“Aqui nós podemos fazer filmes com a qualidade de Marvel contando as nossas histórias”, afirma Halder Gomes sobre ‘Shaolin do Sertão 2’
- Gabriella Ferreira

- há 4 horas
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Em coletiva de imprensa realizada nesta terça-feira (12), diretor e elenco falaram sobre a expectativa para a sequência, novos personagens, representatividade cearense e a possibilidade de um terceiro filme.

Dez anos depois de O Shaolin do Sertão, o universo criado por Halder Gomes está de volta aos cinemas com Shaolin do Sertão 2. Antes da estreia, marcada para esta quinta-feira (13), o diretor e parte do elenco participaram de uma coletiva de imprensa para falar sobre a produção, as expectativas para a sequência e os caminhos encontrados para ampliar a história sem abandonar a identidade cearense que marcou o primeiro longa.
Estiveram presentes, além do diretor, Halder Gomes, grande parte do elenco, como os atores Karla Karenina, Edmilson Filho, Falcão, Aya Matsusaki, João Pedro Frota, Fábio Goulart, Haroldo Guimarães e Igor Janssen.
Para Halder Gomes, a espera de uma década ajudou a criar uma relação particular entre o público e a sequência. Segundo o diretor, durante todo esse período, a pergunta sobre quando um novo filme seria lançado acompanhou o processo de desenvolvimento da produção. “Com tantas milhares de horas de trabalho que a gente perde a noção até do que é a expectativa. Mas, no final das contas, a essência da expectativa está muito ligada à nostalgia”, afirmou.
O diretor contou que, enquanto trabalhava no projeto, continuava ouvindo das pessoas a pergunta sobre quando sairia o próximo Shaolin. Agora, o desafio é transformar essa expectativa em uma experiência que dialogue com a memória afetiva construída pelo primeiro filme.
“A expectativa é atender a esse anseio desse público nostálgico por esse universo, por esses personagens, pelo carinho desses personagens, por tudo que aconteceu naquele filme e entregar a essa expectativa o que o público guarda na sua memória afetiva. Isso causa muita ansiedade gostosa de dividir isso com o público.”
Uma das novidades da sequência é a chegada de novos personagens ao universo de Aluízio Li. Para Halder, o processo de escolha do elenco foi um dos grandes desafios da produção, principalmente quando era necessário encontrar atores que correspondessem exatamente ao perfil pensado para a história. “Você escreve para o personagem sem saber se vai encontrar. E isso é bem desafiador”, explicou.
O diretor destacou especialmente a escolha de João Pedro Frota para interpretar Micróbio, novo aprendiz do protagonista. Segundo Halder, encontrar o jovem ator foi como procurar uma “pepita de ouro”, fazendo uma comparação com a descoberta de Igor Janssen para o primeiro filme. A produção também conta com a participação especial de Lyoto Machida, um convite que, segundo o diretor, existe desde o primeiro Shaolin do Sertão e finalmente se concretizou na sequência.
Mais do que continuar uma franquia, Halder Gomes vê a produção como uma declaração de amor ao Ceará. O diretor reforçou durante a coletiva a importância de realizar filmes no estado e apresentar ao público outras imagens do Nordeste, especialmente do sertão e dos interiores cearenses. “É uma opção pessoal, artística, profissional e afetiva de uma grande declaração de amor ao lugar que eu vivo, que eu pertenço, que eu faço parte, que eu convivo diariamente”, afirmou.
Para Halder, produzir no Ceará também significa reafirmar a capacidade do cinema local de alcançar padrões internacionais sem abrir mão de suas próprias histórias.“Poder fazer um filme aqui representa a gente colocar nossa representatividade, fincar nossa bandeira para o mundo e dizer: ‘OK, aqui nós podemos fazer filmes com a qualidade de Marvel contando as nossas histórias’.”
O diretor também destacou a relação pessoal com os lugares retratados na produção. Nascido no interior do Ceará, Halder afirmou que o sertão e municípios como Quixadá fazem parte de sua formação e de sua identidade. “É a realização de um sonho poder sempre filmar aqui, principalmente revelando o sertão, os nossos interiores. Eu sou do interior. Eu sou cearense puro-sangue de origem.”
A discussão sobre identidade e representatividade apareceu também na fala de Aya Matsusaki, que destacou a presença de personagens amarelos no longa e relacionou a experiência ao próprio projeto de construção de uma imagem mais plural do Brasil no cinema. “Tem uma discussão muito forte sobre representatividade de pessoas amarelas, descendentes de japoneses, coreanos, chineses”, afirmou.
Aya ressaltou que, embora grande parte dessa discussão esteja concentrada no eixo Sudeste, descendentes de imigrantes asiáticos estão presentes na construção da sociedade brasileira há várias gerações. Para a atriz, existe um paralelo entre essa busca por representação e o trabalho realizado por Halder Gomes ao colocar o Ceará nas telas. “Eu vejo um paralelo muito grande com o trabalho do Halder e do Emílio há muito tempo, que é trazer o Ceará para a tela e as pessoas se verem, o Brasil todo se ver e entender que o Brasil é plural.”
A atriz também defendeu a importância de o público reconhecer a si mesmo nas histórias que chegam ao cinema. “Quando a gente se vê, a gente se identifica, a gente se orgulha, a gente passa a cuidar mais do que é nosso. E isso é muito importante para a construção de uma cidadania mesmo.”
Para Aya, o fato de essa discussão aparecer dentro de uma comédia torna tudo ainda mais interessante. “O mais incrível é que é uma comédia. Você está rindo e está construindo uma noção de Brasil que eu acredito.”
A discussão sobre o espaço da comédia também apareceu durante a coletiva. Karla Karenina lembrou sua trajetória ao lado de Falcão e as dificuldades enfrentadas por artistas cearenses para conquistar espaço nacional em uma época em que a internet ainda não tinha o alcance atual. “Nós, eu e Falcão, somos de uma geração em que a gente teve que furar muita bolha para que o humor fosse visto”, afirmou.
Segundo Karla, a comédia ainda enfrenta preconceito, inclusive dentro do próprio circuito de premiações cinematográficas. “A comédia ainda é vista como uma arte menor”, disse.

A atriz destacou a importância de sua trajetória na televisão, especialmente sua participação na Escolinha do Professor Raimundo, e celebrou o atual momento do cinema cearense. “Hoje estou feliz por estar aqui nesse momento de ver o cinema cearense, a comédia cearense transformada nesse boom, nessa explosão do cinema brasileiro.”
Para Karla, o momento atual também representa uma nova possibilidade de mostrar nacionalmente as características próprias do humor produzido no Ceará. “Fico muito feliz que a minha geração está participando também dessa possibilidade de estourar nas redes, de a gente ter todas essas oportunidades de mostrar o nosso jeito, o nosso sotaque especialmente, o nosso jeito de fazer rir, que é diferente.”
Para João Pedro Frota, que faz sua estreia no universo de Shaolin do Sertão, a experiência foi completamente diferente de tudo o que havia vivido anteriormente. “Foi algo diferente. Eu nunca tinha vivido nada parecido”, contou.
O jovem ator relembrou o momento em que assistiu ao filme e percebeu a própria atuação na tela. “Eu via a minha alegria duas vezes. Eu assistindo, sorrindo, e eu atuando, sorrindo. O brilho no olhar realmente existia.”
João também destacou a convivência com os demais integrantes do elenco durante as filmagens e brincou com a quantidade de referências e brincadeiras que absorveu durante a produção. “Essa experiência foi sensacional. É como eu digo: para descobrir o Micróbio, só usando o microscópio.”
A possibilidade de uma terceira produção também apareceu durante a conversa. Edmilson Filho, protagonista da franquia, revelou que ele e Halder Gomes já conversaram sobre possíveis caminhos para uma continuação. “Vamos ver o que vai ser o resultado do segundo, que é muito importante para ter uma sequência. O filme tem que ter uma boa receptividade do público para ter uma sequência”, explicou.
Apesar da cautela, o ator admitiu que a ideia de um terceiro filme já existe. “A gente já tem isso na cabeça.”
Edmilson, no entanto, brincou com a necessidade de acelerar uma eventual produção por conta das exigências físicas do personagem. “Eu também já estou entrando numa idade que eu não posso estar mais arreganhando. Então tem que ser logo para eu poder estar no gás para dar aquele salto lá que vocês viram.”
O ator também falou sobre a mistura entre artes marciais, fantasia e referências culturais que atravessa a franquia. Para ele, o filme combina o imaginário dos filmes de kung fu que marcaram sua formação com elementos da realidade nordestina. “Esse universo fantástico que transita no filme se mistura muito com um realismo fantástico do nosso cotidiano, nas nossas histórias locais, com esse Japão e essa China imaginária construída na nossa infância e adolescência, quando a gente assistia esses filmes.”
Edmilson também destacou o arco emocional de Aluízio e a mensagem que acredita estar no centro da sequência. Para o ator, o protagonista passa por diferentes provações sem perder a essência que o define. “Mesmo na inocência, com um bom coração, ele passa por todas essas provações, mas continua fiel ao que ele é.”
A partir disso, o ator relacionou a trajetória do personagem a uma reflexão sobre como cada pessoa reage às dificuldades da vida. “Hoje, aguentar pancada não é o que vai fazer você ser melhor. É aguentar essa pancada e como você vai reagir a essa pancada, sendo aquela mesma pessoa, acreditando na sua essência.”
Para Edmilson, essa é uma das principais mensagens de Shaolin do Sertão: continuar acreditando nos próprios sonhos mesmo diante das dificuldades. “Mesmo no sertão, continuar o seu sonho vivo. Eu acho que isso é uma mensagem muito bonita.”
Outro retorno aguardado é o de Igor Janssen, que volta a interpretar Piolho dez anos depois do primeiro filme. Para o ator, retornar ao personagem representa uma experiência especialmente nostálgica, já que foi justamente com Shaolin do Sertão que sua trajetória nas artes cênicas começou. “Depois de dez anos eu volto a fazer o mesmo personagem. Só que é um personagem dez anos depois, então é quase um outro personagem.”
Igor contou que o primeiro filme foi fundamental para sua formação e relembrou a importância de Halder e Edmilson nesse início de carreira. “O Piolho foi o primeiro personagem da minha vida e foi onde tudo começou, onde o Halder e o Edmilson me apresentaram o caminho das artes cênicas.”
A experiência também ganhou um significado especial por Igor ser um ator nordestino que, como tantos outros profissionais da região, precisou sair do Nordeste em busca de oportunidades.“É muito gostoso fazer isso e principalmente porque o Piolho foi o primeiro personagem da minha vida.”
Para Igor, uma das maiores forças de Shaolin do Sertão 2 está justamente na especificidade de seu humor. O filme não tenta apagar o sotaque, os gestos, as expressões e as referências locais para se tornar mais palatável a outras regiões do país.“É um trabalho nordestino, cearense, do jeito cearense, que a gente se identifica, que a gente sabe que é o nosso povo falando para a gente mesmo.”
O ator destacou elementos que podem parecer pequenos para quem não é cearense, mas que carregam grande significado para quem cresceu no estado. “É o tipo de piada que só a gente vai entender do início ao fim.”
Segundo Igor, até mesmo respostas curtas e expressões presentes no cotidiano cearense funcionam como códigos compartilhados entre os personagens e o público. “Quando o menino, o João, começa a responder ‘rapaz’, a gente já entende a resposta todinha. Não precisa falar nada. Isso é muito nosso.”
Ao olhar para João Pedro Frota, Igor também enxerga um pouco de sua própria trajetória. Dez anos depois, ele se reconhece no jovem ator que agora vive a experiência de descobrir como é participar de um filme dessa dimensão. “Quando eu olho para o João, eu me vejo há 11 anos atrás, vivendo tudo isso.”
A fala resume parte do espírito que envolve o retorno de Shaolin do Sertão: uma nova geração chegando ao universo criado por Halder Gomes enquanto aqueles que participaram do primeiro filme reencontram personagens, memórias e uma história que ajudou a consolidar uma forma muito particular de fazer cinema no Ceará.
Shaolin do Sertão 2 estreia nos cinemas de todo o Brasil nesta quinta-feira, 13 de agosto.



















