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- Entrevista | "Queria que o público saísse da sessão provocado": Daniel Nolasco, Lucas Drummond e Liev Carlos falam sobre o filme Apenas Coisas Boas
Romance queer lançado em 25 de junho transforma afeto, desejo e memória em uma experiência cinematográfica singular. Divulgação Lançado nos cinemas brasileiros em 25 de junho, às vésperas do encerramento do Mês do Orgulho LGBTQIAPN+, Apenas Coisas Boas transforma uma história de amor em um potente retrato sobre afeto, desejo e liberdade em um Brasil marcado pelo conservadorismo. Ambientado no interior do país em 1984, o longa acompanha o encontro entre um fazendeiro solitário e um motociclista ferido, cuja aproximação dá origem a um romance capaz de desafiar as convenções e transformar a vida dos dois. Com direção de Daniel Nolasco e atuações de Lucas Drummond e Liev Carlos, o filme chega ao circuito comercial após uma trajetória de destaque em festivais nacionais e internacionais. Em conversa com o Oxente Pipoca, o trio fala sobre a recepção da obra, a expectativa para o lançamento nos cinemas e a importância de ocupar as telas com narrativas LGBTQIAPN+ que colocam o afeto no centro da história. Leia a entrevista completa abaixo: Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu sou Gabi, do Oxente Pipoca, falando diretamente de Aracaju. É um prazer conversar com vocês! Primeiro, queria dizer que assisti ao filme ontem e adorei. O Vinícius, que também faz parte da equipe, viu Apenas Coisas Boas no ano passado, durante o Olhar de Cinema, então tivemos experiências bem diferentes: ele acompanhou a estreia no festival e eu assisti agora, às vésperas do lançamento nos cinemas. Queria começar justamente por esse movimento. Como foi acompanhar a trajetória do filme, desde os festivais até finalmente chegar ao grande público? Daniel Nolasco: A gente fez a estreia do filme em festivais no ano passado. No Brasil, ele estreou no Olhar de Cinema, mas a estreia internacional foi no Festival de Guadalajara. Depois exibimos também no Frameline, em São Francisco, e seguimos circulando por festivais brasileiros e internacionais. Durante esse percurso, a gente foi pensando qual seria o melhor momento para o lançamento comercial. Inicialmente cogitamos abril ou maio, mas, conversando com a distribuidora, entendemos que junho fazia mais sentido por ser o Mês da Diversidade. Era uma oportunidade de ampliar as discussões que o filme propõe e inseri-lo em um contexto em que essas pautas ganham ainda mais visibilidade. Lucas Drummond: Ao mesmo tempo, esse tempo todo também faz parte da trajetória do filme. A gente filmou em 2024, depois levou cerca de um ano para finalizar e estrear. Já faz um ano desde a primeira exibição em Guadalajara, então acompanhar toda essa carreira, ver o filme passar por festivais e agora finalmente chegar aos cinemas é muito especial. É um processo longo, mas muito bonito de acompanhar. Liev Carlos: Uma coisa interessante que eu percebo na recepção do público é que esse é um filme que cresce com o tempo. Às vezes a pessoa sai da sessão com uma impressão inicial, pode até não gostar completamente, mas ele permanece. É um filme que continua provocando, que fica na memória e vai amadurecendo dentro de quem assistiu. Acho isso muito bonito. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Acho isso muito interessante no filme. Depois que assisti, fui conversar com o Vinícius, que escreveu a crítica para o Oxente Pipoca, e ele comentou exatamente isso: que, revendo mentalmente a obra e lembrando de alguns detalhes, talvez até desse uma nota maior hoje. É um filme que continua reverberando depois da sessão. Queria saber de vocês sobre esse primeiro encontro com Apenas Coisas Boas. Daniel, de onde surgiu essa história? E, para o Lucas e o Liev, qual foi a primeira impressão quando receberam e leram o roteiro? Daniel Nolasco: A história é levemente inspirada no conto O Gato Preto, do Edgar Allan Poe. Na verdade, ela é bem próxima em alguns aspectos, principalmente a partir do desaparecimento de uma pessoa, que é um elemento presente nas duas histórias. A partir dessa segunda parte, fui construindo a primeira. Mas o que eu realmente queria era contar uma história de amor entre dois homens na região onde eu nasci, ali entre Paulistas e Soledade, em Goiás, que também é onde filmamos. Eu queria mostrar aquelas paisagens, aquele universo, e contar uma história de afeto naquele lugar. Foi daí que nasceu o roteiro. Lucas Drummond: O filme chegou para mim por meio de um convite do Dani para fazer uma leitura. Eu já acompanhava o trabalho dele há bastante tempo e sou muito fã de Vento Seco. O processo de seleção foi uma experiência muito especial, porque ele conduz tudo de um jeito muito humano. Antes mesmo da leitura, a gente conversou bastante sobre a história e sobre o que ele buscava para os personagens. Depois da leitura, continuamos conversando. Isso não é tão comum em testes, que normalmente são bem mais objetivos. É um processo muito cuidadoso, muito autoral mesmo. Depois que fui escolhido para viver o Antônio, participei de outras leituras, inclusive uma ao lado do Liev, quando ele estava sendo testado para o Marcelo. Foi ali que a gente começou a construir essa relação. Liev Carlos: Meu primeiro contato aconteceu por meio do Cássio, que fez a produção de elenco. Pelo que me lembro, o Dani tinha assistido a um curta do qual participei, exibido no Mix Brasil, gravado em Alagoas. A partir daí surgiu o convite para fazer a leitura. Li o roteiro com o Lucas e gostei muito da experiência. Depois fomos para Goiânia fazer a preparação com o Alan. Eu fiquei muito emocionado já na primeira leitura do texto e quis fazer parte do projeto imediatamente. A primeira metade do roteiro me comoveu bastante. Já a segunda me deixou cheio de perguntas. Eu não entendia muito bem para onde a história estava caminhando, mas justamente isso despertou ainda mais curiosidade. Engraçado que o filme acabou crescendo com o tempo até para mim, que participei dele. Lucas Drummond: Tem uma história curiosa sobre esse processo. O Dani já tinha pensado em mim para um outro projeto, o curta Cavalo de Pedro. Só que, na época, eu estava fazendo uma peça no Rio e estava com o cabelo comprido. Ele olhou minhas fotos e falou: "Com esse cabelo não dá." Passou um tempo e, quando ele começou a selecionar o elenco de Apenas Coisas Boas, voltou a cogitar meu nome. Mandou uma mensagem para o Cássio perguntando se eu já tinha cortado o cabelo. Por coincidência, naquele mesmo dia nós fomos ao mesmo cinema, perto de casa. O Dani me viu na sessão, percebeu que eu tinha cortado o cabelo e foi embora sem falar comigo. Depois mandou mensagem para o Cássio dizendo: "Encontrei o Lucas. Cortou o cabelo. Pode chamar para a leitura." Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Uma das primeiras coisas que me chamou atenção em Apenas Coisas Boas foi a fotografia. Ela consegue mergulhar a gente completamente naquele universo. É um trabalho muito bonito e que ajuda a construir a atmosfera do filme. Imagino que, para você, Daniel, tenha sido ainda mais especial gravar na região onde nasceu. E, para vocês dois, Lucas e Liev, acredito que filmar naquele cenário tenha proporcionado uma imersão muito maior do que seria em qualquer outro lugar. Como foi a relação de vocês com esse espaço? De que forma aquelas paisagens e a convivência na região influenciaram a construção dos personagens? Lucas Drummond: Acho que a gente viveu uma das experiências mais ricas que um ator pode ter, que é justamente esse processo de imersão. Eu sou carioca, então fui para Goiás viver aquele universo de verdade. Quando você viaja para filmar, a experiência já muda completamente. Você passa muito mais tempo com a equipe, convive intensamente com todo mundo e acaba criando laços muito fortes. É diferente de gravar na cidade onde você mora e simplesmente ir para o set todos os dias. Nós tivemos uma semana de preparação em Goiânia e depois seguimos para Campo Alegre de Goiás, onde filmamos a primeira parte do longa. Lá ainda passamos cerca de duas semanas de preparação na própria locação, vivendo aquele ambiente antes mesmo das filmagens começarem. Esse período foi fundamental para construir o Antônio. Aprendi atividades que o personagem precisava dominar, como ordenhar vaca, fazer queijo, atirar e andar a cavalo. Tudo isso fez com que eu me sentisse realmente inserido naquele universo. E, claro, cercado por uma paisagem belíssima, que acaba influenciando diretamente o trabalho de todo mundo. Liev Carlos: Refaço as palavras do Lucas, me sinto contemplado. Divulgação Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Sem dar spoilers, claro, queria saber se existe algum momento de Apenas Coisas Boas que tenha um significado especial para cada um de vocês. Daniel, como roteirista e diretor, houve alguma cena que foi particularmente marcante ao escrever e depois ver pronta na tela? E, para o Lucas e o Liev, teve alguma sequência que marcou mais durante as filmagens? Lucas Drummond: Engraçado que ontem perguntaram para a gente sobre curiosidades do filme e essa cena voltou à conversa. Tem uma sequência, a do nascer do sol, quando o Antônio acorda e acredita que o Marcelo foi embora, que nem existia no roteiro originalmente. O Dani criou essa cena durante o processo e incluiu no plano de filmagem. Lembro que ele ainda colocou um certo terror na gente, dizendo que seria uma cena muito difícil e que estava escrevendo diálogos novos para decorarmos em pouquíssimo tempo. Mas, no fim, ela acabou se tornando uma das imagens mais emblemáticas do filme. Inclusive, foi escolhida para um dos cartazes, que o público gosta bastante. Acho bonito perceber como o cinema tem isso: algumas das cenas mais marcantes surgem justamente durante o processo de criação. Liev Carlos: No meu caso, a cena que guardo com mais carinho é o primeiro momento de conexão real entre o Marcelo e o Antônio, que acontece durante uma sequência no chuveiro. O que mais me emociona nela são os olhares dos personagens. Eles estão muito vivos. Cada um carrega uma subjetividade muito própria, uma forma diferente de sentir e de se expressar, mas existe uma troca muito intensa entre eles. Sempre que revejo essa cena, o que mais me chama atenção são justamente esses olhares. Daniel Nolasco: Eu sempre tenho um carinho especial pelas cenas mais simples. No caso desse filme, é a sequência em que o Antônio fecha a casa antes de partir. Visualmente, ela é muito simples, construída com planos fixos, mas carrega um simbolismo enorme. Na região onde filmamos, o êxodo rural é muito presente. É comum encontrar casas fechadas, ainda mobiliadas, que acabam sendo tomadas pelo tempo. Meu primeiro longa, o documentário Paulistas, já tratava justamente dessa região e desse movimento das pessoas deixando o campo em direção às cidades. Durante as filmagens, registramos muitas casas nessa situação. Então, trazer essa imagem para Apenas Coisas Boas também era uma forma de falar sobre despedida, memória e transformação. Foram poucos planos, mas foi uma sequência muito especial de filmar. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Uma coisa que me chamou atenção é que existem muitos romances, inclusive filmes com temática LGBTQIAPN+, que seguem caminhos mais previsíveis. E não acho que isso seja necessariamente um problema, porque o clichê também tem seu lugar. Mas Apenas Coisas Boas foge desse formato e entrega uma experiência muito particular. Na visão de vocês, o que torna esse filme tão único para quem vai ao cinema? Daniel Nolasco: Acho que o filme brinca com diferentes gêneros cinematográficos ao longo da narrativa. A própria estrutura, dividida em duas temporalidades, faz com que cada parte dialogue com propostas bem distintas, e isso já oferece ao espectador uma experiência diferente. Gosto muito dessa construção porque ela provoca um certo estranhamento. O público é levado a reorganizar o olhar durante o filme, e isso faz parte da proposta. Além disso, para mim, o lugar de onde essa história nasce também é muito importante. É um filme feito no interior de Goiás, por muitas pessoas LGBTQIAPN+ de Goiás, contando histórias e vivências daquele território. Goiás ainda não tem uma tradição tão consolidada de lançamentos no circuito comercial e, quando fazemos o recorte do cinema queer, esse espaço é ainda menor. Então acho que o filme também se torna especial por isso: pelas pessoas que o fizeram, pelo lugar onde foi realizado e pela perspectiva que leva para a tela. Lucas Drummond: Acho que hoje a gente vive um momento em que muitas histórias chegam ao público já muito mastigadas, com tudo explicado. Eu gosto quando o cinema faz justamente o contrário: quando provoca, deixa perguntas em aberto e faz a gente sair da sessão pensando: "O que foi que eu vi? Será que entendi tudo?". Apenas Coisas Boas não tenta responder todas as questões. Pelo contrário, ele deixa espaço para que cada espectador construa suas próprias interpretações. E, para mim, essa é uma das maiores qualidades de um filme. Liev Carlos: Acho que ele é especial porque subverte um pouco os nossos sonhos sobre o amor. Existe uma ideia muito idealizada do amor romântico, como se ele fosse eterno, perfeito e absoluto. O filme quebra um pouco essa expectativa e apresenta uma realidade mais dura, mais seca, mas que também tem beleza e encanto. No fim, ele fala sobre entender que o outro é realmente outro. Que cada pessoa tem seus próprios desejos, seu próprio caminho. As relações podem caminhar juntas por um tempo, mas cada indivíduo continua sendo único. Acho bonita essa forma mais humana de olhar para o amor. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Acho que você até adiantou um pouco a próxima pergunta. A gente tem visto cada vez mais produções voltadas para o público LGBTQIAPN+, mas também uma mudança na forma como essas histórias são contadas. Hoje existem narrativas que colocam o afeto no centro, exploram outras possibilidades de romance e fogem de representações mais estereotipadas. Como vocês enxergam a importância de Apenas Coisas Boas dentro desse momento do cinema brasileiro? Liev Carlos: Tenho uma amiga que trabalha em uma escola e ela me contou uma situação que me marcou muito. Ela convive com crianças pequenas, de cinco, seis, sete anos, e percebe como elas já conseguem falar com muito mais naturalidade sobre quem são. Ela me contou, por exemplo, sobre uma menina que dizia ser bissexual e um menino que já se entendia como gay. Isso mostra como o imaginário também é construído pelo audiovisual. Quando essas histórias existem e circulam, elas ajudam a naturalizar os afetos, os desejos e as diferentes identidades. Acho que esse é um papel muito importante do cinema. Lucas Drummond: Acho que Apenas Coisas Boas participa dessa construção. A gente cresceu sem encontrar muitas referências de pessoas como nós nas telas. Hoje, quanto maior for a cinematografia queer brasileira, maior também será a diversidade de histórias que podemos contar. E não estou falando apenas de diversidade de gênero ou sexualidade, mas também de linguagem e de narrativa. No nosso filme, por exemplo, a primeira parte dialoga muito com o western, um gênero historicamente associado a protagonistas heterossexuais. Poder ver um personagem gay vivendo esse universo do Cerrado, montando a cavalo, empunhando uma espingarda, participando de cenas de ação e, ao mesmo tempo, protagonizando uma história de amor e de afeto, amplia muito as possibilidades dessas representações. Acho isso muito brasileiro e muito rico para o nosso cinema. Daniel Nolasco: Eu não sou tão otimista quanto esse cenário. Acho que o cinema queer brasileiro é extremamente rico e, nos últimos anos, viveu um momento muito importante de visibilidade. Houve uma aproximação maior dessas narrativas com o circuito comercial e com um público mais amplo. Mas tenho a impressão de que chegamos a um ponto de ruptura que não é necessariamente progressista. Pelo contrário, vejo sinais de um movimento conservador e de um possível retrocesso. Isso não acontece só no Brasil, mas em vários lugares do mundo. Em momentos de crise, as pautas progressistas costumam ser as primeiras a perder espaço. Nas últimas semanas, por exemplo, surgiram discussões sobre filmes LGBTQIAPN+ exibidos em grandes festivais, como Cannes e Veneza, que ainda não conseguiram lançamento comercial no Brasil. Também vimos plataformas de streaming adiando estreias e uma redução no investimento de marcas em eventos importantes, como a Parada do Orgulho de São Paulo. Para mim, esses são sintomas de um cenário mais amplo. Tenho a sensação de que estamos perdendo espaço e janelas de exibição. Espero sinceramente estar errado, mas hoje não consigo olhar para esse momento com muito otimismo. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Esse comentário me fez lembrar de uma discussão que aparece muito hoje, principalmente entre os mais jovens. Muita gente diz que cenas de sexo no cinema são desnecessárias e que prefere simplesmente pular esse tipo de sequência. Acho que isso também acaba sendo um sintoma de uma mudança na forma como as pessoas estão se relacionando com essas narrativas, com o desejo e até com a intimidade nas telas, não é? Daniel Nolasco: Acho que isso também é um sintoma desse momento. Se a gente olha para a história da arte, desde a Grécia Antiga, passando pelo Renascimento e chegando aos dias de hoje, a representação do erotismo sempre esteve presente. Ela faz parte da produção artística há séculos. O que me parece é que o debate nunca é realmente sobre a existência da nudez ou da cena de sexo, mas sobre o contexto político em que ela aparece. Existe uma diferença muito clara na forma como determinadas representações são aceitas. A nudez feminina costuma ser naturalizada; a masculina, nem tanto. Cenas de sexo entre casais heterossexuais são comuns no cinema e até na televisão aberta, enquanto outras representações ainda despertam muito mais resistência. Esse tipo de reação revela um conservadorismo que vai muito além da cena em si. Muitas vezes, o discurso de que "não precisava" ou "é desnecessário" acaba mascarando preconceitos que ainda existem em relação a determinados corpos, afetos e formas de desejo. Afinal, a representação erótica continua sendo aceita em diversos contextos. a questão é entender quais representações a sociedade ainda escolhe rejeitar. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Para encerrar, vou juntar duas perguntas. A primeira é: o que vocês gostariam que o público levasse consigo ao sair da sessão de Apenas Coisas Boas? E a segunda é uma tradição aqui do Oxente Pipoca: sempre peço uma indicação de um filme ou série brasileira para quem está nos acompanhando, e não vale indicar o filme da nossa conversa. Liev Carlos: Vou indicar o último filme brasileiro que assisti: Eu Sei Que Vou Te Amar, do Arnaldo Jabor, com a Fernanda Torres. É um filme de que gosto bastante. Série brasileira eu vou ficar devendo. Sobre Apenas Coisas Boas, gostaria que o público saísse da sessão provocado. Que voltasse para casa com aquela inquietação, tentando entender o que aconteceu, refletindo sobre os sentimentos despertados pelo filme. Acho que esse seria o meu maior desejo. Lucas Drummond: Eu não queria que as pessoas saíssem sentindo apenas uma coisa. Pelo contrário. Espero que elas sintam muitas coisas. O filme passa pelo romance, pela ação, pelo suspense, pelo mistério, pelo desejo. Então quero que o público sinta emoção, tesão, inquietação... tudo o que o cinema pode proporcionar. Acho que Apenas Coisas Boas percorre muitos caminhos emocionais. Minha indicação é Madame Satã. Eu o revi recentemente na plataforma Tela Brasil e foi uma experiência muito diferente da primeira vez que assisti. Hoje o filme me tocou muito mais. Também destaco o trabalho do Flávio Bauraqui e, principalmente, do Lázaro Ramos. Acho uma atuação muito corajosa, intensa e marcante. É um filme importante e que merece ser descoberto por mais gente. Daniel Nolasco: Minha indicação é Zé Morais, do Geraldo Veloso. É um filme do começo dos anos 1980 que gosto muito e que, infelizmente, nunca foi restaurado. Hoje ele sobrevive praticamente por meio de cópias antigas, mas considero uma obra que merece muito mais reconhecimento. Quanto ao que espero que o público leve da sessão, gostaria que as pessoas tivessem um prazer estético. Normalmente a conversa gira em torno da narrativa ou dos personagens, mas espero que elas também apreciem a construção visual do filme, a fotografia, a composição dos planos e a experiência estética como um todo. Esse seria o sentimento que mais gostaria de despertar.
- Entrevista | “O samba também pode impedir que nós morramos por dentro”: roteiristas de “Barulho” falam sobre os bastidores do curta
Julyfrans e Leonardo Lumas comentam sobre o curta-metragem que transforma a música em ferramenta para navegar o luto. Imagem: Divulgação “Barulho”, dirigido por Karen Suzane, é um curta-metragem que acompanha Humberto, um homem viúvo e solitário que vê sua rotina ser transformada pela chegada de dois vizinhos sambistas, Nilson e Xis. Com roteiro de Julyfrans, Leonardo Lumas e Caio Pudenzi, o curta utiliza o samba como ponto de encontro para discutir temas como luto, amizade e memória. Em fase de circulação por festivais de cinema, o curta-metragem estreou em março, durante uma sessão especial do Cine 72, em Minas Gerais, participou em maio pelo II Festival Curta Aparecida, em Goiás, e foi selecionado para o 8º FestCine Pedra Azul International Film Festival, no Espírito Santo. Assistindo a “Barulho”, me peguei pensando naquela ideia de que nós, brasileiros, vivemos em um eterno musical. Afinal, ninguém relaciona coletividade e música da forma que fazemos. Talvez por isso o curta de Karen Suzane provoque uma sensação curiosa. O filme busca lembrar que, na tristeza ou na alegria, a vida raramente acontece sem trilha sonora. O Oxente Pipoca conversou com dois dos três roteiristas que assinam o filme, Julyfrans e Leonardo Lumas, sobre a construção da história e os temas que atravessam o curta. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Queria perguntar a vocês como nasceu a ideia do curta e em que momento vocês perceberam que essa história poderia virar um filme. Julyfrans: Olha, inicialmente foi uma homenagem ao meu bisavô. Ele passava por um período de luto que o fez se tornar muito recluso. Confesso que não foi só ele que teve essa dificuldade de lidar com o luto. Eu também sou uma pessoa que tem dificuldade de lidar com o luto. Apesar de ser uma pessoa caucasiana, por parte materna toda a minha família é racializada. Isso influenciou parte da minha vida, não só no sentido educacional, mas também cultural. Ver essas vivências, experiências e como o olhar social influencia o convívio me fez trazer isso para a forma como me relaciono com as outras pessoas. Com isso surgiu “Barulho”. Só que, junto ao Léo e ao Caio, nós não quisemos centralizar a história apenas no meu bisavô ou apenas nos lutos que estávamos vivendo naquele momento. Queríamos falar também sobre conflito geracional, através do Humberto, do Nilson e do Xis, mas principalmente sobre como o homem negro gerencia suas emoções e como isso afeta a sociedade. O ato mais brutal que se pode fazer é a desumanização, é retirar das pessoas suas ações e emoções. E como isso acontece? Através de frases que ouvimos desde sempre: "Você é o provedor da casa", "Homem que é homem não chora". Mas a quem essa frase é dita com mais frequência? Ao homem negro. Tem um livro maravilhoso que traz uma frase muito bonita: "As mulheres negras são as que têm mais motivos para chorar, mas a elas não são dadas nem permissão nem tempo". Então daí surgiu “Barulho”. E qual gênero é mais político, mais nosso e mais histórico do que o samba? Leonardo Lumas: Toda a construção de “Barulho” surgiu dessa homenagem que a Ju comentou. Quando a gente estava escrevendo, estávamos em plena pandemia. Então sentíamos muito aquela situação do luto e do isolamento. Não podíamos sair de casa. E o Humberto, mesmo não estando numa pandemia dentro da história, está isolado no apartamento justamente por causa do luto. Então a pandemia acabou criando uma camada a mais para a narrativa. Eu confesso que nunca tive muita ligação com o samba. Nasci no interior de São Paulo e, dependendo da cidade, não existe uma tradição muito forte. O máximo que a gente conhecia eram as antigas marchinhas. Participar dessa história me fez aprender bastante sobre o gênero, sobre sua história e sobre as pessoas que construíram o samba. Conheci muitas músicas. Utilizamos canções antigas, clássicas, de domínio público, que ajudaram a formar o samba que conhecemos hoje. Foi muito gratificante participar desse projeto, não só para contar nossas histórias, nossas dores e alegrias, mas também para entender um pouco mais da história do Brasil e da música brasileira. Ana Beatriz Andrade: Uma coisa que eu achei muito bonita no filme é que ele traz aquela sensação de que nós, brasileiros, vivemos um eterno musical. A gente é muito fiel ao ditado de que "quem canta seus males espanta", e foi exatamente isso que senti assistindo ao filme. Como foi para vocês trabalhar essa relação entre o samba, o afeto e o luto do Humberto? Como amarrar tudo isso dentro do roteiro? Leonardo Lumas: Quando estávamos escrevendo e produzindo essa história, queríamos que tanto o silêncio quanto o barulho fossem personagens. Só que não qualquer barulho, estamos falando literalmente da música. O Humberto tem suas razões, além do próprio luto, para buscar paz e sossego. Então criamos essa antítese entre o silêncio e o barulho para falar tanto dos sentimentos dele quanto dos sentimentos do Nilson e do Xis. Porque eles vivem o luto de formas completamente diferentes. Os dois meninos celebram a vida que a avó teve. Já o Humberto ainda está triste e ressentido pela perda. Julyfrans: Tem um samba maravilhoso sobre a chegada de um sambista ao céu. Eu até tenho uma foto com meus avós no Instagram. Ela fala sobre os clarins anunciando a chegada de mais um sambista e sobre transformar esse encontro em um terreiro. Para mim, essa musicalidade é muito importante. É como entrar na avenida. É transformar sua vida, sua musicalidade e sua existência em etapas, assim como acontece num desfile. Eu acho que o samba é exatamente isso. Por isso que ele é tão político. E foi por isso que escolhemos o samba, para unir essas musicalidades e unir também duas gerações. Nada melhor do que o gênero mais político que existe, mas sem necessariamente fazer uma roda de samba. Ana Beatriz Andrade: Outra coisa que me chamou atenção foi que “Barulho” tem apenas 17 minutos. Imagino que vocês tenham precisado fazer algumas escolhas importantes sobre o que manter e o que deixar de fora. Como foi esse processo de selecionar o que entrava e o que tinha que ser deixado para trás? Leonardo Lumas: É engraçado porque, quando estamos falando de uma produção audiovisual, esses cortes já começam a acontecer durante a gravação. Então a gente já sente essa dor nessa etapa. Tem coisas que simplesmente não dá para fazer. Às vezes, por conta do cenário ou das condições da produção, você precisa adaptar ou fazer de um jeito completamente diferente. Tinha uma cena muito importante para a gente, que era a cena da chaleira. Queríamos enfatizar um pouco mais essa questão do barulho e do silêncio. Mas, na ordem do dia, ela não conseguiu ser gravada a tempo. Era uma cena em que o Humberto estaria enclausurado pelo silêncio, ouvindo a chaleira apitar e sem conseguir ir até ela. Infelizmente, essa cena precisou ser cortada ainda durante a produção. Eu diria que, na edição, os cortes foram mais pontuais, porque muita coisa já tinha sido resolvida antes. Então o processo acabou sendo mais fácil nessa etapa. Nossa principal preocupação era que, mesmo com tantos cortes, a história continuasse fazendo sentido. Então, ainda bem que o curta ficou coeso e a história continuou viva. Julyfrans: A gente teve muita sorte de contar com a Karen na direção, sempre trabalhando em sintonia com a gente. Antes mesmo das filmagens, já conversávamos muito sobre isso, porque todo curta - na verdade, todo projeto audiovisual - vai passar por cortes no processo final. O que você escreve é aquilo que imagina. Mas a locação, o tempo disponível, os recursos e os imprevistos fazem com que o resultado final seja diferente do que estava no papel. Ter a Karen [Suzane] ali como diretora ajudou muito. Ela é uma diretora incrível. Eu sempre quis trabalhar com ela e sou muito fã do trabalho dela. Acho que, quando você é roteirista, é natural criar apego ao que escreveu. Mas a arte de desapegar também é um ato de maturidade. Você precisa estar pronto para encontrar soluções, acrescentar novas possibilidades e até criar algo melhor do que aquilo que imaginou inicialmente, sem impedir o que a direção está tentando construir. Além disso, tivemos um elenco muito natural. Eu e o Léo compartilhamos bastante essa visão. Nunca fomos do tipo que exige que cada palavra seja dita exatamente como está no roteiro. Claro que existe o diálogo e a estrutura da cena, mas gostamos de deixar espaço para a improvisação, para o momento e para a naturalidade. Tivemos a honra de trabalhar com um elenco maravilhoso: Carlos Francisco, Elisa Lucinda, Dan Ferreira, Vitor Brito e Alícia dos Anjos. Esse elenco é realmente extraordinário. Leonardo Lumas: Queria complementar o que a Ju falou sobre a Karen. Além de roteiristas, nós também fomos coprodutores do curta. Então ela sempre nos consultava sobre tudo. Ela perguntava: "Vamos precisar mudar essa cena?", "Vamos cortar essa?", "Vamos adaptar aquela?". Foi uma diretora que fez questão de ouvir nossa opinião durante todo o processo. Por isso, a parceria foi muito interessante. Imagem: Divulgação Ana Beatriz Andrade: Com o filme alcançando novas audiências e novos públicos, o que vocês esperam que as pessoas levem consigo depois de assistir ao curta? Julyfrans: Eu não diria necessariamente cura. Talvez musicalidade. Talvez a possibilidade de entender o luto de uma maneira diferente. Que as pessoas percebam que a presença de alguém não existe apenas na fisicalidade, mas também nas memórias. Que o caminhar de uma pessoa pode continuar sendo visto de diversas maneiras. Todos nós passamos por dores, por perdas e por momentos difíceis ao longo da vida. Mas acredito que também podemos nos reinventar e nos reencontrar. Às vezes, aquilo que precisamos está logo ao lado da nossa porta. Pode estar em um vizinho, em um som ou até mesmo em um silêncio profundo que nos permita refletir e nos reencontrar. Leonardo Lumas: Uma das coisas que aprendi é que perder a presença física de alguém não significa perder essa pessoa por completo. Significa encontrar uma nova forma de mantê-la presente na sua vida. Quando escrevo uma história, não costumo pensar primeiro em qual mensagem quero transmitir. Penso muito mais no que quero contar. Mas, respondendo à pergunta, acredito que a música é uma linguagem universal, independentemente do gênero. Escolhemos o samba por várias razões, mas poderia ser outro gênero também. Poderia ser rock, poderia ser forró. A música conecta as pessoas de maneiras diferentes. E o luto também é um sentimento universal. De certa forma, estamos unindo duas universalidades. O que espero é que as pessoas não enxerguem o fim apenas como um fim. Existem diferentes formas de lidar com a perda, e cada um encontra o seu caminho. Mas também não podemos permanecer afogados nela para sempre. Como Elisa Lucinda fala: não podemos deixar o samba morrer. E, às vezes, o samba também pode impedir que nós morramos por dentro. Ana Beatriz Andrade: Para encerrar a entrevista, vocês poderiam recomendar um filme brasileiro para quem acompanha o Oxente Pipoca? Essa pergunta é tradicional por aqui. Julyfrans: Nossa, são tantos. Tenho um carinho enorme por “O Auto da Compadecida”. Eu sei que é uma recomendação quase óbvia, que muita gente já assistiu, mas é um filme que amo profundamente. Cheguei até a comprar o roteiro. São tantos, “Branco Sai, Preto Fica”... Leonardo Lumas: Um filme que gosto muito pela dinâmica da história e pelas dualidades que apresenta é “Durval Discos”. Foi o primeiro filme que uma professora de roteiro me apresentou na universidade e me marcou bastante. Gosto muito da direção, do roteiro e da forma como a narrativa é construída. Ele também possui uma certa musicalidade. É um daqueles filmes que mereciam ser lembrados e comentados com mais frequência. “Barulho” é patrocinado pela BrasilCap, produzido pela Maruti Blue Produções, com produção associada de Tina Tigre, e distribuição da Tarrafa.
- Crítica | Toy Story 5
Animação resolve jogar com as cartas que conhece e acerta com gracejo todos os movimentos planejados. Imagem: Divulgação Toy Story 5 traz de volta Woody, Buzz Lightyear, Jessie e a turma para uma nova aventura em que os brinquedos enfrentam um desafio inédito: a tecnologia moderna. Quando Bonnie ganha um tablet inteligente chamado Lilypad, sua atenção começa a se afastar dos brinquedos tradicionais. Agora, os personagens precisam descobrir como continuar relevantes em um mundo dominado por telas e dispositivos eletrônicos. É no mínimo curioso perceber como a Pixar demorou tanto para dar a Jessie o espaço que ela sempre mereceu. Não porque ela precise ocupar o lugar de alguém ou carregar qualquer tipo de representação de agenda programática, mas porque sempre foi uma personagem forte o bastante para sustentar a própria história. Toy Story 5 entende isso e simplesmente a coloca no centro da narrativa, sem discursos ou grandes anúncios. A confiança está nas ações. E funciona muito bem. A presença dela, somada à de Bonnie e da mãe da garota, cria uma dinâmica familiar que o quarto filme jamais conseguiu desenvolver de forma convincente. Pela primeira vez em muito tempo, a franquia fala sobre abandono, crescimento e substituição sem transformar tudo em um espetáculo emocional. Toda a camada emotiva aqui é mais discreta, mais próxima da experiência real e, por isso, mais tocante. A ideia de colocar tablets e dispositivos eletrônicos como elemento central do conflito poderia facilmente soar como uma reclamação rasteira nostálgica de um espírito tiozão saudosista que está sempre falando "no meu tempo a gente brincava na rua". Felizmente, o roteiro evita esse caminho. A tecnologia em si não é tratada como vilã. O filme reconhece seu fascínio, sua utilidade e sua presença inevitável na vida moderna, e deixa claro que está em jogo não é uma disputa entre passado e presente, mas entre atenção dispersa e afeto, conexão genuína. Existe até certa ironia no fato de a franquia abordar esse assunto apenas agora, quando a discussão já parece antiga. Ainda assim, o atraso acaba jogando a favor do filme. Afinal, quem cresceu acompanhando Woody e Buzz também cresceu vendo o mundo mudar diante dos próprios olhos. Toy Story 5 conversa tanto com as crianças quanto com os adultos que passaram décadas ao lado desses personagens. A trama paralela envolvendo um exército de Buzzes tecnológicos inicialmente parece uma decisão puramente comercial. Só que o filme rapidamente encontra um propósito para esses personagens. Eles acabam funcionando como um reflexo distorcido do próprio Buzz Lightyear: versões programadas para cumprir funções, mas sem personalidade, imaginação ou individualidade. Aos poucos, deixam de ser uma simples piada visual para se tornar uma peça importante da narrativa. O mais interessante é que a Pixar não força essa transição. Quando o espectador percebe, já está investido na jornada daqueles bonecos e torcendo para que encontrem algum significado na trama mesmo. Imagem: Divulgação Quem espera sair da sessão emocionalmente destruído como aconteceu com Toy Story 3 talvez encontre algo diferente aqui. O impacto existe, mas surge de forma mais silenciosa. Em vez de apostar em grandes cenas de despedida, o filme encontra força nos detalhes: Bonnie deixando o tablet de lado para brincar, Jessie sendo escolhida mais uma vez, Woody observando de longe as mudanças inevitáveis da vida. São momentos simples, mas carregados de significado. A emoção nasce exatamente dessa compreensão de que crescer não é uma tragédia, é só uma parte do inevitável processo da roda da vida. E sim, às vezes, aceitar isso dói mais do que qualquer cena construída para arrancar lágrimas. Ao mesmo tempo, talvez este seja o filme mais engraçado da série. As piadas aparecem em sequência, com um ritmo acelerado que acompanha a forma como crianças consomem entretenimento hoje. Há sempre alguma observação inesperada, uma piada interna, uma alfinetada ou um recurso visual pronto para interromper a melancolia antes que ela se instale por completo. Os adultos devem encontrar uma camada extra de humor nas entrelinhas, enquanto os mais novos vão se divertir com a energia constante da narrativa. É engraçado que a animação reproduz justamente a hiperestimulação que está discutindo, mas faz isso de maneira consciente. Se todo mundo fingir que Toy Story 4 nunca aconteceu, Toy Story 5 certamente funciona melhor como continuação direta da trilogia original. Não porque tentou superar seus antecessores ou reinventar a franquia, mas porque entendeu o que torna esses personagens especiais para o público. O filme não busca respostas grandiosas e absolutas nem pretende transformar seus temas em lições definitivas, ele coloca Woody, Buzz, Jessie e os demais diante de um mundo que mudou e observa como eles reagem a isso. Há soluções previsíveis e algumas ideias recicladas, mas existe também uma sinceridade difícil de ignorar. Não dá para ser ingênuo em acreditar que em pleno 2026 a Disney esteja querendo fazer mais uma continuação apenas com boas intenções e coração puro. Porém numa época em que tantas sequências parecem existir apenas por obrigação (Toy Story 4), encontrar uma interessada em fazer seus personagens avançarem, ainda que um pouco, já é algo admirável. Quase trinta anos depois e esses brinquedos seguem encontrando novas maneiras de falar sobre afeto, pertencimento e memória para novas gerações. E isso, por si só, já tem seu valor. Nota: 4/5
- Entrevista | “A gente precisa de filmes que falem sobre mulheres”: diretora e atrizes falam sobre “Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha”
Janaína Marques, Veronica Cavalcanti e Luciana Souza conversaram com o Oxente Pipoca sobre o filme, grande vencedor da 15º edição do Olhar de Cinema Imagem: Divulgação Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Acho que um ponto crucial do filme é essa dimensão onírica e meio surreal que ele assume desde o começo para explorar a dinâmica das personagens, enquanto segue esse formato de um road movie. Não tem como não pensar em Aftersun e nos trabalhos do David Lynch, mas eu lembrei de séries como Sopranos, The Leftovers e Mr. Robot, onde existiam episódios que mergulhavam fundo na psique dos personagens através destes elementos mais surreais. Como foi para você, junto à equipe de produção, construir esses elementos de modo que o público os absorvesse, mesmo que nem tudo fosse ser explicado de maneira lógica ou racional? Janaína Marques: Quando começamos a fazer esse filme, uma das referências que a gente teve foi o filme Estou Pensando em Acabar com Tudo, do Charlie Kaufman, que trabalhava uma questão disruptiva em relação às personagens, a questão do tempo. Existia ali muita coisa que interessava a gente e que de alguma maneira nos cativou muito. Quando eu entrei na ICTV, na escola de Cuba, eu entrei muito interessada no cinema de Luis Buñuel, esses cineastas me chamaram muita atenção. Mas em termos formais, principalmente com a questão estética e tal, eu sinto que [Ari] Kaurismäki é para mim uma grande referência. Primeiro porque tem uma questão do artifício, que me ajuda muito nessa construção de código mental. E na questão da cor, na questão do minimalismo, também em cena, numa questão de não estar tão atado a certas questões de realismo. A linguagem cinematográfica é o território perfeito para contar uma história sobre imaginação, sobre essa questão onírica. Nossa grande preocupação era: precisamos construir algo que de alguma maneira o espectador compreenda e se conecte emocionalmente com essa obra, mas é um filme de código mental. Não é um filme nos parâmetros narrativos e tal. Então de que forma vamos construir isso? Então, acho que nesse sentido muita gente que está envolvida com o filme participou, como os roteiristas [Xenia Rivery, Pablo Arellano, Pedro Cândido e Taís Monteiro] e o Maurício [Macêdo], que é o produtor. Ele já chegou indicando Quixadá como uma locação e isso foi primordial até mesmo pros roteiristas. À medida que a gente ia descobrindo Quixadá, que é um lugar completamente original e potente em relação à paisagem, nos perguntávamos: "Aonde a gente pode chegar mais longe? As dunas, a floresta? E de que forma e como a paisagem do Ceará pode incrementar o filme como o código mental?". Então, de alguma maneira, tudo isso foi pensado no desenvolvimento da história. Tudo tá no papel, tudo tá ali. O Ivo [Lopes Araújo, diretor de fotografia] veio depois, mas tudo estava no papel já e o Ivo, logicamente, com o talento dele, incrementou como essas paisagens poderiam ser ainda melhor destacadas. Mas tudo foi pensado no desenvolvimento e eu acho que todas as cabeças de equipe ajudaram nesse processo. Eu sou uma diretora que escolho minha equipe para poder conversar com eles e aproveitar o que eu concordo, no sentido do que eles têm para me dar quando eu de alguma maneira provoco eles a essa história. E nesse sentido existe muita escuta, muita escuta mesmo, muitas leituras de roteiro, muita troca. Eu levo pinturas, eu levo música, eu levo poesia, tudo me interessa para poder facilitar minha comunicação de alguma maneira, até porque eu sinto que para mim o Foguete... é uma construção que está muito relacionada à poesia. Ele, como você falou, não está conectado para que o espectador realmente feche todas as peças. Mas ele está feito para que, assim como uma poesia, mesmo que você tenha uma frase que você leia e que e que não perceba o que não entendeu na junção, te emocione, que de alguma maneira toque a tua pele, que de alguma maneira te abrace. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O cerne emocional do filme é o processo de processo de Rosa de se reconciliar em alguma medida com as suas memórias e expectativas sobre Dalva, que se apresenta como essa figura quase “fantasmagórica”. Da perspectiva de vocês como atrizes, como foi trabalharem juntas para explorar os aspectos individuais das suas personagens e também a dinâmica entre elas, especialmente considerando que o filme é quase inteiramente sustentado em suas performances? Veronica Cavalcanti: Para mim foi encantador pensar na construção de uma personagem que ia atuar no plano da imaginação, que podia tudo e que podia muita coisa. Ela tinha uma liberdade para se transformar numa coisa que não era real, numa personagem, numa fantasia, enfim, se transformar numa criança, se transformar numa boneca se transformar no que ela quisesse. Isso foi encantador para mim logo de início, e depois desafiador. Eu fiquei pensando muito assim no em numa Rosa que tivesse duas versões: a Rosa do plano real e a do plano da imaginação. E o desafiador para mim foi que em alguns momentos do o roteiro pedia que a Rosa do plano da imaginação fizesse muita coisa e era segura do que ela queria viver ali, mas tinha uns momentos em que ela ficava estranha, e para mim aquele momento ali era como se a consciência da Rosa do plano real quisesse atacá-la [risos]. Então esses momentos aí foram desafios, mas muito bom estar nesse jogo do plano do imaginário, e poder circular, em termos de atuação, por esses estados da personagem, essa coisa meio louca mas muito sentimental, carregando todas aquelas questões que a Rosa do plano da realidade tinha, mas se divertindo, porque aquilo ali era o que ela precisava. E nossa relação desde o início foi de muita amizade, de muito companheirismo enquanto atrizes, de muita troca, e acho que a gente conseguiu levar para o nosso trabalho, na atuação. Luciana Souza: É interessante pensar que Dalva é uma construção de Rosa, está na cabeça dela, é um fantasma como você falou, e o roteiro e a direção também trazem esses elementos, mas eu como atriz vou também com tudo isso aí, ver como é que a personagem se resolve nessa história. E o nosso encontro, eu sempre repito isso, não foi um encontro técnico ou profissional. A gente se encontrou e começou a falar de nós, das nossas vidas. Não tinha indicação nenhuma para isso. Apesar de que, anteriormente, a gente teve um primeiro encontro virtual, a gente teve uma preparação com Armando Praça, o preparador de elenco e foi muito interessante. Ele foi ali nos provocando, tirando coisas, trazendo músicas, trazendo reflexões, ali esmiuçando o roteiro, os diálogos, a gente foi também já com essa bagagem para depois esse encontro prático. Mas o nosso encontro se deu com esse jogo, e também com a trajetória que o filme faz, da passagem por esses lugares e paisagens. Eu conhecia Fortaleza, mas não conhecia ainda outros lugares do Ceará. Fiquei muito encantada ao andar naquelas dunas, foi um grande desafio para mim. Eu gosto de fazer caminhada, faço trilha, mas lembro que foi um limite ali, e a equipe ficava embaixo dizendo: "Vai!" [risos], sendo que eu tenho que correr e não sofrer. E um sol a pino, sabe? [risos]. Foi desafiador isso, mas eu adoro. Eu acho que o trabalho do intérprete é isso. Eu preciso de ofícios, de uma direção que questione, que motive, que nos mova, porque a gente tem muita coisa dentro de nós para dar. Então, se eu escolher esse ofício, eu quero tirar essas coisas e fazer da melhor possível. Não quero dizer que eu faço esse filme da melhor forma possível, porque eu olho e falo: "Poxa, eu queria fazer assim melhor. Eu podia relaxar mais os meus ombros”. Eu sinto que às vezes estou tensa, mas talvez o filme também tem o propósito dessa tensão. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Acho que um ponto muito importante do filme é as identidades queers das duas personagens. É interessante pensar que são mulheres na meia-idade, que saíram de casamentos frustrados, e que estão ou estavam se permitindo viver outros aspectos de suas sexualidades. Em que medida vocês consideram ser importante trazer esse tipo de representação para as telas? Janaína Marques: Eu sinto que o filme, além da sororidade, fala também de ancestralidade. Fala muito dessas mulheres que vieram antes de você e que desbravaram o território para que de alguma maneira você possa andar nesse território de uma forma mais livre. Eu sempre vi a Dalva como uma mulher livre, uma mulher anárquica, uma mulher que faz o que deseja, que é capaz de amar seja onde for e gerar o amor seja onde for. Ela se coloca à frente e provavelmente por se colocar tão à frente pode ser uma mulher que está ali numa posição onde vai receber mais julgamentos, vai receber mais imposições da sociedade, mas ela se mantém firme e desbrava esse território. São essas mulheres que abrem caminho, de alguma maneira, literalmente. E eu acho muito bonito que Dalva represente o conceito de amor livre. A questão de ela amar outras mulheres para mim não se insere só numa questão de Dalva ter um amor livre, mas também de alguma maneira ela deixar de mensagem para as que virão, de que você pode amar quem você quiser, pode casar com quem quiser, pode não ter filhos se quiser, pode ser livre e decidir o que quiser da vida. A questão para mim no filme tem muito a ver com isso. que o que Dalva deixa de ensinamento para Rosa é: "Filha, é, você é livre para você ser o que você quiser ser". Rosa, de alguma maneira, começa a experimentar o mundo e se reconhecer nele, e renasce, mas agora não imposta pela sociedade. Experimenta coisas que não são convencionais, que não vêm da tradição, mas vêm do desejo. Vem do simples fato de que ela deseja experimentar e vai experimentar. E é por isso que eu sinto que o que acontece com Rosa é algo revolucionário. Luciana Souza: Eu acho que as relações homoafetivas estiveram na vida desde sempre, mas a gente vem construindo uma história de tabus, de que isso era outra coisa, ou era pecado. Tem tantas histórias nos são reveladas hoje e que trazem essa temática, mas que terminam muito conflituosas, e eu acho que o filme traz essa relação homoafetiva de uma forma natural, se propondo a discutir sexualidade, mas como uma coisa natural da vida. E isso é que está na nossa imaginação, porque a gente imagina um monte de coisa e não diz. A gente não diz por medo, por tabu, por não saber se aquilo vai chegar bem, enfim. Então, eu acho que vem essa perspectiva, que é um experimento, é natural e é uma busca também de uma felicidade, porque elas saem de relacionamentos que foram nocivos, que foram tóxicos. Então é uma experimentação, é uma busca de outras relações que sejam também boas para si. Veronica Cavalcanti: Aproveitando tudo que foi falado, eu acho que Rosa está no movimento de experimentar tudo o que acontece naquela viagem ali. Se ela foi afetada, ela experimenta, se joga. Ela também flerta com o profeta da chuva [Jonas, personagem vivido por Ridson Reis], está experimentando. Ela não está definindo nada ali, está só se deixando ser afetada pelas coisas que aparecem. E quando ela dá o beijo em Gislane (Christiane Lavor) ela se joga, vai com força, não pensa duas vezes, justamente num momento em que a personagem estava falando de superação. Então é como se fosse uma coisa de admiração também quando ela faz aquilo, quando você valoriza a pessoa e se encanta por ela. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme estreou em Berlim e agora aterrissou no Brasil primeiro aqui em Curitiba. Quais as suas expectativas para a recepção por parte do público brasileiro com o filme daqui em diante, até tomando a recepção do público daqui do Olhar de Cinema como um termômetro? Janaína Marques: A recepção em Berlim foi incrível. A gente ficou tão feliz quando soube que ia estar na Sessão Fórum da Berlinale, porque é uma sessão que pensa de que formas a linguagem cinematográfica está avançando no mundo, que está pensando o cinema de risco, o cinema autoral, um cinema mais representativo. E a gente foi tão bem recebido. É engraçado porque tanto na Berlinale como em Curitiba está fazendo um frio danado, e o filme é muito caloroso. Então de alguma maneira é muito especial pra gente entrar no cinema e ver todo mundo abrigado, mas ver uma tela tão cheia de luz, tão cheia de cor. E eu tenho a sensação de que o Olhar de Cinema é a representação da Sessão Fórum aqui no Brasil, é um festival que pensa o cinema, é um festival que pensa a diversidade, a representatividade, não só entre os autores, mas também na forma do filme. E a gente sempre sonha em estrear o filme no seu no seu habitat. Aterrissar no Brasil, poder falar o idioma, poder escutar as pessoas, poder de alguma maneira sentir qual é a recepção que as pessoas tem com a comédia que também existe no filme, como é que isso toca, é, se emociona, se não emociona, se as pessoas embarcam nessa viagem ou não, o que elas pegam, o que elas não pegam. É agora que a gente tem essa troca. Agora que eu acho que o filme cumpre o seu papel, que é o mais social mesmo, daí vamos conversar, vamos trocar: “O que ficou para você? O que que de alguma maneira tocou na sua pele? Fala para mim”, e isso vai impulsionando e emocionando também a gente nesse sentido. Então, chegar no Brasil é o que eu sempre desejei. O filme vai estrear nas salas comerciais ainda no final do ano, em dezembro. E o que eu desejo é que até lá a gente também possa fazer uma trajetória em outros grandes festivais, e que isso se cumpra com novos públicos, e que a gente possa, de alguma maneira, receber o carinho também. Não só o carinho, mas também o que as pessoas tiverem para dizer pra gente. Em relação ao filme, tudo isso importa pra gente. Agora a gente está recebendo, porque o filme já cumpriu seu papel, a gente soltou para o mundo. Mas foi lindo ver o filme numa sala tão bonita, num lugar tão bonito e numa projeção belíssima. Isso é muito importante para a gente, de que tudo saia bem, que a imagem que a gente fez se veja e se escute bem, e que a sala esteja cheia. Então, se você me perguntar se era o que eu desejava, eu direi que sim, era o que eu desejava, e aconteceu. Luciana Souza: O filme estreou em Berlim e foi na época do Carnaval. Eu sou carnavalesca de carteirinha [risos], mas foi meu Carnaval lá, porque foi muito contagiante. Então, essa trajetória vem para cá também, e a gente tem recebido de muitas pessoas esse calor que lá também foi impressionante, porque as pessoas vinham falar com a gente. A gente também teve uma sessão de debates, de entrevista, mas o público vinha falar com a gente, e aqui também a gente tá tendo isso. Só que aqui a gente tá tendo isso numa dose um pouco maior, até porque é mais o nosso território, porque a gente fala a mesma língua. A minha expectativa é que esse filme corra em festivais. Eu estava falando com Maurício ontem que é bom primeiro passar por festivais antes de chegar no cinema para todo mundo, porque a gente vai também apurando também o nosso olhar, o nosso entendimento também sobre essa história, afinando também nosso discurso e tendo essa oportunidade de estar em outros lugares e conversando com outras pessoas. Mas eu o que eu desejo que esse filme tenha um alcance e chegue para muitas pessoas que não tenham tanto acesso ao cinema. A gente tem tido uma política pública que tem melhorado um tanto isso, mas ainda sentimos que tem uma dificuldade de filmes nacionais chegarem a uma grande população. E eu acho que a população precisa de filmes dessa natureza. A gente precisa de filmes também que falem sobre ressignificação, transformação, aprofundamento de relações, imaginação, enfim, que falem sobre mulheres. A gente precisa ter mulheres protagonistas nas histórias, no fazer, na direção, na direção de arte também, etc. O Brasil tem muito a a se beneficiar com esse filme, com filmes nacionais feitos com essa intenção.
- Crítica | Salvação (15º Olhar de Cinema)
Drama turco apresenta no texto uma escalada de tensão e violência que raramente se concretiza na imagem. Imagem: Divulgação Filmes de encerramento de festivais sempre sofrem com uma experiência ingrata por parte do público. Depois de 10 dias intensos, alguém ainda realmente está 100% disposto a assisti-los? Ainda assim, havia curiosidade pela premissa de Salvação, longa turco de Emin Alper que ganhou o Prêmio do Júri na última edição do Festival de Berlim. Ambientado no interior da Turquia, o filme acompanha os embates entre dois clãs através sobretudo dos olhos de Mesut (Caner Cindoruk), o qual gradativamente contesta a liderança do irmão Ferit (Feyyaz Duman) para engajar seu clã contra os rivais. Com ecos de tragédia shakespeariana, Salvação propõe uma interessante (e desconfortável) discussão sobre genocídio, violência e fanatismo religioso. As ações de Mesut e seus eventuais companheiros e seguidores são sustentadas pelo “nome de Deus”, ou do avô do personagem, que foi uma liderança proeminente no clã. O uso dos sonhos e as aparições misteriosas e inexplicáveis de figuras fantasmagóricas e sobrenaturais até ancoram o longa num realismo mágico e numa curiosa ambiguidade, especialmente porque só temos acesso a determinados sonhos de Mesut, enquanto outros que ele declara ter tido para justificar suas ações cada vez mais violentas não são vistos, deixando-nos incertos sobre até que ponto ele está manipulando esta comunidade ou se realmente teve tais visões. O problema é que Alper parece nunca ter coragem o suficiente para levar o desconforto do texto para a tela. A violência é mais sugerida do que frontalmente trabalhada, e mesmo no clímax suas escolhas formais (as tomadas noturnas, a fotografia escura, os cortes bruscos, a câmera trêmula) revelam um receio de explorar a culminação da escalada de tensão e violência que vinha se desenrolando. Toda vez que parece que o filme irá adentrar sem medo um território mais perigoso e ousado em termos da intensificação do conflito, há um corte que revela que tudo não passou de um sonho. Da primeira vez que isso acontece é até tolerável pelo fator surpresa, mas é um recurso usado à exaustão durante praticamente todo o filme, esvaziando assim qualquer peso que quer se dar à discussão dentro da narrativa. Assim, Salvação é um filme que ensaia um impacto que nunca chega, já que desvia os olhos constantemente do seu próprio objeto de estudo – e faz com que nós, espectadores, sejamos forçados a desviar os nossos também. Tamanha polidez e “cuidado” para tratar de um tópico tão desconfortável só se convertem, no fim das contas, em covardia, o que faz do longa um encerramento morno e decepcionante para um festival que contou com obras muito melhores. Nota: 2.5/5
- Crítica | O Urso (2ª Temporada)
Uma série que entende seus personagens e amadurece junto com eles Foto: Divulgação Poucas séries foram tão abençoadas com o poder do boca-a-boca positivo como O Urso. A primeira temporada, lançada em junho do ano passado (período pouco fértil para a TV por vir logo após o fim da janela de elegibilidade do Emmy), foi um fenômeno avassalador, conquistando a crítica e o público ao nos levar ao cotidiano caótico do restaurante The Beef, em Chicago. Porém, mais do que nos induzir à ansiedade por diversas vezes devido à rotina caótica e desgastante de trabalho do local, o grande mérito da temporada foi explorar o caos particular e visceral dos seus personagens, em especial o protagonista Carmy (Jeremy Allen White), após a morte de seu irmão Michael (Jon Bernthal), dono anterior do restaurante. Mas mesmo em meio aos conflitos internos de cada um, havia a promessa de evolução e amadurecimento para eles, e é sobre essa base que a segunda temporada da série se assenta, melhorando praticamente tudo que foi entregue no primeiro ano e ainda ousando se reinventar. Não que o caos tão marcante da primeira temporada não esteja presente, mas aqui temos mais um “respiro” no ritmo da série, entregando momentos de calmaria, silêncio e placidez conforme a equipe lida com a reforma do The Beef para transformá-lo num novo restaurante, chamado O Urso. Prova disso é a própria sequência silenciosa de abertura, envolvendo Marcus (Lionel Boyce) e sua mãe, que serve de extremo oposto à abertura infernal da temporada anterior. O próprio Marcus é um símbolo da proposta da temporada. Junto com outros personagens como Sydney (Ayo Edebiri), Tina (Lisa Colón-Zayas) e Richie (Ebon Moss-Bacharach), ele ganha seu destaque no maravilhoso quarto episódio, onde viaja a Copenhague para aprimorar suas habilidades como padeiro e confeiteiro e firma um laço com o chef Luca (Will Poulter, a primeira de muitas aparições especiais da temporada). A cena em que ambos conversam sobre suas vidas e Luca fala da importância de não se pressionar e viver o mundo fora do trabalho não é apenas um dos pontos altos da série, como também usa o silêncio e a falta de trilha sonora de tal maneira que cria um contraste chocante com o frenesi, gritaria e tensão de tantas outras cenas que já tínhamos visto. Foto: Divulgação Da mesma forma, Richie recebe talvez o melhor arco da temporada, num crescimento belíssimo – e, mais importante, orgânico – coroado pelo fantástico sétimo episódio, que o torna talvez o melhor personagem da série no momento. Quem poderia imaginar que o homem insuportável e sem propósito da temporada passada culminaria na figura que vemos cantando Taylor Swift a plenos pulmões, que é elogiado por ninguém menos que Olivia Colman (em outra das aparições especiais da temporada) e por quem vibramos e torcemos? Mas trata-se de um mérito da escrita certeira de O Urso, a qual ganha vida através da direção pulsante e sensível da série e do seu elenco irretocável. Cada um desses aspectos interligados nos permite abraçar a humanidade desses personagens; os entendemos e os amamos porque a série faz o mesmo por eles e reconhece as possibilidades de suas trajetórias. “Propósito”, aliás, parece ser a palavra que guia a temporada, pois é o motivador das mais diversas jornadas que acompanhamos. Temos Sydney em seu crescimento pessoal e profissional; Tina assumindo o lugar antes ocupado por Syd no restaurante (a cena em que a personagem recebe essa oferta me fez chorar nas duas vezes que assisti); Natalie (Abby Elliott), ganhando um merecido maior espaço nesse segundo ano; e tantos outros, até aqueles mais ausentes, como Ebrahim (Edwin Lee Gibson). E é por isso que, ao não conferir o mesmo senso de propósito ao protagonista Carmy, a temporada consegue ser em alguns momentos ainda mais brutal do que a primeira. Essa não é uma crítica a uma falta de desenvolvimento do personagem, muito pelo contrário; há uma escolha intencional em fazê-lo (in)conscientemente se autossabotar em relação às responsabilidades com a obra e seus colegas, especialmente através do seu relacionamento com Claire (Molly Gordon). Entendo quem não tenha gostado desse relacionamento – eu mesmo vi a personagem muito como uma manic pixie dream girl na minha primeira assistida –, mas ao rever a temporada me peguei embasbacado em como diversas questões são antecipadas e prenunciadas, especialmente no que se refere à Carmy e à sua falta de foco, num movimento circular nada menos que perfeito. O último episódio é uma montanha-russa tão intensa e visceral que me deixou completamente atordoado e sem reação, especialmente pelos melancólicos 10 minutos finais, que ilustram perfeitamente como vimos nosso protagonista promover o crescimento de todos, exceto de si próprio. E a chave para isso está no tão comentado sexto episódio, que se destacou graças ao seu conjunto espetacular de estrelas convidadas (Jamie Lee Curtis! Bob Odenkirk! Gillian Jacobs! John Mulaney! Sarah Paulson!). Mas mais do que tantos atores e atrizes importantes convidados, o que mais me fascina nesse episódio é como cada um deles se integra naturalmente à história pregressa de O Urso, num acerto memorável de escrita e interpretações. Além do mais, o episódio (junto com a finale) parece reunir toda a ansiedade dispensada pelos outros, exibindo uma reunião tão caótica e brutal de família no Natal que facilmente entendemos os traumas e dores dos irmãos Berzatto, em especial Carmy, numa aula de contextualização que se ramifica pelos demais eventos da temporada. Poderia falar de muito mais – da trilha sonora que continua excepcional, por exemplo –, mas creio que, não importa quantas vezes eu assista a segunda temporada de O Urso, sempre vai me saltar aos olhos o cuidado aqui demonstrado com seus personagens e seus arcos, que se mostram críveis e orgânicos, sejam em suas vitórias ou em suas derrotas. É uma aula de evolução tanto técnica quanto narrativa, e que nos deixa com um gosto agridoce, mas também de altíssimas expectativas pelo que está por vir na série. E não restam dúvidas: esses 10 episódios se constituem como uma das melhores coisas exibidas na TV neste ano. Nota: 5/5
- Crítica | Supergirl (2026)
Adaptação não vai muito além do mínimo que um filme de herói deve ser: bobo e divertido. Imagem: Divulgação Kara Zor-El, a Supergirl, vive uma fase de desilusão e busca por propósito. Durante uma viagem pela galáxia ao lado de seu cão Krypto, ela conhece a jovem Ruthye, uma garota que teve sua família destruída por um criminoso implacável. Movida pela dor da nova companheira, Supergirl embarca em uma jornada interestelar de vingança e justiça, enfrentando perigos, dilemas morais e inimigos poderosos pelo caminho. Supergirl adapta a celebrada HQ Mulher do Amanhã sem a mesma ambição que tornou o material original tão marcante. A escolha, no entanto, não é necessariamente um problema. Ao suavizar aspectos mais densos da trama e simplificar parte de sua construção dramática, o longa encontra um ritmo mais acessível e até mais fluido para o cinema. A jornada de Kara Zor El ao lado da jovem Ruthye preserva o cerne emocional da história, especialmente quando a narrativa revisita Krypton em um flashback que se integra de maneira eficiente ao enredo. O problema é que, ao longo do caminho, o roteiro acumula inconsistências difíceis de ignorar. Boa parte dessas fragilidades aparece na forma como a protagonista evolui. Há momentos em que suas limitações e capacidades físicas mudam conforme a conveniência da cena, sem que a trama estabeleça adequadamente as razões para isso. A relação de causa e consequência se mostra frequentemente confusa, enfraquecendo o impacto de acontecimentos que deveriam moldar a personagem. Mesmo dentro de um universo assumidamente fantástico, certas soluções parecem pouco sustentáveis e revelam uma elaboração apressada de elementos fundamentais da narrativa. Se o texto escorrega, Milly Alcock ajuda a manter o filme de pé. A atriz constrói uma Kara carismática, vulnerável quando necessário e determinada nos momentos decisivos. Sua interpretação oferece camadas suficientes para que a heroína tenha identidade própria, evitando que se torne apenas uma versão feminina de figuras já conhecidas do universo da DC. Jason Momoa também se destaca como Lobo, abraçando o exagero do personagem com entusiasmo contagiante. A sensação geral é de um elenco que compreendeu exatamente o tipo de diversão que a produção pretendia oferecer, e que, honestamente, todo filme do gênero deveria focar. Imagem: Divulgação Visualmente, no entanto, a produção deixa uma impressão menos positiva. A fotografia adota uma paleta dessaturada que remete ao padrão visual popularizado por diversos dos filmes de herói do estúdio vizinho. O resultado é uma estética excessivamente uniforme, que reduz o impacto de cenários grandiosos e impede que momentos visualmente mais elaborados ganhem a força que mereciam. Em vez de potencializar a escala da aventura, a imagem frequentemente a torna mais comum do que deveria. E imprime até um certo desleixo quanto ao refinamento estético. Ainda assim, Supergirl funciona dentro de suas próprias limitações. É um filme que compreende sua natureza de entretenimento leve e sabe que não precisa inserir uma alegoria política rasa e cheia de contradições para pagar de descolado, em vez disso, deixa toda a diegese por conta da fantasia pura e “simples". Da mesma forma que Superman havia encontrado um caminho próprio ao apresentar seu protagonista, esta nova adaptação consegue introduzir Kara de maneira inventiva e simpática. Nota: 3/5
- Crítica | Dia D
Steven Spielberg volta ao gênero que o consagrou com filme que se recusa a se sujeitar ao cinismo dos nossos tempos Divulgação Ao longo de uma carreira de mais de meio século, são vários os gêneros que Steven Spielberg trabalhou ou ao menos tangenciou, mas poucos são tão associados a ele quanto a ficção científica, sobretudo aquela que envolve extraterrestres. Não só dois dos filmes mais emblemáticos do gênero são seus – Contatos Imediatos de Terceiro Grau e E.T.: O Extraterrestre – como ele soube como poucos explorar a paranoia do 11 de Setembro em Guerra dos Mundos. Nesse sentido, Dia D foi vendido como seu retorno triunfal ao gênero, e ainda que os filmes acima citados explorem facetas distintas cada um, seria fácil para o diretor apostar no seguro e se contentar em entregar suas habituais marcas estilísticas e temáticas. Felizmente, não é o caso. Sim, é um filme genuinamente spielberguiano, com suas movimentações de câmera criativas e um trabalho sempre primoroso de mise-en-scène, a trilha marcante de John Williams e um certo senso de otimismo que ainda é visto pelos seus detratores como uma fraqueza e não uma força. Mas o veterano diretor, prestes a fazer 80 anos, faz à sua maneira algo próximo do que seu amigo Martin Scorsese fez com O Irlandês, ao revisitar o gênero que o consagrou com um olhar mais reflexivo, sensível e maduro. Assim, Dia D pode ter algo dos seus outros filmes sobre ETs e até de outras produções suas, mas também marca algo novo em sua carreira. O foco é muito menos na presença alienígena em si e mais na reação humana a algo tão grandioso e disruptivo; em particular, sobre se estamos preparados enquanto humanidade a reavaliar nossas crenças frente a um evento que mudaria para sempre nossa história. Pense no Dr. Alan Grant vendo os dinossauros pela primeira vez em Jurassic Park: e se 8 bilhões de pessoas tivessem aquela reação ao mesmo tempo? Para chegar a tamanha reação coletiva, Spielberg inscreve seu filme muito mais no terreno do thriller de espionagem, ou daqueles corporativos dos anos 1970 como A Trama ou Três Dias de Condor. Neste universo, Daniel Kellner (Josh O’Connor) é uma espécie de Edward Snowden que tem sobre si a responsabilidade de vazar os segredos acumulados por décadas que os poderosos, representados na figura da corporação Wardex e seu sombrio líder Neal Scanlon (Colin Firth), tentam esconder a respeito da existência de vida alienígena. Os caminhos de Daniel eventualmente se conectarão com o da repórter Margareth Fairchild (Emily Blunt), que vê desabrochar habilidades há muito tempo escondidas e que serão fundamentais para revelarem estes segredos ao mundo. O filme não demora a revelar seu foco na questão da vida alienígena, mas, apesar de todo o marketing ter escondido uma boa porção dele (sobretudo o terceiro ato), o interesse de Spielberg se dá mais nessa luta entre duas forças antagônicas a respeito do controle sobre tamanha narrativa. É até emblemático que não só Margareth seja uma jornalista, como que, em tempos de desinformação e IAs, o jornalismo seja escolhido como este campo pelo qual a verdade pode ser revelada. Considerando a presença de Blunt num outro blockbuster recente a tratar da profissão (O Diabo Veste Prada 2), é uma coincidência tão notável quanto curiosa. Com este enfoque muito mais no campo do thriller, Dia D se revela um blockbuster de aspirações mais modestas do que seu marketing dava a entender, o que certamente pode frustrar uma parcela do público acostumada ao escopo operático de obras do gênero, inclusive algumas do próprio Spielberg. Mas que satisfatório é ver um filme que sabe construir momentos de construção de personagens, sabe ter respiros na hora certa à medida que desenvolve tanto Daniel e Margareth quanto seus parceiros (Eve Hewson e Wyatt Russell). Isso não significa que se trate de um longa arrastado, pelo contrário: os personagens estão constantemente em movimento e fuga, a tensão abunda em diversas das cenas (Spielberg sempre foi um mestre subestimado do suspense), e há pelo menos duas ou três setpieces de ação que estão entre as melhores da sua carreira. Tudo isso culmina num final que, sem dar maiores spoilers (embora seja perceptível para onde o filme vai), talvez se consagre como um dos melhores da filmografia do diretor. É também o público pode mais se dividir, pois aqui ele nos pede o que parece tão difícil: que acreditemos. A questão da fé permeia toda a obra, seja de maneira mais direta (sobretudo com a personagem de Hewson, que é talvez um dos maiores destaques do filme) ou alegórica, no sentido de aceitar a grandiosidade de tal evento. Mas Spielberg, esse herdeiro do cinema clássico que sabe que a magia dos filmes reside em olhar – e acreditar no que estamos vendo –, explora esse olhar ao máximo, nas suas mais diversas reações: incredulidade, pânico, choque, deslumbramento, aceitação. Assim, em tempos tão cínicos e desesperançosos (e onde o audiovisual precisa corresponder a esse sentimento ou será desprezado pelo público), em que até mesmo ETs podem ser usados como cortina de fumaça para governos de extrema-direita, Spielberg nos convida a um salto de fé. E o faz por intermédio da sua maior força: o cinema, essa fonte de fantasia e maravilhamento, que nos fez acreditar que houvessem outros mundos além do nosso e que houvesse vidas neles. Por que não se permitir acreditar mais uma vez, afinal de contas? Nota: 4/5
- Crítica | O Segredo de Widow’s Bay (1ª temporada)
Série se apropria com segurança da linguagem do horror num equilíbrio impecável do gênero com a comédia. Imagem: Divulgação Mesmo à primeira vista diametralmente opostos, horror e comédia são gêneros que de alguma forma se encontram na quebra de expectativa e na manipulação que exercem sobre o público, bem como no fato de apostarem em reações extremas (seja o riso ou o susto). Não à toa a última década tem visto a emergência de diversos realizadores egressos da comédia que se lançaram no horror – mas sem deixar de lado suas raízes –, como Jordan Peele e Zach Cregger. Agora, com O Segredo de Widow’s Bay, a fusão entre os dois gêneros alcança um novo patamar. Criada por Katie Dippold, ela própria egressa da comédia (tendo sido roteirista da saudosa Parks and Recreation), a série é ambientada na cidadezinha insular homônima, que há séculos lida com seu isolamento do continente e fenômenos mais do que estranhos, mas que, contudo, são relevados ou só ignorados pelos seus habitantes, a começar pelo seu cético prefeito Tom Loftis (Matthew Rhys), que quer fazer do lugar um ponto turístico na Nova Inglaterra. Mas, como se não bastasse a excentricidade de habitantes locais como o pescador Wyck (Stephen Root), a dificuldade de lidar com seus colegas de trabalho como Patricia (Kate O’Flynn) ou até os conflitos com o filho adolescente Evan (Kingston Rumi Southwick), aos poucos Tom começa a perceber que talvez os mitos de Widow’s Bay tenham sim um embasamento na realidade, e que forças ocultas atuam sobre a ilha. O Segredo de Widow’s Bay não se furta a indicar as referências de que bebe, seja dos clássicos da literatura de horror de Stephen King, do cinema de John Carpenter ou até de outras séries como Lost, Twin Peaks e a já referida Parks and Recreation (no humor extraído da burocracia do serviço público e das excentricidades locais). Pelo menos cada episódio aponta para um tropo ou referência específica – seja a casa assombrada do segundo episódio, o folk horror do sexto ou o slasher do oitavo. O que Dippold faz com maestria é pegar esse conjunto de referências e embalar em uma obra com muita identidade própria, que chega muito consciente do que quer entregar, especialmente à medida que vai revelando suas cartas acerca da mitologia local e dos elementos sobrenaturais. Imagem: Divulgação A direção do veterano Hiro Murai – cujo trabalho em Atlanta, Legion, Barry, Station Eleven e outras séries o reputou como um dos diretores mais conceituados da televisão contemporânea – já nos três primeiros episódios ajuda desde o início a estabelecer o tom da série, que se equilibra nessa linha tênue entre horror e comédia sem pesar a mão sobre um gênero em detrimento do outro, mas sabendo exatamente qual é o mais apropriado para aquele momento. Assim, é uma constante ao longo da temporada que o susto venha acompanhado do riso e vice-versa, e esse controle seguro sobre o tom adotado pela série só é possível pelo respeito que ela tem por ambos os gêneros, exibindo sua autoconsciência a respeito dos tropos e clichês com que trabalha, mas evitando cinismo ou desprezo como tantas produções atuais. Esse tom também é refletido nas atuações da série, a começar pela de Matthew Rhys no papel principal. Para quem, como eu, tem na memória seu soturno e angustiado Philip Jennings de The Americans (talvez meu personagem masculino favorito da história da televisão), ver Rhys exercendo suas habilidades cômicas é uma grande surpresa, mas o ator acerta em toda a composição de Tom, como uma figura cética, cansada e desesperada por trazer vida à cidade. À medida que a temporada avança e o personagem é forçado a confrontar os horrores de Widow’s Bay, Rhys ainda consegue aprimorar ainda mais esse timing cômico, sobretudo no quinto episódio; mas também há espaço para ele oferecer momentos pungentes de drama e ternura, como no último episódio. Ainda assim, ouso dizer que Rhys não é o grande destaque da temporada, porque esse posto talvez pertença a Kate O’Flynn. Sua Patricia começa discreta, mas já chamando a atenção pela figura socialmente desajustada e que serve tanto de apoio quanto contraponto a Tom. Mas quando ela recebe os holofotes no quarto episódio – e mais tarde no oitavo –, fica claro que tanto a personagem quanto a atriz são a verdadeira arma secreta da série, roubando a cena até em episódios na qual aparece menos. Outros nomes também se sobressaem, como Stephen Root, Dale Dickey (que tem toda uma sequência no nono episódio que disputa fácil pelo posto de mais hilária da série), a veterana K Callan e aparições especiais como Betty Gilpin e Hamish Linklater. Talvez Kingston Rumi Southwick tenha o trabalho mais ingrato aqui, já que todo o núcleo adolescente da série atende bem demais aos tropos de horror em termos de serem figuras insuportáveis e imbecis pelas quais torcemos que morram rapidamente, figurando como o único elo fraco da temporada. Ainda assim, fica evidente pelo episódio final que há grandes promessas no futuro para ele, então é torcer para que sua figura seja amadurecida e melhor trabalhada nas temporadas futuras. Com uma primeira temporada praticamente irrepreensível, O Segredo de Widow’s Bay pode figurar como talvez a melhor estreia do ano até o momento. Felizmente, o boca-a-boca ajudou a dar gás e trazer público para a série (que, como tantas outras da AppleTV, sofre com o marketing porco do streaming), e com a confirmação da sua segunda temporada, mal vejo a hora de voltar a esse lugar esquecido por Deus e rir e me assustar em igual medida. Nota: 4.5/5
- Entrevista | “O corpo fala quando não conseguimos processar certas coisas”: diretora e protagonista falam sobre "As Correntes"
Milagros Mumenthaler e Isabel Aimé Gonzalez-Sola comentam a criação de uma personagem que tenta compreender um gesto sem explicações fáceis. Imagem: Divulgação Imagine que você está no auge da sua carreira. Acabou de receber um convite para um prêmio na Suíça e passa os dias cercada por admiradores e pessoas que acompanham seu trabalho. Em meio ao evento, você encontra uma brecha para sair daquele lugar e caminhar pela cidade. Sem pressa, sem rumo, apenas observando as ruas ao redor. Então, ao passar por uma ponte, em um ato tão espontâneo quanto respirar, você se joga no rio. É assim que começa As Correntes, novo filme da diretora e roteirista argentina Milagros Mumenthaler. A história acompanha Lina, interpretada por Isabel Aimé Gonzalez-Sola, uma mulher que já não consegue habitar a própria vida da mesma forma. De forma silenciosa, uma fobia à água começa a reorganizar sua rotina, seus vínculos e a imagem de controle que ela construiu ao redor de si. O Oxente Pipoca pôde assistir ao filme com antecedência e conversar com Milagros Mumenthaler e Isabel Aimé Gonzalez-Sola sobre a origem da história, o processo de construção da personagem e os desafios de dar forma a uma narrativa que prioriza o sentimento ao entendimento. Depois de circular por festivais no Brasil e no exterior, incluindo o Festival do Rio, As Correntes estreia nos cinemas brasileiros em 18 de junho, com distribuição da Filmes do Estação. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Poderia falar sobre o processo criativo de “As Correntes”? O que veio primeiro para você: uma personagem, um roteiro, um sentimento ou algo completamente diferente? Milagros Mumenthaler: A semente deste filme foi uma imagem. Eu estava em Genebra caminhando à beira do rio e imaginei uma mulher se jogando na água. É uma imagem que permaneceu comigo por muito tempo e que me levantou muitas perguntas. Quem é ela? É um ato consciente? É um ato inconsciente? E havia também a questão da água. Então já existiam três elementos muito fortes. Um gesto, uma ação e um elemento. A partir daí comecei a desenvolver esta história. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Lina parece experimentar uma sensação de não pertencimento à própria vida, embora, do lado de fora, tudo pareça estável. Ela tem a carreira, o marido, a família… Então, quando você leu o roteiro pela primeira vez, qual foi sua primeira impressão da personagem? E como foi construir um sentimento tão difícil de definir, mas ao mesmo tempo tão reconhecível para tantas pessoas? Isabel Aimé Gonzalez-Sola: Quando li o roteiro, li uma vez só. Ele me provocou uma emoção muito forte, mais física do que intelectual. Não surgiram tantas perguntas; surgiu uma sensação muito intensa, como se eu tivesse entrado no imaginário de alguém. Senti uma conexão muito forte com o que ela estava vivendo. Sempre tentei conservar essa primeira emoção o mais pura possível dentro de mim, além de todo o processo, que foi muito longo, muito rico e muito fértil, que fizemos para entrar formalmente na personagem. Mas eu sempre voltava àquela primeira sensação. No fundo, parecia haver algo do estado dessa personagem: alguém muito próximo da própria vida, muito vital, mas que atravessa uma distância dentro de si mesma. Uma mulher que volta a se perguntar quem é, por que está ali e que coloca tudo novamente em questão, tudo o que construiu. Esse estado vertiginoso foi o que o roteiro mais produziu em mim quando o li, e foi isso que tentei manter vivo na atuação, sem responder essa pergunta. Como se não fosse algo psicológico, mas realmente um estado. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Algo que ficou comigo após assistir ao filme é que o salto de Lina não parece totalmente racionalizado ou mesmo inteiramente intencional. Ele parece nascer menos de um desejo de morrer e mais de um profundo esgotamento. Como você trabalhou para construir uma ação que funciona mais como impulso do que como explicação? Milagros Mumenthaler: Sim. Eu estava interessada em trabalhar a ideia de que o corpo tem memória e de que o corpo fala muitas vezes, manifesta-se quando a pessoa não quer ver ou não consegue processar certas coisas mentalmente. É como se, de repente, o corpo falasse. Também me parecia importante que esse gesto não fosse o fim de alguma coisa, mas o começo de alguma coisa. Que a personagem tivesse de voltar e se perguntar: “Por que eu fiz o que fiz?”. Esse caminho inverso me parecia muito mais interessante para contar esta história, porque as respostas não estão dadas. Na vida não existe resposta para tudo, e há algo de misterioso na vida que me interessava preservar. Se aquele gesto fosse o fim, seria como oferecer uma resposta muito mais concreta. Por isso, desde o início, a ideia foi: existe esse gesto, e agora vamos ver o que acontece depois. E esse também foi um caminho difícil em termos de roteiro. Depois de uma imagem assim, de um ato assim, a pergunta era: o que acontece depois? Como sustentar essa história?
- Produtora sergipana abre seleção de atrizes para longa-metragem afrofuturista
Floriô de Cinema busca mulheres negras e indígenas residentes em Sergipe para integrar o elenco de "Abya Yala – Raízes do Futuro". Imagem: Arte de Divulgação Estão abertas as inscrições para a chamada de elenco do longa-metragem Abya Yala – Raízes do Futuro (título provisório), nova produção da Floriô de Cinema, em Sergipe. A seleção busca mulheres negras (pretas ou pardas) e indígenas, cis ou trans, nas faixas etárias de 25 a 35 anos e de 55 a 70 anos. As interessadas devem residir em Sergipe e ter disponibilidade para participar de ensaios e filmagens entre janeiro e novembro de 2027. As inscrições são gratuitas e podem ser realizadas por meio de formulário online. Dúvidas deverão ser enviadas através do e-mail: floriodecinema@gmail.com O filme acompanha Dandara, uma mulher que vive no ano 3000 e viaja para o passado em busca da árvore de Abya Yala, único ser capaz de regenerar a flora de um futuro devastado pela crise ambiental. Ao chegar em 2030, ela descobre que sua comunidade enfrenta os impactos da expansão de uma empresa de data centers. Ao lado de sua ancestral Anaxé, precisará lutar para salvar tanto o passado quanto o futuro. Segundo a diretora Carolen Meneses, a obra propõe uma reflexão sobre memória, ancestralidade e preservação ambiental a partir de perspectivas africanas, indígenas e quilombolas.“A minha ideia com este projeto é falar sobre a importância da preservação da memória na construção da nossa identidade. Durante o processo de pesquisa das filosofias africanas, indígenas e quilombolas, percebi que elas acreditam que todo ser vivo é detentor de uma energia vital. No Abya Yala busco disseminar essa cosmovisão de respeito à natureza como esperança de futuro”, afirma. Para a cineasta, realizar seu primeiro longa-metragem em Sergipe também representa um marco para o audiovisual local. “Poder contar com um aporte financeiro é importante porque nos garante autonomia para fortalecer os cinemas negros e descentralizados. Acreditamos na importância dos investimentos públicos para consolidar e ampliar essas cinematografias”, destaca. A Floriô de Cinema é uma produtora sergipana comprometida com o impacto cultural por meio do audiovisual. Em trabalhos como Corpus-Água e Ímã de Geladeira, desenvolve narrativas que atravessam memória, território e identidade, apostando em um cinema capaz de remodelar imagens, criar novas histórias e ampliar as possibilidades de representação no imaginário coletivo. Abya Yala – Raízes do Futuro é uma realização da Floriô de Cinema, financiado por meio do edital nº 06/2023 — Tarcísio Duarte, executado pela Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe — FUNCAP/SE, com recursos da Lei Complementar Federal nº 195/2022 — Lei Paulo Gustavo e incentivo do Governo de Sergipe, Ministério da Cultura e Governo Federal.
- Entrevista | “Enquanto eu for exceção, isso ainda é um problema”: Jeferson De fala sobre audiovisual negro, Narciso e M8 – Parte 2
Diretor celebra a indicação ao Prêmio Grande Otelo, reflete sobre os avanços do audiovisual negro após o Dogma Feijoada e comenta os próximos projetos para o cinema e a televisão Divulgação: Vantoen Pereira Jr. Entre o reconhecimento no cinema e os novos desafios na televisão, o diretor e roteirista Jeferson De vive um dos momentos mais movimentados de sua trajetória. Responsável por obras marcantes como Bróder, M8 – Quando a Morte Socorre a Vida e Doutor Gama, o cineasta acaba de celebrar a indicação de Narciso ao Prêmio Grande Otelo de Melhor Filme Infantil. A produção, que acompanha a jornada de um menino negro em busca de identidade, pertencimento e afeto, tem sido apontada como uma das obras mais sensíveis de sua carreira. Ao mesmo tempo, Jeferson finaliza Carolina, adaptação inspirada na obra de Carolina Maria de Jesus, desenvolve M8 – Parte 2 e integra a equipe de direção da próxima novela das sete da TV Globo. Em entrevista ao Oxente Pipoca, o cineasta falou sobre os desafios de transitar entre cinema e televisão, os avanços e obstáculos para realizadores negros mais de duas décadas após o Dogma Feijoada, seus próximos projetos e a importância de contar histórias negras centradas na vida, nos afetos e na experiência coletiva proporcionada pela arte. Confira a entrevista completa: Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Você está vivendo um momento muito especial na carreira, conciliando projetos no cinema e também na televisão. Como é equilibrar essas diferentes frentes de trabalho como diretor? Jeferson De: É difícil, mas não vou dizer que seja difícil conciliar porque, para mim, é muito prazeroso. No fundo, eu trabalho com o mesmo ofício: a direção. Talvez a grande diferença seja que, no cinema, eu possa ser mais autoral. É também um trabalho muito artesanal. O cinema é um lugar onde consigo experimentar mais: tempos, elencos menos óbvios para determinadas tramas, trilhas sonoras e todo o universo audiovisual. Posso propor temas que nem sempre são usuais. Foi o caso de Narciso, por exemplo, que traz discussões nem sempre características dos produtos que faço na televisão. Já na novela, qualquer capítulo que eu dirijo alcança mais de 20 milhões de pessoas. No cinema, o público precisa comprar o ingresso; na televisão, basta ligar o aparelho e a história está ali. Existe também uma diferença industrial muito grande. No cinema, às vezes faço três ou quatro cenas em um dia. Na novela, faço 20, 26 cenas. Mas também tenho tido o privilégio de trabalhar na TV Globo com atores que sempre admirei. Estou falando com você agora e, há meia hora, estava dirigindo a Renata Sorrah. Já trabalhei com Tony Ramos, Glória Pires, Ailton Graça e tantos outros artistas que também têm uma relação forte com o cinema brasileiro mais autoral. Por isso, para mim, a relação é muito parecida. A maneira como dirijo é praticamente a mesma. Talvez seja um pouco mais rápida por conta da dinâmica industrial da televisão. Mas a trupe do circo é a mesma, seja no cinema ou na TV. No caso de Narciso, por exemplo, eu tinha acabado de fazer Garota do Momento na Globo. Levei para o filme pessoas com quem já havia trabalhado, como Ju Colombo. O Bukassa fez Narciso e agora está em Nobreza do Amor. Existe esse trânsito constante entre os dois universos. Tem sido um momento muito bonito da minha carreira. Principalmente porque, aqui na Globo, existe uma compreensão muito grande sobre o meu trabalho no cinema. Embora eu venha do cinema independente, me sinto muito acolhido. Sempre que surge a oportunidade de fazer um filme, existe diálogo. Posso dizer: “Depois dessa novela, gostaria de fazer um filme”, e isso é respeitado. Então, tem sido uma experiência muito rica esse diálogo entre o mercado, o cinema independente e o que temos de mais industrial no audiovisual brasileiro. Ao mesmo tempo, são recursos completamente diferentes. Na televisão, consigo ter 50 figurantes vestidos de época de um dia para o outro. No cinema, isso exige uma elaboração muito maior. Mas, no fim das contas, a vontade de contar histórias é a mesma. Vem dessa herança africana, dessa tradição griô de contar histórias. É isso que move tanto o meu trabalho no cinema quanto na televisão. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Como você mesmo comentou, este é um momento muito especial da sua carreira, de muitas conquistas e alegrias. E falando especificamente de Narciso, como você recebeu a indicação ao Prêmio Grande Otelo? Eu fiquei muito feliz quando vi a notícia e imagino que, para você, também tenha sido uma emoção enorme. É um filme que coloca uma criança como protagonista e aborda temas como fé, pertencimento e identidade de maneiras muito sensíveis. O que essa indicação representa para você? Jeferson De: Foi uma alegria muito grande para todos nós. Para mim, de forma especial, porque escrevi e dirigi o filme, e também para a Cristiane Arenas, nossa produtora. Estamos falando sobre a infância negra e acredito que Narciso ocupa um lugar de mudança de paradigma. Durante 90 minutos, o público acompanha uma história protagonizada por pessoas pretas retintas. A maioria do elenco é formada por pessoas pretas retintas e talvez a gente apresente algo que, infelizmente, ainda é revolucionário no Brasil e no mundo: nenhuma dessas pessoas morre ao final do filme. Só o fato de contar uma história em que pessoas pretas vivem, amam e constroem seus afetos já é algo muito diferente do que normalmente vemos. Em geral, quando personagens negros protagonizam narrativas, existe uma relação muito próxima com a morte, com a violência ou com a ausência de futuro. Em Narciso, eu quis contar uma história sobre a vida e sobre os afetos. Esse é o meu filme mais pessoal e mais autoral. Significava muito para mim e para toda a equipe realizar esse projeto. Tivemos uma fotógrafa preta, um elenco majoritariamente negro e uma equipe comprometida com essa visão. Por isso, festejamos muito essa indicação. Quando uma obra é reconhecida por sua ousadia, isso tem um significado especial. A indicação ao Prêmio Grande Otelo, escolhida pelos sócios da Academia Brasileira de Cinema, também chama atenção para a importância desse debate. Não é apenas um reconhecimento ao trabalho da equipe, do elenco ou da produção, mas um sinal de que o cinema brasileiro está olhando para essas histórias e entendendo sua relevância. Narciso fala sobre o afeto preto e, sobretudo, sobre o afeto da criança preta. Temos consciência de que as crianças estão entre os grupos mais vulneráveis à violência no Brasil. Quem é pai ou mãe sabe o quanto existe preocupação com a segurança dos filhos, seja na rua, na escola ou em qualquer espaço da vida urbana. E quando falamos das crianças mais afetadas pela violência, estamos falando principalmente das crianças pobres. E quem são, em sua maioria, essas crianças? São as crianças negras. O filme chega justamente nesse ponto mais frágil da nossa sociedade. Por isso, recebo essa indicação como um reconhecimento de que é possível falar sobre essas questões com sensibilidade. É o cinema dizendo que essas histórias importam. Estamos falando da maioria da população brasileira, que nem sempre aparece como protagonista das obras audiovisuais. Foi uma indicação que recebemos com muita alegria e também com a sensação de que essa história encontrou seu público e seu lugar dentro do cinema brasileiro. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu fiz essa mesma pergunta para a Lilian Santiago quando ela esteve em Sergipe, em abril, para uma masterclass sobre o Dogma Feijoada. Mais de duas décadas depois do manifesto, quais avanços você celebra e quais desafios ainda permanecem para realizadores negros no audiovisual brasileiro? Jeferson De: São vários avanços. Um deles é que ficou muito mais barato produzir um filme. Quando criamos o Dogma Feijoada, há cerca de 25 anos, era necessário filmar em negativo, revelar o material e depender de laboratórios que existiam basicamente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Hoje, de certa forma, houve uma democratização do acesso aos meios de produção audiovisual. Atualmente, você pode gravar um filme com qualidade 4K usando um celular, editar em aplicativos gratuitos e, principalmente, distribuir esse conteúdo. A possibilidade de fazer o audiovisual circular se tornou muito mais acessível. Mas talvez o avanço mais importante tenha sido o acesso à educação. Não existe cineasta negro ou negra que consiga fazer cinema sem estudar. É preciso estudar fotografia, artes visuais, dramaturgia, linguagem audiovisual, ler muito. E, nesse sentido, um fator fundamental foi a política de cotas. Estamos vivendo um momento em que uma grande população negra jovem chegou às universidades, aos cursos de cinema, audiovisual, humanas e até de exatas. Muitas dessas pessoas se tornaram realizadoras depois. Isso mudou profundamente o cenário. A tecnologia também nos permitiu criar redes. Quando surgiu o Dogma Feijoada, éramos um grupo de seis ou sete pessoas em São Paulo. Com o avanço tecnológico, participei de outro momento muito importante para o audiovisual negro brasileiro: o surgimento da APAN, a Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro. A APAN conectou profissionais de todo o país. Hoje faço parte de uma rede que reúne realizadores de Porto Alegre, Salvador, Maranhão, São Paulo, Rio de Janeiro e muitos outros lugares. A tecnologia teve um papel decisivo nesse processo de articulação. Por outro lado, apesar desses avanços, ainda existem barreiras importantes. O acesso aos grandes streamings, às grandes estruturas de produção e às emissoras de televisão continua sendo difícil. Ainda é um espaço muito restrito. Eu não sou a regra. Eu ainda sou uma exceção. Sou alguém que consegue fazer um filme a cada dois ou três anos, que vive de audiovisual, que sustenta a família trabalhando com isso. Essa ainda não é a realidade da maioria dos realizadores negros no Brasil. O grande desafio continua sendo ocupar esses espaços de decisão, especialmente dentro dos grandes players do mercado audiovisual. E, nesse momento, mais do que aumentar o número de atores e atrizes negros, a urgência é ampliar a presença de produtores e produtoras negras. Precisamos de produtores independentes, mas também de profissionais negros ocupando cargos de decisão dentro das grandes empresas. Pessoas que possam definir para onde vão os recursos, quais histórias serão contadas e quais projetos terão oportunidade de existir. Eu trabalho em uma emissora que tem demonstrado disposição para experimentar e olhar para lugares que historicamente não recebiam tanta atenção. Quando estreou Garota do Momento, por exemplo, as três novelas exibidas naquele período tinham protagonistas negras. Isso é significativo. Uma das minhas maiores felicidades é poder contribuir para esse movimento tanto no cinema quanto dentro de uma estrutura como os Estúdios Globo, que é a maior produtora audiovisual do país. Mas a verdade é que, se eu ainda sou visto como exceção, então ainda existe um problema. O dia em que deixarmos de ser exceção será o dia em que poderemos dizer que o projeto iniciado lá atrás pelo Dogma Feijoada alcançou plenamente seus objetivos. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Você falou um pouco sobre esse momento tão especial da sua carreira e eu queria pedir um panorama do que vem por aí. E preciso fazer um comentário: Garota do Momento foi a minha novela favorita. Eu era completamente obcecada pela trama. Agora estou muito ansiosa pela próxima novela das sete, que pelo que vi tem um tom mais dramático e traz novamente um protagonista negro, algo que chama bastante atenção. Além disso, você também está envolvido em Carolina, cujas gravações já foram concluídas, e em M8 – Parte 2, uma sequência que gerou uma repercussão enorme quando anunciamos no Oxente Pipoca. Muita gente comentou dizendo que esperava por essa continuação. Queria que você falasse um pouco sobre esses projetos e sobre o que o público pode esperar dos seus próximos trabalhos. Jeferson De: O Carolina está em fase de finalização. Tenho uma relação muito especial com a obra da Carolina Maria de Jesus. Há mais de 20 anos fiz um curta-metragem inspirado em sua trajetória, Carolina, que praticamente me lançou no cinema. Ganhei muitos prêmios com aquele trabalho e ele ajudou a viabilizar meu primeiro longa-metragem. Por isso, esse novo projeto, baseado em Quarto de Despejo, tem um significado enorme para mim. Acho que todo mundo está ansioso para vê-lo, mas talvez ninguém esteja mais ansioso do que eu para finalmente mostrar esse filme ao público. Já M8 – Parte 2 dialoga muito com a discussão que tivemos sobre as transformações no acesso à educação. Hoje é muito mais possível para jovens negros ingressarem na universidade do que era há algumas décadas. Isso representa uma revolução na sociedade brasileira. Muitos meninos e meninas negras são os primeiros de suas famílias a chegar ao ensino superior. Mas entrar na universidade é apenas uma parte da jornada. O mais difícil, muitas vezes, é permanecer nela e concluir o curso. E o M8 sempre tratou dessas questões. Costumo dizer que o primeiro filme acompanha o primeiro semestre daquele estudante de Medicina. Agora, na continuação, ele já está formado e surge uma nova pergunta: "E agora, o que eu faço?". Esse é um lugar muito complexo. Conversei com muitos médicos e médicas negras recém-formados, com coletivos de profissionais negros da área da saúde e ouvi relatos sobre solidão, desafios e sobre ainda ocupar um lugar de exceção dentro da profissão. Existem coletivos de médicos negros espalhados pelo país e isso é algo muito bonito de ver. O novo filme acompanha justamente esse personagem já formado, que continua ligado à sua comunidade, ao seu bairro, ao seu território. E mostra as contradições que surgem quando alguém conquista espaço profissional sem romper seus vínculos com o lugar de onde veio. Estamos escrevendo o roteiro e pesquisando bastante. O primeiro filme nasceu muito do coração. Este também tem coração, mas talvez venha acompanhado de uma reflexão ainda mais aprofundada sobre essa geração de jovens negros que chegou à universidade e agora enfrenta os desafios do mercado de trabalho. E tem também a novela, que estreia em agosto. Estou muito ansioso. Confesso que peguei gosto por esse universo. O cinema é a minha vida. Tudo o que sou, tudo o que construí, as viagens que fiz e as oportunidades que tive vieram do cinema. E quando falo de cinema, não estou falando apenas do filme que assistimos em casa. Estou falando da sala escura, daquele espaço em que as luzes se apagam e a magia acontece. Narciso, por exemplo, foi pensado para a sala de cinema. Claro que depois ele poderá ser visto em outras plataformas, mas foi construído para essa experiência coletiva. Eu acredito profundamente na sala de cinema. É um espaço que continua me emocionando. Ali, pessoas desconhecidas compartilham sentimentos, emoções e reflexões ao mesmo tempo. É uma experiência única. Recentemente vivi momentos muito especiais assistindo a filmes em salas lotadas. Vi pessoas cantando, chorando, se emocionando juntas. E isso é algo que não acontece da mesma forma quando assistimos a um filme sozinhos em casa. Existe algo muito poderoso nesse encontro coletivo promovido pela arte. Você olha para o lado e percebe que outra pessoa foi tocada pela mesma cena que tocou você. É uma experiência humana muito bonita. Talvez o que esteja faltando em muitos momentos da nossa história recente sejam justamente essas experiências coletivas. A arte tem essa capacidade de reunir pessoas, seja em um museu, em um show, em um concerto ou dentro de uma sala de cinema. E o cinema continua sendo um dos lugares mais bonitos para que isso aconteça. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu sempre gosto de encerrar pedindo uma indicação para o nosso público. Pode ser um filme, uma série ou até uma peça. Só não vale indicar um trabalho seu — Narciso está fora da disputa. Pode ser uma obra favorita, algo que tenha te inspirado ou simplesmente uma recomendação que você gostaria de compartilhar. Jeferson De: O último filme que me tocou profundamente foi Pecadores (Sinners). Ele passou pelos cinemas e agora está disponível no streaming. É um filme que me marcou por muitos motivos: pela música, pelas interpretações e pela potência da narrativa. Também tive uma experiência muito especial porque depois pude conhecer o diretor e parte do elenco. Conversei com Michael B. Jordan e com uma das atrizes do filme. Isso tornou tudo ainda mais pessoal para mim. Acho que Pecadores é um exemplo do tipo de história que eu gostaria de contar no Brasil. Uma narrativa que fala da experiência negra, mas que ao mesmo tempo dialoga com todo mundo. No filme existem personagens irlandeses, indígenas, a população branca conservadora, enfim, todos esses grupos convivem dentro da mesma história. Foi uma experiência muito bonita e um filme que tocou muitas pessoas. Além disso, é um espetáculo cinematográfico. É daqueles filmes pensados para serem vistos na tela grande. Eu revi o filme várias vezes e continuo ouvindo a trilha sonora com frequência. Acho as músicas incríveis. Então, além de recomendar o filme, também recomendo conhecer o trabalho do Buddy Guy e ouvir um pouco de blues. Existe uma conexão muito bonita entre a música dele e o universo que o filme apresenta.












