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- Festival do Rio: ‘Pequenas Criaturas’ e ‘Ato Noturno’ são destaques da premiação
Cerimônia celebrou produções nacionais e narrativas LGBTQIAPN+, e trouxe a volta de prêmios com voto popular Foto: Christian Rodrigues A 27ª edição do Festival de Cinema do Rio chegou ao fim no último domingo, 12 de outubro, com a cerimônia de entrega do Troféu Redentor, que premia os filmes da competição principal e da mostra Novos Rumos da Première Brasil, além do Prêmio Felix, que contempla as narrativas LGBTQIAPN+. Apresentada pelos atores Clayton Nascimento e Luisa Arraes, a cerimônia deste ano trouxe novidades na competição principal da Première Brasil, como a categoria Melhor Figurino e a volta dos prêmios pelo júri popular: Melhor Longa-Metragem de Ficção e Melhor Longa-Metragem Documentário. Na mostra Novos Rumos, a novidade foi o retorno do prêmio de Melhor Longa-Metragem. Entre os destaques da noite, ‘Pequenas Criaturas’, dirigido por Anne Pinheiro Guimarães e protagonizado por Carolina Dieckmann, foi o grande vencedor na categoria Melhor Longa Metragem na Première Brasil. Outro destaque foi o longa ‘Ato Noturno’, dirigido por Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, que levou para casa o Prêmio Felix como Melhor Filme Brasileiro, além de vencer três categorias na principal mostra competitiva do festival, incluindo Melhor Roteiro, Melhor ator para Gabriel Fryas e Melhor Fotografia para Luciana Baseggio. O cinema nordestino também marcou presença, dessa vez na mostra Novos Rumos com o cearense ‘Ponto Cego’, de Luciana Vieira e Marcel Beltrán, que conquistou a categoria Melhor Curta-Metragem. Dirigido por Tainá Muller e pela sergipana Ísis Broken, ‘Apolo’ foi o vencedor da Première Brasil nas categorias Melhor Longa Metragem Documentário e Melhor Trilha Sonora Original para Plínio Profeta. Foto: Christian Rodrigues Confira abaixo os vencedores do Festival do Rio 2025: Melhor Longa-metragem de Ficção Pequenas Criaturas, de Anne Pinheiro Guimarães Melhor Longa-Metragem de Ficção: Voto Popular #SalveRosa, de Susanna Lira Melhor Longa-Metragem Documentário Apolo, de Tainá Müller e Ísis Broken Melhor Longa-Metragem Documentário: Voto Popular Cheiro de Diesel, de Natasha Neri e Gizele Martins Prêmio Especial do Júri Cheiro de Diesel, de Natasha Neri e Gizele Martins Melhor Direção de Longa-Metragem de Ficção Rogério Nunes, por Coração das Trevas Melhor Atriz Klara Castanho, por #SalveRosa Melhor Ator Gabriel Faryas, por Ato Noturno Melhor Direção de Documentário Mini Kerti, por Dona Onete - Meu Coração Neste Pedacinho Aqui Melhor Atriz Coadjuvante Diva Menner, por Ruas da Glória Melhor Ator Coadjuvante Alejandro Claveaux, por Ruas da Glória Melhor Roteiro Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, por Ato Noturno Melhor Fotografia Luciana Baseggio, por Ato Noturno Melhor Direção de Arte Claudia Andrade, por Pequenas Criaturas Melhor Montagem André Finotti, por Honestino Melhor Som Ariel Henrique e Tales Manfrinato, por Love Kills Melhor Trilha Sonora Original Plínio Profeta, por Apolo Melhor Figurino Renata Russo, por #SalveRosa Melhor Curta-Metragem Sebastiana, de Pedro de Alencar O Faz-Tudo, de Fábio Leal PREMIÈRE BRASIL: NOVOS RUMOS Melhor Longa-Metragem Uma Em Mil, de Jonatas Rubert e Tiago Rubert Melhor Longa-Metragem: Voto Popular A Herança de Narcisa, de Clarissa Appelt e Daniel Dias Melhor Direção João Borges, por Espelho Cigano Melhor Atriz Ana Flavia Cavalcante e Mawusi Tulani, por Criadas Melhor Ator Márcio Vito, por Eu Não Te Ouço Menção Honrosa de Melhor Atriz Docy Moreira, por Espelho Cigano Prêmio Especial do Júri Nada a Fazer, de Ângela Leal e Leandra Leal Melhor Curta-Metragem Ponto Cego, de Luciana Vieira e Marcel Beltrán Menção Honrosa de Curta-Metragem Os Arcos Dourados de Olinda, de Douglas Henrique PRÊMIO FELIX Melhor Filme Brasileiro Ato Noturno, de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher Melhor Filme Internacional A Sapatona Galáctica (Lesbian Space Princess), de Leela Varghese e Emma Hough Hobb Melhor Documentário Copacabana, 4 de Maio, de Allan Ribeiro Prêmio Especial do Júri Me Ame Com Ternura (Love Me Tender), de Anna Cazenave Cambe
- Crítica | Pacificador (2ª temporada)
Às vezes repetitiva, mas sempre divertida, mostrou que a força da série reside em seus personagens Foto: Reprodução Três anos (!!!) depois da primeira temporada, a trama do segundo ano gira em torno de algo que já me cansou bastante: multiverso, realidades paralelas e etc. Não somente no gênero dos super-heróis, mas na ficção científica também, seja em filmes ou séries. Aqui, o recurso é usado para a evolução do protagonista de John Cena, uma chance de redenção e de reparar os erros do passado, porque neste outro universo - aparentemente perfeito - seu irmão e seu pai estão vivos, ele é um herói amado por todos, inclusive por Emilia (Jennifer Holland). Nos episódios iniciais, a narrativa cai nos mesmos desafios do gênero já vistos em tantas outras produções, mas o texto esperto de James Gunn e o carisma do elenco, fazem com que o entretenimento prevaleça, até que uma bela reviravolta surge e o enredo ganha força. Um dos principais benefícios de uma série de tv é o tempo para desenvolver os personagens e este é o trunfo da temporada. Chris não está em um bom lugar mentalmente e acha que está sozinho no mundo. A “descoberta” dele é que por mais que seus amigos sejam desajustados – assim como ele –, eles o amam e ele precisa se sentir digno dessa amizade e John Cena mostra sua evolução como ator através disso. Emilia também tem problemas parecidos e busca sentir alguma coisa através da violência, sem querer admitir seus sentimentos por Chris por não acreditar que possa dar certo e uma certa mágoa que foi revelada depois. Holland continua bem no papel da estonteante agente. Enquanto Adebayo – feita pela espetacular Danielle Brooks, a melhor atriz do elenco – é a “cola” do grupo e tenta fazer com que eles enxerguem mais suas qualidades. Adrien (aka Vigilante), um dos meus personagens favoritos, também enfrenta dilemas com a solidão, contrastando com seu constante otimismo e Freddie Stroma é um poço de carisma nesta retratação. Economos (Steve Agee) ganha mais destaque, mas em comparação ao crescimento dos outros, ele permanece mais como alívio cômico mesmo. Quanto ao antagonista de Frank Grillo, Rick Flag Sr., ele parece sobrar por um bom tempo e parece nunca estar à altura do Pacificador. É como se fosse apenas uma pedra no sapato, mas sem muito incômodo. Foto: Reprodução A temporada atinge seu ápice no espetacular sexto episódio, quando revela a verdade sobre o mundo paralelo, que de perfeito não tem nada. Confesso que eu não tinha percebido o que estava diante dos nossos olhos, mas James Gunn foi muito sagaz em construir tão bem isso e provocar estas reflexões políticas e pessoais. Demorou um pouco para dizer a que veio, mas quando disse, não decepcionou. Bem como, o sétimo episódio, que trabalha as consequências dos fatos, onde a ação toma conta em um ritmo frenético que deixa o senso de urgência em alta e os riscos são grandes, o que estava fazendo falta nos episódios iniciais, devo dizer. O final da temporada, tão criticado nas redes, me agrada por mostrar a evolução dos arcos individuais dos personagens e a força do elo que os une, que genuinamente se importam uns com os outros, e automaticamente faz com que nós nos importemos com eles, o que é essencial em qualquer produção. No entanto, o gancho do episódio me fez ter ressalvas. Gunn – o agora chefão do DCU – tem um estilo muito característico e sabe dosar muito bem o seu tipo de humor com violência, que eu gosto bastante. Durante toda a temporada, há conexões pontuais com o recente filme do Superman, seja participações especiais ou referências a acontecimentos, e até então, não havia me incomodado porque estabelece que se passa no mesmo universo, mas as interferências são mínimas e, na minha visão, acho que quanto mais independência para uma série de tv, melhor é. A última cena, deixa o protagonista em maus bocados e o problema não é o gancho em si, mas como ele não vai ser utilizado para uma eventual 3ª temporada – que talvez nem exista –, e sim, resolvido em algum filme do Universo Cinematográfico da DC, provavelmente em Man of Tomorrow, sequência de Superman. Não me entendam mal, gosto do filme e estou ansioso, mas esse esquema de “venda casada” não me agrada. Prejudicou a Marvel e me deixou receoso com a DC, porque se perde a chance de explorar bem a gama de personagens que temos aqui e até novas histórias se elas não estiverem conectadas com o resto. Nos pontos altos da temporada, vimos aquelas pessoas ganharem mais camadas, rimos e nos emocionamos com elas, então elas não podem ser desperdiçadas e tratadas apenas como uma preparação de terreno, assim como a série em si. Nota: 3,5/5
- Novo filme de ficção da cineasta Everlane Moraes será gravado na Bahia
Grace Passô, Sérgio Laurentino, Noélia Montanhas e Severo D'Acelino estrelam 'O Segredo de Sikán' Foto: Reprodução Dirigido por Everlane Moraes, o longa O Segredo de Sikán terá cenas filmadas em Cachoeira e São Félix, na Bahia, e reúne nomes consagrados do cinema nacional, como Grace Passô, Sérgio Laurentino, Noélia Montanhas e Severo D’Acelino, além de talentos locais do Recôncavo Baiano. A produção, que começa a ser rodada em outubro, marca o primeiro longa de ficção da diretora cachoeirana e traz um elenco majoritariamente composto por atores negros, incluindo também Taise Paim, Sara Barbosa e Heraldo de Deus, em uma narrativa que reimagina o mito da princesa africana Sikán, subvertendo seu destino em uma trama de drama, suspense e mistério. Ambientado em um universo distópico, o filme acompanha a história de Sikán, que, para proteger um segredo, se lança ao rio Oddán, na Nigéria. Transformada em um peixe luminoso, sua chegada ao rio Paraguaçu, no Recôncavo Baiano, provoca conflitos entre Cachoeira, cidade matriarcal, e São Félix, cidade patriarcal. Grace Passô interpreta Sara, inspirada na artista cubana Belkis Ayón; Sérgio Laurentino vive Ajamu, guerreiro que busca controlar a energia de Sikán; e Severo D’Acelino é Nasakô, ancião cego que guarda segredos nas águas do Paraguaçu. Outros personagens incluem Matriarca Perpétua (Noélia Montanhas), Naira (Sara Barbosa), Eno (Heraldo de Deus), Tânia (Taise Paim), Zita (Manuela Neves) e Leda (Andreia Anjos). Foto: Reprodução “A intenção foi formar um elenco profissional que também represente o Recôncavo. Trabalhamos com atores locais e não-atores, trazendo vivência e autenticidade para a narrativa. Recebemos inscrições de pessoas de 8 a 80 anos, o que trouxe uma diversidade incrível e muito emocionante”, afirmou Everlane Moraes. Combinando realismo fantástico, cultura afro-brasileira e referências afro-religiosas, como a procissão da Boa Morte, o filme explora protagonismo feminino e resistência negra, conectando tradição e contemporaneidade. O Segredo de Sikán é uma coprodução da Carapiá Filmes e Pattaki Produções, com distribuição da Embaúba Filmes, mesma distribuidora de Marte Um, indicado para representar o Brasil no Oscar em 2023. O projeto recebeu recursos do Fundo Setorial do Audiovisual da ANCINE e do edital estadual Bahia Lei Paulo Gustavo. Foto: Reprodução Sobre a diretora: Everlane Moraes é uma cineasta brasileira, nascida em Cachoeira (BA) e crescida em Aracaju (SE). Formada pela Escuela Internacional de Cine y TV em Cuba (EICTV, Cuba), atua como diretora, roteirista, professora e consultora. É membra do Center Frame's Core Community (UK), e da APAN - Associação de Profissionais Audiovisuais Negros (BR); foi Fellow no Flaherty Film Seminar (EUA, 2021); integra a Rede de Talentos no Projeto Paradiso (BR), participou do programa Colaboratório Criativo - Netflix (Brasil, 2020) e do Encontro entre Diretores do Talents Guadalajara (2019). É produtora e criadora da Pàttàki Audiovisual e recentemente co-dirigiu a série “Histórias Impossíveis” na Rede Globo (2023).
- Crítica | Tron: Ares
Continuação não economiza nos apelos visuais e sonoros para compensar roteiro bobo Foto: Reprodução TRON: Ares acompanha Ares (Jared Leto), um programa de inteligência artificial do mundo digital, que é enviado ao mundo real numa perigosa missão, marcando o primeiro encontro da humanidade com seres digitais. A história aborda o que significa ser humano, enquanto Ares questiona a sua própria programação e tenta compreender o mundo real, numa jornada cheia de desafios e descobertas. TRON: Ares chega aos cinemas com a confiança e a experiência de quem sabe o que o público espera: brilho, neon, som alto e nostalgia digital. O filme diverte descompromissadamente, oferecendo uma experiência sensorial que privilegia o impacto visual e sonoro em detrimento da narrativa, nenhuma novidade. É um espetáculo montado para impactar num nível primário de sensações mais do que para ser pensado, e nisso ele se sai muito bem. A trilha sonora da banda Nine Inch Nails é, de longe, o que o longa tem de mais precioso. Trent Reznor e Atticus Ross criam composições vibrantes que mesclam melancolia e futurismo à base de muito sintetizador, dando identidade e ritmo ao universo de TRON. A música não apenas acompanha as cenas, ela as define, elevando o que o roteiro, por vezes, não sustenta. É um trabalho sofisticado que dá alma ao filme e reafirma a dupla como uma das mais inventivas do cinema hollywoodiano contemporâneo. Foto: Reprodução TRON: Ares sabe que sua história é uma bobagem (no melhor sentido da palavra) e não força a barra tentando ser mais complexo do que é, mas é um pouco decepcionante ver que, no momento atual da pauta inteligência artificial, o enredo não tenta enriquecer o debate ou dar mais densidade. O texto, que ainda gira em torno da velha briga entre programas e criadores, e só arranha os outros segmentos. Falta profundidade, falta metáfora, falta aquele subtexto que fazia o original parecer maior do que era. No fim, tudo soa simplificado, como se o filme tivesse medo de perder o público caso ousasse pensar demais. A atuação de Jared Leto é especialmente ruim. Não é porque seu papel é uma forma de inteligência virtual que o personagem tenha que ser tão apático. Sua performance é travada, sem alma, e por vezes até desconfortável de assistir. Num universo digital que clama por emoção e empatia, ele entrega um protagonista frio e sem qualquer carisma. No saldo final, TRON: Ares ganha pelos apelos, mas não cativa na essência. Tem mais sentimento do que Tron - O Legado (2010), é verdade, mas não traz a revolução técnica que separou o segundo do primeiro. É como uma atualização de software que mudou alguns detalhes de interface, mas as funções seguem sem nenhuma melhoria. Nota: 3/5
- Crítica | Herança de Narcisa (Festival do Rio 2025)
Paolla Oliveira é espinha dorsal de filme que transita entre drama familiar e thriller psicológico Foto: Reprodução Vencedor do Troféu Redentor de Melhor Filme pelo Júri Popular na Mostra Novos Rumos do 27º Festival do Rio, Herança de Narcisa, dirigido por Clarissa Appelt e Daniel Dias, mergulha na complexa relação entre mãe e filha e nos segredos que atravessam gerações. Protagonizado por Paolla Oliveira, o longa acompanha Ana, que retorna à casa de sua falecida mãe, a ex-vedete Narcisa, com a intenção de vender o casarão herdado. No entanto, a herança se revela muito mais sombria do que ela imaginava, trazendo à tona traumas antigos e acontecimentos que transformam o espaço em um território marcado pelo luto, pelo passado e por memórias que se recusam a ser esquecidas. O filme, que transita entre o drama familiar e o thriller psicológico, explora bem a questão dos traumas, ressentimentos e segredos que atravessam gerações, e quando se aprofunda nessas nuances dramáticas que realmente se destaca. Paolla Oliveira é a espinha dorsal do filme, conduzindo a narrativa de maneira impecável. Sua atuação quase dupla, equilibrando a filha em luto e a memória de uma mãe vaidosa e negligente com os próprios filhos, dá profundidade à história e segura o espectador em cada cena. Embora o filme construa uma boa atmosfera de tensão, os momentos de terror não são seu ponto forte; o que funciona mesmo são os conflitos emocionais, as relações familiares complexas e o peso das memórias que permeiam cada espaço da casa. A direção de Clarissa Appelt e Daniel Dias destaca-se pela maneira sensível como utiliza o espaço da casa herdada como elemento narrativo. O casarão funciona quase como um personagem, com seus cômodos amplos, corredores escuros e móveis antigos, carregando memórias e segredos da família. Cada movimento de câmera e detalhe captado contribui para criar diferentes sensações no espectador, alternando entre familiaridade e inquietação, reforçando o peso do luto e a complexidade da relação entre mãe e filha. Foto: Reprodução Além disso, a arquitetura e os objetos da casa são usados para explorar as nuances emocionais da narrativa. Em alguns momentos, o espaço transmite acolhimento e nostalgia, lembrando a infância de Ana; em outros, torna-se opressor, refletindo traumas e ressentimentos. A fotografia complementa essa exploração, brincando com luz e sombra para intensificar a atmosfera dramática e psicológica, mostrando que o filme encontra sua força não apenas no terror, mas na construção de camadas simbólicas e emocionais dentro desse espaço. O maior problema de Herança de Narcisa, na minha opinião, está nos momentos em que ele tenta transitar para o terror propriamente dito. Apesar da boa atmosfera de tensão, essas cenas acabam enfraquecendo a narrativa, pois fica difícil decidir se Herança de Narcisa quer ser verdadeiramente assustador ou se é um drama familiar. A mistura às vezes funciona, mas em outros momentos gera uma incongruência narrativa: quando o longa mergulha de vez no fantástico, o efeito que deveria ser macabro acaba soando bobo, tirando a força das cenas e comprometendo a coerência do tom que o filme estabelece nos trechos mais dramáticos e psicológicos. Apesar de suas falhas ao transitar para o terror, Herança de Narcisa se firma como um retrato sensível e profundo das relações familiares e do luto. A força do filme está na exploração psicológica dos personagens, na atuação de Paolla Oliveira e na maneira como a casa se torna um reflexo do passado e das memórias que não se apagam. E onde no fim, o longa se destaca mais como um drama familiar carregado de simbolismos do que como um thriller assustador. Nota: 3/5
- Crítica | Alien: Earth (1ª temporada)
Noah Hawley revisita o universo de Alien à sua imagem e semelhança numa das séries mais instigantes do ano Foto: Divulgação/ FX - Hulu - Disney+ “No espaço ninguém pode te ouvir gritar”, dizia o slogan de Alien – O Oitavo Passageiro (1979) ... mas na Terra, mesmo que te ouçam, vão se importar? Por baixo do horror puro que o xenomorfo trouxe em suas versões no cinema, a franquia Alien nunca se furtou a trazer comentários sobre classe, capitalismo, identidade e, sobretudo, humanidade. É nesse âmago que Noah Hawley, conhecido por seus trabalhos com Fargo e Legion, mira com Alien: Earth, primeira incursão da franquia na TV. Ambientada dois anos antes dos eventos do primeiro filme, a série nos mostra uma Terra que é controlada por cinco corporações, num cenário distópico e (assustadoramente) profético. O ponto de partida aqui é a queda da nave Maginot, pertencente à corporação Weyland-Yutani – velha conhecida de quem já assistiu aos filmes – numa cidade controlada pela Prodigy, corporação pertencente ao iconoclasta trilionário Boy Kavalier (Samuel Blenkin). Kavalier, que está criando os primeiros “híbridos” – seres sintéticos com consciência humana transferida dos corpos já falecidos –. envia um grupo destes híbridos, chamados de “Garotos Perdidos” (em alusão à Peter Pan) sob a liderança do androide Kirsch (Timothy Oliphant) para investigar a queda da Maginot e as criaturas que ela trazia consigo, inclusive o nosso querido xenomorfo. Não é nenhum spoiler dizer o quanto as coisas darão errado a partir daí, e se há um grande mérito em Alien: Earth é em como a série não se furta ao gore e ao body horror quando necessário, resgatando as alusões fálicas do filme original na concepção da criatura, bem como as ideias sobre maternidade de Aliens (1986) sob um verniz bastante violento e horripilante. O(s) xenomorfo(s) que vemos aqui estão entre as criaturas mais sanguinolentas que a franquia já apresentou, e surpreendentemente nem são as mais interessantes, já que Hawley amplia a fauna alienígena com novas espécies tão aterrorizantes quanto, em especial o Trypanohyncha Ocellus, ou “Olho”, que pode muito bem ser o antagonista mais fascinante da temporada. Mas mesmo que honre o espírito dos filmes e suas ideias (ao ponto de “refazer” o primeiro Alien no quinto episódio, que explica o que houve com a Maginot e é talvez o melhor da temporada), Hawley faz aqui o que já havia demonstrado tão bem em suas séries anteriores: pegar um material já existente e famoso e recriá-lo à sua própria maneira e estilo, abrindo novas possibilidades e caminhos. Se Fargo, a série, ampliava e muito o escopo do filme dos irmãos Coen – inclusive ao beber de fontes advindas de outros filmes dos diretores – aqui o showrunner tem o desafio ambicioso de fazer o mesmo com uma franquia já tão estabelecida, e, ainda que com alguns percalços no caminho, pode se dizer que o resultado final é muito bem-sucedido. Foto: Divulgação/ FX - Hulu - Disney+ Diria, inclusive, que Alien: Earth está muito mais próxima visual e tematicamente de Legion (até hoje a melhor série de heróis já feita, na minha opinião) do que de Fargo. Hawley e seu time de diretores brincam constantemente com o que está em tela, experimentando transições incomuns, fade-outs, imagens e planos sobrepostos, especialmente em sequências de diálogos. A trilha é outro fator importante, com Jeff Russo, parceiro habitual de Hawley, trazendo acordes dissonantes e quase alienígenas para a série, que colaboram ainda mais para a construção de uma atmosfera inquietante e opressiva, onde é difícil saber se o pior mal são as criaturas alienígenas ou o capitalismo personificado em figuras como Boy Kavalier. Além disso, a escolha de encerrar os episódios com canções icônicas de bandas de rock e metal como Black Sabbath, Tool, Metallica, Smashing Pumpkins, Queens of the Stone Age e Pearl Jam reforça o habitual ótimo gosto musical da dupla, já evidenciado em suas séries anteriores. Em meio a isso, a série aplica sua estranheza também às atuações do seu elenco, que se em alguma medida podem ser lidas como caricatas, funcionam habilmente neste universo. Os destaques vão para Timothy Oliphant, que sai da sua persona habitual como “homem da lei” de séries como Justified e Deadwood para construir o intrigante Kirsch, e Babou Ceesay, que faz de seu Morrow um antagonista a ser tão temido quanto compreendido. Por outro lado, o núcleo dos “Garotos Perdidos” tem o trabalho mais desafiador, já que são adultos interpretando crianças em corpos sintéticos, que desafiam nossa própria moralidade e lógica sobre o que é ser humano. Assim, suas atuações transitam entre o bobo e caricato (como no caso de Adarsh Gourav e Jonathan Ajayi) e algo mais nuançado e complexo (no caso de Sydney Chandler e Lily Newmark), que pode afastar ou aproximar o público, mas não há dúvidas de que para se acessar o coração da série é preciso abraçar o que é proposto através desses personagens. Mesmo que nem sempre desenvolva por completo todas as suas ideias e sofra de alguns problemas ocasionais de montagem e ritmo (em especial no penúltimo episódio), Alien: Earth cumpre o que promete enquanto um produto idealizado por uma mente tão criativa quanto transgressora como a de Noah Hawley. Diferente de Alien: Romulus (2024), que, mesmo com seus méritos, se resvalava na nostalgia e conforto para atrair o público, a série ousa experimentar e adicionar novas possibilidades à franquia, sem medo de ousar e desconstruir quando necessário, mas sem deixar de ser inegavelmente Alien. Nota: 4.5/5
- Crítica | The Mastermind (Festival do Rio 2025)
Kelly Reichardt subverte lógica do filme de roubo em detrimento de uma comédia, fazendo do fracasso um caminho crescente de erros que culminam em absurdo Foto: Divulgação Concorrente à Palma de Ouro no Festival de Cannes 2025, The Mastermind marca o retorno da diretora e roteirista norte-americana Kelly Reichardt (First Cow) após Showing Up, de 2022. O filme, agora parte da seleção internacional do 27º Festival do Rio, narra a história de JB Mooney (Josh O’Connor), um carpinteiro e chefe de família que, em busca de fazer dinheiro, planeja um roubo audacioso a um museu em Massachusetts, nos anos 70. The Mastermind é um longa que, logo de início, já remete bastante ao estilo de sua diretora: o cuidado e a paciência em construir momentos intimistas, que permitem ao espectador se aproximar de seus personagens, com sequências compostas por planos longos e atentos de forma paciente a detalhes corriqueiros dentro do contexto da obra. Tratando-se, inicialmente, de um filme de roubo, talvez não seja muito atrevimento notar como a lógica de Reichardt, desde o começo, remete ao cinema de Robert Bresson. Nos primeiros momentos de The Mastermind, o protagonista vivido por Josh O’Connor executa os primeiros passos do roubo que planeja. O minimalismo e a cautela da cineasta na direção e na montagem - que intercala, por exemplo, planos fechados nas ações dos personagens com outros gerais de ambientação - evocam justamente a sensação do típico filme centrado na minuciosidade de um plano perfeito que, dificilmente, sairá de controle. De Um Condenado à Morte Escapou (1956) a O Batedor de Carteiras (1959), há algo de Bressoniano nas intenções da cineasta norte-americana. Até a caracterização do JB Mooney de O’Connor é bastante próxima à de Michel, vivido por Martin LaSalle no clássico de 1959 do cineasta francês. Poucas palavras, ombros arriados e expressão fechada aproximam os dois personagens que, em ambas as obras, mesmo que por meios distintos, sentem a necessidade de validação dentro de seus objetivos individuais. Enquanto no filme de Bresson Michel utilizava os roubos para provar seu ponto de ser um homem superior, Mooney parece sentir mais a necessidade extrema de admiração e validação de seus familiares, incluindo o pai (Sterling Thompson) e a esposa (Alana Haim). Foto: Divulgação Portanto, é justamente na ideia de subverter essa lógica que o filme de Kelly Reichardt encontra sua força. Se era um filme de roubo planejado por uma mente brilhante, não demora até que as coisas saiam de controle e degringolam até que The Mastermind se torne um exemplar de comédia de erros. O que antes parecia bressoniano e meticuloso, se converte no mais desengonçado e cômico. O fracasso completo dos planos leva a um escalonamento reverso dos acontecimentos, culminando em uma reviravolta absurda com direito a final repentino e sem muitas explicações. É uma decisão diferente, que, mais uma vez, representa a lógica de subversão na nova realização de Reichardt. Pode desagradar uma parcela do público, mas o timing cômico da cineasta e a performance de Josh O’Connor elevam o nível de The Mastermind na maior parte da projeção. E, aqui, a trilha sonora de Rob Mazurek também merece um destaque especial. Totalmente em ritmo de jazz, ela conduz com elegância tanto o lado meticuloso quanto o cômico, por meio de acordes e batidas requintadas do gênero. O tempo passa com leveza e, no fim das contas, o desfecho carrega uma certa beleza, equilibrando humor e melancolia. No fundo, JB Mooney não queria se provar superior, só queria ser admirado. E o que o filme de Kelly Reichardt consagra é uma comédia sobre um indivíduo comum que viu todos os seus planos (ou a ausência deles) irem por água abaixo. Sem a necessidade de delongas ou finais “redondos”. Nota: 4/5
- Crítica | Pequenas Criaturas (Festival do Rio 2025)
Quando o futuro surge na forma de um presente melancólico Foto: Reprodução Dirigido por Anne Pinheiro Guimarães — que faz sua estreia em uma direção solo após a parceria com Carolina Jabor em Transe (2022) —, o longa Pequenas Criaturas se sagrou como o grande vencedor da categoria de ficção na mostra competitiva do Festival do Rio 2025. O filme se passa em 1986, em Brasília, cerca de dois anos após o fim da ditadura militar. Captando o contexto de um país recém redemocratizado, a trama acompanha a história de Helena (Carolina Dieckmann), uma mãe cuidando dos seus dois filhos na ausência do pai — cujo destino em uma viagem de negócios, logo na abertura do longa, não é explicitado com exatidão em nenhum momento adiante. A rotina dessa família em Brasília revela o que mais chama a atenção no filme: a forma como a diretora — que também assina o roteiro da produção — traz, a todo instante, um sentimento latente de inadequação dos personagens que apresenta para com o contexto de Brasília dos anos 80. Dos protagonistas aos coadjuvantes, todos eles, em algum momento, se sentem deslocados daquela realidade, tomados por insatisfação e infelicidade. A integração da cidade à narrativa do filme, a partir disso, é muito bem pensada. A arquitetura de Brasília e sua relação com o futuro é um aspecto importante da narrativa. Os personagens, especialmente os jovens, debatem sobre o porvir, em especial sobre o medo e a ansiedade que sentem em relação a ele. Assim, a capital brasileira, com suas estruturas futuristas — como os próprios personagens descrevem —, torna-se o simbolismo de um amanhã que já chegou naquela realidade. Um futuro que, para esses personagens, é justamente o causador de melancolia. O Brasil pós-ditadura é um país ressentido, com marcas e cicatrizes ainda abertas. A direção de Anne Pinheiro Guimarães, diante desse contexto, é interessante pela forma como escolhe transpor para a tela a sensação de deslocamento de seus personagens. A ideia que guia a cineasta é a de que essas pessoas são pequenas criaturas vivendo numa imensidão vasta que é Brasília. A decupagem de Anne não só evidencia essa temática com planos detalhe destacando pequenos insetos grudados, por exemplo, no para-brisa do carro da mãe, como também traz uma abordagem poética por meio da fotografia e dos enquadramentos. Foto: Reprodução São planos muito abertos que captam com muita sensibilidade a vastidão dos ambientes da capital brasileira. Esses planos gerais, aliados à fotografia de tons solares, fazem com que os personagens se tornem pequenos diante da imensidão de um céu azul ou das estruturas arquitetônicas futuristas daquela cidade. Essa abordagem da solidão e do isolamento se estende também às locações internas. Há momentos em que a Helena de Carolina Dieckmann está trancada em quartos e cômodos cercada por sombras. Já nas cenas noturnas, as silhuetas dos personagens se destacam em meio às luzes da cidade, com o contraste luminoso preenchendo a tela com muita poesia e beleza. Assim, se acompanhamos momentos em que a mãe escolhe pelo isolamento em cômodos ou que o seu filho mais novo brinca isolado e o mais velho sempre expressa seu desprezo por Brasília, é bonito como todos eles, em algum momento, encontram formas de apaziguar esses sentimentos negativos. Seja por meio da relação com um vizinho; pelo cuidado com um cachorro ferido; pela amizade marcada por desabafos e conversas filosóficas com outro rapaz da região que também sente o vazio de uma ausência; ou até mesmo pela inocência de uma criança que acaba se envolvendo com um homem mais velho de comportamentos suspeitos, mas que, no fundo, não passa de um indivíduo tão solitário quanto todos os outros. Ao longo dessa jornada, Anne também parece ter um apreço muito grande por diretores da Nova Hollywood. Foram muitos os filmes desse período histórico do cinema que abordaram a inadequação daquela geração com relação ao contexto dos Estados Unidos do final dos anos 60 até o início dos anos 80. Os "easter eggs" de Star Wars estão lá, mas há algo de George Lucas e seu American Graffiti (1973) em Pequenas Criaturas — principalmente nas situações corriqueiras, conversas e desabafos dos jovens. Francis Ford Coppola e seu Vidas Sem Rumo (1983) se refletem em uma "gangue" específica que vive em Brasília. Além deles, Spielberg também marca presença na relação dos jovens e suas bicicletas vagando pela vizinhança — além de uma revelação muito bonita envolvendo o irmão mais novo e a forma como ele encontra de suprir a ausência do pai como uma clara referência à trama do menino Elliot em E.T., o Extraterrestre (1982). E por falar em reviravolta, essa bonita compilação de referências culmina em uma igualmente bela conclusão para o mais novo vencedor do Festival do Rio. Em meio a tanto vazio, há uma certa camada de aceitação desse horizonte pelos personagens, já que, protagonistas e coadjuvantes, decidem enfrentá-lo juntos. Assim, apesar da melancolia, o filme, no final, mostra que há esperança em se olhar para cima — mesmo com a possibilidade do que vemos não passar de uma mera ilusão, como a “esperança” pela chegada de alienígenas. Esse ecossistema de personagens solitários da diretora brasileira encontra, na união uns com os outros, enfim, uma forma de preencher esse vazio. Uma rede de apoio em um filme de bom gosto e sensibilidade pungentes. Nota: 5/5
- Crítica | Fundação (3ª temporada)
Novo ano não corrige todos os problemas da série, mas reforça sua posição como uma das mais instigantes produções de ficção científica da atualidade – e a mais grandiosa Foto: Reprodução/ AppleTV Mesmo em sua trôpega primeira temporada, Fundação nunca se acanhou de usar um senso de escala grandioso e épico para dar vida à atemporal saga de Isaac Asimov, mesmo adaptando-a em seus próprios termos – nem sempre muito bem-sucedidos. Corajosamente, a série se assumiu como uma espécie de antologia, o que fica evidente mais uma vez neste novo ano, que se passa 150 anos após a temporada passada. O que talvez diferencia esta nova temporada em relação às anteriores é a presença de uma figura antagonista mais definida, personificada no telepata Mulo (Pilou Asbæk), o qual se revela uma ameaça tão aterrorizante à galáxia – como evidenciado na primeira cena da temporada – que leva ao inimaginável: a possibilidade de uma aliança entre a Fundação e o Império. Claro que isso não ocorre de forma linear, já que diferentes grupos lutam uns com e contra os outros pelos seus próprios interesses, seja Gaal Dornick (Lou Lloubell) agindo em prol da Segunda Fundação, ou os três imperadores-clones Amanhecer, Dia e Crepúsculo (Cassian Bilton, Lee Pace e Terrence Mann, respectivamente), mais desunidos do que nunca enquanto sua conselheira-robô Demerzel (Laura Birn) luta de todos os modos para salvar sua dinastia. Há muitos núcleos e novos personagens – como o casal Toran (Cody Fern) e Bayta Mallow (Synnøve Karlsen); Quent (Cherry Jones) a embaixadora da Fundação nos domínios do Império e que cultiva uma curiosa relação com o Irmão Crepúsculo; Hal Pritcher (Brandon P. Bell), capitão de informações da Primeira Fundação que está ligado a Gaal; Magnificus Gigantus (Tómas Lemarquis), baladista do Mulo; dentre outros. Como antes, esta temporada de Fundação não se acanha de “recomeçar” a história com estas novas linhas narrativas, ainda que leve muito em consideração o que veio antes através de flashbacks ou dos personagens que se mantêm fixos a cada temporada. Isso exige um esforço por parte do espectador para se situar em relação ao que está acontecendo, e a série até cai num certo didatismo (em especial com as narrações em off de Gaal) para nos aclimatar a este novo período da história. Uma vez que as tramas engrenam e as conexões entre os personagens são estabelecidas, porém, é impossível não ser fisgado pelo encadeamento narrativo e a construção de mundo. Evidentemente, algumas tramas são mais interessantes que as outras, mas essa temporada seja talvez a mais equilibrada em relação aos seus núcleos, especialmente porque não tarda para que eles se unam ou convirjam conforme a história progride. Reflexo disso está no papel de Gaal nessa temporada: se antes a personagem estava costumeiramente mais isolada dos outros núcleos, mesmo sendo a coprotagonista da série junto com Hari (Jared Harris, menos presente aqui, mas sempre brilhante), aqui ela assume um protagonismo maior conforme sua personagem assume uma posição central na luta contra o Mulo, mesmo que o texto nem sempre pontue bem as maneiras pelas quais ela mudou e amadureceu nos 150 anos que separam essa temporada da anterior. Foto: Reprodução/ AppleTV Percebe-se também uma fragilidade na própria construção do Mulo, mesmo que ela tivesse sido pincelada na temporada passada, já que ora ele é apresentado como um vilão invencível, ora é “nerfado” para justificar as maneiras como outros personagens escapam dele ou o enfrentam. Não ajuda muito a maneira como Asbæk parece em alguns momentos repetir seu Euron Greyjoy de Game of Thrones, com uma atuação que beira o caricato na tentativa de impor um senso de ameaça do personagem aos devidos núcleos, ainda que ele convença muito bem em sequências onde sua postura contida é muito mais assustadora (como a envolvendo uma criança no segundo episódio). Mais uma vez, onde a série brilha é no núcleo dos imperadores e de Demerzel. Laura Birn oferece mais e mais nuances à sua robô milenar, incorporando os dilemas e conflitos centrais da série (humanidade, livre-arbítrio, ética e moral) à medida que sua Demerzel é posta à prova pelas escolhas dos personagens que a cercam e por tudo que ela viveu e fez. Já Pace, Bilton e Mann têm mais uma vez a chance de oferecer novas versões aos seus Cleons, e acertam em cheio: Pace faz um Irmão Dia que à princípio parece um Jesus hipster desinteressado no trono que ocupa, mas evolui para demonstrar perspicácia e clareza enquanto desvenda alguns dos principais mistérios deste universo; Bilton oferece uma encarnação amadurecida do Irmão Amanhecer que, na tentativa de ser melhor e mais justo que os irmãos, acaba encontrando sua própria queda; e Mann tem o trabalho mais difícil, já que seu Irmão Crepúsculo evolui (ou regride) de um homem sábio para um tirano em franca deterioração, que traz sobre sua dinastia a tragédia que se previa desde o começo da série. No campo estético e técnico, a série segue sendo um primor de encher os olhos, com um dos melhores usos de CGI na televisão atual – mesmo que em um ou outro momento se perceba um nível um pouco mais baixo, como se o orçamento estivesse mais reduzido. Mas não é só através dos efeitos visuais que a série nos impacta com a sua grandiosidade, mas também com os trabalhos de direção de arte e figurinos, que conseguem ilustrar a variedade de povos, espaços e mundos através da galáxia, tanto em planos abertos quanto nos espaços mais fechados (tudo que envolve o palácio dos Cleon em Trantor sempre me deixa deslumbrado). É um feito hercúleo que, se não necessariamente nos distrai dos problemas do texto, evoca sensações e uma atmosfera intencionalmente pensadas para nos transportar para este futuro glorioso e assombroso. A terceira temporada de Fundação ainda incorre em alguns tropeços que já tinham sido vistos nas temporadas anteriores e que dificilmente sumirão conforme a série avançar em direção ao futuro – ainda que seu chocante final nos faça pensar que não veremos um salto temporal tão grande para a próxima temporada. Ainda assim, é um tipo de espetáculo cada vez mais raro na TV, mesmo em meio às avalanches de franquias que abundam nos streamings e se anunciam como “cinema” ao invés de “televisão”. Nem sempre esse senso de espetáculo está devidamente alinhado com as complexidades da história contada, mas não resta dúvidas de que esta temporada reforça mais uma vez a capacidade da série de ser uma das mais ousadas e instigantes obras de ficção científica em exibição na atualidade – e sem sombra de dúvidas a mais grandiosa. Nota: 3,5/5
- Crítica | Cyclone (Festival do Rio 2025)
Flávia Castro traça retrato mais atual do que nunca sobre sexismo e burocracia quando o assunto é o meio artístico Foto: Divulgação Dentre os longas selecionados para a Première Brasil de ficção no Festival do Rio de 2025, Cyclone, da cineasta Flávia Castro - que também aparece na seleção deste ano com As Vitrines, parte da mostra brasileira “Hors Concours” - é um para se observar com atenção. Nele, uma linguagem elegante e moderna conduz uma história sobre as dificuldades de ser mulher e artista numa sociedade patriarcal e burocrática. Um longa-metragem que se passa em 1919, mas não poderia ser mais atual. Inspirado na história real da escritora Maria de Lourdes Castro Pontes (também conhecida como ‘Miss Cyclone’), Cyclone acompanha uma operária aspirante a dramaturga chamada Dayse (Luiza Mariani). Ela divide seu tempo entre o trabalho numa gráfica - cujo patrão é rígido e debocha de suas aspirações - e a colaboração no Theatro Municipal de São Paulo, onde mantém um caso escondido com o autor Heitor Gamba (Eduardo Moscovis). Se o patrão da gráfica é aquele que pisa em Dayse, o dramaturgo também não fica distante, mesmo que de uma maneira distinta. O fetiche com suas mãos sujas pelo trabalho como operária é apenas um detalhe de um homem que se nega a dar os devidos créditos à amante quando ela assume o pseudônimo de Cyclone, colaboradora na escrita das peças de Heitor. É como se, para o diretor do teatro, Cyclone fosse apenas um objeto de suas fantasias, destinada a sempre estar em segundo plano, observando nos bastidores o diretor encenando suas peças. Esse, entretanto, é apenas um dos detalhes da luta de Dayse/Cyclone nessa jornada em busca de quebrar barreiras e se tornar reconhecida por sua dedicação ao teatro. A protagonista de Luiza Mariani conquista uma cobiçada bolsa para estudar teatro em Paris. Porém, com o surgimento de uma gravidez indesejada, seus planos para o futuro passam a estar mais do que nunca ameaçados. São inúmeras as burocracias que a personagem enfrenta, sendo a principal delas a impossibilidade da viagem para a França em meio à gravidez. A solução que encontra, aconselhada por uma amiga próxima (Karine Teles) assim, é a realização em segredo de um aborto. Quanto a isso, o filme de Castro não parece interessado em um debate moral sobre o tema ou em uma idealização de Cyclone como uma artista incontestável e perfeita. Foto: Divulgação Além de, em um diálogo bastante específico e singelo, ela duvidar de si e de seu talento de escrita, os esforços estão todos focados em demonstrar como suas atitudes são incontestáveis, dada a realidade em que a aspirante a artista se encontra aprisionada. Essa é, de fato, a sua única saída e escolha frente às injustiças do sexismo de seu tempo. O trabalho de Luiza Mariani, dito isso, é cheio de sensibilidade. São interessantes os planos em que a atriz é enquadrada por Flávia Castro sozinha em cena, de frente para a câmera. Nesses instantes, estamos nós, espectadores, testemunhando com proximidade o ímpeto de uma mulher enfrentando e desafiando sozinha - e com firmeza - seus oponentes: homens e suas incansáveis burocracias. No restante da condução, a diretora brasileira continua com essa assertividade quando o assunto é proximidade e provocação. Apesar de Cyclone, por se passar no Brasil do início do século XX, se encaixar em um exemplar de filme de época, a diretora abre mão de um classicismo de decupagem e encenação em detrimento da câmera na mão, com planos em travellings fechados na ação dos atores em cena. A abertura da diretora para experimentações é outro destaque de seu retrato cuidadoso e imaginativo. No auge da perturbação opressora que vive Cyclone, a trilha sonora é de ruídos intensos e os planos se sobrepõem ou se alternam em cortes desconcertantes pela montagem. Nessa ideia de um filme de época bastante atual, essa linguagem provocadora e moderna da cineasta é das mais adequadas. Talvez sejam inúmeros os casos de artistas e mulheres que cabem dentro dos planos de Flávia Castro e na bela performance de Luiza Mariani: sonhadores como Dayse, na batalha diária para se tornarem, justamente, Cyclone. No fundo, enfrentar os ciclones e tempestades diárias do sistema sem baixar a guarda é a verdadeira força de um artista. Um close-up de Luiza Mariani no final é uma coroação e tanto da jornada. Após tantos outros planos semelhantes em que esteve sozinha frente a seus oponentes, o olhar penetrante de quem finalmente venceu é a última imagem que o espectador testemunha ao término do longa. Nota: 5/5
- Festival de Artes de São Cristóvão leva cinema ao Cine Trianon com mostras sergipanas e nacionais
Sessões especiais exibem curtas e longas sergipanos, além do destaque internacional O Último Azul Imagem: Divulgação Na última quinta-feira (2), a Prefeitura de São Cristóvão e o Governo de Sergipe lançaram oficialmente a programação da 40ª edição do Festival de Artes de São Cristóvão (Fasc). Com o tema “Na Cultura a Gente se Encontra”, o evento reafirma seu papel como espaço de valorização da arte e fortalecimento da identidade cultural da Cidade Mãe de Sergipe. Ao todo, a edição contará com 31 artistas nacionais e 82 sergipanos, sendo 26 deles sancristovenses, consolidando o Fasc como ambiente de encontro, diversidade e impacto socioeconômico. A programação musical trará grandes nomes da cena nacional, como João Gomes, Pabllo Vittar e Gaby Amarantos, além de dezenas de atrações locais. Mas não é apenas a música que marca presença no evento. O cinema também ganha espaço na grade do festival. O Cine Trianon, no histórico Cine Theatro Elic, terá exibições de curtas e longas-metragens sergipanos e nacionais. Entre os destaques está o premiado “O Último Azul”, longa vencedor do Urso de Prata na última edição do Festival de Berlim. Outro ponto de encontro importante será o Salão de Literatura Manoel Ferreira, sediado na Escola Municipal Gina Franco, que reunirá nomes de peso em debates sobre antirracismo, ancestralidade, democracia e liberdade. Estão confirmados autores e personalidades como Elisama Santos, Rafael Montes (autor da novela Beleza Fatal), Xico Sá e a Ministra do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia. Confira a programação completa do Cine Trianon aqui: Quinta-feira (20/11) Sessão São Cristóvão: Sétimo Dia O Armário de Gisélia Morro do Pneu Queimado O Cinema Salva BebereteSobre Plantas, Mãos e Fé Sexta-feira (21/11) Sessão Sergipe: Mexeu Comigo Entretempos, Entremeios Sessão Nacional: Longa convidado: O Último Azul Sábado (22/11) Sessão Sergipe: Sem Corda, Sem Abadá, Sem Vergonha Sessão São Cristóvão: O Apito do Trem – Entre a Ferrovia e a Maré Donas da Cultura Popular – Dona Madá Eu Toco o Fasc e Sou Tocado por Ele Domingo (23/11) Sessão Sergipe: Oferta Cancioneiras – Embarcações Poéticas Aceita-me, Oceano Donas da Terra Sessão São Cristóvão: Lembrancinha Desincorporação Raízes da Ilha Acesse a programação completa do Fasc 2025 aqui.
- Crítica | One to One: John and Yoko (Festival do Rio 2025)
John Lennon em meio às transformações de uma Nova York tomada pela contracultura Foto: Divulgação Se tem algo que os fãs dos Beatles não podem reclamar é da falta de conteúdos inéditos sobre o histórico Fab Four de Liverpool. Nos últimos anos, além de novas edições de luxo dos álbuns do grupo de rock e do single inédito Now and Then – lançado a partir da recuperação de uma antiga gravação caseira de John Lennon –, são incontáveis os materiais audiovisuais trazendo registros sobre o período em que John, Paul, George e Ringo estiveram juntos ou de suas carreiras solo. Após lançamentos como o documentário Get Back, de Peter Jackson, e Beatles ‘64, produzido por Martin Scorsese, chega ao Festival do Rio de 2025 o filme One to One: John and Yoko. O foco da obra é o período da vida de John Lennon e Yoko Ono logo após o término dos Beatles, quando, em 1971, o casal decide se mudar de Londres para Nova York. A Nova York da época retratada em One to One vive um período de transformação e ebulição social intensa. O documentário faz um retrato primoroso do contexto dos EUA do início dos anos 70, sobretudo por meio da mídia televisiva como forte veículo de propagação das transformações político-sociais da época. São recuperadas imagens de talk shows, programas televisivos e até comerciais que abordam temas como a Guerra do Vietnã e o governo Nixon, bem como a relação destes com os movimentos jovens da contracultura. Assim, é diante desse contexto que as figuras de Lennon e Ono - sobretudo do ex-Beatle e seu ativismo icônico - surgem como voz influente e poderosa (em todos os sentidos) no clamor por mudanças. As ações do casal são retratadas por meio de filmes caseiros e até gravações de telefonemas pessoais recuperados. Foto: Divulgação Se o documentário abre espaço para testemunhos pessoais de Lennon sobre sua curta relação com a mãe, é interessante quando a obra também se dedica a compreendermos, em simultâneo, o lado de Yoko Ono enquanto esposa de Lennon. Em especial suas lutas internas como uma mãe afastada da filha, fruto de um relacionamento anterior, e como mulher lutando contra a imagem de vilã responsável pelo término dos Beatles. Todo esse recorte íntimo do casal, entretanto, funciona mais como um complemento. O melhor ainda é, acima de tudo, enxergarmos de forma enfática a força que o nome de Lennon carregava consigo e sua capacidade de mobilizar massas - em especial os jovens - na luta pelo fim da Guerra do Vietnã e em oposição ao governo Nixon. São dados destaques a acontecimentos como a canção Attica, sobre o famoso motim na prisão de Attica State em 1971, e à presença de Lennon em um evento pela liberdade do ativista John Sinclair. Toda essa mobilização de Lennon e Ono culmina, em agosto de 1972, na realização do lendário concerto beneficente One to One, no Madison Square Garden, que visava arrecadar dinheiro para uma instituição de crianças com deficiência. Única apresentação completa realizada por Lennon após o fim dos Beatles, o show é o ponto alto do documentário. A epítome do artista, ativista e personalidade midiática assassinado em dezembro de 1980 na mesma Nova York e país do qual quase foi deportado ao longo dos anos em que nele viveu. A montagem, aqui, intercala os registros da apresentação com o restante das imagens de arquivo. Quando John aparece nos bastidores, é arrepiante. Quando canta Come Together (com direito a trecho alterado para ´Come Together, right now… stop the war!´), idem. E, quando surgem os primeiros acordes de Imagine, logo esquecemos o possível gosto amargo de ações famigeradas com a canção - como aquelas de um mundo pandêmico que a transformaram em clichê para muitos. Nessas horas, é como se o espectador tivesse a chance de olhar nos olhos de Lennon enquanto o cantor entoa seus vocais rasgados diante de um Madison Square Garden lotado. Polêmicas à parte, uma certeza fica ao término de One to One: sem dúvidas, John Lennon foi o mais “rockstar” dos quatro Beatles. Nota: 4/5












