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- Entrevista | “O arquivo é protagonista da história”: Anita Leandro fala sobre “Anistia 79”
Documentário, que estreia nesta quinta (20), reúne passado e presente ao discutir a Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, realizada em Roma, em 1979. Divulgação No final da década de 1970, diversos representantes de movimentos de esquerda brasileiros, exilados na Europa em decorrência da repressão da ditadura militar, se reuniram em Roma para a I Conferência Internacional pela Anistia no Brasil. O intuito era oferecer um contraponto à Lei de Anistia que vinha sendo elaborada no Brasil e que, como sabemos, veio a anistiar tanto militantes de esquerda quanto os próprios militares. Os arquivos dessa conferência, guardados por décadas em um porão em Paris, foram achados e trabalhados por Anita Leandro, que os apresenta na forma de seu documentário Anistia 79, confrontando passado e presente ao entrevistar vários dos personagens presentes na conferência. O filme estreia nos cinemas nesta quinta (20), e você já pode ler a crítica do filme aqui, escrita em decorrência da sua exibição no 15º Olhar de Cinema. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Anita Leandro, que falou das semelhanças e diferenças entre Anistia 79 e seu filme anterior, Retratos de Identificação, que também se amparava nas imagens de arquivo para tratar da memória de ex-guerrilheiros e militantes. Além disso, a diretora falou da sua estratégia de confrontar passado e presente através das presenças dos(as) entrevistados(as), e do que é possível extrair a partir do retrato de uma esquerda plural no filme, diante do cenário de avanços da extrema-direita no Brasil contemporâneo. Você pode conferir a entrevista abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Anita, a sua filmografia tem sido construída em cima de um trabalho com imagens de arquivo e textos literários. Além de Anistia 79 eu também assisti Retratos de Identificação, e é possível perceber conexões entre os filmes, pra além de discutirem a ditadura e questões em torno de memória, sobretudo dos ex-guerrilheiros e militantes de esquerda da época. O que te motivou a voltar a estes temas com Anistia 79, 12 anos após Retratos? E o que você sente que há de diferente nas abordagens entre os dois filmes? Anita Leandro: Eu me debrucei sobre os arquivos da ditadura a partir de 2010, quando eu vim morar no Rio de Janeiro, e moro muito próximo do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, que tem a guarda dos acervos do DOPS da Guanabara, que é um dos acervos da polícia mais ricos do país. E quando eu conheci o acervo fotográfico do DOPS, fiquei muito impressionada com aquilo e mais impressionada ainda com o fato de que ninguém tinha feito um filme sobre esse acervo. O único até hoje foi o Retratos. Respondendo à sua pergunta inicial, talvez seja esse o ponto comum entre o Retratos de Identificação e o Anistia 79: o arquivo é protagonista da história. O arquivo como matéria viva, como vestígio do passado, o arquivo como conteúdo e forma ao mesmo tempo, como testemunha da história. São arquivos, no entanto muito diferentes nos dois filmes. No Retratos são arquivos da polícia, fotografias, e foi um filme mais difícil ser feito do que o Anistia, porque não tinha material sonoro. Já o Anistia foi um material riquíssimo que eu encontrei lá em 2016, da melhor qualidade, é tudo muito bonito. Embora tenha sido filmado como um material de cobertura, naquele estilo de reportagem, planos rápidos, eles são muito bem enquadrados. E aí eu tive a chance, a sorte de encontrar esse material no meu caminho durante uma pesquisa que eu estava fazendo desde 2015. Fazia pesquisas na Rádio Difusão Francesa e descobri que não tinha imagens de exilados. Pesquisei 14.000 títulos onde havia o nome Brasil e brasileiros durante a ditadura militar, e desses 14.000 a maioria era de Carnaval, Amazônia futebol e tal, mas sobre os exilados mesmo havia cinco reportagens que não ultrapassavam 7 minutos de duração. E isso na França, que é o país que mais acolheu exilados brasileiros. Então quando encontrei o material de Hamilton [Lopes dos Santos, diretor das filmagens originais da conferência], foi um acontecimento. E então eu comecei o filme pela montagem, mas desde o início, desde que eu descobri esse material, eu sabia que ele estruturaria o filme. Aliás, a primeira coisa que eu falei com o Hamilton foi: "O seu filme já tá pronto. Eu posso montá-lo, eu sou montadora, eu posso montar o seu filme. Não preciso fazer outro filme". Ele falou: “Não, mas seria legal. Eu quero saber o que que as pessoas estão pensando hoje”. Era o momento ali do golpe contra Dilma Rousseff e ele estava muito interessado em saber o que estava acontecendo no Brasil. Quando nós tivemos dinheiro, eu comecei a filmar as pessoas que estão presentes nas imagens. É o mesmo dispositivo do Retratos de Identificação, a confrontação de passado e presente, a confrontação de testemunhas da história com documentos de acontecimentos por elas vividas. Mas a diferença entre esses dois materiais é que o material do Retratos de Identificação é extremamente trágico, como se fossem imagens de filme de horror. Eu não fiquei brincando ali de montagem, transformando positivo em negativo, aquilo ali é o negativo, inclusive um negativo muito estragado já, ele tem uma umas manchas de ferrugem. E são imagens muito violentas, tal qual a polícia, o dispositivo de produção dessas imagens tá presente nelas. Já o material do Anistia é atravessado pela alegria dos reencontros, pela perspectiva de retorno ao Brasil. Você tem ali um primeiro um único encontro da diáspora brasileira, onde se tem três gerações de exilados. Você tem a Velha Guarda, os primeiros combatentes ali de 64 que foram presos já no dia primeiro de abril, como o Gregório Bezerra, mas você tem toda a geração de 68, tinha três ex-presidentes da UNE. E você tem a nova geração, que são os filhos dessa geração de 68, que nasceram no exílio, as crianças apátridas, sem papel, sem documento, que a ditadura não deixava serem registradas nem aqui, porque elas não podiam vir aqui, nem lá, porque os consulados, as embaixadas não aceitavam o registro dessas crianças filhas de exilados nascidos no estrangeiro. O grande desafio para mim era justamente mostrar essas imagens de um outro ângulo, não só esse da alegria dos encontros e do retorno ao país, mas também o outro lado da história, que é seu elemento trágico, aquilo que tá por trás dessas imagens e que levou essas pessoas até aquele encontro em Roma e a luta pela anistia: a própria história, uma história de morte, de desaparecimento, de tortura, de muita crueldade à qual os prisioneiros políticos foram submetidos. Então era preciso que a montagem trouxesse esse outro lado, e as falas das pessoas ao se depararem com essas imagens traz isso. Muitas delas evocam tudo que aconteceu depois: a manutenção do aparato repressivo, a impunidade dos torturadores, os atentados feitos pelos esquadrões da morte, depois da anistia, tudo que se seguiu ao processo de anistia. Então isso vem da fala das pessoas, mas também de outro arquivo que nós associamos ao material da conferência de Roma, que é esse registro do Tribunal Russell II. Ele aconteceu em Bruxelas, entre 1973 e 1976, e juntou um conjunto de juristas internacionais, que julgou os crimes de guerra dos ditadores da América Latina, não só do Brasil. E entre as testemunhas cujos depoimentos foram acolhidos pelo tribunal estão vários brasileiros, entre eles Denise Crispin, cujo testemunho foi filmado por uma equipe italiana em 1974. E o testemunho dela é mudo, porque ela não consegue falar, está ali petrificada pela dor e o testemunho dela sobre o assassinato de Eduardo Leite, o marido dela, é lido por um jurista ali presente, um advogado. E a câmera se atém ao rosto dela silencioso. Então, esse testemunho muito forte, que traz ali o depoimento silencioso da Denise, nos permitiu aprofundar na montagem essa dimensão propriamente trágica da anistia. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Você adiantou algumas coisas da minha segunda pergunta, que é justamente sobre esse cerne do filme em contrapor imagens do passado e do presente, sobretudo com as falas dos entrevistados que estiveram na Conferência. Como foi juntá-los e apresentar os vídeos a eles, especialmente sabendo das histórias de alguns, ou daqueles vistos na Conferência que já faleceram? Anita Leandro: Eu não faço perguntas quando eu filmo as pessoas, ou as entrevisto. O que eu busco ali quando eu vou filmá-las é compartilhamento de um certo olhar sobre esse material. “Olha, aqui tem uma foto sua que eu encontrei no dia que você foi preso. O que que aconteceu aqui? Explica para mim como é que foi tirada essa foto”, e entrego a foto. E a pessoa vai buscar na memória as lembranças que tem daquele momento dramático ali de suas vidas. Eu acho isso muito rico em termos de dispositivo de filmagem da fala, porque primeiro ele permite à testemunha viva da história uma relação direta com os documentos da sua própria história. Diferentemente do que faz o historiador, onde ele próprio é quem junta as entrevistas da história oral, ele lê os documentos, interpreta tudo e faz um texto. No cinema você tem uma chance única, diferentemente dos historiadores, e aí que nós podemos contribuir com alguma coisa, trazer algo diferente da historiografia, que é essa possibilidade única de proceder a uma montagem desses documentos. E essa montagem começa lá no momento das filmagens, porque quando eu boto na mão da pessoa uma fotografia e um texto, ela já tem ali que processar, fazer uma ligação. Ou então quando eu as coloco diante de uma imagem, como é imagem em movimento do Anistia 79. As pessoas assistem aquilo ali e não é só um encontro de passado e presente. Lá na hora da filmagem acontece essa interseção de tempos, ela é muito mais complexa e rica do que um mero encontro do presente com o passado. A pessoa se transporta pro passado, a imagem chega até ela. Há uma espécie de compartilhamento, uma experimentação do passado de um ponto de vista interno dentro da imagem, como se aquilo tivesse acontecendo ainda. Então, tem uma presentificação do passado que é muito interessante, e tem um retorno também desse presente ao passado graças a essa mediação do arquivo. E aí nós procuramos na montagem tornar isso ainda mais complexo, multiplicando não só as possibilidades de configuração de apuração do tempo histórico, mas também dos espaços, com as múltiplas telas. Essas múltiplas telas não foram um recurso puramente econômico, por causa do tamanho que o filme tinha de ter, mas elas permitem essa síntese e simultaneidade dos espaços, elas mostram esse fenômeno da intercessão dos tempos que aconteceu ali no momento da filmagem. Eu fui montando aos poucos, na medida em que a filmagem ia acontecendo, porque eu já tinha essa espécie de “baixo contínuo”, como se chama no jazz: aquela nota que te permite devagar ir para tudo quanto é direção que você quiser ir, depois você pode voltar que ela está ali te esperando para te dar o tom. O material do arquivo foi isso, ele dá o tom. Eu acho que a montagem é essa coisa misteriosa. Nós temos que descobrir no próprio material o caminho. A imagem te diz onde que ela quer ser cortada, o ponto de corte já tá dado ali, como se o filme já tivesse ali dentro, só tem que achar. Acho que nós temos que silenciar o nosso discurso diante das coisas, e receber delas um discurso que lhes é inerente, no caso do material de arquivo. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Um dos grandes méritos do filme é mostrar uma pluralidade da esquerda brasileira ali reunida em Roma naquela Conferência, com diversos interesses e representações. Pensando nas deficiências que tivemos com o nosso processo de anistia e como essas deficiências ainda reverberam no Brasil de hoje, que lições você acha que o filme oferece a respeito da pluralidade da esquerda brasileira, em meio a tantas ameaças de retrocesso por causa da extrema-direita? Anita Leandro: Muito interessante e importante isso que você diz, porque a luta pela anistia reuniu todos os setores da sociedade brasileira. Todas as tendências da esquerda no exílio estão representadas ali na conferência de Roma, assim como todas as tendências da esquerda no Brasil que escapou da prisão. 1979 é um momento muito rico, é o momento do surgimento do MST, do MNU [Movimento Negro Unificado], do PT, de um retorno do movimento estudantil, mesmo que aos poucos. E eu acho que o material do Hamilton reflete essa diversidade. E é uma diversidade que existe hoje, mas que, na verdade, existe como um bloco de resistência a um avanço da extrema-direita no Brasil nos últimos anos, que se beneficiou da impunidade que veio de 1979, de uma Lei de Anistia outorgada pelos militares, os quais anistiaram a si mesmos e aos torturadores. Então, embora a tortura seja um crime imprescritível, essa lei ainda não foi revisada. Então, o Brasil vive em cima dessa panela de pressão, porque ele não teve uma justiça de transição, como aconteceu na Argentina. Mesmo com todos os problemas que estão tendo lá, os militares voltaram para a caserna e estão lá calados. Mas aqui no Brasil toda hora tem ameaça de golpe militar. Então, eu espero que o debate sobre a anistia reabra um debate mais profundo sobre as condições de possibilidade para uma democracia sólida, já que o que temos é uma democracia frágil. Então temos um longo caminho pela frente, e como já ouvi dizerem por aí, as eleições deste ano são as eleições das nossas vidas. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos aos nossos entrevistados e entrevistadas que indiquem filmes brasileiros que achem que o público deva assistir. Quais são as suas indicações? Anita Leandro: É uma escolha de Sofia [risos]. Difícil demais você indicar um filme quando tem tantos bons filmes a serem vistos, mas, pedindo de antemão desculpa a todos os outros filmes maravilhosos brasileiros que eu vi nos últimos anos, eu indicaria o filme do Affonso Uchôa, Sete Anos em Maio. Eu acho esse filme uma grande é uma reflexão muito profunda e importante justamente sobre essas sequelas da ditadura e dessa democracia negociada que se seguiu com as oligarquias brasileiras. É um filme que diz muito, no modo ficcional, sobre a manutenção do aparelho repressivo da ditadura no Brasil de hoje. Todo o trabalho do Affonso me toca muito, mas esse filme em particular, eu me sinto muito próxima dele. Tem os filmes do Adirley Queirós também, todos muito bons. Era Uma Vez em Brasília, eu acho um filme fabuloso. E tem um curta-metragem recente, para não ficar só nos filmes mais anteriores e trazer um mais contemporâneo, que é o Entrevista com Fantasmas, do Lincoln Péricles, que eu gosto muito também, o filme é muito bom.
- Crítica | Pressão
Entre mapas, previsões e decisões que poderiam mudar o rumo da guerra, filme transforma os bastidores do Dia D em campo de batalha. Imagem: Divulgação Pressão chega aos cinemas em 3 de setembro e revisita um dos momentos mais decisivos da Segunda Guerra Mundial a partir de um ponto de vista pouco explorado pelo cinema. Baseado em fatos reais e adaptado da peça de David Haig, o filme acompanha as 72 horas que antecederam o Dia D, quando o general Dwight D. Eisenhower (Brendan Fraser) e o capitão James Stagg (Andrew Scott) precisam decidir se é seguro autorizar a maior invasão marítima da história ou adiar a operação e colocar em risco o rumo da guerra. É justamente nessa perspectiva que o filme encontra seu maior diferencial. Apesar da quantidade quase inesgotável de produções sobre a Segunda Guerra Mundial, poucas se dedicam a mostrar o quanto a previsão do tempo poderia ser determinante em uma operação militar. Em Pressão, os meteorologistas deixam de ser personagens periféricos e passam a ocupar o centro de uma decisão capaz de definir o sucesso ou o fracasso do Dia D. A escolha também permite que o longa construa sua tensão de maneira bastante particular. Curiosamente, suas melhores batalhas não acontecem no campo de guerra, mas nos bastidores. São os diálogos, as discussões e a sensação constante de que qualquer movimento em falso pode colocar milhares de vidas em risco que sustentam boa parte da narrativa. O filme transforma uma sala de reuniões em um verdadeiro campo de batalha. Essa característica também evidencia o quanto o material original da peça continua presente na adaptação. O trabalho cuidadoso com os diálogos e a concentração de boa parte da história em poucos ambientes dão ao longa uma atmosfera deliberadamente teatral. Quando funciona, isso contribui para a sensação sufocante da espera e da responsabilidade. Quando não funciona, porém, torna algumas passagens repetitivas e excessivamente dependentes das conversas entre os personagens. O elenco é um dos grandes responsáveis por manter o interesse. Brendan Fraser, que recentemente conquistou o Oscar por A Baleia, mostra novamente a força dessa nova fase de sua carreira e entrega um Eisenhower seguro e contido. Andrew Scott, por sua vez, está excelente como James Stagg, especialmente nos momentos em que o personagem precisa lidar com a pressão de saber que uma previsão equivocada pode ter consequências irreversíveis. A dupla funciona muito bem e dá peso às discussões que conduzem o filme. Imagem: Divulgação É nas cenas de guerra, justamente, que Pressão encontra seu elo mais fraco. As sequências externas não possuem a mesma força das cenas construídas a partir dos diálogos e acabam quebrando um pouco o clima de tensão que o filme consegue estabelecer. É uma fragilidade compreensível, já que o conflito militar propriamente dito nunca foi o foco principal da produção, mas a diferença de qualidade entre esses dois momentos é perceptível. Ainda assim, Pressão encontra uma maneira interessante de revisitar um episódio amplamente conhecido da história. Ao trocar os campos de batalha pela meteorologia, pelas decisões estratégicas e pela pressão dos bastidores, o filme mostra que algumas das batalhas mais importantes da guerra também aconteceram longe das armas. Nota: 3.5/5
- Citronela Doc chega à 6ª edição com premiações inéditas, mostra internacional com o renomado festival FICCI e masterclasscom João Moreira Salles
Evento gratuito acontece de 25 a 30 de agosto em Ilhabela (SP). Imagem: Divulgação A 6ª edição do Citronela Doc - Festival de Documentários de Ilhabela, que acontece de 25 a 30 de agosto em Ilhabela (SP), inaugura uma nova fase do festival, cheia de novidades. Pela primeira vez, a Mostra Nacional e a Mostra Regional serão competitivas. Além disso, o festival traz uma Mostra Internacional realizada em parceria com o Festival Internacional de Cine de Cartagena de Indias (FICCI), na Colômbia, uma Mostra Infantil em parceria com o festival Recria Cine e uma masterclass com João Moreira Salles, um dos mais importantes documentaristas, roteiristas e produtores do cinema brasileiro. Todas as atividades são gratuitas. A premiação é uma das principais novidades desta edição. As obras selecionadas dentre mais de 550 inscritas representam 12 estados brasileiros mais o Distrito Federal e cinco cidades do Litoral Norte e do Vale do Paraíba. Os filmes nacionais concorrem aos prêmios de Melhor Longa-Metragem, Melhor Curta-Metragem e Menção Honrosa. Já a Mostra Regional premiará o Melhor Filme Regional e o Melhor Filme de Diretor(a) Estreante. A programação também contará com o Prêmio Utopia Docs, oferecido pela distribuidora internacional Utopia Docs, e com o Prêmio Aquisição todesplay. Os prêmios serão definidos por um júri formado por profissionais da área do audiovisual: Tatiana Lohmann, diretora, Paulina Chamorro, jornalista, Willen Dias, montador, Erika Araujo, produtora executiva, Lygia Barbosa, diretora e Paulo Delfini, curador e membro do Fórum de Cinema do Interior Paulista (Icine).Entre os oito longas-metragens da competição nacional estão "A Fabulosa Máquina do Tempo", da premiada cineasta Eliza Capa, que estreou na edição 2026 do Festival Internacional de Cinema de Berlim, a Berlinale; "Na Passagem do Trópico", de Francisco Miguez, filmado em Ubatuba; "O Pai e o Pajé", de Iawarete Kaiabi, Felipe Tomazelli e Luís Villaça, vencedor do Prêmio Abraccine na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo; "Lendo o Mundo", de Catherine Murphy e Iris de Oliveira, sobre Paulo Freire; "Apopcalipse Segundo Baby", de Rafael Saar, que acompanhou a cantora Baby do Brasil por 18 anos para contar sua trajetória; "Cartas para…", de Vânia Lima, que acompanha a transformação de quatro mulheres por meio da troca de cartas; "Mãos à Terra", de Sérgio Guidoux Kalil, sobre a história da Feira de Agricultores Ecologistas; e "VIVO 76", de Lírio Ferreira, dedicado ao histórico álbum “Vivo!” de Alceu Valença. A seleção de curtas-metragens reúne produções contemporâneas premiadas em festivais nacionais e internacionais que abordam temas como memória, povos indígenas, cultura afro-brasileira, violência de Estado, mineração, encarceramento juvenil e tradições populares. A lista inclui "A Pele do Ouro", de Marcela Ulhoa e Yare Perdomo; "Caldeirão", de Oliveira Júnior, Milena Rocha e Weslley Oliveira; "Cordel da Marujada", de Gabriel Paixão; "Cordões e Sinos de Além-mar", de Yuji Kodato e Jeremias Brasileiro; "Escudo", de Andrey Haag e Cauê Santiago; "Logos", de Britney; "Minhocuçu", de Leonardo Branco e Lucas Campos; "Os Arcos Dourados de Olinda", de Douglas Henrique; "Thayara", de Mila Leão; e "Vinte Vinte Quatro", de Davi Pieri. A Mostra Regional evidencia a força da produção audiovisual do Litoral Norte paulista e do Vale do Paraíba com "A Força da Raiz", de Maria Sol Aranda (Ubatuba); "Janelas da Memória", de Yasmin Bilard (São Luiz do Paraitinga); "Kaeté", de Pedro Ciampolini (Ubatuba); "Menina Moça e a Cobra de Duas Cabeças", de Letícia Andra (São Sebastião); "Narrativas ao Sol", de Isabella Gonçalves e Thais Chaves (Ilhabela); "Renato Canoeiro Caiçara", de Dannyel Leite (Jacareí/Ubatuba); e "Resíduos de Esperança", de Roseane Moura (Ubatuba). Com direção majoritariamente feminina, os filmes revelam a diversidade de olhares e narrativas sobre os territórios da região, trazendo à tela saberes ancestrais, memória, identidade e cultura dos povos, a relação com a natureza, sustentabilidade e os impactos da crise climática. As obras também refletem sobre as transformações sociais e ambientais que atravessam essas comunidades, valorizando histórias, personagens e saberes pouco representados no cinema. Os filmes foram selecionados por uma equipe de curadores que reuniu profissionais do audiovisual com diferentes perfis e de regiões distintas do país (saiba mais sobre os curadores ao final do texto), auxiliados por um comitê de seleção formado por nove pessoas que se inscreveram para participar do processo. Outra estreia desta edição é a Mostra Internacional, realizada em parceria com o renomado Festival Internacional de Cine de Cartagena das Índias (FICCI), na Colômbia, o mais antigo festival de cinema da América Latina. O festival é conhecido por promover a diversidade cultural e exibir centenas de produções gratuitas para o público. A seleção apresenta produções colombianas de 2025 e 2026, que foram destaque no FICCI, como o longa "Andariega", de Raúl Soto Rodríguez, que acompanha a rotina nômade de uma colhedora de café (estreia no Festival Internacional de Documentários de Amsterdã - IDFA e no FICCI), e os curtas "Decair", de Juan Camilo González, animação que confronta a busca pelo passado (Prêmio de Melhor Contribuição Artística no FICCI 65); "Filme Pin", de Maria Rojas Arias e Andres Jurado, que conta histórias de solidariedade internacional por meio de broches (Menção Especial em Curtas Colombianos no FICCI 65), "Niña Chilapa", de Juana Lotero, que tem como tema a gravidez na adolescência e seus desafios, (Melhor Curta Colombiano no FICCI 64) e "Sombras na Névoa", de Pedro Pablo Vega Reyes, que mostra o cotidiano de uma família criadora de ovelhas em uma região de altas montanhas (Prêmio do Público e Melhor Direção em Curtas Colombianos no FICCI 65).Com exceção de “Filme Pin”, todas as obras terão sua estreia brasileira no Citronela Doc. “Sombras na Névoa” faz também sua estreia internacional no festival ilhabelense. Nas sessões especiais, fora das mostras competitivas, o Citronela Doc apresenta o premiado “Mounir”, de Juliana Borges, premiado Melhor Filme Longa-Metragem na mostra competitiva Territórios e Memória da 15ª Mostra Ecofalante de Cinema (2026). O filme acompanha um imigrante centro-africano e a jovem cineasta brasileira que registra sua história ao longo de dez anos e três continentes, em uma narrativa que transita entre realidade e ficção. Também será exibido “Artacho Jurado, Sinfonia de um Arquiteto”, de Teresa Eça e Pedro Gorski, que revisita a trajetória do arquiteto responsável por uma das linguagens mais singulares da arquitetura paulistana. A programação também reúne debates, oficinas, apresentações artísticas e shows. Entre os destaques estão a masterclass “O Problema do Documentário”, com o documentarista João Moreira Salles, no sábado, 29 de agosto, das 11h30 às 13h, no Esporte Clube Ilhabela, com entrada gratuita e aberta ao público, sem necessidade de inscrição prévia. Salles é autor de obras marcantes como “Notícias de uma Guerra Particular” e “Santiago” e ‘No Intenso Agora” e, recentemente, publicou “Arrabalde”, série de sete reportagens sobre sua experiência na Amazônia.O Encontro de Realizadores, coordenado pela Escola de Cinema Citronela, também é um grande destaque da programação. Serão três dias de formação, entre 28 a 30 de agosto, com atividades formativas realizadas em parceria com atores importantes no mercado, como Spcine, Sebrae, Icine, Ilhacine e Ilhabela Convention & Visitors Bureau. As atividades acontecem no Esporte Clube Ilhabela e no píer da Vila. Outra novidade no Citronela Doc em 2026 é a Mostra Infantil, que trará nove produções em parceria com o festival Recria Cine, e também a realização de uma Mostra Educativa, com a realização de nove sessões de cinema para alunos do infantil, fundamental 1 e fundamental 2 de escolas públicas de Ilhabela, no Cine Villa Bella & Clube, localizado no Centro Cultural Waldemar Belisário.O festival também terá programação online, disponível de 1º a 10 de setembro em todo o Brasil pelas plataformas Spcine Play e todesplay. Mais informações estão disponíveis em www.citroneladoc.com.br e no Instagram @citroneladoc. O 6º Citronela Doc é uma realização do Programa de Ação Cultural (ProAC), da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Governo do Estado de São Paulo, com produção da Associação Cultural Citronela e coprodução de Ver Para Crer, Salga Filmes e BR8 Cultural.
- Crítica | Ponto Sem Retorno
Filme sofre com um ritmo irregular e com uma história que parece grande demais para caber em um longa-metragem. Imagem: Divulgação Em um mundo devastado por uma pandemia que praticamente dizimou a humanidade, os poucos sobreviventes precisam encontrar maneiras de continuar vivos em meio ao isolamento, à violência e à escassez. É nesse cenário que acompanhamos Hig (Jacob Elordi), um piloto que vive em um aeroporto abandonado ao lado de seu cachorro e de Bangley (Josh Brolin), um ex-militar que se torna seu parceiro de sobrevivência. Quando Hig capta uma misteriosa transmissão de rádio, decide seguir o sinal e descobrir se ainda existe algo além daquele mundo destruído. Baseado no livro The Dog Stars, de Peter Heller, Ponto Sem Retorno estreia nesta quinta-feira (27), é dirigido por Ridley Scott e conta com Jacob Elordi, Margaret Qualley, Josh Brolin, Guy Pearce, Allison Janney e Benedict Wong no elenco. E é justamente na construção desse universo pós-apocalíptico que o filme encontra um de seus maiores acertos. Ridley Scott cria muito bem a atmosfera de um mundo depois do fim. O isolamento, os espaços abandonados e a sensação constante de perigo ajudam a estabelecer uma ambientação convincente, fazendo com que seja fácil acreditar nas regras daquele universo. O filme também sabe aproveitar visualmente esse cenário e demonstra, mais uma vez, a segurança de Scott na direção. O problema é que toda essa construção não é acompanhada por um ritmo tão eficiente. Ponto Sem Retorno tem dificuldade em encontrar uma cadência constante e alterna momentos bastante interessantes com outros que acabam se arrastando. Isso pesa principalmente porque a história possui elementos suficientes para sustentar uma narrativa muito mais envolvente. Imagem: Divulgação O elenco, felizmente, ajuda a manter o interesse. Jacob Elordi funciona muito bem como Hig, principalmente ao transmitir a solidão e o desgaste emocional de alguém que vive em um mundo praticamente vazio. Margaret Qualley também se destaca e consegue trazer uma dinâmica interessante para a história. Além deles, o filme conta com ótimos atores em participações mais pontuais, que mesmo aparecendo pouco conseguem deixar sua marca. As cenas de ação são outro ponto positivo. Elas funcionam bem dentro da proposta do longa e são conduzidas com segurança, sem deixar de lado a atmosfera de tensão. Quando Ponto Sem Retorno acelera e coloca seus personagens em situações de perigo, o filme encontra uma energia que nem sempre consegue manter nos momentos mais contemplativos. E talvez seja justamente aí que esteja sua maior fragilidade. O longa apresenta diversas questões que poderiam ser melhor exploradas, principalmente sobre sobrevivência, relações humanas, solidão e o que significa tentar reconstruir uma vida depois de uma catástrofe. Porém, muitas delas acabam sendo apenas apresentadas, sem receber o desenvolvimento necessário. Algumas soluções também parecem fáceis demais diante dos problemas estabelecidos anteriormente. Como não li o livro de Peter Heller, não dá para avaliar se a adaptação consegue traduzir bem a obra original ou se parte dessa sensação vem justamente do processo de condensar a história. Mas, assistindo apenas ao filme, fica a impressão de que esse universo teria muito mais a ganhar com uma série. O tempo adicional permitiria desenvolver melhor os personagens, explorar as regras daquele mundo e trabalhar com mais profundidade algumas das questões que aqui acabam passando rapidamente. De maneira geral, Ponto Sem Retorno está longe de ser um filme ruim. Ele tem méritos claros, especialmente na direção, na ambientação, nas cenas de ação e em seu elenco. Mas também está longe de ser tudo aquilo que poderia. É uma história com potencial, bons personagens e um universo interessante, mas que parece ter precisado correr para colocar muita coisa dentro de um tempo limitado. O resultado é um filme que funciona em alguns momentos, mas deixa a sensação de que poderia ter encontrado um caminho muito mais interessante. Nota: 3/5
- Lista | Os melhores episódios do ano (até agora)
2026 está sendo um bom ano para a televisão, mas conseguiu ser excelente aqui nestes episódios. Imagem: Divulgação Pessoalmente, eu adoro exaltar a força episódica da desta mídia. E principalmente pelo fato de que em até temporadas que não são um tanto irregulares, algum episódio pode se destacar – como é o caso de alguns presentes na lista – e, às vezes, a temporada pode manter uma qualidade alta e se sobressair no geral, mas não tem aquele episódio que seja melhor do que os outros pois manteve uma regularidade, o que pode explicar algumas ausências na lista. Escolhi dezesseis opções, um por série, que, na minha humilde opinião, merecem o devido destaque. Mas antes, algumas menções honrosas: Menções Honrosas: “Search and Recovery” (História de Amor: John F. Kennedy Jr. & Carolyn Bessette, Temporada 1, Episódio 9); “6:00 P.M.” (The Pitt, Temporada 2, Episódio 12); “Dereks Don’t Die” (Falando a Real, Temporada 3, Episódio 6); “Litlle Thanksgiving” (As Quatro Estações do Ano, Temporada 2, Episódio 6); “La Hora de la Verdad” (A Casa dos Espíritos, Minissérie, Episódio 8); “Eran Más de Tres Mil” (Cem Anos de Solidão, Parte 2, Episódio 6). 16. “The Mailman” (Temporada 2, Episódio 5), Paradise Imagem: Divulgação Xavier (Sterling K. Brown) encontra Gary (Cameron Britton) e descobre o que acontece com Teri (Enuka Okuma) no dia do evento. Pessoalmente, tenho problemas com Paradise, mas acho a 2ª temporada realmente melhor do que a 1ª em tantos pontos, principalmente no arco da personagem de Shailene Woodley. E apesar dela não estar presente neste episódio, ele condensa muito bem o lado dramático que a série sempre teve o potencial para explorar ao ser contado da perspectiva de um personagem novo como Gary. E claro, com aquela reviravolta no final se não, não seria Paradise. O bom é que desta vez ela realmente fez sentido. Poderia estar na lista: “Graceland” (Temporada 2, Episódio 1) 15. “Queen’s Landing” (Temporada 3, Episódio 2), A Casa do Dragão Enquanto Alicent (Olivia Cooke) arrisca tudo para cumprir sua parte do acordo, Rhaenyra (Emma D’Arcy) deve decidir se o preço do Trono de Ferro é alto demais. O episódio que, provavelmente, seria o final da 2ª temporada, se tornou o meu favorito de todos. Apesar da série ter problemas basilares em como constrói seus personagens, é inegável que Rhaenyra e Alicent são as mais interessantes, ou pelo menos, o roteiro investe mais nuances. Aqui, Rhaenyra finalmente vive o luto de uma forma mais palpável e um plano - um tanto estapafúrdio - dá certo. O Trono é dela, mas não sem antes tomar decisões difíceis, para ambos os lados. O jogo dos tronos ganha mais forma, força e substância, mostrando já de início que reinar jamais será um mar de rosas. A temporada pode não ter mantido o nível o tempo todo, mas ainda assim conseguiu ser bem mais consistente do que o ano anterior. 14. “For Everything Else, There Was Bowling” (Temporada 2, Episódio 6), Seus Amigos e Vizinhos Imagem: Divulgação Coop (Jon Hamm) e a família enfrentam um velório e um funeral carregados de tensão e temos mais um belo episódio sobre o luto. Sem deixar de lado os toques de humor da série, aqui há um equilíbrio muito bem dosado com o peso de uma perda, seja em momentos mais sutis ou não. Umas das questões que eu mais gosto em Seus Amigos e Vizinhos, é como eles abordam a questão da idade e do tempo e esse episódio traduz muito bem isso, não só através do texto sensível de Danielle DiPaolo e Cara Pomanti, mas pela direção inebriante de Stephanie Laing, que te deixa tão atordoado quanto os personagens. É uma experiência imersiva e reflexiva que mostra o real potencial que eu sempre enxerguei na série. 13. “Lariat Takedown” (Temporada 1, Episódio 7), Margo Está em Apuros Imagem: Divulgação Margo (Elle Fanning) enfrenta finalmente Mark (Michael Angarano), enquanto Jinx (Nick Offerman) tem um dos piores dias da sua vida. Sabe aquele episódio onde as séries atingem o clímax? Pois é, isso costuma acontecer nos penúltimos das temporadas, principalmente quando elas são adaptadas de livros, como é o caso aqui. Neste ano de estreia, Margo Está em Apuros se mostrou uma série leve e gostosa de se assistir, mesmo abordando temas pesados e o fazendo com seriedade, mas é aqui que ela atinge essa dosagem perfeita. Enquanto temos uma cena hilária de Michelle Pfeiffer socando Marcia Gay Harden, há outra sequência pesadíssima envolvendo Elle Fanning e Nick Offerman. O elenco é um primor neste passeio entre o drama e a comédia e atinge todas as notas, assim como a direção que consegue dar o tom exato que a série pedia em um episódio cheio de acontecimentos importantíssimos para a trama. 12. “Rise of Apocalypse, Part 2” (Temporada 2, Episódio 4), X-Men ´97 Imagem: Divulgação Uma aliança entre os X-Men e En Sabah Nur começa a ruir quando Rama-Tut busca o poder supremo. Definitivamente, a temporada atinge seu ápice aqui, o que não é uma coisa exatamente positiva para o plano geral porque ainda faltavam mais cinco episódios e ficou notório que os rumos estavam, no mínimo, estranhos. No entanto, com este episódio focando no surgimento de Apocalypse, os riscos estavam tão elevados quanto a carga dramática, e era justamente esse equilíbrio que fez tanto sucesso no impecável primeiro ano da animação. O sacrifício feito aqui tem peso e comove, é uma pena que a temporada não seguiu no mesmo nível. 11. Episode 4 (Minissérie, Episódio 4), Pela Metade Imagem: Divulgação Em 2008, após um colapso nervoso, Niall (Jamie Bell) descobre que Ruben (Richard Gadd) retornou. A obsessão toma conta dele, e um confronto força os irmãos a encararem seu passado conturbado. A intensa minissérie constrói sua narrativa ao redor da relação conturbada entre os meio-irmãos e é aqui que o estopim de todo o conflito. Não bastando Niall atingir o fundo do poço como consequência de tudo, a cena do hospital em que os dois se enfrentam é de uma visceralidade absurda e onde a série assume a história que quer contar e como quer abordá-la. Durante os seis episódios, há um certo desequilíbrio no exagero, mas aqui, até o excesso de violência foi crucial para impactar, e não somente chocar. 10. “They Make a Noise Like Feathers” (Minissérie, Episódio 6), Fúria Imagem: Divulgação Alice (Emmy Rossum) e Catherine (Lola Petticrew) se encontram e a gente tem uma hora para ganhar a confiança da assassina. O episódio mais recente da lista, é uma aula de roteiro, onde as duas personagens de lados opostos da lei percebem que têm mais em comum do que imaginam. A complexidade e as nuances são muitas naquelas mulheres e na trama no geral, sem falar na construção da tensão que se instaura, enquanto todos os núcleos se movimentam. A minissérie aborda temas sérios e sabe equilibrar com um humor pontual sem se perder. É uma das surpresas do ano e só melhora. Poderia estar na lista: “Memory Distortion” (Episódio 3) 9. “Valerie Cherish” (Temporada 3, Episódio 8), The Comeback Imagem: Divulgação Enquanto a NuNet se apressa para fazer o anúncio sobre o uso da inteligência artificial, Valerie repensa seu futuro… com ou sem How’s That. Em seu último episódio – a não ser que Valerie volte daqui a 10 anos de novo, rs – , a série de Lisa Kudrow e Michael Patrick King traz sua veia tragicômica à tona na melhor forma e honrando sua protagonista tão rica. Ter a inteligência artificial como tema norteador aqui e não poderia ser mais relevante e modo como Valerie lida com isso ressalta todo o crescimento da personagem durante estas três temporadas. A cena final é brilhante e emocionante, carregada com todas as emoções que Valerie desperta, seja do choro ao riso. Poderia estar na lista: “Valerie Does It All” (Temporada 3, Episódio 4), “Valerie Has a Secret” (Temporada 3, Episódio 2) 8. “Awl in a Sack” (Temporada 1, Episódio 6), Cidade das Estrelas Imagem: Divulgação As consequências chegam na Cidade das Estrelas e tudo desmorona. É o tipo de episódio onde o clímax é construído há tempos e aqui vários são atingidos. Reviravoltas fomentam a tensão latente e os personagens são colocados no limite, onde basicamente todos são afetados. O valor de uma boa base de desenvolvimento no roteiro é mostrado aqui, principalmente na tomada das decisões drásticas, que são impactantes e emocionam. A série derivada de For All Mankind foi uma das melhores surpresas do ano e este episódio mostra justamente o porquê. Poderia estar na lista: “Bite Your Elbow” (Temporada 1, Episódio 5) 7. “Caramel” (Temporada 5, Episódio 7), The Bear Imagem: Divulgação A temporada toda leva a este momento e finalmente é a hora do serviço, com o caos que estamos habituados na série. No penúltimo episódio de sua história, Carmy (Jaremy Allen White) está a pouco tempo de deixar o restaurante de vez, enquanto Syd (Ayo Edebiri) precisa aprender a liberar. Os limites são testados em meio a uma tempestade que não cessa e os clientes não param de chegar, a tensão é latente e tudo parece que vai dar errado, mas como sempre, a união faz a força e a equipe se sobressai, com cada personagem tendo seu espaço para brilhar e mostrando o quanto se desenvolveu. É o tipo de episódio que faz a gente lembrar o porquê amamos a série um dia, mesmo com seus altos e baixos ao longo das temporadas. 6. “In the Name of the Mother” (Temporada 1, Episódio 5), O Cavaleiro dos Sete Reinos Imagem: Divulgação A coragem de Dunk (Peter Claffey) é posta à prova no brutal julgamento dos sete. Por meio de flashbacks, vemos a vida sofrida do rapaz. O episódio tem absolutamente tudo que fez a gente se encantar pelo mundo de Game of Thrones. Dividir este momento da batalha com uma história do passado, me causou certa desconfiança de início, mas o roteiro e a direção souberam equilibrar de maneira fantástica e emocionante o drama e ação, sem deixar de lado o desenvolvimento dos personagens. O que a direção faz para disfarçar o orçamento menor nas cenas de batalha é absolutamente impressionante e não deixa em nada a desejar, bem como manter a carga dramática elevadíssima. Poderia estar na lista: “Seven” (Temporada 1, Episódio 4) 5. “Montecito” (Temporada 5, Episódio 7), Hacks Imagem: Divulgação Depois de escolher seu figurino para o show no Madison Square Garden, Deborah (Jean Smart) descobre que ele pertence a uma ex-amiga e para conseguí-lo, precisa fingir ser um casal junto com Ava (Hannah Einbinder) em um fim de semana em Montecito. O que poderia parecer apenas um mero fanservice, abre brecha para que a relação de Ava e Deborah seja ainda melhor explorada, de uma forma tão hilária quanto emocionante, assim como as personagens individualmente. Há tantas camadas ali e o texto é brilhante em desenvolvê-las com aquela dosagem perfeita entre a comédia e o drama que a série faz tão bem. A participação de Cherry Jones e Leslie Bibb coroa o episódio como um dos melhores episódios da série. Poderia estar na lista: “The Garden” (Temporada 5, Episódio 9), “D’Amazing” (Temporada 5, Episódio 5), “Hacks” (Temporada 5, Episódio 10) 4. “Quem Não Reage, Rasteja” (Temporada 2, Episódio 7), Cangaço Novo Imagem: Divulgação O destino dos Vaqueiros é selado em uma batalha sangrenta pela defesa do arraial e uma perda irreparável fará todas as certezas estremecerem. Se Cangaço Novo fosse uma série internacional, tenho absoluta convicção que este episódio seria comentado por todos, daqueles que realmente marcam a televisão. Por isso, acho importante reconhecer um produto que é tão nosso e merece todos os louros. Surpreendente, devastador, violento, sombrio e com – mais uma vez – uma atuação visceral da genial Alice Carvalho e sua fantástica Dinorah, que para mim, é facilmente uma das melhores anti-heroínas da TV. Toda a equipe de produção estava comprometida em entregar seu melhor, e eu digo que conseguiram se sobressair. Poderia estar na lista: “O Maior Assalto de Todos os Tempos” (Temporada 2, Episódio 6) 3. “Both, And” (Temporada 4, Episódio 8), Industry Imagem: Divulgação Depois de Whitney (Max Minghella) ser descoberto e fugir, enquanto Yasmin (Marisa Abela), Henry (Kit Harrington) e Harper (Myha´la) precisam lidar com as consequências. Não à toa, Industry apresentou uma temporada madura e que se tornou minha série favorita do ano. É impressionante como a série evoluiu a cada ano e este episódio é o exato reflexo disto. A relação complexa entre Yasmin e Harper é uma das mais fascinantes da TV atualmente e a construção das personagens individualmente fica cada vez mais rica. O que os roteiristas fazem com Yasmin aqui é de uma ousadia louvável e que poucas séries têm coragem de fazer hoje em dia: desafiar sua audiência. Mesmo que a personagem já fosse um tanto amoral, ela cruza uma linha indefensável, mas toda a sua construção levou àquilo. A cena em que Harper tenta “salvar” a amiga é de partir o coração e nos deixa aflitos sobre os rumos que a 5ª e última temporada tomará. Poderia estar na lista: “Dear Henry” (Temporada 4, Episódio 6), “The Commander and the Grey Lady” (Temporada 4, Episódio 2), “1000 Yoots, 1 Marilyn” (Temporada 4, Episódio 4) 2. “Montreal” (Temporada 3, Episódio 6), The Vampire Lestat Imagem: Divulgação Lestat (Sam Reid) e Louis (Jacob Anderson) encontram alguém que revela dolorosas verdades aos dois e Louis acaba descobrindo o maior segredo de Lestat. Ambos os personagens são brilhantes e mesmo a temporada sendo focada em Lestat, Louis não é deixado de lado. Esse episódio com foco quase exclusivo nos dois, se mostrou extremamente necessário para que os pingos fossem colocados nos is. Há muita bagagem entre os dois e aquele relacionamento intenso e por mais tóxico que seja, não deixa de existir amor. “Montreal” faz praticamente um estudo deles ao enfrentarem coisas que não queriam enxergar e nos reafirmando quão multifacetados são aqueles personagens. E o final chocante é a cereja do bolo em um episódio que entra para a história. Poderia estar na lista: “Toronto” (Temporada 3, Episódio 3), “New York” (Temporada 3, Episódio 5), “The Failures” (Temporada 3, Episódio 7) 1.“Beach Reads” (Temporada 1, Episódio 4), O Segredo de Widow’s Bay Imagem: Divulgação Quando Patricia (Kate O’Flynn) descobre um livro de autoajuda, ela resolve dar uma festa e convidar todo mundo da ilha, mas as coisas não são exatamente como parecem ser. A natureza episódica da série permite que os episódios sejam centrados em determinados personagens e em arcos mais pessoais – sem deixar de lado a trama central – e aqui é a hora e vez da espetacular Patricia. Interpretada brilhantemente por O’Flynn, a moça ainda não tinha aparecido tanto, mas sua acidez já tinha mostrado potencial. Em “Beach Reads”, a série consegue atingir seu alcance completo de equilibrar a comédia e o horror de uma forma genial, surpreendendo na reviravolta, enquanto desenvolve uma personagem tão fascinante e trágica como Patricia. Não deixa de ser hilário, ao mesmo tempo que é assustador, na mesma medida que é comovente. Aula de televisão. Poderia estar na lista: “Your Baggage” (Temporada 1, Episódio 8), “Seasickness” (Temporada 1, Episódio 7), “What to Expect on Your Trip” (Temporada 1, Episódio 5)
- Crítica | Só por Uma Noite
Uma comédia romântica que começa provocadora, mas termina defendendo justamente aquilo que parecia questionar. Imagem: Divulgação Will Gluck sabe fazer comédias românticas. Desde A Mentira, filme de 2010 que continua sendo uma das obras mais interessantes e disruptivas de sua carreira, passando por Amizade Colorida até o recente Todos Menos Você, que se tornou um dos grandes sucessos do gênero nos últimos anos, o diretor entende como poucos a importância de química, ritmo e carisma para fazer um casal funcionar na tela. Só por Uma Noite parte de uma ideia que parece perfeita para alguém com esse currículo. Em uma versão levemente futurista de Nova York, o sexo antes do casamento é proibido durante 364 dias do ano e liberado apenas durante uma única noite. É nesse intervalo de liberdade que Owen (Callum Turner), dono de uma pizzaria recém-abandonado pela namorada, e Allie (Monica Barbaro), uma cantora de jingles que procura algum tipo de conexão, se encontram. Os dois sentem uma atração imediata, mas uma sucessão de desencontros faz com que passem boa parte das próximas horas tentando se reencontrar. A premissa, portanto, funciona como uma espécie de Uma Noite de Crime sexual. Só que, em vez de permitir que as pessoas matem umas às outras, o governo autoriza que elas façam sexo. A comparação não é apenas uma brincadeira promocional: o filme constrói uma sociedade em que a intimidade é regulamentada pelo Estado, com biossensores que indicam quando alguém está autorizado a transar. É uma lógica deliberadamente absurda, mas que funciona muito bem como ponto de partida para uma comédia romântica sobre desejo, solidão e a dificuldade de estabelecer conexões em uma sociedade cada vez mais impessoal. E é justamente aí que Só por Uma Noite começa muito bem. Gluck não perde tempo tentando explicar cada detalhe daquele universo. A repressão sexual simplesmente existe e os personagens vivem dentro dela. Há uma naturalidade interessante na maneira como o absurdo é incorporado à rotina, sem que o filme precise transformar sua mitologia em uma aula de ficção científica. É perfeitamente possível passar boa parte da sessão sem se perguntar de onde surgiu aquela lei ou como exatamente aquele sistema foi implantado. A premissa é, sobretudo, um plano de fundo para falar sobre relacionamentos. O problema é que, conforme a história avança, o filme começa a entrar em contradição com aquilo que ele mesmo estabeleceu. A maior delas está no modo como Só por Uma Noite lida com o sexo. O filme apresenta uma sociedade construída em torno da repressão sexual e parece inicialmente interessado em questionar esse modelo. Entretanto, quando chega ao terceiro ato, sua relação com o próprio desejo se torna estranhamente moralista. Aquilo que deveria ser uma sátira sobre uma sociedade que controla a intimidade acaba se aproximando de uma visão em que sexo casual é tratado quase como uma distração inferior diante da "verdadeira" conexão romântica. O resultado é um final decepcionante justamente porque parece julgador. Há uma sensação quase de "eu escolhi esperar" em uma história que deveria estar interessada em perguntar por que precisamos transformar sexo, amor e intimidade em categorias tão rigidamente separadas. A contradição fica ainda mais curiosa quando colocamos o filme em diálogo com o próprio discurso de Will Gluck sobre sua produção. Em entrevista à Variety, o diretor afirmou que estudos recentes e sessões de teste mostraram um desconforto crescente do público com sexo e nudez na tela. Segundo ele, muitas cenas de nudez foram retiradas durante a montagem porque as reações do público tiravam sua atenção da história. Gluck chegou a dizer que, depois de observar essas reações, concluiu que os benefícios dessas cenas não compensavam os efeitos negativos. É uma declaração especialmente curiosa para um filme cuja própria existência depende de uma sociedade obcecada em controlar o sexo. E talvez seja justamente nesse ponto que Só por Uma Noite revele involuntariamente algo mais interessante do que aquilo que pretendia discutir. Se o filme quer falar sobre uma geração que estaria menos interessada em sexo na tela, ele poderia usar sua própria premissa para investigar essa mudança. Em vez disso, parece também recuar diante dela. Isso não significa que uma comédia romântica precise necessariamente mostrar sexo para falar sobre desejo. Pelo contrário. O problema é a diferença entre não mostrar e parecer ter medo de mostrar. Quando o filme constrói uma sociedade inteira em torno da proibição do sexo e depois evita explorar as consequências dessa repressão de maneira mais provocadora, fica a sensação de que ele está simultaneamente criticando o moralismo e tentando não incomodar ninguém. Imagem: Divulgação A frase de Gillian Anderson sobre a relação das novas gerações com o sexo na tela ajuda para Elle Brasil a iluminar essa discussão. Ao comentar a crescente relutância em relação a cenas sexuais, a atriz questiona como o excesso de tempo diante de telas e a crescente impessoalidade das relações digitais podem afetar nossa percepção de algo tão essencialmente físico quanto duas pessoas se tocando. É uma questão que Só por Uma Noite poderia explorar profundamente, mas prefere deixar na superfície. E é uma pena, porque o filme encontra algo genuinamente especial quando simplesmente deixa seus protagonistas juntos. Monica Barbaro e Callum Turner são, de longe, a melhor coisa do longa. A química entre os dois é absurda. Cada encontro, conversa, olhar ou desencontro funciona porque existe uma energia muito natural entre eles. Barbaro, especialmente, confirma que a indicação ao Oscar por Um Completo Desconhecido não foi um acaso. Ela consegue transformar Allie em uma personagem vibrante, engraçada e vulnerável, enquanto Turner encontra no jeito desajeitado de Owen um contraponto perfeito. É um daqueles casos em que dois atores conseguem elevar um roteiro que nem sempre sabe o que fazer com eles. As melhores cenas de Só por Uma Noite são justamente aquelas em que o filme abandona temporariamente sua grande premissa e se transforma em uma comédia romântica tradicional. O flerte, os desencontros, as conversas interrompidas e a expectativa de saber se os dois finalmente conseguirão ficar juntos são deliciosos de acompanhar. É possível entender completamente por que o filme funciona quando está simplesmente contando uma história de amor. Outro grande acerto é Nova York. A cidade não funciona apenas como cenário, mas quase como uma terceira personagem. Gluck aproveita as ruas, os restaurantes, as multidões e a arquitetura para criar uma versão ligeiramente deslocada da cidade que conhecemos. O filme transforma a noite em uma espécie de corrida caótica por Nova York, e existe um prazer genuíno em acompanhar Allie e Owen atravessando diferentes espaços enquanto todo o resto da cidade está igualmente tomado pela única noite em que aquela sociedade pode finalmente transgredir suas próprias regras. Esse contraste entre uma cidade completamente caótica e dois personagens tentando encontrar uma conexão genuína é provavelmente a melhor ideia do filme. Por isso, é difícil simplesmente chamar Só por Uma Noite de uma comédia romântica ruim. Ele é divertido, tem ótimos momentos, uma dupla de protagonistas excelente e uma premissa suficientemente inventiva para sustentar boa parte dos seus 102 minutos. O problema está justamente no potencial desperdiçado. A ideia poderia render uma sátira muito mais ácida sobre conservadorismo, repressão, solidão, tecnologia e a transformação do sexo em algo simultaneamente hiperexposto e cada vez mais impessoal. Em vez disso, Will Gluck parece encontrar um meio-termo seguro demais. E talvez o mais curioso seja que Só por Uma Noite tenha chegado aos cinemas praticamente ao mesmo tempo que obras como Acampamento Miasma, que também utilizam o sexo e a repressão como elementos centrais para discutir juventude, desejo e os mecanismos sociais que determinam o que pode ou não ser desejado. A diferença é que Só por Uma Noite começa com uma sociedade que proibiu o sexo e termina parecendo ter medo dele. No fim, sobra uma ótima comédia romântica escondida dentro de uma ideia muito melhor do que o próprio filme consegue desenvolver. Nota: 3/5
- Crítica | Shaolin do Sertão 2
Sequência aposta em uma narrativa mais consistente sem abandonar o humor e a identidade nordestina do original. Imagem: Divulgação Quase dez anos depois do primeiro filme, Shaolin do Sertão 2 chega aos cinemas nesta quinta-feira (20) mostrando que aprendeu com os erros de seu antecessor. O novo longa, dirigido por Halder Gomes, é uma produção cearense que reúne novamente boa parte do elenco do estado e aposta em uma aventura que mantém o humor característico da franquia, mas apresenta uma história mais organizada. Na sequência, Aluízio Li, interpretado por Edmilson Filho, precisa lidar com novos desafios enquanto sua trajetória como mestre de artes marciais ganha novos contornos. Em meio a conflitos, treinamentos e situações absurdas, ele acaba assumindo também o papel de mentor de um jovem aprendiz, vivido por João Pedro Frota, que passa a integrar sua jornada. A história amplia o universo apresentado no primeiro filme e coloca os personagens diante de novos obstáculos, incluindo questões familiares e uma crítica ao universo das apostas. O primeiro longa, em alguns momentos, parecia mais preocupado em contar piadas e provocar risadas no público do que propriamente em desenvolver uma história. O excesso de situações cômicas fazia com que a trama principal acabasse ficando em segundo plano e, por vezes, era fácil até esquecer para onde aquela narrativa estava caminhando. Isso não acontece aqui. Shaolin do Sertão 2 parece entender bem o que funcionou no original e, principalmente, quais eram seus principais problemas. O resultado é uma continuação que consegue se reinventar sem abandonar a identidade construída pelo primeiro filme. A sequência utiliza melhor os arcos da chamada jornada do herói dentro de sua própria trama. Há uma evolução mais clara dos personagens e uma preocupação maior em fazer com que os acontecimentos tenham consequência dentro da narrativa. O filme deixa de parecer apenas uma sucessão de esquetes e passa a funcionar melhor como uma aventura propriamente dita. A direção de Halder Gomes também demonstra evolução. O longa é bem editado, possui uma boa trilha sonora e apresenta um ritmo mais equilibrado, evidenciando não apenas o amadurecimento em relação ao primeiro filme, mas também uma evolução do cinema do diretor como um todo. Entre as boas adições ao elenco está o jovem João Pedro Frota, que interpreta o novo aprendiz do protagonista e estabelece uma dinâmica interessante com o personagem principal. Marcelo Serrado também se destaca e entrega uma atuação bastante eficiente, acrescentando novas camadas à narrativa. Outro ponto interessante está no arco envolvendo a mãe do protagonista. A relação familiar ganha espaço dentro da trama e ajuda a ampliar sua dimensão emocional, evitando que o filme fique restrito às lutas e às situações cômicas. Imagem: Divulgação O longa também apresenta uma crítica bastante evidente às apostas. Embora não aprofunde o tema como poderia, é interessante que uma produção com potencial para alcançar um público amplo utilize sua própria popularidade para abordar um problema social que já está extremamente perpetuado na sociedade brasileira. A discussão poderia ser mais desenvolvida, mas sua presença ainda funciona como um elemento relevante dentro da narrativa. Por outro lado, o filme ainda pesa a mão em alguns momentos no timing das piadas. Nem todas funcionam e algumas situações se prolongam mais do que deveriam, prejudicando pontualmente o ritmo. É justamente quando a produção tenta reproduzir o humor do primeiro longa que algumas de suas limitações ficam mais evidentes. Ainda assim, não há dúvida de que Shaolin do Sertão 2 é uma continuação muito superior ao seu antecessor. Quase uma década depois, Halder Gomes demonstra entender o que deu certo no primeiro filme e quais eram seus principais problemas. O resultado é uma obra mais madura, bem construída e que encontra um equilíbrio melhor entre comédia, aventura e emoção, sem perder a identidade cearense que ajudou a tornar o original tão popular. Nota: 2.5/5
- “Drag Ataque”: série documental mergulha no universo artístico das drag queens do Norte e Nordeste do Brasil
Com 12 episódios, a série documental que estreou na sexta-feira (14), acompanha o processo criativo e as trajetórias de drag queens do Norte e Nordeste. Imagem: Divulgação Drag Ataque, nova série documental “Drag Ataque”, com direção de Vinícius Gouveia, estreou no canal Fashion TV na última sexta-feira (14), e terá episódios à partir das 21 horas. Drag Ataque mergulhará no universo artístico das drag queens do Norte e Nordeste do Brasil em 12 episódios que serão exibidos semanalmente. Com produção da Plano 9, a série tem o fomento da Ancine | BRDE | FSA, o incentivo do Funcultura | Fundarpe | Secretaria de Cultura de Pernambuco e PNAB - PE - Programa Nacional Aldir Blanc | Pernambuco. A série revela o processo criativo de artistas que transformam performance em linguagem estética e política. Em cada episódio, duas drag queens apresentam suas trajetórias e talentos, que vão do canto e costura à maquiagem e até circo. Drag Ataque acompanha a criação das performances desde os primeiros passos até o momento de subir ao palco, diante do público em espaços reais da vida noturna, como bares e boates. Entre montações babadeiras, muito suor e encontros com a comunidade LGBTQIAPN+, a série documental revela o universo íntimo e vibrante destas artistas enquanto compartilha histórias de arte, resistência, pertencimento e invenção cultural. Com Ruby Nox, Potyguara Bardo, Safira Blue, Aimée Lumière, Sharlene, e grande elenco. “Drag Ataque certamente foi um desafio, considerando os obstáculos que superamos desde que idealizamos o projeto. O período de pandemia não apenas atrasou a produção, mas também provocou mudanças no contexto social e uma boa defasagem orçamentária. Para driblar tudo isso, tivemos que ser criativos, ousados e resilientes. E esse desafio se tornou uma alegria, um orgulho, porque demos vez, voz e palco para artistas incríveis, além de entregarmos uma obra instigante, relevante socialmente e única em sua proposta. Tenho certeza que esse é só o começo e já estamos pensando em novas temporadas.” conclui Mannu Costa da produtora Plano 9. Drag Ataque tem como objetivo celebrar a arte e a resistência das drag queens do Norte e Nordeste do Brasil. “Este projeto é bastante aguardado pela nossa equipe. Desde o momento em que selecionamos o projeto para ser financiado pelo FSA, buscávamos um conteúdo leve e divertido e que retratasse a cultura drag, que já estava em evidência naquele momento, de uma forma natural, ocupando os espaços reais da cena. Hoje, essa temática está consolidada, mas dificilmente vemos as cenas drags regionais ganhando destaque e esta é uma outra característica do projeto que chamou a nossa atenção.” declara o diretor do canal Fashion TV, Ramiro Azevedo. Para o diretor Vinicius Gouveia, a força da série está no contraste da intimidade dos bastidores e nos palcos, onde as personagens defendem sua arte utilizando de seus corpos transmutados através da arte drag queen e transformista. “Por muito tempo, drag queens foram vistas como alívio cômico. E elas também são isso, mas vão muito além: inspiram autoestima nas pessoas e promovem reflexões socioculturais, seja através do riso ou do choro. Para mim, elas são como sonhos, só que de carne e osso, e que qualquer pessoa gostaria de ser. Com muito glamour, suor e emoção, acompanhamos o processo criativo dessas drag queens desde os primeiros ensaios, até o grande momento de subir ao palco”. Sinopse: A arte drag como você nunca viu: em Drag Ataque, a cada episódio, duas artistas se preparam para brilhar diante de um público real, revelando histórias de vida, processo criativo e a pura potência da arte queer brasileira. Entre montações e emoções, a série celebra a invenção cultural das drag queens do Norte e Nordeste em espetáculos cheios de suor e brilho. Na primeira temporada de Drag Ataque, temos a cena drag do Norte e Nordeste como você nunca viu. A cada episódio, duas artistas radicalmente diferentes entre si sobem ao palco de bares, teatros e boates para enfrentar um público de verdade. Entre os bastidores e os holofotes, elas revelam suas histórias, seus processos criativos e a potência de uma arte que transforma identidade, corpo e resistência em puro espetáculo.
- “Aqui nós podemos fazer filmes com a qualidade de Marvel contando as nossas histórias”, afirma Halder Gomes sobre ‘Shaolin do Sertão 2’
Em coletiva de imprensa realizada nesta terça-feira (12), diretor e elenco falaram sobre a expectativa para a sequência, novos personagens, representatividade cearense e a possibilidade de um terceiro filme. Imagem: Raul Oliver Dez anos depois de O Shaolin do Sertão, o universo criado por Halder Gomes está de volta aos cinemas com Shaolin do Sertão 2. Antes da estreia, marcada para esta quinta-feira (20), o diretor e parte do elenco participaram de uma coletiva de imprensa para falar sobre a produção, as expectativas para a sequência e os caminhos encontrados para ampliar a história sem abandonar a identidade cearense que marcou o primeiro longa. Estiveram presentes, além do diretor, Halder Gomes, grande parte do elenco, como os atores Karla Karenina, Edmilson Filho, Falcão, Aya Matsusaki, João Pedro Frota, Fábio Goulart, Haroldo Guimarães e Igor Janssen. Para Halder Gomes, a espera de uma década ajudou a criar uma relação particular entre o público e a sequência. Segundo o diretor, durante todo esse período, a pergunta sobre quando um novo filme seria lançado acompanhou o processo de desenvolvimento da produção. “Com tantas milhares de horas de trabalho que a gente perde a noção até do que é a expectativa. Mas, no final das contas, a essência da expectativa está muito ligada à nostalgia”, afirmou. O diretor contou que, enquanto trabalhava no projeto, continuava ouvindo das pessoas a pergunta sobre quando sairia o próximo Shaolin. Agora, o desafio é transformar essa expectativa em uma experiência que dialogue com a memória afetiva construída pelo primeiro filme. “A expectativa é atender a esse anseio desse público nostálgico por esse universo, por esses personagens, pelo carinho desses personagens, por tudo que aconteceu naquele filme e entregar a essa expectativa o que o público guarda na sua memória afetiva. Isso causa muita ansiedade gostosa de dividir isso com o público.” Uma das novidades da sequência é a chegada de novos personagens ao universo de Aluízio Li. Para Halder, o processo de escolha do elenco foi um dos grandes desafios da produção, principalmente quando era necessário encontrar atores que correspondessem exatamente ao perfil pensado para a história. “Você escreve para o personagem sem saber se vai encontrar. E isso é bem desafiador”, explicou. O diretor destacou especialmente a escolha de João Pedro Frota para interpretar Micróbio, novo aprendiz do protagonista. Segundo Halder, encontrar o jovem ator foi como procurar uma “pepita de ouro”, fazendo uma comparação com a descoberta de Igor Janssen para o primeiro filme. A produção também conta com a participação especial de Lyoto Machida, um convite que, segundo o diretor, existe desde o primeiro Shaolin do Sertão e finalmente se concretizou na sequência. Mais do que continuar uma franquia, Halder Gomes vê a produção como uma declaração de amor ao Ceará. O diretor reforçou durante a coletiva a importância de realizar filmes no estado e apresentar ao público outras imagens do Nordeste, especialmente do sertão e dos interiores cearenses. “É uma opção pessoal, artística, profissional e afetiva de uma grande declaração de amor ao lugar que eu vivo, que eu pertenço, que eu faço parte, que eu convivo diariamente”, afirmou. Para Halder, produzir no Ceará também significa reafirmar a capacidade do cinema local de alcançar padrões internacionais sem abrir mão de suas próprias histórias.“Poder fazer um filme aqui representa a gente colocar nossa representatividade, fincar nossa bandeira para o mundo e dizer: ‘OK, aqui nós podemos fazer filmes com a qualidade de Marvel contando as nossas histórias’.” O diretor também destacou a relação pessoal com os lugares retratados na produção. Nascido no interior do Ceará, Halder afirmou que o sertão e municípios como Quixadá fazem parte de sua formação e de sua identidade. “É a realização de um sonho poder sempre filmar aqui, principalmente revelando o sertão, os nossos interiores. Eu sou do interior. Eu sou cearense puro-sangue de origem.” A discussão sobre identidade e representatividade apareceu também na fala de Aya Matsusaki, que destacou a presença de personagens amarelos no longa e relacionou a experiência ao próprio projeto de construção de uma imagem mais plural do Brasil no cinema. “Tem uma discussão muito forte sobre representatividade de pessoas amarelas, descendentes de japoneses, coreanos, chineses”, afirmou. Aya ressaltou que, embora grande parte dessa discussão esteja concentrada no eixo Sudeste, descendentes de imigrantes asiáticos estão presentes na construção da sociedade brasileira há várias gerações. Para a atriz, existe um paralelo entre essa busca por representação e o trabalho realizado por Halder Gomes ao colocar o Ceará nas telas. “Eu vejo um paralelo muito grande com o trabalho do Halder e do Emílio há muito tempo, que é trazer o Ceará para a tela e as pessoas se verem, o Brasil todo se ver e entender que o Brasil é plural.” A atriz também defendeu a importância de o público reconhecer a si mesmo nas histórias que chegam ao cinema. “Quando a gente se vê, a gente se identifica, a gente se orgulha, a gente passa a cuidar mais do que é nosso. E isso é muito importante para a construção de uma cidadania mesmo.” Para Aya, o fato de essa discussão aparecer dentro de uma comédia torna tudo ainda mais interessante. “O mais incrível é que é uma comédia. Você está rindo e está construindo uma noção de Brasil que eu acredito.” A discussão sobre o espaço da comédia também apareceu durante a coletiva. Karla Karenina lembrou sua trajetória ao lado de Falcão e as dificuldades enfrentadas por artistas cearenses para conquistar espaço nacional em uma época em que a internet ainda não tinha o alcance atual. “Nós, eu e Falcão, somos de uma geração em que a gente teve que furar muita bolha para que o humor fosse visto”, afirmou. Segundo Karla, a comédia ainda enfrenta preconceito, inclusive dentro do próprio circuito de premiações cinematográficas. “A comédia ainda é vista como uma arte menor”, disse. Imagem: Raul Oliver A atriz destacou a importância de sua trajetória na televisão, especialmente sua participação na Escolinha do Professor Raimundo, e celebrou o atual momento do cinema cearense. “Hoje estou feliz por estar aqui nesse momento de ver o cinema cearense, a comédia cearense transformada nesse boom, nessa explosão do cinema brasileiro.” Para Karla, o momento atual também representa uma nova possibilidade de mostrar nacionalmente as características próprias do humor produzido no Ceará. “Fico muito feliz que a minha geração está participando também dessa possibilidade de estourar nas redes, de a gente ter todas essas oportunidades de mostrar o nosso jeito, o nosso sotaque especialmente, o nosso jeito de fazer rir, que é diferente.” Para João Pedro Frota, que faz sua estreia no universo de Shaolin do Sertão, a experiência foi completamente diferente de tudo o que havia vivido anteriormente. “Foi algo diferente. Eu nunca tinha vivido nada parecido”, contou. O jovem ator relembrou o momento em que assistiu ao filme e percebeu a própria atuação na tela. “Eu via a minha alegria duas vezes. Eu assistindo, sorrindo, e eu atuando, sorrindo. O brilho no olhar realmente existia.” João também destacou a convivência com os demais integrantes do elenco durante as filmagens e brincou com a quantidade de referências e brincadeiras que absorveu durante a produção. “Essa experiência foi sensacional. É como eu digo: para descobrir o Micróbio, só usando o microscópio.” A possibilidade de uma terceira produção também apareceu durante a conversa. Edmilson Filho, protagonista da franquia, revelou que ele e Halder Gomes já conversaram sobre possíveis caminhos para uma continuação. “Vamos ver o que vai ser o resultado do segundo, que é muito importante para ter uma sequência. O filme tem que ter uma boa receptividade do público para ter uma sequência”, explicou. Apesar da cautela, o ator admitiu que a ideia de um terceiro filme já existe. “A gente já tem isso na cabeça.” Edmilson, no entanto, brincou com a necessidade de acelerar uma eventual produção por conta das exigências físicas do personagem. “Eu também já estou entrando numa idade que eu não posso estar mais arreganhando. Então tem que ser logo para eu poder estar no gás para dar aquele salto lá que vocês viram.” O ator também falou sobre a mistura entre artes marciais, fantasia e referências culturais que atravessa a franquia. Para ele, o filme combina o imaginário dos filmes de kung fu que marcaram sua formação com elementos da realidade nordestina. “Esse universo fantástico que transita no filme se mistura muito com um realismo fantástico do nosso cotidiano, nas nossas histórias locais, com esse Japão e essa China imaginária construída na nossa infância e adolescência, quando a gente assistia esses filmes.” Edmilson também destacou o arco emocional de Aluízio e a mensagem que acredita estar no centro da sequência. Para o ator, o protagonista passa por diferentes provações sem perder a essência que o define. “Mesmo na inocência, com um bom coração, ele passa por todas essas provações, mas continua fiel ao que ele é.” A partir disso, o ator relacionou a trajetória do personagem a uma reflexão sobre como cada pessoa reage às dificuldades da vida. “Hoje, aguentar pancada não é o que vai fazer você ser melhor. É aguentar essa pancada e como você vai reagir a essa pancada, sendo aquela mesma pessoa, acreditando na sua essência.” Para Edmilson, essa é uma das principais mensagens de Shaolin do Sertão: continuar acreditando nos próprios sonhos mesmo diante das dificuldades. “Mesmo no sertão, continuar o seu sonho vivo. Eu acho que isso é uma mensagem muito bonita.” Outro retorno aguardado é o de Igor Janssen, que volta a interpretar Piolho dez anos depois do primeiro filme. Para o ator, retornar ao personagem representa uma experiência especialmente nostálgica, já que foi justamente com Shaolin do Sertão que sua trajetória nas artes cênicas começou. “Depois de dez anos eu volto a fazer o mesmo personagem. Só que é um personagem dez anos depois, então é quase um outro personagem.” Igor contou que o primeiro filme foi fundamental para sua formação e relembrou a importância de Halder e Edmilson nesse início de carreira. “O Piolho foi o primeiro personagem da minha vida e foi onde tudo começou, onde o Halder e o Edmilson me apresentaram o caminho das artes cênicas.” A experiência também ganhou um significado especial por Igor ser um ator nordestino que, como tantos outros profissionais da região, precisou sair do Nordeste em busca de oportunidades.“É muito gostoso fazer isso e principalmente porque o Piolho foi o primeiro personagem da minha vida.” Para Igor, uma das maiores forças de Shaolin do Sertão 2 está justamente na especificidade de seu humor. O filme não tenta apagar o sotaque, os gestos, as expressões e as referências locais para se tornar mais palatável a outras regiões do país.“É um trabalho nordestino, cearense, do jeito cearense, que a gente se identifica, que a gente sabe que é o nosso povo falando para a gente mesmo.” O ator destacou elementos que podem parecer pequenos para quem não é cearense, mas que carregam grande significado para quem cresceu no estado. “É o tipo de piada que só a gente vai entender do início ao fim.” Segundo Igor, até mesmo respostas curtas e expressões presentes no cotidiano cearense funcionam como códigos compartilhados entre os personagens e o público. “Quando o menino, o João, começa a responder ‘rapaz’, a gente já entende a resposta todinha. Não precisa falar nada. Isso é muito nosso.” Ao olhar para João Pedro Frota, Igor também enxerga um pouco de sua própria trajetória. Dez anos depois, ele se reconhece no jovem ator que agora vive a experiência de descobrir como é participar de um filme dessa dimensão. “Quando eu olho para o João, eu me vejo há 11 anos atrás, vivendo tudo isso.” A fala resume parte do espírito que envolve o retorno de Shaolin do Sertão: uma nova geração chegando ao universo criado por Halder Gomes enquanto aqueles que participaram do primeiro filme reencontram personagens, memórias e uma história que ajudou a consolidar uma forma muito particular de fazer cinema no Ceará. Shaolin do Sertão 2 estreia nos cinemas de todo o Brasil nesta quinta-feira, 13 de agosto.
- Festival Internacional de Cinema de Itabaiana homenageia Yoya Wursch em sua 5ª edição
Diretora produziu o o primeiro filme sergipano captado em película de 35mm, o curta 'Arcanos, o Jogo'. Imagem: Divulgação Celebrar o cinema nacional é reconhecer trajetórias que moldaram o cenário atual e popularizaram tramas e vertentes do audiovisual. Na 5ª edição, o Festival Internacional de Cinema de Itabaiana presta homenagem à diretora e roteirista, Yoya Wursch, reconhecendo suas mais de quatro décadas de atuação, além da contribuição para a cultura e o audiovisual brasileiro e sergipano. A celebração integra a programação do evento, que acontece entre os dias 19 e 22 de agosto, na Universidade Federal de Sergipe (UFS) – Campus Itabaiana. Embora nascida na cidade do Rio de Janeiro, foi no estado de Sergipe que Yoya Wursch encontrou o seu espaço definitivo na 7ª arte. Ao lado da sergipana Ilma Fontes, produziu o primeiro filme sergipano captado em película de 35mm, o curta Arcanos, o Jogo. Dirigido e roteirizado pela própria Yoya, o curta, lançado na década de 1980, aborda a cartomancia, e transforma o Mercado Municipal de Aracaju em um ponto de encontro misterioso e supersticioso para os desconhecidos da vida. A parceria entre Yoya Wurch e Ilma Fontes se repetiu ainda nos anos 80 com o curta-metragem O Beijo. Com 7 minutos de duração e rodado em Super 8, um formato de filme analógico de 8mm, o curta possui direção e roteiro de Yoya Wurch, que junto à sergipana Ilma Fontes, assume o protagonismo da trama. O Beijo narra a história de duas mulheres que passam por tramas existenciais, enquanto procuram respostas para a melhor maneira de viver. As obras realizadas em Sergipe representam momentos fundamentais para a formação da identidade do cinema sergipano e permanecem como referências para pesquisadores e realizadores. Como lembra a própria cineasta, foi a partir das experiências vividas no estado que sua relação com o cinema se consolidou. “Sergipe foi quem me colocou no cinema definitivamente. Arcanos, o Jogo, O Beijo, e uma história que eu ouvi de um cara que conheci aqui. Em 1979 ele era pai solteiro… essa história me inspirou. Escrevi um argumento para um filme, ganhei um concurso numa produtora e fui escolhida para escrever meu primeiro longa-metragem — Bete Balanço — e não parei mais. Quem tem um sonho não dança!”, reforçou Yoya. A cineasta também reforçou que o reconhecimento representa uma oportunidade de destacar a contribuição de Sergipe para sua trajetória e para o cinema nacional. “Estou muito feliz com essa homenagem! O Nordeste faz o melhor cinema do Brasil. Que bom que o estado sergipano contribui para o cinema e a cultura e fortalece o audiovisual sergipano e brasileiro. Viva Sergipe! Viva o nosso cinema”, afirma. Além de Bete Balanço (1984) dirigido por Lael Rodrigues e protagonizado por Débora Bloch, a passagem por Sergipe também antecedeu trabalhos que marcariam sua carreira. Como roteirista, assinou títulos como Rock Estrela (1986), Rádio Pirata (1987), Lua de Cristal (1990) e Copacabana (2001), entre outros filmes que ajudaram a consolidar sua atuação no audiovisual. Na televisão brasileira, a diretora e roteirista também deixou sua marca como autora e colaboradora de importantes produções. Yoya assinou a autoria de Colégio Brasil, exibida pelo SBT, colaborou em novelas como Dona Anja, Mandacaru, Malhação, Metamorphoses e Vende-se um Véu de Noiva, além de criar Dance Dance Dance, exibida pela Band em 2007 e reconhecida como a primeira telenovela brasileira produzida e exibida integralmente em alta definição. A roteirista também escreveu para programas como Você Decide e Brava Gente e, mais recentemente, para a série República do Peru, produzida para a HBO. Homenagem A escolha de homenagear Yoya Wursch parte da importância de entender a produção regional como instrumento transformador da cultura e de novas gerações de cineastas, que constroem narrativas comprometidas com a criatividade, a inovação e a valorização da memória do cinema brasileiro. Para o idealizador do Festival de Itabaiana, Andrei Ferreira, a intenção foi reconhecer uma personalidade capaz de aproximar a história do cinema sergipano da produção audiovisual brasileira. “A nossa escolha para esse ano foi pensando em um nome que interconecta-se o cinema nacional, o cinema brasileiro com o cinema sergipano. Yoya basicamente começou sua carreira em Sergipe e também teve um papel importantíssimo para o cinema nacional. Ela criou obras que atravessaram diversas gerações. Uma roteirista que contribuiu para que várias pessoas amassem o cinema brasileiro, o conhecessem através dos roteiros que ela criou, mas também contribuiu bastante para o desenvolvimento do cinema sergipano”, afirma. A homenagem a Yoya Wursch evidencia uma trajetória que atravessa diferentes gerações, e reforça como experiências construídas longe dos pólos centrais do país podem contribuir para a história do cinema brasileiro. Ao reconhecer a cineasta, o Festival Internacional de Cinema de Itabaiana reafirma o compromisso de valorizar a memória audiovisual e destacar os encontros entre diferentes territórios, trajetórias e formas de fazer cinema.
- Crítica | O Fim da Rua
Filme de David Robert Mitchell finalmente devolve aos dinossauros a aventura divertida, criativa e emocionante que o cinema parecia ter esquecido. Imagem: Divulgação Existe uma pergunta que o cinema de dinossauros vem tentando responder há décadas: como fazer uma boa aventura com criaturas pré-históricas sem simplesmente repetir Jurassic Park? A resposta parecia cada vez mais difícil. Desde Jurassic Park III, em 2001, poucos filmes conseguiram transformar dinossauros em uma aventura realmente memorável. A própria franquia que tentou renovar esse universo na última década, Jurassic World, acabou presa a uma nostalgia que parece nunca encontrar seu próprio ritmo. Os três filmes da nova trilogia fizeram muito sucesso nas bilheterias, especialmente porque dinossauros continuam sendo uma das apostas mais seguras do cinema comercial. O problema nunca foi o público. Foi a qualidade. Depois de duas continuações pouco inspiradas, Jurassic World: Renascimento surge como uma nova tentativa de recuperar o encanto da franquia, mas também não consegue entregar tudo aquilo que promete. No fim das contas, não deveria ser tão difícil. É só fazer um bom filme de aventura com um roteiro que funcione. Parecia difícil demais, até chegar O Fim da Rua. Dirigido por David Robert Mitchell, cineasta responsável por Corrente do Mal (2014) e Under the Silver Lake (2018), o filme parte de uma premissa deliciosamente absurda: após um misterioso evento cósmico, uma rua suburbana é arrancada de seu cotidiano e transportada para um lugar desconhecido, onde seus moradores descobrem que estão cercados por dinossauros. No centro da história está a família Platt, formada por Denise (Anne Hathaway), Dan (Ewan McGregor) e os filhos, que precisam sobreviver enquanto tentam entender o que aconteceu com o lugar que chamavam de casa. É uma ideia simples, mas Mitchell entende algo fundamental: não é preciso inventar uma mitologia gigantesca para fazer um bom blockbuster. É preciso saber contar uma história. E O Fim da Rua sabe. O grande mérito do filme está justamente em recuperar uma sensação que o cinema comercial parece ter perdido. Há algo de Amblin em cada esquina de Oak Street. A fotografia, os planos longos pelos subúrbios, os carros antigos, a trilha sonora grandiosa e até o uso de split diopters criam uma atmosfera que remete diretamente ao cinema de aventura dos anos 1980. Mas David Robert Mitchell não transforma essa referência em simples nostalgia. O diretor absorve aquele espírito e o mistura ao seu próprio cinema. O resultado é um filme que consegue ser divertido, assustador, cruel e, principalmente, surpreendentemente humano. Porque, embora os dinossauros sejam obviamente a grande atração, O Fim da Rua é também uma história sobre uma família que está desmoronando. Denise e Dan não estão exatamente vivendo o melhor momento do casamento. A comunicação entre os dois está quebrada, os filhos estão cada vez mais distantes e aquela imagem de família suburbana perfeita começa a revelar suas rachaduras. Quando o mundo literalmente deixa de fazer sentido, eles são obrigados a fazer aquilo que não conseguiam fazer dentro de casa: conversar, confiar uns nos outros e permanecer juntos. Anne Hathaway funciona como a espinha dorsal dessa família. Sua Denise é a força que mantém todos de pé, especialmente quando a situação exige que ela abandone qualquer ideia de normalidade. A atriz encontra o equilíbrio perfeito entre a mãe protetora e a mulher aterrorizada diante de uma situação que não consegue compreender. (E, sim, existe um momento em que Anne Hathaway simplesmente explode um T-Rex com uma espingarda). E é exatamente esse tipo de absurdo que faz o filme funcionar. Ewan McGregor também está muito bem, especialmente porque seu personagem complementa a energia de Hathaway sem disputar espaço com ela. Os dois possuem uma dinâmica convincente e conseguem vender tanto os momentos de tensão quanto aqueles pequenos instantes de humor que impedem o filme de ficar pesado demais. Imagem: Divulgação Mitchell também entende que dinossauro funciona melhor quando é tratado como ameaça. Em vez de transformar cada criatura em uma atração de parque temático, o diretor brinca com suspense, escala e expectativa. Algumas sequências são genuinamente tensas e fazem um ótimo uso do espaço suburbano, transformando casas, ruas, quintais e carros em elementos de sobrevivência. O filme também não tem medo de ser cruel. Apesar da estética de aventura familiar, O Fim da Rua ultrapassa algumas expectativas do que normalmente se espera de um blockbuster desse tipo. Há violência, imagens sangrentas e momentos capazes de arrancar o espectador da cadeira. E talvez seja essa mistura que torne o filme tão especial. O Fim da Rua parece, ao mesmo tempo, Tubarão, Os Goonies, Jurassic Park, Sinais e aquele tipo de aventura de verão que Hollywood simplesmente não faz mais. Só que não é uma colagem vazia de referências. Mitchell usa esse imaginário para construir algo próprio. É uma carta de amor aos blockbusters de outra época, mas sem esquecer que nostalgia, sozinha, não sustenta um filme. Há problemas, claro. O mistério envolvendo o fenômeno que transporta Oak Street para aquele mundo é tratado de maneira um pouco superficial. Algumas respostas parecem menos importantes para o roteiro do que deveriam e, quando chega a hora de explicar o que realmente está acontecendo, o filme opta por caminhos que podem deixar parte do público insatisfeita. O encerramento também chega de maneira abrupta, deixando a sensação de que algumas ideias poderiam ter sido desenvolvidas melhor. Nada disso, porém, destrói a experiência. Porque O Fim da Rua entende algo que a franquia Jurassic World parece ter esquecido: um filme de dinossauros não precisa ser uma grande operação de nostalgia, nem precisa explicar cada detalhe de seu universo. Ele precisa ser divertido.E esse é, talvez, o maior triunfo de David Robert Mitchell. Depois de tantos anos esperando que os dinossauros voltassem a proporcionar uma grande aventura, finalmente temos um filme que entrega exatamente isso. O Fim da Rua é engraçado, emocionante, assustador, visualmente inventivo e surpreendentemente tocante. Uma máquina de entretenimento enxuta e feroz, que sabe quando acelerar, quando desacelerar e, principalmente, quando simplesmente deixar um dinossauro entrar em cena. No fim, talvez a solução sempre tenha sido mais simples do que parecia: era só fazer um bom filme. Nota: 4/5
- Lista | 10 ótimas séries jurídicas para assistir
Hoje, dia 11 de agosto, é celebrado o Dia do Advogado aqui no Brasil, então nada melhor do que uma lista temática com dicas para maratonar. Divulgação Histórias jurídicas na televisão são famosas desde The Defenders, nos anos 1960, – que eu não assisti e por isso não está na lista – e eu elenquei aqui minhas favoritas. Os casos, sejam no estilo mais procedural ou não, são criativos, empolgam e emocionam, além de personagens principais complexos que enriquecem ainda mais as histórias, mesmo com perspectivas diferentes, dos juristas ou dos acusados. Preferi deixar de fora algumas mais famosas como Suits e How to Get Away with Murder, que têm seu valor, mas posso confessar? prefiro estas dez listadas a seguir: Divulgação 10. Ally McBeal (1997-2002) Sinopse: Ally McBeal (Calista Flockhart) é uma jovem advogada, recém-formada em Harvard, que entra para a equipe de um grande escritório de advocacia onde seu ex-namorado trabalha. Divulgação 9. Law & Order (1990-) Sinopse: O drama mostra o processo complicado de determinar a culpa ou a inocência, quando vidas estão em jogo. Muitas vezes inspirado pelas notícias mais recentes, o enredo destaca dilemas éticos e pessoais. Divulgação 8. The Practice (1997-2004) Sinopse: Acompanhamos as explorações e casos de advogados de defesa de um escritório de advocacia de Boston. Bobby Donnell (Dylan McDermott) é o advogado de defesa principal e fundador da firma. Divulgação 7. Acima de Qualquer Suspeita (2024-) Sinopse: Um assassinato hediondo deixa o escritório da Promotoria de Justiça de Chicago de cabeça para baixo quando um dos promotores é suspeito do crime, o que deixa Rusty (Jake Gyllenhaal), o acusado, lutando para manter sua família unida. Divulgação 6. The Good Fight (2017-2022) Sinopse: Um duro golpe financeiro destrói a reputação da jovem advogada, Maia Rindell (Rose Leslie), e acaba com as economias de sua mentora Diane Lockhart (Diane Lockhart). Expulsas da Lockhart e Lee, elas se juntam a Lucca Quinn (Cush Jumbo) em uma das empresas de advocacia mais notáveis de Chicago. Série derivada de The Good Wife. Divulgação 5. Damages (2007-2012) Sinopse: Patty Hewes (Glenn Close) é uma das maiores advogadas de Nova York e quando a recém formada Ellen Parsons (Rose Byrne) é contratada para seu escritório, Hewes conta com sua ajuda no processo milionário contra o poderoso Arthur Frobisher (Ted Denson). O que Ellen não contava era que isso envolveria diversas traições, armações e assassinatos. Divulgação 4. Boston Legal (2004-2008) Sinopse: A série derivada de The Practice acompanha o brilhante e excêntrico advogado Alan Shore (James Spader) em uma firma de ponta em Boston, lidando com casos complexos ao lado de seu grande amigo, o lendário e lúdico Denny Crane (William Shatner). Divulgação 3. The Good Wife (2009-2015) Sinopse: Quando o marido de Alicia Florrick (Julianna Margulies) se envolve em um escândalo e é preso, ela precisa voltar a advogar para sustentar os filhos, depois de anos longe da profissão. Divulgação 2. Olhos que Condenam (2019) Sinopse: Cinco adolescentes do Harlem vivem um pesadelo depois de serem injustamente acusados de cometer um ataque brutal no Central Park. Baseada em uma história verídica. Divulgação 1. Better Call Saul (2015-2022) Sinopse: Jimmy McGill (Bob Odenkirk), também conhecido como Saul Goodman, tenta ser um homem honesto e construir uma carreira de respeito. Mas há um lado seu que só quer aplicar golpes e se tornar um advogado picareta. Série prequel de Breaking Bad.












