Resultados de busca
Buscar neste site
1408 resultados encontrados com uma busca vazia
- Crítica | Sirāt (TIFF 2025)
Um filme que te convida a dançar, mas apenas para nos distrair do seu vazio. Divulgação Um dos grandes acontecimentos do Festival de Cannes de 2025 foram as compras da Neon. A distribuidora, que conquistou sua sexta Palma de Ouro consecutiva com It Was Just an Accident, quis garantir a vitória sem apostar todas as suas fichas apenas em Sentimental Value, que já estava em seu catálogo. Além do vencedor, a empresa também adquiriu O Agente Secreto e Sirāt, todos filmes que saíram do festival premiados e bem recebidos pela crítica. Sirāt, vencedor do Prêmio do Júri em Cannes, é um filme espanhol que acompanha a jornada de um pai e seu filho em busca da filha desaparecida em um deserto, cenário de estranhas raves. Já na sequência inicial, durante os créditos, somos apresentados à paisagem sonora do filme, com músicas que o próprio longa define como “não para ouvir, mas para dançar”. A narrativa explora o isolamento do deserto em contraste com festas lotadas, cheias de pessoas conectadas entre si. O deserto já foi amplamente explorado no cinema, lembrado sobretudo pela saga Mad Max. Embora Sirāt não apresente grandes inovações nesse imaginário, ainda consegue entregar elementos visuais interessantes, especialmente pela fotografia, que reforça a vastidão do deserto em contraposição aos pequenos personagens, sobretudo quando eles se afastam da multidão. Divulgação O grande problema de Sirāt, em minha perspectiva, está em sua história. A premissa, simples mas promissora, um pai e um filho em busca da filha desaparecida, acaba se esgotando rapidamente, mantendo-se nesse único eixo narrativo enquanto os personagens atravessam o deserto rumo a uma nova rave. O filme tem momentos cativantes, mas eles surgem apenas quando a trama já se encaminha para o final. Apesar de vendido como um thriller tenso, a experiência é, na maior parte do tempo, entediante até chegarmos aos últimos 30 minutos. O título, traduzido nos instantes iniciais, vem do árabe e significa uma ponte erguida sobre o inferno, pela qual as pessoas devem passar de acordo com suas ações. Após assistir ao filme, é fácil entender a metáfora proposta pelo diretor, mas a ideia não é bem desenvolvida ao longo da narrativa. A falta de contexto sobre os personagens torna seus dilemas pouco envolventes, problemas que soam como “white people’s problems,” e até a busca pela filha desaparecida perde impacto, a ponto de eu não me importar se ela seria encontrada ou não. Apesar de sua riqueza visual e sonora, Sirāt é um filme vazio, com apenas um esboço de mensagem. Mais uma tentativa de uma perspectiva europeia de se aproximar da experiência dos imigrantes, que novamente falha em estabelecer uma conexão genuína. Nota: 2/5
- Crítica | Sentimental Value (TIFF 2025)
Trier faz da memória o grande palco Divulgação O vencedor do Grand Prix de Cannes 2025 retrata a conturbada dinâmica entre o renomado diretor norueguês Gustav Borg e suas duas filhas. Após a morte da ex-esposa, Borg retorna à vida delas e oferece a Nora, uma de suas filhas, o papel principal em seu primeiro filme em quinze anos. Diante da recusa, ele decide escalar uma atriz norte-americana de grande popularidade, Rachel Kamp, gesto que aprofunda ainda mais o abismo na já frágil relação familiar. Ao encerrar sua “era brat”, Charli XCX fez diversas alusões a quem poderia ocupar o mesmo espaço de impacto cultural que ela teve no verão de 2024. A frase que acabou na boca do público cinéfilo foi: “Joachim Trier Summer”. Em uma lista que incluía nomes como Cronenberg, Ari Aster, Aronofsky e Celine Song, a sensibilidade presente nos trabalhos anteriores do diretor norueguês fez a internet elegê-lo como o escolhido para representar o verão do hemisfério norte, mesmo sem que ninguém ainda tivesse assistido ao filme, cujo lançamento nos cinemas só aconteceria no outono. Depois de ver o longa, posso afirmar que, apesar de não considerar Trier a melhor escolha para o “cargo”, especialmente em um ano de grandes surpresas como Eva Victor, Sentimental Value é um filme poderoso, capaz de marcar a vida de muitos adolescentes que provavelmente moldarão suas personalidades e escolhas a partir dele. Um dos grandes acertos do diretor, que já é uma marca de seu cinema, é a maneira como mistura ilusão e realidade. Elementos visuais e o próprio texto do filme exploram sua experiência como cineasta e roteirista, mostrando que o processo criativo de um artista vai além do entretenimento: é também uma forma de se expressar no mundo. Divulgação Depois da memorável sequência de A Pior Pessoa do Mundo, na qual a personagem de Renate Reinsve percorre a cidade enquanto todos ao redor estão paralisados em busca de seu “par perfeito”, era inevitável esperar que o diretor trouxesse novas imagens impactantes. E ele não decepciona. Desta vez, o elemento central não é um personagem humano, mas sim a casa onde as protagonistas viveram a infância. Um espaço carregado de memórias, pertencente à família há gerações, e onde o patriarca deseja filmar seu novo filme. A casa funciona como personagem viva, protagonizando várias sequências de tirar o fôlego. O elenco reúne rostos familiares no universo de Trier. Reinsve interpreta Nora, a protagonista, uma atriz que trabalha em peças de teatro; Anders Danielsen Lie surge novamente, agora como um dos atores da peça; e Inga Ibsdotter Lilleaas estreia em sua filmografia no papel da irmã de Nora, que atuou ainda criança em um dos filmes do pai, mas nunca seguiu carreira. O patriarca é vivido por Stellan Skarsgård, em uma atuação que ganha cada vez mais peso ao longo da narrativa. Há também a presença marcante de Elle Fanning como a estrela hollywoodiana em busca de um papel “sério”, o que acrescenta ao filme uma quantidade significativa de diálogos em inglês, incomum nas obras do diretor. O roteiro, no entanto, fragmenta-se em núcleos que limitam seus personagens e interações. Em alguns momentos, o espectador se vê perdido quanto à perspectiva que está sendo acompanhada no longa como um todo. Sem dúvida, as passagens mais cômicas e carismáticas vêm da relação entre Skarsgård e Fanning, embora essa não seja a trama central. O filme se divide tanto que, às vezes, esquecemos determinados personagens, enquanto em outros pontos ansiamos para que certo núcleo volte a dominar a tela. Ainda assim, mesmo tratando diretamente do cinema, contrapondo o olhar europeu e o norte-americano, além de ironizar influenciadores, streamers e atores-produtores, o roteiro foge de clichês previsíveis, nunca deixando-nos adivinhar onde vamos a seguir. Sentimental Value honra a filmografia de Joachim Trier, sustentando a enorme expectativa criada por fãs e curiosos em torno do conceito de “Joachim Trier Summer”. O diretor mantém sua câmera fluida e elegante, e conduz um elenco que interpreta com brilhantismo personagens que, dentro da diegese, nem sempre são bons atores. O único deslize está na falta de uma narrativa principal claramente definida: a sensação é de que Trier só percebeu, já na montagem, que Skarsgård era o verdadeiro protagonista, deixando as costuras do filme um pouco mais visíveis ao olhar atento. Nota: 4,5/5
- Entrevista | “Esse filme era muito mais sobre a xepa”: Felipe Joffily e Pedro Wagner falam sobre o filme “O Rei da Feira”
Em entrevista ao Oxente Pipoca, diretor e ator falam como o filme mescla comédia, drama e mistério, e se constrói a partir de um processo colaborativo intenso entre elenco e equipe. Divulgação O Rei da Feira, novo longa de Felipe Joffily, estreia nos cinemas de todo o Brasil no dia 04 de setembro. A trama acompanha o assassinato de Bode (Pedro Wagner), um feirante que é morto logo depois de ganhar uma grande bolada no jogo do bicho. Para solucionar o crime, ele volta como espírito, porém está com amnésia alcoólica e não se lembra de quem o matou. A investigação fica a cargo de Monarca (Leandro Hassum), seu amigo com dons mediúnicos que atua como segurança da feira e que, a contragosto, acaba formando uma dupla com o espírito, a fim de descobrir quem o matou. O Oxente Pipoca entrevistou Felipe Joffily e Pedro Wagner, onde discutiram o processo criativo por trás de O Rei da Feira. Joffily destacou a importância de olhar a feira a partir da perspectiva dos feirantes, explorando a dureza, a cultura e a poesia que existem por trás da xepa, evitando a tentação de reduzir a narrativa a uma comédia leve sobre fregueses e cores vibrantes. Já Pedro Wagner comentou sobre sua parceria com Leandro Hassum, marcada por química e improviso, ressaltando que o filme nasceu de um processo coletivo intenso, com ele, Hassum e o preparador Felipe construindo juntos a dinâmica em cena. Caio Augusto (Oxente Pipoca): Primeiramente, Felipe, queria fazer inicialmente uma pergunta para você, que é sobre o personagem que é a feira, né? Você tem ali como um universo particular, que existe no filme. Na feira, a gente vê quase como uma orquestra popular. Cada feirante tem sua voz, tem as disputas, cada freguês tem seu papel. Eu pergunto: como foi criar esse espetáculo do cotidiano e trazer para o cinema de forma tão particular? Felipe Joffily: Não foi cedo que eu percebi isso, confesso. Foi a partir das leituras e dos estudos para a pesquisa do filme que entendi que não podia cair na tentação inicial de acreditar que a obra era sobre a feira do ponto de vista do cliente ou freguês. Esse filme era muito mais sobre a xepa do que sobre aquele momento colorido e bonito que a gente, como consumidor, costuma enxergar. Era sobre o que está por trás disso: as três, quatro da manhã, quando tudo começa. Não havia muitas cenas com fregueses, quase só com feirantes. Por isso precisei de cuidado e, sobretudo, humildade para me colocar do lado de lá do balcão, algo difícil para alguém com tantos privilégios. Reconheço que tive ao menos a sensibilidade de perceber que não era sobre mim, nem sobre meu olhar, mas sobre fazer essa subversão de papéis. Precisava dividir isso com os colegas, especialmente os atores, porque eram eles que dariam vida às pessoas desse outro lado. Houve resistência, já que existe uma pressão natural de fazer uma comédia colorida. É comum olhar para o filme e pensar: “Ah, é sobre uma feira com Leandro Hassum”. Mas não era isso. O filme falava de muita gente, de uma vida dura, de um lugar culturalmente rico. Por isso eu via Jorge Amado ali, via ecos de Fellini, e não era por acaso. Claro, alguns achavam estranho: “Como assim, você tá me trazendo Jorge Amado e Fellini?”. Mas não se tratava de comparação. Pelo contrário, eu olhava para a obra deles como aprendizado, para entender o processo de observação da natureza humana que eles alcançaram. Isso deu ao filme sua cor, ou melhor, sua tinta, porque ela é a matéria bruta que depois se transforma em cor. E eu tinha essa sensação: o vermelho do sangue, a lona amarela, a ferrugem das paredes, a cor das pessoas. Aos poucos, elas foram dando vida a tudo isso. Me sinto feliz de ter contribuído nesse sentido, embora, por estar em um lugar privilegiado, eu não consiga enxergar tudo. É o público que me ajuda a continuar aprendendo. A primeira audiência foi muito positiva, ainda que uma pré-estreia seja sempre mais amigável, já que todos são convidados. Mas o processo é minucioso: enquanto montamos, estamos sempre olhando e refletindo. Agora é esperar, torcer para que as salas encham e que a gente receba esse feedback. Só assim vai valer." Caio Augusto (Oxente Pipoca): Me chama muito a atenção no filme a relação e a dinâmica com o personagem do Hassum. Existe um carisma particular e uma troca muito interessante entre vocês, ainda mais quando entra o arco em que um está vivo e o outro morto. Essa dinâmica é divertida e funciona muito bem. Queria saber como foi, para você, interpretar esse personagem dentro do gênero da comédia. Foi uma novidade ou você já tinha experiência em outros trabalhos de comédia? Pedro Wagner: Olha, Caio, eu já tinha trabalhado com o Leandro antes. Ele, inclusive, foi um dos responsáveis por eu ter ido parar em O Rei da Feira, porque fizemos uma série juntos. Quando chegamos no filme, eu sempre dizia para ele e para o Felipe que não me sentia com todas as ferramentas, mas que era alguém atento e que gostava do jogo entre atores. Eu sou um ator para jogar, para brincar e transformar o brincar em profissão. Claro, o brincar mais sério do mundo, porque um set é como um front: uma luta contra o tempo e contra mil intempéries. Acho que no filme isso aparece mesmo, existe uma química, uma energia entre mim e o Leandro que vem também da coxia. Nós dois somos uma matraca, não paramos de falar, e levávamos essa energia para cena. Eu acredito muito em processo, e esse foi um dos processos mais lindos que já vivi. É algo que não se esquece, porque o resultado é sempre consequência do processo, desde as leituras, os ensaios, até a filmagem. Esse reencontro com o Leandro, dividindo mais tempo de tela e o co-protagonismo, foi muito especial. Mas eu sempre digo que não éramos só uma dupla, e sim um trio, porque o Felipe fez parte de tudo fundamentalmente. Ele estava em todos os ensaios conosco. Muitas vezes, em outras produções, o diretor nem participa dos ensaios, mas nesse caso era sempre eu, o Leandro e o Felipe. Isso criou uma dinâmica de trinca, um bate-bola a três, que trouxe muita força ao filme O Felipe também ama o set, gosta de estar ali. Eu até brincava dizendo que, se pudesse, o Leandro morava no set, de tanto que ele se sente à vontade naquele ambiente. E acho que toda a equipe tinha essa energia, desde a produção até todo mundo que estava junto. Divulgação Caio Augusto (Oxente Pipoca): Me chamou atenção já na primeira parte do filme que, mesmo sendo uma comédia, ele mescla gêneros de forma surpreendente. Logo no início há a inserção do fantástico e, na virada para a segunda parte, entra o mistério. Isso já estava construído no roteiro ou foi um trabalho em conjunto? Como foi trazer esses subgêneros de maneira clássica, tendo o Hassum como personagem central transitando entre o fantástico e o mistério? Felipe Joffily: Talvez esse seja o maior barato do filme, e isso não tem a ver diretamente comigo, mas com o trabalho do Gustavo, o roteirista. Ele é muito criativo, cheio de repertório, e nossas conversas sobre referências, sobre o que já se viu ou leu, foram muito ricas. Eu entro como intérprete do que ele escreve e, talvez, traga para ele o entusiasmo da leitura, o que também tem grande valor para um roteirista. Nesse sentido, funcionamos muito bem. E claro, tudo isso com o olhar da Patrícia, produtora, que soma ao grupo de trabalho. O texto já traz muita criatividade, e o desafio é não resistir a isso, nem tentar podar ou traduzir demais. Para parte da equipe, a leitura parecia difícil, gerava muitas dúvidas: “Você tem certeza disso? Não estou entendendo nada”. Afinal, logo de cara já temos uma criança com dom paranormal, a falência da mãe, um roubo de pastel na feira e até a aparição de um soldado japonês. Imagina ler isso! Se assistir já é complexo, ler é mais ainda. Mas eu acredito que o público está mais habituado, e por isso é o menor dos problemas. Meu esforço foi preservar essa criatividade e entender a estrutura do filme, que é relativamente complexa. O Hassum também ajudou muito, porque é um ator vivo, presente, capaz de transitar por gêneros sem julgamentos. Isso favoreceu o resultado. No fim, o filme é justamente um somatório de coisas. Se o momento é de drama, entramos no drama; se é de fantástico, estamos no fantástico; se é de mistério policial, seguimos por aí. O importante é manter o bom humor e colocar comicidade nisso tudo, aproveitando o talento do elenco. Esse cruzamento entre gêneros, essa “surfada” pela história, exigiu que elenco e equipe também estivessem livres e à vontade. Espero ter conseguido. Pelo menos na realização, sinto que tive essa oportunidade. Caio Augusto (Oxente Pipoca): Por fim, temos uma tradição no Oxente Pipoca de pedir que vocês indiquem algum filme do cinema brasileiro que gostem, além de Paterno, é claro, para que nossa audiência possa assistir e conhecer outras obras. Felipe Joffily: Eu sempre digo Rio, Zona Norte. Sempre que me pedem um filme brasileiro, falo desse. Foi o que me marcou, porque até então eu era muito voltado para o cinema americano. Só na faculdade descobri a cinematografia brasileira e fui entendendo, aos poucos, que o mundo era muito maior do que eu imaginava. Rio, Zona Norte me tocou profundamente. É um grande drama, com flashbacks, cultura popular, música, personagens fortes. Inclusive, o protagonista me lembra de certa forma o personagem do Bode. Para mim, é uma referência para a vida inteira: Nelson Pereira dos Santos, Rio, Zona Norte. Pedro Wagner: Para mim, seria qualquer filme do Sganzerla. Mas, se for para citar um, digo o óbvio: O Bandido da Luz Vermelha.
- Lista | Os filmes da franquia “Invocação do Mal”, ranqueados
Do maravilhoso à bomba nuclear, o ranking dos filmes que marcaram o gênero do terror na última década. Imagem: Divulgação Com a estreia de Invocação do Mal 4: O Último Ritual nesta quinta-feira (4), o já consagrado universo criado por James Wan ganha um novo capítulo em sua trajetória de terror sobrenatural. Iniciado em 2013 com o primeiro longa, o chamado “Invocaverso” rapidamente se consolidou como uma das franquias mais lucrativas e consistentes do gênero, acumulando bilhões de dólares nas bilheteiras globais e estabelecendo uma mitologia própria, centrada nas investigações paranormais do casal Ed e Lorraine Warren. Ao longo dos últimos anos, a franquia expandiu suas fronteiras com derivados que exploram entidades marcantes apresentadas nos filmes principais, como Annabelle (2014), A Freira (2018) e A Maldição da Chorona (2019), construindo um mosaico de histórias interligadas que dialogam entre si. Cada produção, ainda que independente, reforça o caráter quase enciclopédico desse universo, que se desdobra em diferentes épocas e locais, mas sempre mantendo como fio condutor o confronto com as atividades demoníacas que passaram pela vida dos Warren. Diante da chegada de um quarto longa-metragem da linha principal, é o momento perfeito para revisitar toda essa trajetória cinematográfica. A seguir, apresento um ranking que organiza, do menos inspirado ao mais memorável, todos os filmes que compõem o universo Invocação do Mal (na minha humilde opinião, claro). 9) A Freira (2018) Imagem: Divulgação Na cronologia do Invocaverso, o primeiro filme é A Freira (2018), que se passa na Romênia em 1952 e mostra a origem do demônio Valak. Apesar da ideia promissora e de uma ambientação sombria que tinha tudo para render bons sustos, o longa acaba sendo o pior da franquia. A história é fraca, mal aproveita a vilã e não desenvolve direito personagens importantes, como a Irmã Irene, cuja motivação para entrar na missão com o Padre Burke praticamente não existe. O clima pesado da abadia poderia ter criado um suspense crescente e jumpscares memoráveis, mas nada disso funciona. No fim das contas, é um filme raso, mal planejado e cansativo, daqueles que você sofre para terminar. Nota: 1.5/5 8) A Freira 2 (2023) Imagem: Divulgação Um pouco melhor que seu antecessor, A Freira 2 (2023) ainda deixa muito a desejar. Na cronologia do Invocaverso, ele aparece como o terceiro filme, ambientado em 1956, quando a Irmã Irene retorna para enfrentar novamente o demônio Valak. O problema é que o roteiro é de um tédio sem fim: sem enredo, sem coesão e bem distante da sequência que foi prometida. O resultado é praticamente uma cópia do primeiro longa, repetindo a mesma fórmula de sustos sem muito sentido. O que acaba salvando um pouco a experiência são os efeitos práticos e visuais bem feitos, uma ambientação mais caprichada e uma boa cena de possessão — mas, fora isso, o filme é só mais do mesmo. Nota: 1.5/5 7) A Maldição da Chorona (2019) Imagem: Divulgação A Maldição da Chorona (2019), dirigido por Michael Chaves, que depois assumiria de vez a franquia no lugar de James Wan, até tenta trazer frescor ao Invocaverso, mas tropeça feio. Ambientado em Los Angeles, em 1973, o filme se conecta ao universo apenas de forma lateral, com a presença de um padre já visto em Annabelle. A trama gira em torno da lenda da La Llorona, a mulher que, após afogar os próprios filhos, passa a vagar chorando e perseguindo outras crianças. Apesar da força cultural desse conto popular, o roteiro entrega uma versão pasteurizada e cheia de clichês, que desperdiça o peso da história original. Linda Cardellini se destaca como protagonista e consegue segurar o filme, mas ainda assim ele soa como uma oportunidade perdida colossal: uma boa ideia que perdeu completamente a alma no processo. Fica à frente da duologia A Freira só pelo carisma da atriz, mas não deixa de ser mais um dos pontos fracos da franquia. Nota: 2/5 6) Annabelle (2014) Imagem: Divulgação Annabelle (2014) se passa em 1967 e mostra como a boneca acabou servindo de receptáculo para uma entidade demoníaca após um ritual satânico que manchou sua história para sempre. O filme até começa bem, com uma meia hora inicial interessante, mas logo se entrega a todos os clichês possíveis do gênero, sem conseguir manter a tensão. E isso pesa ainda mais porque Annabelle, a verdadeira diva do Invocaverso, já tinha se tornado um ícone do terror e da cultura pop, mas seu primeiro filme solo não faz jus a essa fama. A direção é pouco inspirada, o roteiro confuso e a trama parece se apoiar demais em referências a outros filmes melhores, sem nunca alcançar o nível de Invocação do Mal. Apesar de ter uma produção caprichada, com boa fotografia, design de produção e trilha sonora, a história é arrastada, os personagens são genéricos e sem vida, e o resultado é um terror raso, cheio de sustos baratos. Annabelle tinha tudo para ser grande, mas acabou ficando só no “poderia ter sido”. Nota: 2.5/5 5) Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio (2021) Imagem: Divulgação É impossível ignorar que Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio (2021) faz parte de um universo já consolidado, mas o resultado fica longe do brilho dos dois primeiros filmes. A trama resgata um dos casos mais curiosos dos arquivos dos Warren, a primeira vez nos EUA em que a possessão demoníaca foi usada como defesa em um julgamento de assassinato, e começa muito bem, com uma abertura forte e sombria. Porém, sob a direção de Michael Chaves, o filme rapidamente perde fôlego, abusando de sustos fáceis, se dispersando em múltiplas histórias paralelas e entregando um clímax fraco. O foco maior em maldições do que em uma atmosfera demoníaca deixa tudo ainda menos marcante. Apesar de Patrick Wilson e Vera Farmiga continuarem ótimos e o longa oferecer uma visão mais íntima do relacionamento dos Warrens, o resultado final é irregular. Se a franquia fosse uma série de TV, A Ordem do Demônio seria aquele episódio obrigatório para seguir a trama, mas que você assiste sem muito entusiasmo. Nota: 3/5 4) Annabelle 2: A Criação do Mal (2017) Imagem: Divulgação Annabelle 2: A Criação do Mal (2017), situado em 1955, mostra como a boneca foi possuída por uma entidade demoníaca, conectando-se diretamente aos eventos dos filmes seguintes. Ambientado em um orfanato, o longa traz bons personagens, um ponto de vista diferente sobre os sustos e uma direção eficiente de David F. Sandberg, que sabe brincar com a atmosfera sombria e oferecer algumas referências interessantes aos fãs da série. Surpreendentemente mais assustador que seu antecessor, mistura tom e artifício de forma eficaz, entregando exatamente o que se espera de um terror competente. Ainda recorre a truques já bem conhecidos, como crianças fantasmagóricas surgindo nas sombras, mas consegue equilibrar momentos genuinamente tensos com toques de humor, garantindo sustos bem executados e uma narrativa mais envolvente. É uma sequência sólida que supera o primeiro filme, mesmo sem alcançar a sofisticação dos trabalhos de James Wan no Invocaverso. Nota: 3/5 3) Annabelle 3: De Volta para Casa (2019) Imagem: Divulgação Annabelle 3: De Volta para Casa (2019) se passa em 1972 e coloca Judy, a filha dos Warrens, no centro da trama. Enquanto os pais estão ausentes, a jovem precisa enfrentar as forças malignas presas no museu de artefatos assombrados da família, incluindo, claro, a própria Annabelle. É quase como um “multiverso” da franquia, reunindo várias entidades já vistas, mas dentro de um espaço único e muito pouco explorado até então: a casa dos Warren. O filme bebe bastante da fonte do slasher, ainda que dentro do terror sobrenatural, e se destaca pelo protagonismo de Mckenna Grace, que segura bem a história. Mais do que assustar, a proposta aqui é divertir, e o longa consegue isso ao usar uma narrativa simples para construir tensão de forma cuidadosa, sem cair na armadilha de sustos fáceis ou piadinhas fora de hora. A sala de relíquias é um prato cheio e finalmente ganha o destaque que merecia, mesmo que o ato final pese um pouco pela quantidade de eventos. Ainda assim, Annabelle 3 é um dos capítulos mais sóbrios e equilibrados dos derivados: divertido, eficiente e fácil de recomendar, tanto para quem busca um encontro sobrenatural envolvente quanto para fãs do Invocaverso, que encontram aqui um dos derivados mais redondos e bem resolvidos da franquia. Nota: 3.5/5 2) Invocação do Mal 2 (2016) Imagem: Divulgação Invocação do Mal 2 (2016) muda a ambientação para Londres e mostra que James Wan ainda estava em plena forma. Ambientado em 1977, o filme acompanha Ed e Lorraine Warren viajando ao Reino Unido para ajudar uma mãe solteira e suas filhas atormentadas por uma presença maligna. A trama também marca a segunda aparição de Valak, o demônio freira, que apesar de ser uma adição icônica, acaba enfraquecendo a narrativa do meio pro final. É verdade que o filme perde um pouco da frieza e do impacto do primeiro por conta da familiaridade, mas o que sobra é uma história de fantasma muito bem contada, cheia de habilidade para arrepiar. O grande destaque fica com o carisma da dupla protagonista e, especialmente, a melhor atuação de Vera Farmiga em toda a franquia. Pode não ser tão assustador quanto o original, mas é um feijão com arroz feito com muito capricho, e uma sequência de terror exemplar, do tipo que deveria servir de modelo para tantas outras. Foi aqui que o Invocaverso se consolidou de vez como uma das franquias mais fortes do gênero. Nota: 4/5 1) Invocação do Mal (2013) Imagem: Divulgação Um verdadeiro cultural reset do terror sobrenatural, Invocação do Mal (2013) é o filme que deu início à franquia e trouxe de volta o fôlego a um gênero que parecia saturado. Ambientado em 1971, acompanha Ed e Lorraine Warren investigando a casa assombrada da família Perron, introduzindo os demonologistas ao público e abrindo as portas para todo o universo que viria depois. James Wan está inspiradíssimo, entregando uma direção sofisticada, com planos de câmera que são um deleite para a construção da tensão. O elenco inteiro funciona, das atuações intensas dos protagonistas até o brilho das crianças, que tornam a trama familiar ainda mais emocionante. O filme não reinventa a roda, mas entrega exatamente o que se espera de uma boa história sobrenatural, com peso dramático e atmosfera arrepiante. É o clássico definitivo da década no gênero, e ainda hoje continua sendo o maior destaque do Invocaverso. Nota: 4.5/5
- Crítica | Pedágio (TIFF 2023)
Um instigante olhar pro Brasil que ninguém quer ver Foto: divulgação Dizem que tudo o que o ser humano faz, cada passo que damos, cada ação decidida, é em busca de ser feliz. Tem, sim, muito de verdade nessa afirmação, mas ela desconsidera uma parte significativa da sociedade: as mães. Porque tudo que uma (boa) mãe faz, cada passo que dá, cada ação decidida, é em busca da felicidade de seu filho. Mas tem uma característica específica que as mães dividem com os meros humanos: todos erram. Mesmo tentando acertar. E é assim que se dá a premissa de Pedágio, novo filme da premiada diretora Carolina Markowicz, que estreou no Festival Internacional de Toronto e que nós do Oxente, Pipoca? já tivemos o privilégio de assistir. Suellen, interpretada pela sempre divina Maeve Jinkings, é uma mãe solteira que abdicou de suas ambições para conseguir prover para sua pequena família, formada por ela e por Tiquinho (Kauan Alvarenga). Suellen se contenta com um emprego ruim e uma vida sem perspectiva, tendo como únicos prazeres a fofoca diária com Telma (Aline Marta Maria) e o sexo com Arauto (Thomás Aquino). Em troca de seus sacrifícios, visa apenas o bem do filho. Porém, os dois discordam do que seja isso. Tiquinho é um adolescente gay, que encontra dificuldades para se libertar numa cidade aprisionadora, na qual nem sua mãe ou seu melhor amigo o aceitam totalmente. Só tem uma pessoa que o entende: ele mesmo. Então ele vive de performance, aprendeu, como que num instinto de sobrevivência, a caminhar entre o feminino e o masculino conforme pede o contexto. Fora de casa é um menino tímido, acanhado. Mas quando sozinho transforma o banheiro em estúdio iluminado e, com a maquiagem da mãe, vira quem sonha em ser. Numa busca por se afirmar, para si e para o mundo, grava em seu celular e transmite para quem quiser ver as dublagens que faz de divas internacionais. A mãe reza para o menino se “curar”, mas essa cura não está vindo rápido o suficiente – principalmente quando Telma vive a pressionando com seu falso moralismo cristão. Suellen, então, aceita mais um sacrifício para salvar seu filho. Foto: divulgação É quando o roteiro tenta introduzir uma dose de ação, resultando num clímax aquém do que se é construído. A premissa é suficientemente envolvente sem a necessidade de um conflito tão pomposo quanto o que se propõe – e o filme sabe disso, utilizando a maior parte dos seus 101 minutos no drama dos protagonistas, deixando esse (sub)plot corrido e mal desenvolvido. Esse tropeço no roteiro, no entanto, não ofusca sua sensibilidade, muito bem representada pela sutil fotografia de Luis Armando Arteaga e a arte de Vicente Saldanha, que trazem o toque de mágica ao mundano, bem como pelas envolventes atuações de Jinkings e Alvarenga, que interpretam com louvor os diálogos cheios de camadas de uma relação cheia de conflitos, contradições e amor. Como de se esperar, o que segue com a gente enquanto rolam os créditos é a força da relação entre mãe e filho e a garra de Tiquinho por ser quem é. Pedágio consolida a ainda breve porém já fascinante filmografia da diretora e roteirista como um olhar para o Brasil invisível. Assim como em Carvão (lançado ano passado no mesmo festival), o segundo longa de Markowicz dá protagonismo ao que para muitos é segundo plano – seja a atendente do pedágio que perdura na nossa vida por 30 segundos para imediatamente ser esquecida, seja as gigantescas chaminés industriais que não nos arrancam nem um segundo olhar nas estradas do interior do país. É nessa busca pela arte no cotidiano brasileiro sem romantizações ou clichês que Carolina vem criando sua autoria. Não lhe escapa, porém, os defeitos desse mesmo Brasil. Ao mesmo tempo que encontra beleza no ordinário, ela nos prova ser possível criticar a hipocrisia dessa sociedade que vive de fachadas e máscaras, essas, sim, muito mais perigosas e dignas de vergonha que as de Tiquinho. É nessas contradições – entre certo e errado; entre fins e meios; entre aceitar e compreender – que está a riqueza do filme. Nota: 4/5
- Lista | As 30 Melhores Séries Disponíveis na Netflix
A gigante do streaming possui excelentes séries no catálogo, sejam originais ou não. Divulgação A quantidade de produções nos streamings aumenta cada dia mais, embora haja remoções e cancelamentos, sempre está chegando novo conteúdo (risos) e é até difícil saber o que escolher. Apesar da Netflix estar fazendo excelentes minisséries como frisamos aqui, a lista será focada unicamente em séries, clássicas, recentes ou menos conhecidas, mas acima de tudo, com qualidade. Não foi um trabalho fácil, muita coisa boa acaba ficando de fora e o rascunho inicial estava com 50 títulos, para vocês terem uma ideia. Então, alguns critérios precisam ser adotados, como colocar apenas séries que já foram encerradas – sem Stranger Things, por exemplo. Tentei colocar algo do Brasil, mas as séries originais nacionais desandaram feio em algum ponto, como Bom Dia Verônica, que teve duas ótimas temporadas e uma última completamente intragável. Vamos à lista e escolhas têm que ser feitas: Inicialmente, algumas menções honrosas: Bloodline, Dix Pour Cent, Big Mouth, Heartstopper. Divulgação 30) Parenthood (2010-2015) Baseada no filme O Tiro que Não Saiu Pela Culatra (1989), foi exibida na NBC e acompanha a família Braverman entre suas alegrias e tristezas por seis ótimas temporadas. Fãs de This is Us não podem perder este belo drama familiar, mas que não deixa o humor de lado, criado por Ron Howard e estrelado por nomes como Peter Krause e Lauren Graham. Divulgação 29) Narcos (2015-2017) Estrelada por Wagner Moura, Pedro Pascal e Boyd Holbrook, a série conta a história de Pablo Escobar, da sua ascensão e queda, bem como da propagação da cocaína nos Estados Unidos e Europa. São três ótimas temporadas, com as duas primeiras focadas nos agentes da DEA contra o Cartel de Medellín, liderado por Escobar, e uma terceira e última que tem como foco o Cartel de Cali. A produção tem uma narrativa muito envolvente e um dos maiores destaques é a entrega de Moura. Divulgação 28) Unbreakable Kimmy Schmidt (2015-2019) Criada por Tina Fey e Robert Carlock (de 30 Rock), narra a vida de Kimmy (Ellie Kemper) após ser resgatada de um cativeiro onde foi mantida por quinze anos com mais três moças. Agora, com 29 anos, ela precisa se adaptar à vida e ao novo mundo em Nova York. Com o humor característico carregado de sarcasmo de Fey e Carlock de piadas ágeis, várias referências, a cereja do bolo ainda é a presença de Tituss Burgess, Carol Kane e Jane Krakowski durante as 4 temporadas da série. Divulgação 27) The Good Place (2016-2020) Após morrer, Eleanor (Kristen Bell) vai parar no chamado Bom Lugar (o Good Place do título) e passa a primeira temporada inteira tentando entender como foi parar ali e escondendo que não era exatamente uma boa pessoa em vida. Um excelente ano de estreia, humor inteligente que aborda diversas questões do ser humano, os personagens carismáticos e uma reviravolta imprevisível que amarrava todas as pontas foram a chave para o sucesso. Nas temporadas posteriores, ainda continua boa, mas um pouco do encanto é perdido, com alguns altos e baixos. Até culminar no belíssimo episódio final, que é um dos melhores da TV. Divulgação 26) Orange is the New Black (2013-2019) Umas das primeiras séries originais da plataforma, é também uma das mais longevas. Por sete temporadas, Piper (Taylor Schilling) dividiu seu protagonismo com tantas outras detentas de uma prisão de segurança mínima no interior do estado de Nova York. Uma das séries mais diversas da televisão, soube equilibrar humor e drama brilhantemente por quatro temporadas, derrapou na 5ª e 6ª e se recuperou no ano final. Com muitos mais altos do que baixos, a importância de OITNB não deve ser negada, e muito menos sua qualidade. Divulgação 25) Dark (2017-2019) Uma das melhores séries originais da Netflix, parte de uma premissa clichê: criança desaparece em uma cidade pequena. Mas isso é só a ponta do iceberg para uma emaranhado de ficção científica envolvendo viagens no tempo e linhagens familiares, em uma trama que explodiu cabeças por três temporadas e nos fez teorizar por um bom tempo sobre o que estava acontecendo na cidadezinha de Winden, interior da Alemanha, terminando de uma maneira emocionante, amarrando a maioria das pontas soltas e honrando os personagens. Divulgação 24) Girls5Eva (2021-2024) 20 anos depois de fazerem sucesso com uma única música, um grupo musical decide tentar um retorno, mas as coisas estão bem diferentes de quando eram jovens. Também produzida por Tina Fey e Robert Carlock, a série segue a linha do humor habitual de suas séries brincando com estereótipos, mesmo não sendo criação deles. As quatro protagonistas são ótimas, com um baita timing cômico, principalmente Renné Elise Goldsberry, que é um destaque absoluto aqui. Uma vez que você se adapta, é de chorar de rir por três temporadas. Divulgação 23) House, MD (2004-2012) Primeira série clássica da lista, acompanhamos o excêntrico Dr. Gregory House, em uma performance irretocável de Hugh Laurie, e sua equipe investigando e diagnosticando doenças difíceis de serem identificadas. É uma releitura de Sherlock Holmes de oito temporadas, onde a qualidade é alta por pelo menos cinco delas, com casos instigantes, texto afiado e extremamente ácido. Nos últimos três anos há bem mais oscilação nos episódios, mas com alguns ainda excelentes, incluindo o final. Para quem gosta de dramas médicos, é imperdível, e diferente de produções como Grey’s Anatomy ou The Pitt, por exemplo. Divulgação 22) Eu Nunca… (2020-2023) Depois de um ano traumático, Devi (Maitreyi Ramakrishnan), uma adolescente de ascendência indiana, está determinada a mudar seu status social na escola e a conquistar o garoto dos seus sonhos. Criada por Mindy Kalling, uma das melhores séries teens dos últimos anos, consegue equilibrar o humor e o drama com mestria em episódios de 30 e poucos minutos, sabendo trabalhar bem os clichês do gênero enquanto aborda o choque cultural dos Estados Unidos com as tradições indianas. É muito bem escrita e Devi, como qualquer outra adolescente normal, vai te fazer amá-la e odiá-la na mesma medida por quatro ótimas temporadas, enquanto navega pelas suas amizades, dramas familiares e amorosos. Divulgação 21) The Crown (2016-2023) Inspirada em eventos históricos reais da vida da Rainha Elizabeth II, a série passa por diversos estágios, de sua juventude à velhice. O elenco mudava a cada duas temporadas e nas duas primeiras, foi interpretada por Claire Foy, na 2ª e 4ª por Olivia Colman e nas duas últimas por Imelda Staunton. O drama político e familiar tomou conta da caríssima produção, que não quis ficar devendo em nada ao luxo da família real. A 4ª temporada venceu o Emmy de Melhor Drama, e depois disso a série perdeu um pouco do encanto na 5ª e 6ª temporadas, com o texto ficando mais engessado, mas não apaga o que foi construído anteriormente com muita capacidade. Divulgação 20) Sex Education (2019-2023) Otis (Asa Butterfield) é filho da terapeuta sexual Jean (Gillian Anderson, sempre espetacular) e resolve repassar o que aprendeu com a mãe aos seus colegas, abrindo uma clínica clandestina com Maeve (Emma Mackey) na escola. Estreou quietinha, mas não demorou muito para fazer burburinho graças a uma trama cativante, personagens únicos e carismáticos – sim, Eric e Aimee – e um texto esperto que passeava pelo drama e pelo humor com facilidade, trabalhando assuntos delicados considerados tabus de uma maneira orgânica, sem esquecer dos típicos causos adolescentes que fizeram o gênero famoso. Assim foi por três temporadas, até decair na 4ª e última ao trazer chatíssimos personagens novos e esquecer dos ótimos antigos. Divulgação 19) The Office (2005-2013) Uma equipe de documentário acompanha o cotidiano dos empregados de uma fábrica de papel e seu chefe, o inigualável sem qualquer sombra de noção Michael Scott, imortalizado pelo genial Steve Carell. A sinopse não é segredo para ninguém, porque a série é uma das mais populares da lista, e eu digo que não é à toa. Depois do piloto, a narrativa vai em crescente e o humor, que já está afiado - e ousado - desde o segundo episódio, acompanha esse avanço. São nove temporadas e a falta que Carell faz é muito sentida, sem dúvidas, mas ainda vale chegar até o fim acompanhando Pam (Jenna Fischer), Jim (John Krasinski), Dwight (Rainn Wilson) e cia. Divulgação 18) Peaky Blinders (2013-2022) Em 1919, a gangue de Birmingham é liderada por Tommy Shelby (Cillian Murphy), um impiedoso criminoso que está determinado a conquistar o mundo pós-Primeira Guerra a qualquer preço. Eu sei que muita gente vira a cara por causa dos fãs devotos da série, mas de fato, ela é ótima. A ambientação é um espetáculo e mesmo que a figura do anti-herói não seja novidade para ninguém, o roteiro consegue desenvolver bem as camadas de Tommy e a fantástica performance de Murphy é crucial para isso. Além do protagonista, há diversos coadjuvantes que se destacam, sejam da família Shelby ou antagonistas e enriquecem bem a história que é dramática, tensa, política, imprevisível e embalada ainda por uma trilha sonora irretocável. Divulgação 17) Master of None (2015-2021) Criada e estrelada por Aziz Ansari, o Tom de Parks and Recreation, junto com Alan Yang, a série acompanha Dev e seu grupo eclético de amigos por Nova York, enquanto lidam com o amor, tabus sociais, carreiras e tantos outros temas da vida adulta. É uma comédia daquelas que também te emociona e é impossível não se identificar com algo que os personagens estão passando. O texto é muito bem escrito, contemporâneo, mas que comove ou vai te fazer rir em qualquer época. As duas primeiras temporadas são protagonizadas por Ansari, mas na 3ª e última, Lena Waithe assume as rédeas, conduzindo com a mesma qualidade de sempre. Divulgação 16) Derry Girls (2018-2022) Em meio aos conflitos políticos da Irlanda do Norte nos anos 1990, cinco estudantes enfrentam os desafios da adolescência. Esta é a premissa oficial da série que se tornou uma das melhores do gênero, não só teen, mas cômico também. O humor escrachado irlandês, junto com os personagens excêntricos e um elenco extremamente talentoso dão o diferencial aqui. Nicola Coughlan, que ficou mundialmente famosa por Bridgerton, é uma das cinco protagonistas, que brilham na comédia, mas em nada deixam a desejar no drama, porque se tem adolescente, tem drama, certo? Sim, mas essencialmente é uma comédia deliciosa de três temporadas impecáveis. Divulgação 15) Arcane (2021-2024) Em meio ao conflito entre as cidades-gêmeas de Piltover e Zaun, duas irmãs lutam em lados opostos de uma guerra entre tecnologias mágicas e convicções incompatíveis. Baseada no jogo League of Legends, a escolha de colocar o protagonismo em Jinx e Vi foi uma sacada de gênio, porque aumenta a carga dramática, sem esquecer da ação e estes fatores aliados aos visuais deslumbrantes, enriquecem ainda mais uma das melhores séries do gênero. A animação tem duas temporadas apenas, mas definitivamente deixou sua marca na TV. Divulgação 14) Ozark (2017-2022) Marty (Jason Bateman) é um consultor financeiro que está com a vida por um fio após alguns negócios darem errado. Para proteger a família, ele se muda para a região dos Ozarks, mas tudo se complica ainda mais. De início, é impossível não lembrar de Breaking Bad, mas logo a série mostra sua identidade própria. Com um ritmo intenso, as coisas vão dando errado para Marty como uma bola de neve e é impossível não ficar fisgado pela história e seus personagens. Além de Bateman, Laura Linney e Julia Garner também têm grande destaque e roubam a cena como Wendy e Ruth. As três primeiras temporadas são excelentes, mas a metade final da 4ª derrapa, se recuperando no último episódio e não colocando a perder tudo que o drama criminal teve de bom. Divulgação 13) Downton Abbey (2010-2015) O drama de época inglês acompanha a aristocrática família Crawley e seus empregados, enquanto tentam manter seu legado. Possui todos os elementos que um bom novelão precisa, como as intrigas, a fofoca, o romance, os jogos de poder e as reviravoltas, tudo isso orquestrado pelo texto afiado de Julian Fellowes (sim, mesmo criador de A Idade Dourada, da HBO) e com um elenco de primeira linha com nomes como Maggie Smith (como a extraordinária Lady Violet), Michelle Dockery, Hugh Bonneville, Dan Stevens e tantos outros talentos. São seis temporadas e um sucesso absoluto com mais dois filmes e um terceiro que será lançado ainda neste ano. Divulgação 12) Sex and the City (1998-2004) Durante seis temporadas, Carrie (Sarah Jessica Parker) e suas fiéis escudeiras Samantha (Kim Cattrall), Miranda (Cynthia Nixon) e Charlotte (Kristin Davis) falaram sobre sexo e tudo mais, abrindo portas na televisão para que outras personagens femininas também pudessem fazer o mesmo. Para além da revolução, é uma série divertidíssima de se acompanhar, dos temas mais fúteis aos mais sérios, o equilíbrio entre o drama e a comédia é um dos pontos mais altos, depois, claro, da química do elenco e da complexidade das protagonistas, que entre erros e acertos, são inteiramente humanas. Divulgação 11) Gilmore Girls (2000-2007) Lorelai (Lauren Graham) e Rory (Alexis Bledel) têm uma relação de mãe-filha diferente da maioria, até pela pouca idade que as separa, e isso é o que faz GG uma belíssima série sobre amadurecimento. Ambientada na pitoresca cidade de Stars Hollow, que é povoada pelas pessoas mais excêntricas da TV, a história criada por Amy Sherman-Palladino é um deleite de se assistir, com um texto absurdamente ágil carregado de referências pops (até da Xuxa elas falam), é incrível como todo aquele pequeno universo é construído, do que parece ser comum, mas cheio de personalidade. E eu nem mencionei a melhor das garotas Gilmore: a sensacional Emily (Kelly Bishop), mãe de Lorelai. Divulgação 10) Mindhunter (2017-2019) Dois agentes do FBI expandem as fronteiras da ciência criminal nos anos 70 com um perigoso mergulho no universo da psicologia do assassinato. David Fincher, um dos produtores, dirigiu alguns episódios e deu o tom de densidade necessário à atmosfera da série. Estrelada por Jonathan Groff, Holt McCallany e Anna Torv, tem uma ambientação impecável da época e adentrar na mente dos assassinos seriais é fascinante, devo dizer. As cenas das entrevistas dos agentes com eles são espetaculares e deixam qualquer um vidrado na tela, não só pelo texto ou pelo modo como são conduzidas pela direção, mas as performances irretocáveis dos atores na pele dos serial killers, é absurdo. É um trabalho incrível em conjunto e é uma pena que a 3ª temporada não passe de um boato, por enquanto. Divulgação 9) Atlanta (2016-2022) Criada e estrelada por Donald Glover, acompanhamos Earn, que larga a faculdade para ser empresário da carreira do primo, o rapper Paper Boi (Bryan Tyree Henry). O que parecia ser mais uma comédia com aspectos dramáticos de início, logo se mostrou muito mais rica ao brincar com diversos gêneros de uma maneira única, como no episódio “Teddy Perkins” da 2ª temporada, que é um dos melhores da história da televisão, mergulhando no terror. E a série fez isso por quatro temporadas, sem esquecer de fazer diversas críticas sociais de formas sutis, mas afiadíssimas. Divulgação 8) Mo (2022-2025) Mo (Mohammed Amer, cocriador da série) é um imigrante palestino que mora no Texas com sua família e e vive pulando de emprego em emprego para tentar se sustentar. É mais uma daquelas séries curtinhas e especiais, que pouca gente assistiu. Em duas temporadas, navegamos pelos altos e muitos baixos da vida do protagonista tentando a vida em um novo país, mas que honra sua origem e sempre conversando com situações universais que qualquer pessoa pode se identificar. Com um roteiro afiado, Mo está mais atual do que nunca, principalmente por ser uma série tão política. Divulgação 7) Chaves (1973-1980) O garoto que vive em situação de barril (desculpa, não resisti) conquistou o Brasil de geração em geração através das inúmeras reprises no SBT e ainda existem episódios que nunca foram ao ar. Eu não sei se estão disponíveis, mas sei que a série acabou de chegar em vários streamings e não poderia ficar de fora desta lista. Além de Chaves (Roberto Gómez Bolaños), os vários personagens clássicos que vivem no imaginário popular com seus bordões como Chiquinha (Maria Antonieta de las Nieves), Quico (Carlos Villagrán), Dona Florinda (Florinda Meza), Seu Madruga (Ramón Valdés) e todos os outros. É um sucesso explicado pelo humor inocente, nostálgico, mas com uma pitada ácida e que é muito bem executado pelo brilhante elenco. Tinha tudo para dar errado, mas é um fenômeno até hoje. Divulgação 6) Arrested Development (2003-2006; 2013-2019) Michael Bluth (Jason Bateman) é obrigado a administrar os negócios imobiliários da família depois que seu pai, George Bluth Sr. (Jeffrey Tambor), é preso. Ele também precisa lidar com as demandas e caprichos de sua família mimada e excêntrica. Esta é a premissa oficial desta série tão espetacular que trabalha com o formato mockumentary antes de The Office até. Personagens incríveis e completamente sem noção feitos por um elenco imbatível, que além dos já citados, conta com Jessica Walter (como Lucille Bluth, uma das melhores personagens da TV), Portia de Rossi, Michael Cera, Will Arnett, Tony Hale, Alia Shawkat e as inúmeras participações especiais, que vão de Liza Minelli a Charlize Theron. É uma produção hilária que brinca com o absurdo e o exagero de uma forma genial por três temporadas. Nas duas últimas feitas pela própria Netflix, a qualidade cai, e é por isso que não está em uma posição melhor. Divulgação 5) Six Feet Under/À Sete Palmos (2001-2005) Quando eu soube que a série seria uma das originais HBO que seriam disponibilizadas na Netflix, tive uma felicidade imensa. Mais gente alcançaria essa história arrebatadora criada por Alan Ball, que tem como foco a família Fisher, donos de uma funerária. Essencialmente um drama familiar, que lida constantemente com a morte, há uma bela dosagem de um humor mais sombrio que deixa tudo um nível acima. Os personagens complexos, difíceis, cheios de camadas e interpretados por um elenco de primeira linha e eu poderia citar todos os nomes aqui, mas o que Frances Conroy faz como a matriarca Ruth é outro patamar. Ali pela entre a metade da 3ª e a 4ª temporada, a série decai um pouco, mas a 5ª e última temporada não só volta à melhor forma, como entrega o melhor episódio final de todos os tempos. Vida e morte trabalhados na televisão de uma forma única. Divulgação 4) Seinfeld (1989-1998) A famosa série “sobre o nada”, acompanha Jerry Seinfeld (interpretando péssima e hilariamente a si mesmo), Kramer (Michael Richards), seu vizinho sem qualquer sombra de noção, George Constanza (Jason Alexander), melhor amigo de Jerry, e Elaine (Julia Louis-Dreyfus, maior comediante viva, devo dizer), vivendo em Nova York e passando por todos os percalços de um jovem adulto solteiro. A série se dizia sobre o nada, porque na verdade, ela aborda de tudo, de masturbação até fila de espera em restaurante, e de maneiras inventivas, que ainda funcionam hoje e muito engraçadas roteirizadas pelo próprio Seinfeld e Larry David, que criaram esses personagens fascinantes, mas que são pessoas horríveis e não menos carismáticas. São nove temporadas e na 1ª, a série ainda está encontrando seu tom. Felizmente, ela é curtinha e o avanço é visível na 2ª temporada, atingindo o ápice na 3ª e assim se mantendo até a 8ª, e é aí que entendemos o porquê dela ser tão revolucionária e tão famosa. A 9ª e última temporada não é nem de longe a melhor, mas a grandiosidade já foi atingida. Divulgação 3) Better Call Saul (2015-2022) O famoso caso do spin-off que quase supera a original. No prequel de Breaking Bad, acompanhamos a transformação do advogado Jimmy McGill na persona de Saul Goodman, feito magnificamente por Bob Odenkirk. Criada por Vince Gilligan e Peter Gould (o showrunner), vemos a complicada relação de Jimmy com seu irmão Chuck (Michael McKean) e sua paixão com a espetacular Kim Wexler (Rhea Seehorn). É só o topo do iceberg de um belíssimo estudo de personagens e relações compostas de nuance, sem esquecer do suspense e da tensão de quando se flerta com o mundo do crime, que é comum neste universo. As duas primeiras temporadas já são boas, mas é inegável que o nível aumenta na 3ª, com os riscos ficando cada vez mais altos, e até a 6ª temporada não há qualquer queda, é uma qualidade absurda até o fim, nivelando facilmente com sua série-mãe. Divulgação 2) BoJack Horseman (2014-2020) A melhor série original da Netflix é uma animação sobre um cavalo falante, que também é um ator decadente. Sim, isso mesmo que você leu e é a receita para uma série absolutamente genial com um dos protagonistas mais bem escritos da TV. É um mergulho profundo em um lado de Hollywood que a gente só ouve falar. BoJack é errado e errante e por mais que a gente consiga se afeiçoar a ele, defender suas atitudes é praticamente impossível, mas ao mesmo tempo a gente compreende de onde elas surgem. Falando assim, parece que estamos falando de um baita drama, e não deixa de ser, mas há um belíssimo equilíbrio com o humor, seja ele mais sombrio, rebuscado ou carregado de referências reais, está muito presente ali em BoJack ou qualquer um dos outros maravilhosos coadjuvantes que fazem parte desta série tão única. Divulgação 1) Breaking Bad (2008-2013) A série sobre o professor de química com câncer que queria apenas deixar dinheiro para a família e foi se embriagando cada vez mais pelo poder no mundo do crime realmente é tudo isso que você sempre ouviu falar. Alguns dizem que ela só melhora depois, mas para mim, já começa ótima e a qualidade só se eleva ainda mais, terminando no ápice de uma temporada final épica. O que Bryan Cranston faz na pele de Walter White é simplesmente fascinante. Vince Gilligan lhe deu um presente gigantesco com um dos personagens mais incríveis do audiovisual e Cranston elevou ainda mais este retrato tão cru de um homem comum se transformando em um gênio do crime. Um drama tão rico com personagens complexos, trabalhando com a aflição constante de estar envolvido em um mundo tão violento e lidando com antagonistas perigosos é, de fato, das melhores coisas que a TV proporcionou. O óbvio precisa ser dito: Breaking Bad é a melhor série disponível na Netflix.
- Crítica | Dias Perfeitos (Minissérie do Globoplay)
Entre o desconforto e a tensão do desejo doentio. Imagem: Divulgação Finalizada na última quinta-feira (28) no Globoplay, a minissérie Dias Perfeitos marca mais uma adaptação da obra de Raphael Montes, que já emplacou sucessos como Bom Dia, Verônica (2020-2024), Uma Família Feliz (2024) e a novela Beleza Fatal (2025). Nesta obra em questão, vivemos durante os oito episódios uma experiência tão instigante quanto desconfortável. Desde o seu início, a narrativa conduz o espectador para dentro de uma trama sufocante. Dias Perfeitos conta a história de Téo (Jaffar Bambirra), um estudante de medicina solitário que se apaixona obsessivamente por Clarice (Julia Dalavia), jovem aspirante a roteirista. Diante da recusa constante da garota, ele a sequestra e a leva em uma perturbadora viagem pelo Rio de Janeiro, obrigando-a a escrever o roteiro idealizado por ele enquanto tenta manter o controle sobre a situação. Num primeiro momento, a minissérie se destaca por alternar os pontos de vista dos protagonistas, recurso que amplia a complexidade da história ao expor tanto a mente obsessiva de Téo quanto o desespero e a resiliência de Clarice. Essa escolha, no entanto, perde intensidade em alguns momentos, quando entram em cena núcleos coadjuvantes que não dialogam diretamente com o arco central. Esse desvio se torna mais evidente à medida que a narrativa se afunila para o seu ápice, enfraquecendo a tensão que deveria permanecer concentrada nos dois personagens principais. O mais interessante também é que, do ponto de vista de Téo, tudo é distorcido e a relação com Clarice parece um ideal, crença que é desmentida pela inserção da perspectiva da protagonista na série, revelando os efeitos dos abusos físicos e psicológicos sofridos por ela. Sob a direção de Joana Jabace, a minissérie não apenas altera a forma como a história é contada em cada episódio, mas também, com a adaptação da roteirista Cláudia Jouvin, cria um desfecho diferente do livro, oferecendo ao público uma conclusão própria da narrativa televisiva. Nas atuações, Jaffar Bambirra constrói um Téo inquietante, cuja transição da aparente fragilidade para a obsessão doentia é marcada por nuances precisas. Julia Dalavia, por sua vez, dá corpo a uma Clarice intensa e multifacetada, transmitindo medo, revolta e resistência em uma performance visceral. O confronto entre os dois é o núcleo pulsante da narrativa, mas os coadjuvantes também têm seus momentos de destaque, ajudando a ampliar a atmosfera de tensão, ainda que nem sempre em sintonia com o arco central. A estética de Dias Perfeitos reforça o clima de tensão que perpassa toda a narrativa. A direção opta por enquadramentos claustrofóbicos e planos próximos, criando a sensação constante de confinamento e sufocamento vivida por Clarice. A fotografia privilegia tons sombrios e contrastes sutis, que refletem a dualidade entre o olhar obsessivo de Téo e o desespero da protagonista. A trilha sonora atua de forma pontual, reforçando momentos de impacto e aumentando a imersão do espectador na atmosfera desconfortável da série. Cada elemento técnico trabalha em conjunto para sustentar o suspense psicológico, tornando a experiência audiovisual intensa e perturbadora. Imagem: Divulgação Apesar da intensidade da trama, Dias Perfeitos nem sempre consegue sustentar a suspensão da descrença. Alguns desdobramentos e decisões dos personagens soam inverossímeis, especialmente nos momentos em que a série se dedica à investigação, às cenas na ilha e à reação dos pais de Clarice, que oscila rapidamente entre descaso e preocupação. Essas inserções, embora adicionem camadas à narrativa, acabam fragmentando a tensão e tornando certos acontecimentos menos críveis do que a proposta principal exigiria. Diferentemente do livro, que mantém a mesma história mas organiza os acontecimentos e motivações com maior consistência, a adaptação televisiva perde parte da coerência narrativa que torna a obra literária tão envolvente. No último episódio, a minissérie altera a trama do livro ao oferecer um desfecho mais “justo” e até certo ponto feliz para Clarice, dando à protagonista um novo destino. Diferentemente do final literário, que é desconfortável, violento e cru, mas que não “passa pano” para as atitudes de Téo, abraçando o terror como gênero e deixando o leitor imaginar a conclusão, a adaptação busca atender ao público de streaming, que costuma esperar ver o vilão punido, seguindo aquela sensação de justiça narrativa tão comum no audiovisual. Apesar de a mudança ser compreensível e até bem-vinda para o público geral, a série perde parte da força do livro em seu desenvolvimento. A conclusão acontece de forma rápida e, em alguns momentos, pouco crível. Todo o arco de Clarice recuperando a memória com o uso de um alucinógeno, seguido de sua ação para drogar Téo, soa inverossímil e fragiliza a tensão construída ao longo da trama. A minissérie entrega um final satisfatório, mas em termos de narrativa, a adaptação não consegue manter a consistência e a intensidade da obra original. No fim, Dias Perfeitos é uma minissérie que desafia e incomoda, explorando obsessão, abuso e os limites da moralidade humana. Apesar de oscilar em coerência narrativa, a produção se sustenta pelas performances marcantes, pela direção cuidadosa e pela atmosfera tensa. Mais do que simplesmente adaptar o livro de Raphael Montes, a série propõe uma leitura própria da história, mantendo o espectador preso à tensão e ao desconforto, mesmo quando toma caminhos inesperados. É uma obra que deixa sua marca, provocando reflexão sobre violência, poder e obsessão, e reafirma o potencial do thriller psicológico brasileiro na era do streaming. Nota: 3.5/5
- Os Roses: O que mudou em 36 anos de diferença
A Guerra dos Roses (1989) X Os Roses: Até que a Morte os Separe (2025) Divulgação Com a estreia do novo "Os Roses: Até que a Morte os Separe" (The Roses, 2025), voltamos até 1989, e procuramos comparar o filme de Jay Roach com a "A Guerra dos Roses" (War of the Roses, 1989), obra dirigida e co-estrelada por Danny DeVito. Humor Ácido X Suspense com Humor Ambos são baseados no romance de Warren Adler (1981), mas o filme original é toda fomentada como uma comédia de humor ácido sobre o divórcio destrutivo de um casal que outrora estava apaixonado. A principal diferença é que o filme atual, estrelado por Olivia Colman e Benedict Cumberbatch entrega uma clima que, apesar do toque de humor, há um tom de suspense que flutua pelo roteiro assinado por Tony McNamara (“Pobres Criaturas” e “A Favorita”). Locações dos filmes A Guerra dos Roses (1989): Ebey's Landing National Historical Reserve, Whidbey Island, Washington, EUA; 119 Fremont Place, Los Angeles, Califórnia, EUA (para exteriores da casa dos Roses); Stage 15, 20th Century Fox Studios - 10201 Pico Blvd., Century City, Los Angeles, Califórnia, EUA (Fox Studio); Little Europe, Backlot, Universal Studios - 100 Universal City Plaza, Universal City, Califórnia, EUA (cenas na neve). Os Roses (2025): cidades de Salcombe, Devon (UK) e Los Angeles, California (USA); Em Devon, Inglaterra, a cidade litorânea de Salcombe, localizada no distrito de South Hams, serviu como cenário principal do filme. Várias ruas e áreas litorâneas foram cenários, ou seja, praticamente toda a cidade foi usada, como as vistas panorâmicas do porto e das estradas costeiras como pano de fundo para a história. The Winking Prawn (Cliff Road, Salcombe): restaurante fechou durante as filmagens e passou por uma transformação ao estilo de Hollywood, com um novo nome, "We've Got Crabs Seafood Bistro" (Temos Caranguejos, Bistrô de Frutos do Mar). Los Angeles, Califórnia: principal local de filmagem da Califórnia foi o Parque Estadual Pfeiffer Big Sur, no Condado de Monterey, incluindo uma aparição da Golden Gate Bridge. Divulgação Troca de Nomes + Personagem Deletado Os nomes dos protagonistas mudaram. Antes eram Oliver (Michael Douglas) e Barbara (Kathleen Turner), agora são Theo (Benedict Cumberbatch) e Ivy (Olivia Colman). Mas tem outro detalhe, que influi diretamente na narrativa da obra. Além de ser o diretor da comédia de 1989, Danny DeVito interpreta o advogado Gavin D'Amato, que funciona como o narrador da história dos Roses. Já na refilmagem de 2025, esse papel - e portanto a função narrativa do filme - inexiste. Profissões diferentes O primeiro filme se aproxima mais do romance original de Adler em termos das ocupações dos protagonistas. Oliver (Michael Douglas) é um advogado de sucesso e Barbara (Kathleen Turner) é dona de um buffet. Já em "Os Roses", Theo (Benedict Cumberbatch) é arquiteto, e Ivy (Olivia Colman) é dona de um restaurante de frutos do mar (We've Got Crabs!), que não deixa de ser algo parecido com o primeiro filme. Os interesses conflitantes, e a “inversão” de papéis de gênero no viés doméstico são motivações importantes para a atualização do conflito. Motivos dos divórcios A Guerra dos Roses (1989): Oliver decide pedir o divórcio de Barbara após um problema de saúde (ele achava que era um ataque cardíaco, mas a verdade foi um problema no esôfago, mas a perspectiva da morte do marido a deixou contente. Os Roses (2025): Theo percebe que seu relacionamento com Ivy acabou enquanto resgata uma baleia encalhada, e logo em seguida cai em si que a vida é curta, e por isso não entende porque passaria o tempo que lhe resta com Ivy. A briga pela divisão da casa Pequenos detalhes separam os pedidos de divisão das casas nos filmes, que, claro, geram atritos, e por consequência, os momentos mais interessantes em cena. Guerra dos Roses (1989): Barbara reivindica a casa para ela justificando que a encontrou e a decorou, enquanto Oliver informa que utilizou tudo o que ganhou na casa deles, incluindo compra e reformas. Os Roses (2025): Theo não quer ceder a casa, pois foi ele que a projetou, mas por outro lado, Ivy foi a principal investidora na construção. A casa segue sendo um personagem importante na narrativa, e sua versão tecnológica também vestiu bem as necessidades criativas e cômicas dos confrontos entre o casal protagonista, refletindo as contradições entre juras de amor, poder e desejo de autonomia num mesmo lugar literal. *Daniel Herculano é membro da Abraccine e votante do Globo de Ouro
- Entrevista | Gabriel Mascaro fala sobre protagonismo idoso e mudanças no roteiro de O Último Azul
Terceiro longa-metragem do diretor, que estreia no Brasil neste dia 28, foi vencedor do Urso de Prata no último Festival de Berlim e foi foco da entrevista dele com o Oxente Pipoca. Divulgação O cineasta Gabriel Mascaro falou com exclusividade ao Oxente Pipoca sobre seu novo filme O Último Azul que entra em cartaz dia 28 de agosto. Durante entrevista concedida antes da pré-estreia do filme em Fortaleza na última quarta-feira (27), Mascaro falou sobre as mudanças no roteiro ao longo dos 10 anos em que o filme foi escrito, sobre poder assistir o longa em Manacapuru e explicou a escolha da cor azul. O diretor também comentou sobre a escolha de Denise Weinberg para viver a protagonista Tereza e sobre a falta de protagonismo para idosos no cinema: “Acho que ela não estava acostumada a protagonizar um filme. E a verdade é que não existem muitos filmes escritos para que pessoas idosas sejam protagonistas.” Rodrigo Santoro, Adanilo e Miriam Socarrás também compõem o elenco. Na história, Tereza (Denise Weinberg), de 77 anos, viveu toda a sua vida em uma pequena cidade industrializada na Amazônia, até o dia em que o governo, buscando maximizar a produtividade econômica, ordena que os idosos se mudem para colônias habitacionais distantes. Ela, porém, se recusa a obedecer e decide embarcar em uma jornada pela floresta que mudará seu destino para sempre. Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Queria começar perguntando sobre a escolha da Denise. Tenho acompanhado entrevistas com ela desde A Metade de Nós, que saiu recentemente, e percebi que ela tem um espírito livre, rebelde, que parece combinar muito com a personagem. Além disso, apesar de ter uma carreira sólida, ela não fez muitos protagonistas. Como foi trabalhar com ela? Como ela recebeu essa proposta de interpretar uma idosa protagonista e ser o centro desta narrativa? Gabriel Mascaro: A Denise foi muito especial nesse processo. Ela é uma atriz incrível, com muita experiência no teatro, e também com participações no cinema e na televisão. Mas, quando eu apresentei o projeto, ela reagiu com surpresa. Acho que ela não estava acostumada a protagonizar um filme. E a verdade é que não existem muitos filmes escritos para que pessoas idosas sejam protagonistas. No desenvolvimento do filme, percebi duas linhas predominantes nesse tipo de narrativa: uma geralmente trata idosos em conflito com a morte, a despedida; a outra foca em idosos desconectados do presente, vivendo o luto de um passado que não volta mais. Esses filmes estão muito presos à morte ou ao tempo que passou, nunca ao presente. Eu queria, ao contrário, fazer um filme sobre o presente — sobre o agora. O Último Azul é sobre uma mulher que deseja, que se lança em uma aventura, que sonha. E acho que isso é universal: todos nós nos conectamos com esse impulso de sonhar e desejar, independentemente da idade. Divulgação Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): E sobre o processo de criação: você mencionou em entrevistas que o texto estava sendo desenvolvido há cerca de 10 anos. Teve algo planejado no começo que acabou ficando de fora, seja alguma personagem, cena ou detalhe? Gabriel Mascaro: Sim, teve mudanças significativas. Por exemplo, o filme tinha um final em que a protagonista voava, resolvendo o arco de forma mais clara. No entanto, optamos por um final mais aberto, que me pareceu mais sincero e honesto com a personagem. Isso manteve a protagonista viva e pulsante — o espectador sai do filme com a sensação de que ela ainda tem muito a viver e muitos desafios à frente, ao invés de encerrar o conflito e entrar em uma letargia pós-filme. Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Sou designer gráfico e preciso fazer esta pergunta cromática, por que a cor azul? Existe algum motivo específico que é contado no filme, algum simbolismo para além do que é mostrado no trailer e no material promocional? Gabriel Mascaro: O título está ligado à ideia de desejo e liberdade. O filme fala sobre uma mulher que deseja voar, então o azul remete diretamente ao céu, ao voo. Então ligar isso ao “caracol da baba azul”, que deixa um rastro e, simbolicamente, muda o caminho da personagem, é um elemento quase mágico, uma “kryptonita azul” que marca o percurso da protagonista. Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Para finalizar, você está na turnê de pré-estreias, e antes de vir a Fortaleza você esteve nas sessões antecipadas em Manacapuru e Manaus, dois lugares fundamentais para que o filme acontecesse. Como foi assistir ao filme nessas cidades que ajudaram a inspirar a narrativa? Gabriel Mascaro: Foi muito emocionante nos dois lugares. Tínhamos uma cena com cerca de 100 figurantes idosos que eram da Associação de Idosos de Manacapuru, e eles puderam assistir a essa cena em praça pública. Em Manacapuru eu estava com medo de que o público fosse pequeno, de que não aparecesse ninguém, mas a praça lotou, e foi uma festa. Teve gente que parou de moto, teve gente dançando quando tocava as músicas. Poder devolver o filme para as pessoas que participaram dele foi muito especial, teve uma energia própria. Foi um momento de celebração, e deu para sentir a conexão real entre a narrativa e o público que inspirou o filme.
- Entrevista | Diretor e elenco falam sobre “A Praia do Fim do Mundo”: “Para mim é um filme totalmente atemporal”
Petrus Cariry, Marcélia Cartaxo e Larissa Góes discutiram o processo de gravação do filme, iniciado ainda durante a pandemia, e suas referências e escolhas estéticas. Divulgação Chegou aos cinemas nesta quinta-feira (4) o longa-metragem cearense A Praia do Fim do Mundo, dirigido por Petrus Cariry e estrelado por Marcélia Cartaxo, Fátima Muniz e Larissa Góes. Na trama, Alice (Muniz) e sua mãe Helena (Cartaxo) vivem numa casa na praia de Ciarema, que corre o risco de ser engolida pelo mar em constante avanço. Enquanto Alice, que é ambientalista, deseja ir embora, sua mãe resiste a abandonar a casa. O Oxente Pipoca – que já prestigia o filme desde seu lançamento em festivais, em 2022 – teve a oportunidade de entrevistar Petrus, Marcélia e Larissa. Enquanto o diretor comentou das suas influências para a obra e do trabalho de som, tão fundamental à obra, as atrizes discutiram o processo de preparação para suas personagens e a importância do lançamento do filme agora nos cinemas. Você pode acompanhar a entrevista na íntegra abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Petrus, eu senti que seu filme tem uma certa influência do cinema do Bergman, principalmente Persona e Sonata de Outono. Foi algo intencional? Me chamou muito a atenção também o uso do som e como ele colabora para esse sentimento de desolação do filme. Petrus Cariry: Cara, Bergman é sempre uma referência muito forte para mim. Por mais que eu diga que não pensei diretamente no Persona, mas tá ali, de alguma forma nos enquadramentos, nos altos contrastes da fotografia, na coisa psicológica também. E Bergman e Tarkovski, para mim, são os dois maiores diretores do mundo. Tem muita influência da literatura russa, e do cinema russo. Enfim, é um caldeirão de todas essas misturas que eu e o Firmino Holanda, o roteirista, gostamos bastante. E a coisa do desenho de som do filme, ele foi feito pelo por mim e pelo Érico Paiva, que é um mixador também, e foi feito para ser um outro personagem. Tem um desenho disso muito interessante para criar todo aquele clima de opressão que o que o filme propõe, como essa coisa do mar ser um outro personagem muito forte, estar sempre presente, quase ameaçando ali as personagens. Toda hora tem essa coisa do mar, dos sons fantasmagóricos pela casa, porque esse filme também tem muito de fantasmagoria também dessas personagens, da própria casa, que não deixa de ser um fantasma também ali, que tá em pé e vai ser destruída a qualquer momento. A personagem da Helena se prende muito a isso, às memórias, ao passado, ao que foi e a um luto eterno, esperando esse marido voltar e que não volta nunca. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Marcélia e Larissa, queria que vocês falassem um pouco da construção das suas personagens. Citei Sonata de Outono porque pensei bastante na relação da mãe e da filha, mas há vários elementos ali entre essas personagens, como um certo subtexto platônico entre Alice e Elisa. Também fiquei com essa sensação de que a figura da mãe de Marcélia é quase fantasmagórica, etérea, até puxando um pouco da fala do Petrus sobre fantasmagoria. Marcélia Cartaxo: A gente começou fazendo esse filme na época da pandemia, estávamos começando e aí a pandemia insistiu, então recuamos e um mês depois retornamos de novo, mas já com essa atmosfera no Brasil. Esse clima, esses acontecimentos já levaram a gente um pouco para esse universo, quando chegamos ali naquela casa, a gente começou a ver o mar comendo a casa. E de repente já tava a gente chegando e se preparando para essa criação desses personagens mais intensos, profundos, com os sentimentos destruídos. Isso aí foi tomando a gente de um jeito que não tinha como recuar, porque a gente estava preso naquele lugar ali, naquela casa, naquele cenário. E são muitas memórias, o que faz o filme ter esse silêncio, esse som do mar que insiste. A gente dava os diálogos, mas aquele som é como se tivesse também embalando esse final, embalando essa destruição a passos lentos. E foi assim essa construção desse personagem intenso, e foi um presente de Petrus. Porque ele a princípio pensava de fazer um filme colorido, mas começou a ver que o filme era em preto-e-branco, era um filme meio denso mesmo e de águas profundas com relação a nós, a seres humanos, as perdas com relação às memórias. E foi uma construção assim bem interessante, né, Larissa? Larissa Góes: Nossa, a Marcélia falando é muito bom, porque a memória vai retomando muitas coisas. A gente foi jogado durante esse período, a pandemia estava imposta e tinha de se tomar determinadas formalidades para garantir a nossa segurança, fazendo o teste dia sim e dia não. Essa estranheza do “e agora, o que vai ser do mundo? Como a gente vai fazer?”, retomar com a nossa operação das coisas, isso foi tomando conta e acabou compondo também a história, porque querendo ou não, o período que a gente estava vivendo ali acarretou memórias que a gente trouxe para o corpo e que levou naturalmente para cena. As relações que se fizeram ali, eu acho que a personagem da Marcélia, a Helena e a minha, a Elisa, elas formam um contraste muito grande. A Helena é essa coisa que finca, que quer ficar ali, que não arreda. A Elisa é essa possibilidade de ir, de partir, de navegar, que nada prende. E a Alice, que é a personagem da Fátima Muniz, é essa figura que tá ali entre essas duas visões de mundo. Então, eu acho que a as três estão ali emaranhadas, elas acabam se se prendendo e estão dentro desse ambiente, vivendo esses escombros. Ali a gente estava inserida de fato em ações que estavam sendo tomadas pelo mar, que estavam passando por essa ressaca, que estavam sofrendo as consequências desse crime ambiental. Então, eu acho que tudo isso foi trazendo a personagem para o nosso corpo, e fortalecendo as nossas relações entre nós mesmas. Divulgação Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme chegou a circular em alguns festivais entre 2021 e 2022 – colegas meus do Oxente Pipoca tiveram a oportunidade de assisti-lo na época e são apaixonados por ele até hoje, ficaram muito felizes com o fato de enfim ele chegar aos cinemas agora. Para vocês, qual a importância de vê-lo passar numa tela de cinema, em meio a todos os debates sobre cota de tela e o espaço que o cinema brasileiro está tendo a nível global? Petrus Cariry: Para mim é emocionante, porque é um filme que eu tenho um apreço tão grande assim, talvez seja um dos meus melhores filmes, junto com Mais Pesado é o Céu. Eu gosto muito desse filme, pelo que ele propõe, pela forma que ele foi feito, pela experiência de estar lá com essas pessoas, fazendo o cinema naquele momento específico, que foi lindo. A pandemia foi uma tragédia, mas quando ela chegou ao final, tinha a possibilidade da vacina e, enfim, a coisa começou a clarear um pouquinho, e estava ali filmando e se sentindo vivo. E demorou muito, assim, eu acho que talvez até da parte da gente aqui da produtora, porque o Mais Pesado é o Céu foi lançado e as coisas foram se atropelando. Enfim, tinha uma coisa de contratual para lançar o filme. Só que eu falei com a distribuidora que a gente tinha que lançar esse filme logo. Mas a grande vantagem que eu vejo dele estar sendo lançado agora é porque para mim é um filme totalmente atemporal. Esse filme pode ser lançado daqui a 10 anos, que eu acho que tá tudo certo, tá entendendo? É uma característica própria assim do filme. Mas é isso, eu estava doido para lançar esse filme, porque foi um trabalho muito bom. Estavam as três atrizes, está todo mundo tão bem nesse filme que, enfim, para mim é uma felicidade muito grande estar lançando. Estou em estado de êxtase, na verdade. E eu sei que tem muita gente que gosta do filme e me perguntava pelo Instagram: "Quando é que o filme vai ser lançado?”. Muita gente cobrando, pois é. Então você imagina minha alegria de estar lançando esse filme agora. Marcélia Cartaxo: Mas eu acho assim que ele tá sendo lançado no melhor momento. Talvez essa espera não fosse programada, né? Eu até pensava: "Ai, será que Petrus não gostou do filme? Será que não gostou da gente?”. Mas eu acho que ele se colocou no melhor momento do cinema brasileiro, passou por alguns festivais e é um filme diferente. Eu tenho muito carinho por esse filme, porque eu fiquei uma senhora que eu não imaginava que eu ficaria assim, o corpo envelhecido. Esse filme foi uma suma de muitas coisas boas, que estava para acontecer, e ele está acontecendo nesse momento. E para a gente é um orgulho muito grande ter tido essa experiência com o Petrus, um diretor muito tranquilo, que sabe o tempo da gente, que também sabe o momento de criar e de dizer para gente como é que ele quer contar sua história. E a gente conseguiu ter esse diálogo legal e profundo com ele e também com o roteiro e a história. Larissa Góes: E eu acho que também o filme traz, mesmo que não tão de forma tão escancarada, um ponto de reflexão ambiental, tem uma denúncia que está sendo feita. Então, quando a gente assiste hoje ao filme e olha para o meio ambiente, o que será que mudou? Será que teve alguma mudança? Então, acho que é uma coisa que traz à tona essa reflexão sobre o tempo que a gente está vivendo hoje, o que se encaminhou de lá para cá. É um filme que trata também de relações, tem mistério, tem o mar e tem essa denúncia ambiental que tá ali dentro da narrativa. Então, hoje assistir ao filme me traz tudo isso de memória do tempo que a gente filmou, de pós-pandemia, meio um momento de transição, essa estranheza total. Mas ao mesmo tempo é esse lugar que continua sendo tomado pelo mar, continua sendo abaixado. Eu acho que o cinema e esse filme tem também essa função social de reflexão e crítica. Eu gosto muito desse tempo em que se grava e normalmente se espera pelo lançamento. Então, eu estou com uma expectativa muito positiva, porque eu sei que quem está ali envolvido é uma equipe de alta competência. Mas eu ainda não consegui assistir ao filme, porque ele foi exibido em alguns festivais, mas quando ele veio pro Ceará, eu estava no Rio. Ele foi para o Rio, eu estava em São Paulo. Estava sempre em um lugar de desencontro. E eu falei: "Nossa, em algum momento eu vou conseguir ver esse filme". E eu acho que esse é o melhor momento.
- Crítica | Exit 8 (TIFF 2025)
Adaptação de videogame surpreende com experiência imersiva e tensa. Divulgação Depois de trabalhar oito horas em um escritório, caminhei até o metrô em direção a um cinema, observando meu reflexo nas portas do trem enquanto diferentes barulhos atravessavam o bloqueio sonoro dos meus fones. Após desbravar uma estação lotada e finalmente entrar na sala de exibição, estava pronto para mergulhar em um novo mundo. Para minha surpresa, porém, revi minha própria experiência refletida no protagonista do filme Exit 8. Baseado no jogo de mesmo nome, sucesso nas redes sociais, especialmente no mundo do speedrunning (desafio de completar o jogo no menor tempo possível), o filme parte da premissa de um jogador preso em corredores de uma estação de metrô, tentando escapar ao identificar anomalias no ambiente. A partir dessa ideia, cria-se uma narrativa original que brilha justamente nos momentos em que estamos dentro do corredor, praticamente “jogando” o filme ao lado dos protagonistas enquanto buscamos as anomalias. Quem conhece o jogo sabe que ele explora o terror através de jumpscares. Por isso, eu esperava uma sessão cheia de sustos e gritos. Para minha surpresa, o filme se afasta do terror e mergulha no thriller, apostando na tensão de estar preso em um ambiente claustrofóbico enquanto o mundo continua a correr lá fora. Divulgação O aspecto mais impressionante da obra é sua estética: do design de produção, que recria com perfeição os corredores idênticos do jogo, ao trabalho de fotografia, que começa no ponto de vista do protagonista, recurso tão familiar aos videogames, até se expandir e nos permitir explorar os corredores de maneira mais ampla. Durante minha sessão, aconteceu algo curioso: os vinte minutos iniciais foram exibidos sem legendas por engano. Ao revê-los depois, percebi que talvez essa tenha sido, de fato, a melhor decisão possível para o filme. A história real é sobre um homem preso nos corredores de um metrô, e sempre que a trama tenta nos lembrar da vida dele fora desse espaço, o filme perde força. Nessas passagens, a tensão e o ritmo cuidadosamente construídos se dissipam, transformando uma adaptação de jogo, cujo objetivo é a agilidade, em uma experiência arrastada. Apesar desses momentos mais lentos, Exit 8 é uma adaptação de videogame sólida, que consegue criar uma experiência própria em vez de simplesmente repetir o que os jogadores já vivenciaram dezenas de vezes. Com um design de produção impressionante, boas atuações e uma trilha sonora que conduz o espectador, o longa consegue divertir tanto quem já conhece o jogo e seus virais no TikTok quanto quem nunca ouviu falar dele. Nota: 3.5/5
- Crítica | Honey Bunch (TIFF 2025)
Falta de fé em si mesmo mina o potencial do filme. Divulgação O ano de 2020 será amplamente lembrado por diversos motivos, mas um deles não será o cinema. Entre os inúmeros acontecimentos daquele ano, a estreia na direção da dupla Dusty Mancinelli e Madeline Sims-Fewer, Violation, acabou caindo no esquecimento do grande público, apesar de alguns momentos “polêmicos” do filme ainda circularem nas redes sociais de tempos em tempos. Cinco anos depois, a dupla retorna com uma proposta muito mais refinada e com recursos mais robustos. Em Honey Bunch, estrelado por Grace Glowicki, Ben Petrie e Jason Isaacs, acompanhamos a história de uma instituição médica que oferece um tratamento para recuperação de memórias após acidentes graves. Os diretores conseguem estabelecer um mundo interessante, explorando bem os elementos de suspense e tensão através dos personagens de Glowicki e Petrie. No entanto, a partir da entrada de Isaacs, o filme se divide em duas linhas narrativas que, apesar das tentativas constantes de conectá-las, não funcionam em conjunto. A trama do casal principal sustenta o filme, com seus mistérios e intrigas, enquanto a personagem de Glowicki tenta recuperar suas memórias em meio a estranhos acontecimentos ignorados pelos demais da instituição. Já o personagem de Isaacs não chega a ter importância para a narrativa principal até os últimos 20 minutos, quando toma uma decisão clichê que quase me fez deixar a sessão para evitar uma decepção ainda maior. Divulgação Fica a impressão de que o cinema canadense ainda teme apostar em suas grandes estrelas, como Glowicki e Petrie, que não são apenas atores, mas também recentes diretores de filmes independentes de sucesso moderado, Dead Lover e The Heirloom, respectivamente. Em vez disso, recorre-se à presença de um ator estrangeiro com uma fanbase específica, numa tentativa de tornar o filme mais atraente para o público internacional. Entre os pontos altos do longa estão a intrigante fotografia e o deslumbrante design de produção. O universo criado nos transporta aos anos 1970, com um toque místico e enigmático que oferece pistas sobre o verdadeiro tema do filme. A caracterização dos personagens, em diferentes momentos e estilos ao longo da narrativa, é feita com precisão, nunca deixando o espectador confuso sobre quem estamos acompanhando. Infelizmente, a falta de originalidade e a hesitação em apostar em seus próprios talentos acabam sendo os maiores problemas do filme. Enquanto cineastas canadenses como Petrie, Glowicki, Kazik Radwanski e Guy Maddin exploram suas singularidades, Honey Bunch opta por emular o cinema independente de terror estadunidense, um modelo já desgastado, quase tão exaustivamente replicado quanto a “fórmula Marvel” por estúdios como a A24. O resultado é um filme esteticamente envolvente, mas de pouca substância, fadado a se tornar esquecível. Nota: 3/5












