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  • Crítica | Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out

    Rian Johnson traz Benoit Blanc para mais um caso que, acima de tudo, é simpático Divulgação Após dois filmes desse projeto, o público já tem uma noção bastante clara do que esperar. Uma morte, provavelmente de forma acidental, com pistas espalhadas por toda parte e a sensação constante de que estamos sendo distraídos até que a revelação final se torne inevitável. O molde deste tipo de narrativa já é familiar, mas Rian Johnson ainda encontra maneiras de dar um tempero próprio à fórmula. O cineasta retorna em Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out com mais uma história do detetive, novamente interpretado por Daniel Craig. Desta vez, ele é atraído para um caso que foge levemente do padrão habitual: um jovem padre de passado nebuloso se torna o principal suspeito pela morte de seu superior, figura que exerce forte influência sobre um pequeno grupo de fiéis em uma cidadezinha dos Estados Unidos. O mais curioso nesse projeto é que, embora Craig seja considerado o protagonista evidente da história, muitas vezes tenho a sensação de que os chamados coadjuvantes ocupam um espaço dramático ainda mais central do que ele. Aconteceu isso nos dois primeiros filmes da franquia, e se repete nesse. Josh O'Connor segue construindo uma filmografia invejável e rouba a cena com uma performance extremamente equilibrada como Jud Duplenticy, um ex-boxeador problemático que se torna padre e que, após um desentendimento, é transferido para a paróquia comandada pelo Monsenhor Jefferson Wick, interpretado por Josh Brolin. É justamente na relação entre esses personagens que o filme começa a revelar melhor o seu potencial dramático. Wick é uma figura sombria, quase diabólica, se assim posso dizer. Por meio de sabotagens, mentiras e ameaças veladas, ele constrói uma relação de domínio sobre seus fiéis que beira a obsessão, algo muito próximo de uma codependência emocional. A atuação de Brolin funciona bem durante boa parte do filme, sustentando essa aura inquietante do personagem. Em determinado momento, porém, a composição perde a medida e passa a soar exagerada, quase como uma paródia da figura ameaçadora que havia sido construída até então. O mesmo não acontece com a performance de Glenn Close. A oito vezes indicada ao Oscar entrega exatamente o que se espera de uma das grandes damas do cinema estadunidense. Sua Martha Delacroix vai além do que se poderia imaginar de uma fiel profundamente traumatizada que encontra na igreja uma forma de redenção, tornando-se o braço direito do Monsenhor. É ela quem faz o final dessa história, ainda que previsível, funcionar de maneira genuinamente satisfatória. Divulgação Craig, por sua vez, conduz Benoit Blanc com uma naturalidade impressionante. Existe uma leveza no modo como ele ocupa o papel, como se estivesse plenamente à vontade naquele universo. É um personagem que permite explorar bem suas habilidades cômicas e dramáticas, sempre atravessadas por uma tensão discreta que já se tornou sua marca registrada. E talvez seja justamente aí que o filme começa a perder força. Há uma sensação de conforto generalizado no projeto, como se todos estivessem plenamente acomodados dentro da fórmula que já dominam. Falta o impulso de arriscar mais, de tensionar os próprios limites da franquia, algo que se torna cada vez mais necessário à medida que ela cresce e se consolida. Curiosamente, esse excesso de conforto não se reflete no trabalho técnico, que arrisco dizer ser o melhor de todos os lançados até o momento. Steve Yedlin e Nathan Johnson retornam, respectivamente, como diretor de fotografia e compositor, ainda mais afiados. A tensão se constrói exatamente como o esperado, graças a esse trabalho, que nos envolve na atmosfera do filme mesmo quando a narrativa parece perder o foco. Mesmo com esses reveses, Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out é um filme confortável, mas sincero, e com a vontade no lugar certo. Com um elenco que cumpre bem seu papel dentro desse universo, Rian Johnson sustenta mais uma história de detetive e lembra que o gênero ainda pode respirar, mesmo quando aposta no básico. Nota: 3,5/5

  • Crítica | O Cavaleiro dos Sete Reinos (1ª temporada)

    Série se beneficia de menor escopo e pretensões para entregar o melhor momento no universo de Game of Thrones em anos. Imagem: Divulgação A ideia de spin-offs de Game of Thrones sempre foi repleta de controvérsias, dado o fim catastrófico da série e o gosto amargo deixado na boca do público. Se A Casa do Dragão apresentou potencial em sua primeira temporada, nos relembrando dos melhores momentos da obra original, a segunda rapidamente acendeu os alertas, nos remetendo aos piores momentos das últimas temporadas. Apesar destes receios, porém, o anúncio de uma adaptação de O Cavaleiro dos Sete Reinos ainda veio coberto com certa expectativa por parte do público que teve contato com as novelas originais escritas por George R.R. Martin, as quais se passam 90 anos antes dos eventos adaptados em Game of Thrones. É inegável, porém, que devido à recepção morna de A Casa do Dragão, a HBO tratou essa nova série quase como um produto de segundo escalão. Se a duração menor dos episódios (na faixa dos 30 minutos) fazia sentido devido ao tamanho diminuto das novelas originais, a divulgação consideravelmente menos extensa e o horário de exibição – à meia-noite do domingo para a segunda, longe do horário nobre em que as outras duas séries foram exibidas – eram sinais de uma certa cautela por parte da emissora. Que felicidade, portanto, ver como ao longo dos seus seis episódios O Cavaleiro dos Sete Reinos conseguiu superar as expectativas de praticamente todo mundo. Parece até apropriado para uma série cujo protagonista, o cavaleiro andante Dunk (Peter Claffey), é um azarão cujo arco na temporada centra-se em tentar provar seu valor num torneio onde estão presentes cavaleiros, lordes e até príncipes da Casa Targaryen. Na sua primeira cena, vemos Dunk enterrar seu mestre, Arlan de Centarbor (Danny Webb), e refletir sobre o que fazer a partir de agora. O crescendo da icônica música-tema de Game of Thrones nos induz a uma epifania gloriosa por parte do personagem, bem como a um estado épico nostalgia, mas o corte seco para a cena seguinte dele cagando já nos diz (sem muita sutileza): isso aqui não é Game of Thrones 2.0, ainda que estejamos no mesmo universo. E essa é a grande força da série. O showrunner Ira Parker, consciente de que não tem em mãos uma superprodução com o orçamento das duas anteriores, usa isso ao seu favor, empregando uma maior liberdade criativa que permite que sua obra cresça gradativamente em personalidade. Os dois primeiros episódios demarcam um tom mais leve e cômico, mas mesmo quando a temporada vai se tornando mais séria e trágica, ainda é capaz de o fazer de uma maneira muito autônoma e até mesmo autoral. Nem todas as marcas dessa autoralidade funcionam para mim (a recorrência do humor escatológico cansa depois da terceira ou quarta piada envolvendo fezes, cuspe ou vômito), mas é nítido que a série se esforça em se apresentar como algo próprio, longe da pressão de viver sob a sombra da série original (que tem sido exatamente o problema de Casa do Dragão). Imagem: Divulgação Longe das intrigas palacianas e das épicas batalhas com dragões e seres sobrenaturais, O Cavaleiro dos Sete Reinos revela seu coração pulsante quando acompanha seus personagens, em especial a dupla principal formada por Dunk e Egg (Dexter Sol Ansell), o menino que se agarra a ele como escudeiro e cujas verdadeiras origens logo assumem o centro da temporada. Ainda que eu evite fazer comparações com o material original, é inevitável não comentar do carinho que sempre tive pela relação de Dunk e Egg nas novelas, e a capacidade da série de captar tão habilmente os altos e baixos dessa relação, através da química de Claffey e Sol Ansell, é seu verdadeiro trunfo. Sol Ansell, aliás, é talvez a grande revelação da temporada, imbuindo seu Egg de uma ingenuidade e astúcia quase complementares, revelando camadas agridoces que enriquecem ainda mais a sua personalidade, de modo que é impossível não querer protegê-lo de todo mal. O carisma dos protagonistas também se estende aos coadjuvantes. Ainda que nem todos recebam um tempo de tela satisfatório, vários deles deixam suas marcas, seja o leal Raymun Fossoway (Shaun Thomas) ou o núcleo Targaryen da vez: o bondoso e justo Baelor (Bertie Carvel), o amargo Maekar (Sam Spruell) ou o cruel Aerion (Finn Bennett), cujas ações desencadeiam a cadeia de eventos que formam a segunda metade da temporada. Tais eventos culminam num penúltimo episódio que, mesmo prejudicado por um flashback excessivo das origens de Dunk, traz em seus 10 minutos finais uma sequência que, mesmo longe do escopo épico de Game of Thrones e A Casa do Dragão, deixa a sua própria marca, apostando em brutalidade, catarse e perdas que nos fazem lembrar como este universo é inclemente com os personagens que amamos. Mesmo com algumas decisões narrativas que não se pagam sempre, O Cavaleiro dos Sete Reinos se mostra o respiro que precisávamos e o lembrete de que ainda há espaço para o universo de Game of Thrones nos cativar e nos surpreender. Valendo-se das expectativas moderadas (para dizer o mínimo) que todos, fossem a própria HBO ou o público, tinham a seu respeito, a série usa isso a seu favor para construir um novo tipo de história em Westeros. Mal posso esperar para ver mais das aventuras de Dunk e Egg pelos reinos, e isso diz muito da marca positiva que a série nos deixa ao seu fim. Nota: 4/5

  • Crítica | All Her Fault (Minissérie)

    Sarah Snook brilha em uma história marcada por reviravoltas demais Divulgação Uma mãe chega para buscar o filho na casa de um amiguinho, mas quem abre a porta é uma senhora que não faz a menor ideia de quem ela é ou do que está acontecendo. Assim começa a sequência de acontecimentos inquietantes de All Her Fault, minissérie baseada no livro homônimo de Andrea Mara, que explodiu na internet mundial no início deste ano. A trama da série criada por Megan Gallagher é direta, mas construída para manter a desconfiança o tempo todo: todos os personagens se tornam suspeitos pelo desaparecimento de Milo. Cada um guarda segredos, apresenta inconsistências em suas versões e carrega algo que parece fora do lugar. Seria a mãe que deixou o filho brincar com alguém que mal conhecia? Ou o pai, que faz questão de parecer correto, mas já no primeiro episódio deixa claro que não é tão confiável quanto aparenta? Ou talvez até os irmãos dele, que também escondem histórias turbulentas que parecem longe de vir à tona por acaso. É justamente nisso que All Her Fault se sustenta, na culpa que assombra cada envolvido. A culpa corrói, mesmo quando não é a principal causa do problema que aconteceu. Ela nasce em motivos banais. Uma culpa de ter se atrasado por causa de um engarrafamento, comer algo sem realmente querer, planejar uma viagem sem ter dinheiro suficiente. Algo aparentemente tão chulo pode se transformar em um sentimento enorme quando se mistura a uma tragédia. Gallagher se debruça sobre esse sentimento para causar o maior impacto possível, até que o choque inicial seja substituído pela frustração e pela sensação de que foi prometido mais do que a série realmente entrega. All Her Fault acaba caindo nas armadilhas comuns a esse tipo de narrativa. Ao se levar excessivamente a sério, perde o próprio sentido dramático e passa a apostar quase exclusivamente no choque e em uma sucessão de reviravoltas que não conseguem recuperar o fôlego que a minissérie vai perdendo ao longo do caminho. Recorre ainda à artimanha preguiçosa de explicar tudo em um único episódio, simplificando o entendimento do espectador e tentando controlar artificialmente o que ele deve sentir durante toda a jornada. Divulgação Em compensação, boa parte do elenco de All Her Fault, especialmente Sarah Snook - como é bom ver ela de volta nas telinhas - e Dakota Fanning, está plenamente em sintonia com o tom da série. Discordo de quem afirma que as performances se apoiam na canastrice, pois todos entregam exatamente o que o texto exige, conduzindo o espectador a tentar entender onde cada personagem se encaixa nesse quebra-cabeça, como se também fosse mais um detetive dentro da história. Há motivos tanto para gostar quanto para desgostar deles, misturando as caixinhas de bonzinhos e vilões e dando um pouco mais de fôlego à trama. Ela pode até não fugir do genérico das séries de mistério, mas também não dá para dizer que não diverte. As diretoras Minkie Spiro e Kate Dennis instigam o espectador ao máximo a cada reviravolta, fazendo com que nos questionemos constantemente se nossas teorias ainda fazem sentido ou não. Foi interessante acompanhar o desenrolar dessa história, mas, ao mesmo tempo, também foi cansativo. De forma geral, ao longo de seus oito episódios, All Her Fault não reinventa a fórmula, e nem precisa, mas cumpre seu papel de entreter na rinha de ricos, em meio a um roteiro tendencioso e marcado por boas atuações. Pensando pelo lado positivo, pelo menos são oito episódios assistindo Sarah Snook brilhar. Nota: 3/5

  • Cineasta de Sergipe é selecionado para formação internacional promovida pelo ator Antonio Banderas

    Sidjonathas Araújo participará do Campus Málaga Talent, evento que reunirá jovens talentos da América Latina e da Europa na Espanha em março Imagem: Divulgação O cineasta formado pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), Sidjonathas Araújo foi selecionado para participar do Campus Málaga Talent, programa internacional de formação audiovisual que acontece entre os dias 5 e 14 de março de 2026, na Espanha. A iniciativa integra a programação oficial do 29º Festival de Málaga e reúne jovens talentos da América Latina e da Europa. Promovido pelo ator espanhol multipremiado Antonio Banderas, presidente de honra do Festival de Málaga, o Campus Málaga Talent seleciona anualmente 20 profissionais do audiovisual em início ou consolidação de carreira. O objetivo do programa é estimular a troca criativa, a colaboração profissional e a inserção dos participantes no mercado internacional, por meio de uma imersão formativa intensiva. Durante dez dias, os selecionados participam de atividades divididas em módulos que envolvem análise e desenvolvimento de projetos, estudo de novas estratégias narrativas e integração ao mercado audiovisual europeu. A programação inclui mentorias personalizadas, estudos de caso com profissionais do setor e participação direta nas atividades da área industrial do festival.“Para mim, ser selecionado para esse evento foi uma alegria muito grande. É um espaço que pensa exatamente na formação de novos talentos do cinema mundial, conectando experiências diversas de diferentes partes do globo”, afirma Sidjonathas. A participação do cineasta ocorre por meio de uma parceria entre o Festival de Málaga/Campus Málaga Talent e o Projeto Paradiso, instituição filantrópica voltada ao fortalecimento da indústria audiovisual brasileira, da qual faz parte por meio da Rede Paradiso de Talentos. “Tenho certeza de que essa experiência será de grande valia para a minha carreira profissional, enquanto cineasta baiano-sergipano em consolidação de trajetória. O intuito do evento é justamente apostar em jovens talentos, contribuindo para a nossa formação e ampliando as nossas conexões pelo mundo. Por isso, me sinto muito lisonjeado com esse reconhecimento e bastante motivado a aproveitar ao máximo todas as oportunidades”, relata Sidjonathas. Sidjonathas é sócio da Floriô de Cinema e graduado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Possui especialização em Direção pelo Centro Afrocarioca de Cinema (2020) e em Roteiro pela EICTV (2023), em Cuba. Em 2020, venceu o LAB Negras Narrativas com o curta-metragem Ímã de Geladeira, exibido em festivais como a Mostra de Tiradentes, o Festival de Gramado, o Chicago Latino Film Festival, o Seattle Black Film Festival e o Festival de Vitória.

  • Crítica | Hora do Recreio

    Um filme sobrecarregado por suas boas intenções e pelo excesso de ideias. Imagem: Divulgação Em tempos aterradores onde se vê todos os dias pelo menos uma notícia sobre violência de gênero e feminicídio, é reconfortante, em alguma medida, ver os jovens apresentados em Hora do Recreio articularem tão conscientemente suas posições a respeito de tantos temas vitais para a sociedade – gênero, raça, sexualidade, etc. Aqui, a câmera de Lúcia Murat dá espaço para que essas meninas e meninos, estudantes da rede pública do Rio de Janeiro, possam expressar suas inquietações em um mundo que cada vez menos dá espaço para tal, especialmente para aqueles que, como eles, vêm de realidades periféricas. Para tal, Murat adota uma proposta docuficcional, que alterna sequências onde estes jovens discutem entre si estes mais diversos recortes com instantes de encenação, sobretudo na última parte, onde há uma apresentação teatral de Clara dos Anjos, de Lima Barreto, por parte do grupo de alunos que vemos debater. As adversidades encontradas no decorrer da gravação do filme – como a não-permissão por parte da Secretaria da Educação do estado para gravarem numa escola ou uma operação policial – são incorporadas à narrativa também como forma de enfatizar a escolha pelos instantes encenados. Normalmente sou um grande fã de obras docuficcionais, sobretudo após acompanhar o trabalho de Eduardo Coutinho, que se tornou meu diretor brasileiro favorito. No cinema de Coutinho, sempre me impressionou sua capacidade de ouvir e dar ao Outro espaço para ser ele mesmo, de maneira natural (e não necessariamente real), com todas as suas contradições inerentes. O problema de Hora do Recreio é que, mesmo antes de ser revelado o seu dispositivo ficcional, há algo de não-orgânico na maneira como estes personagens se expressam e se articulam. Não é que eles não falem de questões contundentes ou defendam suas visões de mundo sem medo perante a câmera, justificando assim a relevância do filme em si; contudo, tudo parece engessado e protocolar demais, como se atendesse a uma cartilha sociopolítica específica, a qual está interessada em saber os posicionamentos destes personagens enquanto pouco se interessa pelo íntimo deles. Mesmo quando abordam experiências pessoais (como as violências que as mães sofreram nas mãos de parceiros), parecem dizer palavras previamente roteirizadas, ao invés de relatarem questões que vêm do amago do seu ser. São realidades que certamente ecoam em milhões de jovens pretos e pretas pelo país, mas é gritante a falta de espaço no filme para se ver a subjetividade a estes indivíduos, como se eles fossem menos sujeitos e mais ideias ou arquétipos ligados aos temas aqui trabalhados. À medida que o filme avança, fica claro seu excesso de ideias e de diferentes execuções, as quais pecam por uma falta de coesão interna entre elas. O longa oscila entre tons, saindo das entrevistas com os alunos para os momentos de encenação, abordando uma miríade de temas que, em decorrência da sua curta duração, nunca são explorados a fundo, muitas vezes aparecendo como se cumprissem uma mera diretriz (“aqui falamos sobre transfobia”, “agora vamos falar sobre a solidão da mulher preta”, etc.) ao invés de emergirem organicamente na obra. Imagem: Divulgação O dispositivo ficcional nunca é explorado suficientemente a fundo, exceto pelo momento da revelação de sua existência ou das sequências encenadas, sobretudo na adaptação de Clara dos Anjos. Não à toa, os momentos no teatro, intercalados com as falas do grupo de alunos postos em destaque nessa última parte, são o destaque do filme, por sintetizarem com mais eficácia aquilo que foi meramente pincelado nas partes anteriores. Estabelecer a conexão entre o livro, publicado mais de um século atrás, com as questões que atravessam esses jovens na contemporaneidade é um acerto por parte de Murat que me faz desejar justamente que o filme fosse mais centrado nessa parte em específico. No fim, tem-se uma obra que certamente se justifica pela “relevância” dos seus temas, mas peca na execução que, indecisa sobre que tom e abordagem escolher, parece atirar para muitos lados e carece de um foco tanto narrativo e temático quanto metodológico-formal. Na sua ânsia de dar conta de tantos assuntos relevantes, Hora do Recreio acaba se mostrando um filme inchado demais pra seus modestos 83 minutos, e que, portanto, carece de ímpeto pra ir além da superficialidade e de uma certa cartilha sociopolítica que, mesmo que ainda relevante, já foi retratada em filmes melhores – sobretudo aqueles que encontraram nas subjetividades dos seus personagens o seu maior tesouro. Nota: 2.5/5

  • Crítica | De Volta à Bahia

    Menos um romance, mais uma peça publicitária ou vídeo institucional. Imagem: Divulgação Como um aficionado por geografia e espaços urbanos desde pequeno, sempre me interessei pela maneira como o cinema pode se apropriar das cidades como personagens próprios das obras que nelas se passam. Para citar dois exemplos do cinema brasileiro, temos a reconstituição assombrosa do Recife dos anos 1970 em O Agente Secreto, ou as engrenagens desumanizadoras de São Paulo em São Paulo Sociedade Anônima. Não é apenas filmar naqueles espaços, mas incorporar suas histórias, suas identidades e culturas de tal maneira que eles são indissociáveis destes filmes. A julgar pelo seu título, De Volta à Bahia se propõe a fazer o mesmo, desta vez com Salvador como centro da sua narrativa. A capital baiana é palco do encontro entre Maya (Bárbara França) e Pedro (Lucca Picon), dois talentos promissores do surf que se conhecem após ele salvá-la de um afogamento e a ação ser gravada e se tornar viral. Ao descobrirem que possuem em comum a figura de PH (Felipe Roque) como mentor, os dois se aproximam e eventualmente se apaixonam, mas precisam lidar com seus dramas pessoais e familiares para poderem sustentar não apenas a relação, mas a paixão pelo surf. A direção de Eliezer Lipnik e Joana di Carso busca ao máximo extrair alguma potência da beleza cênica de Salvador, ancorando-se numa constante sucessão de planos gerais e tomadas aéreas da cidade e seus entornos e enfocando seus pontos naturais e turísticos: a praia da Barra, o farol de Itapoã, a igreja de Nosso Senhor do Bonfim, o Pelourinho, o Forte São Marcelo e por aí vai. Isso não seria um problema em si, especialmente quando situa os personagens geograficamente na cidade ali pelo começo. O problema reside na insistência dessas imagens até um ponto de exaustão, até que chega um momento em que é difícil saber se estamos vendo um filme ou apenas um vídeo institucional ou peça publicitária. As imagens são tão repetidas que acabam por serem completamente esvaziadas de algum sentido, especialmente quando fica evidente que vemos lugares da cidade em que os personagens não estão, sendo exibidos apenas porque sim. Nada contra se mostrar a beleza de Salvador – eu, como baiano (mesmo do interior), não vou deixar de enaltecer a capial do meu estado –, mas o filme parece tão focado em exibir essas imagens com sua montagem dinâmica, além de uma trilha sonora jovial e contemporânea (também repetitiva à exaustão, com uma mixagem sonora bastante pobre) que qualquer fiapo de narrativa fica em um segundo ou terceiro plano, como se seu real intuito fosse meramente ser uma campanha turística em prol da cidade. Imagem: Divulgação Não ajuda que, nas ocasiões em que o filme se lembra de que possui uma narrativa a contar, o que vemos em tela pouco se salva. Picon e França até conseguem convencer um pouco na química dos personagens (a criação de expectativa para o primeiro beijo, mesmo repetida ad nauseam pelos personagens, se paga com um excelente beijo), mas todo o resto dos seus dramas pessoais e familiares é, na melhor das hipóteses, um amontoado de ideias recicladas e trabalhadas sem algum frescor. Não que um gênero como o romance ou comédia romântica seja conhecido por sua inovação, pelo contrário: ele é dependente de fórmulas já consagradas. Mas é perceptível a incapacidade da direção em trabalhar organicamente os conflitos internos e externos dos protagonistas, ou até de usar seus coadjuvantes – resultando num antagonismo caricatural por parte de Beth (Mariana Freire), num alívio cômico que se limita ao constrangedor no caso de Arthur (Juliano Laham) ou no papo coach motivacional de Instagram de PH (Felipe Roque). É possível perdoar muitos pecados numa comédia romântica, mas não o de fazer personagens com os quais não nos importamos nem um pouco. Deste modo, De Volta à Bahia se configura como um filme perdido entre o que deseja ser e o que apresenta em tela. Trata-se de uma comédia romântica que não convence nem no romance nem no humor, ancorando-se em ideias muito rudimentares do gênero sem trabalhá-las adequadamente. Mas certamente seu maior problema consiste em se exibir tal qual uma propaganda institucional que não tem nada a oferecer sobre Salvador para além dos lugares mais famosos da cidade, filmados com a estética de um vídeo publicitário e sem qualquer vestígio de emprego da linguagem cinematográfica. Nota: 1/5

  • Crítica | Cinco Tipos de Medo

    Histórias que se interconectam em um cinema de gênero à brasileira... mesmo que nem sempre. Imagem: Divulgação Grande vencedor do último Festival de Gramado – onde conquistou os Kikitos de Melhor Longa-Metragem Brasileiro, Melhor Roteiro e Melhor Montagem para Bruno Bini e Melhor Ator Coadjuvante para Xamã –, Cinco Tipos de Medo se propõe antes de tudo como um exercício de cinema de gênero, coisa que sempre chama a atenção dentro da longa tradição do realismo social no cinema brasileiro. Não que temáticas relevantes não apareçam na narrativa (como violência, criminalidade, relacionamentos abusivos e etc.), mas desde seus primeiros minutos fica evidente a prioridade à ação que interligará as vidas dos personagens aqui retratados. São cinco: Murilo (João Vitor Silva), um violinista; Marlene (Bella Campos), enfermeira e interesse amoroso de Murilo; Sapinho (Xamã), traficante e namorado abusivo de Marlene; Luciana (Bárbara Colen), policial que lida com a perda do filho em razão do envolvimento com o tráfico; e Ivan (Rui Ricardo Diaz), advogado que também lida com uma perda pessoal que o conecta aos demais personagens. Através de uma estrutura não-linear – até demais, como apontarei abaixo –, estes personagens vão sendo interconectados e suas motivações reveladas à medida que as consequências dos seus conflitos se tornam cada vez mais catastróficas. Ambientado na periferia de Cuiabá (o que já confere ao filme louros por sair do eixo Rio-São Paulo), Cinco Tipos de Medo tenta apresentar essa realidade brasileira periférica sob diferentes prismas – majoritariamente individuais, mas também institucionais. No entanto, é perceptível como a direção de Bruno Bini (que também assina o roteiro e montagem) tenta emular uma lógica muito mais hollywoodiana ou de obras como Tropa de Elite, trazendo o contexto local muito mais na superfície para apostar numa estética gringa, seja na câmera tremida nas cenas de ação, na narração em off que abre e fecha o filme, na trilha musical melodramática e um tanto intrusiva. É como se faltasse ao filme referenciais da feitura de cinema de gênero (em particular o de ação) na própria história do audiovisual brasileiro, se ancorando em referenciais estrangeiros que podem ser mais assimilados pelo público. Imagem: Divulgação Mas talvez o grande problema do filme resida justamente naquilo que ele oferece de mais distinto. A tentativa de construir uma estrutura não-linear esbarra em escolhas questionáveis de roteiro e montagem, que mais atrapalham do que auxiliam o entendimento do espectador à medida que são montadas as peças deste quebra-cabeça. A linha temporal do filme se revela uma verdadeira bagunça em determinados momentos à medida que a trama vai e vem para situar os personagens no tempo e no espaço. É como se, na tentativa de tornar-se mais complexa do que realmente é – especialmente considerando o nível raso da maioria dos diálogos e das maneiras pela qual o texto quer fazer os personagens se conectarem –, a obra acabasse ameaçando se perder nessa irregularidade, o que torna ainda mais surpreendente (e controverso) ter levado os Kikitos de Melhor Roteiro e Melhor Montagem. Apesar dessas escolhas irregulares, porém, Cinco Tipos de Medo se sai muito exitoso no seu conjunto de atuações, com Bella Campos e Xamã sendo particularmente os destaques dentro do quinteto principal (ainda que seja inevitável pensar no papel dele como algo estereotipado considerando que ele também está fazendo um traficante na novela Três Graças). Me chama também a atenção de coadjuvantes veteranos como Rejane Faria e Zé Carlos Machado, os quais se destacam mesmo nas poucas cenas em que aparecem – a personagem de Faria, aliás, talvez traga o que o filme tem de mais genuíno dentro deste cenário em que é ambientado, na sua tentativa de poupar o neto da criminalidade que assola o bairro em que mora. Como alguém que cresceu assistindo a muito do cinema de gênero, em especial a ação, sempre vou advogar pela produção dessas obras no Brasil e para que tenham tanto respeito quanto nossas obras-primas mais consagradas, calcadas no realismo e drama social. Contudo, não adianta vender um “cinema de gênero brasileiro” que salvo a ambientação e alguns detalhes aqui e ali, em quase nada difere daquilo que já se vê aos montes no cinema industrial hollywoodiano. Cinco Tipos de Medo pode até servir como uma porta de entrada para essa ação “à brasileira”, mas a despeito da sua estrutura ambiciosa, não se esforça para ir além disso. Nota: 2.5/5

  • Crítica | Casamento Sangrento: A Viúva

    Continuação extrapola seus artifícios ao máximo para suprir falta de efeito surpresa. Imagem: Divulgação Em Casamento Sangrento: A Viúva, Grace precisará novamente lutar para sobreviver a uma caçada brutal, agora com a irmã distante Faith (Kathryn Newton) ao seu lado. Após escapar do ataque da família de seu noivo num jogo mortal de pique-esconde, Grace descobre que sua vitória veio com um preço: agora, as famílias mais ricas e poderosas do mundo precisam caçá-la num novo jogo sombrio ou arriscam perder seu poder e fortuna. A jovem viúva se recusa a participar, mas nada pode fazê-la escapar quando eles sequestram e juram de morte sua irmã Faith. Agora, a dupla precisa vencer esse pesadelo, protegendo uma à outra enquanto Grace tenta alcançar o alto posto do Conselho no qual as quatro famílias rivais fazem parte. Sem o benefício do impacto inicial que marcou o primeiro filme, a sequência encontra sua força ao ampliar tudo aquilo que já funcionava. Em vez de apostar no mistério ou na surpresa, o longa abraça o exagero como linguagem, elevando o nível das mortes, intensificando o uso do sangue e expandindo as sequências de ação a proporções quase operísticas. Essa escolha não apenas mantém o ritmo acelerado como também reforça a identidade da franquia, que parece cada vez mais confortável em assumir seu lado mais caótico e estilizado. Ao mesmo tempo, o roteiro segue o caminho já conhecido de investir em múltiplas subtramas que orbitam personagens descartáveis, criados essencialmente para alimentar a insaciável violência criativa. Ainda assim, há um certo charme nesse excesso, já que o filme entende o tipo de espetáculo que deseja entregar. O humor continua presente e funciona como válvula de escape, equilibrando o tom sombrio com momentos de ironia e absurdo que impedem a narrativa de se levar a sério demais. Imagem: Divulgação O elenco segue sendo um dos pontos altos, mas aqui ganha um tempero extra com participações especiais que acrescentam personalidade e um charme particular ao conjunto. Entre elas, a presença de David Cronenberg chama atenção não apenas pelo peso do nome, mas pela forma como sua aparição dialoga com o universo do filme, quase como uma piscadela para o público mais atento. Essas entradas pontuais ajudam a enriquecer a experiência e reforçam o tom irreverente da narrativa, funcionando como pequenos bônus dentro do caos geral que a história propõe. No frigir dos ovos, Casamento Sangrento: A Viúva se mostra uma continuação sólida, consciente de suas limitações e disposta a compensá-las com exagero e ritmo. Ainda que precise se esforçar bastante para alcançar seus melhores momentos, algo que o filme não tenta esconder, ele consegue entreter ao explorar ao máximo suas próprias regras e entregar precisamente o tipo de experiência que promete. Nota: 3/5

  • Crítica | Peaky Blinders: O Homem Imortal

    Finalmente temos o capítulo final da saga de Tommy Shelby, mas não sem algumas ressalvas. Imagem: Divulgação Quando a última temporada da série foi ao ar em 2022, eu tive a impressão que Steven Knight – criador do programa e roteirista do longa – estava “guardando histórias”. Depois de um determinado acontecimento, a trama pouco avançou e me pareceu que o fim daqueles arcos aconteceriam no filme, que ainda não estava oficialmente confirmado, mas os boatos existiam. Bom, o filme chegou e trouxe novos enredos, mas muito mais encerramentos do que a série. Agora, Tommy (Cillian Murphy) está recluso, lidando com o luto e as perdas da vida do crime. No entanto, seu filho Duke (Barry Keoghan) assumiu a liderança dos Peaky Blinders, está possivelmente se aliando a um nazista interpretado por Tim Roth e Tommy precisa salvá-lo, digamos assim. A narrativa é a mais superficial da franquia, provavelmente, até porque não dá para comparar um aprofundamento que acontece em seis episódios com um filme de duas horas. Insere uma gama de novos personagens e outros antigos têm pouco destaque. Ada (Sophie Rundle) tem um papel pequeno, mas relevante. Enquanto Arthur, “aparece” ainda menos, mas o seu destino é crucial para como Tommy se sente, embora que fosse algo melhor desenvolvido se tivesse acontecido na série, ainda que tenha algum impacto. Imagem: Divulgação Outra personagem nova é Kaulo (Rebecca Ferguson), uma mulher misteriosa que explora o lado mais místico da história, mas sem muitas camadas, devo dizer. O vilão de Tim Roth é ótimo, porém mais por causa do trabalho do talento e carisma do ator, do que pelo roteiro em si. A série sempre foi excelente em desenvolver seus antagonistas, no entanto, desta vez ele funciona mais como uma muleta para que a relação de Tommy com o filho ganhe alguma substância. Murphy sempre fantástico na pele do gângster e Keoghan está à altura, então o elenco definitivamente não é um problema. A trilha sonora, o design de produção e os figurinos continuam pontos extremamente positivos aqui no longa, que não deixa de ser um presente para nós fãs que merecíamos um encerramento digno para aqueles personagens que acompanhamos por tantos anos. Pessoalmente, eu preferia que tivesse acontecido dentro da própria série com o tempo necessário para que pudessem se desenvolver melhor. Mas o que temos é o filme dirigido por Tom Harper. Ainda que ele tenha dirigido apenas três episódios de Peaky Blinders, lá dá primeira temporada, eu gosto do que ele faz aqui e como parece ter familiaridade com o tom e a atmosfera que estavam bem presentes. O roteiro de Steven Knight é um tanto superficial e mesmo que dê a sensação de que alguns encerramentos sejam apressados, como os de Ada e Arthur, eu acho que Tommy consegue sair de cena de forma nobre. É algo que vinha realmente se acumulando durante sua jornada e faz sentido com o que vimos até então. É bonito e emocionante e mesmo que não exista nenhum homem imortal, quando se deixa um legado, ele se torna. Nota: 3,5/5

  • Velhos Bandidos: o “dream team” brasileiro se reúne

    O Oxente Pipoca acompanhou de perto a coletiva de imprensa do filme, na última quinta-feira (19). Imagem: Aianne Amado Por volta das 12h30 do último dia 19, Fernanda Montenegro adentra a sala de conferência do hotel Fairmont Rio, em Copacabana, de braços dados com Vladimir Brichta, que, sorridente, lhe sussurra algo ao pé do ouvido. Logo atrás vêm Bruna Marquezine, Ary Fontoura e Lázaro Ramos, alinhando-se lado a lado. Dona Fernanda procura Lázaro com o olhar e chama por ele; fora de seu campo de visão, ele a tranquiliza: “estou aqui!”. Ela se dirige até ele para se posicionar para as fotos (mais tarde, iríamos entender mais sobre essa relação). Segundos depois, Cláudio Torres entra na sala, posiciona-se atrás do elenco e aponta, orgulhoso, para a mãe e para o “tio” — como chama Fontoura. Tem início a coletiva de imprensa de Velhos Bandidos, comédia nacional que estreia no próximo dia 26. Encerrada a sessão de fotos, todos se acomodam em seus lugares devidamente marcados. Enquanto Dona Fernanda caminha até sua cadeira, alguns jornalistas ensaiam palmas tímidas. Ela para, encara a “plateia” e, abrindo os braços, decreta: “podem me aplaudir!”. Era exatamente a autorização que faltava para a chuva de aplausos que seguiria. Duas coisas se tornam evidentes desde os primeiros minutos: (1) o peso simbólico daquelas figuras – não apenas algumas das personalidades mais conhecidas do país, mas também alguns dos nossos maiores artistas cênicos vivos; e (2) o afeto palpável que circula entre eles. São essas duas esferas que dão o tom do Q&A que se estende pela próxima hora. De imediato, Cláudio Torres já avisa: aquele elenco não foi feito para caber na tela do celular ou da televisão, urgindo que o público os assistam no cinema, em tela grande. Ao revelar sua estratégia para reunir o que chama de “dream team”, entrega o truque: “Foi só dizer que estava pensando em fazer um filme com a minha mãe que todo mundo falava ‘tô dentro!’”. Sem pudor, conclui que “foi uma carteirada”. Para Fernanda Montenegro, no entanto, o filme está mais para um presente. “Ele sabe que eu gosto de comédia — fiz muita comédia na vida. E tem também o conjunto dos companheiros de cena… Tudo foi uma festa! Dava até pena quando o dia acabava”. Há, em sua fala, algo entre o entusiasmo de estreia e a serenidade de quem já viu (e fez) de tudo um pouco. “Há uma hora na vida em que a gente não tem mais futuro — sem morbidez”, diz ela, com leveza desarmante. E completa: “Eu acho que só tenho o presente. E, no presente, estar com essa família de opção e ter meu filho me dirigindo é um momento especial”. O tom é celebratório. Ainda nesse registro afetivo, Ary Fontoura relembra seus 50 anos de amizade com Fernanda, marcados por inúmeras parcerias no teatro e na televisão — mas nunca antes no cinema. Montenegro aproveita para destacar as participações da velha guarda teatral no longa, classificando-as como uma “gentileza” de um diretor criado entre coxias e bastidores. Também sobre essa gentileza entre colegas, destaca o quão raro é ter uma obra com cinco protagonistas, todos com igual destaque e “sem querer ganhar de ninguém”. A mais jovem do grupo, Bruna Marquezine, descreve a experiência como “divertidíssima e, ao mesmo tempo, um tremendo aprendizado”, celebrando a chance de contracenar com artistas que sempre admirou. “Para mim foi mágico. É um privilégio!”. “Foi um encontro de felicidade e de vida”, resume Vladimir Brichta, antes de revelar que aquela versão polida diante das câmeras é mesmo uma versão. No set, garante, o clima era outro, bem mais bagunçado. “Era difícil parar de rir para dizer ‘ação’ e ‘corta’”, completa Cláudio. Essa deixa altera o eixo da coletiva. O elenco relaxa, as histórias começam a surgir e, por alguns minutos, temos acesso a uma espécie de making of oral e improvisado. Bruna confessa que, em certos momentos, queria apenas uma pipoca para assistir às trocas entre Lázaro e Vladimir – uma intimidade construída ao longo de décadas de amizade. Brichta, por sua vez, conta episódios da curiosa inversão entre mãe e filho em cena: em determinado momento, sem um objeto de cena adequado, Cláudio simplesmente coloca um saco de cerca de 20 quilos no colo da mãe, avisando: “Vai pesar, mas a senhora aguenta”. Vladimir está inconformado, o resto do elenco ri, mas ela apenas dá os ombros – dando a entender que, se preciso fosse para garantir uma boa cena, aguentaria sim. “Eu sou uma vocacionada!” Imagem: Aianne Amado Já Lázaro Ramos, que se autodeclara “irmão” de Cláudio e filho de Fernanda, a quem chama de “mamãe”, revela, com um leve constrangimento, que a fala “velha safada” surgiu no improviso. “Mamãe sabe que eu a amo e respeito”, apressa-se em dizer. Correspondendo o afeto, Montenegro pergunta há quanto tempo os dois “se cultuam”. “Desde que eu tinha 18 — quase 30 anos”, responde ele. Marquezine interrompe o diálogo para dizer que também está pleiteando essa certidão postiça. Entre uma piada interna e outra, fica claro que o set foi, de fato, um espaço de convivência prazerosa, quase um encontro de amigos com câmera ligada. E talvez resida aí a lógica mais simples (e mais eficiente) do projeto: se quem faz está se divertindo, há uma boa chance de quem assiste embarcar junto, como lembra Ary Fontoura. Com a autoridade de quem sabe do que fala, ele decreta que “fazer chorar é fácil; fazer rir é um problema sério” — motivo pelo qual ele considera a comédia um gênero superior. Fernanda concorda: “Fazer comédia é muito difícil: ou você nasce com talento ou não dá conta”. Na despedida, Cláudio Torres reireta: Velhos Bandidos foi pensado como entretenimento para toda a família, afinal, “o cinema nasceu nos parques de diversão”. E talvez seja essa a melhor síntese do que se viu ali: mais do que dirigir um filme, Torres parece ter orquestrado um ambiente em que o elenco pudesse se divertir sem freio – confiando que, em algum momento, essa alegria inevitavelmente transbordaria para a tela. Ao que tudo indica, transbordou. Confira nossa crítica de Velhos Bandidos aqui

  • Entrevista | “É sobre amadurecer e se reconectar”: elenco e diretor falam sobre O Velho Fusca

    Ao lado dos atores Caio Manhente e Giovanna Chaves, o diretor Emiliano Ruschel fala sobre o longa que estreia nos cinemas em 19 de março. Imagem: Divulgação Entre memórias afetivas, conflitos familiares e o desejo de liberdade, O Velho Fusca chega aos cinemas no dia 19 de março apostando em uma história sensível, divertida e cheia de emoção. O filme acompanha Junior, um jovem que, ao encontrar um Fusca abandonado na garagem do avô amargurado, enxerga no carro a chance de transformar sua vida. No entanto, para conquistar esse sonho, ele precisa enfrentar um passado mal resolvido e ajudar a reconstruir uma relação familiar marcada por anos de afastamento. Em conversa com o Oxente Pipoca, os atores Caio Manhente e Giovanna Chaves, ao lado do diretor Emiliano Ruschel, falaram sobre a construção dos personagens, os bastidores da produção e o encontro de gerações que marca o filme. Entre reflexões sobre amadurecimento e relatos de experiências no set, o trio destaca como a obra dialoga com diferentes públicos e reforça a força do cinema brasileiro. Confira a íntegra da conversa abaixo: Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Oi, gente! Eu sou Gabriella, do Oxente Pipoca, falando aqui de Aracaju, Sergipe. É um prazer conversar com vocês. Eu assisti ao filme ontem, gostei bastante, e queria começar perguntando o que mais chamou a atenção de vocês nos seus personagens. Caio, o seu personagem está nesse processo de tentar reconstruir a relação com o avô. Já a Giovanna começa como uma menina aparentemente mais frágil, mas ao longo da história a gente descobre uma força enorme nela e acaba se revelando uma verdadeira protagonista do próprio destino. Queria que vocês falassem um pouquinho sobre a construção desses personagens e o que mais atraiu vocês neles. Caio Manhente: Cara, a primeira coisa que eu queria falar é que eu sou doido pra conhecer Sergipe. Tenho um dos meus melhores amigos, que é o Samuca de Assis, Adaí. Apesar de eu ter ido muito pra Salvador, enfim… pô, que alegria! Quero muito conhecer. E aí, falando do Júnior… cara, eu acho que ele é uma pessoa que está nessa transição, né? Saindo da adolescência pra vida adulta, virando um jovem adulto. E ele enxerga nesse Fusca um passaporte pra liberdade. Ele acha que, quando tiver aquele carro, todas as questões da vida vão se resolver, que tudo vai dar certo. É óbvio que a vida não funciona assim, mas acho que a gente sempre deposita em algum objeto a resolução dos nossos problemas e o Júnior faz isso com o Fusca. Só que, ao longo da história, ele entende que não é bem por aí. Na verdade, o que ele precisa reconstruir é a relação da família, especialmente com o avô. E eu acho que o filme fala muito sobre isso, sobre reconstrução de relações. Então, o Júnior é esse personagem… e esse filme foi rodado há quatro anos. Eu estava muito mais próximo do Júnior do que estou hoje. Pra mim, é quase um registro de uma versão do Caio entrando nessa fase de jovem adulto. Giovanna Chaves: E falando um pouco sobre a Layla, eu acho que todo mundo sai do cinema meio com essa sensação de “meu Deus, eu não esperava que ela fosse isso”. Mas acredito que a Layla também está nesse processo de amadurecimento, de descobrir quem ela é no mundo. Ela já está meio de saco cheio das pessoas rotularem ela, de dizerem que ela é isso ou aquilo. Tanto o personagem do Jeff, que enxerga ela como a “menina bonita” e idealiza uma relação, quanto a treinadora, que chama ela de “princesa”. Então, ela já está acostumada a ser colocada sempre nesse lugar de fragilidade. Por isso, ela usa o esporte como uma espécie de fuga, um espaço onde consegue se descobrir de outras formas e entender que não é só aquilo que dizem sobre ela. Ao longo do filme, acho que o público vai se conectando com a Layla justamente por isso, porque ela vai se abrindo aos poucos. No começo, ela é mais fechada emocionalmente, mas, com o tempo, a gente vai entendendo melhor a personalidade dela, a relação dela com o Júnior e também com ela mesma. Então, acho que é por isso que muita gente vai se identificar, especialmente as meninas. É um filme muito legal e que também marca bem essa minha trajetória, essa transição de atriz adolescente para essa fase mais adulta. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Queria saber como essa história chegou até você e o que te motivou a transformá-la em filme. Você pode contar um pouquinho sobre o seu envolvimento com o projeto? Emiliano Ruschel: Você sabe, eu estava morando nos Estados Unidos na época. Eu tinha rodado um filme lá e também na França, e estava vindo para o Brasil para fazer um filme chamado Segredos, com a Dani Suzuki. Eram dois filmes com a mesma empresa. Aí o roteirista, Bio Labonia, que é de Fortaleza, mas estava morando no Canadá estudando roteiro, falou: “Cara, tô com um roteiro, queria muito que você lesse”. Eu respondi: “Pô, me manda”. Quando eu li, cara, eu me diverti, ri, chorei. O roteiro era muito bom. Ele já vinha desenvolvendo esse projeto há um tempo e já tinha ganhado vários prêmios, mais de dez, inclusive. Só que a ideia inicial era que a história se passasse nos Estados Unidos. Então eu sugeri levar a produção para o Brasil, já que eu estava vindo para cá. Comentei que poderíamos fazer no Rio de Janeiro, e ele adorou a ideia. Levei o projeto para a distribuidora, que já tinha me perguntado qual seria o próximo filme. Eles leram o roteiro, se divertiram, riram, se emocionaram e toparam produzir. A partir daí, fizemos uma adaptação da história dos Estados Unidos para o Brasil. Isso trouxe alguns desafios práticos. Por exemplo, a casa do avô e o espaço onde as meninas treinam boxe ficam lado a lado. Na versão americana, provavelmente não existiria um muro separando esses espaços, mas aqui isso fazia sentido. Então precisei encontrar uma casa com um muro muito específico. Não podia ser alto demais, nem baixo demais, nem ter cerca elétrica. Tinha que ser exatamente como eu imaginava. E aí comecei a rodar o Rio de Janeiro inteiro em busca desse lugar. Imagem: Divulgação Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu achei muito curioso você falar isso, porque, assistindo ao filme, tive a sensação de que o Rio funciona quase como um personagem. Mesmo sem nunca ter ido, eu me senti muito inserida naquele ambiente, no Rio de Janeiro. Fiquei curiosa pra saber se isso foi intencional. Era uma ideia sua fazer com que o Rio tivesse uma presença tão marcante na história? Emiliano Ruschel: É, ele é um personagem, sim, porque o Rio de Janeiro tem muito essa força, né? E acho que a gente complementou isso com a música, que ajudou a dar essa identidade bem carioca. O personagem do vovô também é muito carioca, no jeito, na forma de falar e de se comportar. Eu morei aqui no Rio, sou gaúcho e vim pra cá quando era bem jovem. Fiquei uns dez anos aqui, depois fui para os Estados Unidos e fiquei sete anos lá. Então eu conhecia bem esse universo e via muito filme ambientado no Rio. Quando eu encontrei aquela casa, lá na Urca, foi muito especial. A Urca tem, ao fundo, o Pão de Açúcar, que é um cartão-postal da cidade. Na hora eu pensei: “Cara, é essa casa”. Fui falar com a dona e pedi para usar o espaço para o filme. Acho que, naturalmente, o filme foi construindo essa identidade ao longo do processo. Ele acabou ganhando muito essa vibe de Rio de Janeiro, mas não só do ponto de vista turístico. Tem também esse olhar de quem mora na cidade, sabe? Porque é diferente de como o turista enxerga. Isso trouxe uma sensação muito gostosa. Aquela casa na Urca é linda. Tem cenas em que o vovô está sentado e a gente filma de dentro do pátio para fora, e você vê os barquinhos, a luz, as amendoeiras, as folhas no chão… tudo isso cria um clima muito próprio do Rio. E a música também ajuda muito. Ela é maravilhosa e transporta o espectador pra dentro desse universo, reforçando ainda mais essa atmosfera carioca. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): O Caio comentou que o filme foi gravado há quatro anos e que só agora vocês estão vendo o resultado final. Como foi essa experiência para vocês? Giovanna Chaves: Eu acho meio difícil assistir a algo que a gente gravou há muito tempo, sabe? Fico pensando: “Meu Deus, eu faria tudo diferente hoje em dia”. É engraçado se ver de outra forma. Mas, ao mesmo tempo, é muito bom ter esse registro de uma fase da vida, de um momento específico que você estava vivendo. Acho isso muito importante. Foi meio louco me ver assim, mais nova, diferente… até com o cabelo escuro, né? Não tão loira quanto eu estou agora. Mas acho que a vida é sobre isso, sobre amadurecimento, mudança. E o filme também fala um pouco sobre isso, sobre crescer e se transformar. Então, no fim das contas, foi uma experiência bem legal. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Uma coisa que me chamou atenção no filme foi justamente o encontro entre diferentes gerações de atores. Vocês têm artistas mais jovens, que já estão se consolidando, como o Caio, a Giovana e o Christian, ao lado de nomes mais experientes, como a Cleo, o Danton Mello e o Tonico Pereira. Queria saber como foi, pro Emiliano, trabalhar com esses dois universos. Como foi promover esse encontro de gerações no elenco, e de que forma isso contribuiu para o resultado final do filme? Emiliano Ruschel: Tem uma química muito grande, né? Eles se dão super bem. Você vê o Caio junto com o Dan e com a Cleo, parece realmente filho deles. Ficou muito natural. E isso é muito legal porque o próprio roteiro já traz esse conflito de gerações. Então, na hora de montar o elenco, a gente teve a oportunidade de juntar, de fato, diferentes gerações. O processo de escalação foi muito interessante. Quando li o roteiro, a primeira coisa que perguntei para o roteirista foi: “Em quem você pensou para o vovô?”. Porque é um personagem muito marcante. E ele respondeu que escreveu já pensando no Tonico Pereira. Aí eu falei: “Então eu vou atrás dele, porque é perfeito”. Consegui marcar um encontro com o Tonico, que tem um brechó em Botafogo. Fui lá conversar com ele, e ele estava super à vontade, de bermuda, naquele calor, e a gente ficou ali batendo papo, tomando um café. Foi um encontro muito especial. A partir do Tonico, o projeto foi ganhando força. Tive a sorte de contar com vários coprodutores, como o Diego Timbó, da Uno Filmes, que também assina a direção musical, a Flávia Gularte, e a própria Cléo, que entrou como coprodutora. Junto com a produtora de elenco, fomos construindo esse time. Foi realmente um trabalho coletivo, com muitas mãos e muito talento envolvido. E o resultado foi um elenco incrível. Eu me sinto muito honrado de ter reunido um grupo tão forte, com atores tão talentosos. E isso também se reflete na música. Como o Diego é diretor musical, pensamos em criar uma trilha original, e o filme acabou ganhando um álbum com músicas feitas especialmente para ele. Conseguimos reunir nomes consagrados da música brasileira, como Jorge Aragão, Péricles e Jorge Vercillo, junto com artistas mais jovens. Então existe esse mesmo encontro de gerações também na trilha sonora. É um equilíbrio muito interessante, que dialoga com o próprio tema do filme. E acho que tudo isso contribuiu para essa química que a gente vê na tela. Funcionou muito bem. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Caio e Giovanna contracenam com atores bem experientes, como Danton Mello, Cléo Pires e Tonico Pereira. Queria saber como foi essa experiência para vocês. Principalmente pensando nesse contraste, já que vocês dois vêm de uma trajetória forte na televisão, com o Caio desde Detetives do Prédio Azul e a Giovana também com trabalhos voltados ao público mais jovem. Como foi esse encontro de gerações, agora nesse momento em que vocês já estão como jovens adultos, dividindo cena com nomes tão marcantes e dando continuidade à carreira de vocês no cinema? Caio Manhente: Cara, tem uma coisa interessante, né? O Danton também começou muito novo, ele e o Selton. Foi uma alegria conhecer o Danton e depois reencontrá-lo. Em Garota do Momento, a gente fez genro e sogro, e foi uma relação maravilhosa. Eu já tinha trabalhado com a Cléo também, em Magia de Aruna, da Disney. E essa foi a minha primeira experiência com o Tonico, que eu queria muito conhecer e contracenar. Foi incrível. Mas acho que uma das coisas mais legais do nosso trabalho é justamente isso: poder estar com pessoas mais experientes, com atores e atrizes que já têm uma longa trajetória. Claro que a nossa profissão exige dedicação, estudo, leitura… mas, honestamente, acho que a maior escola são os nossos colegas de cena que têm mais experiência. Eu tento aprender com eles ao máximo. E, ao mesmo tempo, entre a gente também rola muita troca. Eu, a Giovana, o Christian, que está no filme… a gente vai aprendendo uns com os outros, observando o que cada um traz, o que pode ensinar. Acho que o trabalho do ator é isso: estar sempre com o olhar atento, muito aberto para tudo. Essa troca, para mim, é uma das coisas mais ricas que a gente pode ter, tanto na profissão quanto na vida. Giovanna Chaves: Eu gosto muito de observar o outro, de prestar atenção, de entender o ambiente. Então foi muito gostoso contracenar com atores mais experientes, com mais bagagem do que eu. Saber ouvir, entender, perceber como eles se comportam em cena… acho que isso ensina muito. Cada trabalho é um novo desafio, mas também um presente. Então, para mim, foi uma experiência muito rica nesse sentido, de aprender com o outro, de desenvolver esse olhar e crescer a partir disso. Caio Manhente: E só um comentário engraçado… o Tonico Pereira já fez inúmeros filmes, né? Mas, na minha cabeça, por memória de infância, ele sempre vai ser o Lineuzinho, de A Grande Família. E é curioso porque o primeiro desses grandes atores com quem eu contracenei foi o Marco Nanini, em A Suprema Felicidade. Então agora virou quase uma missão pessoal: ir encontrando e trabalhando com cada um deles. Ainda faltam a Marieta e o Pedro Cardoso… mas eu chego lá. Vou dar um jeito de encontrá-los. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Vou aproveitar para fazer uma pergunta final, que eu sempre faço para todos os entrevistados aqui no Oxente. Queria que vocês deixassem uma indicação de filme ou série para o público. Pode ser algo favorito de vocês ou até algo que tenha ajudado no processo de construção durante O Velho Fusca. Só tem um detalhe: precisa ser uma produção brasileira. Emiliano Ruschel: Acho que agora todo mundo tem que assistir O Agente Secreto, né? É um filme que está vivendo um momento fantástico. Eu tive a oportunidade de trabalhar com o Wagner Moura em VIPs, contracenei com ele. Então, claro, estou torcendo muito por ele. E a gente fica muito feliz de ver o cinema brasileiro ganhando esse destaque. A gente torce muito pelo nosso cinema. Giovanna Chaves: De indicação de filme, acho que é O Agente Secreto, né? Com certeza, gente. Caio Manhente: O Agente Secreto está na cabeça, né? Wagner Moura, perna cabeluda… e afins. Mas eu tenho um filme que acho que é o meu brasileiro preferido, e que não é tão conhecido assim, apesar de ser do Walter Salles, que é Abril Despedaçado. Eu acho um filme inacreditável. Então fica a minha dica para quem quiser assistir. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Para finalizar, queria pedir que vocês deixassem um convite para os nossos seguidores irem ao cinema no dia 19 de março assistir O Velho Fusca. Emiliano Ruschel: Então, queria convidar todo mundo, a partir do dia 19 de março, para ir ao cinema. Essas primeiras semanas são muito importantes para o cinema brasileiro, para que o filme permaneça em cartaz. Então, venham prestigiar. Vão aos cinemas assistir O Velho Fusca, venham rir, se divertir e se emocionar com a gente. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): O final me emocionou muito, de verdade. Acho que o desfecho do filme vai pegar muita gente desprevenida no cinema. A pessoa vai achando que é só uma comédia, que vai rir o tempo todo… e, quando vê, está ali no final, fungando, emocionada. Emiliano Ruschel: Então, você sabe que o Zé Vaqueiro estava na exibição lá em São Paulo. E, quando saiu da sessão, ele falou: “Cara, chorei muito. Vou ligar para a minha avó”. Giovanna Chaves: Gente, assistam O Velho Fusca nos cinemas de todo o Brasil a partir do dia 19 de março. Caio Manhente: Isso aí, galera! O Velho Fusca, dia 19 de março no cinema. E, de preferência, assistam na primeira semana, é muito importante!

  • Entrevista | Natália Maia fala sobre seu primeiro longa, “A Estranha Familiar”

    Em entrevista ao portal Oxente Pipoca, a diretora e roteirista cearense Natália Maia falou sobre o processo de criação e produção de seu primeiro longa-metragem como diretora solo Imagem: Divulgação Em entrevista ao portal Oxente Pipoca, a diretora e roteirista cearense Natália Maia falou sobre o processo de criação e produção de seu primeiro longa-metragem como diretora solo, A Estranha Familiar. O filme mistura elementos de thriller político e faroeste contemporâneo, tendo uma juíza como protagonista em uma trama ambientada no interior do Ceará. A cineasta também comentou sobre a formação no audiovisual, políticas públicas e o espaço das mulheres no cinema brasileiro. Confira a entrevista na íntegra abaixo: Ávila (Oxente Pipoca): Prazer em falar com você. Queria começar dizendo o que eu já falei incontáveis vezes para o Allan [Deberton] e para o Marcelo [Pinheiro] e que também tive a oportunidade de dizer para a Marcélia Cartaxo, que Pacarrete é um dos filmes favoritos da equipe do Oxente Pipoca. É praticamente unanimidade entre nós. Então, antes de tudo, parabéns pelo trabalho, é um filme muito sensível, bonito e acessível. Agora falando sobre A Estranha Familiar: queria te perguntar de onde surgiu a ideia do filme. Como nasceu essa história de um thriller político com uma personagem feminina no centro? Foi algo inspirado em vivências pessoais ou em histórias que você observou? Natália Maia: Essa ideia surgiu de uma experiência da época em que eu ainda trabalhava como repórter institucional da Prefeitura de Fortaleza. Isso foi há alguns anos, entre 2013 e 2015, mais ou menos. Como repórter, eu cobria diversas pautas. Uma delas foi a posse de um grupo de juízes substitutos que seriam enviados para cidades que não tinham acesso direto ao Poder Judiciário. Eu fiz a cobertura da cerimônia, escrevi a matéria e depois fiquei olhando a foto que acompanhava o texto, com todos aqueles juízes reunidos. Aquilo me fez pensar muito sobre o ofício dessas pessoas. Na época eu trabalhava como repórter e tinha contato com muitas histórias, muitas situações diferentes. Mas, por algum motivo, aquela imagem me marcou bastante. Comecei a pensar no que significa ocupar esse lugar de representação da justiça. São pessoas que chegam a cidades onde muitas vezes não existe um acesso estruturado ao Judiciário e, de certa forma, passam a representar esse acesso. Isso me fez refletir sobre a subjetividade que existe nesse processo. Existe uma expectativa de imparcialidade na figura do juiz, mas, ao mesmo tempo, as decisões passam pelo olhar e pelo filtro de quem está ali julgando. Então existe essa tensão entre a ideia de objetividade da lei e a subjetividade humana. Foi a partir dessa reflexão que comecei a imaginar uma personagem. Alguns anos depois, em 2018, abriu uma nova turma do laboratório do Porto Iracema das Artes, que é uma instituição muito importante para a formação audiovisual no Ceará. Eu enviei um argumento inicial para o laboratório. Já era a ideia de uma juíza que iria para uma cidade pequena para assumir uma posição inédita ali. Naquele momento, a personagem não tinha relação anterior com a cidade, depois isso mudou no roteiro, mas ela seria a primeira juíza daquele lugar. Também já existia a personagem da radialista, que era uma figura muito presente na política local e que representava quase o oposto da postura de imparcialidade que a juíza queria manter. Então já havia um conflito forte entre essas duas figuras. Ao mesmo tempo, eu tinha um interesse grande em trabalhar com referências do faroeste em diálogo com o thriller político. Entre as influências que eu mencionava naquele momento estavam Minha Terra, África (2009), da Claire Denis e O Homem que Matou o Facínora (1962), de John Ford. Eu pensava muito nesses personagens arquetípicos do faroeste clássico: o juiz, o delegado, o prefeito, e em como essas figuras poderiam funcionar dentro de uma dramaturgia contemporânea. Nesse laboratório eu convidei a roteirista Camila Chaves para desenvolver o projeto comigo, porque os trabalhos lá são feitos em dupla. A Camila vinha mais da literatura, mas também tinha experiência com política e comunicação institucional. Isso acabou dialogando muito com o projeto. Eu também já tinha trabalhado em rádio e tenho um carinho muito grande por esse universo. Fiz estágio na rádio universitária aqui de Fortaleza e sempre gostei muito desse ambiente. Então a personagem da radialista também vinha um pouco dessa relação afetiva com a rádio popular. O laboratório do Porto Iracema dura cerca de sete meses, o que é bastante tempo para esse tipo de processo. Tivemos consultorias e tutorias de profissionais como Karim Aïnouz, Marcelo Gomes e Sérgio Machado. Esse tempo foi fundamental para amadurecer o projeto. Quando você está muito mergulhado na história, às vezes não consegue enxergar certos problemas. As leituras externas e as discussões ajudam muito a ajustar o roteiro. Com o tempo, a história mudou bastante. Uma das mudanças mais importantes foi a relação entre a juíza e a radialista. No começo elas não eram irmãs. Essa ligação familiar surgiu durante o desenvolvimento e acabou trazendo uma camada emocional muito mais forte para a narrativa. Antes disso, o filme era muito centrado na trama, nos acontecimentos externos. Aos poucos fomos percebendo que precisávamos aprofundar a jornada emocional da protagonista. Também decidimos criar uma cidade fictícia para a história. Durante a pesquisa percebemos que casos de violência relacionados a denúncias políticas acontecem com frequência em muitas regiões do Brasil. Radialistas e jornalistas, por exemplo, muitas vezes estão em posições muito vulneráveis quando fazem denúncias. Então preferimos não vincular a narrativa a um caso específico ou a uma cidade real. Ávila (Oxente Pipoca): Quando recebi as primeiras informações sobre o filme, fiquei impressionado com o tamanho do elenco, e eu amo filmes com elencão. Natália Maia: Eu também [Risos]. Ávila (Oxente Pipoca): Tem muitos nomes fortes e eu queria citar especialmente o elenco feminino, nomes como Georgina Castro, Geane Albuquerque, Nataly Rocha, Loreta Dialla, Isabela Catão, Fátima Macêdo, Jupyra Carvalho, Ana Luiza Rios. Como foi dirigir tanta gente no seu primeiro longa? Natália Maia: Foi uma aventura. Esse é o primeiro longa que eu dirijo sozinha. Antes disso eu tinha dirigido projetos em parceria, principalmente com o cineasta Samuel Brasileiro, com quem também escrevi o roteiro de Pacarrete. Assumir a direção solo foi um desafio grande, mas também muito transformador. Ao mesmo tempo, eu nunca estive sozinha nesse processo. Tive uma equipe muito comprometida e muito unida. A produtora executiva Carol Louise, a diretora de fotografia Linga Acácio, a diretora de arte Thaís de Campos, a assistente de direção Michelline Helena, entre muitas outras pessoas, foram fundamentais para que o projeto acontecesse. O filme foi realizado com recursos do Edital Ruth de Souza, que destinou cerca de dois milhões de reais para a produção. Para um filme com muitas locações externas e um elenco grande, tivemos que adaptar várias coisas para caber dentro do orçamento. Também tivemos um trabalho muito intenso de preparação de elenco com Andreia Pires. Fizemos ensaios, conversas e leituras antes das filmagens. Eu valorizo muito o trabalho dos atores, acho a função deles muito generosa, eles estão emprestando seus rostos, suas vozes, suas presenças e seus corpos. Uma coisa importante para mim era manter o roteiro vivo. Como eu também sou roteirista do filme, eu podia ajustar cenas, diálogos e situações conforme o processo de ensaio e as descobertas que surgiam. Agora estamos entrando na fase de montagem do filme. A montagem será feita pela Lis Paim e a trilha sonora ficará a cargo de Uirá dos Reis. Estou muito ansiosa para rever as imagens e continuar esse processo. O cinema é um trabalho coletivo e também um processo contínuo de aprendizado. Cada projeto abre portas para novos caminhos. Natália Maia e Ávila Oliveira durante entrevista. Ávila (Oxente Pipoca): Estamos no mês da mulher e parece que cada vez vocês têm menos motivos para comemorar em vista à tanta desgraça que vem a público constantemente. Mas focando no cinema, queria aproveitar para perguntar sobre o papel das mulheres no cinema cearense e brasileiro. Lembro que em 2024 quando o cinema cearense completou 100 anos, Amanda Pontes e Michelline Helena estavam lançando Quando Eu Me Encontrar. E numa entrevista elas me falaram da disparidade entre a quantidade de longas-metragens dirigidos por homens de de longas dirigido por mulheres. Como você vê esse cenário hoje não só em relação à direção, mas em relação a oportunidades, convites e plataformas? Natália Maia: Eu acho que ainda temos um longo caminho pela frente. Por isso considero muito importantes as políticas públicas e as ações afirmativas dentro do audiovisual. Editais específicos, programas de formação, laboratórios e residências ajudam muito a criar oportunidades mais equilibradas. O desenvolvimento de projetos é uma etapa fundamental. Quando um filme passa por processos de desenvolvimento bem estruturados, ele chega mais forte aos editais de produção. Também precisamos pensar diversidade de forma mais ampla: gênero, raça, regionalidade, sexualidade. Quanto mais vozes diferentes estiverem contando histórias, mais rico será o cinema. No caso de A Estranha Familiar, por exemplo, desde o desenvolvimento nós pensamos muito na composição da equipe. Muitas das chefias de departamento são ocupadas por mulheres. Ávila (Oxente Pipoca): Muito obrigado pelo seu tempo e pela conversa. Estou ainda mais curioso para assistir ao filme depois dessa entrevista e ver tudo mais que vem pela frente na sua carreira. Natália Maia: Eu que agradeço. Como falei, o cinema e coletivo e abre portas para outros projetos. No meu caso, esse processo também me levou a novos trabalhos como roteirista, inclusive no desenvolvimento da adaptação de A Cabeça do Santo, livro da escritora Socorro Acioli. Fiquei muito feliz com o convite e com a conversa. Acompanho o trabalho de vocês há bastante tempo e acho muito importante o papel que vocês desempenham na difusão e na formação de público para o cinema brasileiro. Espero que a gente se encontre em breve.

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