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Crítica | Disciplina (15º Olhar de Cinema)

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 3 dias
  • 2 min de leitura

Affonso Uchôa se reinventa na cadeira de direção para discutir as mazelas e complexidades do ambiente escolar.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Assim como Anita Leandro, diretora de Anistia 79, meu primeiro contato com Affonso Uchôa se deu durante o processo seletivo para o doutorado na USP, quando assisti Sete Anos em Maio. Havia algo naquele monólogo estendido de um rapaz agredido pela polícia em uma noite qualquer que me moveu profundamente, e após assistir seu filme mais reconhecido, Arábia, constatei que se tratava de um diretor ao qual estaria sempre prestando atenção.


Que alegria, portanto, é vê-lo de volta à cadeira de direção após sete anos, com Disciplina. Embora ele já tenha aparecido por duas vezes no festival este ano como montador, em Maxita e A Noite e os Dias de Miguel Burnier (cujo diretor, João Dumans, foi codiretor de Arábia), Disciplina é inegavelmente um filme seu – e ao mesmo tempo algo novo e diferente de suas obras anteriores.


O diretor toma como base o embate entre a professora Kelly (Kelly Crifer) e Nicholas (Nicholas Mill) numa escola pública de Contagem como um ponto de partida para pensar e refletir sobre as condições atuais do ambiente escolar, especialmente num cenário como a periferia, permeado pelo crime e a violência policial. Entretanto, Uchôa deixa de lado o naturalismo de Sete Anos em Maio e Arábia para fazer uma obra que chama muito mais a atenção para o dispositivo ficcional. Isso é evidente sobretudo no trabalho dos atores, que, despidos de elementos comuns do jogo atoral (as vozes, a expressividade), assumem uma postura quase mecânica em sua performance e gestos – a apresentação dos créditos iniciais é sintomática nesse sentido –, com fortes influências do cinema de Robert Bresson, quase que de acordo com a disciplina proposta pelo título.


A disposição do espaço cênico, sobretudo na cena em que Kelly, Nicholas e outros personagens debatem na sala da coordenação, alude a uma estética e performance de forte caráter teatral, transformando esta escola num palco onde se desenrolam conflitos, dramas, tragédias, sonhos e camaradagens. O filme abraça uma proposta fortemente experimental que talvez cause estranhamento a quem acompanhou os trabalhos mais conhecidos de Uchôa, mas tal reinvenção funciona muito bem, extraindo uma força imagética e também discursiva dos atores, sobretudo os alunos; a cena final, onde as respostas deles a uma determinada pergunta assumem um caráter cada vez mais abstrato e ao mesmo tempo mais pessoal para cada um deles, é um desfecho potente para o filme.


Disciplina mostra que os sete anos longe da cadeira de direção não amansaram ou enferrujaram Affonso Uchôa, pelo contrário. O diretor se mostra disposto a se reinventar e trazer novas possibilidades para seu cinema, sem, no entanto, deixar de lado seus grandes interesses: desestabilizar a linha entre realidade e ficção, e sobretudo em dar ao Outro sua própria agência.

Nota: 4/5


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