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  • Mostra Cine Raio Verde 2026 reúne pré-estreias de curtas sergipanos em museu na capital

    Com entrada gratuita, evento exibe quatro produções inéditas da produtora e promove encontro sobre processos criativos do cinema independente de Sergipe. Imagem: Divulgação Na próxima quinta-feira, 14 de maio, às 18h, o auditório do Museu da Gente Sergipana, em Aracaju, recebe a mostra Cine Raio Verde 2026. Com entrada gratuita, o evento marca a pré-estreia de quatro curtas-metragens produzidos pela Raio Verde Filmes durante seu primeiro ano de atuação no estado, além de promover um momento de conversa com os realizadores sobre os processos e experiências das obras. A programação reúne os filmes “Casa 99”, dirigido por Carol Barros; “Fim de Verão de Júlia”, de Douglas Oliveira; “Um Dia de Sol”, de Lenaldo Ricardo; e “Ponto de Partida”, novamente assinado por Carol Barros. As produções transitam entre documentário e ficção, explorando afetos, deslocamentos, memórias e relações humanas em narrativas atravessadas pela cidade de Aracaju. Em “Casa 99”, documentário dirigido por Carol Barros, um casal de idosos revisita a trajetória que os levou de Alagoas até Aracaju durante o isolamento da COVID-19, refletindo sobre escolhas, desafios e memórias do passado. Já “Fim de Verão de Júlia”, ficção dirigida por Douglas Oliveira, acompanha uma jovem que percorre sua cidade natal pela última vez em um ritual de despedida. Em “Um Dia de Sol”, de Lenaldo Ricardo, Lucio e Amanda tentam se conectar em meio ao calor extremo e ao caos de um futuro próximo. Fechando a mostra, “Ponto de Partida”, dirigido por Carol Barros, acompanha Laís em uma viagem até Aracaju para uma entrevista de emprego, marcada por imprevistos e encontros transformadores. Segundo os realizadores Douglas Oliveira e Carol Barros, a Raio Verde Filmes nasce do desejo de construir obras conectadas às experiências cotidianas e à identidade artística do grupo. “A Raio Verde Filmes nasce do desejo de criar obras que reflitam nossa identidade artística e nossos interesses estéticos. Há alguns anos trabalhando com audiovisual, encontramos no cinema um espaço para fabular sobre experiências cotidianas. Não por acaso, as três ficções da mostra se passam em um único dia, explorando os espaços da cidade, mas cada um com suas próprias temporalidades”, afirmam. Os diretores também destacam o caráter coletivo das produções e a presença recorrente de artistas, espaços e colaboradores entre os filmes.“Esse universo também se constrói coletivamente: atores reaparecem entre os filmes, realizadores fazem pequenas participações, rostos e espaços retornam de diferentes formas. Existe um interesse em transformar nossa própria comunidade em matéria de criação, fazendo com que os filmes se expandam uns nos outros.” A mostra marca ainda a conclusão de um ciclo importante para a produtora, antes do início da circulação dos filmes em festivais.“A mostra Cine Raio Verde 2026 marca a culminância de quatro trabalhos muito importantes para nós: três produções realizadas integralmente no último ano e um filme gravado anos atrás e finalmente finalizado. Antes da circulação em festivais, sentimos a necessidade de realizar essa exibição como um gesto de devolutiva a todas as pessoas que participaram dos projetos e também à sociedade aracajuana, que atravessa e inspira diretamente esses filmes”, completam. A Raio Verde Filmes é uma produtora independente sergipana que surge da paixão pelo cotidiano e pela multiplicidade das artes, buscando reinventar e ressignificar experiências através do cinema. A proposta da mostra é criar um espaço de encontro entre realizadores, público e produções do audiovisual sergipano contemporâneo.

  • Coluna | No Radar #01: O Brasil no topo do mundo novamente, Globo de Ouro e as séries que vão parar 2026

    Primeiro apanhado mensal sobre cinema, TV e os bastidores da indústria Divulgação Sejam bem-vindos à estreia da nossa nova coluna mensal! A partir de agora, a cada mês, transformamos o turbilhão de notícias repercutidas nas redes do Oxente Pipoca em um encontro marcado para você não perder nada do que realmente importa (em minha opinião rs) no cinema e na TV. E que maneira de começar, né? Com o cinema brasileiro vivendo dias de glória absurda. Vamos aos destaques! Cinema Brasileiro: O fenômeno "O Agente Secreto" e a invasão verde e amarela em Berlim e Rotterdam Impossível começar aqui sem falar dele: O Agente Secreto é o nosso nome neste início de ano, dando continuidade aos ouros trazidos por Ainda Estou Aqui. O longa do pernambucano Kleber Mendonça Filho começou o ano vencendo o Critics Choice Awards de Melhor Filme Internacional, diretamente do tapete vermelho do prêmio, o que levantou uma enxurrada de questionamentos sobre como Hollywood trata os filmes estrangeiros em seus eventos, mesmo sendo um grande ano para o cinema internacional. Divulgação O destaque seguiu no Globo de Ouro 2026, levando os prêmios de Melhor Filme em Língua Não-Inglesa e Melhor Ator em Drama para Wagner Moura. A consagração continuou com o anúncio das indicações ao Oscar 2026, onde o filme garantiu quatro indicações, incluindo Melhor Filme e Melhor Ator para Moura, se tornando o primeiro brasileiro indicado nesta categoria. Além de, claro, ser indicado ao Oscar de Melhor Direção de Elenco, no primeiro ano da categoria. Nos cinemas nacionais, o sucesso se traduz em números, com o filme quase ultrapassando a marca de 2 milhões de espectadores. No César Awards, a maior premiação do cinema francês, O Agente Secreto foi indicado em Melhor Filme Estrangeiro, ao lado de Uma Batalha Após a Outra e Valor Sentimental. Mas nosso cinema não para por aí: Berlinale 2026: O Festival de Berlim, que ocorrerá de 12 a 22 de fevereiro, sim, bem no Carnaval, anunciou uma seleção robusta de brasileiros, incluindo Nosso Segredo, de Grace Passô; Feito Pipa, de Allan Deberton; e A Fabulosa Máquina do Tempo, de Eliza Capai. O cearense Aïnouz disputa o Urso de Ouro com Rosebush Pruning, uma produção internacional. Confira todos os filmes brasileiros selecionados para a edição aqui. Rotterdam 2026: O grande protagonista brasileiro no festival holandês foi a ficção científica nordestina Yellow Cake, de Tiago Melo, que estreou na competição principal explorando o uso de urânio no sertão. Além dele, o evento selecionou e exibiu o terror Privadas de Suas Vidas, além de uma versão restaurada em 4K do gaúcho Vento Norte, gravado nos anos 50. Confira todos os filmes brasileiros selecionados para a edição aqui. Goya 2026: Manas, de Marianna Brennand, foi indicado ao prêmio de Melhor Filme Ibero-americano na premiação espanhola. O filme concorre com Belén 🇦🇷, La Misteriosa Mirada Del Flamenco 🇨🇱, La Piel Del Agua 🇨🇷 e Un Poeta 🇨🇴. Divulgação Vitórias em Sundance e Tiradentes: A cineasta Beth de Araújo (filha de brasileiro) venceu o Grande Prêmio do Júri em Sundance com Josephine, uma produção estadunidense, mas quis destacar aqui. No Brasil, Anistia 79, de Anita Leandro, foi o grande vencedor da Mostra de Cinema de Tiradentes 2026, conquistando o Prêmio do Público de Melhor Longa e o Prêmio do Júri Oficial de Melhor Longa da Mostra Olhos Livres. Animação cearense em Tupi Antigo: Divulgação Quero destacar também o anúncio de A Lenda de Keya, de Cláudio Martins, que será o primeiro longa brasileiro com diálogos em Tupi Antigo, com Silvero Pereira no elenco de vozes e previsão de estreia ainda em 2026. O filme cearense acompanha Ana, uma menina órfã que encontra uma tartaruga encantada e ferida em meio aos arames do quintal do orfanato onde mora. Lançamentos e trailers: • Se Eu Fosse Você 3: O primeiro teaser marca o retorno de Glória Pires e Tony Ramos aos seus papéis icônicos, 17 anos após o segundo filme • Yellow Cake: O primeiro trailer da ficção científica nordestina dá o tom que a gente deve esperar do filme • Rio de Sangue: Trailer do filme policial na amazônia estrelado por Giovanna Antonelli e Alice Wegmann, que chega aos cinemas em 16 de abril • Quarto do Pânico: Trailer da adaptação brasileira do filme de David Fincher, dirigida por Gabriela Amaral Almeida e estrelada por Isis Valverde e Marco Pigossi • As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você: Teaser do filme inspirado no livro homônimo, protagonizado por Any Gabrielly e Giulia Be • Privadas de Suas Vidas: Trailer do terror nacional selecionado para o Festival de Rotterdam • A Miss: Trailer da dramédia sobre uma mãe ex-miss que tenta forçar a filha a seguir seus passos na passarela Divulgação Mas um dos assuntos que mais movimentou o mundinho brasileiro de séries foi o anúncio que uma nova versão da brasileira Sob Pressão está em desenvolvimento nos EUA, intitulada Under Pressure, pela ABC. Dos mesmos produtores de 'The Good Doctor', o novo drama médico será ambientado no Hospital All Saints, um local precário e com poucos recursos em Savannah, Geórgia. Achei curioso, não vou mentir, como vão fazer sem algo tipo o SUS, ponto central da produção? Não tenho dúvidas que vão conseguir adaptar para a realidade deles, mas será que não vai acabar virando apenas mais uma série médica genérica? Premiações e Bastidores: O termômetro para o Oscar Globo de Ouro: Como repassado no tópico acima, o Brasil fez a festa no Globo de Ouro com ‘O Agente Secreto’ e suas duas vitórias, fazendo com que o filme retornasse ao Top 3 da bilheteria dos cinemas brasileiros. Vale destacar também que, com a vitória de Wagner Moura, tivemos dois anos seguidos de uma atuação brasileira, falada em português, vencendo um Globo de Ouro. Vamos ao resumo da noite: Hamnet, de Chloe Zhao, levou o prêmio de Melhor Filme de Drama, enquanto Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson, ganhou de Melhor Filme de Comédia ou Musical. Nas categorias de televisão, Adolescência conquistou o prêmio de Melhor Minissérie, garantindo à Netflix sua terceira vitória consecutiva na categoria, após Bebê Rena e Treta. Já entre as séries, The Pitt venceu em Drama, enquanto O Estúdio levou em Comédia. Divulgação BAFTA: O Brasil marcou presença nas longlists do BAFTA 2026 com menções para "O Agente Secreto", o documentário Apocalipse nos Trópicos, de Petra Costa, e a fotografia de Adolpho Veloso em Sonhos de Trem. Com isso, 2026 se torna o ano com o maior número de indicações de brasileiros em uma única edição do BAFTA, superando 2003, quando Cidade de Deus apareceu em duas categorias da premiação. Adolpho também foi indicado ao prestigiado ASC Awards, o prêmio do sindicato dos diretores de fotografia dos EUA. Indicações ao The Actor Awards (ex-SAG): O anúncio do Sindicato dos Atores trouxe surpresas e decepções esperadas. O fato mais comentado foi a esnobada total em produções internacionais, o que significa que atuações como a de Wagner Moura em O Agente Secreto ficaram de fora. Escrevi muito sobre isso aqui no site. Confira os indicados de algumas categorias: • Melhor Elenco em Filme: Frankenstein, Hamnet, Marty Supreme, Uma Batalha Após a Outra, Pecadores. • Melhor Elenco em Série de Drama: The Pitt, Ruptura, A Diplomata, The White Lotus, Landman. • Melhor Elenco em Série de Comédia: Abbott Elementary, O Estúdio, Hacks, Only Murders in the Building, O Urso. • Melhor Ator em Filme: Leonardo DiCaprio, Jesse Plemons, Ethan Hawke, Michael B. Jordan, Timothée Chalamet. • Melhor Atriz em Filme: Jessie Buckley, Rose Byrne, Chase Infiniti, Emma Stone, Kate Hudson Sériemania Divulgação Neste mês, tivemos a confirmação do retorno de "Cangaço Novo". A 2ª temporada da aclamada série nacional retorna quase três anos após a temporada de estreia e chega ao Prime Video no dia 24 de abril, com os sete novos episódios disponibilizados de uma só vez. No cenário internacional, tivemos muita movimentação em relação a elenco: God of War: A série live-action do Prime Video escalou Mandy Patinkin como Odin e Ryan Hurst como Kratos The White Lotus: A 4ª temporada, que terá a França como cenário, adicionou nomes como Helena Bonham Carter e Chris Messina Kennedy: Michael Fassbender foi anunciado como o patriarca da família Kennedy na nova série dramática da Netflix All the Sinners Bleed (Netflix): A indicada ao Oscar Amy Madigan se junta a Ṣọpẹ́ Dìrísù no elenco da minissérie da Netflix Fear Not (Paramount+): Anne Hathaway estrelará a nova minissérie da roteirista Bash Doran (Boardwalk Empire) The Last of Us (HBO): Clea DuVall e Jorge Lendeborg Jr. se juntam ao elenco da 3ª temporada Outro assunto que voltou a pingar foi a fala de Kate Winslet sobre a “grande possibilidade” da 2ª temporada de Mare of Easttown ser filmada em 2027. Precisava? Não! Como diz meu amigo Filipe Chaves, que recentemente inaugurou uma coluna de séries aqui no site: “deixem minisséries ser minisséries”. O anúncio que mais fiquei animado? The Chain, a nova minissérie de Damon Lindelof (Lost; The Leftovers; Watchmen) para a HBO, ganhou sinal verde para a produção de uma temporada completa. Baseada no livro homônimo, a trama acompanha uma mãe que se torna alvo de um perigoso grupo de criminosos e precisa cometer um crime para salvar sua filha sequestrada, ou corre o risco de perdê-la para sempre. Para ficar de olho: a vencedora do Oscar Halle Berry estrelará ‘The Patient’, nova série de horror psicológico da HBO. A trama segue um ambicioso jovem psiquiatra que tenta se destacar tratando Josephine Todd (Berry), a famosa paciente incurável de seu hospital. A TV aberta procedural tá mais viva que nunca, mas talvez não da forma que estamos acostumados… Divulgação A HBO Max anunciou que Milo Ventimiglia (This is Us) estrelará American Blue, sua nova série de drama policial. Nela, Brian "Milk" Milkovich (Ventimiglia), retorna à sua cidade natal, Joliet, Illinois, para resgatar uma força policial em apuros enquanto busca redenção para si mesmo. Venderam até como um “nos moldes de The Pitt”, vulgo, procedural…Sei que é pra chamar atenção da galera, mas calma lá, HBO Max… O streaming também anunciou que Ray Romano estrelará How to Survive Without Me, nova série de drama familiar do streaming.. A trama segue um recém-viúvo que precisa desempenhar um papel para o qual nunca fez o teste: o pai de cinco complicados filhos adultos. Fica a Dica (versão nacional): O primeiro episódio da série Paloma, derivada do longa de mesmo nome, estreou no Canal Brasil no dia 29 de janeiro, às 22h, e está disponível no Globoplay+Canais. Dirigida por Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes, a trama acompanha Paloma (Kika Sena), uma mulher trans que enfrenta o risco de perder a guarda da filha de 13 anos. Em busca de estabilidade financeira, ela assume diferentes trabalhos enquanto lida com conflitos familiares, disputas judiciais e a violência estrutural que atravessa seu cotidiano. A série nacional '(in)vulneráveis', estrelada por Danni Suzuki, Zezé Motta e Felipe Rocha, ganha data de estreia: 1º de março, no Universal TV. Com roteiro e direção de Renata Di Carmo, a trama se passa numa UPA no Rio e acompanha a atuação de profissionais de enfermagem. A Netflix adicionou ao catálogo títulos brasileiros importantes como O Último Azul, de Gabriel Mascaro, e A Natureza das Coisas Invisíveis, de Rafaela Camelo. Recomendo muito ambos. Divulgação Renovações: A Netflix garantiu a 8ª temporada de Black Mirror, a 3ª de A Man on the Inside e a 2ª de Patinando no Amor. Já a HBO Max confirmou que a premiada série médica The Pitt voltará para um terceiro ano, antes mesmo da estreia da segunda (que tá ótima, por sinal). O Apple TV fez a mesma coisa: Falando a Real retornou para seu terceiro ano sendo renovada para uma quarta temporada, e Seus Amigos e Vizinhos, que foi renovada para a 3ª temporada, com a 2ª estreando em abril. Na TV aberta, St. Denis Medical e Happy’s Place foram renovadas para a 3ª temporada pela NBC. Agora a renovação que mais me deixou empolgado, apesar de achar que não era necessária: estrelando Ethan Hawke, The Lowdown foi renovada para a 2ª temporada pelo FX. Calendário de Estreias: Divulgação • Euphoria (HBO): Trailer oficial confirma estreia da 3ª temporada para 12 de abril • DTF St. Louis (HBO): Minissérie com Jason Bateman estreia em 1º de março • Something Very Bad is Going to Happen (Netflix): Terror produzido pelos criadores de Stranger Things estreia em março • Paradise (Disney+): A 2ª temporada estreia em 23 de fevereiro Agora, um batalhão de anúncios da Apple TV, que realizou seu “dia de imprensa” e divulgou as próximas estreias: • Imperfect Women: A minissérie estreia em 18 de março • Margô Está em Apuros: Estreia em 15 de abril • Widow’s Bay: Estreia em 29 de abril • Maximum Pleasure Guaranteed: Estreia em 20 de maio • Cape Fear: Estreia em 5 de junho • Lucky: Com Anya Taylor-Joy, a série estreia em 15 de julho. Em Memória Divulgação Infelizmente, o mês também foi de despedidas. Perdemos a espetacular Catherine O’Hara, eterna Moira Rose de Schitt’s Creek, aos 71 anos, e o cineasta húngaro Béla Tarr, responsável por filmes como 'Sátántangó'. No Brasil, começamos o ano lamentando a partida da atriz potiguar Titina Medeiros e de Vera Valdez, pioneira das passarelas e grande destaque recente em Tia Virgínia. Com tudo isso dito, dá pra perceber que o ano começou bem movimentado, e olha que isso aqui foi só um recorte do que entrou no radar. Sendo sincero, gostei demais do resultado. Espero que vocês também tenham curtido o formato da coluna. A ideia é que a gente volte aqui todos os meses, acompanhando o que segue no radar, o que sai de cena e o que começa a chamar atenção. Então já fica o convite pra voltar e trocar essa ideia comigo. Tudo isso, claro, foi noticiado e acompanhado em tempo real no Oxente Pipoca, desde os anúncios até as estreias. Se você quer ficar por dentro de tudo, já sabe onde acompanhar.

  • Crítica | Hungria: A Escolha de um Sonho

    Em meio à febre das cinebiografias musicais, filme aposta em uma narrativa íntima e brasileira. Imagem: Divulgação Em meio à nova onda de cinebiografias que tomou conta das telas do cinema mundial, chega agora aos cinemas brasileiros, nesta quinta-feira (7), Hungria: A Escolha de um Sonho. E existe algo particularmente interessante em ver histórias de artistas brasileiros também ocupando esse espaço, especialmente em um momento em que produções do gênero seguem movimentando público e bilheterias ao redor do mundo. Antes da sessão, eu pouco sabia sobre Hungria e sua trajetória. Conhecia o nome, algumas músicas soltas, mas não a dimensão da caminhada que o levou até o sucesso. Talvez justamente por isso o filme funcione melhor quando mergulha na história de superação do artista: a adolescência difícil, os obstáculos financeiros, os conflitos familiares e a tentativa constante de transformar a própria realidade através da música. Existe sinceridade nessa construção. O longa claramente quer aproximar o espectador do homem por trás do palco, e consegue em alguns momentos bastante honestos. O problema é que o filme demora demais para encontrar seu próprio ritmo. Há uma sensação constante de preparação, como se a narrativa estivesse o tempo inteiro “chegando” ao ponto principal. E quando finalmente engrena, quando parece descobrir o tom emocional que deveria ter sustentado toda a obra, o filme já está praticamente acabando. Ainda assim, o elenco sustenta boa parte da experiência. O protagonista Gabriel Santana entrega uma atuação competente e segura, especialmente nas cenas mais íntimas, onde o filme abandona a grandiosidade típica das cinebiografias e se concentra apenas nas fragilidades do personagem. O trabalho de som também chama atenção de maneira positiva, principalmente na integração das músicas com a construção emocional das cenas e dos momentos de ascensão artística. Imagem: Divulgação E é impossível não pensar na inevitável comparação com Michael, que estreia em um contexto muito próximo e segue cercado de atenção nas bilheterias e entre fãs. Embora sejam artistas completamente diferentes, os dois filmes parecem compartilhar um mesmo problema: ambos até reconhecem que seus protagonistas possuem falhas, mas nunca permitem que essas falhas realmente confrontem a imagem construída sobre eles. Existe sempre uma tentativa de colocá-los em um lugar de inocência, injustiça ou incompreensão. No fim, o resultado acaba sendo parecido. São filmes que funcionam melhor como celebração afetiva do que necessariamente como retratos complexos de seus personagens. E talvez isso não seja exatamente um defeito para quem já chega emocionalmente conectado à figura retratada. Se Michael é uma obra que conversa diretamente com os fãs do Rei do Pop, Hungria: A Escolha de um Sonho certamente deve encontrar força justamente entre aqueles que acompanham o artista há anos. Para quem conhece pouco sobre sua trajetória, fica um retrato honesto e emocionalmente acessível, ainda que um pouco apressado justamente quando finalmente encontra sua melhor versão. Nota: 2.5/5

  • Entrevista | “Precisamos enxergar a trabalhadora doméstica como profissional, e é importante que esse olhar seja construído coletivamente”: Karol Maia fala sobre ‘Aqui Não Entra Luz’

    Em entrevista ao Oxente Pipoca, a diretora e roteirista reflete sobre herança colonial no trabalho doméstico, e a necessidade de dar voz ao movimento das trabalhadoras. Imagem: Divulgação Hoje (7), estreia nos cinemas o documentário Aqui Não Entra Luz, dirigido por Karol Maia. Entrelaçando a vida de trabalhadoras domésticas de 4 estados diferentes (Rio de Janeiro, Maranhão, Minas Gerais e Bahia), o filme reforça como a herança escravocrata brasileira ainda se vê presente no trabalho doméstico contemporâneo. Tendo como ponto de partida o “quarto de empregada”, um lugar escuro e com um tamanho desproporcional à casa grande que o comporta, o documentário mostra o cotidiano e os desafios dessas mulheres na luta pelos direitos da classe e por um rompimento de ciclo das gerações futuras. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de conversar com a Karol Maia um dia após um marco importante, o Dia Nacional da Trabalhadora Doméstica, celebrado em 27 de abril. A vencedora de Melhor Direção no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2025 falou um pouco sobre o processo de criação do documentário, a mãe como fonte de inspiração e as relações domésticas como questões de gênero e raça. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Primeiro, Karol, parabéns pelo filme e obrigada pela disponibilidade. Seu interesse nessa temática claramente surgiu pela sua mãe, o que é maravilhoso e pessoal. Mas eu queria saber como se deu o processo de criação desse documentário. Você menciona que sua mãe não queria aparecer ali de primeira, né? Como foi entrar em contato com todas aquelas domésticas e fazer com que elas se abrissem de uma maneira tão íntima? Karol Maia: Eu acredito que o resultado do bom encontro que eu tive com as trabalhadoras domésticas foi porque eu entendi que para aquele encontro ser legal, assim, eu também teria que dar alguma coisa pra elas, né? Eu acho que é bem comum a gente, às vezes na hora de entrevistar alguém, só pedir e não dar nada de volta. Mas naquela situação era inegavelmente importante que eu também compartilhasse fragmentos da minha história, porque eu não estava ali por um motivo que só passava pelo meu interesse artístico e autoral. Era também um interesse de vida, né? Era um assunto primordial na minha própria vida, que é ter uma mãe trabalhadora doméstica, que foi trabalhadora doméstica, e ter passado algumas experiências no trabalho dela. Eu já fui gravar o filme com a falta da minha mãe, com a lacuna da participação da minha mãe. Então a minha mãe fazia parte do meu encontro com essas mulheres, porque eu trazia um pouco dela para também encontrar algum fragmento da minha mãe nelas. Também, claro, o que fez esse encontro ser tão bonito foi porque a gente tinha uma equipe bem pequena, majoritariamente de mulheres. Então, a gente conseguiu criar um ambiente íntimo e de confiança. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): O documentário também tem um paralelismo muito grande com a relação Casa Grande e Senzala, né? Tem cenas que eu particularmente me senti muito mexida e me tocaram bastante. Isso foi uma decisão narrativa tomada desde o início para essa associação? Karol Maia: Sempre. Meu primeiro ponto de interesse nesse filme foi falar de arquitetura. Era falar sobre a senzala e o quarto de empregada. Era minha primeira obsessão, vamos dizer. E, consequentemente inevitável e que bom falar com mulheres que já dormiram neste lugar. Então, sempre foi um desejo trazer a arquitetura num ponto de vista de contraste. O pequeno e o grande, o iluminado e o escuro, o arejado e o que é sufocante. Sempre foi um ponto de partida, desde a pesquisa até a gravação, até a pós-produção. Trazer esse contraste, porque é um contraste que na prática, não faz sentido, né? Por exemplo, por que uma casa de 200 metros quadrados tem um quarto tão pequeno? Não é falta de espaço. Esse lugar não é pequeno por falta de espaço. Esse lugar é pequeno porque existe um tratado claro, ou não, que esse espaço destinado a essas pessoas seja pequeno. A mesma coisa falta de janela. Não seria interessante, por exemplo, para um dono de uma casa ter um cômodo com mofo, porque naquele cômodo não entra ar, não entra sol. Não é interessante você ter mofo na sua casa. Porém, alguém decidiu que aquele cômodo não precisa de ar nem de luz, e que naquele cômodo pode ter mofo. Então é uma série de absurdos que são tão cotidianos que às vezes passa despercebido. Imagem: Divulgação Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Que bom que você falou dessa parte da arquitetura, porque outra coisa que me deixou intrigada, que você mencionou agora foi essa dualidade. O tamanho da casa e aquele quartinho de empregada que já estamos, infelizmente, tão acostumados com isso que acaba passando batido. E aí, quando vemos o documentário que tem esse choque de realidade, mexe bastante com a gente. E uma coisa que eu queria saber, como foi gravar na casa dessas pessoas? Teve algum impasse por causa de algum patrão? Alguma coisa do tipo? Karol Maia: Então, eu só gravei no serviço de uma trabalhadora doméstica. E ela é uma exceção porque ela tem uma boa relação com os contratantes e eles foram abertos. A gente, claro, não teve acesso à casa inteira, aos ambientes mais íntimos a gente não pôde entrar, mas foi relativamente simples entrar lá porque eles têm essa boa relação com ela. Mas nas outras casas que eu entrei, consegui chegar nelas por meio de uma pesquisa no Facebook, na época que o Facebook era uma rede social muito usada, assim, isso foi 2018. Lançamos um formulário pedindo para pessoas em cidades determinadas cederem suas casas com um quarto de empregada para a gente pesquisar e a partir dessa pesquisa poderia surgir um interesse de gravar. Então foi assim que eu cheguei até os espaços arquitetônicos modernos. Já a pesquisa da arquitetura colonial foi mais tradicional mesmo, no Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) artigos de história, dados que são mais históricos, assim, são mais simples de chegar. Porque esses casarões também, alguns viraram museu, aí eles também são abertos à visita turística, tem um guia e tal. Então é relativamente mais simples de chegar neles. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Você falou do formulário no Facebook que você usou para poder chegar a essas casas. Para a seleção das domésticas que você retratou no documentário, foi dessa forma também? Karol Maia: Não! Pesquisamos elas em sindicatos de empregadas domésticas. Também teve um caso que foi numa ONG que tem Belo Horizonte, assim como também teve indicação de conhecidos da equipe. Mas a maior parte da nossa pesquisa foi no sindicato. Batemos na porta dos sindicatos das cidades e pedimos para o sindicato conectar a gente com as profissionais. Era comum a gente chegar no sindicato e ter algumas trabalhadoras fazendo denúncia, por exemplo, da relação de trabalho. Uma delas que estava lá fazendo denúncia entrou no filme que é a Cristiane e eu a conheci nesse contexto. Fui conhecer o sindicato, ela estava lá denunciando o patrão, e aí ela me contou um pouco da história dela e eu achei que fazia sentido. Mas o sindicato foi um caminho importante para a gente chegar até essas trabalhadoras. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Ontem foi o Dia Nacional da Trabalhadora Doméstica, e acredito que pra você deva ser muito significativo ter a pré estreia em uma data que celebra uma profissão tão importante. Confesso que os momentos finais, e os takes da sua formatura me emocionaram demais e foi lindo ver você quebrando esse ciclo que é bastante mencionado no filme. Quais diferenças em relação à profissão você observou de 10 anos pra cá, e como você espera que o país absorva esse filme? Karol Maia: Eu sou fruto das políticas públicas do país, eu me formei no ensino superior com bolsa do ProUni 100% e tenho muitos colegas que também são dessa mesma geração, né? Que também são filhos de trabalhadoras domésticas e conseguiram seguir numa outra profissão também por conta das políticas públicas. Eu acho, e a gente sabe também que só ter acesso à universidade não é o bastante, porque quando você chega lá você precisa se locomover pela cidade, precisa se alimentar, comprar o material, precisa de tempo para estudar, para pesquisar…e esse, com certeza, foi um conflito que eu tive quando eu entrei na faculdade. Parecia muito lindo quando chegou a notícia, mas na prática tinha outras necessidades, além da bolsa por si só. Mas eu acredito que essas políticas públicas são as políticas que estão dando a oportunidade para jovens periféricos, negros, indígenas, LGBT, de acessar esses lugares que pareciam impossíveis há poucas décadas dentro da nossa família. E essa cena da formatura é uma cena que eu tenho muito carinho, porque eu não lembrava que tinha esse material. E quando acessei ele, assim, foi quase como um acidente encontrar ele no meu drive. E foi muito bonito rever esse dia. Foi realmente um grande dia pra todo mundo. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Como você espera que o país absorva esse filme? Karol Maia: Eu espero que as pessoas assistam o filme e não se fechem para o convite…a ação que ele faz. Eu acho um pouco difícil sair de uma sessão do Aqui Não Entra Luz e não pensar sobre as coisas que foram ditas ali. E eu quero convidar as pessoas que se abram para sair com um pouco do filme, levar pra casa, e ter conversa sobre o filme. Para que essas pessoas também repensem o comportamento delas. E quando eu falo essas pessoas, eu tô falando de pessoas brancas. No filme, eu deixei muitas partes onde as trabalhadoras domésticas falavam o branco. Tem até um caso que uma delas fala barão. Ela é um pouco mais velha e usa a palavra barão. Então, é importante racializar essa relação. Também é uma questão de classe, mas também é uma questão de raça e de gênero, já que o trabalho doméstico é tão feminino. Então, esse é o meu desejo, que as pessoas não se fechem dentro de uma bolha de ego, vaidade e uma autoproteção confortável, para não ter essas conversas desconfortáveis e não ter essas ações que vão mexer em algum tipo de privilégio. Então, o dinheiro é importante. Pagar melhor a trabalhadora é importante, enxergar essa mulher como uma profissional é importante, entender com ela o que é dignidade dentro do trabalho é importante. Quais ferramentas ela quer usar para trabalhar, se ela precisa de uma vassoura melhor, de um produto melhor. Então, esse tipo de coisa é o meu desejo. Vamos lançar daqui a alguns dias, um manual que a gente está chamando de Manual de Como Lavar Louças, que é um manual para dialogar com contratantes, para criar esse tipo de relação que é mais profissional, mas que também é de mais respeito. Porque a trabalhadora doméstica é uma profissional, e é importante que esse olhar seja construído coletivamente. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Karol, por fim, aqui no Oxente Pipoca temos uma tradição de pedir aos nossos entrevistados que indiquem um filme nacional, pode ser um documentário também, que o nosso público deveria ver. Karol Maia: Olha, eu sou completamente apaixonada por um filme chamado Escasso. É um curta-metragem que está no Globoplay. Ele é dirigido pela Clara Anastácia e pela Gabriela Gaia Meirelles. E é um curta absolutamente genial, onde a Clara Anastácia também atua e escreve. E ele faz parte de uma pesquisa dela chamada Melodrama Decolonial, que é um conceito onde ela investiga o melodrama dentro do universo brasileiro e das nossas referências brasileiras e, consequentemente, negras também.

  • Entrevista | “É um filme sobre retomada de poder”: Everlane Moraes dá novos detalhes sobre ‘O Segredo de Sikán’

    Cineasta comenta a construção de sua primeira ficção, que parte de um mito africano para discutir ancestralidade, território e protagonismo feminino. Imagem: Divulgação/EGBÉ – Mostra de Cinema Negro A cineasta Everlane Moraes prepara o lançamento de O Segredo de Sikán, seu primeiro longa de ficção, previsto para 2027. O filme nasce de uma longa pesquisa iniciada durante um período em Cuba e atravessa mais de uma década de desenvolvimento até chegar às filmagens. Misturando realismo fantástico, mitologia africana e contemporaneidade, a obra reconstrói o mito da princesa Sikán a partir de uma perspectiva feminina, conectando territórios da Nigéria ao Recôncavo Baiano.O filme reúne nomes consagrados do cinema nacional, como Grace Passô, Sérgio Laurentino, Noélia Montanhas e Severo D’Acelino, além de talentos locais da região. A produção traz um elenco majoritariamente composto por atores negros, incluindo também Taise Paim, Sara Barbosa e Heraldo de Deus, em uma narrativa que reimagina o mito da princesa africana Sikán, subvertendo seu destino em uma trama de drama, suspense e mistério. Ambientado em um universo distópico, o filme acompanha a história de Sikán, que, para proteger um segredo, se lança ao rio Oddán, na Nigéria. Transformada em um peixe luminoso, sua chegada ao rio Paraguaçu, no Recôncavo Baiano, provoca conflitos entre Cachoeira, cidade matriarcal, e São Félix, cidade patriarcal. Grace Passô interpreta Sara, inspirada na artista cubana Belkis Ayón; Sérgio Laurentino vive Ajamu, guerreiro que busca controlar a energia de Sikán; e Severo D’Acelino é Nasakô, ancião cego que guarda segredos nas águas do Paraguaçu. Outros personagens incluem Matriarca Perpétua (Noélia Montanhas), Naira (Sara Barbosa), Eno (Heraldo de Deus), Tânia (Taise Paim), Zita (Manuela Neves) e Leda (Andreia Anjos). Confira a entrevista com Everlane, realizada na EGBÉ — Mostra de Cinema Negro, em Aracaju (SE): Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Você pode falar um pouco sobre o projeto e como surgiu O Segredo de Sikán? Everlane Moraes: O Segredo de Sikán, que é um projeto que iniciou quando eu estava em Cuba. Foram quatro anos de pesquisa, que foi o tempo que eu fiquei lá, mais oito anos de captação no Brasil, passando por vários laboratórios, várias ideias de projeto, até conseguir finalmente, no ano passado, filmar. Agora eu vou passar para o processo de edição e espero poder lançar em 2027. Então, é um filme que conta uma lenda, um mito antigo que surgiu em Calabar, na Nigéria, que conta a história da princesa Sikán. Uma princesa que supostamente contou um segredo que não deveria contar e foi condenada e julgada por indiscrição, por ter revelado esse segredo. No mito original, é um mito muito violento. Mas eu pego esse mito e reconto desde uma perspectiva feminina e mudo o destino de Sikán. Em vez de uma mulher indefesa, indiscreta, que contou o segredo, eu digo: e se ela não contou o segredo? E se foi mentira? Ela não contou o segredo. Ela conseguiu fugir da condenação e se lançou no rio, levando consigo o segredo, se transformando em um peixe que nadou por rios e oceanos por vários séculos, até chegar ao Rio Paraguaçu, em Cachoeira, no Recôncavo da Bahia, onde eu moro, onde eu nasci. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): E como essa transposição entre territórios e tempos acontece no filme? Everlane Moraes: Então, eu conto essa história na contemporaneidade, a partir desse mito transformado, desse peixe que se encontra dentro do rio. E as mulheres vão ter que se reunir em sororidade, num mundo que é regido por homens, pela masculinidade, pela violência. Elas precisam ter esse segredo ancestral para salvar o mundo, trazer a luz de volta, unificar territórios, devolver o poder à mulher, que foi perdido quando Sikán supostamente contou o segredo. É bem complexo, são várias camadas. Mas também tem uma coisa muito interessante que é a questão do território. No mito original, existiam duas tribos inimigas, Efik e Efor, separadas pelo grande rio Odan. Esses territórios existem, eu fui até lá na Nigéria. E aí eu descobri que eu poderia transpor essa história para a contemporaneidade porque onde eu moro, em Cachoeira, existe Cachoeira de um lado e São Félix do outro, também separadas por um rio, o Paraguaçu. Então é o mesmo tipo de cartografia, o mesmo tipo de território. Eu peguei esse mito antigo e trouxe para um território contemporâneo que tem essa mesma divisão. Foi fácil transpor essa cartografia. O difícil foi fazer a ressignificação do mito, retomar essa história, reviver um mito que estava um pouco esquecido, apagado. Imagem: Divulgação/EGBÉ – Mostra de Cinema Negro Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): O filme parece trabalhar com muitas camadas simbólicas. Como você define essa proposta estética e narrativa? Everlane Moraes: É um filme com muitas camadas, é difícil até explicar. Mas é um filme de realismo fantástico, minha primeira ficção. E tem um desafio plástico muito grande, porque ele é filmado todo à noite, é um filme cheio de mistérios, de segredos, até porque é o segredo de Sikán. Então é um filme em camadas de segredo. É um filme que fala sobre liberdade, sobre retomada de poder, sobre um mundo que está em trevas e que as mulheres recuperam e trazem a luz. É sobre uma perspectiva do mundo que a gente quer criar, com integridade entre mulheres, com outras formas de existência. Tem muitos temas, muitas camadas, mas é isso. Foi muito difícil de fazer, mas eu espero que as pessoas gostem. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Para finalizar, você poderia indicar filmes ou cineastas que te influenciam ou que você recomenda para o público? Everlane Moraes: Eu recomendo toda a filmografia da Sara Gómez, que é uma cineasta pioneira, com um documentário híbrido, social, crítico, muito consciente. Uma gênia. Indico também os filmes do Eduardo Coutinho, que é um mestre do documentário, dos encontros, das fabulações. E eu diria para as pessoas assistirem cinema brasileiro, de todos os gêneros, de todos os temas, do mais simples ao mais complexo. Assistir os clássicos, revisitar o cinema do Glauber Rocha, entender o que construiu a identidade do nosso cinema. Porque a gente precisa entender o que foi construído para poder ressignificar, criar novas formas, novas abordagens. Olhar para dentro para poder transformar. E assistir filmes brasileiros, ver o nosso povo, nossos atores, nossas histórias. É nessa diversidade de olhares que a gente consegue desenvolver um olhar crítico e imaginar novas possibilidades.

  • Oficina sobre sustentabilidade no audiovisual está com inscrições abertas em Sergipe

    Formação do projeto “Pólen das Artes”, da Floriô de Cinema, será realizada em maio, em Aracaju, com foco em práticas sustentáveis e responsabilidade socioambiental no cinema Imagem: Divulgação O projeto “Pólen das Artes”, da Floriô de Cinema, está com inscrições abertas para a oficina “Sustentabilidade no Audiovisual”, ministrada por Hillmarques Santana. A formação acontece nos dias 20 e 21 de maio, das 18h às 21h, na sede da Floriô, em Aracaju (SE). Com carga horária de seis horas, divididas em dois encontros, a oficina propõe discutir possibilidades e caminhos para uma produção audiovisual com responsabilidade socioambiental, abordando temas como cálculo da pegada de carbono, mitigação e compensação de impactos ambientais, redução e reciclagem de resíduos sólidos gerados em sets de filmagem. Voltada para cineastas, produtores, pesquisadores, ambientalistas e estudantes interessados em cinema e audiovisual, a atividade integra o projeto de formação audiovisual da Floriô de Cinema, que busca ampliar debates contemporâneos dentro do cenário cultural sergipano. O ministrante Hillmarques Santana é bacharel em Engenharia Ambiental e Sanitária pela Universidade Federal de Sergipe e atua como consultor ambiental, com experiência em órgãos fiscalizadores, além de gestão e gerenciamento de resíduos sólidos. Segundo Carolen Meneses, discutir sustentabilidade dentro do audiovisual local é uma necessidade urgente. “Pensar a sustentabilidade no audiovisual sergipano é fundamental para desenvolver mecanismos de redução dos impactos ambientais gerados pelas produções cinematográficas. Sustentabilidade é conscientizar para cultivar práticas de respeito ao território, algo que almejamos com as nossas produções independentes”, afirma. Ela destaca ainda que a oficina surge da necessidade de repensar os bastidores das produções culturais. “A oficina surge com a nossa necessidade de aprender a redesenhar os nossos bastidores com ideias criativas que expandam os nossos horizontes para discussões globais importantes para nossa existência no futuro”, completa. Para Hillmarques Santana, a sustentabilidade deve atravessar todos os setores da sociedade, incluindo o mercado audiovisual. “Ser sustentável é a única saída que temos para atenuar as mudanças climáticas. É muito importante que os mercados, empresas e serviços assumam essa responsabilidade socioambiental, inclusive em Sergipe”, destaca. Hillmarques também ressalta a importância de transformar o debate em prática cotidiana. “Não há nada mais sustentável que fazer o pólen germinar e se transformar em semente. Que as práticas enunciadas sejam de alguma maneira aplicadas e absorvidas, para que o impacto da oficina seja alcançado”, afirma. As inscrições seguem abertas até o dia 15 de maio de 2026, às 23h59, ou até o preenchimento das vagas. Os participantes selecionados serão comunicados via WhatsApp até 19 de maio. A inscrição poderá ser feita através do preenchimento do formulário online. Haverá certificação para quem obtiver 100% de presença. Essas e outras atividades da Floriô de Cinema podem ser encontradas na página da Floriô no Instagram. O “Pólen das Artes” é realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), por meio do Edital nº 08 – Subsídio, executado pela Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe (Funcap/SE), com incentivo do Sistema Nacional de Cultura, Ministério da Cultura e Governo Federal.

  • MR. BENJAMIM: Cinebiografia do primeiro palhaço negro do Brasil está em desenvolvimento por Luis Lomenha — Mercado de Cannes 2026

    O longa possui roteiro assinado por Lomenha e Bruna Aguiar Divulgação O cinema brasileiro resgata uma figura central da cultura popular na Marché du Film 2026, o mercado de filmes do Festival de Cannes, com o projeto 'Mr. Benjamim'. Sob a direção de Luis Lomenha, o filme acompanha a trajetória de Benjamim, nascido ainda sob a escravidão no fim do século XIX, que fugiu pelas plantações e encontrou seu refúgio no circo. Por meio da arte, da perda e da resiliência, ele ascende e se torna Benjamim de Oliveira, o primeiro palhaço negro do país e um símbolo de resistência. O longa tem roteiro assinado por Luis Lomenha e Bruna Aguiar, e é uma produção da Jabuti Filmes, com coprodução da espanhola Creta Producciones S.L. Atualmente em fase de desenvolvimento, Mr. Benjamim chega ao mercado de Cannes em busca de financiamento, produção, coprodução, distribuição, agente de vendas, circulação em festivais e plataformas de VOD. Divulgação Leia também: *Esta matéria faz parte de uma série especial que o Oxente Pipoca preparou sobre os filmes brasileiros em destaque no Marché du Film 2026, o mercado de cinema do Festival de Cannes. Em cada publicação, aqui e nas nossas redes sociais, você vai encontrar detalhes como: sinopse, equipe envolvida, diretores, produtoras e muito mais que tivermos acesso. Fontes: Cinema do Brasil e BBC

  • Crítica | Mambembe

    Entre memórias, afetos e um filme interrompido, Fábio Meira transforma o cinema em um gesto de permanência e reinvenção. Imagem: Divulgação Existe algo profundamente brasileiro no universo do circo mambembe, especialmente quando ele atravessa o interior do Nordeste. Não apenas como espetáculo, mas como presença que ocupa a cidade por instantes e depois desaparece. A lona erguida em terrenos improvisados, os caminhões que se tornam casas, o brilho precário das luzes na noite quente. O circo não chega como evento isolado, ele se mistura à paisagem, se confunde com o cotidiano e cria uma memória coletiva que não é fixa, mas em movimento. É nesse imaginário que se ancora Mambembe, novo longa de Fábio Meira, que estreia em 14 de maio nos cinemas. Depois de As Duas Irenes e Tia Virgínia, o diretor retorna a um projeto iniciado em 2010, interrompido ainda na origem, para transformá-lo em outra coisa. Não exatamente um filme recuperado, mas um filme reinventado a partir do próprio fracasso. A premissa original acompanhava um topógrafo errante que cruza o caminho de três mulheres de um circo mambembe. Mas o que poderia ser apenas uma narrativa ficcional se abre em outras direções quando o próprio processo passa a contaminar a obra. O filme deixa de buscar um encerramento possível e assume sua condição de fragmento, de projeto interrompido que retorna como memória, arquivo e gesto de recomeço. Há aqui uma escolha clara de linguagem. Mambembe assim como o circo, não se fixa em um território. Ele oscila entre documentário e ficção, entre bastidores e cena, entre registro e invenção. Essa instabilidade não é um efeito, mas a própria estrutura do filme. O que se vê é uma obra que se constrói diante do espectador, como se estivéssemos sempre no meio de algo que já começou antes e ainda não terminou. Dentro dessa lógica, o filme se aproxima de um diário. Não no sentido íntimo apenas, mas no sentido de processo. A direção de Fábio Meira não tenta esconder esse estado de busca. Pelo contrário, expõe. O filme parece constantemente em diálogo com sua própria origem, com suas imagens de pesquisa, com o jovem diretor que inicia esse projeto e com o tempo que atravessa tudo isso. Nesse percurso, surgem personagens reais que atravessam a fronteira da ficção e reorganizam o próprio filme. Índia Morena, figura do circo pernambucano, não apenas participa da construção da obra, mas tensiona sua lógica ao afirmar que artistas de circo devem interpretar a si mesmos. Essa ideia não fica restrita ao discurso, ela estrutura o filme por dentro. O personagem do topógrafo, por sua vez, carrega uma dimensão ainda mais íntima. Ele nasce de uma ausência, da relação com o pai do diretor, e aos poucos deixa de ser apenas personagem para se tornar espelho. O filme passa a operar nesse espaço instável entre criação e autobiografia, onde o próprio cineasta também se inscreve como presença. O que se forma é um conjunto de camadas que nunca se estabilizam. Uma artista como Madonna surge como figura quase impossível de distinguir entre o real e o inventado. As duas Jéssicas expõem esse mesmo atrito, uma impedida de sair do circo e outra recriada pela ficção, interpretada por Dandara Guerra. O filme não resolve essas fronteiras, ele as mantém abertas. O resultado é uma obra que encontra no inacabado sua força central. Mambembe não tenta reconstruir o que foi perdido, mas olhar diretamente para a interrupção. Nesse sentido, o longa também fala sobre um cinema brasileiro que muitas vezes começa e não termina, não por falta de ideias, mas por falta de estrutura, de financiamento, de condições reais de existência. É aqui que o filme se amplia. Ele não trata apenas de um projeto interrompido, mas de uma lógica mais ampla do audiovisual brasileiro, especialmente fora dos grandes centros. Quantas histórias existem apenas como possibilidade? Quantos filmes permanecem como arquivo, rascunho ou memória de algo que não chegou a se concretizar? Ao transformar esse processo em forma, Mambembe encontra uma dimensão política sem precisar anunciá-la. A precariedade deixa de ser contexto e passa a ser linguagem. O que poderia ser ausência se torna matéria. No fim, o que Fábio Meira constrói não é um filme sobre o circo, nem apenas sobre um projeto perdido. É uma obra sobre o próprio ato de filmar quando ele já não pode ser inteiro. Sobre o que permanece mesmo quando tudo parece interrompido. E sobre como, às vezes, o cinema nasce justamente do que não conseguiu se concluir. Nota: 4.5/5

  • Entrevista | “É importante que haja referências diversas sobre uma mesma maneira de estar no mundo”: Miriam Garlo e Eva Libertad falam sobre “Surda”

    5 anos após curta de mesmo nome, irmãs refletem sobre a construção da relação entre surdez, maternidade e representatividade no cinema. Divulgação Em 2021, a parceria entre a diretora Eva Libertad e a produtora Nuria Muñoz rendeu frutos que continuaram prosperando 5 anos depois. Após Leo y Álex en pleno siglo XXI (2019) e Nikolina (2020), a dupla decide abordar os dilemas sociais e comunicativos de Ângela, uma mulher surda que decide ser mãe. Protagonizado por Miriam Garlo, irmã de Eva Libertad, Surda se consagrou como o primeiro curta-metragem gravado em Língua de Sinais Espanhola (LSE) a ser indicado aos Prêmios Goya. Em 2026, Surda se transforma no primeiro longa-metragem da diretora Eva Libertad. Mais uma vez na pele de Ângela, Miriam Gallo, ao lado do ator Álvaro Cervantes, se distancia de sua vivência pessoal, e solidifica a história de uma mulher que busca se adaptar ao mundo de uma mãe não ouvinte. Ao mesmo tempo, seu marido - protagonizado por Cervantes - tenta compreender os menos e dificuldades de Ângela, enquanto ressignifica seus conceitos de parceria e companheirismo. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de conversar com as irmãs para falar um pouco mais sobre o processo de criação do filme, após o curta em 2021, a aprofundização da maternidade e o som na construção da narrativa. Ao serem perguntadas dos desafios em transformar o curta-metragem em algo maior, Libertad destacou a importância em transformar o set de filmagens cada vez mais acessível e confortável. “Filmar o longa-metragem realmente foi muito mais intenso. Tivemos que tornar o set acessível tanto para minha irmã, como para as outras pessoas surdas que trabalharam no filme. O desafio foi que esse é o primeiro filme da Miriam, e o meu também. E ela estava presente em todas as cenas, então era muito intenso para ela. Eu sabia que se eu ouvisse a Miriam na desconformidade dela, eu como diretora, iria me afetar muito, porque ela é minha irmã. Emocionalmente tinha um vínculo muito grande. Então, minha obsessão foi criar um set de filmagem cuidadoso, amoroso, onde todo mundo pode se sentir bem, inclusive minha irmã - sobretudo ela”, destaca. Na questão da acessibilidade, o set de filmagens contava com dois intérpretes de línguas de sinais, e aulas de LSE para toda a equipe. Eva Libertad também contou que a equipe realizou um dossiê sobre surdez, explicando a surdez desde ângulos sociais e culturais. Escolhas técnicas Para o público ouvinte, o som - ou a falta dele, funciona como um norteamento de toda a narrativa. Em cenas estratégicas, quem assiste se vê praticamente imerso na vida e nas sensações de Ângela. A diretora explica que sempre esteve muito claro que queria explorar a sensibilidade da protagonista, mas ainda precisava descobrir de que forma e em que momento isso aconteceria dentro da narrativa. “Foi uma escolha feita muito cedo no processo. Testei várias possibilidades até que, na segunda versão do roteiro, surgiu a ideia que acabou se materializando no filme. Esse momento acontece quando Angela entra em crise. Ela acredita que perdeu tudo, não sabe mais o que fazer e não consegue se reconhecer naquele vínculo. Não consegue se conectar nem mesmo com a própria filha. Foi justamente nesse ponto de ruptura que percebi que parte do público ouvinte talvez não conseguisse compreendê-la completamente. Poderiam enxergá-la como egoísta ou birrenta, pensando: ‘Mas o que acontece com essa mulher, se ela tem alguém que a ama?’ Então, naquele momento, eu quis adentrar a Ângela. Até ali, a câmera sempre esteve próxima dela, mas nunca verdadeiramente dentro da personagem. E eu queria justamente isso: colocar o público ouvinte dentro da pele dela, ajudá-lo a compreender sua experiência de maneira mais íntima”. Entre as escolhas técnicas mais formais, a planificação foi completamente alterada, quase em 180 graus, e, na parte final do filme, passaram a ser utilizados planos subjetivos, fazendo com que a câmara assumisse o olhar da personagem. Paralelamente, toda a construção sonora do trecho em que o som se “perde” também foi pensada para traduzir sua percepção do mundo. “Na realidade, não existe uma ausência total de som, mas criamos, na pós-produção, uma percepção de como Angela escuta o mundo. E isso foi um grande desafio, porque não existe uma única forma de uma pessoa surda ouvir. Cada experiência é diferente, dependendo da origem da surdez — se é cerebral, do canal auditivo — e também do grau de perda auditiva. Então, investigamos o funcionamento do aparelho auditivo e reunimos Miriam e o designer de som para que ela explicasse como percebe as frequências mais graves e as mais agudas. A partir disso, construímos toda essa última parte sonora do filme, justamente para ajudar o público a entrar na pele da Angela”, destaca a diretora. Construção da narrativa Para Miriam Garlo, apesar de se tratar de uma personagem surda, a ideia principal era se afastar de sua vivência real. “Queria que o personagem da Angela fosse totalmente construído muito longe de mim. A Angela é surda de uma maneira diferente da minha. Ela perdeu a audição aos dois anos. Sua biografia e a minha são totalmente diferentes. Isso faz ela transitar por um tipo de surdez muito diferente da minha”. Divulgação Apesar de cogitar a maternidade em um ponto da vida, diferente da personagem, Miriam conta que decidiu não ser mãe. A inspiração de Eva Libertad - pelo menos em um primeiro momento - reforçou a importância de quebrar o estigma que persiste sobre atrizes com deficiências. “Sou atriz toda vida. Eu me formei em teatro, interpretação, e queríamos sair da minha experiência real para dar a visibilidade ao personagem que uma atriz com deficiência pode construir. Porque a tendência natural é pensar que uma atriz, por ter uma deficiência, está totalmente limitada. Todo mundo está acostumado que uma pessoa com síndrome de Down, seja engraçadinha ou carinhosa..temos vários preconceitos, mitos, estigmas e crenças que fazem a gente projetar isso. Mas a verdade é muito diferente disso. O que a gente queria era construir um personagem autêntico, sólido, de uma mulher surda, que tem muitas complexidades”. Para a construção da maternidade de Ângela, a parceria entre as irmãs ganhou um importante aliado. Entre algumas entrevistas visando compreender o lado real da maternidade surda, Eva conta que precisou se perguntar qual história deveria realmente contar - foi então que o casal passou a ser um ponto central em todo desenvolvimento da narrativa. Dessa vez, a presença de Álvaro Cervantes e seu companheirismo com Miriam Garlo, trouxe Hector como um pilar para a protagonista, ao mesmo tempo em que representava uma redoma a ser rompida. “Embora existisse muito amor e muita comunicação, acho que a Angela e a Hector têm uma bolha onde tudo funciona corretamente. Mas o que acontece quando a situação realmente fica tão complexa, onde o amor e a vontade não são suficientes e começam a brotar problemas e conflitos que estão enterrados e escondidos? Eu acho que o personagem do Héctor é como meu alter ego, como experiências e problemas que eu tive com Miriam sobre algumas inseguranças. Também queria construir um personagem masculino com inteligência emocional, com capacidade, que tivesse muito cuidado e disponibilidade emocional. Eu queria explorar uma masculinidade que não possui tantas representações no cinema”, reforça Eva. Divulgação Entre Álvaro e Miram, a sorte de construir uma parceria sólida, foi uma forma de - além de desconstruir barreiras - criar uma confiança profissional e emocional já que seus personagens já tinham anos de relacionamento. A atriz conta que ela e seu parceiro de cena conviveram na residência do casal por um tempo antes das gravações começarem, local em que conseguiram acessar seus planos de intimidade pessoal. Para Álvaro, a oportunidade também serviu para entender o lugar de uma pessoa não ouvinte, e construir uma maior sensibilidade trazida por seu personagem durante a trama. “O Álvaro não tinha nenhuma consciência sobre a surdez. Ele não sabia como era o dia a dia de uma pessoa surda, nem as dificuldades que uma pessoa surda enfrentava. Isso tudo surgiu de repente para ele. E, de certa forma, para mim também foi um processo. Eu, como pessoa surda, tinha minhas próprias barreiras e precisei ir quebrando cada uma delas aos poucos. Foi necessário tempo, mas tudo aconteceu com muito carinho. A gente passou por esse processo juntos e também realizou um trabalho intenso de preparação para que nossos corpos se entendessem. E, quando digo isso, me refiro a nós como sujeitos, para que pudéssemos construir confiança, inclusive no nível emocional. Fizemos muitos exercícios e treinamentos com a diretora. Fomos nos preparando porque, quando o filme começa, os personagens já estão juntos há cinco ou seis anos. Então, construímos toda essa trajetória: como foi o primeiro encontro, os primeiros medos, a primeira noite juntos, o momento em que começam a se apaixonar. Criamos todas essas lembranças, porque elas dão uma vivência que permite trabalhar com verdade. Foi isso que fez essa química real aparecer. O Álvaro é uma pessoa maravilhosa, com uma enorme capacidade de entrega, esforço, escuta, empatia e uma inteligência emocional incrível, o que facilitou muito tudo entre nós. E eu também sou uma pessoa muito sensível. Então, conseguimos nos acompanhar e nos respeitar profundamente. Acho que foi isso que tornou nossa relação tão verdadeira.” Representatividade Refletindo sobre a construção da personagem Angela e sobre as experiências que atravessam o filme, as irmãs também destacaram a importância da representatividade de mulheres surdas no cinema e em outros espaços da sociedade. Para elas, a presença de personagens complexas e diversas não apenas amplia o olhar do público ouvinte, mas também oferece às próprias mulheres surdas referências fundamentais para a construção de identidade, autonomia e pertencimento. Divulgação Para Eva, o filme nasceu de um desejo de contar ao mundo algo que observou ao longo da vida com a Miriam. A diretora revive memórias e conta que sempre percebeu a dificuldade e a luta que uma pessoa surda enfrenta para se colocar em um mundo capacitista e ouvinte, lidando diariamente com barreiras de comunicação e problemas de acessibilidade. “O filme surge também desse impulso de gritar isso para o mundo, de expressar uma certa raiva, uma indignação diante dessa realidade. Eu precisava encontrar a minha forma de contar essa história, porque, no fim das contas, estou falando sobre uma protagonista surda e sobre os conflitos de uma pessoa surda sendo eu uma pessoa ouvinte. A maneira que encontrei de legitimar esse olhar foi justamente me posicionar nesse ponto de encontro entre os dois mundos, através da relação desse casal. Eu queria me aprofundar nesse vínculo, tanto nas partes mais difíceis e sombrias quanto nas mais bonitas. Também havia um desejo de fazer o público entrar na pele da Angela, sentir o que ela sente e compreender o que acontece com ela. Era uma tentativa de provocar, de despertar algo novo nessas pessoas”. Quando perguntada sobre qual mensagem gostaria que Surda transmitisse à comunidade não ouvinte, Eva Libertad retoma o ponto principal: Respeito. Se aproximar com curiosidade, escuta e honestidade ao contar a história. “Acima de tudo, existe o desejo de que cada vez mais pessoas surdas possam contar suas próprias histórias e experiências a partir de seus próprios olhares e vivências”. Ponto de partida para o surgimento dessa narrativa, Miram Garlo aborda a representatividade de mulheres surdas no cinema e em outros espaços de uma maneira fundamental para ampliar o olhar do público e contribuir na construção da identidade de quem se vê retratada na tela. “Uma mulher surda, como qualquer outra pessoa, consome cinema. E, quando você assiste a um personagem bem construído, isso também ajuda na sua própria formação, na maneira como você se enxerga e se constrói. Afinal, é por isso que consumimos arte: ela contribui para o desenvolvimento cognitivo e simbólico que os seres humanos precisam. Por isso, considero essencial que existam mais referências para mulheres surdas, para que possamos viver nossas experiências e vivências com mais liberdade. Temos direito de errar, de sermos contraditórias, de nos comportarmos mal às vezes, como qualquer pessoa. E nada deveria acontecer por causa disso. Acho que ter diferentes referências é importante não apenas para pessoas surdas, mas também para pessoas ouvintes, porque isso ajuda a compreender que pessoas com deficiência não precisam ser superprotegidas nem tratadas com paternalismo. São questões que, em teoria, todo mundo entende, mas que, na prática, muitas vezes passam despercebidas”. Ao final, a mensagem é clara: apoiar, escutar e ajudar pessoas com deficiência é fundamental, mas nunca tomar decisões por elas ou fazê-las acreditar que não são capazes de agir, escolher e conduzir a própria vida. Miriam reforça que são atitudes sutis, muitas vezes naturalizadas no cotidiano, mas que revelam formas silenciosas de paternalismo. Nesse sentido, a obra também evidencia a importância de permitir que a personagem viva a maternidade da maneira que deseja, sem obstáculos impostos entre ela e a filha. Ao mesmo tempo, o filme constrói uma forte linhagem feminina, marcada pelas complexidades da surdez e pelas relações entre mães e filhas. A relação de Angela com a própria mãe, atravessada por conflitos e incompreensões ligados à deficiência, acaba reverberando também em sua experiência com a filha, criando um retrato sensível e complexo dessas heranças emocionais e afetivas.

  • Crítica | Natal Amargo

    Almodóvar segue soturno e pessimista em outro filme semi-autobiográfico. Divulgação Natal Amargo acompanha duas histórias paralelas que se desenrolam entre Madri e as Ilhas Canárias. De um lado, a publicitária Elsa (Bárbara Lennie) perdeu a mãe durante as festas de natal e afoga-se no trabalho. Não tendo espaço para lidar com o luto, um ataque de pânico severo a obriga a tirar uma pausa e viajar para Lazarote, nas Ilhas Canárias, ao lado de sua amiga Patricia enquanto o marido, Bonifacio, permanece em Madri. O outro ponto de vista da trama acompanha Raúl Durán (Leonardo Sbaraglia), um diretor e roteirista que enfrenta dificuldades em separar a realidade da ficção. Pedro Almodóvar mais uma vez volta os olhos para si em Natal Amargo, adaptação de um dos contos de seu livro O Último Sonho, e transforma essa matéria íntima em um exercício melancólico de autoanálise, como um aceno à impossibilidade de reconciliação plena consigo mesmo. O cineasta espanhol constrói novamente uma de suas tradicionais personas sorumbáticas, homens atravessados pela sensação de fracasso afetivo, criativo e existencial. Aqui, porém, essa figura parece ainda mais cansada, como se não houvesse mais qualquer expectativa possível em relação ao futuro, à carreira ou até mesmo ao próprio passado. O diretor Raúl Durán funciona claramente como um espelho fragmentado do próprio Almodóvar. A narrativa se desenvolve em uma estrutura emaranhada entre realidade, ficção e uma espécie de para-realidade emocional, em que as experiências dos personagens parecem constantemente contaminadas pelas angústias pessoais do cineasta. Almodóvar expõe suas motivações, suas inseguranças e principalmente os desdobramentos de escolhas humanas e criativas que cruzaram sua trajetória. Não é a primeira vez que ele faz do cinema um espaço de confissão indireta, mas em Natal Amargo existe algo mais terminal nessa exposição. Cada diálogo e cada silêncio carregam a impressão de um artista refletindo sobre seus próprios limites, como se o filme inteiro fosse guiado por uma consciência inevitável da finitude. Esse tom de despedida aparece também nas inúmeras autorreferências espalhadas pelo longa. As participações especiais de atrizes associadas à sua filmografia funcionam quase como fantasmas afetivos revisitando um universo em decomposição lenta. Há um evidente saudosismo na maneira como Almodóvar revisita temas, enquadramentos e relações que marcaram seus grandes filmes, mas agora sem o vigor provocativo de outrora. O humor ácido ainda existe, assim como a crítica mordaz às relações humanas, porém ambos surgem desgastados, contaminados por um abatimento que parece partir diretamente do olhar do diretor sobre si mesmo e sobre sua permanência artística. Divulgação Visualmente, Natal Amargo mantém o requinte estético característico do cineasta espanhol. A composição cromática, os cenários cuidadosamente artificiais e o controle absoluto da mise-en-scène continuam presentes, mas dessa vez até a beleza parece cansada. As cores vibrantes, antes carregadas de desejo e pulsão, surgem esmaecidas emocionalmente, como se já não fossem capazes de sustentar o mesmo fascínio. Existe uma estranha falta de brilho em cena, quase como se Almodóvar estivesse deliberadamente esvaziando os excessos visuais que ajudaram a consolidar sua identidade cinematográfica. O resultado é um filme conciso, mesmo perpassado por uma sensação constante de exaustão. Ainda assim, Natal Amargo permanece uma obra complexa, amarga e profundamente sentimental. Mesmo sem o ímpeto criativo de trabalhos anteriores, Almodóvar segue sendo um dos cineastas que mais se desnudaram através do próprio cinema, direta ou indiretamente. Sua honestidade artística continua impressionante justamente porque não tenta esconder o desencanto, o medo do esgotamento criativo ou a fragilidade humana que atravessa seus personagens. É um filme que transforma cansaço em linguagem e pessimismo em confissão estética, reafirmando que, mesmo em sua fase mais melancólica, Almodóvar ainda consegue transformar suas ruínas emocionais em cinema vivo. Nota: 3/5

  • Crias do Brasil #3 | Gabriela Amaral Almeida: “A violência me interessa como linguagem desde antes de eu entender o que era expressão”

    Entre fantasmas, violência e humanidade, Gabriela Amaral Almeida reflete sobre o Brasil, o cinema e os monstros que insistimos em esconder debaixo do tapete. Existe algo de profundamente brasileiro nos monstros criados por Gabriela Amaral Almeida. Não porque eles habitem florestas assombradas ou carreguem lendas folclóricas, mas porque nascem de algo muito mais próximo: a violência cotidiana, as relações de poder, os afetos reprimidos e as estruturas sociais que insistimos em fingir que não existem. Ao longo de uma trajetória que atravessa curtas-metragens, televisão e alguns dos filmes mais importantes do horror nacional contemporâneo, a diretora construiu uma obra em que o medo raramente surge do desconhecido. Em seus trabalhos, o horror costuma emergir justamente daquilo que conhecemos bem demais. De A Sombra do Pai a O Animal Cordial, filme que muitos anos após sua estreia continua parecendo um retrato desconfortavelmente atual do Brasil, Gabriela utiliza o gênero para investigar comportamentos humanos, tensões sociais e violências frequentemente naturalizadas. Para ela, porém, esse interesse não surgiu como uma escolha intelectual posterior. Era algo que já existia antes mesmo de compreender plenamente o cinema como forma de expressão. “A violência é algo reprimido na gente desde muito cedo. Como mulher, eu acho que percebi isso muito nova. Existe uma diferença muito clara na forma como meninos e meninas são ensinados a lidar com a frustração. As meninas aprendem a engolir essas frustrações, a não demonstrá-las”, reflete. Segundo a cineasta, foi justamente essa repressão que transformou a violência em objeto permanente de curiosidade artística. “Entender quando essa violência vem à tona, entender quando ela explode, sempre foi um ponto de curiosidade para mim. Esse tipo de história me atraía por ser catártico, por ser uma forma de expressão. Quando comecei a escrever, a violência aparecia como elemento de desorganização daquilo que a gente considera normal. Ela me interessa como linguagem desde antes de eu entender o que era expressão.” Muito antes dos longas que a tornariam uma das principais vozes do horror brasileiro, Gabriela encontrou nos curtas-metragens um espaço fundamental para experimentar narrativas, estéticas e obsessões temáticas que mais tarde atravessariam toda sua filmografia. Ela relembra que o cenário dos anos 2000 e início dos anos 2010 foi decisivo para uma geração inteira de realizadores. “O curta-metragem foi um veículo de treino para muitos cineastas que estão aí hoje fazendo longas. Era uma época de muita efervescência. Existia apoio para realizar os filmes, mas também para exibi-los. Os festivais permitiam que a gente se encontrasse, visse os trabalhos uns dos outros e construísse uma comunidade.” Apesar de frequentemente tratado como etapa de passagem, Gabriela rejeita a ideia de que o formato seja menor. “Sempre digo que um curta não é menor que um longa, assim como um conto não é menor que um romance. A diferença é comercial. A gente deixa de fazer curtas não porque eles sejam menos importantes, mas porque eles não estão dentro dessa lógica de mercado. Para mim, foram um campo de experimentação absolutamente fundamental.” Essa defesa do cinema de gênero também acompanha sua trajetória acadêmica. Antes mesmo de dirigir seus primeiros filmes, Gabriela já dedicava suas pesquisas ao horror, estudando a obra de Stephen King na graduação, na iniciação científica e no mestrado. Na época, porém, o interesse pelo gênero ainda despertava estranhamento. “Eu me lembro das pessoas perguntando: ‘Mas o que existe para estudar nisso?’. Havia um preconceito muito grande. Mesmo quando fui estudar em Cuba, existia um certo deslocamento. As pessoas estavam muito interessadas no cinema social, como se o horror não pudesse ser social também.” Para a diretora, essa transformação acompanha o próprio momento histórico vivido pelo mundo contemporâneo. “A gente vive um período de transição. Estamos entre um mundo velho que acabou e um mundo novo que ainda não surgiu completamente. Esse lugar intermediário é o terreno das assombrações. É o terreno do medo. O horror contemporâneo aparece justamente para lidar com algumas dessas angústias.” O reconhecimento crescente do gênero não está restrito aos festivais especializados. Filmes de horror passaram a disputar os principais prêmios do cinema mundial e ganhar espaço em debates acadêmicos, críticos e culturais. Para Gabriela, essa mudança demonstra que finalmente o gênero passou a ser compreendido como uma linguagem capaz de abordar questões tão complexas quanto qualquer outro formato narrativo. Confira abaixo a entrevista completa com Gabriela Amaral Almeida: O horror como linguagem e catarse Antes de se tornar uma das principais cineastas do horror brasileiro contemporâneo, Gabriela Amaral Almeida já observava a violência como um fenômeno social e emocional que atravessava sua experiência cotidiana. Muito presente em toda a sua filmografia, ela surge não apenas como elemento narrativo, mas como ferramenta para investigar relações de poder, desigualdades e frustrações que muitas vezes permanecem reprimidas. Para a diretora, o interesse pelo tema nasceu muito antes da consolidação de uma carreira no cinema. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Deixa eu me apresentar. Eu sou Gabriella, faço parte aqui do Oxente Pipoca e estou muito feliz de falar com você, que é uma das minhas diretoras favoritas. Eu sempre falo para todo mundo que, quando me pedem uma dica de filme, costumo indicar As Boas Maneiras e O Animal Cordial. Então estou muito feliz de conversar com você. Primeiramente, queria falar sobre a sua filmografia, que é muito marcada por personagens atravessados por violência e tensão social. Em algum momento você percebeu quando o horror se tornaria sua principal linguagem para tratar desses temas e transformá-los em metáforas? Gabriela Amaral Almeida: Nossa, Gabi, um prazer estar aqui. Uma honra. Muito obrigada pela confissão. Fico feliz que O Animal Cordial tenha te tocado. A opção pela violência, eu acho, sendo uma diretora mulher, vem de uma percepção muito antiga. A violência é algo reprimido na gente desde muito cedo. E eu acho que, como resposta a tanta injustiça que acontece comigo, que eu vejo acontecer e que eu registro acontecendo no mundo, entender a violência, entender quando ela vem à tona, entender quando ela explode, sempre foi um ponto de curiosidade meu. Sem querer psicologizar demais, eu acho que desde muito nova percebi a diferença na maneira como meninos e meninas são ensinados a reagir à frustração. As meninas são educadas a engolir essas frustrações, a não demonstrá-las. Então esse tipo de história sempre me atraiu por ser uma forma de catarse, uma via de expressão. Quando começo a escrever minhas primeiras histórias, a violência aparece como elemento violentador, como forma de expressão dos personagens, mas também como algo que bagunça uma situação que a gente considera normal, uma organização social que a gente considera normal, mas que talvez não seja. Então eu acho que a violência é um meio de expressão para mim desde antes de eu entender o que era expressão. Ela me interessa como linguagem. Divulgação: A mão que afaga (2011) O curta-metragem como espaço de descoberta Muito antes de dirigir longas como O Animal Cordial e A Sombra do Pai, Gabriela construiu sua trajetória dentro do circuito de curtas-metragens. Integrante de uma geração que encontrou nos festivais um espaço de formação, troca e experimentação, ela enxerga esse período como fundamental para o desenvolvimento de sua linguagem cinematográfica e para a consolidação de uma cena autoral que hoje ocupa espaço de destaque no audiovisual brasileiro. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Antes dos longas, você construiu uma trajetória importante nos curtas-metragens. Eles foram um espaço para experimentar e encontrar sua identidade cinematográfica? Gabriela Amaral Almeida: Muito. Muito, muitíssimo. Eu acho que o curta-metragem dos anos 2000, começo dos anos 2000 até metade dos anos 2010, foi um veículo de treino para muitos cineastas que estão aí hoje fazendo longas. Estou falando de gente como Juliana Rojas, Marco Dutra, Kleber Mendonça Filho, Anita Rocha da Silveira, os meninos da Filmes de Plástico e tantos outros. Foi uma época de muita efervescência. Não só porque existia apoio público para realizar os curtas, mas porque havia uma rede de festivais muito forte, que permitia que os filmes circulassem. A gente se encontrava, via os trabalhos uns dos outros, se conhecia. E isso faz parte da própria realização do filme. O filme só se completa quando encontra o público, quando encontra outros realizadores. Eu sempre digo que o curta-metragem não é menor do que o longa, da mesma forma que um conto não é menor do que um romance. A diferença é comercial. A gente deixa de fazer curta não porque ele seja inferior, mas porque ele não está dentro dessa lógica de mercado. Não é algo facilmente vendável, não gera lucro, não tem uma janela simples de exibição. Mas, para mim, foi um espaço de experimentação absolutamente fundamental. O horror deixou de ser um gênero menor? Durante décadas, o horror ocupou uma posição marginal tanto na crítica quanto na academia. Hoje, porém, o cenário parece bastante diferente. Filmes do gênero disputam os principais festivais do mundo, acumulam indicações a grandes premiações e ganham espaço em pesquisas acadêmicas. Tendo acompanhado essa transformação desde dentro das universidades e posteriormente da indústria audiovisual, Gabriela observa como a percepção sobre o gênero mudou profundamente nos últimos anos. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Você conseguiu construir uma voz autoral dentro de um gênero que durante muito tempo foi tratado como menor. Você acha que o horror brasileiro vive hoje um momento diferente daquele que encontrou quando começou? Gabriela Amaral Almeida: Completamente. Antes mesmo de fazer filmes, eu estudava Stephen King na faculdade. Estudava as adaptações dos livros dele para o cinema. Fiz isso na graduação, na iniciação científica e depois no mestrado. E eu lembro muito das pessoas perguntando: “Mas o que você vai estudar aí? O que existe para estudar nisso?” Meu orientador, Wilson Gomes, sempre foi muito aberto ao horror. Ele próprio estudava a construção do monstro no horror moderno. Mas existia esse preconceito, esse desconhecimento. Depois fui para Cuba e vivi uma experiência interessante. Não diria que sofri preconceito, mas havia um deslocamento. As pessoas estavam muito interessadas no cinema social, como se o horror não pudesse ser social também. Havia um interesse muito forte pelo cinema europeu, pelo cinema direto, e eu estava lá falando de Stephen King e de John Ford. Hoje isso mudou muito. Você encontra pesquisadores dedicados ao horror, encontra disciplinas sobre o tema, encontra gente estudando isso dentro da academia. Inclusive em Cuba. Mas não é só a academia. O próprio meio cinematográfico passou por uma transformação. O horror deixou de ser visto como uma linguagem menor e passou a ser entendido como ferramenta legítima para contar histórias sobre o mundo em que vivemos. E eu acho que isso tem a ver com o momento histórico que estamos atravessando. A gente vive uma época de transição. Estamos entre um mundo velho, que nasceu depois da Segunda Guerra Mundial, e um mundo novo que ainda não se estabeleceu. E esse espaço intermediário é justamente o terreno das assombrações. É o terreno do medo. Então acho que o horror contemporâneo surge com muita força porque ajuda a dar forma a essas angústias. Divulgação: Miurilo Benício em O Animal Cordial (2017) Quando O Animal Cordial deixou de ser ficção Se existe uma obra que consolidou Gabriela Amaral Almeida como uma das principais vozes do horror brasileiro contemporâneo, essa obra é O Animal Cordial. Ambientado quase integralmente dentro de um restaurante, o longa transforma um espaço cotidiano em palco para uma escalada de violência física, sexual, moral e simbólica, expondo tensões de classe, masculinidade e poder que atravessam a sociedade brasileira. Ao revisitar o filme anos depois de seu lançamento, a sensação é de que ele não envelheceu. Pelo contrário: parece ganhar novas camadas de significado conforme a realidade brasileira se aproxima cada vez mais da brutalidade retratada em cena. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu revi O Animal Cordial esta semana para conversar com você. Já tinha assistido várias vezes, mas a sensação que tive agora foi de que ele fica mais atual a cada revisão. Ele usa o horror, a violência e a tensão para discutir masculinidade, poder, classe e várias outras questões. E eu fico com a impressão de que ele antecipa um Brasil mais agressivo, mais violento, que viria depois. Como você enxerga isso hoje? Gabriela Amaral Almeida: Tem uma coisa interessante. Eu brinco muito com esse filme porque lembro que, quando escrevi o argumento, o Rodrigo Teixeira, produtor do filme, adorou imediatamente. Mas algumas pessoas que leram o projeto na época falavam: “Nossa, mas o brasileiro não é tão violento assim”. E eu lembro muito do contexto daquele momento. Era aquele período de efervescência do ódio da classe média, pré-impeachment da presidente Dilma. Começava a emergir publicamente uma exaltação da raiva, um ódio muito explícito, uma misoginia muito evidente contra uma mulher que ocupava aquele espaço de poder. Aquilo me impactou profundamente e acabou funcionando como combustível para a história. Você meio que capta certas coisas no ar quando está escrevendo. Elas começam a aparecer ao seu redor e acabam entrando no filme. Eu costumo brincar que, conforme o tempo passa, O Animal Cordial deixa de ser aquele filme que algumas pessoas viam quase como uma fantasia de violência e passa a parecer um documentário sobre o Brasil. A atualidade que você percebe talvez venha justamente disso. Quando eu concebi a história, aquilo ainda estava começando. Hoje está completamente exposto. Essa violência declarada, essa misoginia, esse ódio social que atravessa diferentes classes, mas principalmente certos setores da classe média e da classe dominante, está absolutamente à mostra. Então acho que o filme continua atual porque, infelizmente, a realidade se aproximou muito dele. O medo mora na espera Mais do que as explosões de violência que marcam O Animal Cordial, o filme é lembrado pela sensação constante de desconforto. Há uma tensão crescente que transforma cada diálogo, cada olhar e cada silêncio em ameaça. Para Gabriela, o medo está menos na violência em si e mais na expectativa de que ela aconteça. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Outra coisa que gosto muito no filme é justamente essa sensação de claustrofobia e desconforto. Como é construir isso? Como provocar o espectador não apenas através da violência, mas através da tensão? Gabriela Amaral Almeida: Essa é uma pergunta muito boa porque acho que, quando falamos de filmes de medo, precisamos ampliar um pouco a discussão para além do horror ou do terror. O filme de medo é aquele em que nos ligamos a um personagem porque tememos pela vida dele, pela segurança dele. E para construir isso, a construção do tensionamento é tão importante quanto a construção da catarse. Os momentos de violência, na verdade, acabam funcionando como momentos de distensão. É curioso dizer isso, mas muitas vezes eles trazem alívio. Porque o que mantém o espectador preso é a pergunta. Vai acontecer ou não vai acontecer? Vai morrer ou não vai morrer? Vai trair ou não vai trair? Está falando a verdade ou não está? O medo mora nessa espera. Quando você assiste a um filme de fantasma, por exemplo, o que gera tensão não é necessariamente o fantasma. É a possibilidade de ele aparecer. É a expectativa daquela aparição. Então acho que o grande trabalho de direção nesses filmes está justamente na construção dessas linhas de força. Não se trata de choque pelo choque. Trata-se de construir uma corda que vai sendo esticada até o limite. Divulgação: A Sombra do Pai (2018) A infância como território da melancolia Se O Animal Cordial explora a violência coletiva e social, A Sombra do Pai percorre um caminho muito mais íntimo. O horror continua presente, mas surge atravessado pelo luto, pela ausência e pela solidão da infância. A origem da história, segundo Gabriela, remonta aos anos em que estudava cinema em Cuba. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Além de O Animal Cordial, você tem A Sombra do Pai, que eu também adoro. Só que ele vai para um lugar muito mais íntimo, melancólico e emocional. O que te atraiu na ideia de contar uma história de luto e vazio através do horror? Gabriela Amaral Almeida: Foi uma das primeiras histórias que me veio à cabeça quando eu estava estudando cinema em Cuba. A primeira imagem era a de uma menina que planta uma mãe. Isso surgiu muito cedo para mim. Eu gosto muito de Eraserhead, do David Lynch, e essa ideia apareceu a partir desse imaginário: uma criança que acredita que pode cultivar uma mãe. Mas existe outra influência muito importante ali, que é Stephen King. Uma parte muito significativa da obra dele é dedicada à infância. À infância melancólica, à infância isolada, à infância diferente. São crianças que passam por situações inimagináveis, coisas que muitos adultos não suportariam, mas que possuem uma resiliência extraordinária. O King chama isso de “shine” em O Iluminado. Essas crianças especiais, muitas vezes solitárias, acabam se tornando heróis extraordinários justamente porque enfrentam essas situações. Eu sempre enxerguei a infância como um espaço de melancolia. Porque ela é diferente do mundo adulto. Você depende das decisões dos seus pais, das vontades deles. E quando essas vontades entram em conflito com as suas, você não tem muita capacidade de interferir. Então acho a infância um território dramaticamente muito rico. Eu também era uma criança muito introspectiva. Me refugiava nos filmes, nos livros, na ficção. Então existe muito dessa experiência pessoal misturada à minha admiração pelo modo como Stephen King olha para essas crianças deslocadas e solitárias. Foi desse conjunto de coisas que nasceu A Sombra do Pai. Aprender fora da zona de conforto Nos últimos anos, Gabriela ampliou sua atuação para além do cinema autoral, dirigindo episódios de séries, novelas e projetos para streaming. Em vez de enxergar essas experiências como desvios de sua trajetória, ela as vê como oportunidades de crescimento artístico. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Depois de O Animal Cordial, você também teve experiências muito diferentes, dirigindo séries, trabalhando em streaming e até realizando o remake de Quarto do Pânico. Como você enxerga esses trabalhos dentro da sua filmografia? Gabriela Amaral Almeida: Eu acredito muito na prática. O cinema é uma arte extremamente difícil. É uma linguagem que exige um conhecimento prático muito refinado. E eu acredito profundamente no exercício constante dessa prática. Pode parecer contraditório, mas experimento muito nesses trabalhos considerados mais comerciais. Experimento o texto de outros autores, experimento outras formas de produção, outros ritmos, outras exigências. Recentemente dirigi uma série para a Netflix, por exemplo, e cada projeto me coloca diante de desafios diferentes. Eu aprendo muito trabalhando fora do cercado do gênero onde me sinto confortável. A prática envolve tanto a experimentação estética quanto a resolução de problemas concretos. Você precisa filmar muitas cenas por dia, tomar decisões rápidas, encontrar soluções para situações inesperadas. Então eu vejo esses trabalhos como um exercício permanente. Eles me permitem continuar aprendendo e, ao mesmo tempo, encontrar espaços para colocar minha voz dentro de estruturas que não necessariamente nasceram de mim. Cinema, para mim, é um lugar de constante experimentação. Mesmo quando estamos falando de projetos mais comerciais. Divulgação: Quarto do Pânico (2026) Entre perseguições e monstros: os próximos caminhos Ao falar sobre o futuro, Gabriela demonstra o mesmo entusiasmo de quem ainda está descobrindo novas possibilidades dentro do cinema. Os projetos que pretende levar às telas nos próximos anos apontam para direções distintas, mas carregam temas que já aparecem de forma recorrente em sua obra: relações familiares, conflitos morais, questões de classe e personagens em transformação. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): A gente sempre acaba noticiando algumas novidades da sua filmografia lá no Oxente Pipoca. Recentemente falamos sobre Cão de Guarda. Queria que você contasse um pouco mais sobre o que podemos esperar dos próximos anos da Gabriela Amaral Almeida. Gabriela Amaral Almeida: Que massa, Gabi. Olha, existem dois filmes que me são muito, muito, muito caros. São Cão de Guarda e Crocodila. Cão de Guarda é um filme que escrevi especialmente para o Murilo Benício. Ele é um artista que me encanta pela forma como constrói personagem. Eu acho o Murilo uma potência como ator. E existe também uma dimensão humana nisso. A gente passa mais tempo com as pessoas que fazem cinema do que com a própria família. São meses trabalhando juntos, doze horas por dia. E eu tenho procurado cada vez mais estar cercada de pessoas que admiro artisticamente, mas também como seres humanos. E o Murilo é uma dessas pessoas. Então escrevi esse filme pensando nele. Mas existe também um tema que me interessa muito. É aquele momento em que pais e mães deixam de ser figuras idealizadas e passam a ser vistos como pessoas reais, com falhas, contradições e limitações. Quando acontece essa ruptura? Em que momento um adolescente ou um jovem adulto percebe que os pais são humanos? Era isso que eu queria investigar. E espero que as pessoas encontrem também muita ação no filme, porque eu gosto muito de dirigir ação. Existe um estigma muito estranho de que mulheres não sabem dirigir cenas de ação. E eu sempre lembro daquela história da Lucrecia Martel, quando foi convidada para dirigir um filme da Marvel e disseram que chamariam alguém para cuidar das cenas de ação. E ela respondeu que justamente as cenas de ação eram a parte mais interessante, porque é onde a câmera realmente fala. Eu concordo muito com isso. A ação tem uma relação muito forte com ritmo, movimento e coreografia. Tem algo de dança nela. E eu gosto muito desse tipo de construção.Foi uma das razões pelas quais me interessei por fazer Quarto do Pânico. Existe um trabalho de decupagem ali que me fascina muito. Então podem esperar um filme com perseguições, carros, motos, reviravoltas e essa relação entre pai e filha atravessando tudo. É um road movie e estou muito animada para que ele finalmente encontre o público. O segundo projeto é Crocodila, que talvez esteja ainda mais próximo do horror que as pessoas costumam associar ao meu trabalho. É um body horror sobre uma herdeira carioca de quarenta anos que começa a se transformar em um crocodilo no Rio de Janeiro. E, à medida que essa transformação acontece, ela precisa decidir de quem vai se alimentar. Ela começa a se perguntar que tipo de pessoa vai comer. Pessoas da mesma classe social? Pessoas de outra classe? Quem merece ser devorado? Então existe um dilema moral e social atravessando essa transformação física. É um horror corporal, mas também um horror social. Um projeto que desejo realizar há muito tempo e que espero conseguir levar às telas em breve. Porque fazer cinema é muito difícil. Às vezes as pessoas imaginam apenas a parte criativa, mas existe uma combinação enorme de fatores para que um filme realmente aconteça. Os humanos por trás dos monstros Ao longo da conversa, um tema reaparece diversas vezes. Seja falando de violência, infância, horror ou relações familiares, Gabriela retorna constantemente à dimensão humana dos personagens. Mesmo em universos marcados pelo medo e pela brutalidade, seu interesse parece estar menos nos monstros e mais nas pessoas. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Olhando para toda a sua filmografia, existe algo que conecta todos esses trabalhos? Gabriela Amaral Almeida: Nossa, essa é uma pergunta difícil. Muito difícil. Talvez eu nem tenha uma resposta definitiva para ela. Mas, pensando agora, eu tenho a sensação de que aquilo que conecta os meus filmes é a atenção que dou ao humano. Independentemente da estrutura narrativa, do gênero ou da proposta de cada obra, existe uma preocupação muito grande com a construção da humanidade desses personagens. Eu não acredito muito nessa divisão simples entre mocinhos e vilões. O que me interessa é entender pessoas. Entender suas contradições, suas falhas, suas vulnerabilidades, seus desejos. Então talvez seja isso. Talvez o que conecte os meus trabalhos seja justamente essa tentativa de encontrar humanidade em personagens que, muitas vezes, estão vivendo situações extremas. É uma pergunta difícil, mas acho que essa seria minha resposta hoje. Os fantasmas que insistimos em ignorar Ao longo da carreira, Gabriela utilizou o horror para falar sobre violência doméstica, desigualdade, misoginia, luto, ressentimento e abandono. Assuntos que frequentemente permanecem escondidos sob a superfície da vida cotidiana. Por isso, a pergunta final da entrevista parecia inevitável. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Para encerrar, tenho uma pergunta que talvez também te faça pensar um pouco. Você costuma usar o horror para revelar aquilo que a sociedade tenta esconder. Hoje, o que você acha que o Brasil mais tenta esconder de si mesmo? Gabriela Amaral Almeida: Nossa. Tanta coisa. Que pergunta boa. Eu acho que o Brasil tenta esconder de si mesmo a responsabilidade pelas atrocidades que cometemos como sociedade.Não estou falando das individualidades. Estou falando coletivamente. Existe uma tendência muito forte de varrer determinadas coisas para debaixo do tapete. E isso tem relação com essa ideia recorrente de que a memória do brasileiro é curta. Eu acho que muitas vezes a gente esquece deliberadamente. Não é simplesmente um esquecimento natural. É uma escolha de não encarar certos acontecimentos. A gente empurra para debaixo do tapete eventos, situações e comportamentos que deveriam nos fazer refletir. E isso cria monstros. Tudo aquilo que a gente não encara, tudo aquilo que a gente não elabora, tudo aquilo que a gente tenta esconder, acaba voltando. E normalmente volta com mais força, com mais raiva. Eu acho que a sociedade brasileira gosta de esconder uma certa responsabilidade pelas coisas que produz. Mas ela sempre retorna de alguma forma.Talvez seja justamente isso que o horror nos ensine. Siga Gabriela Amaral Almeida em suas redes sociais para acompanhar passos futuros de sua carreira. E claro, aqui no Oxente Pipoca, também seguiremos de olho!

  • Longa pernambucano "Segunda Pele" será lançado no Olhar de Cinema

    Obra de Dea Ferraz integra a mostra competitiva Novos Olhares do festival, realizado em Curitiba. Divulgação O longa-metragem pernambucano Segunda Pele foi selecionado para o Olhar de Cinema, Festival Internacional de Curitiba, onde terá sua estreia oficial dentro da mostra competitiva Novos Olhares, dedicada a obras de linguagem inventiva e caráter experimental. Dirigido por Dea Ferraz e com produção executiva de Carol Vergolino e Hudson Wlamir, o filme terá sua exibição no dia 09 de junho (terça-feira), na Cinemateca de Curitiba, em uma sessão seguida de debate com a realizadora. Produzido pela Alumia Filmes, Coletivo Lugar Comum e Parea Filmes, com apoio de editais do Funcultura, Segunda Pele propõe uma travessia sensorial e poética que parte do corpo marcado, vigiado e normatizado ao corpo livre, em mutação e simbiose. Em sua construção, a obra afirma-se como gesto de fabulação entre presente e futuro, ao mesmo tempo em que é um manifesto feminista pela libertação dos corpos e pela reinvenção dos modos de existir. De acordo com Dea Ferraz, a ideia para a produção surgiu por meio de um processo de construção coletiva. "Segunda Pele é um presente que recebi do Coletivo Lugar Comum, esse grupo de artistas maravilhosas, que tanto me inspiram, e que um dia me convidaram para fazer o filme do espetáculo homônimo. Lembro que já na primeira reunião perguntei se tínhamos que transpor o espetáculo para o cinema ou se podíamos partir do mote para algo novo. Claro que a resposta foi unânime: podemos fazer o que quisermos. Depois de dois anos de imersões e encontros, nasce o filme", explica. Divulgação O elenco reúne as artistas do Coletivo Lugar Comum: Liana Gesteira, Maria Agrelli, Maria Clara Camarotti, Renata Muniz, Sílvia Góes e Sophia William. Em cena, elas compartilham seus corpos, medos e desejos, partindo do pessoal para construir um pensamento em rede. A câmera de Dea Ferraz não observa à distância. Ela se move e dança junto, criando uma intimidade que transforma o olhar em presença. "É de forma poética e livre, que o filme se apresenta como um mergulho nos corpos que carregamos. Segunda Pele é feito com e por mulheres, demarcando um cinema que quebra paradigmas hegemônicos e acredita na força da imagem como construção de imaginário simbólico. Um convite ao sentir, mais do que ao pensar, Segunda Pele é um filme que borra os limites do cinema narrativo tradicional, acionando outras formas expandidas de relação com a imagem", destaca Dea, que também atua como pesquisadora e artista visual, acumulando uma trajetória marcada por investigações sobre imagem e sensibilidade. Em Segunda Pele, essa busca ganha contornos ainda mais urgentes ao confrontar o excesso imagético do mundo contemporâneo. "Vivemos cercados por uma infinidade de imagens. Mas que imagens são essas que nos invadem? É a imagem do espetáculo, da publicidade, do comércio. É a imagem que vira produto. Então, o que tento em meus trabalhos é reencontrar a imagem em sua potência poética. O que as imagens são capazes de produzir em nós que não seja o adoecimento dos nossos corpos? As redes sociais, por exemplo, nos causam adormecimento e apatia, as imagens ali nos descolam de nós. Meu desejo é investigar quais imagens nos devolvem ao corpo, à presença, ao sentir. Quero que o espectador se reconheça vivo, que se implique com as imagens que vê, que as complete. É uma tentativa de pensar o cinema operando como um antídoto para a nossa realidade", reflete a diretora.

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