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Crítica | O Cavaleiro dos Sete Reinos (1ª temporada)

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • 24 de fev.
  • 4 min de leitura

Série se beneficia de menor escopo e pretensões para entregar o melhor momento no universo de Game of Thrones em anos.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

A ideia de spin-offs de Game of Thrones sempre foi repleta de controvérsias, dado o fim catastrófico da série e o gosto amargo deixado na boca do público. Se A Casa do Dragão apresentou potencial em sua primeira temporada, nos relembrando dos melhores momentos da obra original, a segunda rapidamente acendeu os alertas, nos remetendo aos piores momentos das últimas temporadas. Apesar destes receios, porém, o anúncio de uma adaptação de O Cavaleiro dos Sete Reinos ainda veio coberto com certa expectativa por parte do público que teve contato com as novelas originais escritas por George R.R. Martin, as quais se passam 90 anos antes dos eventos adaptados em Game of Thrones.


É inegável, porém, que devido à recepção morna de A Casa do Dragão, a HBO tratou essa nova série quase como um produto de segundo escalão. Se a duração menor dos episódios (na faixa dos 30 minutos) fazia sentido devido ao tamanho diminuto das novelas originais, a divulgação consideravelmente menos extensa e o horário de exibição – à meia-noite do domingo para a segunda, longe do horário nobre em que as outras duas séries foram exibidas – eram sinais de uma certa cautela por parte da emissora. Que felicidade, portanto, ver como ao longo dos seus seis episódios O Cavaleiro dos Sete Reinos conseguiu superar as expectativas de praticamente todo mundo.


Parece até apropriado para uma série cujo protagonista, o cavaleiro andante Dunk (Peter Claffey), é um azarão cujo arco na temporada centra-se em tentar provar seu valor num torneio onde estão presentes cavaleiros, lordes e até príncipes da Casa Targaryen. Na sua primeira cena, vemos Dunk enterrar seu mestre, Arlan de Centarbor (Danny Webb), e refletir sobre o que fazer a partir de agora. O crescendo da icônica música-tema de Game of Thrones nos induz a uma epifania gloriosa por parte do personagem, bem como a um estado épico nostalgia, mas o corte seco para a cena seguinte dele cagando já nos diz (sem muita sutileza): isso aqui não é Game of Thrones 2.0, ainda que estejamos no mesmo universo.


E essa é a grande força da série. O showrunner Ira Parker, consciente de que não tem em mãos uma superprodução com o orçamento das duas anteriores, usa isso ao seu favor, empregando uma maior liberdade criativa que permite que sua obra cresça gradativamente em personalidade. Os dois primeiros episódios demarcam um tom mais leve e cômico, mas mesmo quando a temporada vai se tornando mais séria e trágica, ainda é capaz de o fazer de uma maneira muito autônoma e até mesmo autoral. Nem todas as marcas dessa autoralidade funcionam para mim (a recorrência do humor escatológico cansa depois da terceira ou quarta piada envolvendo fezes, cuspe ou vômito), mas é nítido que a série se esforça em se apresentar como algo próprio, longe da pressão de viver sob a sombra da série original (que tem sido exatamente o problema de Casa do Dragão).

Imagem: Divulgação
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Longe das intrigas palacianas e das épicas batalhas com dragões e seres sobrenaturais, O Cavaleiro dos Sete Reinos revela seu coração pulsante quando acompanha seus personagens, em especial a dupla principal formada por Dunk e Egg (Dexter Sol Ansell), o menino que se agarra a ele como escudeiro e cujas verdadeiras origens logo assumem o centro da temporada. Ainda que eu evite fazer comparações com o material original, é inevitável não comentar do carinho que sempre tive pela relação de Dunk e Egg nas novelas, e a capacidade da série de captar tão habilmente os altos e baixos dessa relação, através da química de Claffey e Sol Ansell, é seu verdadeiro trunfo. Sol Ansell, aliás, é talvez a grande revelação da temporada, imbuindo seu Egg de uma ingenuidade e astúcia quase complementares, revelando camadas agridoces que enriquecem ainda mais a sua personalidade, de modo que é impossível não querer protegê-lo de todo mal.


O carisma dos protagonistas também se estende aos coadjuvantes. Ainda que nem todos recebam um tempo de tela satisfatório, vários deles deixam suas marcas, seja o leal Raymun Fossoway (Shaun Thomas) ou o núcleo Targaryen da vez: o bondoso e justo Baelor (Bertie Carvel), o amargo Maekar (Sam Spruell) ou o cruel Aerion (Finn Bennett), cujas ações desencadeiam a cadeia de eventos que formam a segunda metade da temporada. Tais eventos culminam num penúltimo episódio que, mesmo prejudicado por um flashback excessivo das origens de Dunk, traz em seus 10 minutos finais uma sequência que, mesmo longe do escopo épico de Game of Thrones e A Casa do Dragão, deixa a sua própria marca, apostando em brutalidade, catarse e perdas que nos fazem lembrar como este universo é inclemente com os personagens que amamos.


Mesmo com algumas decisões narrativas que não se pagam sempre, O Cavaleiro dos Sete Reinos se mostra o respiro que precisávamos e o lembrete de que ainda há espaço para o universo de Game of Thrones nos cativar e nos surpreender. Valendo-se das expectativas moderadas (para dizer o mínimo) que todos, fossem a própria HBO ou o público, tinham a seu respeito, a série usa isso a seu favor para construir um novo tipo de história em Westeros. Mal posso esperar para ver mais das aventuras de Dunk e Egg pelos reinos, e isso diz muito da marca positiva que a série nos deixa ao seu fim.


Nota: 4/5 


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