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Crítica | Coração Partido

  • Foto do escritor: Gabriella Ferreira
    Gabriella Ferreira
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Romance russo tenta reproduzir a fórmula do bad boy apaixonante, mas tropeça em clichês e em uma execução pouco convincente.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Adaptar livros de romance para as telas sempre foi, e continua sendo, um bom negócio em Hollywood e em qualquer parte do mundo. Atualmente, porém, essas adaptações parecem viver um de seus melhores momentos. Quase toda semana, algum dos novos lançamentos anunciados nos cinemas ou no streaming surge como adaptação de um livro de romance.


Na trama da adaptação de Coração Partido, filme russo que estreia dia 20 de agosto nos cinemas, a adolescente Polina tenta recomeçar a vida em uma nova cidade, mas logo se torna alvo de bullying na escola. Tudo muda quando Bars, o aluno mais temido e misterioso do colégio, oferece proteção em troca de que ela siga suas próprias regras. O que começa com um namoro falso logo evolui para uma relação intensa e emocionalmente complexa, marcada por dependência, vulnerabilidade e uma crescente necessidade de pertencimento.


Não sei se isso tem alguma relação com a explosão dos doramas e das novelas turcas ou se é apenas uma coincidência, mas esse quase subgênero literário parece cada vez mais fortalecido. São obras que se adaptam e se readaptam dentro dos milhares de clichês que já conhecemos. E tudo bem. Como já falei em outras críticas, ser clichê não é necessariamente um problema. O problema está em não saber o que fazer com ele.


Uma boa forma de perceber isso é olhar para outras adaptações recentes. A escritora Mercedes Ron teve sua saga Culpables levada às telas em versões diferentes, e os filmes espanhóis e britânicos mostram como o mesmo material, nas mãos de equipes diferentes, pode resultar em coisas completamente distintas.


Enquanto a versão espanhola muitas vezes beira a vergonha alheia, a adaptação britânica encontra um texto mais afiado e atuações melhores, capazes de aparar algumas das arestas do material literário. O resultado é uma obra que consegue ser mais do que uma adaptação funcional: é também um filme que entende como transformar uma história simplista em algo minimamente interessante na tela.


Coração Partido parece esquecer justamente essa diferença entre literatura e cinema. Todos os clichês e arcos narrativos estão ali, mas falta alguma coisa. A sensação é de que o filme simplesmente transportou os elementos do livro para a tela sem entender que uma obra audiovisual precisa encontrar outras ferramentas para fazer essas relações funcionarem.


E fica difícil dizer onde está exatamente o problema. A direção é pouco inspirada? Os atores não conseguem incorporar seus personagens? O roteiro não dá material suficiente para que eles façam isso? Talvez seja uma combinação dos três.


Há momentos que chegam a ser difíceis de acreditar. Em uma cena, por exemplo, temos um diálogo em que as bocas dos personagens sequer parecem acompanhar o que está sendo dito. Em outra, jovens começam a dançar no meio de uma praça ao som de BTS, em uma sequência que parece ter saído de outro filme. São escolhas que poderiam funcionar dentro de uma proposta assumidamente exagerada, mas aqui apenas aumentam a sensação de artificialidade.

Imagem: Divulgação
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E não me leve a mal: eu gosto de romances duvidosos. Gosto de histórias cheias de clichês, bad boys problemáticos, paixões impossíveis e todos aqueles elementos que fazem muita gente torcer o nariz. Um dos meus filmes favoritos é justamente o espanhol Paixão sem Limites, que guarda diversas semelhanças com Coração Partido e com a própria trilogia Culpables. Também é uma adaptação literária.


A questão nunca foi o clichê.


O arco do bad boy que se apaixona funciona quando existe química entre os personagens. Em Paixão sem Limites, a relação entre Hache e Babi consegue sustentar boa parte do filme. Na versão britânica de Culpables, Nick e Noah também encontram uma dinâmica que faz a história funcionar, mesmo quando o roteiro se apoia em situações bastante conhecidas.


Em Coração Partido, porém, nada parece encaixar. A paixão não convence, os conflitos não ganham força e os personagens parecem presos a uma história que exige deles uma intensidade que o filme nunca consegue construir.


Existe ainda uma tentativa de abordar temas mais sérios, como bullying e violência contra a mulher. São caminhos que poderiam dar ao filme uma camada mais interessante e tirar a história do lugar comum. O problema é que essas questões também acabam mal aproveitadas, aparecendo mais como elementos da trama do que como assuntos realmente desenvolvidos.


No fim, Coração Partido é um daqueles filmes que têm todos os ingredientes necessários para entregar um romance adolescente exagerado e divertido, mas não conseguem fazer a receita funcionar. Não há nada de errado em abraçar os clichês. O problema é quando a produção não consegue encontrar química, ritmo ou personalidade para transformá-los em alguma coisa além de uma sucessão de situações já conhecidas.


Se a intenção é assistir a um bom bad boy motoqueiro protagonizando um romance arrebatador, Coração Partido definitivamente não é a melhor escolha.


Nota: 1/5


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