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  • Crítica | A Namorada Ideal (Minissérie)

    Olivia Cooke e Robin Wright se enfrentam em um jogo de gato e rato previsível, mas viciante Imagem: Divulgação O clichê quando bem trabalhado, é, no mínimo, muito divertido. Felizmente é o caso desta nova produção do Prime Video, em que Robin Wright é Laura, uma mãe superprotetora com uma vida perfeita. Uma bela carreira, marido amoroso e o filho prodígio Daniel (Laurie Davidson). No entanto, seu mundo é abalado com a chegada de Cherry, papel de Olivia Cooke, a nova namorada de Daniel. Laura acredita que a moça é uma alpinista social e está escondendo algo, mas será que ela está apenas paranoica? A narrativa é contada através dos pontos de vistas de ambas, o que é um diferencial, lembrando The Affair, mas ainda assim sem muita profundidade no texto e o que confere alguma nuance às personagens são as performances fantásticas de Cooke e Wright. Laura é uma mulher rica, composta e gosta de controlar tudo ao seu redor. Cherry é pobre, veste roupas curtas e ambiciona uma vida mais luxuosa. O que as une é o principal fator que as separa: o amor por Daniel. O rapaz é um tanto desinteressante para nós que assistimos e ainda bem que o enredo gira em torno das duas. Ambas estão ótimas e é crível que há sentimentos reais envolvidos ali, mesmo com toda manipulação e intrigas. Elas elevam o nível da coisa deixando o drama e o suspense muito mais palpável. Robin Wright – que também dirige os três primeiros episódios, dando um tom elegante ao roteiro folhetinesco – finalmente se desprende da robótica – pelo menos nas últimas temporadas – Claire de House of Cards, com expressões sutis, dada a finesse da persona, mas sem se perder quando a cena pede intensidade. Olivia Cooke, que é sempre um desbunde, é a melhor coisa da minissérie. A atriz consegue atingir todas as notas que o roteiro dá a sua Cherry e ir além. Por meio do texto, não é difícil notar que a moça realmente é uma interesseira, mas é através dos olhares e trejeitos de Cooke que sabemos que ela é muito mais. Imagem: Divulgação Em seis episódios temos reviravoltas descabidas e muito melodrama nesta história de traições e intrigas. Como eu disse, lembra The Affair, na questão dos pontos de vista, mas é muito mais Revenge, com uma produção notoriamente mais cara e caprichada, tendo a rivalidade feminina como escopo e as armações dignas de um bom novelão. O final, onde tudo culmina e a rixa chega ao ápice, tem as sequências mais previsíveis e convenientes, mas são salvas pela direção de Andrea Harkin – que comandou as três últimas horas dando seguimento ao firme trabalho de Wright nas três primeiras – e pela entrega visceral das protagonistas. A cena final, apesar de ser esperada, é de arrepiar e encerra bem a história, com uma trilha sonora pontual – que é outro dos pontos altos da produção – que é a cereja do bolo e combina perfeitamente com a atmosfera sexy e folhetinesca da minissérie. O entretenimento é garantido aqui, faça sentido ou não. Nota: 3,5/5

  • CRIAS – Cine de Rua Infantil de Sergipe promove segunda edição em São Cristóvão com o tema “Infâncias Infinitas”

    Mostra acontece nos dias 17 e 18 de outubro com programação gratuita que inclui exibições de filmes, oficina de fotografia e atividades virtuais Imagem: Divulgação A Floriô de Cinema realiza, nos dias 17 e 18 de outubro, a segunda edição do CRIAS – Cine de Rua Infantil de Sergipe, que neste ano terá programação presencial em São Cristóvão, no Colégio Estadual Armindo Guaraná, no bairro Rosa Elze, além de atividades online. Com o tema “Infâncias Infinitas”, a mostra busca valorizar a inventividade e a capacidade criativa das crianças, promovendo sessões de cinema, apresentações circenses, oficinas e debates sobre a infância como espaço de imaginação e transformação. “Em sua segunda edição, o CRIAS propõe exibir filmes que nos ajudem a conceber futuros possíveis para as nossas crianças”, explica o curador Sidjonathas Araújo. Para ele, a mostra surge como convite à reflexão: “Em um contexto de ameaças ao globo terrestre, como elaborar a ideia de infinitude? Seriam os conhecimentos dos nossos mais velhos a inspiração para novas formas de existir, de sentir e de cuidar? Seria a imaginação das crianças o terreno fértil para cultivá-las?”. Imagem: Carolen Meneses, Sijonathas Araújo e Neto Astério Na sexta-feira (17) e no sábado (18), sempre às 17h, o Colégio Armindo Guaraná se transforma em sala de cinema para receber duas sessões dedicadas ao protagonismo infantil, acompanhadas de apresentações culturais, distribuição de brindes e surpresas ao público. Segundo Carolen Meneses, coordenadora de Produção, o CRIAS busca criar “um espaço de pertencimento para os moradores, em especial para as crianças. Queremos que elas saiam da sessão inspiradas a olhar para o mundo ao seu redor de uma forma mais lúdica e respeitosa, tanto com o próximo como com a natureza”. Já no sábado pela manhã, será transmitida no YouTube da Floriô de Cinema a atividade virtual “Imagens para o Futuro: o cinema como experiência criativa na escola”, com participação de Kleverton Souza (Mestrando em Cinema/UFS) e Ana Paula (Professora de Cinema/UFRB). À tarde, as crianças também poderão participar da oficina fotográfica “Fotoescrevivência: Retratos de Nosso Mundo”, ministrada pela fotógrafa Luiza Bomfim e voltada para crianças de 8 a 14 anos. Toda a programação é gratuita e pode ser acompanhada pelas redes oficiais da Floriô de Cinema (https://www.instagram.com/floriodecinema/) e do CRIAS no Instagram (https://www.instagram.com/cinecrias/). Para Neto Astério, coordenador artístico, pensar a infinitude das infâncias é o ponto de partida do projeto. “Nosso convite é, antes de tudo, para as crianças — e também para as pessoas crescidas, que muitas vezes deixaram de acreditar no poder do imaginar”, destaca a equipe. “A infância, tantas vezes violentada, insiste em criar, fantasiar e reinventar o mundo, tornando a vida mais viva e brincante.” O II CRIAS é realizado pela Floriô de Cinema, com recursos da Lei Complementar Federal nº 195/2022 – Lei Paulo Gustavo, por meio do edital nº 06/2023 – TARCÍSIO DUARTE, executado pela Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe – FUNCAP/SE.

  • Crítica | House of Guinness (1ª temporada)

    Uma mistura de Peaky Blinders com Succession que não atinge seu potencial completo, mas entretém Foto: Divulgação/Netflix No século XIX, no ano de 1868, a família irlandesa por trás da Cervejaria Guinness sofre um abalo após a morte do patriarca Benjamin Guinness, e agora, cabe aos filhos Arthur (Anthony Boyle), Edward (Louis Partridge), Anne (Emily Fairn) e Ben (Fionn O’Shea) lidar com as consequências desta perda, seja no drama familiar ou na empresa. Criada por Steven Knight, o mesmo de Peaky Blinders, as semelhanças são várias, principalmente visualmente, porque se passam em épocas parecidas, então a ambientação, os figurinos, tudo nesse sentido remete à série de Tommy Shelby e possuem o mesmo capricho técnico. No entanto, o lado mais criminoso abordado lá, dá lugar à disputa dos herdeiros e ao legado da cervejaria, o que já me lembra mais a história dos Roy. Desde muito tempo na televisão, uma série de sucesso leva à outra parecida e tudo bem, o que não pode, é deixar de ter identidade própria. Felizmente, é o caso aqui e os primeiros episódios estabelecem muito bem as peças no tabuleiro, mesmo que no decorrer da temporada, a pressa atrapalhe o desenvolvimento. Arthur é o filho mais velho, vivia uma vida boêmia em Londres e agora recebe uma responsabilidade que ele não queria: tomar conta dos negócios da família. Edward, por sua vez, o mais jovem e mais responsável, sonhava com isso, e lhe foi incumbido que ajudasse Arthur nesta missão. À Anne, por ser mulher, lhe sobrou se casar, praticamente. E Ben, que tem graves problemas com o álcool, também não lhe foi confiado nada, nem pelo testamento nem pelo roteiro, já que o rapaz termina praticamente do mesmo jeito que começa. Anthony e Edward ganham mais destaque por conta da sua relação contraposta e Boyle consegue tirar de letra as nuances do seu Arthur, passeando facilmente entre o humor e o drama com carisma, tendo em vista a evolução com o passar dos episódios. Partridge se divide entre a seriedade e inocência de um jovem precoce. Enquanto Emily Fairn está bem como Anne, porém ela começa com uma certa evidência e vai perdendo aos poucos. Foto: Divulgação/Netflix A trama possui três outras personagens femininas que ganham mais nuance do que Anne, que são Lady Olivia (Danielle Galligan), Ellen (Niamh McComarck) e Adelaide (Ann Skelly). Olivia se torna esposa de Arthur e têm uma relação bem interessante, digamos assim, para evitar spoilers, e Galligan confere um atrevimento à moça que jamais soa forçado, ainda quando lhe é exigido mais esforço em um arco dramático nos episódios finais. Ellen faz parte da irmandade feniana, que traz à tona um lado mais político da produção, e se envolve romanticamente com um dos Guinness, com quem divide uma fantástica química e é um daqueles casais proibidos que a gente adora torcer. Enquanto Adelaide, já é da família e aparece menos, mas sempre de maneira muito pontual e com uma personalidade forte ressaltada através de um texto ácido. Outro dos protagonistas é Sean Rafferty (James Norton), que é o gerente da fábrica de cerveja e, nos bastidores, o capanga principal dos Guinness e eventualmente se envolve em um caso com uma das mulheres citadas. O rapaz começa como um clichê, mas é perceptível como Norton está adorando cada segundo no papel e consegue fazer com que ele funcione muito dentro daquele universo. Acho importante destacar as relações existentes, mesmo que não possa detalhá-las. É um dos pontos que mais me agradaram na série, ainda que seja algo que deixe em evidência o seu maior defeito: a pressa. Um dos trunfos da televisão em relação ao cinema é o tempo para se desenvolver tramas, personagens e conexões entre eles. Ainda que House of Guinness estabeleça uma boa base para estas conexões, dentro de um contexto histórico e político, os constantes avanços de períodos no enredo, atrapalham como um todo, não deixando que a série atinja o seu potencial de complexidade que existe ali e o roteiro não tenha o mesmo cuidado que há na direção, design de produção, fotografia ou trilha sonora. Há uma cena no final da temporada em que Arthur ressalta as diferenças das pessoas que eles eram no primeiro episódio. É um paralelo válido e é claro que a temporada acaba exatamente como Steven Knight pretendia, por isso ele passa por ponto A e B, pulando o C, vislumbra o D e chega no E, com a maioria de seus personagens. É notório como isso é reflexo dos tempos atuais e House of Guinness poderia figurar entre as grandes, mas escolhe apenas entreter, o que consegue bem. E eu digo isso porque é uma série da qual gostei bastante, mas tinha potencial para ser mais. A 2ª temporada ainda não foi confirmada, mas esta termina com um baita gancho. Nota: 3,5/5

  • Coletiva de Imprensa | Luca Guadagnino, Julia Roberts e mais falam sobre 'Depois da Caçada'

    Coletiva reuniu elenco, diretor e roteirista em Nova York e destacou a sintonia criativa por trás do longa Foto: Divulgação/Amazon MGM Sony Pictures Brasil No último domingo (28/09), o Oxente Pipoca participou da coletiva de imprensa do novo filme de Luca Guadagnino, Depois da Caçada. Diretamente de Nova York, o diretor se juntou a Julia Roberts, Ayo Edebiri, Michael Stuhlbarg e à roteirista Nora Garrett em um bate-papo leve e cheio de cumplicidade, em que elenco e diretor trocaram experiências sobre o processo criativo do filme. Na trama, Roberts interpreta Alma Olsson, conceituada professora da Universidade de Yale que se vê diante de um dilema moral quando sua aluna mais promissora, Maggie (Edebiri), denuncia assédio cometido por Hank (Andrew Garfield), colega de profissão e amigo íntimo de Alma. A tensão, que começa na esfera acadêmica, logo invade a vida pessoal da protagonista quando segredos de seu passado ameaçam vir à tona. Sem respostas fáceis, o filme se recusa a oferecer maniqueísmos: não há certo ou errado, bom ou mau. O roteiro não busca confortar o público, mas confrontá-lo, colocando o ambiente acadêmico — terreno fértil de egos, prestígio e hierarquias — como palco ideal para explorar essas ambiguidades. Foi justamente essa precisão na descrição do universo que despertou em Guadagnino a vontade de dirigir o longa. “Quando recebi o roteiro, não estava planejando filmar nada naquele ano. Mas a escrita me comoveu profundamente — a forma como o mundo era descrito, as complexidades dos personagens, o diálogo que me lembrou o cinema clássico que tanto amo”, contou o diretor. Pouco depois dessa primeira leitura, o encontro com Julia Roberts selou a decisão: Depois da Caçada tornou-se, para ele, “inevitável”. Roberts, por sua vez, revelou certa insegurança ao aceitar o papel. “A princípio, Alma me parecia distante, complicada, desafiadora. Mas Luca me fez enxergar as possibilidades dessa interpretação. Ele me encorajou, me apoiou e acreditou em mim antes mesmo de eu saber no que estávamos nos metendo.” Foto: Divulgação/Amazon MGM Sony Pictures Brasil Já Ayo Edebiri, conhecida pelo papel de Sydney em The Bear, parece cada vez mais inclinada a personagens emocionalmente densos. Faz eco à fala do diretor ao mencionar que não conseguiu parar de pensar no roteiro após a primeira leitura, destacando a inteligência e a profundidade do texto de Garrett. A roteirista, no entanto, frisa que não partiu de nenhum caso real: “Infelizmente, existem situações parecidas, mas não foi um trabalho de fora para dentro. Para mim, quase sempre começo de dentro: de um dilema íntimo. Aqui, a ideia foi pensar numa protagonista que, no auge de seu prestígio, vê a possibilidade de perder tudo.” A sintonia entre elenco e direção transpareceu durante a coletiva. Ao contrário dos elogios protocolares, comuns nesse tipo de evento, parecia haver afeto genuíno entre os talentos no palco. Roberts contou, com humor, do dia em que, diante da falta de energia repentina no estúdio, comprou ingressos para um parque de diversões com Ayo, apenas para serem chamadas de volta ao set minutos antes de entrar. Já Edebiri destacou a atenção obsessiva de Guadagnino a cada detalhe, das cores do esmalte à escolha dos figurantes, sempre em função da narrativa. O diretor, por sua vez, deixou claro o desejo de repetir a parceria. No encerramento, Roberts refletiu que a maior recompensa de um projeto como este, que mergulha em temas tão sensíveis, é provocar conversas, ver “pessoas tendo conversas entusiasmadas, animadas, sobre uma diversidade de temas.” E talvez esteja aí a força de Depois da Caçada: não apenas na experiência na sala de cinema, mas no que ressoa depois — as discussões sobre poder, hipocrisia e valores morais (dos personagens e nossos próprios) que persistem na mente do espectador. Produzido pela Amazon MGM e com distribuição no Brasil pela Sony Pictures, o thriller psicológico estreou em agosto no Festival de Veneza e teve recente exibição no Festival de Nova York. A estreia nacional está marcada para acontecer na cerimônia de Gala de Abertura do Festival do Rio, no dia 2 de outubro.

  • Crítica | One to One: John and Yoko (Festival do Rio 2025)

    John Lennon em meio às transformações de uma Nova York tomada pela contracultura Foto: Divulgação Se tem algo que os fãs dos Beatles não podem reclamar é da falta de conteúdos inéditos sobre o histórico Fab Four de Liverpool. Nos últimos anos, além de novas edições de luxo dos álbuns do grupo de rock e do single inédito Now and Then – lançado a partir da recuperação de uma antiga gravação caseira de John Lennon –, são incontáveis os materiais audiovisuais trazendo registros sobre o período em que John, Paul, George e Ringo estiveram juntos ou de suas carreiras solo. Após lançamentos como o documentário Get Back, de Peter Jackson, e Beatles ‘64, produzido por Martin Scorsese, chega ao Festival do Rio de 2025 o filme One to One: John and Yoko. O foco da obra é o período da vida de John Lennon e Yoko Ono logo após o término dos Beatles, quando, em 1971, o casal decide se mudar de Londres para Nova York. A Nova York da época retratada em One to One vive um período de transformação e ebulição social intensa. O documentário faz um retrato primoroso do contexto dos EUA do início dos anos 70, sobretudo por meio da mídia televisiva como forte veículo de propagação das transformações político-sociais da época. São recuperadas imagens de talk shows, programas televisivos e até comerciais que abordam temas como a Guerra do Vietnã e o governo Nixon, bem como a relação destes com os movimentos jovens da contracultura. Assim, é diante desse contexto que as figuras de Lennon e Ono - sobretudo do ex-Beatle e seu ativismo icônico - surgem como voz influente e poderosa (em todos os sentidos) no clamor por mudanças. As ações do casal são retratadas por meio de filmes caseiros e até gravações de telefonemas pessoais recuperados. Foto: Divulgação Se o documentário abre espaço para testemunhos pessoais de Lennon sobre sua curta relação com a mãe, é interessante quando a obra também se dedica a compreendermos, em simultâneo, o lado de Yoko Ono enquanto esposa de Lennon. Em especial suas lutas internas como uma mãe afastada da filha, fruto de um relacionamento anterior, e como mulher lutando contra a imagem de vilã responsável pelo término dos Beatles. Todo esse recorte íntimo do casal, entretanto, funciona mais como um complemento. O melhor ainda é, acima de tudo, enxergarmos de forma enfática a força que o nome de Lennon carregava consigo e sua capacidade de mobilizar massas - em especial os jovens - na luta pelo fim da Guerra do Vietnã e em oposição ao governo Nixon. São dados destaques a acontecimentos como a canção Attica, sobre o famoso motim na prisão de Attica State em 1971, e à presença de Lennon em um evento pela liberdade do ativista John Sinclair. Toda essa mobilização de Lennon e Ono culmina, em agosto de 1972, na realização do lendário concerto beneficente One to One, no Madison Square Garden, que visava arrecadar dinheiro para uma instituição de crianças com deficiência. Única apresentação completa realizada por Lennon após o fim dos Beatles, o show é o ponto alto do documentário. A epítome do artista, ativista e personalidade midiática assassinado em dezembro de 1980 na mesma Nova York e país do qual quase foi deportado ao longo dos anos em que nele viveu. A montagem, aqui, intercala os registros da apresentação com o restante das imagens de arquivo. Quando John aparece nos bastidores, é arrepiante. Quando canta Come Together (com direito a trecho alterado para ´Come Together, right now… stop the war!´), idem. E, quando surgem os primeiros acordes de Imagine, logo esquecemos o possível gosto amargo de ações famigeradas com a canção - como aquelas de um mundo pandêmico que a transformaram em clichê para muitos. Nessas horas, é como se o espectador tivesse a chance de olhar nos olhos de Lennon enquanto o cantor entoa seus vocais rasgados diante de um Madison Square Garden lotado. Polêmicas à parte, uma certeza fica ao término de One to One: sem dúvidas, John Lennon foi o mais “rockstar” dos quatro Beatles. Nota: 4/5

  • Crítica | Depois da Caçada (Festival do Rio 2025)

    Após Rivais e Queer, Luca Guadagnino muda a rota e substitui o lado intenso do humor e da sexualidade de seus personagens pelo debate moral robusto Foto: Divulgação/Amazon MGM Sony Pictures Brasil Luca Guadagnino vem trabalhando com uma constância bem satisfatória para os fãs do seu trabalho. Em 2024, foram dois filmes em sequência, o elogiado Rivais e Queer — que, diferente do primeiro, acabou ofuscado em meio aos lançamentos do último ano. Agora, o terceiro filme em sequência do cineasta é Depois da Caçada. Com lançamento agendado para outubro nos cinemas brasileiros, ele chega ao Festival do Rio de 2025 como longa escolhido para a gala de abertura após ser parte da seleção oficial do último Festival de Veneza. Talvez o grande destaque de Depois da Caçada enquanto filme esteja em seu discurso. Não é como se as realizações anteriores do italiano fossem vazias de sentido ou conteúdo. Porém, nessa nova empreitada, o diretor parece se colocar em um lugar de seriedade que vai além do humor ou dos maneirismos com as imagens de um sucesso como Rivais. O roteiro de Depois da Caçada, assinado por Nora Garrett, levanta uma discussão interessante sobre dilemas morais e cultura do cancelamento. Na trama, Alma (Julia Roberts), uma renomada professora de filosofia na Universidade de Yale, nos EUA, se vê no centro de uma crise ética e pessoal quando uma de suas alunas mais próximas, Maggie (Ayo Edebiri), acusa outro professor, Hank (Andrew Garfield), de violência sexual. É na personagem de Roberts que mora, de forma geral, a dualidade moral mencionada. Apoiar um colega de trabalho com quem teve um caso no passado e ainda sente certa atração ou a jovem estudante que a admira de forma quase suspeita pela professora? Estaria a jovem mentindo para contornar uma acusação de plágio do professor? Enquanto se mantém em uma relação distante em todos os sentidos de seu marido (Michael Stuhlbarg) - um terapeuta que, em meio a discussões filosóficas, mais parece interessado no isolamento por meio da música - as consequências de apoiar qualquer um desses lados, para Alma, aparentemente, seriam negativas. Foto: Divulgação/Amazon MGM Sony Pictures Brasil Entretanto, mais tarde, descobrimos que é como se o caso de Hank e Maggie fosse ainda mais pessoal para a personagem de Julia Roberts. Aqui, a verdadeira ferida que a situação toca é fazê-la reviver antigas cicatrizes e fantasmas. Alma viveu praticamente uma vida inteira carregando uma culpa reprimida pelo destino que um interesse amoroso mais velho, quando ela ainda era uma adolescente, tivera por consequência de suas ações. Assim, logo nos primeiros instantes da projeção um som de tique-taque de relógio marca o ritmo dos acontecimentos enquanto acompanhamos o início da rotina da personagem. Esse mesmo som, mais a frente, volta a “assombrar” a protagonista em momentos distintos. Além disso, ela convive com dores intensas de uma doença. É, então, como se a personagem tivesse uma bomba-relógio dentro de si mesma - que não demora, por sua vez, a eclodir. Ao final, entretanto, Guadagnino faz questão de deixar no ar as respostas para seus questionamentos. A eclosão não resulta em uma resposta enfática para a situação Maggie e Hank. Podem ambos os lados estarem errados. Apesar do discurso, após os momentos finais, ficar mais sugestivo para o lado de Maggie e da ausência de culpa de Alma pelo seu passado, nada é tão preto no branco para o emaranhado de discussões que Depois da Caçada propõe. O conteúdo e debate da obra, portanto, são tão válidos quanto relevantes. Mas podem frustrar já que esse não é o Luca Guadagnino alinhado ao que estamos acostumados. O diretor, por vezes, está tão focado no discurso que parece ter se esquecido do resto. Seu estilo ainda se faz presente no uso mais rebuscado das cores e sombras, quando a câmera foca em toques físicos singelos entre os personagens ou em enquadramentos mais estilizados em momentos tensos, como quando a câmera se agarra ao rosto dos atores, tirando o máximo de intensidade de suas performances. É quando lida com a apreensão intrínseca a todo o cenário proposto, de revelações, reviravoltas e embates entre seus protagonistas, em que o italiano encontra bons momentos. Porém, ainda soa como presunção de um cineasta melhor quando o assunto é um filme como Me Chame Pelo Seu Nome ou Rivais. A intensidade de Guadagnino é mais bem-vinda quando o assunto são momentos intimistas ou a sexualidade que transborda na tela por meio do desejo dos seus personagens, do que quando o assunto é provocar o espectador com uma verborragia mais sisuda. Nota: 3/5

  • Crítica | Suçuarana

    Quando a jornada importa mais que o destino. Divulgação Suçuarana, road movie dirigido por Clarissa Campolina e Sérgio Borges e grande vencedor da última edição do Festival de Brasília, onde conquistou cinco Candangos, estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 11 de setembro. O longa poderá ser visto em salas de Belo Horizonte, Fortaleza, João Pessoa, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo e Vitória. Dora (Sinara Teles) é uma mulher sem raízes. Há mais de uma década percorre as estradas do Brasil, passando de cidade em cidade sem se fixar em lugar algum. Não tem família, filhos ou amizades que a prendam a um ponto específico. Até mesmo o cachorro que insiste em acompanhá-la parece mais um fardo do que uma companhia, e ela tenta se livrar dele sempre que pode. Aos que encontra pelo caminho, diz estar em busca de Suçuarana, um Eldorado íntimo, lembrado apenas pelas palavras da mãe já falecida e cuja existência é incerta. No fundo, sua jornada precisa de uma razão, ainda que imaginária, para que ela continue a se mover. Suçuarana é um ótimo exemplo de um cinema brasileiro que lida bem com a ideia de deslocamento, de modo que ele se manifesta tanto no espaço físico quanto nas escolhas estéticas do filme, construindo uma estética movente que ultrapassa o simples registro para se afirmar como gesto político. Ele não apenas revela trajetórias individuais ou coletivas, mas produz novas formas de ver e sentir o mundo através da vivência da personagem. Nesse sentido, o cinema não registra deslocamentos, ele os cria, reconfigurando paisagens, memórias e relações sociais. E Suçuarana não se trata de um exemplo isolado, mas sim de uma construção de um cinema brasileiro perceptível nas últimas duas décadas: a de narrativas que fazem da caminhada, da errância, do andarilho e do trânsito de seus personagens pelo território nacional mais do que uma coincidência formal, mas uma verdadeira matriz de sentido, como é visto no filme Arábia (2017). Dora parte em busca de um lugar que talvez exista apenas na memória fragmentada ou na imaginação, em que de algum modo o seu corpo ocupa esses espaços de forma política. Pelo caminho, Dora cruza com pessoas que oferecem ajuda, e o olhar da obra se volta, sobretudo, para as mulheres, como operárias, mães solo, cobradoras de ônibus e donas de boteco. Além da figura masculina representada aqui pelo personagem de Carlos Francisco que, após esquecer um casaco, retribui a devolução com dinheiro escondido no bolso. Esses encontros funcionam como lembretes de uma vida enraizada, que a vida de andarilho inevitavelmente deixa para trás. Divulgação Os diretores retratam como esses encontros, mesmo que não levem a lugar nenhum, perpetuam as simplicidades da vida como a de compartilhar uma simples conversa durante a noite. Em vez de romances transformadores ou amizades consolidadas pelo acaso, o filme adota a lógica de uma personagem em constante movimento que não se prende a nada nem a ninguém, mas que carrega um pouco desses encontros à medida que avança a um destino que pouco importa. Penso que no cinema, o clímax é menos prazeroso que a jornada que percorremos, mesmo que ela não nos leve a lugar algum, e a personagem da Dora representa muito bem esse sentimento. O filme ecoa, de maneira contemporânea, ao cinema de Kelly Reichardt (Wendy e Lucy) e Agnès Varda (Sem Teto Nem Lei), trazendo um diferencial que se apoia em uma realismo mágico, que surge através do personagem do cachorro que acompanha Dora em diferentes momentos do filme, e que mesmo rejeitado inicialmente, retorna sobrevivendo a intempéries e obstáculos. Tornado metáfora de afeto e pertencimento, o animal funciona como contraponto à recusa da personagem em aceitar vínculos. O cachorro “Encrenca” surge como um guia ambíguo, uma presença que dialoga com Dora e suas necessidades, mas nunca da maneira esperada. Clarissa Campolina e Sérgio Borges trazem para a obra uma sensação de suspensão do tempo como uma das marcas mais fortes do filme. O longa parece deslocar-se de uma lógica cronológica linear para criar uma atmosfera em que o tempo deixa de ser medida e passa a ser sensação. Dora, a protagonista, vive há mais de uma década na estrada, mas nunca sabemos ao certo quanto tempo, de modo que a passagem temporal se dilui na rotina de deslocamentos, encontros passageiros e silêncios. São fragmentos do cotidiano que surgem através da forma do filme, que valoriza o desgaste dos espaços e dos corpos sugerem um tempo que não corre para frente, mas que se dobra sobre si mesmo, e em instantes quase banais que ganham peso pelo modo como são observados. Por fim, Suçuarana é a materialização desse devir, de um cinema que não busca respostas definitivas, mas abraça o movimento incessante da vida. Suçuarana, mais do que a utopia que a protagonista persegue, pode ser entendida como a própria onça-parda, um ser solitário, noturno, que insiste em existir em territórios transformados pela ação humana. Nota: 4/5

  • Crítica | Downton Abbey: O Grande Final

    Franquia encerra saga no cinema da mesma maneira que a série: carismática e inofensiva. Divulgação Downton Abbey: O Grande Final apresenta pela última vez os personagens queridos enquanto a aristocracia e os empregados enfrentam novos desafios, romances, escândalos e transformações sociais. Lady Mary assume o controle de Downton em meio ao seu divórcio e novos relacionamentos, simbolizando o choque entre tradição e modernidade. Downton Abbey: O Grande Final chega com a tarefa de encerrar de vez a jornada de uma das séries mais bem quistas da televisão. E, de fato, o filme traz consigo o já conhecido charme da tola e fútil elite inglesa, recheado de momentos românticos e engraçados, e sempre trabalhados na sutileza que acompanhou a produção ao longo das seis temporadas. Existe um carinho evidente em como a narrativa se organiza, na leveza da montagem, na riqueza dos detalhes, no capricho da produção. Ainda assim, é impossível não perceber que parte da força se perdeu no caminho. A ausência de nomes importantes do elenco, como a homenageada Maggie Smith, deixa buracos visíveis, e isso pesa no andamento da trama. O roteiro até se esforça para contornar essas lacunas, mas a sensação é de que falta a fugacidade que um dia foi natural em Downton Abbey. O brilho que já iluminou as histórias da família Crawley e de seus funcionários agora parece mais tênue, levado quase sempre pela memória mais do que pela novidade. O texto continua gracioso, usando a passagem do tempo como motivador dramático, da forma que sempre foi. O filme mostra mais uma vez como a alta sociedade britânica precisou se moldar às transformações históricas, encarando as mudanças de frente, mesmo que de forma delicada. A obra segue o tom bucólico que a consagrou, sem pressa e sem picos de energia, o que talvez aqui, como último capítulo, merecesse ser diferente. Até mesmo os pontos de inflexão da história são complacentes demais para criar grandes momentos. Divulgação Entre os “temas modernos”, aqui ganha espaço o divórcio sob a ótica feminina, tratado como ponto central. Ao mesmo tempo, há um esboço de abordagem em torno da homossexualidade, que, embora não chegue a se aprofundar, traz uma sensibilidade rara dentro desse universo. Esses movimentos dão ao longa ares de frescor, mesmo que envoltos em um romantismo inocente típico de Downton. O final, carregado de saudosismo, busca relembrar os dias de ouro daquele lugar, daquela ideia, daquela produção que marcou época. E talvez seja justamente aí que mora sua maior força: na lembrança. Downton Abbey: O Grande Final mostra que tudo o que já teve intensidade e brilho, cedo ou tarde se apaga, restando apenas os ecos de tempos mais vibrantes. Não é uma despedida exagerada, afinal esta não é uma característica que refletiu a série, mas um convite a guardar na memória o que essa história um dia representou. Nota: 3,5/5

  • Crítica | O Verão que Mudou a Minha Vida - 3ª temporada

    Previsível, mas impossível de largar. Imagem: Divulgação Nos últimos dois meses, uma série domina as redes sociais e se tornou assunto nas rodas de quem acompanha séries de perto. Desde a estreia do primeiro episódio da terceira temporada de O Verão Que Mudou Minha Vida no Prime Video, há dois meses atrás, o público se apaixonou pelo último ano da série, que se tornou o assunto mais comentado toda quarta-feira. O fenômeno vai além das telas: trends no TikTok com grandes times de futebol entrando na brincadeira e bares e restaurantes promovendo festas para acompanhar o episódio final em grande estilo. O Verão Que Mudou Minha Vida é, sem dúvidas, a série sensação do ano. Até quem nunca tinha ouvido falar de Belly (Lola Tung) passou a saber escolher entre Team Conrad (Chris Briney) ou Team Jeremiah (Gavin Casalegno) em poucas semanas. E não dá para negar: acompanhar uma série junto com outras pessoas e comentar cada acontecimento em diferentes rodas sociais é uma experiência única, até mesmo quando a série não é perfeita. Chegando ao fim nesta última quarta-feira, 17, o terceiro ano de O Verão Que Mudou Minha Vida acompanha Belly no final do seu primeiro ano de faculdade, ansiosa pelo próximo verão em Cousins Beach com Jeremiah, com quem chega a noivar após uma série de acontecimentos. No entanto, o retorno de Conrad reabre feridas e reacende sentimentos antigos, colocando Belly em uma encruzilhada emocional. Além disso, a traição de Jeremiah e a necessidade de confrontar seu primeiro amor abrem espaço para decisões inesperadas. Tecnicamente, a terceira temporada de O Verão Que Mudou Minha Vida segue um caminho seguro, sem muitas surpresas. A série se destaca na fotografia, nas escolhas de cores e na trilha sonora, recheada de hits de Taylor Swift e outros sucessos pop, que se encaixam perfeitamente na história e ainda conseguem atrair os fãs diretamente para a tela do streaming. Por outro lado, tropeça em diálogos expositivos e atuações que, por vezes, soam exageradas. A narrativa é um verdadeiro clichê, e desde o início fica claro para onde a história vai. Ainda assim, o grande mérito da criação de Jenny Han é reconhecer isso, abraçando o tom leve e divertido sem tentar parecer mais séria do que realmente é. Imagem: Divulgação Ainda assim, é justamente a consciência da série sobre seu próprio clichê que se torna seu trunfo. Jenny Han, criadora da série, abraça o tom leve e divertido sem tentar tornar a história mais séria ou profunda do que realmente é. O resultado é uma produção que, mesmo previsível, consegue entreter e engajar seu público de forma consistente. Como eu já disse em algumas críticas anteriores, quando falamos de romance em especial, não necessariamente algo clichê é ser algo ruim e O Verão Que Mudou Minha Vida sabe disso. Ela não é inovadora, nem pretende ser. Na verdade, a série domina os clichês do gênero, adaptando-os com inteligência para a geração atual. É fato, porém, que neste último ano a série perde um pouco o equilíbrio, especialmente no drama envolvendo Jeremiah e Belly. As temporadas anteriores se preocupavam mais em trazer sensibilidade e explorar temas mais profundos. Já na terceira temporada, mergulhamos de vez no triângulo amoroso que, convenhamos, só parece ter uma escolha óbvia. O foco exclusivo no triângulo amoroso, apesar de envolvente, restringe a narrativa, deixando poucas surpresas ou nuances para além do drama entre Belly, Conrad e Jeremiah. No fim das contas, a terceira temporada de O Verão Que Mudou Minha Vida não precisa reinventar a roda para conquistar. Entre clichês, dramas e escolhas óbvias, a série brilha por sua capacidade de fazer o público rir, suspirar e se emocionar junto com Belly. É uma história que, mesmo previsível, cumpre seu maior objetivo: envolver e conectar os fãs de forma genuína, provando que, às vezes, a magia do entretenimento está justamente em nos fazer sentir tudo de uma vez, sem pedir desculpas por isso. Nota: 3.5/5

  • Crítica | A Longa Marcha: Caminhe ou Morra

    A caminhada pela estrada da vida tem boas reflexões, mas carece de ação para segurar o ritmo. Divulgação A Longa Marcha: Caminhe ou Morra se passa num futuro distópico em que os Estados Unidos vive sob um regime autoritário, e em que uma competição mortal recruta todo ano um grupo de cinquenta jovens meninos para o que eles chamam de A Longa Marcha. Um dos escolhidos deste ano é o adolescente Ray Garraty (Cooper Hoffman) e a regra é clara: se mantenha caminhando, sem parar para não ser baleado enquanto essa prova brutal de resistência é transmitida para milhares de espectadores ao redor do país. É preciso andar e andar até o último sobrevivente permanecer de pé. O prêmio é ser concedido um único desejo pelo resto da vida, mas será preciso lutar para sobreviver aos obstáculos e à exaustão. Baseado num romance de Stephen King, o longa-metragem já inicia com a difícil missão de dar vida a uma narrativa que, embora sempre em constante movimento físico, tem uma proposta evolutiva, em parte, estática, afinal, é literalmente jovens caminhando, conversando e morrendo o filme todo. E, piadocas à parte, é por isso que inevitavelmente ele acaba cansando. O texto se sustenta em cima dos diálogos dos personagens, pelos quais conhecemos suas personalidades e um pouco do contexto em que aquele universo se passa. Inclusive o roteiro não se preocupa em dar muitos detalhes sobre as causas e as consequências dessa maratona mortal, o que, numa camada mais superficial, não interfere no entendimento da história, mas num âmbito mais aprofundado levanta várias questões sobre a lógica e também a logística do evento. De toda forma, as falas e o trabalho do elenco ajudam a tocar o enterro pra frente, mas não são o suficiente para segurar o ritmo e a frequência de momentos. De forma literal, algumas explicações ajudariam a dar mais embasamento à credibilidade da marcha, de forma metafórica é fácil compreender que a peregrinação funciona como rito de amadurecimento ou como resumo compacto de um monimito de resistência. Divulgação Deixando de lado os excessos gráficos de violência e o tom mais agressivo, o longa em muito se assemelha às produções aventurescas hollywoodianas das décadas de 70 e 80, onde jovens passavam por perrengues motivados pelas mais inimagináveis aleatoriedades e ao final descobriam uma preciosa lição de vida e amizade. Esteticamente falando também, o filme parece se inserir num período entre essas duas décadas, o figurino, a ambientação e o design de objetos na direção de arte ajudam a criar essa atmosfera delimitante de tempo e espaço e servem para desenhar um pouco das circunstâncias. O elenco de rapazes conduzidos com vivacidade por Cooper Hoffman e David Jonsson funciona muito bem dentro da estrutura do enredo e consegue se apresentar com precisão sem disputar espaço de tela. O resultado, no entanto, carece de ação propriamente dita, de pontos de inflexão que marquem a diegese como pausas de respiro mesmo, afinal a exaustão dos personagens não precisava estar impressa na cadência do filme como aventura. Nota: 3/5

  • Crítica | O Último Episódio

    Memórias que só o cinema revela Foto: Divulgação/Filmes de Plástico O dicionário da Universidade de Cambridge dá a definição para o termo coming of age: “o período em que alguém começa a amadurecer emocionalmente”. Na ficção, não faltam histórias que relatam esse momento da vida e recentemente, no cinema brasileiro, longas como Sem Coração e Kasa Branca trouxeram esse momento para as telas em lugares distintos no nosso país. De uma praia paradisíaca no interior de Alagoas, as ruas da periferia do Rio, embarcamos agora para Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, para conhecer Erik, Cassinho e Cristão. Antes de tudo, vamos contextualizar: em 9 de outubro, o filme O Último Episódio chega aos cinemas de todo o Brasil. Dirigido por Maurílio Martins, da Filmes de Plástico, a trama gira em torno de um garoto de 13 anos chamado Erik que quer impressionar a menina por quem nutre uma paixão platônica, a garota nova da escola Sheila. Para se aproximar dela, ele jura que possui uma fita em casa com o episódio final do lendário desenho Caverna do Dragão. Depois de se meter nessa enrascada, ele corre contra o tempo para poder arranjar uma solução para essa pequena mentira com a ajuda de seus melhores amigos e com a câmera velha do pai que ele mal conheceu a tiracolo. É nos permeios de uma trama que à primeira vista parece simples que somos teletransportados para uma década repleta de nostalgia. E meu primeiro elogio para o filme é essa habilidade ímpar de te colocar exatamente em 1991. Parece que eu sentia a alegria dos personagens ao sentar na frente da TV e esperar um episódio inédito da minha série favorita ou sentia a emoção em abrir um vinil novinho, no dia do meu aniversário, da minha banda do coração. Está tudo ali, nos pequenos e nos grandes detalhes, com um carinho e um cuidado raro de quem viveu aquela época. Foto: Divulgação/Filmes de Plástico Muito disso também passa por um elenco muito talentoso e dos veteranos aos mais novos, é um deleite acompanhá-los. Outro ponto de destaque é como a direção de Maurílio Martins não se contenta apenas em evocar a nostalgia: ela a transforma em linguagem cinematográfica. A câmera passeia com liberdade pelos espaços, muitas vezes se aproximando dos rostos como quem quer captar pensamentos não ditos, e ao mesmo tempo resgata um Brasil em transformação no início dos anos 1990. Não é apenas sobre infância, é também sobre contexto: a televisão como janela para o mundo, o consumo cultural moldando sonhos, e a ausência de figuras paternas ou maternas ecoando nas escolhas dos personagens. O Último Episódio é, portanto, muito mais do que uma história sobre uma fita perdida ou sobre o desfecho de um desenho animado cultuado. É um filme sobre afetos, descobertas e cicatrizes que acompanham o processo de crescimento. Maurílio Martins e a Filmes de Plástico reafirmam, com delicadeza e potência, que o cinema brasileiro tem muito a dizer quando olha para as nossas próprias memórias coletivas. Ao final da sessão, fica a sensação de que todos nós já fomos um pouco Erik, tentando, à nossa maneira, inventar finais que nos ajudem a atravessar a vida. Não me julgue por evocar Taylor Swift agora, mas, em uma de suas canções ela diz “Nostalgia é uma ilusão da mente. Se eu estivesse lá, odiaria”. Essa frase ressoou em mim com força depois de assistir a O Último Episódio. Porque, no fim das contas, o filme não nos convida a voltar a um passado idealizado, mas a revisitar as contradições que moldaram nossa infância e adolescência. É um lembrete de que a memória nunca é exata: ela seleciona, inventa, mascara. E é justamente nesse espaço entre o que lembramos e o que gostaríamos de lembrar que o cinema de Maurílio Martins encontra sua beleza. E eu não odiaria nem um pouco voltar pra ela. Nota: 4.5/5

  • Crítica | Modern Whore (TIFF 2025)

    Um mergulho íntimo no universo do trabalho sexual, entre memórias e estigmas. Divulgação Adaptado do livro de memórias da ex-acompanhante e atual defensora dos direitos das trabalhadoras sexuais Andrea Werhun, Modern Whore marca a estreia da diretora Nicole Bazuin, que já havia colaborado com Werhun na obra original, também responsável pelas fotografias que se tornaram um dos pontos altos da publicação. O filme revisita representações populares do trabalho sexual a partir das experiências da própria autora, escritora, performer e profissional do sexo, que, ao transformar seu livro Modern Whore: A Memoir em filme, enfrenta o estigma social e reivindica sua voz em uma série de relatos ao mesmo tempo engraçados, emocionantes e inesperados. O filme foi selecionado para o Festival de Toronto (TIFF) 2025, que nós do Oxente Pipoca já tivemos o privilégio de assistir. A produção executiva de Modern Whore leva a assinatura de Sean Baker, e isso trás uma relação interessante para a obra. Não apenas pela conexão imediata com Anora, seu mais recente trabalho premiado pelo Oscar, mas sobretudo porque Sean Baker construiu sua carreira justamente a partir de narrativas voltadas para personagens marginalizados. Sua presença no projeto reforça uma coerência autoral: tornar visível as bordas sociais sem cair no estigma, oferecendo um olhar de respeito e humanidade para quem tantas vezes é reduzido ao estereótipo. O documentário organiza-se em capítulos, espelhando a estrutura do livro de Andrea Werhun, no qual a autora narra suas experiências como trabalhadora sexual e os caminhos que a levaram até esse universo. A narrativa combina entrevistas no estilo talking heads com cenas encenadas, que incorporam doses de humor e leveza ao relato. Esse recurso não apenas dinamiza o filme, mas também cria uma atmosfera acessível, afastando-o de um tom meramente confessional. O fato de Werhun assumir o papel de narradora e escritora de sua própria história, sempre com ironia e inteligência, remete em alguns momentos à dinâmica de Sex and the City. Divulgação Modern Whore oferece uma abordagem instigante sobre o universo das trabalhadoras sexuais, desmontando os estereótipos mais recorrentes que cercam essa profissão. O documentário alterna os relatos de Andrea Werhun, que vão desde a decisão de se tornar acompanhante até a reflexão sobre os prós e contras do ofício, com reconstituições que ampliam a dimensão narrativa de suas experiências. Em determinado momento, o filme estabelece um paralelo interessante entre o trabalho sexual e o cinema, ao sugerir que ambos operam como uma espécie de “venda de sonhos”, alimentando a imaginação do outro. Para dar corpo a essa ideia, acompanhamos Werhun recriando situações que vão dos encontros com clientes a episódios desconfortáveis, apresentados com a força de uma denúncia. Entretanto, ao alternar constantemente entre os relatos e as encenações, o filme acaba por perder certo equilíbrio. O humor, recurso eficaz no início por conferir leveza ao tema, gradualmente se desgasta e dá a sensação de repetição à medida que novas sequências se acumulam. Essa insistência compromete o ritmo e enfraquece parte do impacto que a proposta inicial parecia prometer. Nas reconstituições estilizadas do filme, em que quebra a quarta parede com franqueza e habilidade, Werhun expõe tanto os aprendizados quanto os desafios de sua trajetória, da ausência de proteção contra clientes abusivos às formas de vergonha internalizada que refletem o estigma social em torno do prazer feminino e do trabalho sexual. Embora Modern Whore não se furte a mostrar os aspectos mais sombrios e desconfortáveis do trabalho sexual, seu propósito central é validar e celebrar quem o exerce, apresentando essas pessoas em toda a sua complexidade. O documentário ultrapassa o relato individual de Andrea Werhun, uma mulher cisgênero branca, para incorporar experiências e perspectivas diversas, ampliando a visão sobre a comunidade de profissionais do sexo. Ainda assim, sinto que o filme tenta se bastar apenas com o seu conteúdo, já que as encenações acabam se tornando cansativas e não agregam muito para o que está sendo contado, e talvez a grande sacada seja de fato nos bastar apenas pela imaginação. Nota: 2,5/5

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