Entrevista | “A gente estava a serviço de uma história muito séria”: Marina Merlino fala sobre Emergência Radioativa
- Gabriella Ferreira

- 27 de mar.
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Atualizado: há 5 dias
Uma das protagonistas da série reflete sobre atuação, dor e o compromisso de representar vítimas reais do caso do césio-137.

A nova série brasileira da Netflix, Emergência Radioativa, estreou no último dia 18 de março e rapidamente se tornou um dos títulos mais comentados do momento. A produção revisita o acidente com o césio-137 em Goiânia, em 1987, considerado um dos maiores desastres radioativos da história fora de usinas nucleares, trazendo à tona não só os fatos, mas também as marcas deixadas nas vidas das vítimas.
Com forte repercussão internacional, a série alcançou o Top 4 global da plataforma e liderou o ranking brasileiro na semana de estreia. Além disso, também conquistou o primeiro lugar em países como República Tcheca e Eslováquia, aparecendo ainda no Top 10 de diversas outras regiões, um indicativo da potência dessa história que, embora profundamente brasileira, ecoa mundialmente.
Na trama, nomes como Johnny Massaro, Paulo Gorgulho e Ana Costa dão vida a físicos, médicos e personagens diretamente atravessados pela tragédia. Entre eles, a atriz Marina Merlino se destaca ao interpretar Catarina, uma mãe que enfrenta as consequências devastadoras da contaminação de seus filhos, um papel marcado pela intensidade e pela responsabilidade de representar histórias reais.
Para falar sobre o processo de construção da personagem, os desafios emocionais da série e o impacto dessa produção no Brasil e no mundo, o Oxente Pipoca conversou com Marina Merlino. Confira a íntegra da entrevista abaixo:
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Prazer estar falando com você, Marina. Eu sou Gabriela, faço parte do Oxente Pipoca, tô falando daqui de Aracaju, Sergipe. O Oxente tem essa proposta de falar de cinema de uma maneira descentralizada, trazendo esse olhar a partir do menor estado do Brasil.
Assisti à série no fim de semana, adorei, me emocionei muito. Além do entretenimento, ela também funciona quase como uma aula para outras gerações. Tenho um irmão de 15 anos que nem sabia o que tinha acontecido, então apresentar essa história através do audiovisual é um grande ganho.
Queria te ouvir: como foi construir essa personagem, a partir de uma história tão dura? E o que te interessou quando o projeto chegou até você?
Marina Merlino: Gabriella, obrigada. Eu acompanho o trabalho de vocês, adoro ler as críticas e entrevistas, então fico muito feliz de estar aqui.
Outro dia vi um relato de uma professora que exibiu a série numa aula de geografia, em Teresina, e isso me emocionou muito. Porque, no fim das contas, é pra isso que serve: despertar interesse, fazer as pessoas irem atrás, pesquisarem. A série não dá conta de tudo, são poucos episódios diante de um acontecimento que se estende por muito tempo e cujas consequências continuam até hoje.
Então, se ela provoca esse movimento, das pessoas quererem saber mais, debaterem, entenderem como o poder público lidou com a situação, ou até conhecerem os protocolos que foram criados ali e que viraram referência, já valeu a pena.
A Catarina foi uma grande aula e uma grande honra. Sou uma pessoa muito obsessiva, então, quando recebi o teste, mergulhei completamente: vi reportagens, entrevistas, documentários, busquei tudo que podia. Antes mesmo de ser escalada, eu já estava nesse processo de investigação, tentando entender não só o que aconteceu, mas também o que veio depois, como essas pessoas seguiram.
Quando fui chamada, faltavam duas semanas para começar a filmar, então foi tudo muito intenso. E havia uma responsabilidade muito grande de contar essa história com respeito, de forma digna. No núcleo da família, a gente criou um vínculo muito forte, virou mesmo uma família, e isso atravessa o resultado.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Você comentou dessa responsabilidade que vocês sentiram, né? E eu queria saber, pra você como atriz, o que muda quando você recebe um papel assim, baseado em uma história real?
Porque é diferente de quando você pega um roteiro totalmente ficcional, né? Então queria entender como é esse processo pra você, o que muda na construção, no envolvimento…
Marina Merlino: Muda bastante. Eu vinha de um trabalho anterior com uma personagem que também era uma mulher em situação de vulnerabilidade, então houve uma espécie de reverberação entre os dois projetos.
No caso da série, é importante dizer que não é uma biografia. A Catarina é construída a partir de várias histórias reais condensadas. Tem elementos muito próximos de algumas trajetórias específicas, mas ela não representa uma única pessoa.
Então meu trabalho foi justamente esse: estudar essas diferentes histórias, ouvir relatos, entender o contexto. E aí entra uma coisa que foi muito importante pra mim, que é a linha do tempo. Entre um episódio e outro passam muitos dias, às vezes dez dias, e muita coisa acontece fora de cena.
Eu tinha um caderno enorme com anotações, construindo essa linha do tempo da Catarina. Antes de cada cena, eu revisava tudo que tinha acontecido com ela até aquele momento e também imaginava o que aconteceu no intervalo que a série não mostra. Isso me ajudava a entender as transformações da personagem, de onde ela estava vindo e para onde estava indo emocionalmente.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Você comentou que parte do elenco se reuniu pra assistir à série junto, né? E eu até tinha elaborado uma pergunta sobre isso, porque a série chegou ao top 1 da Netflix e também entrou em rankings em vários países, não ficou só no Brasil, teve esse alcance global mesmo.
Inclusive, vendo comentários em aplicativos e nas redes, dá pra perceber gente de vários lugares do mundo assistindo e comentando, e é muito interessante ver essa circulação da história. Queria saber se você e o restante do elenco têm acompanhado essa recepção e como tem sido pra vocês ver essa repercussão tão ampla.
Marina Merlino: É muito diferente de fazer e depois ver a resposta. A gente está embasbacado, muito emocionado. Ver que a série está no topo, que está chegando em tantos países, é muito forte.
Mas o mais impactante é perceber que as pessoas estão indo atrás da história real. Muita gente não sabia que isso tinha acontecido no Brasil, mesmo sendo algo relativamente recente. Isso levanta questões importantes, como por que esse tipo de acontecimento não está mais presente na educação, por exemplo.
A gente também se reuniu para assistir à estreia juntos, o elenco, principalmente o núcleo da família. Criamos um vínculo muito forte durante as filmagens, e isso continua agora. E acho que o resultado da série tem muito a ver com essa troca, com a dedicação de uma equipe enorme e com a sensibilidade da direção.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu tava vendo também uma entrevista sua anterior, em que você fala da força dessa personagem, né, mesmo dentro de todo aquele trauma. E eu queria saber, pra você como atriz, como é construir esse tipo de emoção sem cair no exagero ou numa coisa caricata, o que não acontece na série.
Porque, pra mim, uma das cenas mais fortes foi a do enterro. Foi tão impactante que eu nem consegui chorar, eu fiquei meio estática, assim, vendo uma mãe enterrando a filha, com todo aquele contexto em volta. E depois, quando fui ver os registros reais, eu vi o quanto aquilo tava próximo do que de fato aconteceu, e isso me deu ainda mais choque.
Então eu queria te ouvir um pouco sobre isso: como é acessar esses lugares mais profundos de emoção, especialmente em cenas tão difíceis como essas?
Marina Merlino: Olha, Gabriella, eu acho que não entrar num lugar de exagero tem a ver com isso que eu falei, com a escola onde eu aprendi, quando eu estudei o ofício da atuação. É essa ideia de que a coisa não é sobre mim. Não é sobre a Marina, não é sobre o meu sentir, não é sobre o que eu quero mostrar.
Eu acho que o ofício da atuação é você estar a serviço de contar uma história, sabe? É assim que eu entendo. E ali a gente estava a serviço de contar uma história muito, muito séria, que diz respeito a muita gente. Então foi muito desafiador. Eu acho que tem uma parte desse trabalho que tá no campo do mistério, porque se você tentar controlar o que vai acontecer, não dá, porque não é na cabeça, é inimaginável. É inimaginável o que essa pessoa passou, o que uma mãe que enterra seu filho ou sua filha sente, passa, ou como ela atravessa isso.
E aí, nesse sentido, acho que devo muito ao Fernando, que é o diretor geral e que dirigiu esse episódio, que estava conduzindo essa cena. Porque, enfim, como eu disse, ele é muito generoso, muito sensível, e ele deixou a coisa acontecer como acontecesse.
Ele falou: “Faz o que for verdadeiro pra você”. E a gente fez muitos takes e aconteceram muitas coisas diferentes. Aconteceu de chorar, aconteceu de não chorar, aconteceu de desabar, aconteceram muitas coisas. E tem uma parte disso que é do campo do mistério, que é no campo de obedecer ao que o seu corpo manda fazer, sabe? Porque é indomável.
Eu espero muito ter feito jus e honrado esse momento, porque foi muito desafiador. Pra mim, pessoalmente, tem uma coisa que, enfim, falando fora do ofício, mas de como foi pra mim, é que meu pai se foi em fevereiro do ano passado e a gente tava filmando isso em junho, menos de seis meses depois.
Então mexeu em muitas coisas. E aí eu acho que tem um desafio que é justamente da gente ter muito respeito pelo que tá acontecendo ali, sabe? Pra mim, não ir pro exagero tem a ver com esse respeito, porque tem tanto sentimento ali, tem tanta raiva, indignação e, ao mesmo tempo, uma dor tão indescritível que não é controlável, né? Não é racionalizável.

Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): E eu vi que você tem uma trajetória que atravessa outros lugares também, né? Você comentou desse trabalho argentino-brasileiro… então queria saber se existe um desejo seu de seguir atuando em produções de outros países, ampliar ainda mais esse alcance.
E também queria entender como você acha que esse papel pode impactar a sua carreira daqui pra frente, e o que você espera para os próximos passos.
Pô, sim, eu tenho muita vontade. Essa experiência de filmar na Argentina foi extremamente feliz, foi muito especial essa troca. O Pedro Wallace, que é o diretor do filme, roteirista, idealizador, virou meu grande amigo até hoje. A gente tem um outro projeto que está sendo gestado, que também é uma coprodução Brasil, Argentina, Chile e Polônia. Tá aí no forno, estamos esperando sair.
E eu tenho muita vontade, sim, Gabi. Eu tenho muita vontade de fazer cinema no Brasil e de ir fazer cinema em outros lugares também, porque acho que a troca é sempre muito enriquecedora. Você conhecer equipes argentinas, filmar em território argentino, conviver com o cinema argentino… A gente filmou numa cidade de 5 mil habitantes, na fronteira da Argentina com o Brasil.
É muito especial essa possibilidade do audiovisual, do deslocamento, né? Tem muitas delicadezas, mas é muito feliz também. E nesse caso, o filme foi muito feliz porque foi um vínculo muito respeitoso com a cidade também, que continuou. O filme Las Preñadas estreou lá num telão na praça, sabe? Ficou muito lindo.
Então, sim, eu tenho muita vontade. Eu gosto muito de fazer cinema, gosto muito de fazer cinema autoral e acho que foi um pouco por onde eu comecei, onde eu atuei mais. E eu tô muito feliz de fazer a série porque é a primeira vez que eu estou fazendo um trabalho que tem esse nível de alcance, de visibilidade. E estou feliz pra caramba, porque isso significa mais possibilidades de troca, significa que tem mais pessoas conhecendo o meu trabalho.
Sou muito grata porque estou sendo recebida com muito carinho pelo público que assiste à série. Então estou muito, muito grata, muito feliz. Eu estava nervosa. E que isso gere novas trocas pra todos nós, novos trabalhos, outras possibilidades também. Minha primeira série foi de comédia, então transitar é muito gostoso, né? Transitar entre obras dramáticas e obras de comédia, transitar entre o cinema e o streaming, transitar entre o teatro e a televisão.
Eu sou feliz no trânsito. É onde eu sou mais feliz. Então, se você me pergunta o que eu desejo, eu desejo continuar transitando, e cada vez mais, voando cada vez mais longe.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): A série faz parte dessa leva de produções baseadas em fatos reais, que vem crescendo no Brasil. E eu queria que você falasse um pouco mais sobre isso. E aproveitando, queria te ouvir também sobre como você enxerga o momento atual do cinema brasileiro. A gente passou recentemente por um período de muito destaque internacional, com filmes chegando ao Oscar e ganhando visibilidade lá fora, mas ao mesmo tempo existe muito cinema sendo produzido aqui que não necessariamente chega nesses espaços.
Então, como você vê esse cenário hoje, esse equilíbrio entre o reconhecimento internacional e a diversidade do cinema que é feito no Brasil?
Marina Merlino: Olha, eu acho que essas obras baseadas em coisas reais, em fatos reais, o Brasil tá falando de si próprio. É algo que muito me alegra, porque significa que a gente tá olhando pra nossa própria história, entendendo ela como uma história que vale a pena ser contada.
E isso faz a gente conversar sobre ela, faz a gente, quer seja pra se orgulhar dela, quer seja pra questioná-la. E digo isso tanto no sentido de séries que contam casos específicos, quanto filmes e produções que contam sobre um recorte específico, quanto filmes que elaboram períodos da nossa história, como temos tantos nesse passado recente, como O Agente Secreto, como Ainda Estou Aqui, como muitas obras nos últimos anos.
E, cara, o cinema… o Brasil tem um cinema maravilhoso. E eu tive a sorte, a oportunidade, nos últimos anos, muito com Las Preñadas, de ir pra diversos festivais de cinema. A gente foi pro festival de Cuba, eu tive a oportunidade de ir pra um festival na Espanha, que me deu um prêmio. Então eu fui até lá, a gente deu um jeito de eu ir. E o cinema brasileiro é muito respeitado fora daqui.
Então fico muito feliz que a gente esteja começando, que a gente volte a frequentar o cinema, porque o brasileiro foi muito ao cinema durante muito tempo. E nesses festivais, tem muita gente fazendo filmes incríveis, curtas, longas, documentários, fora do eixo Rio-São Paulo. Tem grandes cineastas, produções muito maravilhosas, criações tanto de roteiros originais.
A gente tem uma frente de documentário no nosso país muito fértil, muito profícua. Então, quer seja na ficção, quer seja ficcionalizando eventos reais, quer seja tentando fazer recortes fidedignos de fatos reais, quer seja no documentário, eu acho que o cinema brasileiro é tudo nessa vida. Não troco por nada.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): E pra gente caminhar pra última pergunta, que é uma que eu sempre faço aqui no Oxente Pipoca, que já virou meio que uma tradição…Queria te pedir uma indicação de um filme ou série brasileira pro nosso público — não vale a que a gente tá comentando agora.Pode ser algo que você goste muito, algo que tenha te marcado, ou até que tenha te atravessado de alguma forma nesse processo de construção da personagem… enfim, pode ser o primeiro que vier na sua cabeça.
Marina Merlino: É, eu roubei, porque eu ouço suas entrevistas, então sabia que você ia me perguntar isso. Fiquei quebrando a cabeça pra pensar. E posso fazer mais de uma?
Então, tem um filme chamado Jogo de Cena, do Coutinho, que é assim… eu lembro que, quando eu assisti, explodiu minha mente sobre o que é esse ofício e me deu mais vontade ainda de trabalhar com o que eu trabalho.
Tem um filme chamado Compasso de Espera, que é com direção do Antunes Filho, é o único filme que ele dirigiu, estrelado pelo Zózimo Bulbul, que é indescritível. Tem no YouTube.
E, contemporâneo, tem também um filme que eu assisti e fiquei sem conseguir falar depois que eu saí do cinema que foi Mato Seco Em Chamas .



















