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  • Crítica | How to Shoot a Ghost (Mostra de SP 2025)

    Um curta que busca ser poético sobre mortalidade e memória, mas cujo saldo final é (lamentavelmente) desconjuntado Foto: Reprodução O cinema de Charlie Kaufman, seja enquanto roteirista ou diretor, sempre se interessou por questões existenciais, movido por uma dinâmica metalinguística e inquieta que conduzia seus personagens (alguns dos quais são extensões dele mesmo). Porém, desde Estou Pensando em Acabar com Tudo ele parece mais interessado em discutir questões a respeito da vida e da morte, que se expressam de maneira mais presente aqui em seu curta How to Shoot a Ghost, estrelado por Jessie Buckley (a qual repete a parceria com ele depois de Estou Pensando...) e Josef Akiki como fantasmas perambulando pelas ruas de Atenas. A escolha pela capital grega já é um forte indicativo de como a obra busca discutir e tensionar as questões da memória, não só pelo legado da cultura helênica no Ocidente até os dias de hoje, mas também pelos traumas recentes da Grécia, como a ditadura militar. Em meio a planos de natureza mais contemplativa, mesclados às imagens de arquivo, vemos os personagens vagarem pelas ruas de Atena, em contato com outros fantasmas, ou imersos na solidão, saudade e tristeza pelas suas vidas pregressas. Foto: Reprodução Kaufman adota uma abordagem significativamente distinta da sua filmografia anterior, e ainda que seja louvável o esforço em se reinventar, o resultado final decepciona e muito. O primeiro grande problema de How to Shoot a Ghost reside na sua indecisão: há tantas ideias sendo lançadas aqui, num espaço de apenas 27 minutos, e o filme não sabe do que quer falar, tentando mesclar as memórias e as existências individuais dos personagens com um contexto sociopolítico que apenas parece solto. Longe de mim achar que o formato de curta-metragem é inferior ao longa por não se poder desenvolver determinadas narrativas e abordagens, mas é nítido o quão mal Kaufman trabalha com o formato. Essa pluralidade (ou falta de coesão) nem seria um problema não fosse o fato de Kaufman usar uma narração em voz off como muleta, além dos diálogos expositivos dos personagens. Até daria para se dizer que é seu lado roteirista prevalecendo sobre o lado diretor, mas é de se esperar que ele a essa altura tivesse confiança suficiente nas imagens que nos exibe sem martelar a todo instante o que está sendo visto. As narrações e diálogos se alternam entre reflexões vagas que beiram a pseudo-intelectualidade com um didatismo irritante, que privam ao máximo possível o espectador de construir sua própria relação com o filme. How To Shoot a Ghost é um projeto carregado do traço lido como a maior crítica que se faz às obras de Kaufman: sua autoindulgência. Particularmente não vejo como um problema nele ou em outros realizadores, mas o que se vê aqui é um projeto que, sob sua pretensa beleza e contemplações, parece muito aquém de um veterano como Kaufman. O filme parece muito mais um projeto de um cineasta iniciante e inexperiente, absorto em suas referências e ideias e incapaz de encontrar uma voz própria, enquanto constantemente tenta nos dizer o que pensar e sentir – se é que sabe o que está dizendo. Nota: 1.5/5

  • Crítica | Morte e Vida Madalena (Mostra de SP 2025)

    Uma divertida e carinhosa comédia de erros sobre o fazer fílmico independente Foto: Reprodução Se no atemporal poema Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, seu protagonista trilhava uma árdua jornada pelo sertão rumo a uma vida melhor em Recife, em Morte e Vida Madalena temos uma protagonista que trilha um sertão emocional. Diante da perda do pai e de uma gestação de oito meses, Madalena (Noá Bonoba) ainda precisa lidar com a caótica produção do último filme roteirizado pelo pai, o qual produz, resolvendo um perrengue por minuto enquanto lida com seu luto e conflitos internos. Mas apesar dessa melancolia que permeia a personagem, o diretor Guto Parente não escolhe um caminho dramático ou sisudo. Pelo contrário: ele faz de Morte e Vida Madalena uma verdadeira comédia de erros, apostando no absurdo das dificuldades que se amontoam para complicar ainda mais a produção do filme aqui visto. Num festival que exibiu Nouvelle Vague e os bastidores da feitura de um dos longas mais clássicos de todos os tempos, o olhar de Parente se dirige ao cinema brasileiro independente, contemplando suas batalhas, mas também celebrando suas alegrias. Se em meu texto de O Agente Secreto comentei sobre a natureza do “sotaque fílmico”, aqui vemos mais uma vez essa expressão ganhar vida, conforme Parente incorpora os elementos do sci-fi que o filme dentro do filme carrega com essas marcas locais (a cena das gravações sendo interrompidas por um paredão tocando Me Usa de Magníficos foi talvez a que mais ri – e provavelmente fui o único no cinema a rir desse momento específico). Há referências a Kubrick e Fellini – no caso deste último, com a melhor piada do filme, além do caráter onírico que permeia a obra, característica autoral de Parente presente em sua filmografia. Foto: Reprodução Outra característica do seu cinema reside no afeto com o qual trabalha e dá visibilidade aos corpos LGBTQIAPN+, e aqui não é diferente. A escalação de Noá Bonoba como uma protagonista grávida é em si um gesto político, mas que não precisa ser verbalizado ou explicado didaticamente para que entendamos seu significado. Basta ver a segurança com a qual Bonoba vai assumindo o próprio filme a partir da jornada da sua própria personagem, permitindo que nos empatizemos com as lutas, dores e revelações da personagem (além do seu humor). Aliás, o elenco é todo um grande destaque, em especial Tavinho Teixeira neste papel como um ator veterano problemático e tresloucado. No fim, o grande mérito de Morte e Vida Madalena é que, para além da sua natureza cômica à medida que apresenta um desastre após o outro, o filme consegue refletir como um set de filmagem pode ser um espaço tão plural – caótico, sim, mas também repleto de camaradagem e afeto. A dupla gestação de Madalena (do filho e do filme) traz um bocado de caos à sua vida, mas também imensa alegria. E assegura algumas das melhores risadas do ano no processo. Nota: 3.5/5

  • LatinArab aterrissa em Sergipe com filmes inéditos e debates sobre Palestina

    Programação reúne cineastas e pesquisadores para discutir cinema, política e identidades no cenário árabe contemporâneo Imagem: Divulgação O Festival Internacional de Cinema Latino-Árabe (LatinArab) acontece pela primeira vez em Sergipe entre os dias 14 e 16 de novembro, no Cine Walmir Almeida, com mostras de filmes árabes, em especial produções palestinas e conversas com diretores, pesquisadores e convidados. O evento integra a Jornada de Solidariedade à Palestina, que promove debates, reflexões e oficinas sobre o tema e suas relações com a sociedade brasileira. Em sua 11ª edição, o LatinArab celebra 15 anos de trajetória dedicados à promoção do diálogo entre a América Latina e o mundo árabe por meio do cinema e das artes. Criado na Argentina, o festival tornou-se um dos poucos eventos internacionais da região voltados ao cinema árabe, consolidando-se como plataforma de trocas culturais e artísticas pautada por valores de solidariedade, diversidade e descolonização dos imaginários. “Esta 11ª edição marca um momento histórico: o relançamento do festival com uma programação ampliada que, pela primeira vez, inclui Argentina, Brasil, Chile e México, conectando nossas geografias por meio da linguagem universal do cinema”, afirma o cofundador e codiretor do LatinArab, Christian Mouroux. A abertura será na sexta-feira, dia 14, às 19h, com a exibição de Palestina 36 (2025), da cineasta palestina Annemarie Jacir, que acompanha a trajetória de um jovem durante o domínio do Império Britânico na Palestina dos anos 1930. “A curadoria do Festival é pensada com diálogos, debates e atividades que estabelecem mediações na forma como a audiência local vai receber esses filmes. Não se trata apenas de exibi-los, mas de situar o contexto dos países e as questões políticas, sociais, culturais e econômicas que eles atravessam. Isso, sem dúvida, proporciona outra experiência com essas obras cinematográficas”, explica o professor do Departamento de Relações Internacionais da UFS e coordenador do Centro de Estudos Árabes e Islâmicos (CEAI-UFS), Geraldo Adriano Campos. Imagem: Divulgação No sábado, dia 15, a programação começa às 14h com a exibição de A quem eu pertenço (2024), da diretora tunisiana Meryam Joobeur. O filme aborda tensões relacionadas à busca pela verdade e pelo amor materno no norte da Tunísia, enquanto algo sombrio começa a emergir. Em 2020, o curta-metragem Ikhwène, de Joobeur, foi indicado ao Oscar na categoria Melhor Curta em Live Action. Às 16h, será exibido Era uma vez em Gaza (2025), de Tarzan Nasser e Arab Nasser. O longa conta a história do jovem Yahia, que, em meio à ascensão do Hamas e à corrupção policial, busca vingança e uma nova chance de recomeçar. Após o filme, os pesquisadores palestinos Basil Faraj, Mai Al-Battat e Suzan Abdalwajjad conduzirão um debate sobre a obra e o contexto palestino. O encerramento acontecerá no domingo, dia 16, a partir das 15h, com a exibição dos filmes Os bastidores (2024), de Alef Ben Mahmoud e Khalil Benkirane, e Onde está o Iman? (2024), de Abrar Qari. Após as sessões, a cineasta saudita conversará com o público sobre seus filmes, a relação entre cinema e política e os desafios da produção audiovisual em sua região. “Não é por acaso que as películas palestinas ocupam um lugar central nesta edição. Diante da violência e do despojo, o cinema palestino emerge como ato de resistência, memória viva e testemunho de um povo que se recusa a desaparecer”, reforça Christian Mouroux. O LatinArab integra a programação da Jornada de Solidariedade à Palestina, promovida pelo Centro de Estudos Árabes e Islâmicos da Universidade Federal de Sergipe (CEAI-UFS), pelo Instituto Ibrahim Abu Lughod da Universidade de Birzeit, na Palestina, pela organização CineFertil, da Argentina, entre outras instituições. A Jornada ocorre de 14 a 23 de novembro. Confira a programação completa: Dia 14 de novembro 19h – 21h30 Abertura do Festival Internacional de Cinema Cine Walmir Almeida (Praça General Valadão, 134 – Centro) Exibição do filme: “Palestina 36” de Annemarie Jacir (Palestina, 2025) Dia 15 de novembro Cine Walmir Almeida (Praça General Valadão, 134 – Centro). 14h – 15h50 Exibição do filme “A quem eu pertenço” de Meryam Joobeur (Tunísia, 2024). 16h00 – 18h45 Exibição do filme palestino “Era uma vez em Gaza” de Tarzan e Arab Nasser (Palestina, 2025) e debate com os pesquisadores palestinos Basil Faraj, Mai Al-Battat e Suzan Abdalwajjad. Dia 16 de novembro Cine Walmir Almeida (Praça General Valadão, 134 – Centro) 15h - 17h40 Exibição dos filmes “Backstage” e “Onde está o Iman?” de Abrar Qari (Arábia Saudita, 2024) apresentação e debate com a diretora saudita Abrar Qari

  • Crítica | Truque De Mestre - O 3º Ato

    Sim, você já viu esse truque, e sim, ele continua divertido. Imagem: Divulgação Em Truque de Mestre - O 3º Ato, os quatro cavaleiros, J. Daniel Atlas (Jesse Eisenberg), Merritt McKinney (Woody Harrelson), Dylan Rhodes (Mark Ruffalo) e Lula (Lizzy Caplan) retornam para mais uma aventura alucinante. Dessa vez, os ilusionistas serão desafiados em uma jornada que envolve a joia mais valiosa do mundo. Ao lado de uma nova geração de ilusionistas, o quarteto se envolve numa trama repleta de reviravoltas e mágicas. Diante de uma empresa corrupta, que lava dinheiro para diferentes criminosos, os dois grupos se reúnem para derrubar a família que controla a companhia. É possível que três cineastas diferentes façam 3 filmes de uma franquia parecerem ser exatamente a mesma proposta? Truque de Mestre prova que sim. E, de antemão, não acho que isso seja um ponto positivo, é o mais puro reflexo da produção seriada de uma indústria. Falta qualquer identidade, qualquer traço de personalidade que dê aos filmes uma validação criativa ou artística para além das luzes brilhantes e do lucro. Mas de alguma forma, questionavelmente inocente, nada disso interfere na espetacularização desses filmes em específico e nos seus resultados esperados. O material-base do texto segue tão absurdo e tolo quanto nos anteriores. A estrutura narrativa repete os mesmos passos, as mesmas curvas previsíveis e a mesma forma de apresentar seus personagens. Em certos momentos, parece até que algumas falas foram reaproveitadas, especialmente os trocadilhos rasos com mágica, ilusão e truques que encostam na autoparódia. O longa insiste em se levar a sério enquanto flerta com o próprio ridículo, entregando cenas que parecem saídas de um show de ilusionismo para turistas. Imagem: Divulgação A produção, no entanto, ganha fôlego ao reunir nomes do elenco dos dois longas anteriores que até então não haviam contracenado, aqui no caso as personagens femininas de Isla Fischer e Lizzy Caplan. Essa junção confere uma dinâmica mais equilibrada às situações, quebrando um pouco a repetição dos velhos confrontos entre os protagonistas masculinos. As novas interações trazem uma energia ligeiramente diferente, e apresentam os poucos diferenciais em contraponto ao que já se conhece. A adição de novos rostos também contribui para o ritmo, mesmo que os papéis sejam quase cópias das personas já exploradas. Há um esforço em ampliar as subtramas, criando conexões mirabolantes e absolutamente inverossímeis, todas orbitando o universo da mágica como espetáculo. Ainda assim, Truque de Mestre - O 3º Ato conserva o mesmo temperamento histérico, o mesmo exagero visual e a mesma capacidade de divertir quem embarca sem grandes expectativas. É um delírio controlado que continua sendo tão frenético quanto irresistível. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Um Minuto é Uma Eternidade Para Quem Está Sofrendo (Curta-se 24)

    O homem que contempla em seu “material de vida” a própria pulsação do existir. Imagem: Divulgação Me permito escrever este texto me colocando em um fio de navalha, no qual sou amigo de um dos realizadores há muitos anos e que, ao saber que eu assistiria ao filme, me cobrou honestidade em minhas impressões. O que é algo que prezo bastante, pois busco me colocar, de algum modo, como reagente à linguagem cinematográfica, um exercício de deixar que o filme revele minhas emoções, ainda que elas não coincidam entre si. Assumindo esse lugar, eu poderia afirmar que, de algum modo, estou habituado com algumas imagens que vemos no filme, já que se trata de um filme em que Wesley Pereira de Castro e Fábio Rogério propõem uma sequência de um personagem enclausurado em sua própria casa, preso com seus próprios pensamentos, tendo que lutar para sobreviver entre alucinações provocadas por sua saúde mental. Apesar de ter sido filmado durante a pandemia de Covid-19, eu estaria sendo injusto ao reduzir esse filme àquela famosa caixinha de "filmes pandêmicos". Não me leve a mal, não é que não haja bons filmes de pandemia; lembro do ótimo Seguindo Todos os Protocolos (2022). Mas recuso reduzir o filme em questão a isso, pois, apesar de acompanharmos Wesley de fato enclausurado em sua própria casa, é mais complexo do que isso, já que a sucessão de cenas prova que, na verdade, ele está enclausurado em sua própria mente e o tempo o perfura nas entranhas. Afinal, um minuto é uma eternidade para quem está sofrendo. Dentro da dinâmica do filme, embarcamos em sucessivas sequências de uma espécie de diário filmado pelo próprio Wesley, remetendo a um cinema devaneador de Jonas Mekas. Mas aqui Wesley filma tudo com um celular, dado de presente por uma vizinha, como um diário visual apto a captar pensamentos, contemplações, banalidades. Quase como uma lógica das redes sociais, do feed infinito, das selfies, mas a grande diferença é que Wesley se põe totalmente inverso ao funcionamento desses meios. Claro que, ao se filmar de forma até narcisista, a performance acaba existindo; não há como fugir disso. Mas ele se expõe enquanto homem LGBT, periférico, que permite que o espectador o enxergue às avessas, não para ser digno de pena, mas sim para se mostrar de fato nu, em carne e osso, como uma pessoa que constantemente se afunda em melancolia e depressão, e que muitas vezes é salvo pelo próprio cinema. Afinal, estamos lidando com um indivíduo de 40 anos que teve grande parte da vida atravessada pelo cinema enquanto força motriz da sua existência. Desse modo, temos momentos de Wesley declamando textos, como em um monólogo bressaneano. Vislumbrando os raios verdes que a vida lhe oferece, como Éric Rohmer. A saturação do que é visto como radical contrariando o banal, como em John Waters. O sentimento afetuoso e tragicômico, como em Inferninho, de Guto Parente. E, claro, a própria essência de Jean-Claude Bernardet, nome ao qual o filme é dedicado, assim como o crítico Marcelo Ikeda, conforme revelam seus realizadores. O filme se revela também como um potente ponto de discussão sobre as possibilidades expressivas do cinema digital contemporâneo. Ao fazer uso de um simples celular como ferramenta de criação, o gesto de filmar adquire uma dimensão quase ontológica, resgatando algo da essência primordial do cinema: o impulso de registrar, de olhar e de compartilhar o mundo a partir de uma experiência pessoal e sensível. O cinema de bolso proposto por WPC e Fábio Rogério se faz em um lugar onde a precariedade técnica é substituída pela evocação de profundidade estética. O digital expandindo a linguagem. Wesley imprime seu olhar escopofílico na obra, como um cinéfilo que não apenas observa o mundo, mas o reconstrói a partir de sua própria experiência de ver e ser visto. Sua relação com a câmera é de cumplicidade e confissão. Cada plano, cada respiração e cada desvio de olhar carregam o peso de uma vida que encontrou no ato de filmar um modo de organizar o caos interior e de elaborar o próprio sofrimento, permitindo-se sangrar através de luz e sombra. Ao mesmo tempo em que se coloca diante da lente, Wesley também a devolve ao espectador, convidando-o a partilhar de sua vulnerabilidade e da sua performance. Wesley se filma: o cinema torna-se uma extensão de seus impulsos, um fluxo que percorre o corpo por completo, da respiração ao mais íntimo dos seus músculos. Imagem: Divulgação Coloco WPC nesse lugar de personagem justamente quando penso na contribuição de Fábio Rogério, por se revelar um cineasta que se debruça em uma interação de muito respeito e interesse nas pessoas que filma, como Wesley, Jean-Claude Bernardet, Ivan Valença e Nadir da Mussuca, no modo em que Fábio busca nelas algo que escapa ao olhar banal. Seus filmes parecem tensionar essa perspectiva, trazendo uma certa ambiguidade, permitindo multifacetar seus personagens pela montagem fílmica. A existência de Wesley está profundamente atravessada pela linguagem cinematográfica, e Fábio tem total consciência disso. Quando Wesley expõe sua coleção de DVDs com diversos filmes e se revela eclético, na verdade estamos vendo uma espécie de anatomia de um homem, uma autobiografia da sua forma de olhar para o mundo. O ritual do cotidiano de Wesley acaba revelando-o como um personagem a emergir com uma força quase indomável, diluindo as fronteiras entre o que é encenado e o que é vivido. Há uma oscilação constante entre a presença e a performance, entre o sujeito que filma e aquele que é filmado; não à toa, Wesley filma seu reflexo em um espelho constantemente, fragmentando-se diante da tela. A ficção e o documentário se contaminam mutuamente, revelando um cinema que não busca a verdade como algo fixo, mas como um estado em permanente construção. Um espaço de revelação e de muitos riscos e vulnerabilidades. São riscos que me fazem refletir sobre como o meio é a mensagem e como o público pode reagir a cenas de nudez, escatologia, fluidos ou até mesmo se fechar em um moralismo barato. No entanto, o filme parece menos interessado em provocar choque ou desconforto e mais em propor uma naturalidade da vida cotidiana, na qual o corpo, o desejo e a matéria orgânica existem como parte de uma experiência humana integral. Não há erotização gratuita nem gesto escatológico pelo excesso, mas sim uma tentativa de reconciliação com o que é mais elementar: o corpo como casa, o corpo como prova da existência. Ao filmar o que é considerado “impróprio” sob a lente de uma rotina banal, o filme dissolve o tabu e restitui ao espectador um olhar desarmado sobre o que é, afinal, apenas vida. A vida escapa de Wesley e o reencontra, como se o próprio corpo bebesse seu reflexo. Nota: 4/5

  • Crítica | Silvio Santos Vem Aí

    Tom emulado de narrativa artificial consolida resultado com aparência barata e amadora Imagem: Divulgação Em 1989, Silvio Santos (Leandro Hassum) surpreendeu o Brasil ao entrar na corrida presidencial. Sua equipe de campanha envia então a jornalista Marília (Manu Gavassi) para acompanhar e entrevistar Silvio, com o objetivo de entender o seu passado e prever o que os adversários podem vir a usar contra ele nos debates. Apesar de ser figura onipresente nos domingos das famílias de todo o Brasil, a vida particular de Silvio é um mistério e a jovem jornalista precisa encarar o desafio de descobrir quem é o homem por trás da lenda. Quanto mais Marília convive com Silvio, mais ela sente a necessidade de entender o que o motiva a concorrer à presidência. O relacionamento dos dois se constrói como uma espécie de duelo – enquanto Silvio tenta resguardar sua vida privada, Marília precisa esmiuçá-la nos mínimos detalhes. Desse encontro, ambos sairão mudados. Dar vida a uma personalidade tão distinta em seus maneirismos como foi Silvio Santos sempre será uma missão arriscada. Se a proposta não for trazer uma interpretação que assumidamente tente fugir do real, como pastiche, por exemplo, ela eventualmente vai cair num espaço caricato involuntariamente. E então tem-se um rosto bem conhecido pela sua maneira de fazer comédia, como Leandro Hassum, e não teria outra possibilidade a não ser o confronto dessas personalidade em cena, que, em vez de convergirem para o meio-termo, acabam por competir pelo mesmo lugar impossível de ser alcançado por dois corpos diferentes. Hassum, apesar do esforço evidente, nunca encontra o ponto de equilíbrio entre a imitação e a interpretação, tornando o Silvio que vemos em tela uma figura híbrida, distante tanto do homem quanto do mito (dualidade clichê que toda obra abordando a figura parecem querer tratar). O roteiro busca humanizar a figura de Senor Abravanel, mas encerra por mistificar ainda mais a figura idolatrada do grande comunicador, do azarão seguidor da teologia do progresso, do Midas midiático. A estrutura narrativa de colocar a personagem Marília imaginando as etapas propositais da vida de Silvio Santos enquanto ele apresenta seus diversos programas, num tipo de Fellini desastrado, resulta em momentos bagunçados e um tanto vexatórios por nunca conseguir encontrar o mesmo tom entre real, imaginário, fictício, comédia, drama, romance, paródia e referência. Imagem: Divulgação As atuações imprimem artificialidade, presas a gestos engessados e expressões previsíveis. Existem, inclusive, vários personagens coadjuvantes que em nada somam ao todo. Falta organicidade às performances e um olhar mais sensível da direção de atores para extrair verdade das cenas. A dinâmica com Marília, que deveria sustentar o arco emocional do filme, se dissolve em trocas mecânicas e sem tensão dramática. Os diálogos, a cenografia e o ritmo seguem a mesma lógica apressada. Tudo parece ter sido feito com o mínimo de cuidado estético, sem a pesquisa ou o requinte visual que uma produção de época naturalmente exige. Há uma falta de textura, de identidade e de vida nas composições de cena, como se a pressa em concluir o projeto tivesse suprimido o desejo de refiná-lo. É um longa que, em vez de iluminar a complexidade hipotética da persona Silvio Santos, apenas endossa o vazio de uma encenação que nunca cativa ou mesmo convence. Nota: 1/5

  • Curta-metragem “Fogo nos Macacos” aborda masculinidade negra, saúde mental e racismo

    Filme tensiona masculinidades negras e conflitos geracionais em uma narrativa potente e simbólica Imagem: Divulgação Entre tensões cotidianas, um gesto simbólico revela feridas raciais e afetivas em uma família negra. Essa é a premissa do curta-metragem Fogo nos Macacos, que segue consolidando sua trajetória em prestigiados festivais de cinema e reafirmando a potência do audiovisual produzido fora dos grandes centros. O filme tem direção de Clementino Jr. e Daiana de Souza, é produzido pela Haber Produções e distribuído pela Floriô de Cinema. Com Izabel Rezende, Ricardo Romão, Carol Haber, Ray Senna e Gabriel Benevenuto no elenco, na trama, um casal macaense se desloca com o filho até a periferia do Rio de Janeiro para que bebê conheça o avô. O encontro, marcado por tensões entre gerações, culmina num clímax emocional provocado por um símbolo silencioso, mas poderoso: os macacos. “É um filme para um público corajoso, que não se melindra com o título ou espera clichês. É singular. Quem assistir, vai entender do que se trata”, afirma Clementino Jr. Fogo nos Macacos utiliza dos artifícios do drama familiar para tensionar questões sociais concernentes ao racismo estrutural, masculinidades negras e conflitos intergeracionais. O filme se insere em uma linhagem de obras que tensionam os limites entre a ficção e a denúncia, evocando referências como “Marte Um” (2022) e “Nada” (2017), de Gabriel Martins, e “Eu, Minha Mãe e Wallace” (2018), dos Irmãos Carvalho, ao tratar com delicadeza e força poética as camadas de identidade, violência e afeto em corpos e territórios racializados. A narrativa, marcada por silêncios significativos, incômodos simbólicos e embates necessários, aposta em uma abordagem que acredita no gesto artístico como enfrentamento. Imagem: Divulgação Baseado no conto homônimo da própria diretora, Daiana de Souza, Fogo nos Macacos foi originalmente publicado na coletânea Rio de Contos (2024) e semifinalista do Prêmio Loba (2025). “É o reconhecimento de um texto potente que fala não apenas das feridas - individuais, sociais e históricas - mas também do processo de cura, do olhar atento ao que é mais importante”, explica Daiana. “Escrever é uma ação solitária, você e o computador. Mas isso não quer dizer que o seu repertório não tenha sido construído a partir da escuta, leitura e visualização de muitas pessoas e obras. Então há um coletivo mesmo nessas horas passadas sozinha em frente a tela do notebook”, completa. Estreado no circuito de festivais no 22º Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá, no Mato Grosso, o curta-metragem fez passagem no 5º Festival Mate com Angu, em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, e também já foi anunciado na seleção oficial do 18º Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, considerado o mais importante evento de cinema negro da América Latina. Daiana celebra: “A adaptação para o audiovisual foi incrível, com uma equipe dedicada e que viu naquela história algo que também era dela. A Haber Produções apostou e teve sucesso na captação via políticas públicas e fez o filme nascer”. O curta, gravado em Macaé, no interior do Rio de Janeiro, é uma realização da Haber Produções, que se dedica à criação de narrativas autorais, disruptivas e de impacto, que rompem com o senso comum e propõem novas formas de ver e sentir o mundo. A participação do filme no maior encontro de cinema negro da América Latina é muito significativo para todos os envolvidos. “Essa é a primeira produção audiovisual com patrocínio realizada pela Haber Produções. Tenho certeza que isso abrirá muitas portas para a nossa equipe”, comemora a produtora executiva Carol Haber. Fogo nos Macacos é um projeto realizado com patrocínio do Governo Federal, do Governo do Estado do Rio de Janeiro e da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, por meio da Lei Complementar nº 195/2022 – Lei Paulo Gustavo. Confira o trailer aqui.

  • Crítica | Tremembé - A Prisão dos Famosos (1ª temporada)

    Minissérie é ‘Ligações Perigosas’ carcereira que encara o camp bem no fundo dos olhos Imagem: Divulgação Produzida pela Paranoid para o Amazon MGM Studios, Tremembé retrata as trajetórias de encarcerados como Suzane von Richthofen, Daniel Cravinhos e Cristian Cravinhos, condenados pelo assassinato dos pais de von Richthofen; Anna Jatobá e Alexandre Nardoni, condenados pelo assassinato de Isabella Nardoni; e de Elize Matsunaga, condenada por assassinar o marido, entre outros, na penitenciária conhecida como “prisão dos famosos”. Tremembé tinha material suficiente em mãos para virar um grande desastre, mas graças às escolhas que definiram o tom não-sério, sarcástico e por vezes humorístico mesmo da minissérie, o resultado é inusitado, espirituoso e cafona, no melhor dos sentidos. O ponto de partida do texto são os livros do jornalista Ulisses Campbell que dedicou parte de sua carreira à textos sobre alguns dos criminosos mais famosos do Brasil contemporâneo. O objetivo aqui nunca foi fazer um estudo psicológico e criminal daquelas pessoas, na verdade os crimes são apresentados apenas como flashbacks introdutórios para apresentar como aqueles foram parar no mesmo lugar. E essa já é uma proposta que diverge de outros trabalhos que tenham abordado aquelas histórias, afinal, a prisão por vezes soa como um ponto final na vida daqueles seres humanos, quando na verdade, é apenas o início de um capítulo completamente diferente e cheio de experiências novas. E o texto de Tremembé toma as liberdades criativas que acha necessário para jogar com as relações entre os criminosos e criar um jogo de Ligações Perigosas pelo micropoder dentro daquele espaço. Com música pop, tiradas engraçadas e situações quase absurdas, o roteiro, e a direção acelerada de Vera Egito, não tiram o pé do “baseado em fatos reais”, e não deixam o público esquecer que ali estão detentos respondendo por crimes hediondos; mas veste isso com um traje lúdico que concede ao resultado, enquanto peça audiovisual, uma fluidez, um brio e uma unidade que resolvem muito bem a construção do discurso. Outro tópico que a narrativa não deixa de lado é a relevância que a mídia teve nos casos abordados. O subtítulo “A Prisão dos Famosos” esfrega nos rostos dos espectadores que, de uma forma ou de outra, os personagens se tornaram de interesse público graças à repercussão que os veículos de peso da mídia deram aos seus casos. Entrevistas, publicações e reportagens são recorrentemente retratados nos 5 episódios de forma a enfatizar o frenesi que se gerou em torno daquelas vidas; e a série desenha como cada condenado utilizou da noção de “fama” que recebeu para tocar com seus futuros. Imagem: Divulgação Todo o elenco entendeu com precisão a proposta do projeto e entregou atuações estereotipadas o suficiente para lidar com o drama, com o crime e com o humor. Cada ator conseguiu, dentro deste espaço convergente do irônico, desenvolver personas diferentes que em cena preenchem o espaço de forma a montarem um mosaico de personalidades constituídas de códigos morais e éticos completamente diferentes e que por hora se veem em pé de igualdade e por outras se sentem superiores aos alheios ali presentes. Destaque para as atrizes que conduzem com firmeza os arcos da história: Marina Ruy Barbosa, Carolina Garcia, Letícia Rodrigues e Bianca Comparato. A produção não evita tópicos, nomes e detalhes, e não se interessa em fazer um julgamento daqueles personagens, de suas causas e consequências, mas também não busca romantizar ou mesmo simpatizar com nenhum deles, os crimes são expostos e o público sabe o que cada um fez para estar naquele presídio, no entanto ela não se exime de apresenta camadas, presentes em todos os seres humanos por mais complexos que eles sejam, dessas pessoas, seus altos e seus baixos, seus anseios, suas subjetividades e seus carismas, por assim dizer. É quase como um grande reality show de caráteres questionáveis onde o espectador não consegue desviar o olhar. Nota: 3,5/5

  • Lista | Os melhores filmes vistos na 49ª Mostra de SP

    Em meio a um sem-número de longas assistidos, quais se destacaram? Foto: Reprodução Depois de duas semanas intensas, a 49ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo enfim acabou. Foram 32 filmes vistos, quase este número em críticas, e a sensação de que um trabalho exaustivo, mas imensamente gratificante, foi feito. Diferentemente do meu ranking para o Olhar de Cinema (que você pode ver aqui), desta vez priorizei apenas um top 10 que abarca as melhores produções vistas nestes quinze dias de festival. Sem mais delongas, vamos aos filmes escolhidos: 10) “Jovens Mães” (Dir.: Jean-Pierre e Luc Dardenne) “São nessas particularidades que a câmera dos Dardenne – sempre atrelada a uma estética mais “crua” e documental, com uso extenso da câmera de mão e planos-sequência – constroem as personagens como meros arquétipos que simbolizam diferentes facetas da maternidade na adolescência, mas sobretudo como figuras complexas e profundamente humanas. A câmera não os julga por suas ações contraditórias, por suas falhas, nem as isenta diante dos contextos em que viveram e foram criadas, mas as trazem em sua completude, evitando também a pieguice e a manipulação dos sentimentos. Entende-se que nossos sentimentos e reações advêm dessa realidade nua e crua exibida em tela; no entanto, tal realidade não se dá pelo choque. Essas meninas são o que são, mesmo que nem todas as abordagens sobre elas funcionem (o arco de Jessica com a mãe e seus rompantes infantis cansa rápido, ainda que chegue a um final satisfatório assim como os das demais).” (Crítica completa aqui) Foto: Reprodução 9) “Morte e Vida Madalena” (Dir.: Guto Parente) “(...) Outra característica do seu cinema reside no afeto com o qual trabalha e dá visibilidade aos corpos LGBTQIAPN+, e aqui não é diferente. A escalação de Noá Bonoba como uma protagonista grávida é em si um gesto político, mas que não precisa ser verbalizado ou explicado didaticamente para que entendamos seu significado. Basta ver a segurança com a qual Bonoba vai assumindo o próprio filme a partir da jornada da sua própria personagem, permitindo que nos empatizemos com as lutas, dores e revelações da personagem (além do seu humor). Aliás, o elenco é todo um grande destaque, em especial Tavinho Teixeira neste papel como um ator veterano problemático e tresloucado.” (Crítica completa aqui) Foto: Reprodução 8) “Galinha” (Dir.: György Pálfi) “Talvez o aspecto mais impressionante de Galinha é o quanto seu diretor György Pálfi consegue extrair uma... atuação... tão sólida da sua protagonista (vivida por oito galinhas diferentes). Este não é o clássico filme aventuresco da Sessão da Tarde onde ouvimos a voz e os pensamentos da galinha: tudo que temos são seus cacarejos, seus olhares intensos e uma boa dose de fisicalidade, com uma câmera que muitas vezes assume uma posição subjetiva, não precisando de muito para que nos identifiquemos e tenhamos empatia pela nossa brava protagonista.” (Crítica completa aqui) Foto: Reprodução 7) “A Natureza das Coisas Invisíveis” (Dir.: Rafaela Camelo) “Estruturado nessas duas metades – a primeira no hospital e a segunda no sítio da bisavó de Sofia, no interior de Goiás – A Natureza das Coisas Invisíveis tanto as distingue quanto as complementa, à medida em que a câmera de Camelo, muito livre, aposta fortemente na subjetividade do olhar infantil das duas meninas, cada uma delas dominando uma das duas partes do filme. Os planos médios, o posicionamento da câmera sempre a partir da altura das meninas, os closes que conduzem o nosso olhar a partir do que elas veem, são alguns dos recursos pelos quais a diretora faz do universo e da compreensão delas o meio para tornar mais fácil a compreensão da morte como este ato natural da própria vida.” (Crítica completa aqui) Foto: Reprodução 6) “Cyclone” (Dir.: Flávia Castro) “Cyclone é sobre uma mulher impossível de ser presa pelas correntes do seu tempo - seja em 1919 ou 2025 -, e os altos preços que ela paga por essa liberdade. A direção de Flávia Castro evita os lugares-comuns dos filmes de época, abraçando um anacronismo que serve bem a uma narrativa (infelizmente) atemporal, enquanto concentra seu maior esforço em planos fechados que valorizam sobretudo o trabalho de Luiza Mariani, numa das melhores atuações do cinema nacional deste ano.” (A crítica foi escrita quando da exibição do filme no Festival do Rio, e você pode conferir aqui) Foto: Reprodução 5) “Foi Apenas um Acidente” (Dir.: Jafar Panahi) “O diretor é muito mais eficaz na construção de uma atmosfera crua e também um bocado imprevisível, saltando entre essa espécie de thriller “neorrealista” e uma comédia de erros, como quando os personagens acabam se vendo forçados a ajudar a esposa e filha do torturador. Os instantes de humor, mesmo que não tão frequentes dentro da obra, servem de respiro quando o clima se revela pesado demais, mas Panahi também não se acanha de nos acertar com socos no estômago quando necessário.” (Crítica completa aqui) Foto: Reprodução 4) “Ato Noturno” (Dir.: Marcio Reolon e Filipe Matzembacher) “Ato Noturno é um thriller sobre o desejo que suprime todo "bom costume", sobre como a vida (especialmente a vide dos corpos queers) é antes de tudo performance, e sobre o quão longe iremos pelos sonhos e ambições. Abraçando referências do cinema maneirista de Brian DePalma, conjuga tensão e tesão enquanto leva seus protagonistas ao limite.” (A crítica foi escrita quando da exibição do filme no Festival do Rio, e você pode conferir aqui) Foto: Reprodução 3) “Mirrors Nº 3” (Dir.: Christian Petzold) “Existe um mistério que permeia Mirrors Nº 3, mas Petzold não está interessado em prolongá-lo até o fim apenas pelo choque, nos dando aquilo que precisamos saber até que tenhamos enfim a resposta sobre os motivos pelos quais Betty decide cuidar de Laura. O filme é econômico em todos os sentidos: na duração, na sua montagem, nos diálogos, nos atos, gestos e interações entre os personagens. Mas nessa economia muito se diz, e é nessa capacidade de Petzold de encenar com o mínimo possível de forma a potencializar a dramaticidade da obra que o filme cresce.” (Crítica completa aqui) Foto: Reprodução 2) “O Agente Secreto” (Dir.: Kleber Mendonça Filho) “Assim, essa Recife de 1977 é um caldeirão prestes a explodir, mesmo que vá sendo cozinhada em fogo lento. Kleber passeia pela cidade e o faz com um profundo senso de reverência e paixão que não esconde suas contradições. O trabalho de direção de arte de Thales Junqueira merece e muito ser aplaudido nesse aspecto, pois transforma a cidade numa personagem à parte, de maneira ainda mais intensa e imersiva do que nos filmes anteriores do diretor (que já eram excepcionais no trato ao espaço urbano). Cenas como aquela em que Marcelo olha pela janela do cinema São Luiz são para serem guardadas na memória, tamanha é a capacidade de nos transportarem para este período. Talvez seja outra das heranças de Retratos Fantasmas, já que aqui a arquitetura, os figurinos, os veículos nas ruas, a cacofonia, tudo se revela muito orgânico e bem pensado nessa reconstituição de época, numa articulação entre direção de arte, figurinos, fotografia e outros elementos através da direção de Kleber que fazem de O Agente Secreto seu longa mais primoroso em termos técnicos.” (Crítica completa aqui) Foto: Reprodução “No Other Choice” (Park-Chan Wook) “Ainda que em determinadas ocasiões as críticas ao capitalismo tardio possam soar óbvias ou engessadas, Chan-Wook encontra na forma a maneira de elevar a crítica e investir na sátira sem receio ou se apegando meramente ao cinismo. O uso das telas de smartphones, tablets, computadores e etc. (nenhum diretor atualmente sabe incorporar tão bem a tecnologia aos seus filmes como Chan-Wook; os travellings, fusões e transições de tela sempre mais imprevisíveis que o antecessor; a montagem frenética e caótica, com cortes fundamentais para ampliar este humor sombrio; a trilha sonora bombástica e tensa, ideal para as muitas mudanças de humor que a obra vai trazendo; e muito mais. Mesmo quando o filme ameaça se perder, é visível a retomada de controle por parte do seu diretor.” (Crítica completa aqui) Foto: Reprodução

  • Crítica | Grand Prix: A Toda Velocidade

    Animação desperdiçada potencial de analogias e se sustenta na ação Imagem: Divulgação Em Grand Prix: A Toda Velocidade, uma jovem ratinha chamada Edda sonha em se tornar uma corredora de carros e competir no Grand Prix. Esse sonho, porém, está muito distante da realidade de Edda que, vivendo no subúrbio da vibrante cidade de Paris, ajuda a administrar o parque de diversões da família ao lado de seu pai Erwin. Após a morte de sua mãe, os negócios não vão indo bem e, com uma conta repleta de dívidas, logo o parque será tomado dos dois. O mundo de Edda vira de cabeça para baixo, porém, quando inesperadamente aparece a oportunidade de não apenas salvar o estabelecimento da família, mas também disputar a corrida Grand Prix ao lado de seu ídolo, o piloto estrelado Ed. Sob a orientação do lendário Ed, Edda se disfarça do corredor campeão para competir no grande evento, enfrentando uma série de desafios e obstáculos na pista. O que começa como um plano arriscado e secreto, logo se transforma na chance de sua vida na qual o prêmio em dinheiro pode ser a salvação do sustento de sua família. Toda animação que usa animais como personagens principais tem em mãos um material de potencial inesgotável de abordagens. O exemplo recente mais vívido disto é Zootopia (2016), que consegue misturar as mais variadas classes de animais e brincar com o imaginário antropomórfico de cada um deles dentro do roteiro proposto. E Grand Prix, coprodução da Alemanha com o Reino Unido, parece ignorar completamente toda essa capacidade criativa para se sustentar basicamente nas sequências de corrida e ação. O diretor alemão Waldemar Fast desenvolve bons momentos frenéticos, dadas as proporções do gênero, mas para além disso não consegue dar muita vida ao roteiro bobo e sem inspiração que repete piadas e usa todos os clichês de textos já conhecidos do cinema infantil de maneira morna e enfadonha. As motivações dos personagens principais são rasas e previsíveis, sustentadas mais pela conveniência do roteiro do que por qualquer desenvolvimento emocional genuíno. Imagem: Divulgação Visualmente, o filme entrega uma estética competente, com cores vibrantes e fluidez nas cenas de corrida. No entanto, a ausência de um subtexto mais consistente ou de uma mensagem realmente inspiradora transforma o espetáculo visual em algo rapidamente esquecível. Falta o equilíbrio entre emoção e ritmo, entre fantasia e reflexão, que torna memoráveis as melhores animações do gênero. Em última instância, Grand Prix: A Toda Velocidade é uma animação tecnicamente correta, mas emocionalmente fraca. Diverte momentaneamente com sua ação bem desenhada e bem acabada, mas chega ao final sem muita personalidade. Nota: 2/5

  • Crítica | Predador: Terras Selvagens

    As aventuras do Predador boa praça Imagem: Divulgação Em Predador: Terras Selvagens, um jovem predador banido de seu clã embarca em uma perigosa jornada em busca de um adversário final em um planeta remoto e futurista. Lá, ele encontra uma aliada improvável em Thia (Elle Fanning), uma sobrevivente andróide, e juntos enfrentam perigos em um cenário inóspito. Como toda boa franquia hollywoodiana que foi requentada por mais de 4 décadas, Predador já viu diferentes apresentações e abordagens ao longo dos anos. O que de início começou como um másculo filme de ação estruturado no complexo do homem branco salvador contra um alienígena assassino, hoje traz uma perspectiva diferente ao ser extraterrestre dotando ele de sentimentos e motivações que o farão cair na graça do público, no sentido mais compassivo da expressão. O filme abraça uma estrutura de ação que lembra fortemente jogos de videogame. Cada ambiente do planeta funciona como uma espécie de fase, cheia de obstáculos naturais e criaturas hostis que atrasam o avanço dos protagonistas. O enredo filmado se move de maneira quase interativa, com desafios que se sucedem em ritmo crescente, dando ao espectador a sensação de estar acompanhando uma longa e perigosa missão em um cenário virtual. Essa escolha estética e narrativa reforça o caráter lúdico da produção e mantém a tensão sempre presente. Imagem: Divulgação Elle Fanning entrega uma atuação bem competente em um papel duplo que exige muito mais do que a expressividade facial. A atriz consegue alternar sutis diferenças de postura e movimento, transmitindo humanidade e frieza em doses sistemáticas, além de muito carisma. Além disso, seu trabalho de corpo bem ensaiado e executado ficam bem perceptíveis numa personagem que passa mais da metade do filme existindo apenas como metade superior. É uma performance que sustenta boa parte da empatia que o público sente durante a jornada. Não é todo dia que se vê a atriz em produções comerciais desse tamanho, tipo de trabalho ela parece desempenhar com facilidade. Por vezes, no entanto, os efeitos visuais parecem apressados, especialmente em cenas de maior escala, nas quais a integração entre personagens e ambiente digital perde um pouco de naturalidade. Há momentos em que o filme se aproxima mais de uma animação hiper-realista do que de uma produção em live action. Ainda assim, a ação é empolgante, com sequências de combate e exploração que fisgam a atenção e que funcionam como catalisadores da narrativa. Como aventura, Predador: Terras Selvagens se sai muito bem, abraçando sem vergonha o espírito de camaradagem e a mensagem sobre “o poder da amizade”. É um longa que entende sua própria simplicidade quanto a estrutura do texto, e a transforma em ímpeto, seguindo até o fim com um entusiasmo, mesmo nem sempre conseguindo resultados tão positivos nos fechamento dos arcos menores. Nota: 3/5

  • Entrevista | “Gravar aqui é como revisitar a nossa história”, elenco de Corações Naufragados fala sobre o filme

    Diretamente do set de filmagens e com exclusividade para o OP, Olivia Torres, Mina Nercessian, Rita Maia, Gabi Britto e Dalton Vigh compartilham as experiências da gravação em Sergipe. Imagem: Michele Becker No coração de Aracaju/SE, o Palácio Museu Olímpio Campos se transformou em cenário de uma história que mistura memória, emoção e cinema. Entre móveis antigos, jornais amarelados e a movimentação intensa da equipe, o Oxente Pipoca acompanhou um dia de gravação de Corações Naufragados, capturando detalhes que revelam o quanto este projeto é especial para Sergipe e para o cinema brasileiro. A produção revive acontecimentos da Segunda Guerra Mundial na costa nordestina, quando o submarino alemão U‑507 atacou navios civis e militares, deixando marcas profundas na população local. Para os atores, gravar neste espaço histórico vai muito além da atuação: é estar em contato direto com os lugares e memórias que inspiraram a história, vivenciando a emoção de personagens que dialogam com o passado real do estado. A roteirista Cacilda de Jesus, cuja avó sobreviveu ao torpedeamento do Baependi, já havia contado ao Oxente Pipoca, em entrevista exclusiva, como essa memória familiar deu origem ao roteiro do longa. Agora, nos bastidores da filmagem, Olivia Torres, Mina Nercessian, Rita Maia, Gabi Britto e Dalton Vigh compartilham suas experiências e o impacto de dar vida a personagens profundamente ligados à história de Sergipe. Leia na íntegra as entrevistas abaixo: Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Primeiro, é um prazer falar com você aqui na gravação do filme. O nosso portal, o Oxente Pipoca, é um portal de cinema que nasceu em Sergipe e fala sobre cinema, com foco no cinema brasileiro e no cinema nordestino. Então, pra gente, é muito legal estar aqui. Eu queria saber como está sendo, pra você, gravar um filme histórico, de fato, no lugar onde ele aconteceu.Dalton Vigh: Pois esse foi um dos maiores, se não talvez o principal motivo de eu fazer o filme. Claro, o personagem é muito bom, mas acho que o que mais me chamou a atenção é que a gente está contando um fato histórico que aconteceu no Brasil, aconteceu aqui em Sergipe. Acho que a população de Sergipe conhece bastante essa história, mas o Brasil, o resto do Brasil, acho que não se lembra mais. Eu acho muito importante a gente sempre olhar o passado, para a gente poder entender o presente e poder se preparar para o futuro, né? Eu acho que é assim que funcionam as coisas. Então, pra mim, foi um prazer ter sido convidado pra fazer esse personagem. É um almirante, né, da Marinha, então é um cara que se vê envolvido de duas formas aí com o episódio: não só pelo afundamento dos navios, mas também por conta da filha ser a repórter que noticia isso. Então, é um personagem riquíssimo, que eu acho que ajuda a dar um peso maior pra história da protagonista, sabe? É uma pessoa que acaba colocando obstáculos pra que ela atinja os seus objetivos. Enfim, então, de uma certa forma, eu sou o antagonista. Mas eu tô muito feliz de poder estar participando dessa produção, que, aliás, tá de parabéns. Eu acho muito legal que seja uma produção daqui. Enfim, eu acho que a produção cultural brasileira não devia se restringir à região Sudeste e tudo mais. Eu acho que tem muita história pra ser contada sobre o nosso povo, sobre os nossos estados, os nossos municípios pelo Brasil inteiro. A gente tem um território enorme, né? Imagem: Michele Becker Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu acho muito importante o fato de você estar gravando um filme no próprio lugar onde a história realmente aconteceu. Eu até comentei com o Dalton sobre isso. Acho que isso acaba trazendo uma carga emocional muito grande para todo mundo envolvido. Queria que você falasse um pouquinho sobre isso. Mina Oliveira Nercessian: A emoção é muito grande. E a coincidência da vida é que, na verdade, quando eu cheguei… eu moro fora, e quando eu cheguei no Brasil, eu contei pro meu pai que eu tava fazendo esse filme, e ele falou assim: ‘O meu tio morreu nesse navio.’ Caramba. Então eu fiquei assim, chocada, e vi assim que realmente era pra eu estar aqui fazendo esse filme, é… contar essa história, né? Honrar essas pessoas que perderam a vida. É, e, e, divulgar a nossa história, né? Porque as histórias, se a gente não, não, não eterniza elas com cinema, com livros, elas se perdem. Então eu vejo de uma importância muito grande. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): A sua personagem é a mãe da protagonista, né? Queria que você falasse um pouquinho sobre isso, sem dar spoiler. Mina Oliveira Nercessian: Sim, não posso dar spoiler, mas ela… ela tá numa situação assim de conflito interno, digamos, porque ela, ao mesmo tempo que quer ajudar a filha, ela gosta, ela apoia a filha, ela também tem a situação com o pai, com o marido, né? Que ela também não pode, digamos… fica difícil pra ela se expressar do jeito que ela gostaria com o marido, que é um militar, que é mais rígido. Mas é um personagem muito interessante. Eu gostei muito quando eu li. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): E como está sendo a experiência aqui em Sergipe? Mina Oliveira Nercessian: Maravilhosa. Estou amando Sergipe, eu acho assim… gostando demais. Tô achando tudo muito limpinho, muito lindo, as pessoas muito gentis, muito amorosas, assim… Tem sido um presente enorme poder ter vindo pra cá. Então, eu tô muito agradecida e muito feliz. Imagem: Michele Becker Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Curiosamente, há um ano eu estava entrevistando o Davi Pretto, que dirigiu Continente, um filme que você fez. E eu preciso dizer que é um dos meus filmes de terror favoritos do ano — e, assim, acho que da vida. Então eu fiquei muito feliz de saber que você estava aqui. E uma coisa em que eu fiquei pensando foi: você participou desse filme, que é um terror, quase um slasher brasileiro, no interior do Rio Grande do Sul; teve Ainda Estou Aqui; e agora você está aqui fazendo um filme histórico. Caramba! São personagens totalmente diferentes. Eu queria que você falasse um pouco sobre essa experiência, como atriz, de estar vivendo tudo isso. Olívia Torres: Ah, é muito massa. Fico feliz que você tenha assistido Continente, é um filme que eu amo também. Vou aproveitar e dizer que, agora na Mostra de São Paulo, o novo filme do Davi Preto, Futuro Futuro, que eu também fiz, foi vencedor de melhor filme, melhor roteiro, melhor montagem no Festival de Brasília. Vai estar na Mostra de São Paulo, assim como Aurora, do José Eduardo Belmonte, que é um filme também de terror, que eu faço também um monstro, uma criatura sanguinária, que a gente filmou dez anos atrás e agora vai ser lançado, comigo, com Carol Dickman, Humberto Carrão, Milena Cortazzoni e Matyruma. Fiz aqui o meu merchan. Mas eu amo muito navegar em gêneros. Também, no ano que vem, vai lançar um outro filme que eu fiz de gênero. Então, acho que eu tenho Ainda Estou Aqui no meio, mas tem uma sequência de vários filmes de gênero, e agora fazendo, voltando pra um filme histórico, mas que eu acho que, primordialmente, é um filme romântico, né? É um romance. É muito bom, assim, porque… ah, a gente é atriz, né? O que a gente gosta mesmo é de brincar entre universos e personagens, e ter essa oportunidade, que é rara, me deixa muito contente e completa mesmo. É muito legal, muito massa. E estar aqui também, né, com uma equipe que eu nunca tinha trabalhado antes, numa cidade que eu não conhecia, enfim, acrescenta também na experiência. É muito legal. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu ia perguntar justamente sobre isso: o que você está achando daqui e como é gravar um filme onde o fato realmente aconteceu. O que isso representa também para a atuação, estando dentro desses cenários e desse contexto? Eu queria que você falasse um pouco sobre isso. Olívia Torres: Ah, eu acho que eu só, principalmente, só tomei noção da importância desse fato para Sergipe estando aqui e conversando com as pessoas, inclusive fora do filme. Porque a gente, enfim, tá aqui já o quê… duas semanas e alguma coisa. A gente fofoca com o povo, né? Passeia, vai nos lugares, e aí eu tenho trocado com as pessoas aqui de Aracaju, e muitas têm muitos, muitos casos para contar: avó, bisavó, tia-avó, enfim… muitas memórias que estão me relatando sobre essa história. E é muito especial. Obviamente, a gente sente um senso de responsabilidade, de honrar essas vidas e essa memória. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Só pra encerrar, eu queria que você falasse um pouquinho: Ainda Estou Aqui foi um marco, e eu acho que ele abre portas para que o cinema brasileiro seja conhecido de forma mundial e mostre a nossa potência de cinema. E eu acho legal ver como isso abriu para que outras produções chegassem e alcançassem mais gente. E aí, Corações Naufragados eu acho que também marca um momento para ser lembrado no nosso cinema. Eu queria que você falasse sobre isso: como você vê o movimento do cinema brasileiro? Você comentou de alguns filmes que vão estar na Mostra, e você é uma atriz que participa bastante de filmes assim, por exemplo, de terror, filmes mais independentes, fora da zona comercial. Queria que você falasse um pouquinho de como você vê esse cenário do cinema brasileiro. Olívia Torres: Ah, acho que tá muito potente, né? Não que o cinema brasileiro não estivesse potente antes de Ainda Estou Aqui, pelo contrário. Tem um tanto de cineasta que eu admiro demais em todos os lugares do Brasil: Recife, Pernambuco, cineastas de Minas Gerais, enfim, do Sul, sempre fazendo filmes muito relevantes, importantes. Recentemente eu tava assistindo, ah, zapeando nos streamings, e vi um filme que eu não tinha assistido ainda, chamado Arábia, do diretor de Minas Gerais Afonso Uchoa. Muito especial. Mas eu sinto que algo mudou, e aí eu fico pensando o que que é. Porque eu acho que tem muito a ver com o interesse do público mesmo, sabe? Eu acho que os filmes sempre estiveram aí, mas eu sinto que o povo brasileiro tá muito mais interessado em saber o que tá sendo feito, o que tá sendo produzido, o que foi produzido, quais vão ser os caminhos pro futuro. Eu sinto que o Oscar dá realmente visibilidade pra um país, né? É só a gente ver o exemplo da Argentina, quando ganhou filmes no Oscar, foi um boom, lembra? Todo mundo super interessado em ver o que tava sendo feito por lá. Ou a Coreia do Sul, né, com Parasita. A gente sempre fica interessado no que tá sendo feito num país que vence melhor filme internacional. Então, sinto isso assim, acho que tá todo mundo numa certa efervescência, e fico comemorando, porque é um cinema muito rico o nosso, muito múltiplo, de todos os cantos. Tô torcendo muito por Agente Secreto. Imagem: Michele Becker Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Como é estar participando de uma produção desse tamanho sendo uma atriz daqui de Sergipe? Rita Maia: Muito feliz, né? Uma oportunidade muito, muito interessante. Existem outras produções que eu já participei no estado, acho que todas que aconteceram por aqui de alguma forma eu sempre estive trabalhando, mas essa é bem especial por ser da Cacilda, que é uma pessoa que eu conheço já há 30 anos, uma amiga que começou a fazer teatro junto comigo. E por ser uma produção que fala dessa história que quase ninguém sabe, quase ninguém lembra. Então eu tô muito honrada em fazer parte. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Como você acha que essa experiência pode agregar também para o audiovisual sergipano? Rita Maia: Conhecimento, né? Foi um processo muito intenso de preparação de atores, feito pelo Rogério Troiano, que foi muito, muito interessante. Uma nova visão, diferente de preparação, que eu não tinha tido oportunidade antes, e gostei muito. E acredito que fica o legado, né? De que seja possível fazer uma produção desse nível, que temos bons atores para estar numa produção nesse nível, né? E que cada vez venham mais produções assim, para que a gente possa ter mais oportunidade no trabalho. Imagem: Michele Becker Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): E aí, como tá sendo para você trabalhar em um longa de projeção nacional? Sendo atriz daqui de Sergipe, como tá sendo para você essa experiência? Gabi Britto: Eu tô muito feliz e honrada de estar trabalhando com a equipe, primeiro que é do Brasil inteiro, uma equipe de projeção nacional, e ainda mais que fala sobre a minha terra, sobre acontecimentos que aconteceram aqui, que eu ouvi de passagem quando eu era criança. Eu tive uma casa, quando eu morava aqui, a última casa que eu morei, que era na praia, então eu passava todos os dias pela Praia dos Náufragos. A gente, que é daqui, sempre ouviu falar da Rodovia dos Náufragos, mas infelizmente poucas pessoas sabem o porquê. Então assim, eu tô muito feliz em fazer parte dessa história, porque eu acho que é uma história que vem para trazer, primeiro para Sergipe, um conhecimento de história que foi pouco explorado. Os historiadores, como a Cacilda e o Luizão, batalharam para pesquisar toda essa história e trazer isso à tona. Então é algo que é muito importante e que a gente vai começar a valorizar ainda mais a história do nosso estado. Então eu tô muito feliz porque é um projeto incrível, que eu acredito e que vai levar Sergipe, essa história que aconteceu, para o Brasil inteiro. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu tava comentando uma coisa legal, que eu acho que vai tocar muito quem é daqui, e eu acho que o Brasil inteiro também, de se reconhecer, reconhecer lugares, né? Reconhecer… enfim. Eu acho que às vezes a gente já se reconhece no sotaque de alguns atores. Eu acho que isso, muito além da história, também é algo que toca a gente. Gabi Britto: Eu sou uma atriz sergipana, mas eu já moro há 8 anos em São Paulo. Então, quando eu vim para cá para fazer a primeira leitura do texto, primeiro eu fiz uma leitura com o elenco local, e foi muito emocionante. Ouvi as vozes dos artistas sergipanos, falando do seu jeito, da sua forma. Eu saí muito emocionada nesse dia e tenho a possibilidade hoje de estar com o elenco local, com elenco que tá vindo para Sergipe, que também tá muito feliz de estar conhecendo Aracaju. A gente passa os dias juntos, passeia. É muito bom. Então essa eu tenho… estou tendo a oportunidade de ter essa troca com todos eles. Então tem sido muito forte, assim, para minha experiência como pessoa e como atriz. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): E assim, como você acha que Corações Naufragados pode marcar, trazer esse olhar especial? Eu acho que Sergipe é lindo, né? É um espaço incrível, que dá para gravar milhões de histórias de vários tipos. Como você acha que o filme pode trazer esse olhar para outras pessoas do meio? Até para, sei lá, futuras produções serem gravadas aqui? Gabi Britto: Eu acho que é muito importante. É uma super oportunidade de olhar para o nosso estado com essa visão de direção de arte, de direção de fotografia, que é super possível. E eu acredito que esse trabalho está acontecendo aqui dessa forma. Não só a história, que é fruto do trabalho da Cacilda, que lutou para que tudo de fato fosse gravado aqui, para que esse cenário fosse o pano de fundo. Então, eu acho que o estado só tem a ganhar, e que mais produções cheguem aqui para os atores trabalharem, para as atrizes trabalharem, roteiro, direção, tudo. O estado pode fazer isso. Então, eu espero mesmo que seja o primeiro projeto desse porte, porque projetos acontecem aqui, isso é importante ser falado. Sim, a galera produz, mas que cada vez isso cresça e tenha visibilidade, porque a gente tem muito a oferecer.

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