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  • Crítica | Cidade dos Sonhos (2001)

    Um filme que já nasceu clássico pelo olhar e pela ideia de ousar sonhar de um gênio. Divulgação Nesta quinta-feira, 17, Cidade dos Sonhos retornou aos cinemas remasterizado e em 4K. Lançado originalmente em 2001, o longa se tornou um dos mais emblemáticos da carreira de David Lynch, e lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor direção. Lynch, que faleceu no início deste ano, provavelmente tinha ideia de que Cidade dos Sonhos é mais do que apenas mais um filme na sua carreira. Ele é considerado por muitos um dos melhores longas de todo o século 21, talvez um dos melhores de toda a história do cinema. Parece muito hype para quem não viu? Talvez. Mas a genialidade da trama que saiu da mente de Lynch junto de uma estética tão única e característica torna Cidade dos Sonhos quase um fascínio místico. Originalmente filmado em 1999 como um piloto para a TV, Cidade dos Sonhos foi rejeitado. No ano seguinte, David Lynch recebeu dinheiro para filmar novas cenas e transformar o projeto em um filme para os cinemas. Ele o fez — e criou um dos filmes mais grandiosos, bizarros e perturbadores já feitos. À primeira vista, o longa parece alinhar-se a uma estrutura relativamente tradicional: a jovem Betty (Naomi Watts), cheia de sonhos hollywoodianos, chega a Los Angeles para tentar a sorte como atriz. Logo se envolve com a misteriosa Rita (Laura Harring), que sofre de amnésia após um acidente de carro na estrada Mulholland Drive. O que se apresenta como um thriller gradualmente se desfaz em uma espiral onírica de imagens desconexas, simbolismos densos e identidades fragmentadas. Dissolvendo as fronteiras entre sonho, realidade, identidade e narrativa com uma precisão inquietante, Cidade dos Sonhos é um filme sobre Hollywood e a indústria cinematográfica, mas não só o espaço físico Hollywood como, principalmente, a ideia de Hollywood no imaginário americano. O filme opera sob uma lógica não linear, onde a primeira metade encena um desejo idealizado e a segunda colapsa essa fantasia em uma realidade crua e brutal que doi em assistir. O que começa como um conto de fadas noir se transforma em um pesadelo existencial, onde o tempo se dobra, os personagens se confundem e a identidade se revela como uma construção frágil, sujeita às pressões do desejo, da culpa e do fracasso. Lynch desconstroi a narrativa hollywoodiana clássica por meio da forma e do conteúdo. O uso do som é meticulosamente manipulado para gerar estranhamento, e a trilha de Angelo Badalamenti cria uma atmosfera de constante deslocamento emocional. A mise-en-scène é labiríntica, espelhando o estado mental das personagens, e a montagem, com seus cortes abruptos e passagens inexplicáveis, encarna o próprio colapso da narrativa racional. A chave para compreender Cidade dos Sonhos está na instabilidade das identidades. Betty e Rita, na primeira metade do filme, funcionam como projeções idealizadas: a atriz inocente e talentosa que chega à cidade dos sonhos e a mulher misteriosa que precisa ser protegida. Elas existem dentro de uma espécie de simulacro hollywoodiano, onde tudo é artificialmente belo e promissor. A própria cidade de Los Angeles, com suas colinas, névoas e mansões, torna-se um espaço de delírio e distorção. Divulgação Cidade dos Sonhos pode ser lido como o ápice de um processo que Lynch já vinha experimentando em obras anteriores, como Veludo Azul (Blue Velvet, 1986) e Estrada Perdida (Lost Highway, 1997). Em todos esses filmes, há uma desconstrução da identidade, uma violência subterrânea que brota sob a superfície da vida cotidiana e um fascínio por figuras femininas dúbias e ambíguas. Assim como em Veludo Azul, onde a cidade aparentemente pacata esconde horrores inomináveis, em Cidade dos Sonhos a cidade do glamour se revela como uma fábrica de frustrações, desejos inconfessos e ruínas psíquicas. O uso do som ambiente, dos silêncios pesados e da montagem disjuntiva são marcas da linguagem lynchiana em estado puro. Há um jogo constante com a performance: Naomi Watts entrega uma atuação camaleônica, transitando entre a doçura ingênua e o desespero psíquico absoluto. Seu teste de atuação no meio do filme (uma cena dentro da cena) exemplifica a tensão entre ilusão e verdade, arte e vida, que atravessa toda a obra. Quando a narrativa se desfaz e as identidades se embaralham, o que se apresenta é um colapso subjetivo. O espectador é empurrado para um terreno de instabilidade ontológica: quem são essas mulheres? Onde começa a ficção e termina a realidade? Teriam elas existido, ou são fragmentos de uma mesma consciência despedaçada? A performance de Naomi Watts é central nesse processo. Na transição de Betty para Diane, há uma mudança não apenas na atitude e no tom, mas na própria energia vital da personagem. Ela se torna uma mulher corroída pela inveja, pelo ressentimento e pela culpa. Em contraste, Laura Harring se transforma de figura frágil e amnésica em uma presença sedutora, quase cruel. Mais do que um mistério a ser resolvido, Cidade dos Sonhos é uma experiência a ser sentida, uma meditação sobre os mecanismos do desejo e a falência das promessas de Hollywood. Lynch não oferece respostas, mas fabrica um espelho quebrado onde cada fragmento reflete um aspecto distorcido da nossa própria sociedade. Em Cidade dos Sonhos, o ‘American Dream’ implode em delírio, e o espectador, perdido nesse labirinto de símbolos e silêncios, emerge transformado ou perturbado de um filme que é inesquecível e que perdurará na história do cinema por muitos e muitos anos. Nota: 5/5

  • Crítica | Carême – O Rebelde da Culinária (1ª temporada)

    Culinária, intrigas e sedução marcam a nova ficção histórica do AppleTV+. Divulgação O sucesso de Game of Thrones na década passada não apenas impactou o gênero da fantasia na TV e no streaming, mas também o da ficção histórica. As inspirações medievais da série e suas intrigas políticas (tão, senão mais aclamadas que seus elementos fantásticos) inspiraram um filão de obras que, mesmo se passando em nosso mundo nos mais diversos períodos do passado, usavam e abusavam de elementos mais adultos – em especial o sexo e a violência – para narrar as disputas de poder nas mais diversas esferas da sociedade. É na esteira de um certo ressurgimento dessas séries que Carême – O Rebelde da Culinária, nova produção francesa do AppleTV+ a ser lançada em 30/04, vem para disputar seu próprio espaço. Ambientada durante os primeiros anos do regime de Napoleão no início do século XIX, a série acompanha seu protagonista, Marie-Antoine Carême (Benjamin Voisin), um jovem, talentoso e ambicioso chef que trabalha com seu pai adotivo e, após este ser preso injustamente pela polícia napoleônica, recorre ao misterioso nobre e ex-clérigo Charles Maurice de Talleyrand (Jérémie Renier), que promete ajudá-lo e até mesmo o emprega, mas em troca de seus esforços de espionagem em meio ao cenário turbulento que se desenha para as forças napoleônicas. Embora Carême e boa parte das figuras retratadas na série realmente tenham existido (a série é baseada no livro Cooking for Kings: The Life of Antonin Carême, The First Celebrity Chef, do historiador Ian Kelly), inegavelmente são tomadas liberdades criativas que propulsionam a história, em especial esse lado “espião” do protagonista. Lançado de paraquedas nesse cenário de intrigas e disputas políticas, ele se vê forçado a lançar de suas maiores armas para sobreviver – suas habilidades geniais com a culinária e também seu charme e sedução. A série adota, ao menos em sua primeira metade, uma estrutura mais episódica, quase procedural, onde Carême precisa ajudar Talleyrand com algum problema relacionado ao círculo de Napoleão ou ao próprio (que, curiosamente, quase não aparece, e quando aparece é apenas em planos-detalhe que ocultam seu rosto). Na segunda metade, a coroação de Napoleão se torna o pano de fundo no qual a trama se desenrola com mais segurança, sem o ritmo mais apressado que ameaça atropelar os primeiros episódios. Admito, porém, que a faceta “espiã” de Carême é o aspecto menos interessante da série, mesmo que gere bons entretenimentos com os jogos de interesse e mudanças de lealdade. É só que não há nada de muito novo ou até mesmo inspirado aqui, o que se estende até mesmo às cenas de sexo, filmadas com pouco tesão, mesmo que a série insista que seja uma das armas mais perigosas e eficazes da história da política. Ao menos essa parte da série ajuda a dar o devido destaque a Talleyrand, que nas mãos de Renier se converte no personagem mais intrigante e interessante da temporada, com suas motivações dúbias (supostamente em nome da França, mas até que ponto tais interesses não são apenas os seus? É possível confiar num homem que trocou tantas vezes de lado durante a Revolução Francesa?) e a relação que constrói com o protagonista, talvez o verdadeiro coração da temporada. É justamente ao apostar no tratamento de Carême pelo que ele realmente foi conhecido – o primeiro chef celebridade da história – que a série cresce e se distingue em sua abordagem. Já no primeiro episódio o vemos criar um prato tão original e criativo que consegue apaziguar as tensões entre Napoleão e o embaixador inglês, e cada vez que temos o enfoque em seus pratos e criações, ou em sua personalidade turbulenta dentro da cozinha, vê-se a série mais inspirada. Chega a ser curioso que a figura de Carême é apresentada como anacrônica e à frente do seu tempo antes mesmo de o vermos em ação, como atesta o figurino do personagem e até mesmo o andar que Voisin imprime ao personagem. Divulgação Outro ponto positivo da série é a maneira como ela insere naturalmente uma noção de uma França mais diversa naquele período do que a historiografia oficial, especialmente através de suas duas protagonistas femininas, Henriette (Lyna Khoudri, uma mulher árabe) e Agathe (Alice da Luz, uma mulher negra). Mesmo que o texto ainda por vezes resvale em algumas obviedades para sustentar esse discurso mais representativo (ou aluda a um potencial triângulo amoroso entre Câmere e as duas personagens), no geral a inserção desses elementos se dá de maneira bem orgânica à trama e à ambientação. Ainda que não sem suas imperfeições, Carême se revela uma grata surpresa que permite conhecer um personagem, o qual particularmente não fazia ideia da sua relevância para sua culinária mundial nem seu grau de envolvimento na política francesa da época – independentemente se ele foi mesmo um espião ou “só” um chef muito talentoso. Com um final que deixa ganchos para se explorar os conflitos destes personagens em meio ao cenário das guerras napoleônicas, só posso esperar que ela alie de maneira cada vez mais acertada essa distinta dinâmica entre culinária, sexo, poder e intrigas políticas. Nota: 3.5/5

  • Análise | The Last of Us 2x02 (“Through the Valley”): A colheita

    O peso das nossas ações e o ciclo infinito da violência de um mundo que acabou. Divulgação (CONTÉM SPOILERS DO EPISÓDIO) “Cada um colhe o que planta”, “olho por olho”, “tudo que vai, volta”, “a conta chega” e eu poderia citar tantas outras frases que remetem ao que aconteceu neste devastador episódio, que já entra para a História da televisão, goste dele ou não. Toda a construção da tensão que dá continuidade aos ganchos deixados pela semana anterior é ótima. O dia começa normal, com mais uma patrulha, e agora Jesse é o companheiro de Ellie, pois Dina já partiu com Joel. Uma Ellie bem mais amena deixa subentendido que começou a fazer as pazes com Joel, uma vez que queria ir com ele na patrulha. “Eu sou eu e o Joel é o Joel, e nada vai mudar isso”. Até que muda. A gente sempre acha que vai ter mais tempo e ninguém está preparado para perder alguém que ama. Seja Joel, seja Ellie, seja Abby. Joel perdeu Sara no dia do surto e nunca conseguiu se recuperar, até que 20 anos depois conhece essa garota que seria apenas uma “carga”. Se apega a ela e a série constrói brilhantemente sua relação com Ellie. Ele não estava disposto a perder uma outra filha e para salvá-la dizimou 19 outras vidas naquele hospital. Uma delas era o pai de Abby, que procurou Joel por cinco anos até que o encontrou. Quando ela sai em busca de algum patrulheiro de Jackson para dar seguimento ao seu plano, é perseguida por uma horda e acaba tendo a ajuda do próprio Joel para escapar. Enquanto fogem, ela sugere que eles precisam ir até o chalé onde está sua equipe já que está mais próximo e eles poderiam ajudar, quando os infectados são “chamados” à Jackson e atacam o local com toda força. Tommy e parte da população lutam para defender a comunidade em cenas de batalha que lembram Game of Thrones. Joel é atraído para a armadilha de Abby e eu fiquei temeroso que o episódio tivesse muita informação com estes dois eventos, mas a direção de Mark Mylod soube usar da grandiosidade nas batalhas e do intimismo no confronto entre Abby e Joel. São dois momentos cruciais da série, onde o senso de comunidade que nos foi mostrado no episódio anterior de Jackson é testado ao máximo e um onde vemos o ciclo de violência se perpetuar em um mundo de extremos. Divulgação Abby expõe toda a sua dor e seu ódio; ela quer ver Joel sofrer pelo que foi lhe foi tirado. Ela saboreia cada momento da vingança ali e tudo que ela esperou por cinco anos finalmente chegou. Kaitlyn Dever está simplesmente brilhante em cena, na postura, na voz, no olhar, e é uma combustão de sentimentos que ela exala ali, enquanto dita suas motivações. Ela precisa que Joel saiba o que ela perdeu e porqu está fazendo aquilo. Ainda que seja compreensível, não faz ser menos doloroso. Conhecemos Joel por mais tempo, é com ele que temos uma conexão emocional e vê-lo partir não é fácil de maneira alguma. É chocante e é impactante. Há algum tempo já vemos protagonistas morrerem na televisão, mas ainda assim sempre esperamos o contrário e a série brinca com nossas expectativas. Porém, The Last of Us não está interessada em facilidade e sim discutir dilemas morais e éticos em um mundo que estas palavras são apenas isso: palavras, mesmo que finjam que não. A única lei é sobreviver e defender os seus. Quando falo em quebra de expectativas, posso citar como exemplo torcer para que Ellie chegue a tempo de salvar Joel, mesmo que haja uma desvantagem numérica. Mas se segue a lógica, e a única coisa que ela vê é seu pai – sim, isso mesmo – em seus momentos finais. Pedro Pascal já demostrou ser multifacetado e seu olhar quando percebe que não tem mais volta é de quebrar qualquer um. Só não é pior quando Ellie vê Abby dar o golpe final em Joel e uma Bella Ramsey desesperada e impotente faz um trabalho magistral. Quando ela pede para ele levantar e ele ainda faz um pequeno esforço, é simplesmente devastador. Joel, ao dar uma nova chance de vida à Ellie, acabou com a de Abby. São dois pesos e duas medidas, mas não vou ser hipócrita em dizer que não estou com raiva de Abby. Eu entendo o porquê, mas não tem como não se entristecer pela perda gigante de Joel. É quase inacreditável, mas é cíclico, e agora Ellie jura vingança à Abby e ao grupo. Assim seguimos, com o luto, a devastação e a violência que nunca cessa. Para além do espetáculo visual, é como lida com a complexidade humana que The Last of Us brilha.

  • Crítica | A Roda do Tempo (3ª temporada)

    Série surpreende com sua melhor e mais sólida temporada até o momento e se mostra a mais interessante da fantasia na atualidade. Divulgação Quando lançada em 2021, A Roda do Tempo correu o risco de ser eclipsada pelo potencial de O Senhor dos Anéis: Os Anéis do Poder, o que parecia quase irônico, considerando que os livros originais de Robert Jordan sempre sofreram comparações com o universo de Tolkien. Mas a confiança da Amazon Prime Video foi o suficiente para renovar a série (um hit surpresa em seu primeiro ano) para mais duas temporadas. Essa confiança se mostra válida, pois, embora a segunda temporada tenha passado longe de ser brilhante, corrigiu diversos problemas da primeira, e agora em sua terceira a série encontra seu tom e identidade com uma surpreendente maturidade e solidez. Mantendo a estrutura da temporada passada de apostar em núcleos separados, aqui temos em torno de quatro blocos principais: Rand (Josha Stradowski), agora revelado ao mundo como o Dragão Renascido, viajando ao Deserto Aiel para cumprir as profecias do seu povo nativo enquanto é acompanhado de Moiraine (Rosamund Pike), Egwene (Madeleine Madden) e Lan (Daniel Henney); Perrin (Marcus Rutherford) retornando à sua terra natal de Dois Rios, que vem sendo assolada pela ameaça dos Mantos Brancos e dos trollocs; as intrigas políticas na Torre de Tar Valon, ampliadas pela chegada de Elaida Sedai (Shoreh Aghdashloo) para lançar suspeitas sobre Siuan Sanche (Sophie Okonedo); e a missão de Nynaeve (Zoe Robbins) e Elayne (Ceara Coveney), acompanhadas de Mat (Dònal Finn) e Min (Kae Alexander), rumo à cidade de Tanchico para impedir que Liandrin (Kate Fleetwood), agora revelada como uma traidora a serviço do inimigo, ponha as mãos numa arma que a permita controlar Rand. Ainda que inegavelmente nem todos os núcleos recebam o mesmo desenvolvimento (os em Tanchico e Tar Valon acabam sendo os mais prejudicados em termos de tempo de tela), a temporada consegue equilibrá-los de maneira mais orgânica e com um ritmo mais regular do que a passada, beneficiando-se também do fato de que, mesmo com seus tropeços, as duas primeiras temporadas já nos apresentaram o bastante dos personagens e deste vasto mundo. Isso faz com que a série aqui evite muito da exposição didática que normalmente acomete o gênero da fantasia, inserindo termos, conceitos e lugares com a confiança de que o público irá acompanhar. Às vezes ela vai longe demais (como a introdução de toda uma raça de seres mágicos logo no último episódio quase sem nenhum contexto), mas no geral isso se configura um sinal da maturidade que a série atingiu e também da sua capacidade de não subestimar o público. Também é evidente que o streaming da Amazon injetou uma quantidade significativa de dinheiro que permite à série esbanjar proezas técnicas e visuais que em nada devem às suas contemporâneas Anéis do Poder e A Casa do Dragão. Ainda que em algumas cenas o orçamento ainda pareça limitado (como na perseguição de um trolloc a um grupo de pessoas ou uma batalha noturna, ambos no penúltimo episódio), longe se vai o CGI capenga da primeira temporada que chegou até a virar motivo de piada. Conforme exploramos mais desse mundo, seja em locações ou através dos efeitos visuais, o orçamento da temporada felizmente acompanha esse crescente escopo e senso de grandiosidade. Divulgação A evolução da temporada também se reflete no desenvolvimento dos personagens e também das performances do núcleo mais jovem, sempre um ponto focal das minhas críticas à série. No meu texto da segunda temporada comentei que não conseguia ver Stradowski à altura do peso de protagonista que Rand exigia (mesmo que este em si não fosse nem de longe um dos melhores personagens da obra original); aqui, porém, ele parece enfim entregar seu peso, especialmente no quarto e último episódios – o quarto, aliás, pode vir a ser o grande destaque da temporada, conforme apresenta mais do passado deste mundo pelos olhos de Rand. Da mesma forma, tramas que já tinham sido exploradas à exaustão, como o luto de Mat por sua esposa e a inabilidade de Nynaeve com seus poderes, parece enfim serem resolvidas. Dito isso, é inegável que o elenco adulto continua a brilhar, com destaques para Pike, Okonedo (ambas relacionadas à cena mais devastadora da temporada) e Aghdashloo, que impõe presença e autoridade em cena com sua personagem ambígua e se revela a melhor adição à série na temporada. O terceiro ano de A Roda do Tempo pode não solucionar todos os problemas da série, mas certamente se sobressai em relação aos dois primeiros, indicando que a produção enfim se encontrou e acertou o tom que busca imprimir a uma narrativa tão complexa e grandiosa. Resta torcer pela renovação de modo que todos os 14 livros da saga possam enfim ser adaptados, mesmo que com as mudanças necessárias e bem-vindas; afinal de contas, não é exagero dizer que à esta altura do campeonato a série se mostra a mais interessante de se assistir atualmente dentro do gênero da fantasia. Nota: 4/5

  • Crítica | Caos e Destruição

    Mesmo em modo mais contido, Gareth Evans continua a provar porque é um dos melhores diretores em atividade no gênero da ação. Divulgação Apesar da minha ligação com o cinema de ação remeter à infância e adolescência, me vi tendo um certo distanciamento do gênero ao longo dos anos, tanto por me ver imerso em outros gêneros quanto por uma certa percepção de que estes filmes estavam se saturando (especialmente ao copiarem erroneamente o modelo da edição frenética e cheia de cortes da franquia Bourne ou por serem cooptados pelos blockbusters a la Marvel). Esse distanciamento só não foi completo graças a duas franquias: a tetralogia de John Wick e a duologia Operação Invasão, esta comandada pelo galês Gareth Evans e que revelou ao mundo a arte marcial indonésia conhecida como pencak silat e novas estrelas como Iko Uwais e Yayan Ruhian. Mais de dez anos após o segundo Operação Invasão, Evans retorna ao gênero da ação nos cinemas com Caos e Destruição, longa que vinha sendo gestado lentamente desde 2021 e agora enfim estreou na Netflix. Nele acompanhamos o detetive corrupto Patrick Walker (Tom Hardy), que se vê envolvido na investigação de uma negociação de drogas que deu errado e culminou num massacre, e onde o principal suspeito é Charlie (Justin Cornwell), filho do atual candidato a prefeito Lawrence Beaumont (Forest Whitaker). Disposto a deixar seu passado corrupto para trás de uma vez por todas, Patrick concorda em achar Charlie, mesmo que precise mergulhar cada vez mais no fundo do submundo desta cidade, lutando contra o tempo para proteger o rapaz antes que este seja encontrado por outros policiais corruptos comandados por Vincent (Timothy Oliphant) e pela tríade chinesa. Na superfície, a premissa de Caos e Destruição é vagamente similar a um sem-número de outras produções de ação, inclusive no próprio catálogo da Netflix, que tem sido um streaming propenso a saturar o gênero de todas as formas possíveis. Essa, aliás, tem sido uma constante crítica aos filmes de ação há um bom tempo, mas Evans faz dessa fraqueza a sua força, ao transformar seu filme num exercício de maneirismo para contar uma história tão batida do seu próprio jeito. Não que o filme se equipare aos dois Operação Invasão – honestamente, não chega nem perto disso –, mas consegue se sobressair em meio ao catálogo saturado da Netflix justamente pela identidade e marca autoral do seu realizador firmemente presente. É notório, por exemplo, que Evans faça dessa metrópole sem nome onde o longa se passa uma versão noturna e (ainda mais) corrompida da Jakarta de Operação Invasão, apostando em uma artificialidade que constantemente a atenção para si mesma, seja no uso do CGI, na estética um tanto “gamificada” e no constante uso de neón que empresta toques de neo-noir e até faz aceno ao cinema de ação de Hong Kong. Isso, junto ao elemento da máfia chinesa envolvida na trama, mostra que, mesmo que tenha retornado ao Ocidente, o diretor não perdeu de vista as lições e o legado que construiu ao trabalhar no cinema indonésio e asiático. Divulgação Talvez onde o filme realmente peque é que, para um longa de Evans, há menos ação do que o esperado. O diretor constrói um ritmo cadenciado conforme prepara as peças do tabuleiro (ainda que nosso foco se detenha quase exclusivamente em Walker, vivido com Hardy com um suave toque de humor e cinismo), mas a despeito de uma perseguição no começo do filme e outros instantes pontuais, demora para que sejamos envolto pelo caos e destruição propostos no título nacional. No entanto, quando este vem – em especial em duas sequências específicas, a da boate e a da cabana –, Evans mostra a que veio. Ainda que essas sequências não carreguem muito da fluidez e da finesse daquelas de seus filmes anteriores (acredito eu que porque aqui não há o elemento das artes marciais como parte da mise-en-scène), a brutalidade e violência fazem jus à reputação do diretor, que não se furta a fazer seus personagens usarem qualquer objeto que encontrarem pela frente como arma. Uma cena em particular envolvendo um arpão me fez soltar um grito de êxtase, me fazendo lembrar porque sempre amei filmes de ação. Ainda que acabe residindo na sombra do que Gareth Evans produziu antes para o gênero – e nem sempre justifique a longa expectativa desses 4 anos desde seu anúncio –, Caos e Destruição consegue em seus momentos mais inspirados mostrar o melhor que a ação tem a oferecer, graças à visão de um diretor que abraça e explora o gênero tem a oferecer, entregando uma violência visual que é gratificante de se assistir. É mais do mesmo? Sim, mas nada como bons clichês trabalhados com autoria e competência. Nota: 3.5/5

  • Análise | The Last of Us 2x03 (“The Path”): O mundo após o luto

    Um episódio de transição sobre a vingança disfarçada de justiça. Divulgação (CONTÉM SPOILERS DO EPISÓDIO) Após a hora devastadora da semana passada, que matou inclementemente Joel (Pedro Pascal), The Last of Us entrega um episódio mais contido, morno até – embora fosse previsível que seria assim –, que se ocupa de explorar o luto vivido por Ellie (Bella Ramsey) e como este o impele a ir atrás de Abby (Kaitlyn Dever) e seus companheiros. Ao mesmo tempo, somos brevemente apresentados ao grupo dos Serafitas e ao conflito entre estes e os Lobos que governam Seattle, configurada no final do episódio como o palco para o conflito que se desenrolará pelo restante da temporada. As sementes da vingança plantadas no episódio passado florescem mais e mais aqui, mesmo sob um (aparentemente legítimo) discurso de justiça. Mesmo que o salto temporal de três meses mine um tanto do peso da perda de Joel e certas sequências com diálogos expositivos – como a entre Gail (Catherine O’Hara) e Tommy (Gabriel Luna) – sirvam num aspecto muito funcional e burocrático, gosto muito da maneira como o episódio explora a dicotomia entre as necessidades de Jackson, ainda profundamente abalada pela batalha do episódio anterior, e o desejo quase insaciável de vingança de Ellie (que ainda tenta contê-lo ou mascará-lo até certo ponto, embora aqueles mais próximos a ela vejam por trás da máscara). Sim, a morte de Joel é devastadora para a personagem e também para nós espectadores, que o tínhamos como o protagonista da série até então, mas vingá-la poderá satisfazer as necessidades coletivas da cidade? Não há respostas fáceis, o que vem sendo a marca de The Last of Us até aqui. Nesse sentido, a atuação de Bella Ramsey é mais uma vez fundamental para expressar a gama de emoções e até os traços sociopatas de Ellie, cada vez mais manifestos aqui. Sua cena com Gail no hospital, as sutis mudanças de expressão entre seus momentos sozinha ou interagindo com outros personagens, sua dinâmica com Dina (Isabela Merced, que se comprova cada vez mais o destaque da temporada) – é um trabalho soberbo de atuação que infelizmente não calará seus detratores, ainda estupidamente presos à sua caracterização ou ao apego tolo aos jogos originais, mas que comprova que elu foi a escolha certa para o papel. Divulgação Apesar de cair num lugar um tanto mais funcional para o andamento da trama, The Path cumpre seu papel de nos levar para um novo momento da narrativa de The Last of Us. Nossa visão deste mundo pós-apocalíptico está aumentando, com novos jogadores em cena, mas a série permanece fiel ao micro, explorando a velha narrativa de ciclos de vingança mas por uma perspectiva fresca e atraente. Tenho pena de quem cruzar o caminho de Ellie, e desde já me pergunto: o que acontecerá quando a sua sede de vingança pelo assassinato de Joel não puder mais ser satisfeita?

  • Crítica | That Summer in Paris | 2025 SFFILM Festival

    Protagonista simpática carrega o filme com leveza e bom humor espontâneo. Divulgação Paris, Jogos Olímpicos de 2024. Blandine (Blandine Bolbec), 30 anos, viaja da Normandia para assistir às competições de natação. Atormentada pelo caos da cidade e por uma onda de infortúnios, ela percorre as ruas movimentadas da capital francesa e inesperadamente retoma os laços com sua meia-irmã e sobrinha, de quem estava distante. No início deste ano assisti ao gracioso curta-metragem Susane (2025), de Gerardo Coello Escalante e Amandine Thomas, no Festival de Sundance. Ele conta a história de uma turista estadunidense de meia idade que viajou sozinha ao México e se esforça para aproveitar ao máximo suas férias mesmo sem companhia e com bastante vontade de socializar. That Summer in Paris parte de uma premissa semelhante, só que dessa vez conta a história de uma mulher “perdida” e sozinha em seu próprio país, mesmo inserida num acontecimento de porte mundial como os Jogos Olímpicos. Inclusive, excelente a sacada de rodar um filme durante o evento de 2024, aproveitando toda a estrutura e movimento de pessoas, em vez de tentarem reproduzir aquele zeitgeist que nunca chega a se concretizar da mesma forma por mais que a equipe de direção de arte se esforce, afinal, vai além da cenografia e da imagem, é uma “atmosfera” no sentido mais saturado da palavra. A protagonista Blandine Bolbec dá um banho de carisma e simpatia. A encantadora atriz consegue, com poucas palavras, equilibrar sinceridade, medo, dúvida e simpatia num papel que exige autocontrole para não fugir das delimitações da personalidade. A cena em que a irmã da protagonista Blandine entrega a ela uma pulseira com uma pedra granada e diz que a rocha tem tudo a ver com Blandine porque é transparente e opaca ao mesmo tempo, resume bem a persona que Bolbec desenvolveu com primor. O pouco que sabemos da personagem é através das poucas interações que ela tem com os poucos coadjuvantes. Divulgação As Olimpíadas servem como catalisador das motivações dos personagens, tanto de Blandine como dos personagens secundários. É por causa de “Paris 2024” que Blandine resolve ir à capital francesa na tentativa de se reconectar com a família, que a meia-irmã resolve conhecer pessoas novas, e que o ex-marido da meia irmã protesta contra as estruturas sociais. É a chance que todos têm de quebrar a rotina e colocar para fora realizações pessoais e anseios e reprimidos. O pequeno arco do ex-marido da meia-irmã, diga-se de passagem, serve para cutucar o contraste entre as Olimpíadas idílicas e turísticas em oposição à realidade política e social que se tenta esconder para a realização dos Jogos. É um filme engraçado de forma orgânica, sem precisar desenhar situações absurdas e confusões generalizadas. Mas é também um drama maduro que aborda a solidão de forma consciente e bem pensada, bem refletida, como uma escolha lúcida de encarar a vida com seus altos e seus baixos. E isso é filmado com cores vibrantes do verão francês nas roupas e nos objetos, em pontos focais da cenografia. É um longa sobre desencontros de jornadas, que sabe valorizar os encontros e que mostra que a volta é parte importante de uma viagem. Nota: 3,5/5

  • Análise | Succession 4x03 ("O Casamento de Connor")

    Um marco histórico da televisão - AVISO: CONTÉM SPOILER DO EPISÓDIO Foto: Divulgação “Everyone’s Waiting”, de A Sete Palmos (Six Feet Under). “Made in America”, de Família Soprano (The Sopranos). “The Suitcase”, de Mad Men. “Ozymandias”, de Breaking Bad. O que esses episódios têm em comum? Todos são, ao seu modo, alguns dos mais marcantes da história da TV, daqueles que vão ser presença carimbada nas listas dos melhores já feitos. Ontem, à noite, Succession garantiu seu lugar nesse panteão com “O Casamento de Connor”, um daqueles episódios tão memoráveis que o mero fato de assisti-lo em tempo real foi como ver história sendo feita ao vivo. Para falar dele, é preciso lidar com o elefante na sala, o acontecimento que o tornou tão memorável. Sim, Logan Roy (Brian Cox) está morto. Mas não é apenas a morte dele que nos choca — afinal de contas a esperamos desde que o personagem sofreu um derrame no primeiro episódio (e o nome da série já é outro indicativo) —, e sim o fato dela acontecer sem nenhum aviso e tão cedo na temporada, onde outras séries a deixariam apenas para os últimos episódios. É uma prova da ousadia de Jesse Armstrong e muda completamente o jogo para a reta final da temporada. A presença de Armstrong como roteirista desse episódio (junto à Mark Mylod na direção) já deveria ser um indicativo de que algo grande estava vindo; e se baseássemos o episódio com base em seus primeiros 15 minutos, ele já seria excelente, alternando entre as negociações de Logan com a GoJo e o referido casamento do título. E então o tapete o puxado, mas Armstrong e Mylod não se contentam em nos anunciar que Logan morreu: eles nos lançam em um estado de paranoia e incerteza junto aos personagens, seja os que estão no avião com o patriarca dos Roy quanto seus filhos que estão em terra firme, atordoados e perplexos pelo desenrolar dos eventos. Aliás, se já havia alguma dúvida de que Succession varreria as categorias de atuação (e as demais), ela é completamente destruída após as entregas de Jeremy Strong, Sarah Snook e Kieran Culkin como o trio de irmãos protagonistas. Não que eles sejam os únicos a brilhar — é um atestado do altíssimo nível do episódio e da série o fato de que todo mundo, até mesmo um motorista coadjuvante, se destaca de alguma forma aqui —, mas o texto de Armstrong e a direção claustrofóbica de Mylod nos lançam junto aos três numa verdadeira montanha-russa de emoções que vai do choque a um calculismo quase perverso (poucas vezes uma frase sintetizou tão bem uma série inteira quanto “podemos segurar essa informação até o mercado fechar?”). Se eu pudesse escolher apenas um nome para destacar do episódio inteiro, seria o de Culkin, que consegue transmitir todo o inferno pessoal que seu Roman vive, desde as amargas e confusas últimas palavras dita ao pai por telefone (e que jamais serão ouvidas), passando por sua completa negação à notícia e culminando na sua solitária decisão de ver o corpo de Logan. Snook vem logo atrás, sedimentando sua futura indicação (e merecida vitória, caso haja) à Melhor Atriz ou Atriz Coadjuvante com uma única cena: aquela em que Shiv, completamente quebrada e desesperada, é posta ao telefone para tentar dizer algo ao pai enquanto este é reanimado pela equipe do avião. E Strong, cujo Kendall vinha relativamente mais apagado em relação às temporadas anteriores, nos lembra mais uma vez porque é um dos melhores atores da atualidade, goste você ou não do seu Método de Atuação. O plano final do episódio, com Kendall contraposto ao crepúsculo com lágrimas silenciosas nos olhos enquanto vê o corpo do pai sendo levado, é um dos momentos mais devastadores que a TV já conheceu. Logan Roy está morto, no melhor jeito Succession de ser: sem cerimônias, sem últimas palavras bonitinhas ou clichês, devastando a tudo e a todos antes que a necessidade de uma abordagem fria, impessoal e profissional seja adotada para conduzir as coisas. É tudo tão inesperado e seco que seria absolutamente frustrante se assim fosse feito em uma série de menor qualidade, mas aqui faz todo o sentido, já que a morte (sempre um tema tão recorrente na série) não costuma esperar. Em mãos menos hábeis, matar seu protagonista tão cedo numa última temporada poderia acarretar a morte da própria série, mas aqui é um atestado da segurança de Jesse Armstrong e cia. em conduzir essa história. “O Casamento de Connor” é um episódio que já nasceu memorável, e a única chance de ele não figurar como o melhor episódio do ano ou um dos melhores de todos os tempos é se for superado pelos próximos sete que estão por vir. E sinceramente? Se tem uma coisa que Succession demonstrou muito bem até aqui é que ela é perfeitamente capaz de fazer isso.

  • Crítica | Thunderbolts*

    Super-anti-heróis contra o baixo astral. Divulgação Depois de se verem presos em uma armadilha mortal, uma equipe não convencional de anti-heróis deve embarcar em uma missão perigosa que os forçará a confrontar os cantos mais sombrios de seus passados. É um alívio poder assistir a um filme de heróis da Marvel sem: 1) necessariamente ter visto os últimos e horríveis longas; 2) abordar multiversos e viagens no tempo que tapam os buracos dos fracos roteiros; 3) efeitos digitais mal acabados feitos por equipes cansadas da exploração de sua mão-de-obra; 4) repetir, por assim dizer, personagens e situações já saturados em outras produções Thunderbolts* tenta trazer uma proposta diferente à mesa. É um filme menor, menos chamativo, menos eufórico, e por isso também menos cafona e menos ridículo. Ele segue uma tendência recente dos filmes hollywoodianos de ação que resgatam os moldes do gênero antes dele se deixar levar pelo barulho e cores dos efeitos digitais. Uma ação mais contida, embora ainda intensa, e que busca valorizar os momentos de tensão, diálogos e desenvolvimento de personagens tanto quanto as explosões. Ainda assim, a produção faz questão de ficar lembrando o espectador que é aquele é um tradicional filme Marvel, o elenco que não vai além do esforço básico de convicção, as piadas que continuam passando do ponto e as lições de moral que são desenhadas de forma infantil. Mas vou dar o braço a torcer quanto a esse último quesito, porque comprei a mensagem do roteiro. Achei inteligente e importante terem deixado de lado a fantasia boba e divertida do universo em que aqueles personagens estão inseridos, para darem lugar a um vilão composto por metáforas psicológicas e sociais que podem comunicar mais e melhor com o público (jovem?) que é o alvo destes conteúdos. Divulgação Mesmo assim a abordagem é piegas e limitada, o desfecho inclusive é bem semelhante ao de Divertida Mente 2, mas funcionou melhor na animação. É o poder do amor, da amizade e do diálogo resolvendo um longa de 2 horas cheio de pancadaria. Claro, é um filme de heróis, então abre-se o espaço para todas as possibilidades narrativas de alegorias, mas o texto prefere suavizar até mesmo nisso, o que colabora com o tratamento introspectivo almejado. Bom saber que o estúdio começou a se preocupar minimamente em apresentar resultados com qualquer traço de personalidade distinto uns dos outros, seja na temática, seja no visual, haja visto que para além disso parece ser sonhar demais. Nota: 3/5

  • Crítica | Homem com H

    Mesmo num molde já conhecido, filme cria bons momentos e Jesuíta Barbosa conduz com maestria. Divulgação Cinebiografia de Ney Matogrosso, Homem com H apresenta a intensa trajetória do artista desde a infância até se tornar uma das grandes figuras da música e cultura brasileiras. O filme acompanha a origem em Bela Vista no Mato Grosso do Sul e os constantes embates familiares em razão dos preconceitos de seu pai. Ao sair de casa e se mudar para São Paulo, Ney dá início à sua carreira artística. Com uma voz única e uma veia criativa e performática inesquecível, Ney Matogrosso compõe um terço da banda Secos & Molhados e enfileira sucessos como Rosa de Hiroshima e Sangue Latino em meio à repressão da ditadura militar. Passando por cada fase de sua carreira, Homem com H conta a história de vida de um ícone artístico, demonstra sua identidade revolucionária e arrebatadora, seu ímpeto libertário e sua inconfundível presença de palco. Homem com H não foge do modelo preestabelecido de cinebiografias que evitam recortes menores da vida de uma personalidade e escolhem dar conta de várias etapas nos limitados minutos de sua duração. Isto implica que inevitavelmente alguns tópicos serão mais aprofundados que outros, e que nem todos os personagens secundários terão a mesma atenção no texto. Mesmo assim, o longa consegue equilibrar vários pratos, de várias vertentes artísticas e pessoais, sem deixar nenhum cair e não deixa assuntos pelo caminho, conseguindo fechar as sub-narrativas precisamente. O cineasta Esmir Filho consegue, mesmo dentro dessa estrutura preconcebida, criar sequências bastante originais, embora deixe claro em alguns momentos suas referências, dando sempre um frescor à narrativa. O texto consegue acompanhar a inquietude de Ney desde sua infância, com muito abuso físico de seu pai, até sua vida adulta cheia de conquistas. E visual também fica à altura da genialidade do artista-protagonista. Esmir escolhe sempre mostrar as inspirações e motivações de Ney de forma clara, porém não explícita ou expositiva demais, elas são costuradas em meio aos números musicais e situações pinçados para apresentarem determinados contextos. Divulgação Jesuíta Barbosa não entrega nada menos que um trabalho irretocável. Constantemente falo isso em textos sobre cinebiografias, mas fico sempre com um pé atrás quando sei que vou assistir a um filme onde a figura retratada é conhecida por ter traços artísticos ou de personalidade facilmente identificáveis e que costumam ser replicados nas mais diferentes abordagens, positivas ou negativas. Mas o trabalho de Jesuíta nunca soa mimético, desrespeitoso ou artificial, é uma atuação estudada, empolgada e emocionada. O ator sabe ser visceral, delicado e sentimental, na voz, no olhar e especialmente no corpo, três elementos importantíssimos na contação da história. Grande trabalho dos coadjuvantes que dão as cores e os tons aos mais diversos acontecimentos de uma vida cheia de pontos altos. No mais, o filme consegue deliciar e emocionar o espectador com um enredo bem desenhado e uma figura infalível. Se nada descrito for o suficiente, apenas o fato de poder ouvir algumas das mais icônicas canções da música popular brasileira deveriam bastar para a representação de um filme básico. Ainda bem que ele vai muito além disso. Nota: 3,5/5

  • Crítica | El Fin de Las Primeras Veces / The Last First Time | 2025 SFFILM Festival

    Crônica compila dramas e incertezas de um amadurecimento gay latino. Divulgação Eduardo (Alejandro Quintana), um jovem de 18 anos de uma pequena vila em Jalisco, viaja para Guadalajara para prestar vestibular. Nesta cidade grande e estranha, longe dos olhos dos pais, ele vivencia seus primeiros encontros e desencontros amorosos e sexuais. Este é um filme complacente com a trajetória curta e intensa de seu protagonista. Ele se importa em centrar a condução da narrativa nas vivências do personagem, sabe aproveitar cada situação desenhada no roteiro para o seu desenvolvimento, e mira nos coadjuvantes apenas de relance quando necessário, sem esbanjar seu curto tempo em arcos paralelos. Logo nos primeiros minutos o longa deixa claro o foco que a narrativa terá nas experiências sexuais do protagonista. E é esse fio condutor que vai se ramificar para a construção do personagem e abrir o leque de emoções e sentimentos que ele viverá. Mario é o personagem que apresenta a Eduardo tudo que este vem desejando e reprimindo viver enquanto adolescente em fase de descobertas, sexo, drogas, bebida, afeto e identificação. Os personagens se conhecem ao acaso num banheiro e o espírito agregador de Mario faz com que Eduardo se aproxime dele, conheça sua casa, sua família e se abra com ele quase que como um impulso, uma aventura, uma sequência de atitudes espontâneas travadas em sua rotina fechada e sistemática. Divulgação Tal qual uma lição de moral dos pais mais tradicionais e responsáveis, o filme joga com as causas e consequências de não falar com estranhos, de não beber nada que desconhecidos oferecem, de que os seus únicos amigos são seus pais. Mas em nenhum momento tenta ditar como verdades absolutas ou reprovar quaisquer dessas lições. O texto não se coloca em posição de julgamento sobre certos e errados, mas expõe com responsabilidade (também desnecessária se pararmos para pensar) os causos do jovem Eduardo e como ele lida com suas escolhas. A câmera sempre precisa sabe como imprimir as nuances necessárias para cada tipo de nova sensação experimentada pelo protagonista. O elenco de jovens atores trabalha com propriedade e acompanha essas nuances sem deixar os tons de seus respectivos personagens de lado. O cineasta e roteirista Rafael Ruiz Espejo se mostra no controle total da técnica, mas se perde um pouco em sua diegese, uma vez que a narrativa nem sempre evolua com a destreza que poderia e que deveria, por se ater a detalhes mencionados e mostrados que não chegam a ser desenvolvidos. Nota: 3/5

  • Crítica | Lispectorante

    O espírito da obra de Clarice Lispector serve de pano de fundo para a gentrificação de Recife e mais uma atuação fenomenal de Marcélia Cartaxo. Divulgação Em sua entrevista para o Oxente Pipoca (que pode ser conferida aqui), a diretora de Lispectorante, Renata Pinheiro, comentou sobre como se deu seu contato com a literatura de Clarice Lispector ainda durante a infância, quando começou a se entender artista. “A gente tem aquele vazio dentro da gente que só é preenchido em alguns momentos quando você encontra obras como a de Clarice. (...) Eu me lembro que li ela muito criança, depois na adolescência, e nem sei se eu entendia tudo, mas aquilo me deu um certo alívio dessa complexidade que é ser mulher, ser artista”, disse ela. Que apropriado e poético, portanto, que 40 anos após uma das obras seminais de Clarice (A Hora da Estrela) ter sido adaptada ao cinema e revelado ao mundo o talento de Marcélia Cartaxo, a atriz paraibana volte a atuar num projeto de alguma forma ligado à escritora. Embora Lispectorante não seja uma adaptação direta de um dos seus livros, pega o espírito da sua obra – aqui “personificado” na casa em que ela viveu no centro de Recife – para atrelá-lo à protagonista de Marcélia, Glória Hartman, uma mulher de meia-idade que retorna à cidade depois de anos. Vivenciando um sentimento de abandono após o término do seu casamento, Glória parece de alguma forma espelhar o próprio abandono pelo qual o centro de Recife está passando. A gentrificação é um dos tópicos mais importantes do filme, mas Renata opta por não abordá-lo de maneira direta e se limitar a um mero comentário social: prefere retratar esse centro como um espaço sim degradado e negligenciado pelo poder público, mas também cheio de vida, povoado por figuras quase fabulosas (como o par romântico de Glória vivido por Pedro Wagner ou até artistas da vida real em pontas, como Karina Buhr). Nesse sentido, a casa de Clarice Lispector emerge como uma representação desse universo, que abraça ares cada vez mais surrealistas à medida que imerge mais e mais na mente criativa, mas também conturbada, de Glória. Alguns dos melhores momentos do filme vêm com as inserções de sequências oníricas estreladas por ninguém menos que Grace Passô, que surge como uma representação do processo criativo que tantos artistas possuem. Mesmo que curtas dentro da metragem do filme, elas se destacam não só pelo prazer de se assistir Passô, mas por se integrarem à lógica interna da obra e aludirem ao fluxo característico das obras de Clarice. Divulgação É inegável, porém, que o filme acabe adotando um tom ligeiramente repetitivo a partir da sua segunda metade, ainda mais porque alguns dos conflitos inseridos no decorrer da trama (como aquele entre Glória e seu primo, vivido por Tavinho Teixeira) pouco se sustentam ou recebem algum desenvolvimento satisfatório. É como se o longa quisesse trabalhar Glória e aquele macrocosmo de diversas perspectivas, mas fosse mais bem-sucedido em algumas do que em outras. Apesar destes percalços, Lispectorante é eficaz no processo de integrar o caráter único da bibliografia de Clarice Lispector a um universo dotado de um sotaque (inclusive fílmico) deliciosamente próprio. Ajuda muito ter uma atriz do cacife de Marcélia Cartaxo, uma das maiores que já vimos neste país, adentrar de corpo e alma na obra para mostrar que sua relação com a autora não se encerrou lá em A Hora da Estrela, mas segue muito viva, 40 anos depois. Nota: 3.5/5

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