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  • Longa pernambucano "Segunda Pele" será lançado no Olhar de Cinema

    Obra de Dea Ferraz integra a mostra competitiva Novos Olhares do festival, realizado em Curitiba. Divulgação O longa-metragem pernambucano Segunda Pele foi selecionado para o Olhar de Cinema, Festival Internacional de Curitiba, onde terá sua estreia oficial dentro da mostra competitiva Novos Olhares, dedicada a obras de linguagem inventiva e caráter experimental. Dirigido por Dea Ferraz e com produção executiva de Carol Vergolino e Hudson Wlamir, o filme terá sua exibição no dia 09 de junho (terça-feira), na Cinemateca de Curitiba, em uma sessão seguida de debate com a realizadora. Produzido pela Alumia Filmes, Coletivo Lugar Comum e Parea Filmes, com apoio de editais do Funcultura, Segunda Pele propõe uma travessia sensorial e poética que parte do corpo marcado, vigiado e normatizado ao corpo livre, em mutação e simbiose. Em sua construção, a obra afirma-se como gesto de fabulação entre presente e futuro, ao mesmo tempo em que é um manifesto feminista pela libertação dos corpos e pela reinvenção dos modos de existir. De acordo com Dea Ferraz, a ideia para a produção surgiu por meio de um processo de construção coletiva. "Segunda Pele é um presente que recebi do Coletivo Lugar Comum, esse grupo de artistas maravilhosas, que tanto me inspiram, e que um dia me convidaram para fazer o filme do espetáculo homônimo. Lembro que já na primeira reunião perguntei se tínhamos que transpor o espetáculo para o cinema ou se podíamos partir do mote para algo novo. Claro que a resposta foi unânime: podemos fazer o que quisermos. Depois de dois anos de imersões e encontros, nasce o filme", explica. Divulgação O elenco reúne as artistas do Coletivo Lugar Comum: Liana Gesteira, Maria Agrelli, Maria Clara Camarotti, Renata Muniz, Sílvia Góes e Sophia William. Em cena, elas compartilham seus corpos, medos e desejos, partindo do pessoal para construir um pensamento em rede. A câmera de Dea Ferraz não observa à distância. Ela se move e dança junto, criando uma intimidade que transforma o olhar em presença. "É de forma poética e livre, que o filme se apresenta como um mergulho nos corpos que carregamos. Segunda Pele é feito com e por mulheres, demarcando um cinema que quebra paradigmas hegemônicos e acredita na força da imagem como construção de imaginário simbólico. Um convite ao sentir, mais do que ao pensar, Segunda Pele é um filme que borra os limites do cinema narrativo tradicional, acionando outras formas expandidas de relação com a imagem", destaca Dea, que também atua como pesquisadora e artista visual, acumulando uma trajetória marcada por investigações sobre imagem e sensibilidade. Em Segunda Pele, essa busca ganha contornos ainda mais urgentes ao confrontar o excesso imagético do mundo contemporâneo. "Vivemos cercados por uma infinidade de imagens. Mas que imagens são essas que nos invadem? É a imagem do espetáculo, da publicidade, do comércio. É a imagem que vira produto. Então, o que tento em meus trabalhos é reencontrar a imagem em sua potência poética. O que as imagens são capazes de produzir em nós que não seja o adoecimento dos nossos corpos? As redes sociais, por exemplo, nos causam adormecimento e apatia, as imagens ali nos descolam de nós. Meu desejo é investigar quais imagens nos devolvem ao corpo, à presença, ao sentir. Quero que o espectador se reconheça vivo, que se implique com as imagens que vê, que as complete. É uma tentativa de pensar o cinema operando como um antídoto para a nossa realidade", reflete a diretora.

  • Entrevista | Fellipe Paixão fala sobre a carreira e seleção para programa de mentoria da Warner Bros. Discovery

    Realizador sergipano foi um dos 10 selecionados dentre quase 600 inscritos para o programa “Narrativas Negras Não Contadas”. Divulgação Em sua terceira edição, o programa Narrativas Negras Não Contadas — Black Brazil Unspoken, iniciativa da Warner Bros. Discovery, contou com uma presença sergipana: Fellipe Paixão. Ele foi um dos 10 selecionados dentre 596 inscritos para o programa, que escolheu profissionais com base no potencial criativo, relevância das propostas e conexão com o público contemporâneo. Ao longo de dois meses, Fellipe e os demais selecionados passaram por uma jornada intensiva de formação, com mentorias, workshops e acompanhamento de especialistas da indústria audiovisual e executivos da companhia. Natural de Tabocas, povoado de Nossa Senhora do Socorro, Fellipe atua como diretor, roteirista e diretor de arte, com formação em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e especialização em Direção de Arte pelo Ateliê Bucareste de Cinema. É membro fundador do coletivo Agora Seremos, que desenvolve projetos audiovisuais colaborativos em contextos periféricos, articulando cinema, território, memória e formação. Sua trajetória recente inclui a codireção do curta-metragem ALIVE (2024), selecionado para a Mostra de Cinema de Tiradentes e o Festival de Gramado, além da participação no Laboratório Universitário do Nordeste Lab, onde foi premiado pelo YouTube Brasil para a realização do curta Pretinha (2025), centrado em masculinidades negras e juventude periférica sergipana. Para o Narrativas Negras Não Contadas, ele submeteu o projeto Rainhas da Palavra, documentário que fala sobre o protagonismo negro feminino na construção do slam (competições de poesia falada) em Sergipe, articulando performance, poesia e a construção de uma cena cultural no estado. Em entrevista para o Oxente Pipoca, Fellipe pôde falar mais da sua experiência com o programa e os frutos que colheu a partir dos dois meses do projeto. Além disso, ele discutiu sobre sua carreira e perspectivas para o audiovisual sergipano, que vem numa trajetória crescente. Confira a entrevista abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Fellipe, você foi um dos 10 escolhidos dentre quase 600 inscritos para este programa da Warner Bros. Discovery, com o Rainhas da Palavra, um projeto que aborda a construção da cena cultural do slam em Sergipe. Como você chegou até este programa e quais fatores te impulsionaram a pensar no Rainhas como o trabalho que você submeteria? Fellipe Paixão: O programa da Warner é um programa que que acontece anualmente, e a edição que eu participei foi a terceira. É um programa do departamento de diversidade e inclusão da Warner Global, então existem várias edições do Narrativas Negras Não Contadas, e aí tem essa ramificação que veio pro Brasil. Eu acho que repercutiu muito pouco isso, mas a gente teve na primeira edição a Luciana Oliveira, que é a idealizadora da EGBÉ [Mostra de Cinema Negro realizada em Sergipe], diretora de Espelho, enfim, alguém que eu acho que é uma figura muito central para Sergipe como um todo, mas principalmente para o cinema negro. E aí eu conheci o programa por conta da Luciana na edição anterior; ela comentou comigo que tinha participado, que achava que tinha tudo a ver com o que eu estava construindo uma trajetória, que eu devia tentar. E aí eu tentei nessa segunda edição, que aconteceu no ano anterior, com um projeto também autoral, mas muito mais vinculado ao meu território, a uma questão de debate político. Basicamente um projeto sobre investigação da comunidade em que eu vivo, relacionado a umas questões históricas ligadas à ditadura. Honestamente, era um projeto zero comercial, e ele não foi aprovado. E eu não estava nem muito no intuito de tentar essa nova edição, entendendo que talvez o que eu buscava enquanto cineasta, o que eu buscava comunicar não fizesse tanto sentido naquele momento para entrar no programa, que eu entendia que tinha um apelo comercial. As outras duas edições já estão disponíveis na plataforma da HBO, então eu já tinha assistido aos filmes que foram aprovados, e tinha entendido que eles optavam por um tipo de produção específica, por um tipo de linguagem específica, um tipo de narrativa específica, inclusive com um posicionamento geográfico específico. Nas últimas duas edições, dos seis projetos que foram aprovados, só dois eram nordestinos, de Recife e Fortaleza, e os outros quatro do Rio e de São Paulo. Então, eu estava meio desencantado nesse sentido, mas a Luciana tinha mandado para mim o edital de novo, outras pessoas próximas tinham comentado. Eu estava em Recife, na época que estava para fechar as inscrições, e aí eu lembrei que tinha esse projeto que estava meio que guardado, que era uma coisa que eu estava pensando por alto, mas não necessariamente desenvolvendo, que era o Rainhas da Palavra. Eu tenho um envolvimento com a cena de slam de Sergipe, principalmente nos últimos dois anos, porque um amigo muito próximo é irmão de duas das slam masters que são mais ativas atualmente, e aí eu já participei muito dos eventos de slam do estado, tanto como público quanto como júri técnico. E estava começando a ficar encantado não só com a questão da performance, da representação e da entrega do evento como um todo, para além da participação ética, mas pensando muito essa questão – que é o foco do meu documentário –, que é o fato da gente ter o protagonismo negro e feminino no slam, principalmente na produção do slam. E aí eu conversei sobre isso com as meninas, inclusive com outras figuras que promovem o slam no estado há mais tempo. Fiquei muito curioso porque nenhuma delas tinha parado para pensar sobre isso e a gente percebeu que, no caso, a própria vinda do slam para o estado está impulsionada dessa realidade. E aí eu pensei que fazia sentido, um projeto que apesar de ter um lugar em debate político, tinha um viés muito mais comercial. Eu lembro que submeti o projeto numa extensão de prazo, eles estenderam por mais um dia. Eu submeti e aí estava nessa de achar que não ia entrar, que de novo eles não iriam dar atenção para o projeto, que ele tinha um apelo muito mais político. E estava cheio com tanta coisa, e tão desacreditado que ia rolar, que recebi uma mensagem no meu WhatsApp avisando que precisava confirmar uma entrevista, senão ia perder a vaga. Tipo, não tinha nem checado meu e-mail, era esse o nível [risos]. Basicamente, existiu um filtro inicial dos projetos submetidos, e eles fizeram uma entrevista de 20 a 25 minutos com todo mundo que eles filtraram, junto do departamento de inclusão e uma executiva da Warner. Aí eu participei dessa entrevista e depois de uma semana eles deram o resultado, e eu estava dentro. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Foram dois meses de jornada dentro do programa. Quais seriam as maiores lições e frutos que você acredita que herdou desse período? Como você avalia que ele impactará sua carreira daqui em diante enquanto realizador e sobretudo enquanto realizador negro? Fellipe Paixão: Foi uma loucura, porque basicamente o programa funciona durante esses dois meses em um formato de mentoria acompanhada dos projetos, então a gente tem semanalmente essa mentoria, é um intensivão. São dois meses para desenvolver o projeto muitas vezes do zero ou numa fase minimamente avançada, até uma fase em que ele está pronto para ser apresentado e comercializado. Então a gente tinha semanalmente três, às vezes quatro encontros ao longo dos dias, cada um com geralmente duas horas. E aí eram mentorias variadas: a gente tinha umas mentorias individualizadas por projeto, que acontecia uma vez por semana com a mentora principal do programa, e a gente tinha as mentorias em grupo, que eram de temáticas variadas. Tivemos mentoria com o departamento jurídico da Warner, por exemplo, explicando o que a gente precisava pensar com o projeto, entendendo a realidade do streaming; com o departamento de comercialização de obras, com pessoal de pós e tal. A gente realmente passou por todas as etapas de entender como é que funciona a produção de um material audiovisual pensado enquanto produto para entrega para o streaming. Porque o pensamento é completamente diferente de você produzir um filme que foi aprovado em edital e sobre o qual você tem uma liberdade artística total para produzir o que quiser. Neste caso você está produzindo um filme quase que por encomenda, que precisa entrar dentro de uma prateleira. Eu falo que foi uma loucura porque na semana em que as mentorias iniciaram, eu estava gravando meu último curta. Então eu tive quatro diárias de gravação desse meu filme e tive mentorias da Warner em três dessas quatro diárias. Tem um momento que eu brinco sobre, até tirei uma foto e mandei pros amigos, onde eu estava com um fone de ouvido de retorno do set e um fone dentro do fone de retorno para ouvir a mentoria [risos]. E foi um pouco isso, esse início meio turbulento, mas depois ficou mais tranquilo, e foi muito proveitoso. Eu confesso que no momento inicial em que eu pisei lá, tinha alguns receios por conta dessa questão. Eles tratam muito a produção do material enquanto produto mesmo, tratam o público enquanto audiência, pensam o quanto aquele material que você está produzindo vai funcionar para plataforma, porque não é uma produção que não visa lucro, muito pelo contrário, ele precisa dar retorno. Então, era meio complicado entender que eu precisava começar a pensar a minha produção a partir de um outro lugar. Porque querendo ou não, eu sou formado em Cinema, então eu venho de um lugar acadêmico de pensar o cinema principalmente enquanto arte, nesse lugar de pensamento político, de discurso e tudo mais. E aí, ir para um lugar que vai completamente na contramão disso é um choque muito grande. Mas eu acho que, na verdade, isso foi a melhor coisa, porque eu percebi durante esse processo de consultoria inteiro que existe um todo um mundo à parte de produção audiovisual, de produção de cinema, que eu ainda não tinha entrado em contato, na realidade. Apesar de ser muito novo, de estar no começo de carreira de diretor, proponente, produtor, enfim, eu já tenho alguma experiência com a realidade de editais, com o meio acadêmico, com o estudo do debate crítico, e eu penso no cinema mais enquanto arte. Só que eu tinha zero experiência nesse lugar comercial, de pensar o filme a partir de um pensamento de audiência, do que ele precisa comunicar enquanto produto a ser vendido, de conseguir encaixar um lugar autoral meu dentro toda a necessidade de uma empresa de influência mundial como a Warner. Acho que tudo isso foi interessantíssimo para mim, porque me fez principalmente quebrar muito o preconceito com essa ideia de uma produção tecnológica demais no mercado, mas principalmente de entender como esse lugar, que querendo não é um lugar que detém a maior possibilidade de financiamento e que detém o maior do consumidor, opera, e como conseguir estar lá sem abrir mão necessariamente de um olhar autoral, de uma ideia autoral do cinema. E no pós disso, eu acho que valeu demais a pena ter participado, ter me aberto muitas portas dentro de um lugar de comunicação. E o próprio projeto está indo para outros lugares, eu estou submetendo ele em outros laboratórios de desenvolvimento, continuo trabalhando nele e submetendo ele em editais. A minha ideia é produzir o filme, agora com um pouco mais de liberdade, porque eu não estou necessariamente fazendo para entrar na plataforma, mas aproveitando tudo que rolou de troca dentro do programa. Divulgação Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Falando um pouco mais do panorama do audiovisual sergipano, temos visto um movimento de curtas e longas-metragens sendo produzidos no estado e que abordam diversos temas e formatos. Diante da carreira que você tem construído e do que tem observado neste cenário, como você avalia esse momento atual da produção do cinema em Sergipe e quais são as suas perspectivas para os próximos anos? Fellipe Paixão: Essa é uma pergunta muito boa. Se a gente aqui em Sergipe vai se comparar a outros estados, vemos que é tudo ainda muito novo em termos de construção de indústria. Eu acho que ainda nem dá para falar que existe uma indústria de cinema em Sergipe, como existem em outras capitais do Nordeste. Mas a gente tem um ponto de informação muito grande, que é a existência de uma universidade com um curso de Cinema, uma das poucas do país quando a gente para pensar. E eu acho que a gente está começando a colher os frutos desse investimento no estudo e no pensamento do cinema, principalmente a partir da UFS há algum tempo, a partir de empresas e a partir de pessoas que passaram por esse lugar. A Luciana [Oliveira], por exemplo, faz parte de uma geração mais especificamente que está dentro da UFS desde esse início, que está realmente lutando por tudo que a gente tem hoje, que é o mínimo enquanto estrutura exista. Eu acho que até agora sou da geração mais sortuda de fazer cinema no estado, porque sou da geração que chega e começa a fazer cinema junto dos editais. Basicamente o meu fim de ciclo da universidade foi quando a gente teve o primeiro edital da Paulo Gustavo. Já tinha existido o ciclo da PNAB dentro da pandemia, mas eu estava no início do curso, então foi zero aproveitado por mim. Mas aí quando eu estava fazendo meu TCC, tivemos esse edital emergencial e eu consegui, por exemplo, produzir o meu trabalho de conclusão de curso com financiamento público. Era uma realidade muito irreal para o estado até aquele momento, então tem um quê de sorte que eu não posso negar, a sorte de estar no momento certo e ter a possibilidade de usufruir disso. Este ano eu estou trabalhando paralelamente num projeto em Recife junto com outras pessoas, que eventualmente deve ser o meu primeiro longa. E é muito doido você perceber o pensamento e a noção da própria produção artística das pessoas lá, porque existe uma autoestima gigantesca no indivíduo pernambucano quanto ao que ele produz, principalmente pensando arte, pensando cinema, e agora mais do que nunca. E aí eu sempre falo que aqui em Sergipe a gente tem um completo oposto disso. Parece que existe uma falta de autoestima inacreditável em tudo que a gente produz, e parece que tudo que acontece aqui não dá fruto por pura e exclusivamente culpa nossa. Só que não é o caso, eu acho que a gente está vendo agora, seja comigo, seja com outros projetos, outras produtoras, gente que vem conseguindo colher frutos, ir para outros lugares e ter acesso, inclusive em caráter nacional, que dá certo, porque a gente está tendo minimamente um investimento público para isso. Projetos feitos a partir do PNAB, da Aldir Blanc, da Paulo Gustavo, que estão conseguindo ter mais destaque, porque eles são os primeiros projetos que estão sendo feitos de alguma forma minimamente ideal. Onde você tem tempo para pensar a produção, tem tempo para poder pensar o produto. É muito difícil que você faça um filme sem recurso nenhum, na cara e na coragem, no improviso, e consiga realmente implementar nele tudo o que quer sem ter uma condição minimamente ideal, porque você vai estar geralmente trabalhando num lugar de desgaste físico e mental muito grande, por estar precisando fazer outras coisas para além do projeto. Você vai precisar o tempo todo negociar suas vontades quando não tem recurso para bancar o que queira fazer. Tem filmes incríveis que são feitos com zero de recurso, claro, mas você tem que ter minimamente um acesso à possibilidade de pensar o cinema. E eu acho que essa é a grande questão muito sequestrada da gente, a plena possibilidade do querer fazer assim. Você está o tempo todo num lugar de negociação consigo mesmo, do tipo: “eu estou aqui, estou fazendo um curso, uma graduação na universidade de cinema, mas eu não sei se eu vou conseguir trabalhar com cinema quando terminar essa graduação”. E era um questionamento meu, eu achava que talvez conseguiria trabalhar com audiovisual, mas também não tinha a certeza. Se eu conseguisse, seria muito difícil que trabalhasse com cinema, porque não existe uma indústria de cinema aqui tão potente. A gente não tem projetos acontecendo ao longo do ano, projetos múltiplos que deem conta de todo mundo que trabalha na cadeia produtiva do cinema do estado. Então, você está eventualmente passando por momentos e processos de dúvida e de necessidade de escolha. E aí quando você pensa numa pessoa que está num lugar de urgência, principalmente financeira, é muito difícil que aquela pessoa pare e decida: "Eu vou apostar nisso aqui, eu vou aceitar, passar por um momento muito mais delicado e de recusa". E eu estou falando tudo isso para dizer que é muito bom ver que a gente está conseguindo driblar esse cenário finalmente e está conseguindo entrar numa nova realidade. A gente tem mostras desse cinema acontecendo ao longo do ano, temos a EGBÉ, por exemplo, com o mercado de cinema que acontece dentro do nosso estado. A gente tem finalmente uma produção numa escala maior de longas metragens, que é outra coisa que a gente não tinha acessado até então e que vai fazer muita diferença para fortificar o nome de Sergipe enquanto uma potência criadora do cinema do país. E eu espero que com as coisas acontecendo como estão acontecendo e com os resultados chegando, a gente consiga ter pelo menos uma manutenção do que já existe enquanto recurso público para a partir disso começar a pensar no que realmente precisa acontecer. Por exemplo, começar a pensar na cinemateca, pensar cursos de cinema para além da UFS; enfim, começar a construir realmente uma cadeia de produção e de formação de pessoas. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos aos nossos entrevistados que indiquem filmes brasileiros que nosso público deva assistir. Pode ser um favorito da sua vida, um que assistiu recentemente e gostou, ou que conversa com as suas obras. Quais seriam as suas indicações? Fellipe Paixão: Eu acho que eu vou primeiro chover um pouco no molhado e falar de um cinema sergipano que é referência máxima para mim: Caixa D’Água: Qui-Lombo é Esse?, da Everlane Moraes. Na verdade, toda a cinematografia da Everlane é obrigatória. Vou indicar também o Fantasmas do André Novais, A Vizinhança do Tigre, do Affonso Uchôa. Marte Um, do Gabriel Martins, é um filme de valor sentimental muito grande para mim. E para falar de filmes mais antigos, indico Rio Zona Norte, sou apaixonado por esse filme.

  • Entrevista | “Brasil 70: A Saga do Tri”: Hugo Haddad fala sobre viver Félix e os bastidores da seleção que marcou a história do futebol brasileiro

    Ator interpreta o goleiro da campanha do tricampeonato mundial na nova série da Netflix e fala sobre preparação física, pesquisa histórica e o lado humano por trás de uma das equipes mais icônicas do esporte. Imagem: Divulgação Lançada nesta quinta-feira (29), na Netflix, Brasil 70: A Saga do Tri revisita os bastidores da campanha que levou a Seleção Brasileira ao tricampeonato mundial no México. Mais do que reconstituir partidas históricas, a produção acompanha os conflitos, desafios e relações humanas de um grupo de jovens que entraria para a história do esporte. Entre eles está Félix, goleiro titular da equipe campeã. Interpretado por Hugo Haddad, o personagem ganha destaque em uma narrativa que busca apresentar ao público figuras que muitas vezes ficaram à sombra de nomes como Pelé, Jairzinho e Rivellino. Em conversa com o Oxente Pipoca, o ator falou sobre a responsabilidade de interpretar uma pessoa real, a intensa preparação física exigida pela produção, o contexto histórico retratado pela série e como sua trajetória como diretor e documentarista influencia sua atuação. Confira a entrevista completa abaixo: Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu sou Gabi, pode me chamar de Gabi também. Faço parte do Oxente Pipoca, estou falando aqui de Sergipe. A maioria da nossa equipe é daqui do Nordeste. É um prazer falar com você. Quando eu estava lendo sobre a série, pensei em como esse é um tema que mesmo quem não gosta de futebol conhece de alguma forma. Aquela seleção está no imaginário coletivo. Imagino que, quando recebeu o papel, tenha sentido o peso da responsabilidade. Como foi isso? Hugo Haddad: É uma seleção muito emblemática e a gente conhece algumas lendas dessa seleção. Então a gente conhece o Pelé, o Rivellino, o Jairzinho. E a parte mais legal, pessoalmente, foi conhecer o Félix, porque honestamente eu não sabia quem era o goleiro dessa seleção icônica. E acho que isso faz parte também da forma como o Félix foi tratado antes, durante e depois da Copa. Eu achei muito interessante como eles retrataram os jogadores por um lado humano e como eu pude conhecer o goleiro dessa seleção através da série. E outros personagens também. Eu não conhecia o Saldanha, que foi o primeiro treinador daquela seleção e depois foi trocado pelo Zagallo. Eu não sabia que o Parreira já estava naquela comissão técnica, muito antes de conquistar o tetra. Então tem várias pessoas dessa seleção icônica que eu realmente não conhecia e o Félix era uma delas. Fiquei muito feliz de poder conhecê-lo e entender a história dele. Tem um lado muito humano em todos os jogadores apresentados. O Félix tem família na série, tem filha, tem esposa. Mostra um outro lado desses jovens, porque eram jovens que estavam competindo e ficavam meses longe de casa. Então acho que vai ser uma boa oportunidade para a gente conhecer outros personagens dessa seleção tão icônica. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu imagino que também tenha sido diferente de outros papéis por ser baseado em uma pessoa que realmente existiu. Como você lidou com isso? Foi atrás de pesquisa ou preferiu construir o personagem mais a partir do roteiro? Hugo Haddad: Eu pesquisei bastante sobre o Félix e não consegui encontrar muitos materiais dele daquela época. Eu encontrei entrevistas, encontrei documentários, mas quase tudo quando ele já era um senhor de idade. Então tive que criar uma versão do Félix a partir de tudo o que eu li e estudei. O sotaque dele, por exemplo, foi uma dessas questões. Ele era paulistano, morava no Rio de Janeiro e eu sou mineiro. Então fiquei pensando como era o sotaque dele naquela época. Outra coisa que fui descobrindo é que ele era um cara muito amado pelos outros jogadores. Todo mundo gostava dele. Isso já vai mostrando um caminho de construção do personagem. Eu encontrei uma entrevista de um ex-treinador do Fluminense que dizia que queria o Félix no time não apenas por ser um ótimo goleiro, mas porque ele organizava toda a defesa. Enquanto o capitão estava comandando do meio para frente, o Félix comandava lá atrás. Isso também me dava pistas da personalidade dele. Então ele não era um cara inseguro com a equipe. A equipe confiava nele. Era um cara muito querido, muito amoroso com a família. Tem muitas entrevistas das filhas, da esposa dele, e a gente vai juntando essas peças. O trabalho do ator também é esse. Você pega uma pessoa real e traz camadas do seu conhecimento artístico para transmitir os sentimentos daquele momento. E teve uma outra questão. A gente fez uma série de ação. Futebol é muita ação. Então além de entender como o Félix falava, como ele se portava, a minha postura mudou muito enquanto eu fazia o personagem. Eu também precisava aprender a fazer aquelas defesas incríveis que ele fazia. A gente tinha dublês, mas conseguiu gravar praticamente tudo sem precisar deles. Então teve essa camada também. Além de tudo, eu precisava pegar essa característica de goleiro mesmo. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): É uma preparação física também, né? Hugo Haddad: Sim. Eu estava muito mais forte antes da série. Quando fiz os testes, me perguntaram se eu toparia emagrecer e eu aceitei. Teve uma preparação diária. Ficamos dois meses treinando em campo de futebol de verdade, com treinadores de verdade, ensaiando cada jogada e tendo uma rotina parecida com a de uma concentração de seleção mesmo. Pensa: dois meses acordando todos os dias às 4h30 da manhã para ir a um estádio que ficava a uma hora de onde a gente estava hospedado. Outra coisa muito legal é que todos os jogadores ficaram no mesmo prédio. Cada um tinha seu apartamento, mas existia essa sensação de concentração. Quando alguém tinha dúvida sobre alguma coisa, a gente recorria aos jogadores profissionais que estavam ali com a gente. E quando dava vontade de descansar, a gente se inspirava neles, porque eles treinam faça chuva ou faça sol. Foi uma preparação física e mental muito intensa. Depois desses dois meses, realmente parecia que a gente estava defendendo uma seleção. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu sou uma grande fã de futebol e acho muito interessante como a série pode apresentar essa história para novas gerações. Muita gente conhece um ou dois nomes daquela seleção, mas não sabe exatamente como tudo aconteceu. Hugo Haddad: Sim. A gente cristalizou um momento histórico do nosso país. O tricampeonato foi o que tornou o Brasil a maior seleção de todos os tempos até então. Não existia nenhuma seleção que tivesse conquistado três Copas do Mundo. E isso também ajudou a transformar o Pelé nesse ícone global que ele se tornou. Mas existe uma coisa muito interessante. Hoje a gente olha para a seleção de 70 e vê expressões como "a maior seleção da história", "a seleção do século", "o time imbatível". Quando assistimos à série, percebemos que eles eram humanos. Eram jovens. Tinham conflitos muito parecidos com os que a gente vê em outras gerações da seleção. Em 1970, a seleção era desacreditada. As pessoas não acreditavam mais no Pelé. Achavam que ele já deveria se aposentar. Hoje é impossível imaginar isso. Além disso, os jovens vão ter a oportunidade de conhecer uma parte importante da nossa história que vai além do campo. Enquanto a seleção estava concentrada no México, o Brasil vivia a ditadura militar. Isso influenciava tudo ao redor deles. A série mostra essa relação, como o regime tentava usar a seleção para reforçar um patriotismo naquele momento e como os jogadores também estavam isolados dessa realidade. Eles queriam trazer a taça para o povo brasileiro. A ditadura passou. A taça ficou. E é isso que a gente carrega até hoje. Também fico querendo que os jogadores atuais assistam à série, porque eles vão se identificar. Tem jogador desacreditado, jogador machucado, mudanças no time, pressão da torcida. São situações que continuam existindo no futebol. Imagem: Divulgação Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu estava olhando sua trajetória e vi que ela passa muito pela direção também. Como essas experiências influenciam seu olhar como ator? Hugo Haddad: Esse é um ponto interessante. É muito mais comum um ator começar a dirigir do que um diretor começar a atuar. Eu já tinha uma carreira consolidada na direção. Dirigi documentários, dirigi longas-metragens e trabalhei dez anos como editor. Na edição você vive dois mundos ao mesmo tempo. Você escolhe os melhores takes, observa atuação, direção, ritmo. Depois, quando fui dirigir documentários, comecei a lidar com pessoas muito diferentes umas das outras. E isso me ensinou muito sobre comportamento humano. Hoje, como ator, eu uso tudo isso como uma caixa de ferramentas. Às vezes percebo que estou usando uma palavra, um gesto ou um jeito de falar que aprendi observando alguém anos atrás. Você passa a prestar atenção em como as pessoas andam, respiram, se sentam. O Félix tinha uma postura um pouco mais curvada do que a minha. Tinha um olhar mais fechado. Tudo isso foi entrando na construção do personagem. A direção também me ajudou porque eu entendia o funcionamento do set. Eu sabia onde a câmera estava, qual lente estava sendo usada, o que me permitia focar mais na atuação e na escuta do diretor. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Depois de toda essa experiência, qual é a principal coisa que você leva da série? Hugo Haddad: Eu aprendi muitas coisas durante essa produção. Eu não sou formado em uma faculdade de artes dramáticas e considero que esse projeto foi uma faculdade intensiva para mim. Aprendi muito com os outros atores. Quando alguém tinha dúvida sobre uma cena, uma fala ou um personagem, a gente se ligava, se encontrava e ensaiava junto. Também aprendi que o ator precisa desenvolver uma certa autoria sobre o personagem. Você precisa entender o roteiro, entender o que os roteiristas escreveram e pensar como aquilo vai ganhar vida através de você. Aprendi também que a escuta ativa talvez seja a maior habilidade que um ator pode desenvolver. Mas o que eu vou levar para a vida são os amigos que fiz. Essa seleção se amou, se odiou, brigou, comemorou. Quando assisti à série, fiquei muito emocionado. E percebi que me emocionei mais vendo meus amigos atuando do que vendo a mim mesmo. Saber que esse trabalho pode mudar a vida de muitos deles me deixou muito feliz. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca) Para encerrar, eu sempre faço a mesma pergunta para todos os entrevistados. Queria uma dica de filme ou série brasileira para o nosso público. Hugo Haddad: Como um bom mineiro, minha dica vai ser um filme mineiro. Eu recomendo No Coração do Mundo. É um dos meus filmes favoritos. A Kelly Crifer, que é a protagonista, foi minha professora e é uma amiga muito querida. Aprendi muito com ela. É um filme da Filmes de Plástico e considero indispensável para quem gosta de cinema nacional. O mais interessante é que eles fizeram primeiro um curta-metragem e depois transformaram a história em um longa. Então assistam aos dois para perceber também as diferenças entre eles. Essa é a minha dica de hoje.

  • Crítica | Hacks (5ª temporada)

    Último ano da série coroa a sua consistência como a melhor comédia da década. Divulgação Quando nos lembramos do seu início, Hacks parecia uma série modesta: a história de uma comediante de stand-up no crepúsculo da carreira e da vida que encontra sua alma gêmea numa jovem e imatura roteirista de comédia. Certamente tinha tudo para ser uma ótima série, mas a melhor do gênero na década e uma das melhores de todos os tempos? Que nos deixa um vazio imensurável agora que chegou ao fim, depois de cinco temporadas irrepreensíveis? Não era algo que ninguém, nem os envolvidos na série, poderiam prever. Mas foi isso que acompanhamos desde a exibição da primeira temporada lá em 2021. As trajetórias de Deborah Vance (Jean Smart) e Ava Daniels (Hannah Einbinder) foram construindo um público fiel e cativo, além de uma aclamação crítica que se reflete nos quatro Emmys consecutivos que Smart ganhou (e tudo se encaminha para que o feito se repita neste ano). Caso nos perguntemos o que exatamente fez a série apresentar tamanha consistência, a resposta pode ser resumida em uma só: fidelidade. Esta foi uma série fiel aos seus personagens e, sobretudo, ao seu humor. Em tempos em que vemos as categorias de comédia serem invadidas por comédias dramáticas ou dramas cômicos – não preciso citar nenhuma, eu sei que você pensou em umas aí –, ver uma série desavergonhadamente engraçada conquistar seu próprio espaço é um alívio. E isso não significa que Hacks não seja desprovida de momentos dramáticos. Nesta temporada final, que dentre outras coisas, faz um balanço do legado dos personagens, mas também da própria série, estes momentos estão presentes (sobretudo no episódio final), mas o time de roteiristas capitaneado pelos showrunners Lucia Aniello, Paul W. Downs e Jen Statsky nunca deixa a peteca cair, confiando de que o público apreciará a linha tênue entre o humor e o drama, sem nunca nos deixar esquecer que o primeiro prevalecerá. Claro, ajuda muito ter o timing afiadíssimo do seu elenco, que entre suas protagonistas, coadjuvantes e convidados com certeza será um dos mais inesquecíveis da televisão. Este último ano dá mais espaço para alguns personagens pouco trabalhados nas temporadas anteriores, como Marcus (Carl Clemons-Hopkins), ao passo em que a lista de convidados (e principalmente de convidadas) segue indefectível: entre Ann Dowd como uma atriz pintada de alienígena azul, Cherry Jones e Leslie Bibb como um casal lésbico que “força” Deborah e Ava a um fake dating no sétimo episódio (talvez o mais engraçado da série inteira) e Kaitlin Olson e Lauren Weedman roubando a cena como sempre nos papéis de DJ e da prefeita de Las Vegas, é difícil escolher minha participação especial favorita da temporada. Divulgação Seria injusto falar do elenco e não citar nominalmente Jimmy (Paul W. Downs) e Kayla (Megan Stalter), que de personagens secundários e pontuais – e no caso de Kayla, um tanto irritantes – lá no começo da série, foram ganhando mais espaço a partir da terceira temporada e cravando seu espaço para se firmarem como verdadeiros coprotagonistas. A sintonia das duas e os talentos cômicos de Downs e Stalter foram sendo refinados para serem convertidos em verdadeiras joias por si só, e a química dos personagens se converteu na arma secreta da série, ganhando um merecido reconhecimento por parte do público e da crítica. Ainda que tenha alguns problemas com a maneira como o arco deles é encerrado no episódio final (mais pelo tempo que tomam nesse episódio e a rapidez com que tudo se resolve), eu não reclamaria nem um pouco de ver um spin-off centrado neles. Mas é claro, Hacks é sobre Deborah Vance e Ava Daniels. O que vai ser do mundo sem estas duas personagens? Sem a química inebriante de Jean e Hannah, que construíram uma sintonia mágica, de duas mulheres de gerações e visões de mundo tão diferentes e que se encontraram – e que, neste percurso, nos encontraram? Algumas das melhores histórias de amor do audiovisual não são exatamente histórias de amor romântico: Don e Peggy em Mad Men, Cameron e Donna em Halt and Catch Fire, para citar algumas. É um amor que transcende definições, e basta uma troca de olhares entre as duas personagens para que este amor seja expresso em toda a sua potência e sua beleza. Diferente dos anos anteriores (sobretudo do último), onde a graça da relação de Deborah e Ava nascia das suas fricções e conflitos, aqui a série aposta muito mais no alinhamento dessas duas mulheres, na compreensão mútua e na conexão que existe entre elas. E é por isso que o último episódio, mesmo não sem suas falhas – sobretudo por centralizar-se numa questão dramática que foi inserida tardiamente na temporada e por isso acaba sendo trabalhada de maneira um tanto apressada – certamente emergirá como um dos melhores finais de todos os tempos em listas futuras por aí justamente porque entende e se concentra naquilo que a tornou tão especial, que foi a jornada desta dupla icônica. Assim, a última temporada de Hacks pode até não ser sua melhor, mas onde ela se encaixa nos rankings é muito mais uma questão de gosto, porque cada temporada por si só possui seus próprios méritos para figurar como a melhor ou favorita. Quantas séries podem se gabar de uma trajetória tão sólida e irrepreensível? Portanto, o gosto é agridoce por causa da saudade, mas as melhores coisas da nossa vida nos deixam esse gostinho. Que bom ver uma trajetória dessas sendo encerrada no auge, com a sensação de que ao longo destes cinco anos vimos história sendo feita na TV. Nota: 5/5

  • Entrevista | “Por que não ser também rebelde na gramática cinematográfica?”: Marcelo Gomes fala sobre “Dolores”

    Diretor falou ao Oxente Pipoca sobre o processo de trazer o roteiro de Chico Teixeira às telas ao lado de Maria Clara Escobar. Divulgação Dando continuidade às entrevistas com a equipe e elenco de Dolores, o Oxente Pipoca teve a oportunidade de conversar com Marcelo Gomes, codiretor do filme junto com Maria Clara Escobar. Ambos assinam o roteiro, escrito originalmente pelo diretor Chico Teixeira, falecido em 2019, e conclui a sua “Trilogia dos Afetos”, também composta pelos longas A Casa de Alice (2007) e Ausência (2014). O filme, que estreia na próxima quinta-feira (04), acompanha sua personagem-título (Carla Ribas), a qual lida com o vício em jogos de azar; a filha Deborah (Naruna Costa), que aguarda a saída do companheiro da prisão; e a neta Duda (Ariane Aparecida), que alimenta o sonho de ir para os EUA. O Oxente Pipoca entrevistou as três atrizes e você pode conferir aqui. Nesta entrevista, Marcelo Gomes falou sobre como conciliar a visão original de Teixeira para o filme com a sua identidade autoral e a de Maria Clara Escobar. O diretor também discutiu sobre como conciliaram os arcos individuais das protagonistas com suas dinâmicas coletivas, bem como as questões raciais que emergem do filme. Confira a entrevista abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme adapta um roteiro escrito por Chico Teixeira antes de sua morte. O que te motivou a trabalhar nesse roteiro? Em que medida você sente que honraram o trabalho e o espírito de Chico ao mesmo tempo em que imprimiam suas identidades autorais ao filme? Marcelo Gomes: Eu trabalhei no primeiro filme de Chiquinho [Chico Teixeira], que foi A Casa de Alice, e eu acho que tem elementos no cinema dele que têm muito a ver com o meu cinema e o da Maria Clara. Primeiro, é um cinema de personagens. E segundo, não são personagens perfeitos, são personagens contraditórios; existem deficiências emocionais, sociais e financeiras dentro desses afetos que eles sentem. Então, o Chiquinho começou a trabalhar comigo e para ele interessava dois elementos. Primeiro, esse universo fora das prisões, esse mundo de solidariedade feminina que existia fora das prisões entre as mulheres, e onde existe até um acordo tácito de solidariedade. E outro elemento que ele queria pesquisar era a questão dos bingos clandestinos. Bom, aí o Chico partiu, mas antes de partir me deu essa missão e disse: "Marcelo, você tem que deixar Dolores ganhar vida". Mas os anos se passaram, então quando a gente pega esse material tem que primeiro construir várias camadas dessas personagens, entender quem são elas e se apropriar delas. Então gente imaginou que essas personagens são originárias de Brasis diferentes: Dolores é o Brasil da redemocratização, que ela viu surgir; Deborah é esse país das políticas sociais mais profundas; e Duda vem dessa geração que vê o neoliberalismo forte crescendo, essa americanização da sociedade, esse belicismo. Então, esse eu acho que foram os três elementos que a gente trouxe para dar mais uma camada no universo do Chiquinho. E outra coisa que eu acho que foi fundamental para a gente se apropriar da história e dos personagens, e construir esse roteiro a seis mãos, é que a Dolores sonha. E a gente achava que esse sonho, premonição ou visão que ela tem devia ser muito importante, e não só ela, as outras deveriam ter sonhos, sonhos, projetos de vida. Maria Clara fez um filme onde a personagem sonha muito, é um documentário onde ela se apropria de coisas dos sonhos ficcionais para ajudarem ela na vida real. Eu tinha acabado de fazer um filme chamado Criaturas da Mente, em que a gente fala de sonho e inconsciente. Então a gente pensou que isso é muito importante trazer essa camada do sonho para o filme, até para a gente entender a dor, entender esse inconsciente e abraçar esse desejo. Outra coisa é que tanto eu e Maria Clara queríamos fazer um filme numa região da classe média baixa, na cidade de São Paulo. Eu nunca fiz um longa de ficção em São Paulo, mesmo tendo morado muito tempo na cidade, e a Maria Clara também não. A gente queria fazer uma classe média que fosse brilhante, fosse colorida, nada de coisa soturna ou sombria. E eram mulheres que vivem a vida ali. A vida tá ok, a casa delas é ok, não tem problema nenhum, mas elas querem uma vida melhor. A gente queria discutir, refletir sobre a vida com personagens que atuem no mundo. E aí tem a ver com meu cinema, com o cinema de Maria Clara, tem a ver com minha Paloma [do filme homônimo], com minha Verônica [de Era Uma Vez Eu, Verônica]. Então foi tudo isso que fez com que a gente se apropriasse do projeto de Chiquinho, construísse um projeto que também fosse nosso, e o roteiro se transformou num roteiro de seis mãos. Divulgação Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme lida com essas três protagonistas femininas ligadas pelo sangue, mas que lidam com dramas muito próprios e particulares. Em que medida vocês buscaram equilibrar a abordagem individual dos arcos dela com este elemento de coletividade que permeia as três? Marcelo Gomes: Era muito importante que elas não fossem uma massa de personagens, todas iguais. Então a gente tem a questão de idades, de gerações, de caminhos. Dolores busca construir seu próprio caminho, que é meio contraditório e faz ela errar; Deborah tem esse lado mais romântico, de querer constituir uma família; e Duda vai em busca do seu desejo, confiando muito no projeto profissional. Então, isso foi feito primeiro, diferenciar os sonhos, o inconsciente e o universo delas. Até diferenciar elas em termos de universos sonoros. Toda sonoridade da casa da Débora é uma sonoridade, a da casa da Dolores é outra, a sonoridade do Clube de Tiro é outra. Então todas essas personagens estão envolvidas numa sonoridade que dá universos diferentes e musicalidades diferentes. A música de Dolores é “felicidade não existe, o que existe na vida são uns momentos felizes”, então ela tá por tudo ou nada. A Débora escuta músicas românticas, ele tem um desejo de construir uma família, e a Duda tá naquele hip-hop, ela sobe naquela naquele teto como se ela quisesse voar, expandir os horizontes. E como ela é a personagem de maior ação no filme, é ela quem vai juntar todas elas no final para uma possibilidade de sonho coletivo. Os Yanomamis fizeram muito a cabeça da gente, tínhamos lido muito eles para fazermos nossos filmes anteriores, e eles dizem que sonho e realidade são a mesma coisa. E é isso que a gente quis fazer no filme, em termos de narrativa e de visualidade. Porque no cinema clássico a pessoa dorme, a imagem fica blur, e você vê o sonho dela. E por que a gente tem que seguir essa norma? Por que não ser também rebelde na gramática cinematográfica, como as personagens são rebeldes nesse desejo de se aventurar? Então, a gente construiu pouco a pouco uma visualidade onde começa o filme num sonho, mas também pode ser Dolores que tá entrando no grande palco, e de repente ela tá lá de olhos abertos, olhando pra gente e dizendo: "Eu tenho premonições, eu tenho visualizações e essas visualizações fazem parte da minha vida". E a partir daí é o momento zero, onde tudo vai se confundindo, tudo vai se misturando, o glitter entra no dia-a-dia do bairro dela, o bairro dela entra nos sonhos. Personagens se confundem, roupas perdem a sua continuidade, e no final as pessoas me perguntam se é sonho ou realidade, mas não importa. Importa que eu entrei nesse barato de aventura dela, era isso que a gente queria. Divulgação Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Na minha entrevista com Carla, Naruna e Ariane conversamos sobre como as questões raciais das personagens, mesmo não estando explícitas no filme, se fazem muito presentes e revelam muito das dinâmicas raciais do Brasil. Foi intencional da parte de vocês trazerem esse contexto de uma avó branca, uma mãe negra e uma neta parda? Como você sente que estas questões raciais permeiam as personagens e o filme? Marcelo Gomes: Maria Clara fez o casting para os meus três últimos filmes, e antes de qualquer coisa a gente queria homenagear o Chico no casting. Então colocamos a Carla Ribas, que fez o primeiro filme dele [A Casa de Alice], e a Gilda Nomacce, que fez o segundo filme dele [Ausência], e também o Matheus Rodrigues, que faz o Roger. Então a gente queria presentear o cinema do Chico, que ele estivesse fisicamente presente. Depois a gente fez um processo de casting sem pensar nada em um biotipo, vimos várias atrizes de 20 a 22 anos, convidamos para fazer o teste, e a mesma coisa para a personagem da Débora. Quando a gente foi ver os testes que a gente mais gostava, pensamos: "Por que não a Naruna, uma atriz maravilhosa e com quem a gente quer trabalhar?”. Por que ela não pode ser filha da Dolores, se na nossa vida real, nessa nossa miscigenação brasileira louca que existe, a gente vê situações como essa? E por que não a Duda ser também? Como a gente não vê o marido da Dolores e o pai biológico da Duda, isso é completamente possível. Então o talento das atrizes inicialmente fez a gente trazer isso, E a gente viu que não tinha nenhuma complexidade em termos narrativos, porque isso faz parte da nossa formação étnica brasileira. E a partir daí, lógico que a gente coloca isso dentro da narrativa. Por exemplo, tem um foco numa foto do Geraldo, marido da Dolores, que parece com a Débora. E pouco a pouco a gente foi trabalhando isso, e não precisa de explicações. Para quê explicar isso, se isso é dito dentro da nossa sociedade brasileira? E por que não pode ser também dito dentro da ficção? Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos aos nossos entrevistados que indiquem filmes brasileiros que achem que o público deva assistir. Quais seriam suas indicações? Marcelo Gomes: Eu acho que nossos filmes precisam sempre de público. A gente tem muitos lançamentos e pouco dinheiro para divulgar, é muito difícil concorrer com cinema hegemônico. Então, eu queria indicar um filme que tá em cartaz, o Mambembe do Fábio Meira. Assistam ele. É um filme muito bacana, muito bonito e também brinca com ficção e realidade, realidade e ficção, e também esse sonho dessas pessoas que trabalham com o circo.

  • Entrevista | “As mulheres desse filme têm essa complexidade e se contradizem o tempo todo”: Carla Ribas, Naruna Costa e Ariane Aparecida falam sobre “Dolores”

    Longa codirigido por Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar a partir de roteiro de Chico Teixeira chega aos cinemas no dia 04 de junho. Divulgação Estreia na quinta que vem (04) o longa-metragem Dolores, de Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar. O filme, que foi exibido em festivais como a Mostra de SP, a Mostra de Cinema de Tiradentes e o Festival do Rio, acompanha sua personagem-título (Carla Ribas), a qual lida com o vício em jogos de azar; a filha Deborah (Naruna Costa), que aguarda a saída do companheiro da prisão; e a neta Duda (Ariane Aparecida), que alimenta o sonho de ir para os EUA. A obra parte de um roteiro deixado pelo cineasta Chico Teixeira, falecido em 2019, e conclui a sua “Trilogia dos Afetos”, também composta pelos longas A Casa de Alice (2007) e Ausência (2014). O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar as três atrizes principais, que falaram a respeito dos arcos individuais de suas personagens dentro do filme, as contradições e ambiguidades que emergem em tela e evidenciam a humanidade dessas mulheres, e as dinâmicas raciais presentes em suas relações e que ilustram questões sensíveis ainda presentes no Brasil contemporâneo. Confira a entrevista abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Carla, sua personagem sofre com o vício em jogos, mas me parece que o filme busca não julgá-la, mas sim humanizá-la. Como foi esse processo de encontrar e conferir humanidade à personagem, seja nos gestos, na voz ou em outras ferramentas que você enquanto atriz tem à disposição? Carla Ribas: Eu sempre tenho uma certa dificuldade de falar de construção, porque me sinto muito vivendo situações de verdade enquanto personagem, com as outras personagens. Então, acho que no caso de Dolores, o sofrimento com o vício do jogo esteve um pouco no passado, no meu entendimento. E eu acho que no presente, ela já achando que está livre desse vício ou não, aposta no sonho. O sonho é mais importante que qualquer coisa. E aí a relação dela com a filha, a personagem da Naruna, é uma relação mais de dor, porque tem um distanciamento ali, aonde Dolores tenta manter uma certa segurança e uma certa pose, mas é uma relação quebrada e que desconcerta ela. Eu acho que isso também traz a humanidade. Como lidar com isso? E com a neta que ela gosta, que é o lado afetivo dela enquanto família, também há a mesma coisa, entendeu. Ela admira essa neta por estar indo atrás do sonho dela, por mais louco que pareça. Então, eu acho que um bom roteiro, e se você se coloca naquela situação e vive de verdade essas relações, o conjunto dá isso que se chama de humanidade. Mas eu te confesso que não é uma coisa que eu busco que ou que eu construa. Acho que acontece naturalmente pela qualidade do roteiro e pela presença. Isso vaza em algum lugar num olhar ou num gestual, como você falou, e aí essa ambiguidade na relação com a filha e com a neta, essas ambiguidades na presença do ator em cena em cada momento, eu acho que trazem essa humanidade que você nomeia, mas te juro que não é uma coisa que eu tente construir. Eu simplesmente tento viver as situações com a complexidade interna, porque a câmera tem uma coisa muito legal, ela pega se você está dizendo uma frase feliz, mas seu olhar está triste. Isso traz é uma verdade que eu acho que imprime humanidade aí. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Naruna, a sua personagem e a Marlene (Gilda Nomacce) refletem uma população ainda muito invisibilizada, que são as companheiras de detentos. Logo no início do filme a personagem sofre com a ausência do companheiro a quem ela estava se dedicando tanto. Houve algum processo específico para encontrar o tom de Deborah? Por exemplo, conhecer mais do cotidiano dessas mulheres e das relações delas com estes companheiros presos? Naruna Costa: Eu acho que você trouxe uma coisa muito interessante de cara, falando inclusive da personagem da Carla, que é o não julgamento. Eu acho que o contexto que elas vivem tem um lugar não de não moralizar as decisões. E eu cresci na periferia de São Paulo, acho que esse é um ambiente onde a gente de alguma maneira se relaciona com pessoas que trazem esse cotidiano do universo carcerário de alguma forma. Conheço pessoas que já foram presas, pessoas que já foram mulheres de pessoas que estão presas, acho que é um universo que faz parte da comunidade periférica paulistana e acredito que brasileira. E como eu cresci na periferia e convivo, tem uma relação muito aprofundada com a minha quebrada, então acho que essas referências já existem. O que eu tentei trazer como uma perspectiva esse outro lugar, o lugar do romântico mesmo. Acho que naturalmente as mulheres vão se endurecendo, vão criando uma carcaça muito dura. E é interessante que a Deborah não perde a maciez, a sutileza, o olhar generoso para a vida, mesmo depois do abandono, que é muito comum e que é infelizmente naturalizado. Não só o abandono paterno, como a violência também destinada a essas mulheres. Então, é algo que infelizmente na nossa sociedade é muito naturalizado. Acho que a Deborah ela tem algo brilhante, ela não perde esse brilho, essa vontade de buscar um outro sonho, mesmo sofrendo profundamente. E aí a construção foi muito conectada com o caminho que a direção me propôs. A Maria Clara [Escobar] é uma diretora que tem na cabeça as personagens, ela contribuiu com o roteiro, então ela tinha uma Deborah na cabeça dela. Eu acho que de alguma maneira a história da Maria Clara também se espelha um pouco na história da Deborah na relação com a mãe. Então, acho que ela já tinha uma ideia muito mastigada de uma personagem. Aí eu fiz o exercício de ouvir pela primeira vez, um caminho de construção que era de entregar menos e receber mais. De me esvaziar e tentar ouvir o que era o desenho daquela mulher que aquela diretora estava tentando me mostrar, e aí abraçar ele. O processo todo, tanto no preparatório quanto durante as filmagens, foi de me encaixar nesse espectro de Deborah que era do imaginário da Maria Clara e tentar conectar as minhas próprias experiências enquanto uma mulher negra, enquanto uma mulher que nasceu na periferia e que conhece muitas mulheres que viveram experiências parecidas, e trazer as minhas informações. Mas elas em nenhum momento foram estiveram à frente da personagem; andaram caminhando ou ali de alguma maneira preenchendo os vazios. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Ariane, sua personagem tem um arco muito interessante no sentido em que vemos esta menina muito confortável com sua sexualidade, mas com sonhos que aludem àquela visão conservadora de que os EUA são a “terra da prosperidade”, além de toda a questão ligada ao fascínio com armas. Como foi balancear esses aspectos aparentemente tão contraditórios da personagem? Como você sente que ela reflete uma certa mentalidade presente em nossa sociedade? Ariane Aparecida: Eu acho que, não só a Duda, mas todas as mulheres desse filme têm essa complexidade e se contradizem o tempo todo. A Deborah é uma mulher extremamente apaixonada, mas que ao mesmo tempo é correria, vai para rua, faz as coisas dela. Ou até mesmo a Dolores, que tem 65 anos e é extremamente livre. Então eu acho que a Duda também está dentro desse universo de complexidades que o roteiro explora muito bem, no sentido de não tentar um estereótipo que a gente está esperando ver dentro da tela, de construir uma coisa e quebrar essa coisa ao mesmo tempo, porque as pessoas são complexas. A Duda nunca estudou sociologia para descobrir que ela não pode ser bissexual e ao mesmo tempo gostar de arma [risos]. São coisas que acho que quando a gente tem um pouco mais de consciência, já atrela uma coisa como oposta à outra. E eu, por exemplo, conheço muitas pessoas, assim, da minha vivência que se contradizem o tempo todo em questões sociais. Tanto que quando eu fui fazer uma playlist de músicas para Duda, eu coloquei tanto os raps mais bolados quanto sertanejo tipo Victor e Leo [risos], porque eu acho que a Duda é essa pessoa que transita, que existe por ela ser quem ela é e não porque está tentando performar alguma uma coisa. Ela está existindo: “Gosto de armas, gosto de homens, gosto de mulheres, gosto de ser filha da minha mãe, gosto de andar de moto com minha avó e é isso”. Ela não pensa muito, ela é uma personagem que age e eu acho isso incrível. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, minha última pergunta é para vocês três. Um elemento que aparece ao longo do filme na relação entre estas três gerações de mulheres é justamente a questão racial, perceptível no fato de termos uma avó branca, uma filha negra e uma neta parda. Em tempos onde vemos tantas discussões em torno de negritude e parditude, de racismo, de olhar para a história do país e das suas relações raciais, como vocês acham que as relações entre as personagens podem mostrar algo dessas dinâmicas no Brasil? Naruna Costa: Eu acho muito interessante essa diversidade racial que o filme traz, porque se tem uma coisa que estrutura o filme é a diversidade: de idades, de gerações. Então a gente tem um aprofundamento das histórias, das memórias de três gerações diferentes e que são muito ativas no cotidiano brasileiro, socialmente falando. E essa diversidade racial inclusive determina os modos e as atitudes, mesmo elas estando no mesmo ambiente que é essa periferia e vivendo de uma certa vulnerabilidade, de uma precariedade que é comum. Eu acho que essa autonomia que a personagem da Carla tem seria muito diferente se fosse, por exemplo, uma mulher 60+ negra. Porque o histórico de uma mulher negra dessa idade é diferente, então a maneira como se pronuncia no mundo é diferente, a maneira como ela se relaciona com os espaços que ela frequenta é diferente. Mas ao mesmo tempo a gente tem o espelhamento da personagem da Zezé Motta, que é aonde a personagem da Dolores quer chegar. Ali é uma mulher negra, sendo dona de tudo aquilo, então é muito interessante olhar para aquela mulher negra e se perguntar: "Como ela chegou até ali?". Acho que tem esse lugar de um posicionamento no mundo, que eu acho que o posicionamento, por exemplo, da Deborah, que é mais retraído, que leva em consideração muitas coisas antes de ela poder dizer o que gostaria. Tem a ver também com o fato de ela ser uma mulher negra, os números apresentam aí essa questão do abandono com relação à violência destinada às mulheres negras, que é muito mais alto do que as mulheres brancas das mesmas idades, nos mesmos lugares. Assim como a Duda, que é da geração Z, ela é meio andrógena, tem também uma questão de gênero que ela carrega ali. Ela tem uma postura diferenciada e que está de acordo com essas gerações que, ainda que sejam negras, elas têm uma postura de revide. Então, acho que tem um lugar muito conectado com o que nós somos, de fato, e acho que a gente trouxe isso para as nossas interpretações. E eu acho que o jeito como ficou, como elas estão impressas, tem muita coerência com o que é o Brasil. E dentro do mesmo território, que é o território da periferia paulistana, de uma das maiores favelas de São Paulo. Acho que isso é muito saboroso, são temperos diferentes num mesmo de uma mesma sopa. Ariane Aparecida: São várias honras que eu vivo dentro desse filme, entender também esse filme como uma celebração da trajetória de atrizes negras ao longo dos anos, porque a gente tem a Teca Pereira, a gente tem a Zezé Motta, a gente tem a Naruna, e eu não poderia estar mais honrada de ser a última geração dessas mulheres negras dentro desse filme. E acho que quando você escolhe o elenco e toma a decisão de colocar a Dolores como uma mulher branca, a Deborah como uma mulher negra e a Duda como uma menina parda, você cria narrativas invisíveis dentro do filme que a gente não precisa adentrar dentro delas. Você já cria um uma narrativa a partir da raça que o filme não adentra, porque você entende a partir do seu corpo como essas histórias se moldam também a partir da racialidade delas. E eu acho muito interessante também como o filme consegue trazer personagens que não são necessariamente escritas para pessoas negras e quando você olha são mulheres negras fazendo. Acho isso muito interessante, as coisas não ditas dentro desse filme e que estão relacionadas a ao olhar racial. Carla Ribas: Além de tudo isso que elas falaram muito bem, muito melhor do que eu falaria, eu acho que é legal a gente pontuar também que o cinema brasileiro, ao falar para nós, do nosso povo, da nossa realidade, eu tenho impressão que ele talvez se encontra mais. E isso é tão importante para que a gente entenda que esse é um país de muitas raças, e vem acontecendo da gente colocar isso impresso numa tela. E nas novelas e em todos os lugares, porque é um país majoritariamente negro. E, no entanto, até há uns anos atrás, não se tinha negros no audiovisual, ou quando tinha, era sempre em posições subalternas. Então, está na hora de acabar essa hipocrisia e está acabando. O filme tem isso que elas falaram né, tem uma diversidade enorme e casamentos inter-raciais. A gente tem isso no país, por que não colocar no audiovisual, por que não colocar no teatro? Por que não espelhar a nossa natureza exatamente como ela é? O que deixa não só a mim, mas aos artistas de modo geral, muito orgulhosos desse poder de conseguir não só retratar a realidade, como de transformá-la, porque não tem mais como ignorar que nós somos o que somos com essa diversidade toda. Então, fico muito feliz desse filme trazer um leque tão grande de brasilidades que a gente tem.

  • Entrevista | Lilih Curi e Josi Varjão falam sobre a inquietação de se buscar a própria voz em “Anastácia”

    Curta-metragem baiano foi o único filme brasileiro em festival qualificador para o Oscar e o Goya. Divulgação Nesta semana está realizada a 26ª edição do Festival Internacional de Cine de Lebu (CINELEBU), no Chile. Trata-se de um dos festivais mais prestigiados da América Latina, sendo qualificador oficial para o Oscar e para o Prêmio Goya. Neste ano, apenas um filme brasileiro foi selecionado para ser exibido no CINELEBU: o curta-metragem baiano Anastácia, dirigido e roteirizado por Lilih Curi e produzido pela Segredo Filmes. Anastácia acompanha a história da sua personagem-título (Josi Varjão), a qual, após ser impedida de trabalhar devido à perda da voz, se vê diante de um relacionamento abusivo que a aprisiona. O filme já acumula prêmios e exibições na Espanha, França e Estados Unidos, e conta no elenco com nomes como Bruno Fatumbi Torres, Luciana Souza, Carlos Francisco, Mallu Santana Cunha, AC Costa, Evani Tavares e Barbara Borgga. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Lilih Curi e Josi Varjão, para falarem a respeito do entrelaçamento entre a perda da voz física e simbólica da personagem, a trajetória da Segredo Filmes e suas perspectivas para o audiovisual baiano. Confira a entrevista abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Lilih, você vem construindo uma trajetória de filmes marcados pela intersecção entre gênero, violência e deficiência. De onde nasceu a ideia de Anastácia, e como você buscou trabalhá-la pensando em como o filme adota uma estrutura não-linear para retratar a deficiência da personagem e as violências que ela sofre? Lilih Curi: Essa ideia surgiu dentro de casa mesmo, com Josi, já que a gente é um casal. E Josi só era chamada para fazer personagens subalternizados, e aí eu fiquei muito sensibilizada, porque também venho da atuação, do teatro. Eu já estava nesse trânsito do teatro para o cinema, e falei a ela que escreveria um roteiro onde ela seria a protagonista, isso foi uns 13, 14 anos atrás. E assim nasceu a Segredo Filmes, porque eu tinha uma inquietação lá atrás, quando atuava como atriz, de fazer trabalhos que fossem urgentes, em que de alguma maneira eu tivesse uma voz, literalmente. Então, acho que Anastácia é a busca da minha própria voz. Claro que é Josi falando, mas eu estou falando por ela de uma violência que sinto também. Independentemente de ser mulher branca, mas por ser mulher eu sinto também, sempre senti esses silenciamentos impostos de várias maneiras. Então o filme chega nesse mix de urgências que eu tinha de escrever, sobre algo que me tocasse profundamente e, ao mesmo tempo, proporcionar a Josi uma possibilidade de fala. E esse roteiro atravessou a formação toda minha como cineasta; foi o primeiro roteiro que eu escrevi e vai virar um longa, já está no terceiro tratamento. A gente fez vários curtas de lá para cá, e eu acho que eu precisei passar por todas essas mulheres que a gente trouxe nos meus outros filmes – Teresa, Carolina, Distopia, etc. –, inclusive em termos de estética também, onde a imagem fala mais alto que qualquer palavra. E isso também parte da minha pesquisa do mestrado, sobre narrativa visual. É possível narrar a partir das imagens e da potência dessas imagens, e também do que é o trabalho do ator e da atriz, colaborando para que o texto, a retórica, o discurso venham à tona não necessariamente com o uso da palavra. Eu venho de uma formação teatral mais contemporânea, fui cria de Antunes Filho no SESC São Paulo – sou mineira, mas morei 13 anos em São Paulo e agora há 16 moro em Salvador. Então, essa minha formação no teatro de São Paulo também interferiu completamente no meu processo de criação como roteirista e diretora. E meu trabalho de mestrado é sobre a narrativa visual nas obras de Frida Kahlo, então a questão da deficiência era uma questão que já vinha a reboque de toda uma pesquisa. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Josi, nós nunca vemos sua personagem falar, com exceção de alguns sons emitidos na cena inicial. Considerando que a voz é um dos principais recursos de expressão de um ator, quais foram os maiores desafios que você vivenciou neste trabalho para comunicar aquilo que a sua personagem precisava transmitir? Josi Varjão: Foi um grande presente, e ao mesmo tempo um desafio, porque a gente tem a oportunidade que realmente tem o trabalho de uma atriz ali. Tinha um professor de escola de teatro que morou muitos anos em Salvador e falava assim: “a gente conhece o bom ator quando ele chega e arria as malas”. Ou seja, não é quando o ator está falando e sim quando ele está fazendo alguma ação, e essa ação é preenchida de subtextos, pensamentos, sentimentos. Eu já conheço o trabalho de Lilih como diretora, e gente vem fazendo um trabalho muito profundo, de dentro para fora mesmo. Quando eu estou para atuar em um filme, o meu interesse é escutar quem escreveu para tentar entender. O nosso trabalho na atuação é mergulhar nesse roteiro, enquanto que o roteirista faz todo um trabalho de profundidade. Eu gosto muito da comparação com o iceberg, em que a ponta do iceberg é o texto e tudo que está embaixo é o subtexto. Então, há todo esse trabalho que a gente tem que mergulhar para entender esses subtextos, para conseguir atuar da melhor maneira possível. No primeiro momento ela queria fazer um filme para eu atuar e protagonizar, mas ela não sabia ainda exatamente do que que ia falar, e a gente viveu muita coisa que nos atravessou. Por exemplo, a gente morou em dois apartamentos em que ouvíamos violência doméstica. No primeiro era a vizinha de cima apanhando, a gente chegou a denunciar, depois a mulher foi lá retirou a queixa. A gente depois viveu isso de novo em outro apartamento, agora com a vizinha de baixo. Então tudo isso que a gente viveu influenciou bastante, sentíamos que eram sinais e que tínhamos de falar sobre isso. Ela começou a trabalhar em cima desse tema, mas muita coisa veio das nossas conversas, então eu tive esse privilégio de acompanhar todo esse processo e de poder estar nessa profundidade para poder trazer essa atuação. Divulgação Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): a Bahia sempre teve um papel muito relevante no cinema brasileiro, desde Roberto Pires, Glauber Rocha e por aí vai. Recentemente temos visto uma produção extensa de curtas e longas-metragens que tem obtido alcance nacional e internacional, como é o caso do próprio Anastácia, além de um ecossistema bastante rico de produtoras como a Segredo Filmes. Quais suas perspectivas a respeito do momento atual do cinema baiano e quais as expectativas para o futuro? Lilih Curi: Você tocou num ponto difícil, porque eu acho que a gente teve e está tendo resultados a reboque dos editais que aconteceram durante a pandemia e no pós-pandemia, como a Lei Paulo Gustavo e o PNAB. Mas em 2024, 2025 e 2026 quase já não teve mais edital. Os editais do governo do estado estão bem pulverizados pelo estado, o que eu acho bem digno, tem que se interiorizar, mas menos de 2% do valor total do PNAB investido no audiovisual. Já a prefeitura [de Salvador], mesmo que seja uma gestão de direita, está investindo bastante no audiovisual, mais do que o governo do estado. Para a gente que é da capital, por exemplo, nos últimos editais foram apenas 10 curtas, com R$ 100.000,00 para cada um. Então é um cenário bem complexo e contraditório. Josi Varjão: A gente esteve com Anastácia no Panorama Internacional Coisa de Cinema [festival realizado em Salvador], e vimos muitas produções baianas maravilhosas. Acho que até estamos com dificuldade de entrar em alguns festivais porque tem muita produção. Tem muita coisa ruim [risos], mas também tem muita coisa maravilhosa. Então eu sou mais positiva, acho que teve sim essa redução nos editais, mas ao mesmo tempo a gente amadureceu mais nossos projetos, eles estão mais fortes, sejam curtas ou longas. Eu mesma participei de dois longas, e não lembro de ter visto tanta produção assim, então há um lado positivo nisso tudo. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos aos nossos entrevistados(as) que indiquem filmes brasileiros que achem que o público deva assistir. Quais seriam suas indicações? Josi Varjão: Eu gostei muito de Mambembe, que a gente viu no Panorama. Não tem exatamente a ver com Anastácia, mas gosto demais dessa linguagem dele, de misturar documentário e ficção. Também gosto muito dos filmes da Carolina Markowicz, Carvão e Pedágio. E tem alguns que não podem ficar de fora, como Bacurau. Lilih Curi: Quero indicar mulheres, então vou indicar Sagrado, da Alice Riff, e A Fabulosa Máquina do Tempo, da Eliza Capai, que a gente viu no É Tudo Verdade. Bora botar as mulheres na fita aí.

  • Filme cearense “6X1” denuncia impactos da escala de trabalho exaustiva e propõe reflexão sobre direitos trabalhistas

    Disponível gratuitamente no YouTube, a produção cearense reforça a importância do debate sobre condições dignas de trabalho. Divulgação O cinema independente cearense ganha mais uma obra de forte caráter social com o lançamento de 6X1, filme dirigido por Wes Maria que aborda os efeitos do esgotamento físico e mental provocados pela rotina da escala de trabalho 6x1. Disponibilizado gratuitamente ao público, o projeto busca fomentar o debate sobre condições de trabalho, saúde mental e direitos fundamentais dos trabalhadores. A trama acompanha Silva (Brunu Kunk), personagem que, à beira de um burnout, passa a vivenciar delírios recorrentes desencadeados pelo desgaste extremo acumulado pela jornada exaustiva. A narrativa utiliza elementos simbólicos e psicológicos para retratar as consequências do excesso de trabalho e da falta de descanso adequado. 6X1 se apresenta como um filme-manifesto. A obra funciona como um prelúdio para Troca de Turno, curta-metragem que encerrará a trilogia desenvolvida por Wes Maria. O projeto surge da necessidade urgente de discutir temas sociais contemporâneos por meio da linguagem audiovisual. Divulgação Produzido de forma coletiva e independente, a produção adotou uma metodologia de cinema de guerrilha, baseada na colaboração e na urgência criativa, transformando a vontade de filmar em ação concreta. Com uma proposta crítica e engajada, “6X1” reforça o papel do audiovisual como ferramenta de reflexão social e destaca a força da produção independente cearense na construção de narrativas que dialogam diretamente com os desafios enfrentados pela população trabalhadora. O filme pode ser assistido gratuitamente pelo YouTube. Também está disponível um material de divulgação nas redes sociais, apresentando trechos e bastidores da produção. Assista ao filme:

  • Crítica | A Revolução dos Bichos

    Elenco estelar não salva animação da sua pobreza narrativa e estética. Divulgação Considerada uma das obras-primas de George Orwell, A Revolução dos Bichos, assim como 1984, é um daqueles livros cujo pano de fundo e ideologia têm sido amplamente debatidos, visto que ele foi escrito para expressar as críticas de Orwell à ascensão de Stalin na União Soviética. Não à toa, a sua primeira adaptação em 1954 foi uma animação financiada pela CIA; agora, mais de 70 anos depois, esta nova adaptação – dirigida por Andy Serkis e com um elenco estelar no trabalho de dublagem – ganha como distribuidora a Angel Studios, a mesma do polêmico Som da Liberdade. A história, acredito, a maioria conhece: um grupo de animais numa fazenda se rebela contra o dono e passa a se autogovernar, primeiramente sob a liderança de Snowball (Laverne Cox), que estabelece os princípios do novo regime dos animais, e depois pelas mãos do traiçoeiro Napoleon (Seth Rogen), que usurpa o poder para si e começa a desfazer as regras do regime conforme ele e os demais porcos se tornam parecidos demais com os humanos que antes eram os inimigos. Embora a essência da narrativa seja mantida, o roteiro de Nicholas Stoller faz algumas alterações, a principal delas sendo a inclusão do jovem porco Lucky (Gaten Matarazzo), que se torna nossos olhos e ouvidos para as transformações morais e ideológicas do regime na fazenda. Assim, o filme se converte também numa história de amadurecimento, e, mesmo sendo um recurso batido, é uma alteração que funciona para nos dar uma guia pela trama, visto que Lucky é nossa âncora moral e também um personagem “jovem” com o qual o público-alvo pode se conectar. Infelizmente, esse é um dos poucos saldos positivos identificados no longa. Divulgação Embora a trajetória como diretor de Andy Serkis esteja longe de ser das melhores (só de lembrar daquele Venon: Tempo de Carnificina sinto arrepios), é inegável o papel crucial que ele tem em relação às tecnologias de animação e de captura de movimentos nos últimos 20 anos, desde que interpretou Gollum na trilogia do Senhor dos Anéis. Por isso é tão chocante ver a pobreza da qualidade de animação de A Revolução dos Bichos, que parece mais próxima daqueles filmes semidesconhecidos da nossa infância nos anos 2000, como O Segredo dos Animais ou Deu a Louca na Chapeuzinho. Enfatiza-se mais um aspecto cartunesco no design dos personagens, o que também se reflete no ritmo mais dinâmico e “apropriado” para um público infantil (inclusive com o uso de canções contemporâneas em diversas sequências) e na inserção de referências atuais e num humor bobo e até escatológico, como as recorrentes piadas envolvendo puns. Não que o trabalho de Serkis na captura de movimentos demandasse que o filme seguisse essa linha, mas a impressão é que tudo – do texto à textura da animação – foi diluído para acomodar as alegorias sociopolíticas de Orwell numa embalagem acessível e contemporânea. Aspectos das críticas do autor estão ali, ainda que repaginados – sobretudo nas figuras humanas do Sr. Whymper (Steve Buscemi) e de Freida Pilkington (Glenn Close), cuja presença confere um ar até mesmo distópico à obra -, mas os discursos emitidos pela obra soam demasiadamente vagos, culminando numa mensagem final simplória de “devemos ajudar uns aos outros”. A incerteza no tom a ser adotado – ora bobo demais, ora mergulhando nos aspectos mais sombrios do livro original – se reflete no tratamento de Napoleon, um personagem que já nasce cansado devido à performance vocal de Seth Rogen, um ator por quem sinceramente cada vez mais tenho antipatia justamente porque parece interpretar o mesmo personagem sempre, mesmo que aqui se trate de um porco. Há algum esforço de “humanidade” na relação dele com Lucky, mas como a própria narração de Sansão (Woody Harrelson) já nos indica a natureza traiçoeira do personagem desde o começo – e o trabalho de animação do rosto se limita às mesmas expressões malévolas e cínicas durante todo o filme –, não há muito o que extrair daqui. Não sou adepto da necessidade de fidelidade ao material original, tampouco de que o “conteúdo” é mais importante que a “forma”; acredito fielmente que ambos são um só na arte. Por isso, esta nova versão de A Revolução dos Bichos é tão decepcionante, pois o filme é fraco e pobre em ambos os departamentos. Considerando o time de vozes envolvido e o legado do livro que adapta aqui, o resultado final é muito aquém do que poderia ter sido. Nota: 2/5

  • Entrevista | “Eu vi meu pai presente no set”: Frederico e Helena Machado falam sobre 'Nau de Urano'

    Dupla de diretores é respectivamente filho e sobrinha de Nauro Machado, poeta maranhense vivido por Matheus Nachtergale no filme. Imagem: Divulgação A vida e obra do poeta maranhense Nauro Machado se entrelaçam em Nau de Urano, filme dirigido por seu filho, Frederico Machado, e sua sobrinha, Helena Machado. O longa, cujas gravações recentemente foram encerradas em São Luís, conta com Matheus Nachtergale no papel de Nauro, enquanto seus irmãos Mauro e Dauro são interpretados pelos também irmãos na vida real Buda e Nanego Lira, além de Dani Barros como sua esposa e Bete Mendes como sua mãe (após dez anos afastada das telonas). O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Frederico e Helena. A dupla de primos falou sobre os desafios de conciliar a relação pessoal de ambos com Nauro e os processos de se fazer um filme, a importância e as contribuições de um ator do porte de Matheus Nachtergale como protagonista e sobre o panorama do cinema maranhense, ainda desconhecido para uma boa parcela do público brasileiro. Confira a entrevista abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): A realização desse filme certamente tem um caráter profundamente pessoal para vocês, dada a relação familiar que possuíam com Nauro. Como conciliar essa abordagem mais pessoal sobre alguém que vocês conheciam tão intimamente com um processo tão complexo como a produção de um filme? Helena Machado: Esse é um projeto bastante antigo, porque a gente ganhou o edital de desenvolvimento de roteiro da Ancine já tem quase uns 20 anos. E aí na época a gente já queria fazer um filme sobre o meu tio, que é esse imenso poeta maranhense, mundial, só que pouco conhecido em âmbito nacional. E na época o projeto era uma mistura de documentário/ficção, porque meu tio ainda era vivo. Só que ele morreu, o projeto foi se alterando ao longo de todos esses anos, a gente participou de outros editais e agora finalmente, através da Lei Paulo Gustavo do Maranhão, ganhamos um incentivo para a produção e filmamos o filme. A gente conversou muito sobre isso, eu e Fred [Frederico], e na verdade a vida e a obra de Naura eram muito entrelaçadas, então ele fazia poemas que eram muito existenciais. Eu acho que acima de tudo falavam da própria condição humana, mas eram muito entrelaçados com uma história de vida dele, com o que ele viveu. Acho que o artista surgiu a partir da morte do pai dele, que é nosso avô. Então a gente pegou todos os personagens da nossa família: meu tio, os dois irmãos, Mauro e Dauro, nossa avó, Dona Maria, nosso avô Torquato e Bá, que era uma espécie de dama de companhia do meu tio. E quando a gente foi escrevendo e gravando o filme, ele foi se descolando muito desses personagens reais. A partir do momento em que entraram os atores, é como se já não fosse a nossa família. Então, é uma coisa meio doida, porque o filme surgiu das nossas inquietações familiares, ele é muito meu e de Fred. Muito mais do que o Nauro em si, do que a nossa família, tão as nossas angústias, os nossos anseios enquanto artistas e enquanto seres humanos. Mas eu acho muito foi muito doido o processo de filmagem, porque a gente foi vendo que ia se descolando dos nossos familiares. E Matheus [Nachtergale] se aproximou muito do meu tio. Então, a gente via meu tio no set várias vezes. Era uma coisa meio do âmbito do extra-real, os movimentos que ele fazia, umas coisas, ele foi se aproximando demais da conta e ficou uma coisa muito absurda. Mas acho que muito mais em relação a Nauro, que é o protagonista, do que aos outros personagens. Frederico Machado: O filme é uma coisa muito pessoal, naturalmente. É o meu sétimo longa-metragem já, e Helena tem um trabalho grande também de literatura e de cinema. Se transformou uma coisa muito íntima em todos os âmbitos, não somente por tratar do meu pai, do Mauro e do Dauro, que é o pai da Helena, mas é um filme muito familiar, que tem esse caminho familiar na trajetória história, no roteiro, na narrativa. Mas ele realmente se transforma em algo pessoal, que envolve nossas angústias, nossos anseios, nossos medos, nossas verdades. E é uma coisa muito natural, de fato. A gente se colocou no filme, num trabalho muito prazeroso mesmo, mas que envolveu angústia, que envolveu medo, que envolveu o mistério. E de fato, a gente ficou muito feliz com o processo, mas porque nesse caso, teve uma participação muito grande do elenco e da equipe, que foram envolvidos de maneira muito forte nessa trajetória do filme. Então, o filme criado coletivamente, revelando muita ansiedade de todo mundo. Por exemplo, os irmãos do Nauro, que são o Dauro e o Mauro, foram interpretados por dois irmãos atores na vida real, que foram o Nanego e o Buda Lira. Então, a própria escolha do elenco envolveu também esses parâmetros, de se colocar no mérito muito pessoal nessa narrativa. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Imagino que ter um ator do porte de Matheus Nachtergale no papel de Nauro foi uma realização e tanto. Considerando que Matheus é uma figura tão recorrente no cinema nordestino, pode se dizer que esse seria um dos motivos principais para tê-lo como protagonista do filme? Como foi o processo de trabalhar com ele? Frederico Machado: O Matheus está desde o início do projeto com a gente, desde quando a gente pensou em fazer um filme híbrido entre documentário e ficção há 20 anos atrás, quando esse projeto foi desenvolvido na Ancine. Foram quase 15 anos sendo desenvolvido com ele presente, mesmo de longe, mesmo estando em São Paulo com outros projetos, mas a ideia foi sempre ter ele como como um protagonista dessa história. E ele é um doce de pessoa, além de ser um grandíssimo ator, é um grandíssimo ser humano. É de fato um artista nato, na sua trajetória e na sua essência, e ele contribuiu demais. É interessante como ele se joga de fato, ele está muito presente quando está com a gente. Embora tivesse 20 anos nesse processo, ele tem um método muito pessoal, não sei se é exclusivamente para esse filme ou para outros também, mas ele de fato entrou no projeto de cabeça um mês antes de entrar no filme. E o roteiro foi mudado muitas vezes, mas ele pegou essa última versão apenas três semanas antes do filme, e é impressionante a capacidade, a inteligência e o método que ele tem de se entregar e de atuar. De fato, eu vi meu pai presente no set, de maneira muito mágica, muito forte, muito potente. Isso me emocionou muito, acho que emocionou muito a Helena. Não só no corpo, nos jeitos, no olhar, na doçura, na instigação poética, mas na essência. também na visceralidade. Meu pai foi revivido pelo Matheus de uma maneira muito única e muito bela, que emocionou muito a gente. Então toda a equipe e elenco viu o Nauro presente no filme na persona do Mateus. É impressionante como ele entendeu o filme. O filme é de baixo orçamento e tem suas características próprias. Embora seja um filme biográfico que conta a história da vida toda de Nauro desde a infância até a morte, ele é passado apenas num set, numa casa que é a casa do Nauro, que começa como a casa da mãe, depois se transforma na casa da Arlete [esposa de Nauro e mãe de Frederico] e se transforma também em São Luís, nos bares da cidade. Então, Matheus compreendeu bastante a arquitetura do filme, o que o filme representa pra gente, como ele estava sendo forjado e colocado dentro dessa esfera, dessa complexidade narrativa cinematográfica. E ele é um grande autor também, além de ser um grande ator, ele também é diretor. Helena Machado: Queria só complementar que o Matheus é um artista na sua integralidade, e ao mesmo tempo em que ele mergulha, também tem esse olhar de fora, então ele sabe o que ele está fazendo para dentro. Ele faz aquilo com uma verdade impressionante e, ao mesmo tempo em que sabe onde está a câmera, ele sabe para onde tem que olhar, então cria uma partitura que é um negócio de louco mesmo. É algo genial, ele é impressionante. Imagem: Divulgação Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Tenho um enorme carinho por São Luís, foi uma das melhores viagens que já fiz, e fiquei feliz de saber que o filme foi gravado em locação na cidade. O que significa para vocês poderem gravar na cidade onde Nauro consolidou sua vida e trajetória, especialmente considerando a importância dele para a cultura maranhense? De que forma vocês avaliam que “Nau de Urano” pode trazer visibilidade para o audiovisual do estado? Frederico Machado: Eu faço cinema desde 1997 e toda a minha obra é passada no Maranhão. Os temas do meu cinema, mesmo sendo pessoais demais, sendo questões mais herméticas e existenciais, se passam no estado. Já fui convidado para filmar em outros estados, dirigi uma série na Paraíba, também já fui chamado para dirigir em São Paulo, mas o meu cinema é em São Luís, no Maranhão, porque amo esse estado e o considero extremamente rico culturalmente. Tem seus problemas sociais e econômicos, mas tem muito a revelar para o Brasil ainda. É um estado muito desconhecido, a cultura popular é muito desconhecida e tem muitos temas, muitas locações ainda para serem desbravadas. E eu acho que o Maranhão tá vivendo um grande momento em termos de cinema agora. Tão sendo produzido 10 longas metragens pela Lei Paulo Gustavo. Então, a gente acredita que vai ter um momento meio de primavera na questão do cinema maranhense nos próximos 2 anos. Acredito que vai haver muita coisa boa, que revela também esse momento do cinema maranhense. Tem duas escolas, uma estadual e uma particular, de cinema, tem bons festivais de cinema acontecendo. Mas o cinema maranhense sempre foi muito forte, embora não seja tão conhecido a nível nacional. Na década de 1970, em termos de Super 8, o cinema maranhense era o cinema mais forte do Brasil. Das jornadas do Super 8 no Brasil, a mais importante foi no Maranhão, de fato. Tem o Murilo Santos, que é um grande realizador, e têm outros grandes realizadores também. O Guarnicê é o terceiro festival de cinema mais antigo do Brasil. Então, tem uma força no cinema maranhense que talvez outros centros não reconheçam ainda. Mas tem uma cinefilia, uma cinematografia relativamente forte, comparando com outros estados. Helena Machado: Eu queria falar especificamente em relação a Nau de Urano, porque você perguntou sobre o Maranhão no nosso filme. A obra do meu tio era totalmente relacionada à São Luís. Para ele, São Luís era uma cidade de trevas e de glória também. Então, era onde ele se encontrava, onde ele se sentia ilhado, onde ele produziu toda a obra dele, mas ao mesmo tempo era um lugar que o atormentava. Então dali nasciam todas as sombras e toda a glória também. Então é mais uma relação muito dicotômica que ele tinha com a cidade e isso tá expresso na poesia dele. E no nosso filme, como a gente tinha essa questão do baixo orçamento e no próprio conceito do filme todo se passar numa única locação, como o Fred falou, a gente não tem especificamente imagens de São Luís no filme, mas a cidade está presente no filme, no diálogo, na poesia de Nauro, nas relações entre os personagens, na coisa ébria dele com os amigos, no som. E talvez a gente ainda tem algumas externas também com São Luís, mas é eu acho bonito essa presença de São Luís apesar da ausência. Frederico Machado: E Nauro nunca deixou o Maranhão também. Assim como eu, ele viveu inteiramente sua vida dentro do estado. Ele passava férias às vezes no Rio de Janeiro, mas toda a obra poética dele foi realizada no Maranhão, e assim foi revelado através da poesia o amor e o ódio que ele tinha com relação ao estado. Então, o filme também toca muito nisso, nesse aspecto mesmo, dessas dualidades do Nauro como ser humano, como artista e suas dúvidas e suas questões. Realmente o Maranhão é um personagem muito forte no filme, porque era na poesia do Nauro. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos aos nossos entrevistados que indiquem filmes nacionais que achem que o público deva assistir. Quais seriam as suas indicações? Helena Machado: Eu gosto muito de tudo do Glauber Rocha, e acho que de algum jeito tem alguma coisa a ver com o nosso filme. Frederico Machado: Eu gosto muito do Cinema Marginal, e podia indicar o Meteorango Kid: Herói Intergalático, que é um filme que me marcou muito. Também adoro cinema experimental, e poderia indicar O Andarilho, do Cao Guimarães.

  • Entrevista | “É um filme sobre circo, memória e insistência”: Fábio Meira reflete sobre ‘Mambembe’ e o processo de quase uma década até o lançamento

    Longa que estreou nesta quinta (14) revisita um projeto iniciado em 2010 e transforma a trajetória interrompida em uma reflexão sobre as condições de fazer arte no Brasil. Imagem: Divulgação A estreia de Mambembe nos cinemas brasileiros aconteceu na última quinta-feira, 14 de maio, marcando a chegada do novo longa de Fábio Meira às salas após uma trajetória que atravessa mais de uma década de desenvolvimento. O filme parte de um projeto iniciado em 2010 e interrompido por falta de financiamento, que acabou sendo retomado anos depois em uma nova configuração narrativa. No centro da história, três mulheres de um circo itinerante, Índia Morena, Madonna Show e Jéssica, cruzam o caminho de um topógrafo errante, em uma trama que mistura ficção e realidade para refletir sobre memória, tempo e as próprias condições de produção do cinema brasileiro. Entre o circo e o processo de filmagem, o longa transforma sua própria história interrompida em linguagem e matéria dramática. Dirigido por Fábio Meira, cineasta nascido em Goiânia e formado na Escola de Cinema de Cuba, o filme também dialoga com sua trajetória anterior, que inclui obras como As Duas Irenes e Tia Virgínia, consolidando uma pesquisa sobre processos de criação, atuação naturalista e narrativas em construção. Leia à entrevista completa com o diretor a seguir: Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Deixa eu me apresentar primeiro, né? Eu sou Gabriela, do Oxente Pipoca, aqui de Sergipe. Assisti ao filme ontem e preciso dizer que amei. Antes da gente começar, eu queria falar que vocês têm dois filmes que a gente costuma chamar de “queridinhos” aqui no Oxente Pipoca: Inferninho, do Guto Parente, e Tia Virgínia. A nossa equipe ama esse filme e, sempre que pode, indica e fala sobre ele. Então, é um prazer estar conversando com você. Quando todo mundo soube que eu faria essa entrevista, pediram para dizer que são muito fãs de Tia Virgínia. Nossa equipe inteira mesmo. Fábio Meira: Eu lembro super dos posts que vocês fizeram, lembro de tudo. E Mambembe… Mambembe chega um pouco perto? Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu adorei. Inclusive, eu fiz a crítica. Posso até enviar para vocês depois darem uma olhada. Acabei de postar no site. Gostei muito do filme. Acho que ele toca especialmente quem acompanha o cinema mais de perto, sabe? Meu marido trabalha com audiovisual, então o filme bate muito nesse lugar da reflexão sobre cinema. Eu tive uma sensação parecida, apesar de serem filmes diferentes, com a que senti vendo Retratos Fantasmas. É aquela sensação de enxergar o cinema pelos bastidores, de perceber o que existe por trás daquilo tudo. Enfim, gostei muito mesmo. E acho que já posso entrar na minha primeira pergunta. Como foi para você revisitar esse processo? Porque esse é um filme que você começou a pensar lá em 2010. Como foi voltar para isso tudo e decidir que faria o filme dessa forma específica que ele acabou tomando? Fábio Meira: Na verdade, Gabriella, eu nunca desisti do filme. O que acontece é que eu escrevi esse roteiro quando estava terminando meu último ano na escola de cinema de Cuba, ali entre 2007 e 2008. Depois consegui filmar uma parte dele em 2010, junto com colegas da escola. Tinha uma fotógrafa boliviana, um sonidista cubano, um técnico de som cubano e um montador mexicano. A gente foi para o Norte e Nordeste fazer essas filmagens, junto com a Maíra da Rin, que produzia essa etapa do projeto. Era uma equipe meio imaginária, muito especial. A Daniela Cajías, por exemplo, depois se tornou a primeira mulher a ganhar um Goya de fotografia com Las Niñas e fotografou Alcarràs, da Carla Simón, que ganhou o Urso de Ouro. Então era um grupo muito forte ali na Ilha do Marajó e no Agreste de Pernambuco tentando fazer esse filme. Na pesquisa, eu encontrei Índia Morena, Madonna e Jéssica, e fiquei completamente fascinado pelas três. Eu queria muito fazer o filme com elas. Então eu sempre soube que aquele material tinha muito valor. O problema é que eu não consegui financiamento para terminar o filme. Eu achava que, se mostrasse uma parte do material já filmado, conseguiria levantar recursos para continuar, mas isso não aconteceu. Só fui conseguir financiamento depois que lancei As Duas Irenes. Só que aí já tinham passado quase dez anos. E como retomar uma filmagem de 2010 tanto tempo depois, tentando continuar tudo da mesma forma? Era muito difícil. Foi aí que decidi montar aquele material de ficção como se fosse um documentário. Então o filme virou um filme sobre a tentativa de fazer um filme. Ele nasce desse processo dolorido, porque é muito tempo convivendo com um filme inacabado. E isso é uma falta. Você convive com essa falta o tempo inteiro, tentando, tentando, tentando, e muitas vezes sem conseguir. Quando finalmente consegui terminar, foi muito bonito revisitar aquele material. Porque existem dois diretores ali. Na verdade, o mesmo diretor em duas fases da vida, justapostos. Um muito jovem, animado, cheio de energia, que filmou aquele começo. E outro mais cansado, talvez, mas já conhecendo alguns atalhos pela experiência de ter feito e lançado outros filmes. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu ia até perguntar justamente isso. Como as experiências dos seus outros filmes se refletem nesse processo de revisitar essa história? Porque obviamente elas atravessam o filme de alguma forma, né? Como foi para você encontrar esse “você” do passado depois de tudo o que viveu e aprendeu realizando outros dois filmes? Que tipo de choque, ou até de diálogo, aconteceu entre esses dois momentos da sua trajetória? Fábio Meira: A primeira coisa é que Mambembe acabou influenciando As Duas Irenes de uma maneira bem forte. Principalmente pelo método que eu usava com as atrizes. Elas não eram atrizes profissionais de cinema, embora fossem artistas profissionais, mas nunca tinham atuado em um filme. Então esse método de trabalho que desenvolvi com elas acabou sendo levado também para As Duas Irenes, porque eram duas meninas fazendo cinema pela primeira vez. Agora, sobre o impacto dos outros filmes nesse reencontro com Mambembe, eu não sei dizer exatamente, porque os dois filmes seguintes partiam de roteiros muito estabelecidos. Existia uma estrutura clara durante as filmagens, uma evolução já desenhada para os personagens. Claro que algumas coisas mudavam no processo, mas havia um roteiro sendo seguido. Mambembe não. Mambembe era um filme muito livre. Então o processo dele acabou sendo completamente diferente dos outros dois. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Você falou um pouquinho de As Duas Irenes, em que também trabalhou com atrizes que nunca tinham feito cinema. E em Mambembe existem essas três personagens muito marcantes, como você já citou, que o filme também revisita depois de tantos anos. Como foi reencontrar essas três mulheres? Porque elas são pessoas completamente distintas, mas ao mesmo tempo se completam de uma forma muito bonita dentro da história. Eu achei isso impressionante. E a Madonna… nossa senhora. Todas são incríveis, mas ela tem uma presença muito forte. Uma estrela mesmo. Dá até aquela sensação de “como essa pérola estava escondida esse tempo todo?”, sabe? Fábio Meira: As três são estrelas. Quer dizer, o elenco inteiro é muito forte, mas a Índia e a Madonna têm uma presença muito marcante. A Índia é meio a cabeça do filme e a Madonna, o coração. A Índia talvez seja mais a alma. Desde o começo eu procurava pessoas que me inspirassem para aquilo que queria fazer. E depois, quando decidi trabalhar com atores naturais, como se costuma dizer, fiquei completamente fascinado por elas. Só que, no roteiro original, as personagens eram diferentes. Não eram exatamente o perfil que eu estava procurando. Mas elas eram tão fantásticas que eu achei melhor mudar o roteiro para tê-las no filme do que insistir na ideia inicial. Foi uma decisão muito clara para mim. E toda vez que reencontro elas, tenho a sensação de estar diante de estrelas de cinema. Imagem: Divulgação Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Outra coisa que me pegou muito no filme foi essa sensação que tive logo no início, quando o circo aparece pela primeira vez. Eu tenho uma memória muito visual desses circos pequenos, familiares, com poucas pessoas, que a gente vê pelo interior, às vezes passando de carro. Isso despertou uma memória afetiva muito forte em mim. Queria saber como o circo chegou até você e por que contar uma história através desse universo te interessou tanto. Fábio Meira: Então, isso vem muito da minha infância. Eu sou de Goiânia, que naquela época, nos anos 1980, era uma cidade mais pacata. E eu lembro dessa sensação de ver um pedaço da cidade se transformar quando um terreno vazio, que antes tinha mato, de repente era ocupado por um circo que passava uma temporada ali. Aquilo me fascinava. Os figurinos coloridos, o espetáculo em si, mas também a vida ao redor. Eu gostava muito de observar a rotina deles nos trailers. Durante muito tempo sonhei em morar em um trailer. E, de certa maneira, acho que ainda sonho um pouco com isso, com essa ideia de viver de forma itinerante, viajando, ficando um tempo em cada lugar. E eu acho que, no fim das contas, segui um pouco esse caminho do circo. Esse filme é quase uma prova disso, porque fazer cinema se parece muito com fugir com o circo, principalmente para alguém que vem de uma família conservadora, de um ambiente mais conservador. Hoje, por exemplo, estou lançando o filme e vou passar por 13 cidades em duas semanas. Cada dia estou com uma pessoa diferente. Hoje estou com a Madonna, amanhã com a Dandara, depois com Murilo, depois com Jéssica. É uma vida itinerante, de apresentação, de contato com o público. E, de certa forma, também estamos tentando arrancar um sorriso da plateia, emocionar as pessoas, exatamente como acontece no circo. Acho que o cinema tem muitas semelhanças com isso. A dinâmica de vida é muito parecida: itinerante, por temporadas. Cada filme acaba sendo uma temporada também. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca):Tem outra coisa que eu achei muito política no filme, que é mostrar como ele quase não existiu por falta de recursos. A gente chega a pensar que talvez não fosse ver essas três histórias de forma alguma, que talvez não fosse conhecer essas personagens. Queria que você falasse um pouco sobre como você vê isso, sobre como o nosso país perde histórias quando faltam condições para que certos filmes sejam feitos. Fábio Meira: Não só na política audiovisual, mas na cultura no geral. Você pensa nesses circos que aparecem no final do filme, nessas várias trupes de circo. Quantas delas existem até hoje? O que o governo está fazendo para a manutenção desses circos, dessas companhias de teatro que foram tão importantes? Fernanda Montenegro, por exemplo, surgiu de uma companhia de teatro. E também para esses talentos do cinema. A gente acaba ficando muito à mercê dos governos e, muitas vezes, justamente daqueles dos quais esperávamos mais apoio. Mesmo assim, seguimos tendo que lutar muito, porque faltam condições reais de trabalho. E, no fim, um dos grandes orgulhos de Mambembe é justamente mostrar para o Brasil a Índia Morena e a Madonna. Como você mesma disse, são grandes estrelas, artistas gigantescas que ainda não são conhecidas do grande público. Espero que o filme ajude a mudar um pouco isso, porque o Brasil merece conhecer a Índia Morena e merece conhecer a Madonna. Elas são mulheres brilhantes e artistas fenomenais. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca):Você já tinha a intenção de fazer isso desde o início? E como essa dimensão mais melancólica que existia no roteiro original foi atravessada e chegou até a versão atual do filme? Fábio Meira: Olha, isso eu acho que tem a ver com a sua pergunta anterior também, sobre as condições que a gente tem para fazer arte no Brasil. Eu acho que isso, por si só, já gera melancolia e gera angústia, entende? Porque é muito difícil conviver com frustração quando você tem um grande desejo, quando acredita em um projeto. Imagina no meu caso, que fiquei convivendo com esse projeto durante tanto tempo. Eu nunca desisti dele. E isso, eu acho, acontece com muitos artistas no Brasil: projetos em que eles acreditam profundamente, mas que não conseguem sair do papel, porque não basta vontade, é preciso recursos. Então essa melancolia que você menciona é muito inerente a essa situação do circo no Brasil e das artes em geral. É uma vida difícil também. Assim como o audiovisual, que é um campo em que são poucos os que conseguem trabalhar continuamente e levar público para as salas de cinema. Então, infelizmente, por várias razões, essa melancolia faz parte da própria condição do artista brasileiro. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): O que você espera que o público sinta ao assistir ao filme? E o que você gostaria que ele reverberasse nos próximos anos? Fábio Meira: A primeira coisa é que eu espero que o público tenha vontade de ir ao circo. Isso é algo que eu acredito mesmo que Mambembe pode despertar em muitas pessoas que já não têm mais esse hábito ou interesse pelo circo. Também espero que o público olhe para cada artista brasileiro de uma maneira diferente, entendendo um pouco mais a batalha que existe por trás de cada obra e o quanto de tempo, dedicação e vida são investidos para que ela exista. Isso vale para um espetáculo de teatro, de dança, uma exposição de fotografia, um filme, um espetáculo de circo, enfim, tudo. Como aconteceu comigo em Mambembe, e como acontece com tantos outros artistas no Brasil que passam anos tentando realizar seus projetos. Então eu espero que as pessoas sintam isso, esse desejo de valorizar mais a nossa arte. Porque, de certa forma, é até uma contradição, sabe? O brasileiro é extremamente criativo por natureza. Isso está na nossa música, no nosso cinema, na nossa literatura. A gente vê isso em tudo. Mas, ao mesmo tempo, muitas vezes não temos as condições ideais para colocar esse trabalho em prática. E eu gostaria que as pessoas olhassem para isso de outra maneira e valorizassem mais o trabalho de cada artista brasileiro. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Para finalizar, uma pergunta que eu faço para todo mundo: se você pudesse dar uma dica de filme ou série brasileira, qual você indicaria? Só não pode ser a obra que a gente está conversando no momento. Fábio Meira: Vou falar primeiro o que me veio à cabeça, tá? Que é A Hora da Estrela, da Suzana Amaral, com a Marcélia Cartaxo. É um filme que abre para várias discussões, porque é uma obra majestosa, que vem de um livro fantástico de A Hora da Estrela. E isso já me interessa muito: aquela literatura que parece simples, mas que no fim é extremamente profunda. A Clarice, naquele livro tão fininho, está falando de uma alma, de um tipo de brasileiro, de brasileira, no caso da Macabéa, que atravessa gerações justamente por essa profundidade. E também tem essa atriz de teatro fantástica que é a Marcélia Cartaxo, que a Suzana Amaral conheceu através do teatro. Então é um filme que nasce desse encontro entre linguagens. De certa forma, quando a gente fala sobre artistas, eu acho que esse filme é muito especial porque, além de ser maravilhoso em si, com uma atuação fantástica e uma direção primorosa, ele une diferentes campos da nossa cultura.

  • Crítica | Obsessão

    Quando o desejo masculino transforma o amor em pesadelo. Imagem: Divulgação “Se você pudesse fazer um desejo, qual seria?” É a partir dessa pergunta simples na superfície, mas corrosiva nas consequências, que Obsessão constrói toda a sua espinha dorsal narrativa. O filme de terror dirigido por Curry Barker parte de um objeto sobrenatural, o misterioso “One Wish Willow”, para transformar um conto de desejo realizado em um estudo perturbador sobre amor, posse e os limites entre a romantização e a obsessão. Na trama, Bear (Michael Johnston) é um jovem romântico incurável, funcionário de uma loja de discos, que compra o artefato místico acreditando que ele pode resolver sua maior frustração afetiva, conquistar Nikki (Inde Navarrette), sua amiga de infância e paixão idealizada. O desejo se realiza de forma imediata, quase perfeita demais, mas o filme rapidamente desloca essa fantasia para um terreno instável, onde o amor passa a ter aparência de distorção, controle e ruína. O que começa como uma fantasia de realização amorosa se converte pouco a pouco em uma narrativa de horror corporal e psicológico. Bear não é apresentado como um vilão imediato, mas como alguém moldado por inseguranças e pela incapacidade de lidar com a rejeição. O problema é que, mesmo quando percebe que algo está profundamente errado, ele escolhe permanecer na ilusão, desde ajustar o desejo até tolerar os sinais de sofrimento da própria Nikki. Nesse ponto, o filme deixa de ser apenas sobre um feitiço e passa a falar sobre consentimento, ego e a violência emocional embutida em certas idealizações românticas. Imagem: Divulgação Há uma leitura possível de que Obsessão funciona como uma alegoria sobre masculinidade tóxica e o desejo de posse disfarçado de amor. A ideia de “ter” a pessoa amada, mesmo que isso signifique deformar sua autonomia, atravessa toda a narrativa. Nikki, por sua vez, se torna o eixo emocional mais forte da obra, e a performance de Navarrette sustenta o impacto do filme ao alternar vulnerabilidade e estranhamento de forma constante, como se houvesse sempre alguém preso dentro da própria imagem que o desejo criou. Em termos estéticos, o longa aposta em uma atmosfera crescente de desconforto. A fotografia trabalha sombras e proximidade, o som amplifica pequenos ruídos cotidianos até torná-los ameaçadores, e a montagem intensifica a sensação de perda de controle. Em alguns momentos, a construção de tensão lembra o uso de câmera e enquadramento de Corra!, especialmente na forma como os rostos são explorados como territórios de instabilidade emocional. O equilíbrio entre horror e humor ácido transforma Obsessão em uma experiência ao mesmo tempo perturbadora e envolvente, que parte de uma premissa clássica do “cuidado com o que deseja” para levá-la a um terreno mais físico, desconfortável e atual. O resultado é um filme que não se limita à ideia de moral da fábula, mas faz o incômodo atravessar o corpo e a relação entre os personagens. No fim, Obsessão não está interessado apenas no desejo realizado, mas no que acontece quando esse desejo é atravessado por controle, ego e incapacidade de reconhecer o outro como sujeito. O horror do filme não vem do elemento sobrenatural em si, mas da forma como ele expõe uma lógica afetiva marcada pela posse, em que o amor é confundido com domínio e a vontade masculina de ser correspondida se sobrepõe à autonomia da outra pessoa. Nesse sentido, a narrativa funciona como um espelho incômodo de uma cultura que ainda romantiza a insistência, mesmo quando ela já deixou de ser afeto e passa a ser invasão. O que sobra é uma crítica amarga à misoginia embutida em certas idealizações românticas, onde o “ser amado” importa mais do que o direito de existir do outro fora desse desejo. Nota: 4/5

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