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- Crítica | Apolo (Festival do Rio 2025)
O retrato de uma gestação trans que é resistência e afeto em cena Foto: Reprodução Em um mundo tão polarizado como o de hoje, existir e ser uma pessoa trans já é um sinônimo de resistência. E para uma sociedade preconceituosa como a nossa, ver o gestar transcentrado parece algo absurdo. É nesse contexto que nasce também o documentário Apolo, dirigido por Tainá Müller e Isis Broken, contando a trajetória de Isis e Lourenzo Duvale, que em meio à pandemia da Covid-19, enfrentam os desafios impostos pela transfobia institucional e pelo preconceito social ao vivenciar a experiência da gestação de Lourenzo — homem trans que carrega o filho do casal, o pequeno Apolo. Exibido no 27º Festival do Rio, Apolo é uma obra que transcende o relato íntimo de uma gestação para se tornar um potente manifesto sobre identidade, afeto e resistência. O ponto de partida do documentário é um episódio de violência institucional: Lourenzo é impedido de realizar uma consulta pré-natal na rede pública de saúde de Aracaju por ser um homem grávido, expondo não só a precariedade do sistema como sua profunda inadequação diante das demandas de pessoas trans. Isis, que vem fazendo parte de trabalhos recentes na TV, pode estar sendo conhecida pelo público nacional agora, mas já era um nome potente na cena musical em Aracaju desde 2019. A violência sofrida pelo seu parceiro mostrou a necessidade da mudança para a capital paulista, tudo mostrado no documentário com muita sensibilidade. Seja para quem já conhecia o casal através das redes sociais ou para quem vai conhecê-los através do documentário. Foto: Reprodução Apolo constrói uma narrativa tocante e política a partir do cotidiano do casal, entrelaçando as dores e alegrias de uma gestação com as violências e invisibilidades enfrentadas por corpos dissidentes. O longa não se furta de mostrar as dificuldades financeiras, os medos, os preconceitos e os afetos, apostando numa estética da intimidade que humaniza seus personagens e convida o público a repensar noções normativas de família, gênero e amor. A narração, que faz com que o documentário seja quase como uma carta para Apolo no futuro, torna tudo mais bonito e também torna-se um registro muito verdadeiro e honesto para uma criança que, em breve, irá entender como a sua existência também é uma forma de resistência. Cinematograficamente, o documentário se destaca pela delicadeza da estreia na direção de Tainá, que sabe onde parar e onde insistir, construindo um retrato que não é apenas sobre Lourenzo, Isis e Apolo, mas sobre todas as pessoas trans que lutam diariamente pelo direito de existir com dignidade. Não é nada revolucionário no modo de contar a história, mas é extremamente competente em como essa trama chega em quem o assiste. Ao fazer da vida um gesto político, Apolo se afirma como um documentário que deverá ressoar muito além da Première Brasil, tornando-se muito além de um registro para o futuro de Apolo. Um filme que toca, provoca e permanece. Nota: 4/5
- Crítica | Ato Noturno (Festival do Rio 2025)
Referências do suspense assertivas elevam o nível de sofisticação do Thriller Erótico brasileiro Foto: Reprodução Selecionado para a mostra Panorama do Festival de Cinema de Berlim 2025, Ato Noturno, da dupla de diretores Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, é um dos concorrentes ao Prêmio Redentor na mostra competitiva de ficção do Festival do Rio deste ano. Na trama, Matias (Gabriel Faryas), um jovem ator ambicioso, e Rafael (Cirillo Luna), um político em ascensão que disputa as eleições para prefeito em Porto Alegre, vivem um caso em sigilo. Logo nos primeiros instantes de Ato Noturno, há algo que fica bastante evidente no filme da dupla de cineastas: as referências maneiristas e de suspense, que elevam o nível de sofisticação do longa, tornando-o um autêntico e vibrante thriller erótico. Ao longo do desenrolar da trama, Matias e Rafael descobrem um peculiar fetiche por sexo em lugares públicos, com o desejo um pelo outro crescendo e tomando contornos, por vezes, não tão almejados. A dupla se torna, a partir disso, um espelho do outro. O político vive o romance em sigilo, obcecado pela vitória e por alcançar objetivos, e acaba por inspirar o ator ao mesmo. Assim como Rafael, Matias também descobre, conforme cresce em direção ao sonho de se tornar um ator bem sucedido, as obrigações e exigências podadoras e discriminatórias do sistema, que exigem dele a mesma atitude discreta de Rafael. Porém, para atingir seus objetivos, Matias — que disputa com seu companheiro de quarto (Henrique Barreira) o papel em uma série de TV — decide passar por cima de seu colega de peça. As consequências acabam sendo trágicas, à medida que a situação sai de controle. Os diretores acertam em transmitir sempre essa sensação de inquietude. A peça que os dois amigos encenam, por exemplo, entra como simbolismo metalinguístico. Ao final do espetáculo que ensaiam, apenas um pode se manter de pé ao disputarem lugar em uma superfície estreita. Foto: Reprodução Ao longo do filme, o desenrolar dos acontecimentos e os elementos narrativos remetem diretamente a um suspense hitchcockiano com a estilização de um Brian De Palma. É a intriga entre dois amigos, a relação quase que de obsessão entre o político e o artista. Tudo é conduzido e bem afinado nessa lógica específica de filme, apesar de não tão melodramático como nas obras desses diretores. Até a ótima trilha sonora, assinada por Thiago Pethit, segue a lógica de reger o suspense com seus acordes misteriosos como as de um Bernard Herrmann — compositor histórico dos filmes de Alfred Hitchcock — ou Pino Donaggio — compositor que assina a trilha do clássico Dublê de Corpo (1984), de De Palma. São vários os símbolos hitchcockianos reimaginados: a casa isolada onde os amantes desenvolvem o caso em segredo; a escada em espiral, parte desse ambiente, enquadrada em plano zenital; o plano de transição com uma bela panorâmica de Porto Alegre. Também não é difícil traçar um paralelo entre uma cena de homicídio de Ato Noturno e a icônica sequência da tentativa de assassinato da personagem de Grace Kelly em Disque M para Matar (1954) - em ambas, o assassino surge das sombras por trás de suas vítimas. Ao lado disso, há um lado exibicionista e um erotismo intensos. A performance de Gabriel Faryas como Matias é camaleônica, de uma fluidez e entrega física que impressionam. Além disso, luzes saturadas preenchem os ambientes, enquanto a silhueta de corpos nus em contraste se destaca na composição de cena que a dupla de cineastas propõe. A tensão segue uma lógica crescente junto aos zooms que a câmera dá em direção aos personagens. Até mesmo o voyeurismo se faz presente de forma singela — o estopim para o lado trágico do filme se dá a partir da observação e do registro em vídeo de Matias e Rafael, realizado ilegalmente, e que pode colocar tudo em jogo. Assim, não há dúvidas de que Ato Noturno é um thriller erótico LGBTQIAP+ autêntico. Marcio Reolon e Filipe Matzembacher não negam as grandes lições que tomaram com os mestres do gênero. Ao final, o filme se consagra como uma história de libertação dos jugos sociais limitantes. Mas o impacto talvez não fosse o mesmo se esse bom fetiche de libertação sexual não fosse executado com estilo e vontade. Nota: 4/5
- “Corações Naufragados”: filme sergipano revive tragédia do torpedeamento de navios brasileiros em 1942
Dirigido por Caco Souza, o longa reúne Daniel de Oliveira, Olivia Torres e William Nascimento em uma história de amor e resistência ambientada em Sergipe durante a Segunda Guerra Mundial Imagem: Divulgação O litoral sergipano, cenário de um dos episódios mais dramáticos da Segunda Guerra Mundial no Brasil, ganha vida nas telas de cinema com Corações Naufragados, novo longa-metragem do diretor Caco Souza. Com estreia prevista para 2026, a produção traz no elenco nomes como Daniel de Oliveira, Olivia Torres, William Nascimento, a sergipana Gabi Britto, Wagner Santisteban e Domingos Antonio, além de mais de 40 artistas da terra. A produção se inspira em fatos reais ocorridos há mais de oito décadas, quando a Segunda Guerra Mundial chegou à costa brasileira. Em agosto de 1942, o submarino alemão U-507 lançou uma série de ataques contra embarcações civis e militares entre Sergipe e Bahia, provocando a morte de mais de 550 pessoas e levando o Brasil a declarar guerra ao Eixo. Um romance em meio ao caos da guerra Em Corações Naufragados, Olivia Torres interpreta uma jovem jornalista que desafia as convenções da época ao revelar sua identidade após escrever sob pseudônimo masculino. Ela se envolve com o Capitão Francisco da Silva, vivido por William Nascimento — um oficial sergipano da Marinha e líder clandestino de um movimento antinazista. Juntos, os dois enfrentam o peso da censura, da repressão política e da tragédia que ceifou centenas de vidas na costa nordestina. Já Daniel de Oliveira dá vida a Walter Baptista, um dos primeiros aviadores brasileiros envolvidos em operações de reconhecimento e resgate após os torpedeamentos. Em entrevista ao Oxente Pipoca sobre o longa Atena, Caco Souza falou sobre o resgate um momento esquecido da memória coletiva: “Pouca gente sabe que a guerra bateu à nossa porta antes de o Brasil se juntar aos Aliados. Corações Naufragados é um drama histórico e um romance que começa no Rio de Janeiro e desemboca nesse episódio real que mudou o rumo do país. Filmado em locações históricas do estado de Sergipe, o longa não apenas lança luz sobre um capítulo esquecido da participação do Brasil no conflito mundial, mas também reafirma o estado como cenário e polo de produção cinematográfica de relevância nacional. A produção já conta com recursos captados pelo Fundo Setorial do Audiovisual (FSA/BRDE) e busca alcançar tanto os circuitos de festivais nacionais e internacionais, plataformas de streaming, ampliando o diálogo entre arte, história e sociedade. O roteiro do longa é de Cacilda de Jesus, graduada em História pela Universidade Federal de Sergipe, atua como roteirista, produtora executiva, diretora de produção e atriz, e a produção é da WG Produções. No elenco, Olivia Torres, William Nascimento, Wagner Santisteban, Gabi Britto, Anne Samara, Leonardo Medeiros, Dalton Vigh, Mina Nercessian, Daniel de Oliveira ) e Domingos Antonio. Quando a guerra chegou a Sergipe Imagem: Arquivo Agência O Globo Há mais de 80 anos, no fim da noite de 15 de agosto de 1942, o estado de Sergipe foi palco de um dos momentos mais trágicos da Segunda Guerra Mundial no Brasil. O navio de carga e passageiros Baependi, pertencente à Companhia de Navegação Lloyd Brasileiro, foi torpedeado pelo submarino alemão U-507 a cerca de 37 km da costa sergipana. O ataque, que resultou na morte de 270 pessoas, causou comoção nacional e levou o governo brasileiro a romper sua neutralidade e declarar guerra à Alemanha e à Itália no final daquele mesmo mês. Nos dias seguintes, mais seis embarcações foram atacadas nas águas de Sergipe e Bahia, elevando o número total de mortos para 551. A tragédia mudou radicalmente o cotidiano de Aracaju. Os pouco mais de 100 mil habitantes da capital passaram a viver sob blecautes, toques de recolher e ensaios antiaéreos. Soldados patrulhavam o litoral, enquanto destroços, corpos e pertences das vítimas chegavam às praias de Mangue Seco, Abaís, Caueira, Mosqueiro, Aruana e Atalaia. O impacto e a memória da tragédia Imagem: Cemitério dos Náufragos, em Aracaju A professora e historiadora Eunice Aparecida Borsetto, da Universidade Tiradentes (Unit), destacou em entrevista para o portal da Universidade em 2021, que os efeitos da guerra foram sentidos muito além do campo militar. Aeronaves do aeroclube local passaram a sobrevoar o litoral de Aracaju, Estância e Itaporanga em busca de sobreviventes e corpos. “Soldados vigiavam as praias, resgatavam feridos e enterravam os mortos. A população revoltada chegou a depredar propriedades de simpatizantes do nazi-fascismo, como os chamados ‘quintas colunas’ e até o convento dos frades alemães de Santo Antônio”, relata Eunice. Em meio à dor e ao caos, nasceu um dos principais marcos históricos da Segunda Guerra no Brasil: o Cemitério dos Náufragos, localizado na praia de Aruana. Fundado pelo médico Carlos Moraes de Menezes, responsável por socorrer feridos e sepultar vítimas, o espaço foi tombado como patrimônio histórico pelo Decreto nº 2.571/1973. É o único memorial em território nacional que reúne vítimas diretas do conflito mundial. “Estudar essa história é fundamental para que não se perca a memória das famílias sergipanas e para refletirmos sobre os perigos do preconceito, do autoritarismo e do nazi-fascismo, que levaram milhões à morte”, reforça Eunice.
- Crítica | La Grazia (Festival do Rio 2025)
Paolo Sorrentino retorna com humor mais objetivo em filme sobre a beleza das incertezas Foto: Divulgação Apesar de prestigiado, o cinema de Paolo Sorrentino - diretor italiano vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional com A Grande Beleza - está longe de ser unanimidade entre críticos e cinéfilos. Um dos exemplos recentes desse caráter divisivo do cineasta está em sua última realização, Parthenope, que esteve na seleção internacional do Festival do Rio de 2024. Agora, pelo segundo ano consecutivo, o evento em terras cariocas recebe mais uma realização de Sorrentino. Exibido e premiado no Festival de Veneza 2025, La Grazia é um dos integrantes do panorama global do 27º Festival do Rio. Contrariando expectativas negativas para aqueles que desgostaram de sua última realização, La Grazia pode surgir como uma boa surpresa. Isso porque, no filme, o estilo dramático e de humor excêntrico de Sorrentino volta a ser mais objetivo, depois da peculiaridade tomada por reflexões filosóficas de um filme como Parthenope. No longa, acompanhamos os últimos meses de mandato do presidente fictício italiano Mariano De Santis (Toni Servillo). Viúvo e católico praticante, na reta final do cargo, o presidente se depara com dois pedidos de perdão para presidiários e com a difícil decisão de assinar ou não uma lei sobre a eutanásia. Logo nos créditos iniciais da película, cartelas introdutórias descrevem a função presidencial de acordo com as legislações italianas. Portanto, se a ideia é iniciar transmitindo seriedade e deveres, o retrato de Sorrentino, quando os acontecimentos do longa de fato começam a se desenrolar, é justamente sobre o contrário. Dilemas morais, éticos, existenciais e até questionamentos sobre vida pessoal são predominantes na figura de Mariano De Santis, enquanto lida com suas obrigações e com a saudade latente que sente da esposa falecida. O presidente de Toni Servillo - vencedor do prêmio de Melhor Ator em Veneza - é um homem que, em meio a todas essas questões, chega, por vezes, a beirar o ridículo. Há momentos em que, por exemplo, se diz determinado a aprender a composição de rap ou demonstra uma obsessão inexplicável em descobrir com quem sua esposa teria tido um caso quase quatro décadas antes do tempo presente do longa. Foto: Divulgação O humor de Sorrentino, quanto a isso, funciona pois a todo instante está alinhado com a ideia de desconstrução da imagem de autoridade e respeito que a função de presidente, como indicado pelas mencionadas cartelas iniciais, traz consigo. O estilo contemplativo característico do cineasta, de grandes locações e planos que ressaltam uma beleza estética predominante, também funciona com mais assertividade. Há momentos em que Sorrentino escolhe retratar os momentos finais do mandato do chefe de estado italiano em isolamento, com planos gerais que moldam a solidão de um indivíduo enquadrado sozinho em meio às paredes e estruturas robustas da residência presidencial ou com a imensidão de um belo céu azul ao fundo. Assim, De Santis está longe de ser um personagem unidimensional. E o que faz do filme de Sorrentino ser um retrato de fato interessante é o rumo que essa jornada toma em sua parcela derradeira. Em meio ao ridículo e à solidão, o presidente retratado pelo diretor é, acima de tudo, um homem vidrado em certezas - respostas exatas para todas as questões que fazem parte de sua existência, bem como de suas obrigações. Mas é bonito como o personagem de Servillo, aos poucos, aprende a enxergar a beleza de se viver rodeado por dúvidas. Como descrito por um dos personagens em determinado instante do filme, viver com esse benefício é, justamente, a “Graça” existencial que nomeia a película. O mandato de De Santis chega ao fim, mas suas objeções não são completamente resolvidas. Ao longo da vida, talvez nunca tenhamos plena certeza de nada. Porém, assim como Mariano De Santis, quando se trata do perdão aos presos e da lei da eutanásia, sejamos sempre obrigados a realizar escolhas e seguir em frente, mesmo que cercados de incertezas. Nota: 4/5
- Crítica | Depois da Caçada (Festival do Rio 2025)
Após Rivais e Queer, Luca Guadagnino muda a rota e substitui o lado intenso do humor e da sexualidade de seus personagens pelo debate moral robusto Foto: Divulgação/Amazon MGM Sony Pictures Brasil Luca Guadagnino vem trabalhando com uma constância bem satisfatória para os fãs do seu trabalho. Em 2024, foram dois filmes em sequência, o elogiado Rivais e Queer — que, diferente do primeiro, acabou ofuscado em meio aos lançamentos do último ano. Agora, o terceiro filme em sequência do cineasta é Depois da Caçada. Com lançamento agendado para outubro nos cinemas brasileiros, ele chega ao Festival do Rio de 2025 como longa escolhido para a gala de abertura após ser parte da seleção oficial do último Festival de Veneza. Talvez o grande destaque de Depois da Caçada enquanto filme esteja em seu discurso. Não é como se as realizações anteriores do italiano fossem vazias de sentido ou conteúdo. Porém, nessa nova empreitada, o diretor parece se colocar em um lugar de seriedade que vai além do humor ou dos maneirismos com as imagens de um sucesso como Rivais. O roteiro de Depois da Caçada, assinado por Nora Garrett, levanta uma discussão interessante sobre dilemas morais e cultura do cancelamento. Na trama, Alma (Julia Roberts), uma renomada professora de filosofia na Universidade de Yale, nos EUA, se vê no centro de uma crise ética e pessoal quando uma de suas alunas mais próximas, Maggie (Ayo Edebiri), acusa outro professor, Hank (Andrew Garfield), de violência sexual. É na personagem de Roberts que mora, de forma geral, a dualidade moral mencionada. Apoiar um colega de trabalho com quem teve um caso no passado e ainda sente certa atração ou a jovem estudante que a admira de forma quase suspeita pela professora? Estaria a jovem mentindo para contornar uma acusação de plágio do professor? Enquanto se mantém em uma relação distante em todos os sentidos de seu marido (Michael Stuhlbarg) - um terapeuta que, em meio a discussões filosóficas, mais parece interessado no isolamento por meio da música - as consequências de apoiar qualquer um desses lados, para Alma, aparentemente, seriam negativas. Foto: Divulgação/Amazon MGM Sony Pictures Brasil Entretanto, mais tarde, descobrimos que é como se o caso de Hank e Maggie fosse ainda mais pessoal para a personagem de Julia Roberts. Aqui, a verdadeira ferida que a situação toca é fazê-la reviver antigas cicatrizes e fantasmas. Alma viveu praticamente uma vida inteira carregando uma culpa reprimida pelo destino que um interesse amoroso mais velho, quando ela ainda era uma adolescente, tivera por consequência de suas ações. Assim, logo nos primeiros instantes da projeção um som de tique-taque de relógio marca o ritmo dos acontecimentos enquanto acompanhamos o início da rotina da personagem. Esse mesmo som, mais a frente, volta a “assombrar” a protagonista em momentos distintos. Além disso, ela convive com dores intensas de uma doença. É, então, como se a personagem tivesse uma bomba-relógio dentro de si mesma - que não demora, por sua vez, a eclodir. Ao final, entretanto, Guadagnino faz questão de deixar no ar as respostas para seus questionamentos. A eclosão não resulta em uma resposta enfática para a situação Maggie e Hank. Podem ambos os lados estarem errados. Apesar do discurso, após os momentos finais, ficar mais sugestivo para o lado de Maggie e da ausência de culpa de Alma pelo seu passado, nada é tão preto no branco para o emaranhado de discussões que Depois da Caçada propõe. O conteúdo e debate da obra, portanto, são tão válidos quanto relevantes. Mas podem frustrar já que esse não é o Luca Guadagnino alinhado ao que estamos acostumados. O diretor, por vezes, está tão focado no discurso que parece ter se esquecido do resto. Seu estilo ainda se faz presente no uso mais rebuscado das cores e sombras, quando a câmera foca em toques físicos singelos entre os personagens ou em enquadramentos mais estilizados em momentos tensos, como quando a câmera se agarra ao rosto dos atores, tirando o máximo de intensidade de suas performances. É quando lida com a apreensão intrínseca a todo o cenário proposto, de revelações, reviravoltas e embates entre seus protagonistas, em que o italiano encontra bons momentos. Porém, ainda soa como presunção de um cineasta melhor quando o assunto é um filme como Me Chame Pelo Seu Nome ou Rivais. A intensidade de Guadagnino é mais bem-vinda quando o assunto são momentos intimistas ou a sexualidade que transborda na tela por meio do desejo dos seus personagens, do que quando o assunto é provocar o espectador com uma verborragia mais sisuda. Nota: 3/5
- CRIAS – Cine de Rua Infantil de Sergipe promove segunda edição em São Cristóvão com o tema “Infâncias Infinitas”
Mostra acontece nos dias 17 e 18 de outubro com programação gratuita que inclui exibições de filmes, oficina de fotografia e atividades virtuais Imagem: Divulgação A Floriô de Cinema realiza, nos dias 17 e 18 de outubro, a segunda edição do CRIAS – Cine de Rua Infantil de Sergipe, que neste ano terá programação presencial em São Cristóvão, no Colégio Estadual Armindo Guaraná, no bairro Rosa Elze, além de atividades online. Com o tema “Infâncias Infinitas”, a mostra busca valorizar a inventividade e a capacidade criativa das crianças, promovendo sessões de cinema, apresentações circenses, oficinas e debates sobre a infância como espaço de imaginação e transformação. “Em sua segunda edição, o CRIAS propõe exibir filmes que nos ajudem a conceber futuros possíveis para as nossas crianças”, explica o curador Sidjonathas Araújo. Para ele, a mostra surge como convite à reflexão: “Em um contexto de ameaças ao globo terrestre, como elaborar a ideia de infinitude? Seriam os conhecimentos dos nossos mais velhos a inspiração para novas formas de existir, de sentir e de cuidar? Seria a imaginação das crianças o terreno fértil para cultivá-las?”. Imagem: Carolen Meneses, Sijonathas Araújo e Neto Astério Na sexta-feira (17) e no sábado (18), sempre às 17h, o Colégio Armindo Guaraná se transforma em sala de cinema para receber duas sessões dedicadas ao protagonismo infantil, acompanhadas de apresentações culturais, distribuição de brindes e surpresas ao público. Segundo Carolen Meneses, coordenadora de Produção, o CRIAS busca criar “um espaço de pertencimento para os moradores, em especial para as crianças. Queremos que elas saiam da sessão inspiradas a olhar para o mundo ao seu redor de uma forma mais lúdica e respeitosa, tanto com o próximo como com a natureza”. Já no sábado pela manhã, será transmitida no YouTube da Floriô de Cinema a atividade virtual “Imagens para o Futuro: o cinema como experiência criativa na escola”, com participação de Kleverton Souza (Mestrando em Cinema/UFS) e Ana Paula (Professora de Cinema/UFRB). À tarde, as crianças também poderão participar da oficina fotográfica “Fotoescrevivência: Retratos de Nosso Mundo”, ministrada pela fotógrafa Luiza Bomfim e voltada para crianças de 8 a 14 anos. Toda a programação é gratuita e pode ser acompanhada pelas redes oficiais da Floriô de Cinema (https://www.instagram.com/floriodecinema/) e do CRIAS no Instagram (https://www.instagram.com/cinecrias/). Para Neto Astério, coordenador artístico, pensar a infinitude das infâncias é o ponto de partida do projeto. “Nosso convite é, antes de tudo, para as crianças — e também para as pessoas crescidas, que muitas vezes deixaram de acreditar no poder do imaginar”, destaca a equipe. “A infância, tantas vezes violentada, insiste em criar, fantasiar e reinventar o mundo, tornando a vida mais viva e brincante.” O II CRIAS é realizado pela Floriô de Cinema, com recursos da Lei Complementar Federal nº 195/2022 – Lei Paulo Gustavo, por meio do edital nº 06/2023 – TARCÍSIO DUARTE, executado pela Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe – FUNCAP/SE.
- Crítica | House of Guinness (1ª temporada)
Uma mistura de Peaky Blinders com Succession que não atinge seu potencial completo, mas entretém Foto: Divulgação/Netflix No século XIX, no ano de 1868, a família irlandesa por trás da Cervejaria Guinness sofre um abalo após a morte do patriarca Benjamin Guinness, e agora, cabe aos filhos Arthur (Anthony Boyle), Edward (Louis Partridge), Anne (Emily Fairn) e Ben (Fionn O’Shea) lidar com as consequências desta perda, seja no drama familiar ou na empresa. Criada por Steven Knight, o mesmo de Peaky Blinders, as semelhanças são várias, principalmente visualmente, porque se passam em épocas parecidas, então a ambientação, os figurinos, tudo nesse sentido remete à série de Tommy Shelby e possuem o mesmo capricho técnico. No entanto, o lado mais criminoso abordado lá, dá lugar à disputa dos herdeiros e ao legado da cervejaria, o que já me lembra mais a história dos Roy. Desde muito tempo na televisão, uma série de sucesso leva à outra parecida e tudo bem, o que não pode, é deixar de ter identidade própria. Felizmente, é o caso aqui e os primeiros episódios estabelecem muito bem as peças no tabuleiro, mesmo que no decorrer da temporada, a pressa atrapalhe o desenvolvimento. Arthur é o filho mais velho, vivia uma vida boêmia em Londres e agora recebe uma responsabilidade que ele não queria: tomar conta dos negócios da família. Edward, por sua vez, o mais jovem e mais responsável, sonhava com isso, e lhe foi incumbido que ajudasse Arthur nesta missão. À Anne, por ser mulher, lhe sobrou se casar, praticamente. E Ben, que tem graves problemas com o álcool, também não lhe foi confiado nada, nem pelo testamento nem pelo roteiro, já que o rapaz termina praticamente do mesmo jeito que começa. Anthony e Edward ganham mais destaque por conta da sua relação contraposta e Boyle consegue tirar de letra as nuances do seu Arthur, passeando facilmente entre o humor e o drama com carisma, tendo em vista a evolução com o passar dos episódios. Partridge se divide entre a seriedade e inocência de um jovem precoce. Enquanto Emily Fairn está bem como Anne, porém ela começa com uma certa evidência e vai perdendo aos poucos. Foto: Divulgação/Netflix A trama possui três outras personagens femininas que ganham mais nuance do que Anne, que são Lady Olivia (Danielle Galligan), Ellen (Niamh McComarck) e Adelaide (Ann Skelly). Olivia se torna esposa de Arthur e têm uma relação bem interessante, digamos assim, para evitar spoilers, e Galligan confere um atrevimento à moça que jamais soa forçado, ainda quando lhe é exigido mais esforço em um arco dramático nos episódios finais. Ellen faz parte da irmandade feniana, que traz à tona um lado mais político da produção, e se envolve romanticamente com um dos Guinness, com quem divide uma fantástica química e é um daqueles casais proibidos que a gente adora torcer. Enquanto Adelaide, já é da família e aparece menos, mas sempre de maneira muito pontual e com uma personalidade forte ressaltada através de um texto ácido. Outro dos protagonistas é Sean Rafferty (James Norton), que é o gerente da fábrica de cerveja e, nos bastidores, o capanga principal dos Guinness e eventualmente se envolve em um caso com uma das mulheres citadas. O rapaz começa como um clichê, mas é perceptível como Norton está adorando cada segundo no papel e consegue fazer com que ele funcione muito dentro daquele universo. Acho importante destacar as relações existentes, mesmo que não possa detalhá-las. É um dos pontos que mais me agradaram na série, ainda que seja algo que deixe em evidência o seu maior defeito: a pressa. Um dos trunfos da televisão em relação ao cinema é o tempo para se desenvolver tramas, personagens e conexões entre eles. Ainda que House of Guinness estabeleça uma boa base para estas conexões, dentro de um contexto histórico e político, os constantes avanços de períodos no enredo, atrapalham como um todo, não deixando que a série atinja o seu potencial de complexidade que existe ali e o roteiro não tenha o mesmo cuidado que há na direção, design de produção, fotografia ou trilha sonora. Há uma cena no final da temporada em que Arthur ressalta as diferenças das pessoas que eles eram no primeiro episódio. É um paralelo válido e é claro que a temporada acaba exatamente como Steven Knight pretendia, por isso ele passa por ponto A e B, pulando o C, vislumbra o D e chega no E, com a maioria de seus personagens. É notório como isso é reflexo dos tempos atuais e House of Guinness poderia figurar entre as grandes, mas escolhe apenas entreter, o que consegue bem. E eu digo isso porque é uma série da qual gostei bastante, mas tinha potencial para ser mais. A 2ª temporada ainda não foi confirmada, mas esta termina com um baita gancho. Nota: 3,5/5
- Coletiva de Imprensa | Luca Guadagnino, Julia Roberts e mais falam sobre 'Depois da Caçada'
Coletiva reuniu elenco, diretor e roteirista em Nova York e destacou a sintonia criativa por trás do longa Foto: Divulgação/Amazon MGM Sony Pictures Brasil No último domingo (28/09), o Oxente Pipoca participou da coletiva de imprensa do novo filme de Luca Guadagnino, Depois da Caçada. Diretamente de Nova York, o diretor se juntou a Julia Roberts, Ayo Edebiri, Michael Stuhlbarg e à roteirista Nora Garrett em um bate-papo leve e cheio de cumplicidade, em que elenco e diretor trocaram experiências sobre o processo criativo do filme. Na trama, Roberts interpreta Alma Olsson, conceituada professora da Universidade de Yale que se vê diante de um dilema moral quando sua aluna mais promissora, Maggie (Edebiri), denuncia assédio cometido por Hank (Andrew Garfield), colega de profissão e amigo íntimo de Alma. A tensão, que começa na esfera acadêmica, logo invade a vida pessoal da protagonista quando segredos de seu passado ameaçam vir à tona. Sem respostas fáceis, o filme se recusa a oferecer maniqueísmos: não há certo ou errado, bom ou mau. O roteiro não busca confortar o público, mas confrontá-lo, colocando o ambiente acadêmico — terreno fértil de egos, prestígio e hierarquias — como palco ideal para explorar essas ambiguidades. Foi justamente essa precisão na descrição do universo que despertou em Guadagnino a vontade de dirigir o longa. “Quando recebi o roteiro, não estava planejando filmar nada naquele ano. Mas a escrita me comoveu profundamente — a forma como o mundo era descrito, as complexidades dos personagens, o diálogo que me lembrou o cinema clássico que tanto amo”, contou o diretor. Pouco depois dessa primeira leitura, o encontro com Julia Roberts selou a decisão: Depois da Caçada tornou-se, para ele, “inevitável”. Roberts, por sua vez, revelou certa insegurança ao aceitar o papel. “A princípio, Alma me parecia distante, complicada, desafiadora. Mas Luca me fez enxergar as possibilidades dessa interpretação. Ele me encorajou, me apoiou e acreditou em mim antes mesmo de eu saber no que estávamos nos metendo.” Foto: Divulgação/Amazon MGM Sony Pictures Brasil Já Ayo Edebiri, conhecida pelo papel de Sydney em The Bear, parece cada vez mais inclinada a personagens emocionalmente densos. Faz eco à fala do diretor ao mencionar que não conseguiu parar de pensar no roteiro após a primeira leitura, destacando a inteligência e a profundidade do texto de Garrett. A roteirista, no entanto, frisa que não partiu de nenhum caso real: “Infelizmente, existem situações parecidas, mas não foi um trabalho de fora para dentro. Para mim, quase sempre começo de dentro: de um dilema íntimo. Aqui, a ideia foi pensar numa protagonista que, no auge de seu prestígio, vê a possibilidade de perder tudo.” A sintonia entre elenco e direção transpareceu durante a coletiva. Ao contrário dos elogios protocolares, comuns nesse tipo de evento, parecia haver afeto genuíno entre os talentos no palco. Roberts contou, com humor, do dia em que, diante da falta de energia repentina no estúdio, comprou ingressos para um parque de diversões com Ayo, apenas para serem chamadas de volta ao set minutos antes de entrar. Já Edebiri destacou a atenção obsessiva de Guadagnino a cada detalhe, das cores do esmalte à escolha dos figurantes, sempre em função da narrativa. O diretor, por sua vez, deixou claro o desejo de repetir a parceria. No encerramento, Roberts refletiu que a maior recompensa de um projeto como este, que mergulha em temas tão sensíveis, é provocar conversas, ver “pessoas tendo conversas entusiasmadas, animadas, sobre uma diversidade de temas.” E talvez esteja aí a força de Depois da Caçada: não apenas na experiência na sala de cinema, mas no que ressoa depois — as discussões sobre poder, hipocrisia e valores morais (dos personagens e nossos próprios) que persistem na mente do espectador. Produzido pela Amazon MGM e com distribuição no Brasil pela Sony Pictures, o thriller psicológico estreou em agosto no Festival de Veneza e teve recente exibição no Festival de Nova York. A estreia nacional está marcada para acontecer na cerimônia de Gala de Abertura do Festival do Rio, no dia 2 de outubro.
- Novo filme de ficção da cineasta Everlane Moraes será gravado na Bahia
Grace Passô, Sérgio Laurentino, Noélia Montanhas e Severo D'Acelino estrelam 'O Segredo de Sikán' Foto: Reprodução Dirigido por Everlane Moraes, o longa O Segredo de Sikán terá cenas filmadas em Cachoeira e São Félix, na Bahia, e reúne nomes consagrados do cinema nacional, como Grace Passô, Sérgio Laurentino, Noélia Montanhas e Severo D’Acelino, além de talentos locais do Recôncavo Baiano. A produção, que começa a ser rodada em outubro, marca o primeiro longa de ficção da diretora cachoeirana e traz um elenco majoritariamente composto por atores negros, incluindo também Taise Paim, Sara Barbosa e Heraldo de Deus, em uma narrativa que reimagina o mito da princesa africana Sikán, subvertendo seu destino em uma trama de drama, suspense e mistério. Ambientado em um universo distópico, o filme acompanha a história de Sikán, que, para proteger um segredo, se lança ao rio Oddán, na Nigéria. Transformada em um peixe luminoso, sua chegada ao rio Paraguaçu, no Recôncavo Baiano, provoca conflitos entre Cachoeira, cidade matriarcal, e São Félix, cidade patriarcal. Grace Passô interpreta Sara, inspirada na artista cubana Belkis Ayón; Sérgio Laurentino vive Ajamu, guerreiro que busca controlar a energia de Sikán; e Severo D’Acelino é Nasakô, ancião cego que guarda segredos nas águas do Paraguaçu. Outros personagens incluem Matriarca Perpétua (Noélia Montanhas), Naira (Sara Barbosa), Eno (Heraldo de Deus), Tânia (Taise Paim), Zita (Manuela Neves) e Leda (Andreia Anjos). Foto: Reprodução “A intenção foi formar um elenco profissional que também represente o Recôncavo. Trabalhamos com atores locais e não-atores, trazendo vivência e autenticidade para a narrativa. Recebemos inscrições de pessoas de 8 a 80 anos, o que trouxe uma diversidade incrível e muito emocionante”, afirmou Everlane Moraes. Combinando realismo fantástico, cultura afro-brasileira e referências afro-religiosas, como a procissão da Boa Morte, o filme explora protagonismo feminino e resistência negra, conectando tradição e contemporaneidade. O Segredo de Sikán é uma coprodução da Carapiá Filmes e Pattaki Produções, com distribuição da Embaúba Filmes, mesma distribuidora de Marte Um, indicado para representar o Brasil no Oscar em 2023. O projeto recebeu recursos do Fundo Setorial do Audiovisual da ANCINE e do edital estadual Bahia Lei Paulo Gustavo. Foto: Reprodução Sobre a diretora: Everlane Moraes é uma cineasta brasileira, nascida em Cachoeira (BA) e crescida em Aracaju (SE). Formada pela Escuela Internacional de Cine y TV em Cuba (EICTV, Cuba), atua como diretora, roteirista, professora e consultora. É membra do Center Frame's Core Community (UK), e da APAN - Associação de Profissionais Audiovisuais Negros (BR); foi Fellow no Flaherty Film Seminar (EUA, 2021); integra a Rede de Talentos no Projeto Paradiso (BR), participou do programa Colaboratório Criativo - Netflix (Brasil, 2020) e do Encontro entre Diretores do Talents Guadalajara (2019). É produtora e criadora da Pàttàki Audiovisual e recentemente co-dirigiu a série “Histórias Impossíveis” na Rede Globo (2023).
- Crítica | Tron: Ares
Continuação não economiza nos apelos visuais e sonoros para compensar roteiro bobo Foto: Reprodução TRON: Ares acompanha Ares (Jared Leto), um programa de inteligência artificial do mundo digital, que é enviado ao mundo real numa perigosa missão, marcando o primeiro encontro da humanidade com seres digitais. A história aborda o que significa ser humano, enquanto Ares questiona a sua própria programação e tenta compreender o mundo real, numa jornada cheia de desafios e descobertas. TRON: Ares chega aos cinemas com a confiança e a experiência de quem sabe o que o público espera: brilho, neon, som alto e nostalgia digital. O filme diverte descompromissadamente, oferecendo uma experiência sensorial que privilegia o impacto visual e sonoro em detrimento da narrativa, nenhuma novidade. É um espetáculo montado para impactar num nível primário de sensações mais do que para ser pensado, e nisso ele se sai muito bem. A trilha sonora da banda Nine Inch Nails é, de longe, o que o longa tem de mais precioso. Trent Reznor e Atticus Ross criam composições vibrantes que mesclam melancolia e futurismo à base de muito sintetizador, dando identidade e ritmo ao universo de TRON. A música não apenas acompanha as cenas, ela as define, elevando o que o roteiro, por vezes, não sustenta. É um trabalho sofisticado que dá alma ao filme e reafirma a dupla como uma das mais inventivas do cinema hollywoodiano contemporâneo. Foto: Reprodução TRON: Ares sabe que sua história é uma bobagem (no melhor sentido da palavra) e não força a barra tentando ser mais complexo do que é, mas é um pouco decepcionante ver que, no momento atual da pauta inteligência artificial, o enredo não tenta enriquecer o debate ou dar mais densidade. O texto, que ainda gira em torno da velha briga entre programas e criadores, e só arranha os outros segmentos. Falta profundidade, falta metáfora, falta aquele subtexto que fazia o original parecer maior do que era. No fim, tudo soa simplificado, como se o filme tivesse medo de perder o público caso ousasse pensar demais. A atuação de Jared Leto é especialmente ruim. Não é porque seu papel é uma forma de inteligência virtual que o personagem tenha que ser tão apático. Sua performance é travada, sem alma, e por vezes até desconfortável de assistir. Num universo digital que clama por emoção e empatia, ele entrega um protagonista frio e sem qualquer carisma. No saldo final, TRON: Ares ganha pelos apelos, mas não cativa na essência. Tem mais sentimento do que Tron - O Legado (2010), é verdade, mas não traz a revolução técnica que separou o segundo do primeiro. É como uma atualização de software que mudou alguns detalhes de interface, mas as funções seguem sem nenhuma melhoria. Nota: 3/5
- Crítica | Herança de Narcisa (Festival do Rio 2025)
Paolla Oliveira é espinha dorsal de filme que transita entre drama familiar e thriller psicológico Foto: Reprodução Vencedor do Troféu Redentor de Melhor Filme pelo Júri Popular na Mostra Novos Rumos do 27º Festival do Rio, Herança de Narcisa, dirigido por Clarissa Appelt e Daniel Dias, mergulha na complexa relação entre mãe e filha e nos segredos que atravessam gerações. Protagonizado por Paolla Oliveira, o longa acompanha Ana, que retorna à casa de sua falecida mãe, a ex-vedete Narcisa, com a intenção de vender o casarão herdado. No entanto, a herança se revela muito mais sombria do que ela imaginava, trazendo à tona traumas antigos e acontecimentos que transformam o espaço em um território marcado pelo luto, pelo passado e por memórias que se recusam a ser esquecidas. O filme, que transita entre o drama familiar e o thriller psicológico, explora bem a questão dos traumas, ressentimentos e segredos que atravessam gerações, e quando se aprofunda nessas nuances dramáticas que realmente se destaca. Paolla Oliveira é a espinha dorsal do filme, conduzindo a narrativa de maneira impecável. Sua atuação quase dupla, equilibrando a filha em luto e a memória de uma mãe vaidosa e negligente com os próprios filhos, dá profundidade à história e segura o espectador em cada cena. Embora o filme construa uma boa atmosfera de tensão, os momentos de terror não são seu ponto forte; o que funciona mesmo são os conflitos emocionais, as relações familiares complexas e o peso das memórias que permeiam cada espaço da casa. A direção de Clarissa Appelt e Daniel Dias destaca-se pela maneira sensível como utiliza o espaço da casa herdada como elemento narrativo. O casarão funciona quase como um personagem, com seus cômodos amplos, corredores escuros e móveis antigos, carregando memórias e segredos da família. Cada movimento de câmera e detalhe captado contribui para criar diferentes sensações no espectador, alternando entre familiaridade e inquietação, reforçando o peso do luto e a complexidade da relação entre mãe e filha. Foto: Reprodução Além disso, a arquitetura e os objetos da casa são usados para explorar as nuances emocionais da narrativa. Em alguns momentos, o espaço transmite acolhimento e nostalgia, lembrando a infância de Ana; em outros, torna-se opressor, refletindo traumas e ressentimentos. A fotografia complementa essa exploração, brincando com luz e sombra para intensificar a atmosfera dramática e psicológica, mostrando que o filme encontra sua força não apenas no terror, mas na construção de camadas simbólicas e emocionais dentro desse espaço. O maior problema de Herança de Narcisa, na minha opinião, está nos momentos em que ele tenta transitar para o terror propriamente dito. Apesar da boa atmosfera de tensão, essas cenas acabam enfraquecendo a narrativa, pois fica difícil decidir se Herança de Narcisa quer ser verdadeiramente assustador ou se é um drama familiar. A mistura às vezes funciona, mas em outros momentos gera uma incongruência narrativa: quando o longa mergulha de vez no fantástico, o efeito que deveria ser macabro acaba soando bobo, tirando a força das cenas e comprometendo a coerência do tom que o filme estabelece nos trechos mais dramáticos e psicológicos. Apesar de suas falhas ao transitar para o terror, Herança de Narcisa se firma como um retrato sensível e profundo das relações familiares e do luto. A força do filme está na exploração psicológica dos personagens, na atuação de Paolla Oliveira e na maneira como a casa se torna um reflexo do passado e das memórias que não se apagam. E onde no fim, o longa se destaca mais como um drama familiar carregado de simbolismos do que como um thriller assustador. Nota: 3/5
- Crítica | Alien: Earth (1ª temporada)
Noah Hawley revisita o universo de Alien à sua imagem e semelhança numa das séries mais instigantes do ano Foto: Divulgação/ FX - Hulu - Disney+ “No espaço ninguém pode te ouvir gritar”, dizia o slogan de Alien – O Oitavo Passageiro (1979) ... mas na Terra, mesmo que te ouçam, vão se importar? Por baixo do horror puro que o xenomorfo trouxe em suas versões no cinema, a franquia Alien nunca se furtou a trazer comentários sobre classe, capitalismo, identidade e, sobretudo, humanidade. É nesse âmago que Noah Hawley, conhecido por seus trabalhos com Fargo e Legion, mira com Alien: Earth, primeira incursão da franquia na TV. Ambientada dois anos antes dos eventos do primeiro filme, a série nos mostra uma Terra que é controlada por cinco corporações, num cenário distópico e (assustadoramente) profético. O ponto de partida aqui é a queda da nave Maginot, pertencente à corporação Weyland-Yutani – velha conhecida de quem já assistiu aos filmes – numa cidade controlada pela Prodigy, corporação pertencente ao iconoclasta trilionário Boy Kavalier (Samuel Blenkin). Kavalier, que está criando os primeiros “híbridos” – seres sintéticos com consciência humana transferida dos corpos já falecidos –. envia um grupo destes híbridos, chamados de “Garotos Perdidos” (em alusão à Peter Pan) sob a liderança do androide Kirsch (Timothy Oliphant) para investigar a queda da Maginot e as criaturas que ela trazia consigo, inclusive o nosso querido xenomorfo. Não é nenhum spoiler dizer o quanto as coisas darão errado a partir daí, e se há um grande mérito em Alien: Earth é em como a série não se furta ao gore e ao body horror quando necessário, resgatando as alusões fálicas do filme original na concepção da criatura, bem como as ideias sobre maternidade de Aliens (1986) sob um verniz bastante violento e horripilante. O(s) xenomorfo(s) que vemos aqui estão entre as criaturas mais sanguinolentas que a franquia já apresentou, e surpreendentemente nem são as mais interessantes, já que Hawley amplia a fauna alienígena com novas espécies tão aterrorizantes quanto, em especial o Trypanohyncha Ocellus, ou “Olho”, que pode muito bem ser o antagonista mais fascinante da temporada. Mas mesmo que honre o espírito dos filmes e suas ideias (ao ponto de “refazer” o primeiro Alien no quinto episódio, que explica o que houve com a Maginot e é talvez o melhor da temporada), Hawley faz aqui o que já havia demonstrado tão bem em suas séries anteriores: pegar um material já existente e famoso e recriá-lo à sua própria maneira e estilo, abrindo novas possibilidades e caminhos. Se Fargo, a série, ampliava e muito o escopo do filme dos irmãos Coen – inclusive ao beber de fontes advindas de outros filmes dos diretores – aqui o showrunner tem o desafio ambicioso de fazer o mesmo com uma franquia já tão estabelecida, e, ainda que com alguns percalços no caminho, pode se dizer que o resultado final é muito bem-sucedido. Foto: Divulgação/ FX - Hulu - Disney+ Diria, inclusive, que Alien: Earth está muito mais próxima visual e tematicamente de Legion (até hoje a melhor série de heróis já feita, na minha opinião) do que de Fargo. Hawley e seu time de diretores brincam constantemente com o que está em tela, experimentando transições incomuns, fade-outs, imagens e planos sobrepostos, especialmente em sequências de diálogos. A trilha é outro fator importante, com Jeff Russo, parceiro habitual de Hawley, trazendo acordes dissonantes e quase alienígenas para a série, que colaboram ainda mais para a construção de uma atmosfera inquietante e opressiva, onde é difícil saber se o pior mal são as criaturas alienígenas ou o capitalismo personificado em figuras como Boy Kavalier. Além disso, a escolha de encerrar os episódios com canções icônicas de bandas de rock e metal como Black Sabbath, Tool, Metallica, Smashing Pumpkins, Queens of the Stone Age e Pearl Jam reforça o habitual ótimo gosto musical da dupla, já evidenciado em suas séries anteriores. Em meio a isso, a série aplica sua estranheza também às atuações do seu elenco, que se em alguma medida podem ser lidas como caricatas, funcionam habilmente neste universo. Os destaques vão para Timothy Oliphant, que sai da sua persona habitual como “homem da lei” de séries como Justified e Deadwood para construir o intrigante Kirsch, e Babou Ceesay, que faz de seu Morrow um antagonista a ser tão temido quanto compreendido. Por outro lado, o núcleo dos “Garotos Perdidos” tem o trabalho mais desafiador, já que são adultos interpretando crianças em corpos sintéticos, que desafiam nossa própria moralidade e lógica sobre o que é ser humano. Assim, suas atuações transitam entre o bobo e caricato (como no caso de Adarsh Gourav e Jonathan Ajayi) e algo mais nuançado e complexo (no caso de Sydney Chandler e Lily Newmark), que pode afastar ou aproximar o público, mas não há dúvidas de que para se acessar o coração da série é preciso abraçar o que é proposto através desses personagens. Mesmo que nem sempre desenvolva por completo todas as suas ideias e sofra de alguns problemas ocasionais de montagem e ritmo (em especial no penúltimo episódio), Alien: Earth cumpre o que promete enquanto um produto idealizado por uma mente tão criativa quanto transgressora como a de Noah Hawley. Diferente de Alien: Romulus (2024), que, mesmo com seus méritos, se resvalava na nostalgia e conforto para atrair o público, a série ousa experimentar e adicionar novas possibilidades à franquia, sem medo de ousar e desconstruir quando necessário, mas sem deixar de ser inegavelmente Alien. Nota: 4.5/5












