Outra Vez) Karim Aïnouz (Motel Destino) Marcelo Caetano (Baby) Walter Salles (Ainda Estou Aqui) Melhor Primeira Direção de Longa Alessandra Dorgan (Luiz Melodia – No Coração do Brasil) Dira Paes (Pasárgada) João Cândido Zacharias (A Herança) Lucas H. Rossi dos Santos (Othelo, o Grande) Pedro Freire (Malu) Melhor Atriz Andrea Beltrão (Avenida Beira-Mar) Dira Paes (Pasárgada) Fernanda Torres (Ainda Estou Aqui) Grace Passô (O Dia Que Te Conheci) Yara de Novaes (Malu) Melhor Ator Ângelo Antônio (Oeste Outra Vez) Caio Blat (Grande Sertão) Fabio Assunção (Motel Destino) João Pedro Mariano (Baby) Matheus Nachtergaele (O Auto da Compadecida 2) Selton Mello (Ainda Estou Aqui) Melhor Atriz Coadjuvante Bárbara Luz (Ainda Estou Aqui) Carol Duarte (Malu) Juliana Carneiro da Cunha (Malu) Linn da Quebrada (Vitória) Valentina Herszage (Ainda Estou Aqui) Melhor Ator Coadjuvante Antonio Pitanga (Oeste Outra Vez) Átila Bee (Malu) Babu Santana (Oeste Outra Vez) Humberto Carrão (Ainda Estou Aqui) Ricardo Teodoro (Baby) Melhor Direção de Fotografia Adrian Teijido (Ainda Estou Aqui) André Cavalheira (Oeste Outra Vez) Gustavo Hadba (Grande Sertão) Gustavo Hadba (O Auto da Compadecida 2) Hélène Louvart (Motel Destino) Joana Luz e Pedro Sotero (Baby) Mauro Pinheiro Jr. (Malu) Melhor Roteiro Original André Novais Oliveira (O Dia Que Te Conheci) Érico Rassi (Oeste Outra Vez) Luciano Vidigal (Kasa Branca) Marcelo Caetano e Gabriel Domingues (Baby) Pedro Freire (Malu) Melhor Roteiro Adaptado Bia Lessa (O Diabo na Rua no Meio do Redemunho) Guel Arraes e Jorge Furtado (Grande Sertão) Marcelo Gomes, Maria Camargo e Gustavo Campos (Retrato de um Certo Oriente) Murilo Hauser e Heitor Lorega (Ainda Estou Aqui) Sérgio Machado (Arca de Noé) Melhor Direção de Arte Camila Moussallem (As Polacas) Carlos Conti (Ainda Estou Aqui) Carol Tanajura (Oeste Outra Vez) Elsa Romero (Malu) Marcos Pedroso (Motel Destino) Melhor Figurino Aline Canella (A Batalha da Rua Maria Antônia) Cao Albuquerque e Diana Leste (Grande Sertão) Claudia Kopke (Ainda Estou Aqui) Emilia Duncan (O Auto da Compadecida 2) Gabriela Campos (Baby) Kika Lopes e Ananda Frazão (Motel Destino) Melhor Maquiagem Ana Pieroni (Oeste Outra Vez) Marcos Freire (Malu) Marisa Amenta (Ainda Estou Aqui) Rosemary Paiva (Grande Sertão) Rosemary Paiva (O Auto da Compadecida 2) Melhor Montagem Affonso Gonçalves (Ainda Estou Aqui) André Finotti (3 Obás de Xangô) Cristina Amaral (Cidade; Campo) Fabian Remy (Baby) Fabio Jordão (O Auto da Compadecida 2) Marilia Moraes (Malu) Melhor Efeito Visual Ailton Piuí e João Paulo Geraldo (Retrato de um Certo Oriente) Claudio Peralta (Ainda Estou Aqui) Claudio Peralta (O Auto da Compadecida 2) Claudio Peralta (Vitória) Eduardo Schaal, Guilherme Ramalho e Hugo Gurgel (Grande Sertão) Guilherme Ramalho, Hugo Gurgel e François Puren (Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa) Melhor Som Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa Arca de Noé Meu Sangue Ferve por Você Vitória Ainda Estou Aqui Malu Motel Destino Melhor Trilha Sonora Motel Destino O Clube das Mulheres de Negócios A Batalha da Rua Maria Antônia Vitória Grande Sertão Oeste Outra Vez Ainda Estou Aqui Melhor Série Brasileira de Ficção Cidade de Deus: A Luta Não Para Impuros Os Outros Os Quatro da Candelária Senna Melhor Série Brasileira de Documentário Bateau Mouche — O Naufrágio da Justiça Falas Negras Maníaco do Parque — A História Não Contada Romário — O Cara Viva o Cinema! 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  • Entrevista | Marcelo Lordello e Marco Ricca falam sobre “Paterno”

    Em entrevista ao Oxente Pipoca, diretor e ator falam como o filme dialoga com a realidade política e social atual, os desafios da produção e a importância de retratar questões urbanas e humanas de forma autêntica. Divulgação Paterno, novo longa de Marcelo Lordello, estreia nos cinemas de todo o Brasil no dia 07 de agosto. Na trama, Sérgio (Marco Ricca) deseja conquistar a direção da empreiteira da família para realizar um sonho há muito esquecido. Acaba descobrindo um segredo da vida do seu pai que ameaça seus planos, revelando quem ele realmente se tornou. O Oxente Pipoca entrevistou Marcelo Lordello e Marco Ricca, onde discutiram os desafios e a relevância política de Paterno, que atravessou diferentes governos brasileiros desde sua concepção até a estreia. Eles refletem sobre temas como isolamento, conflito geracional e as tensões do patriarcalismo, além do simbolismo do carro blindado como personagem. Também recomendam filmes nacionais que inspiraram suas trajetórias e dialogam com a obra, convidando o público a uma experiência cinematográfica profunda e reflexiva. Caio Augusto (Oxente Pipoca): Ao analisar o contexto do filme, da produção até a realização e agora a exibição nos cinemas, eu percebi que o filme passa por diferentes governos. Então, ele é rodado, se eu não me engano, no governo Temer, e finalizado em pleno governo Bolsonaro. E agora sendo exibido no governo Lula. Como você encara esse intervalo temporal e como ele afeta o filme? Teve algum receio de que o filme pudesse se tornar datado ou se ele se atualizou com o tempo, justamente por tratar alguns temas recorrentes da política brasileira? Marcelo Lordello: Eu que agradeço o interesse pelo filme. É muito importante a gente ter sites que são dedicados ao cinema nacional e com esse carinho todo especial pro cinema nordestino, que a gente sabe a guerra que é fazer os filmes. Mas a gente também sabe o quanto a gente tem para falar e para mostrar, né? Sendo do Nordeste. Eu vou até mais atrás, assim: esse filme foi concebido no governo Dilma. Aí, esse filme atravessou um golpe. Esse filme atravessou o governo Temer, nesse projeto de destruição do Ministério da Cultura, que foi aprofundado enquanto projeto de anticivilização cultural mesmo, no governo Bolsonaro. E aí atravessamos a pandemia também. Mas, de alguma forma, a gente perseverou, né? Existia, sim, um receio de o filme ficar datado, com alguma marca temporal. Mas algumas coisas estão me fazendo refletir que não. Essa questão do contexto e das disputas de poder na cidade, enfim, dessa aristocracia que tem grana e a gentrificação de determinados setores, é uma coisa muito recorrente no Brasil, em várias cidades, na verdade, no mundo todo, né? Então, a alta cidade, quando tem muita concentração de capital, isso acaba acontecendo. E aqui não seria diferente. Brasília Teimosa ainda não foi gentrificada, não sei de onde você está falando, mas aqui em Recife a gente tem uma resistência de um bairro que é oriundo de uma ocupação popular, né? Da década de 60, justamente durante a criação de Brasília. As pessoas tentavam tirar essa população de lá e ela resistia, né? Por isso o nome “Brasília”, por causa da época da construção da nova capital nacional, e “Teimosa” porque ela persistia. A gente, que é local, sabe do interesse dessas grandes incorporadoras no bairro, que é um bairro com uma identidade muito própria, com uma população muito local, que tomou aquele lugar como seu. E a gente conhece os interesses, porque, em termos de geografia, é muito interessante, sabe? Então o capital está de olho lá, sempre. Mas o filme também trata, isso é o pano de fundo, né? Sobre essa crise desse homem de meia-idade e de como o patriarcalismo interferiu na vida dele. De como ele fez parte, ele escolheu fazer parte... Mas o que acontece quando você, sei lá, abandona um sonho? Ou abandona um sonho de liberdade mesmo, desse "covil" que é a família dele para ele? Então, essa junção do contexto com a trajetória desse personagem trágico, eu acho que torna o filme ainda atual, sabe? E eu fico feliz com isso, porque, de alguma forma, ele pode trazer reflexões e debates para o público quando assistir. Caio Augusto (Oxente Pipoca): O seu personagem me chama bastante atenção por esse aspecto de isolamento que ele carrega, algo perceptível tanto fisicamente quanto emocionalmente. Isso aparece nas relações dele, sejam pessoais ou profissionais. A direção evidencia muito bem essa característica ao posicioná-lo frequentemente em ambientes reclusos. Gostaria de saber como foi, para você, lidar com esse elemento na construção do personagem. E, também, de que forma esse isolamento influencia na relação dele com os outros personagens em cena? Marco Ricca: É um cara realmente solitário, obsessivo. Tem lá o seu grande sonho como arquiteto, mas, de fato, é um ser sozinho. Quer dizer, todos nós somos, de certa forma, não é? Ontem mesmo eu estava assistindo a uma reportagem com o Walmor Chagas, olha só, e ele dizia que só se cria na solidão. O ator, os arquitetos... Enfim, esse tipo de projeto ligado ao sonho, às artes plásticas... Se você pensar bem, escrever um livro, por exemplo, tudo isso é muito solitário. E é justamente nessa dor da solidão que acho que esse personagem se encaixa. E você captou isso muito bem. O roteiro e a direção conseguiram, de maneira não discursiva, deixar isso evidente e ainda apoiar o personagem nesse sentido: revelar essa solidão por meio dos espaços fechados, o escritório, a casa, a cadeira, o carro, enfim. A câmera sempre muito próxima da nuca desse personagem cria um efeito visual muito bonito e potente, que conduz e sustenta a narrativa. A câmera realmente contribui muito para isso. Outro fator importante foi a oportunidade de trabalhar com atores extraordinários. Acredito que você assistiu ao filme e sabe do que estou falando. São atores que conheci ali mesmo, durante as filmagens, muitos deles, acho que a maioria, com exceção do Nelson Vasconcelos, e que colaboraram intensamente com o processo. São intérpretes que, ao primeiro olhar, você já percebe que entenderam o personagem. A contracenação com eles facilitava muito o trabalho. Foi, nesse sentido, uma experiência bastante enriquecedora. Então, sim, é um personagem profundamente solitário. E, curiosamente, vejo que, de alguma forma, ele também reflete certos aspectos da nossa exposição contemporânea. Estamos cada vez mais visíveis, mais expostos e, talvez, ainda assim, igualmente sozinhos. Divulgação Caio Augusto (Oxente Pipoca): Marcelo, ainda dentro dessa temática da reclusão e do isolamento, há um “personagem” no filme que considero crucial: o carro. Gostaria de saber quais foram suas referências, visuais e conceituais, ao criá-lo. A presença do carro me parece bastante marcante, pois ele funciona como um espaço ambíguo: ao mesmo tempo em que aprisiona, também afasta. Ele estabelece um recorte social bastante evidente. Você utiliza o som de maneira muito precisa para acentuar essa sensação, e o fato de ser um carro blindado reforça ainda mais essa ideia de clausura, proteção e separação. De que forma ele se articula com o personagem do Sérgio e com a proposta geral do filme? Marcelo Lordello: É muito bom ouvir isso, considerar o carro como um personagem. Para mim, ele funciona como uma extensão do Sérgio, e essa era uma ideia que eu trabalhava bastante com a fotógrafa Bárbara Alves, o editor de som Nicolau Dominguez e o mixador Jean, da França. A proposta era transformar o carro em uma ferramenta narrativa, algo que dialogasse com o personagem em várias camadas visuais e sonoras. O fato de ser um carro blindado reforça essa ideia de isolamento, clausura e recorte social. A decisão de mantê-lo sempre filmado por dentro, sem mostrar seu exterior até o final, foi justamente para acentuar essa sensação de obsessão e prisão. A edição de som foi fundamental nesse processo. Trabalhamos cuidadosamente para equilibrar os sons internos e externos do carro, criando a sensação de um espaço fechado que, ao mesmo tempo, é invadido pela cidade. Há uma cena em que o som do fechamento da porta parece ser capturado, abafado, e isso reforça essa ideia de confinamento. O carro também tem um papel simbólico na relação entre pai e filho. Em certo momento, o filho assume esse espaço, esse “trono”, mas com um peso diferente. E acho que isso reverbera no público, que muitas vezes sai do filme dizendo: “Como esse filme é tenso, como é angustiante!”. E muito disso vem justamente da forma como esse carro foi concebido como elemento central da narrativa. Caio Augusto (Oxente Pipoca): Para finalizar, Marco, gostaria que você falasse um pouco sobre a relação do seu personagem com o filho, especialmente em relação ao conflito geracional que existe entre eles. Também gostaria que comentasse sobre o passado progressista do Sérgio, que o filho tenta resgatar, e como essa dinâmica reflete conflitos familiares comuns na realidade brasileira. Marco Ricca: Na verdade, é exatamente isso. Ele gosta muito de ver o filho com as mesmas referências que ele tinha na juventude. A música, por exemplo, é muito importante nesse contexto, as escolhas, como as feitas pelo Lorde, refletem esse passado progressista e o posicionamento político da época. Porém, também é recorrente observar, e isso é um fato da burguesia, que, no começo da vida, a burguesia está nas universidades públicas, participa de movimentos estudantis e de ligas sociais, mas com o tempo acaba retornando para sua “toca”, assumindo o conservadorismo. De certa forma, é isso que acontece com o personagem. Ele é um homem frustrado que, de maneira quase osmótica, transmite essa frustração e tenta, de algum modo, trazer o filho para o mesmo lado. Em vez de dar liberdade, ele o puxa para perto. Essa dinâmica é muito familiar e muito interessante no filme, porque o personagem também teve essa relação com o pai. No decorrer da narrativa, entendemos que o pai dele era uma figura que o cercava bastante, que realizou muitos projetos por encomenda, mas nunca conseguiu fazer aquilo que realmente gostava. Esse pai está se afastando, e a figura matriarcal, forte não só no Nordeste, mas no Brasil inteiro e talvez no mundo, começa a assumir espaço. O mundo está cada vez mais conservador, e as pessoas tendem a puxar outras para um lado cada vez mais sombrio. Acho que o Sérgio representa isso: um personagem multifacetado que admira e ama o filho. Pelo menos, é essa mensagem que tentamos transmitir. O filho, por sua vez, às vezes parece alheio, usa fones de ouvido, está só ouvindo música, quer apenas entrar na faculdade e demonstra certo constrangimento diante do carro blindado do pai. Isso o incomoda, assim como incomoda o comportamento do filho, que não é aceito pelo pai. O garoto participa de manifestações, está ao lado de um tio mais progressista, que talvez seja uma espécie de mentor ou “grande voz” para ele. Sérgio se incomoda com o que o filho diz, como se ele estivesse tentando roubar um direito que acredita ser seu — o direito de manter o filho sob sua influência, dentro do conservadorismo que defende. O filme se chama Paterno, e essas relações familiares são realmente fortes e muito marcantes na narrativa. Quando assisti ao filme, me identifiquei com muitas atitudes do personagem. Isso nos leva a refletir sobre como, às vezes, acreditamos estar dando liberdade aos jovens, mas, na verdade, estamos os segurando. Eles estão ali para romper, essa é a função deles: romper com o passado, avançar. Não é preciso “matar o pai”, como diz a psicanálise, para seguir em frente. Essa ideia me incomoda. Acredito que o importante é manter esse diálogo e essa tensão, sem a necessidade de rompimentos radicais. Caio Augusto (Oxente Pipoca): Por fim, temos uma tradição no Oxente Pipoca de pedir que vocês indiquem algum filme do cinema brasileiro que gostem, além de Paterno, é claro, para que nossa audiência possa assistir e conhecer outras obras. Marco Ricca: Vou falar sobre filmes que me inspiraram. Sou muito fã do cinema brasileiro; além de atuar como militante e fazer muitos filmes, cresci assistindo a essa produção. Para mim, dois filmes foram fundamentalmente importantes: Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues, e Tudo Bem, de Arnaldo Jabor, que, na verdade, é um verdadeiro tratado sobre o sistema político brasileiro e a forma como ele funciona. Esses filmes me marcaram profundamente, tanto cinematograficamente quanto pelo trabalho dos intérpretes. O jazz presente nessas obras é um fenômeno no Brasil. Não apenas ele, mas todo o elenco, Fábio Júnior, Bete Faria, mostram a força desses filmes. Cacá Diegues realmente conseguiu realizar uma obra de grande importância. Tudo Bem foi o segundo que me veio à cabeça, mas sei que há muitos outros. Marcelo Lordello: Aproveitando o momento, gostaria também de recomendar dois filmes que têm uma relação muito forte com Paterno. O primeiro é São Bernardo, de Leon Hirszman, com Otto Bastos, que para mim foi um estudo de personagem muito profundo e duro, e que me deu coragem para trazer o Sérgio à tela. O segundo é um filme que entrou recentemente em cartaz, depois de anos fora das salas: Iracema, uma Transa Amazônica, de Bodansky e Sena, com Edna Perillo. Para mim, é um dos melhores filmes nacionais, um marco que quebrou paradigmas e foi fundamental como referência e fonte de coragem para meu primeiro filme, Eles Voltam. Como Iracema está em cartaz agora, recomendo que o público faça uma “casadinha”: assistir a Iracema e depois a Paterno.

  • Crítica | A História do Som (Mostra de SP 2025)

    Um romance oco Foto: Reprodução Os caminhos de dois homens se cruzam em um bar, quando um escuta o outro tocar uma música que cantava com os pais na infância. A conexão é imediata, e todo o bar fica em silêncio para ouvi-los tocar uma outra música. Tal conexão se sustenta em olhares, pequenos gestos, silêncios, ao longo de anos, conforme eles se encontram e desencontram... ou pelo menos é nisso que deveríamos acreditar. Desde o início, o diretor Oliver Hermanus busca criar um drama de imagens e planos bonitos e contemplativos, trazendo seus personagens em diversos ambientes (sobretudo os rurais e naturais) para tratar das suas diferenças – Lionel (Paul Mescal) mais quieto e introvertido, David (Josh O’Connor) mais expansivo e carismático. Hermanus os mergulha na imensidão do mundo para conduzi-los em uma jornada íntima, seja no campo do relacionamento deles quanto da atividade profissional que desenvolvem, coletando canções folk de populações nos EUA profundo. Os melhores momentos do filme vêm justamente desse processo de coleta, da magia que emana a partir da relação que os protagonistas possuem com a música, bem como as figuras com quem interagem. Este bloco é onde Hermanus mais consegue conferir alguma alma à obra, pois só quem é aficionado por música sabe das conexões poderosas que ela pode despertar em nós, bem como as memórias às quais acessamos através de um simples acorde. Foto: Reprodução Mas isso é apenas a parte de um todo que infelizmente se revela bastante vazio. Na sua busca por criar um drama plasticamente bonito, Hermanus faz de A História do Som um filme oco, sem vida ou alguma pulsão. O problema não está na sensibilidade almejada, mas o filme se revela tão plácido que com o passar da sua duração essa placidez se transforma em chatice e nos traz nada mais que desinteresse. Não ajuda muito que o romance do par principal pouco convence. Elogiar as atuações de Mescal e O’Connor é chover no molhado, e os dois têm um ótimo histórico de produções queer em suas carreiras (Todos Nós Desconhecidos e Reino de Deus), mas mesmo com suas competências Hermanus não consegue dar liga suficiente ao romance, desprovido de algum tipo de calor, afeto e química genuínos. A estrutura de percorrer vários anos dos personagens também não chega a ser um problema em si – vinte anos atrás Ang Lee fez isso com maestria em O Segredo de Brokeback Mountain – mas a maneira como o filme escolhe aprofundar ou ocultar os personagens é. Sem maiores spoilers, essa história é muito mais sobre Lionel do que sobre David, e mesmo que flashbacks na segunda metade da obra mostrem mais do que ambos viveram, não é o suficiente para preencher a lacuna que fica. Na teoria, A História do Som poderia ser um dos grandes romances LGBTQIAPN+ da nossa geração, mas o saldo final é tão frio e desalmado que é difícil sentir algo pelo (suposto) amor que esses personagens viveram. Revela-se um todo desconjuntado, onde a conexão dos protagonistas e a relação de ambos com a música não conversam entre si o suficiente para que o que vejamos em tela soe genuíno. Há beleza? Há, mas ela chama demais a atenção para si mesma e é incapaz de esconder o vazio onde deveria haver um coração para um filme que se diz tão sensível. Nota: 2.5/5

  • Governo do Ceará lança streaming gratuito Siará+

    A plataforma de streaming é gratuita e estreia com uma variedade de obras cearenses em seu catálogo, além de chamada pública aberta para ampliação de conteúdo. Imagem: Divulgação O Governo do Ceará, por meio da Secretaria da Cultura (Secult Ceará) e do Cineteatro São Luiz, em parceria com o Instituto Dragão do Mar, lança no dia 5 de agosto, às 19h, a plataforma Siará+ — o primeiro serviço de streaming voltado exclusivamente à produção audiovisual cearense. Gratuita e acessível mediante cadastro, a plataforma estreia com um amplo acervo de filmes locais. A iniciativa integra as políticas públicas da Secult e reafirma o compromisso com a valorização da memória, difusão e fortalecimento da cultura do Estado. O lançamento oficial acontece no Cineteatro São Luiz e será marcado por uma homenagem ao cineasta Rosemberg Cariry, celebrando seus 50 anos de trajetória no cinema. Reconhecido por uma obra marcada por lirismo e forte ligação com a cultura popular, Cariry terá exibida a versão restaurada de "Lua Cambará: Nas Escadarias do Palácio", trabalho recuperado pelo Museu da Imagem e do Som Chico Albuquerque (MIS-CE), integrante da Rede Pública de Espaços e Equipamentos Culturais do Ceará (Rece). Siará+: acervo diverso e representativo A plataforma reúne obras de diferentes gerações e estilos, refletindo a riqueza do audiovisual cearense. Estão no catálogo produções de nomes como Allan Deberton, Armando Praça, Amanda Pontes, Karim Aïnouz, Leonardo Mouramateus, Bárbara Cariry, Wolney Oliveira, Pedro Diógenes, Zelito Viana, Margarita Hernández e o próprio Rosemberg Cariry. A proposta é ampliar o alcance do cinema feito no Ceará e valorizar as múltiplas vozes e territórios que compõem essa produção. Tecnologia, curadoria e parceria institucional A Siará+ é coordenada inicialmente pelo Cineteatro São Luiz, com apoio técnico e operacional do Instituto Tamanduá Synapse Cultural — responsável também pelo licenciamento dos 50 primeiros títulos. Nos próximos meses, novos conteúdos serão incorporados, incluindo produções de outros equipamentos da Rece, como o MIS-CE, Porto Iracema das Artes, Hub Cultural Porto Dragão e o Centro Cultural Bom Jardim. Até o dia 24 de agosto de 2025, está aberta uma chamada pública do Cineteatro São Luiz para selecionar e licenciar 30 curtas-metragens brasileiros (ficção, documentário e animação), produzidos entre 2020 e 2025, que farão parte do acervo permanente da plataforma. Coleções de lançamento No lançamento, o público poderá explorar cinco coleções temáticas: Memória e Identidade Cearense Corpo, Cotidiano e Gênero Ruralidades e Sertões Urbanos Experimentações Visuais e Narrativas Patrimônio, História e Consciência Social Educação e formação de público A Siará+ também fortalece iniciativas educativas da Secult, como o Projeto São Luiz Itinerante, que leva produções audiovisuais a escolas, universidades, cineclubes e instituições em todo o Estado. A plataforma oferecerá materiais complementares e pedagógicos, com informações sobre as obras, diretores, equipe técnica e sugestões de abordagem em ambientes educativos. Palavras da gestão Segundo a secretária da Cultura, Luisa Cela, o lançamento da plataforma representa um avanço estratégico: “Trata-se de uma ferramenta que une cultura, tecnologia e economia criativa. Investir no Siará+ é promover acesso democrático à nossa produção e fortalecer um setor com enorme potencial de desenvolvimento”. A diretora-presidente do Instituto Dragão do Mar, Rachel Gadelha, destaca: “Vamos fortalecer parcerias com mostras e festivais, enriquecendo o acervo e dando visibilidade às obras emergentes e já consolidadas do audiovisual local e nacional”. O diretor do Cineteatro São Luiz, José Alves Netto, reforça: “Agosto marca um ponto de partida. A plataforma será constantemente atualizada, abrindo espaço para novos conteúdos e oportunidades no setor”. SERVIÇO Lançamento da plataforma Siará+ e homenagem a Rosemberg Cariry Cineteatro São Luiz 5 de agosto (terça-feira), às 19h - Entrada gratuita Plataforma Siará+ 🌐 www.siaramais.cultura.ce.gov.br 📺 Acesso gratuito mediante cadastro

  • Crítica | Sirāt (TIFF 2025)

    Um filme que te convida a dançar, mas apenas para nos distrair do seu vazio. Divulgação Um dos grandes acontecimentos do Festival de Cannes de 2025 foram as compras da Neon. A distribuidora, que conquistou sua sexta Palma de Ouro consecutiva com It Was Just an Accident, quis garantir a vitória sem apostar todas as suas fichas apenas em Sentimental Value, que já estava em seu catálogo. Além do vencedor, a empresa também adquiriu O Agente Secreto e Sirāt, todos filmes que saíram do festival premiados e bem recebidos pela crítica. Sirāt, vencedor do Prêmio do Júri em Cannes, é um filme espanhol que acompanha a jornada de um pai e seu filho em busca da filha desaparecida em um deserto, cenário de estranhas raves. Já na sequência inicial, durante os créditos, somos apresentados à paisagem sonora do filme, com músicas que o próprio longa define como “não para ouvir, mas para dançar”. A narrativa explora o isolamento do deserto em contraste com festas lotadas, cheias de pessoas conectadas entre si. O deserto já foi amplamente explorado no cinema, lembrado sobretudo pela saga Mad Max. Embora Sirāt não apresente grandes inovações nesse imaginário, ainda consegue entregar elementos visuais interessantes, especialmente pela fotografia, que reforça a vastidão do deserto em contraposição aos pequenos personagens, sobretudo quando eles se afastam da multidão. Divulgação O grande problema de Sirāt, em minha perspectiva, está em sua história. A premissa, simples mas promissora, um pai e um filho em busca da filha desaparecida, acaba se esgotando rapidamente, mantendo-se nesse único eixo narrativo enquanto os personagens atravessam o deserto rumo a uma nova rave. O filme tem momentos cativantes, mas eles surgem apenas quando a trama já se encaminha para o final. Apesar de vendido como um thriller tenso, a experiência é, na maior parte do tempo, entediante até chegarmos aos últimos 30 minutos. O título, traduzido nos instantes iniciais, vem do árabe e significa uma ponte erguida sobre o inferno, pela qual as pessoas devem passar de acordo com suas ações. Após assistir ao filme, é fácil entender a metáfora proposta pelo diretor, mas a ideia não é bem desenvolvida ao longo da narrativa. A falta de contexto sobre os personagens torna seus dilemas pouco envolventes, problemas que soam como “white people’s problems,” e até a busca pela filha desaparecida perde impacto, a ponto de eu não me importar se ela seria encontrada ou não. Apesar de sua riqueza visual e sonora, Sirāt é um filme vazio, com apenas um esboço de mensagem. Mais uma tentativa de uma perspectiva europeia de se aproximar da experiência dos imigrantes, que novamente falha em estabelecer uma conexão genuína. Nota: 2/5

  • Crítica | Sentimental Value (TIFF 2025)

    Trier faz da memória o grande palco Divulgação O vencedor do Grand Prix de Cannes 2025 retrata a conturbada dinâmica entre o renomado diretor norueguês Gustav Borg e suas duas filhas. Após a morte da ex-esposa, Borg retorna à vida delas e oferece a Nora, uma de suas filhas, o papel principal em seu primeiro filme em quinze anos. Diante da recusa, ele decide escalar uma atriz norte-americana de grande popularidade, Rachel Kamp, gesto que aprofunda ainda mais o abismo na já frágil relação familiar. Ao encerrar sua “era brat”, Charli XCX fez diversas alusões a quem poderia ocupar o mesmo espaço de impacto cultural que ela teve no verão de 2024. A frase que acabou na boca do público cinéfilo foi: “Joachim Trier Summer”. Em uma lista que incluía nomes como Cronenberg, Ari Aster, Aronofsky e Celine Song, a sensibilidade presente nos trabalhos anteriores do diretor norueguês fez a internet elegê-lo como o escolhido para representar o verão do hemisfério norte, mesmo sem que ninguém ainda tivesse assistido ao filme, cujo lançamento nos cinemas só aconteceria no outono. Depois de ver o longa, posso afirmar que, apesar de não considerar Trier a melhor escolha para o “cargo”, especialmente em um ano de grandes surpresas como Eva Victor, Sentimental Value é um filme poderoso, capaz de marcar a vida de muitos adolescentes que provavelmente moldarão suas personalidades e escolhas a partir dele. Um dos grandes acertos do diretor, que já é uma marca de seu cinema, é a maneira como mistura ilusão e realidade. Elementos visuais e o próprio texto do filme exploram sua experiência como cineasta e roteirista, mostrando que o processo criativo de um artista vai além do entretenimento: é também uma forma de se expressar no mundo. Divulgação Depois da memorável sequência de A Pior Pessoa do Mundo, na qual a personagem de Renate Reinsve percorre a cidade enquanto todos ao redor estão paralisados em busca de seu “par perfeito”, era inevitável esperar que o diretor trouxesse novas imagens impactantes. E ele não decepciona. Desta vez, o elemento central não é um personagem humano, mas sim a casa onde as protagonistas viveram a infância. Um espaço carregado de memórias, pertencente à família há gerações, e onde o patriarca deseja filmar seu novo filme. A casa funciona como personagem viva, protagonizando várias sequências de tirar o fôlego. O elenco reúne rostos familiares no universo de Trier. Reinsve interpreta Nora, a protagonista, uma atriz que trabalha em peças de teatro; Anders Danielsen Lie surge novamente, agora como um dos atores da peça; e Inga Ibsdotter Lilleaas estreia em sua filmografia no papel da irmã de Nora, que atuou ainda criança em um dos filmes do pai, mas nunca seguiu carreira. O patriarca é vivido por Stellan Skarsgård, em uma atuação que ganha cada vez mais peso ao longo da narrativa. Há também a presença marcante de Elle Fanning como a estrela hollywoodiana em busca de um papel “sério”, o que acrescenta ao filme uma quantidade significativa de diálogos em inglês, incomum nas obras do diretor. O roteiro, no entanto, fragmenta-se em núcleos que limitam seus personagens e interações. Em alguns momentos, o espectador se vê perdido quanto à perspectiva que está sendo acompanhada no longa como um todo. Sem dúvida, as passagens mais cômicas e carismáticas vêm da relação entre Skarsgård e Fanning, embora essa não seja a trama central. O filme se divide tanto que, às vezes, esquecemos determinados personagens, enquanto em outros pontos ansiamos para que certo núcleo volte a dominar a tela. Ainda assim, mesmo tratando diretamente do cinema, contrapondo o olhar europeu e o norte-americano, além de ironizar influenciadores, streamers e atores-produtores, o roteiro foge de clichês previsíveis, nunca deixando-nos adivinhar onde vamos a seguir. Sentimental Value honra a filmografia de Joachim Trier, sustentando a enorme expectativa criada por fãs e curiosos em torno do conceito de “Joachim Trier Summer”. O diretor mantém sua câmera fluida e elegante, e conduz um elenco que interpreta com brilhantismo personagens que, dentro da diegese, nem sempre são bons atores. O único deslize está na falta de uma narrativa principal claramente definida: a sensação é de que Trier só percebeu, já na montagem, que Skarsgård era o verdadeiro protagonista, deixando as costuras do filme um pouco mais visíveis ao olhar atento. Nota: 4,5/5

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