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  • Crítica | Zootopia 2

    Continuação segue com humor afiado, mas não consegue fugir das repetições. Imagem: Divulgação Os heróis e policiais novatos Judy Hopps e Nick Wilde estão de volta para mais uma aventura extravagante pela grande metrópole animal de Zootopia. Em Zootopia 2, após desvendarem o maior caso da história da cidade, Judy e Nick são surpreendidos por uma ordem do Chefe Bogo: os dois detetives precisarão frequentar o programa de aconselhamento Parceiros em Crise. A união da dupla é colocada à prova quando surge um mistério ligado a um recém-chegado à cidade: o misterioso e venenoso réptil Gary De’Snake. Para encontrar as soluções para o caso envolvendo a víbora, Judy e Nick devem desvendar novas partes da cidade, sendo testados o tempo todo. O primeiro filme da franquia de Zootopia conseguiu acertar no alvo e nos detalhes todas as metáforas e piadas antropomorfas que mirou. Sem desperdiçar as mais óbvias e nem as mais refinadas, o texto do filme contemplou um universo de lições para adultos e crianças usando o reino animal como analogia para o mundo real das formas mais criativas possível sem perder o ritmo, sem perder a força e sem perder a graça. O segundo longa mantém a força, o ritmo e também a graça, mas inevitavelmente aparecem situações, falas e até mesmo sequências de ação que parecem repetir o que já foi visto anteriormente. Zootopia 2 também apresenta uma trilha sonora envolvente, que acompanha bem o clima investigativo e os momentos de humor. As músicas ajudam a criar tensão e empolgação de forma precisa. Imagem: Divulgação No entanto, visualmente falta um apelo diferente. A produção segue a estética característica do primeiro longa, sem se arriscar tanto quanto outras animações recentes. Um exemplo é Os Caras Malvados 2 (2025), que explora texturas e referências visuais inspiradas em quadrinhos e jogos eletrônicos, criando frescor e ampliando o campo de possibilidades narrativas. Zootopia 2 traz novas referências de cultura pop que enriquecem as entrelinhas e geram momentos muito divertidos. São os detalhes que se destacam mais do que o conjunto, mas ainda assim o filme mantém sentimento, charme e carisma suficientes para agradar quem já se encantou com esse universo. A mensagem agora aponta para grupos sociais diferentes, marginalizados, imigrantes, excluídos. Os répteis, grupo deslocado que tenta se reinserir em Zootopia, são apresentados como um visual inspirado na estética moura-árabe que destoa nas cores, nas formas e nos objetos dos cenários mais urbanos já conhecidos. Além disso, o longa demonstra cuidado na construção do cotidiano da cidade, trazendo pequenos elementos que expandem a vida urbana de Zootopia de forma natural e divertida. A forma como os cenários revelam hábitos, modas, programas de televisão e manias dos habitantes cria uma sensação de mundo vivo e em constante transformação. Mesmo que o visual não avance tanto quanto poderia, a riqueza de detalhes mantém o interesse do espectador e mostra que a franquia ainda tem fôlego para explorar novas camadas do seu universo, algo que os próprios personagens principais chegam a verbalizar. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Hedda

    Tessa Thompson e Nina Hoss abrilhantam o jogo de seduções e aparências dirigido por Nia DaCosta. Imagem: Divulgação Há uma constante atmosfera de morte pairando sobre Hedda desde sua primeira cena, onde a personagem-título (Tessa Thompson) reage com certa indiferença ao fato de que uma pessoa foi baleada na festa realizada em sua casa. Mesmo quando voltamos aos eventos que culminaram nesse tiro, essa atmosfera permanece, seja na tentativa de suicídio implícita de Hedda (e que dialoga com sua cena final) ou na constante exibição de armas antes e durante a festa. Essa sensação de mau agouro ajuda a nos lembrar constantemente de que o que estamos vendo em tela é uma grande farsa, um jogo de aparências onde todos usam máscaras enquanto fazem de tudo para serem aceitos neste meio social. A começar pela própria Hedda, interpretada por Thompson como uma mulher disposta a tudo (tudo mesmo) pelo controle da própria vida. A fala mansa, o olhar sedutor, os gestos calculados, o meio-sorriso: Thompson faz uma performance tão dissimulada que é impossível não se deliciar com suas maquinações, bem como o descontrole que emerge a partir do momento em que vemos Eileen Lovborg (Nina Hoss) entrar em cena. Mesmo antes de Hoss aparecer em tela, a direção e o texto de Nia DaCosta não nos negam que essa mulher é o grande amor da vida de Hedda, ao invés do seu patético marido George (Tom Bateman) ou o cínico amante Brack (Nicholas Pinnock). A primeira cena de Hoss é filmada com tanto impacto – reduzindo os sons ambientes e a música quase ao silêncio – que é impossível dissociar nossa reação da de Hedda, como se ficássemos sem ar tanto quanto a personagem. Assim, a grande força de Hedda vem da oposição e da tensão entre as duas personagens, e é quando orbita entre elas e se centra nas performances de Thompson e Hoss que ele mais brilha. Não que o restante do elenco não seja competente, mas sabiamente DaCosta confere o maior foco da obra a elas. Imagem: Divulgação A diretora também se empenha em conferir o maior dinamismo possível ao filme, como se numa tentativa de afastá-la das suas raízes teatrais (trata-se de uma adaptação da peça homônima do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen). Assim, os movimentos de câmera, sempre acompanhando intensamente os personagens ou adotando uma câmera mais trêmula e instável, a trilha percussiva e jazzística de Hildur Guðnadóttir, ou as releituras em termos de questões de raça, gênero e sexualidade, são alguns dos meios pelos quais DaCosta cria uma obra ligeiramente anacrônica, interessada em oferecer uma nova visão sobre a peça de Ibsen. Tenho para mim, contudo, que na tentativa de se afastar da natureza teatral do texto, a diretora acaba por fazer um trabalho que está um tom acima do próprio filme. Como resultado, diversas cenas que pedem por maior silêncio e introspecção, ou que estão mais ancoradas no texto e na performance do elenco, acabam por ser sobrecarregadas pela câmera enérgica ou a trilha um tanto intrusiva de Guðnadóttir. A própria atmosfera agourenta do filme acaba sendo saturada pelo mergulho numa tensão que quase nunca se concretiza, até mesmo no clímax ou na sequência final. Apesar dessa discrepância tonal, Hedda é um interessante estudo sobre desejos, repressões e dissimulações, sobre até onde se é possível ir para se obter tudo que queremos ou achamos ter direito. É um desvio interessante por parte de DaCosta, que consegue imprimir uma visão aqui certamente mais autoral do que nos blockbusters recentes que dirigiu, e brilha sobretudo pela intensidade magnética de Thompson e Hoss, com duas das minhas performances favoritas do ano. Nota: 3.5/5

  • Entrevista | Gabriel Martins fala sobre “O Natal dos Silva” e o poder das pequenas revoluções familiares

    A primeira série da Filmes de Plástico estreia seu primeiro episódio no Canal Brasil em 27 de novembro, explorando luto, afeto e humor ácido em meio às tradições natalinas brasileiras. Imagem: Divulgação Rodada em Belo Horizonte e criada por Gabriel Martins, O Natal dos Silva acompanha uma família negra em seu primeiro Natal após a perda da matriarca. Dividida em cinco episódios exibidos semanalmente no Canal Brasil (e disponibilizada no dia seguinte no Globoplay), a série mistura comédia, memória afetiva e conflitos cotidianos, apostando em uma estética plural em que cada capítulo assume tom e linguagem próprios. É uma produção que ressignifica símbolos natalinos, revisita dinâmicas familiares e enxerga beleza até nos momentos mais duros, com um elenco inteiramente mineiro que reúne profissionais do cinema, do teatro, da música e atores não profissionais. Nesta entrevista ao Oxente Pipoca, Gabriel Martins comenta as inspirações por trás da série, os símbolos que decidiu recriar, o desejo de lançar episódios semanalmente e o desafio de equilibrar humor ácido com um luto tão recente. Ele também fala sobre a trajetória da Filmes de Plástico, sobre como construir obras que dialogam com o público sem abrir mão da identidade do grupo e antecipa o que vem por aí para quem acompanha o trabalho da produtora. Confira a conversa completa abaixo. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Primeiro de tudo, eu assisti ao primeiro episódio da série e, nossa, adorei. Eu até comentei que não esperava rir tanto, porque achei que seria algo mais dramático, mais carregado de emoção. Mas me surpreendi rindo horrores logo no primeiro capítulo. Queria começar entendendo como surgiu essa ideia de fazer uma série ambientada justamente no Natal, uma data tão significativa para o povo brasileiro. O Natal é algo que une todas as tribos, todos os tipos de família. De onde veio essa inspiração e como foi desenvolver esse conceito dentro da série? Gabriel Martins: Que massa. É um prazerão estar falando com você. A minha família, como várias famílias brasileiras, principalmente por parte do meu pai, é uma família grande, uma família de nove irmãos. Alguns deles, inclusive, já até faleceram, e isso está de alguma forma presente na série. Mas, acima de tudo, é uma família que sempre comemorou muito o Natal. O Natal sempre foi muito importante para a minha família. A gente sempre teve essa coisa do amigo oculto tradicional, da ceia, daqueles rituais meio indefinidos que todo mundo segue. E isso sempre me inspirou muito, sempre virou uma referência porque já estava lá, fazia parte da minha vida e da minha família. Além disso, minha família já teve alguns Natais com pequenos conflitos. Teve um Natal particularmente em que um conflito maior acabou estourando, mas, na maior parte do tempo, minha família não é muito conflituosa, embora existam várias questões ali debaixo dos panos. E eu queria muito escrever uma série sobre isso, sobre o Natal como um grande momento de confraternização e afeto, mas também de melancolia. A origem da série também vem muito da ideia das fotos de família. Para mim, sempre ficou essa pergunta: o que existe por trás das fotos de eventos? Quando a gente vê uma foto de Natal com uma família de vinte, vinte e cinco pessoas, a imagem registra alegria, mas sempre tem algo por trás. É alguém que estava sem grana, alguém que não se dava bem com outro, e está lá na foto mesmo assim. Isso acaba sendo o norte da série. O Natal dos Silva é uma série sobre eventos, sendo que a primeira temporada é o Natal, e as outras temporadas vão ser sobre outros eventos da família Silva. E essa ideia das fotos sempre foi um grande motivador para mim, pensar em qual história existe por trás de uma imagem que fica registrada. São esses elementos: o Natal como algo muito próximo de mim, as fotos de família e tudo que surge a partir disso. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Como eu comentei, eu achei muito curioso o humor da série. É aquele humor bem ácido logo no primeiro episódio, mas ao mesmo tempo tem esse sentimento de nostalgia, de luto, de estar vivendo o primeiro Natal sem aquela pessoa que era meio que a cola de todo mundo. E eu queria saber como foi para você balancear essas duas coisas, tanto no roteiro quanto no contexto geral da série. Como foi encontrar esse ponto em que a comédia funciona, diverte, faz a gente rir, mas também faz pensar e lembrar da própria família? Gabriel Martins: Eu acho que isso está bem no DNA do Brasil de alguma forma. A gente é um país em que a tristeza e a alegria se confundem o tempo todo, principalmente quando existe muito conflito. Então esse tom veio muito naturalmente. Aquele clássico “rir para não chorar” faz muito sentido, especialmente dentro do contexto da família Silva. Quando eu escrevo essa série, eu penso nas circunstâncias daquela família e também nos atores que vão interpretá-la, porque muitos deles têm um dom muito forte para a comédia. Esse humor também funciona como um disfarce para alguns personagens. As brigas, por exemplo, trazem um certo constrangimento que acaba ficando engraçado. No final do primeiro episódio, quando as personagens começam a gritar uma com a outra, a gente ri um pouco de nervoso. Isso até está no trailer e é exatamente o que acontece às vezes. Ao mesmo tempo, eu gosto muito dessa camada de sutileza, dessas linhas muito finas costurando as tensões, muitas vezes colocadas nos silêncios. É realmente uma montanha-russa de emoções, e acho que esse primeiro episódio mostra bem isso. Ele tem vários volumes: começa com uma conversa tranquila entre um casal no quarto, depois chega num volume muito alto com a Bel, que é intensa praticamente o tempo todo, e depois volta para uma conversa no banheiro, mais íntima, para então explodir de novo. Essa oscilação é uma característica da família Silva. A família Silva tem pessoas que ocupam lugares muito diferentes. Tem os que têm o volume alto, os que têm o volume baixo, e isso acaba gerando conflitos, porque às vezes eles não sabem lidar uns com os outros justamente por causa dessas diferenças. Então essa variação de gêneros, de temas e de humores está no DNA dessa família diversa. Se todo mundo fosse igual, ninguém ia aguentar. Então esse equilíbrio, ainda que sempre meio desequilibrado, vem dessa multiplicidade. Não tinha como registrar essa família de outra forma. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Outra coisa que eu achei bem bacana foi isso que você comentou na primeira resposta, sobre pensar a série como algo quase analógico, que acompanha vários momentos da família ao longo do tempo. Eu queria saber se você pode falar um pouquinho mais sobre essa ideia. E aí aproveitando, queria perguntar uma coisa. Eu não sei como é em Minas, se vocês comemoram muito Festa Junina, mas aqui em Aracaju é uma tradição enorme, é praticamente a data mais importante do ano. Então fiquei pensando: será que podemos sonhar com uma temporada de São João? Gabriel Martins: Seria uma grande ideia, porque aqui em Minas também é muito forte. O momento da Festa Junina toma a cidade inteira. A minha família sempre comemorou muito, eu participo bastante. As festas juninas seriam realmente uma boa ideia, que eu ainda não tinha pensado exatamente, apesar de já ter flertado um pouco com isso. Eu não vou falar exatamente para onde a série vai, porque a segunda temporada já está escrita. Ela já existe enquanto texto, e agora estamos esperando os resultados da primeira temporada para ver se vai rolar mesmo ou não. Vamos torcer, pelo menos eu estou torcendo para que aconteça. Mas está bem evidente qual é a segunda temporada pelo final da série. Quando você assistir, você vai entender. Está tudo escrito lá, fica muito claro o que vai ser. Então nem preciso dizer, quando vocês assistirem já vão sacar de cara. Mas eu acho que sim, cabe muita coisa. No início eu até pensei se seria só sobre os Natais, mas comecei a achar que seria mais interessante explorar outros momentos da família Silva. O Natal dos Silva é o nome da primeira temporada, mas o “Silva” em si virou essa ideia maior da série. É como se cada temporada fosse sempre algo “dos Silva”. A série não tem necessariamente um único título fixo, porque sempre vai acompanhar esse núcleo em diferentes situações. Eu já tenho várias ideias do que pode ser esse futuro, e principalmente do que esses futuros criam de gatilhos. Cada evento desperta uma sensação diferente, um tipo de conflito, um clima específico. Mas uma coisa que eu posso dizer sobre o futuro é que existe esse desejo de que cada temporada encapsule um evento da família dentro de um período fechado. Pode ser um único dia, ou dois dias, ou o tempo que aquele evento durar. Acho que isso cria até um certo pacto com o espectador, uma expectativa divertida. Algo como: agora vamos ver essa família numa festa junina. Ou num casamento. Ou num velório. Ou num aniversário. Ou na Páscoa. Ou na formatura de alguém. Enfim, existem muitos eventos possíveis, e cada um deles cria possibilidades totalmente novas para essa família. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Além disso, eu queria fazer um comentário sobre algo que eu achei muito legal. A gente está muito nessa vibe de maratonar, de receber uma série inteira de uma vez, cinco episódios, assistir tudo e pronto, deixar para lá. E quando eu vi que a série seria lançada de forma seriada, semanal, isso me encantou. Eu pensei: nossa, está tão difícil ver uma série sendo lançada assim, no seu tempo, episódio por episódio, para a gente digerir o que assistiu, conversar com outras pessoas que também estão acompanhando. Eu acho isso muito legal, e queria saber se você também tem essa impressão. Foi algo que vocês planejaram desde o início ou acabou surgindo no processo? Gabriel Martins: Com certeza era o meu desejo, um desejo pessoal mesmo, que felizmente a gente conseguiu fazer com o Canal Brasil, porque o Canal Brasil tem essa natureza do ao vivo. Não é um lançamento direto para streaming. É um lançamento que, embora no dia seguinte os episódios já estejam disponíveis, tem esse lugar de parar no canal e assistir no horário, e eu acho isso muito legal. Principalmente por estar relacionado com o Natal, porque acho que vai ser possível vivenciar a série ao longo desse tempo em que as cidades e as pessoas estão vivendo o Natal, inclusive terminando no próprio dia 25. Isso era um desejo muito forte. Por um tempo a gente até pensou: será que começamos a passar só no Natal? Mas acho que ficou tão massa acompanhar desse jeito. Ontem mesmo eu estava montando a árvore de Natal da minha casa com a minha filha. A cidade começa a se transformar, e junto com isso a gente vai experimentando a série. E eu acho massa que, quando um streaming lança tudo de uma vez, as pessoas acabam experimentando de uma forma meio dessincronizada. E o capítulo por semana favorece essa vivência mais coletiva. Está todo mundo ali vendo no dia, ou pelo menos tem a possibilidade de ver no dia. Mesmo quem não vê na hora, sabe que é aquele episódio. Então, durante a semana, todo mundo conversa sobre aquele capítulo. Não é alguém que já viu cinco e outro que viu só dois. Todo mundo viu aquele um e precisa esperar do mesmo jeito para ver o dois. Isso gerou várias séries muito legais, como Game of Thrones e outras que foram assim. Essa expectativa de “tá chegando o dia”, “o que vai acontecer”, cria uma coisa que hoje em dia, com tanto conteúdo, é difícil de encontrar. Então acho legal valorizar a individualidade de cada episódio também. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Agora eu queria te perguntar se teve algum filme ou série de Natal que te influenciou ou até te desinfluenciou. Algo que você tenha assistido e pensado: “Não, isso aqui eu não quero fazer na minha série.” Teve alguma referência específica, seja positiva ou negativa? Gabriel Martins: Eu acho que tem algumas coisas que reverberam aqui que não são necessariamente de Natal. Tem até um filme que eu fui rever depois que a série já estava pronta, que é Crooklyn, do Spike Lee. É um filme muito sobre família, e quando eu estava assistindo pensei: nossa, talvez eu tenha projetado isso inconscientemente, porque eu não estava pensando nesse filme enquanto escrevia, mas faz todo sentido. É uma família com vários irmãos, crianças, conflitos… tem uma ligação ali com a série. Mas não teve uma série especificamente que tenha definido essa coisa da briga ou a forma como os personagens entram em conflito. Cinematograficamente, eu tinha um pouco algumas referências do John Cassavetes, especialmente no episódio 1 e no episódio 5, com uma câmera mais livre. Um filme dele, Faces, acabou sendo uma referência meio intuitiva. E, para mim, todo o universo de Esqueceram de Mim tem uma atmosfera que, embora não esteja diretamente na série, conversa um pouco. A família do Kevin também é enorme, e mesmo que o filme depois foque mais nele sozinho, sempre existe aquele começo com todo mundo em conflito, aquela bagunça. Isso sempre ficou comigo. E acho que tem um certo espírito ali que é muito evocado pela trilha do John Williams. A trilha de Esqueceram de Mim sempre me trouxe um sentimento muito específico, e eu tentei passar isso para o Daniel Silvio Antunes, que compôs a trilha original de O Natal do Silva. E eu acho maravilhosa, porque é um abrasileiramento desses elementos americanos. Ele achou isso no chorinho, na sanfona, em alguns instrumentos… uma maneira brasileira de falar sobre o Natal. E teve também as trilhas do desenho do Charlie Brown. Os episódios de Natal sempre me marcaram muito, com aquela coisa bonita e melancólica ao mesmo tempo. Então essas músicas me influenciaram até mais do que filmes ou séries em si. Imagem: Divulgação Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Uma coisa que eu queria falar com você também é sobre a Filmes de Plástico. Porque ela se tornou um polo mesmo de cinema, de mostrar atores e de nos fazer conhecer outros atores, divulgar o cinema mineiro de uma forma geral. Eu queria saber, para você especificamente, como é lidar um pouco com essa responsabilidade. Porque eu ainda estou um pouco no meio do cinema e vejo que vocês acabam sendo uma grande influência para o pessoal que está na faculdade e tudo mais. Vocês são uma produtora que está fora do eixo Rio–São Paulo e que está conseguindo levar essas histórias para muita gente. Gabriel Martins: Eu me sinto muito grato, na verdade, porque eu acho que não é sempre que as pessoas se identificam com o trabalho de uma produtora. No Brasil isso não é tão comum, às vezes as pessoas veem certos filmes, mas não conseguem dizer muito: “Ah, eu sou fã dos filmes da...”. Então, acho que o fato de as pessoas localizarem isso na nossa produtora, que é basicamente formada por três diretores, com três visões diferentes, embora se interseccionem em muitos aspectos, e verem a nossa voz como uma voz parecida, como uma ideia de cinema da qual elas gostam, eu não vejo nem como um senso de responsabilidade, mas como um senso de gratidão. E isso me motiva a fazer obras cada vez melhores, querendo manter essa conexão com as pessoas. Mas eu não vejo como um fardo, eu vejo como uma vontade de comunicação, inclusive de desafiar. De pensar: “Ah, quem gosta do nosso trabalho... então acho que vou fazer isso aqui, porque isso aqui é importante para mim”. A gente não faz necessariamente baseado em uma métrica do público, a gente faz coisas que a gente realmente gosta, porque a gente gosta de fazer desse jeito. Só que, entendendo que as nossas obras vão chegando às pessoas, eu também fico com esse desejo de desafiar o público. Eu acho que O Natal dos Silva é uma série surpreendente; quem começa a assistir não tem muita noção de onde vai dar. É uma boa ilusão: você assiste um pouco e pensa que vai ser de um certo tom, e esse tom muda, varia, surgem várias outras relações. Eu acho isso importante. Eu gosto que as pessoas que já conhecem o nosso trabalho possam ver uma coisa nova e se surpreender, não sentirem que estão vendo “a mesma coisa”, que é tudo igual. A cada filme e agora série tem uma camada diferente, outro tom, e até o mesmo elenco está fazendo personagens completamente diferentes. Isso eu acho muito legal e também um gesto de respeito ao desejo que as pessoas têm de dar atenção ao nosso trabalho. Da nossa parte, eu quero retribuir esse respeito na forma de boas imagens, bons filmes, filmes desafiadores, coisas que possam ser diferentes, outros tons. Acho que a gente tem tentado fazer isso. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Como a gente tinha falado até sobre o Natal, que é uma data que carrega muitos símbolos aqui no Brasil, eu queria saber se teve algum símbolo natalino específico que você quis ressignificar, tanto para você quanto, sei lá, para quem vai assistir. Gabriel Martins: Acho que, na série, uma coisa que tá colocada desde o primeiro episódio e que eu acho bem legal é o fato de a árvore de Natal não ser uma árvore de Natal, um pinheiro artificial, mas um pé de manga da família. Isso é um elemento ficcional que eu construí, não é algo que tirei de uma experiência real, embora eu já tenha morado em casas com pés de manga, inclusive uma casa do meu avô tinha um pé de manga. E quando a gente encontrou essa casa como locação, felizmente ela tinha esse pé de manga com uma estrutura que imediatamente me trouxe essa ideia: “Por que a gente não faz desse pé de manga a árvore de Natal da família?” Porque seria algo completamente original, um gesto que já diz muito sobre o que a série é. Além disso, acho que responde aos personagens, ao fardo dessa casa, ao que essa casa representa, à ausência dessa mãe… é literalmente uma árvore genealógica. E o fato de todo mundo já chegar e automaticamente colocar os presentes ali remete a outros Natais também. Então, pra mim, esse é um elemento muito especial da série, talvez uma das minhas coisas favoritas: esse pé de manga que reflete tantas coisas que a série está dizendo, mesmo nas entrelinhas, e que torna muito bonita essa ideia desses quintais brasileiros ressignificados e das memórias que eles carregam. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Você já falou um pouco do Natal do Silva, né, que talvez renda mais antologias e que a gente ainda vai ver mais dessa família. Mas eu também queria saber o que a gente pode esperar da Filmes de Plástico nos próximos anos. O que é que os fãs podem receber aí? Gabriel Martins: Eu acho que o que eu posso adiantar é que agora a gente tá lançando essa série, né? Os cinco episódios chegam entre novembro e dezembro. E no ano que vem a gente pretende lançar dois novos longas: o novo filme do André Novais Oliveira, que se chama Se Eu Fosse Vivo Vivia, e o meu novo longa, Vicentina Pede Desculpas. Então já tem esses dois projetos pra sair, que estão basicamente ali saindo do forno, e são filmes muito especiais pra gente. A gente fica muito feliz de finalmente poder colocar no mundo e, claro, de poder falar sobre eles com vocês no futuro. E além desses dois, tem outros projetos que a gente deve começar a filmar em breve, mas aí ainda não posso comentar muito. Por agora, o que dá pra dizer é isso: temos dois longas chegando e que estão muito no nosso coração. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): E aqui no Oxente eu sempre peço para todo mundo que entrevisto uma dica de filme ou série brasileiro. Pode ser um favorito seu, algo que você ache que vale a pena mencionar para os nossos seguidores, mas não pode ser o que a gente tá conversando agora. Algo que você sinta no momento que precisa indicar, que as pessoas realmente deveriam assistir. Gabriel Martins: Acho que eu vou falar de um filme que estreou este ano, mas não sei se o grande público realmente entrou em contato com ele, que é o filme brasileiro chamado Oeste Outra Vez. É um filme dirigido pelo Érico Rassi, que eu acho que é um filme muito importante, muito bem dirigido, realmente único, e acabou se tornando um dos meus favoritos. Eu inclusive botei na minha lista de filmes favoritos do século, nas listas do Globo que eu participei. Então, recomendo muito. E acho que, para um público geral, eu vou falar da cinematografia de uma pessoa que, embora seja até conhecida, talvez o grande público não tenha mergulhado tanto, que é a obra do Eduardo Coutinho. O Coutinho tem filmes incríveis, é um documentarista brasileiro, mas também fez projetos experimentais. Eu gosto muito de Jogo de Cena e de Cabra Marcado para Morrer. No meio do cinema todo mundo conhece o Eduardo Coutinho, mas talvez quem está escutando o seu canal, pessoas que estão começando no cinema agora, não tenham ainda se aprofundado. Ele é um dos diretores que mais me influenciaram, apesar de ter projetos mais diretamente documentais. É um dos cineastas que eu mais cito como referência do cinema brasileiro, pela maneira como ele conseguia extrair coisas muito bonitas de pessoas reais, do mundo real, que é o tipo de personagem que eu trago nos meus projetos. Então eu colocaria o Coutinho como uma dica para as pessoas pesquisarem mais sobre os trabalhos dele, porque tenho certeza de que vai valer muito a pena.

  • Crítica | O Sobrevivente

    Humor e boa ação não salvam o longa de ser uma bagunça descompensada. Imagem: Divulgação O Sobrevivente retrata uma realidade sombria que se passa no ano de 2025, nos Estados Unidos, onde a economia está em colapso e a violência global se intensifica. Nesse cenário caótico, Ben Richards (Glen Powell) encontra sua única chance de salvar a família ao se voluntariar para participar do violento game show The Running Man. No programa, os participantes precisam escapar de uma equipe de assassinos profissionais enviados para matá-los durante 30 dias, com a promessa de ganhar um prêmio em dinheiro. Se sobreviver, Ben conseguirá ajudar sua filha doente e tirar sua família da pobreza. O Sobrevivente explora temas como controle estatal, manipulação da mídia e a luta desesperada pela sobrevivência em um mundo cada vez mais brutal e desumanizado, refletindo preocupações sociais e políticas que ainda ressoam fortemente. Edgar Wright é um dos cineastas contemporâneos de cinema pop frenético que mais consegue jogar com o caos. Todos os seus trabalhos anteriores são facilmente reconhecíveis pelo excesso visual e por uma montagem picotada que dentro de suas propostas estilística funcionam com precisão, mesmo que algumas vezes não contribuam diretamente para o bom andamento narrativo e sirvam apenas como acessórios. Mas o fato é que o diretor sempre soube controlar esse ritmo acelerado de hiper estímulos visuais e sonoros, mas em O Sobrevivente ele perde a mão da situação completamente. Imagem: Divulgação O resultado é um filme que soa antiquado em quase todos os sentidos, como se tivesse sido feito para um público que não existe mais. O visual é pobre e sem unidade, com uma direção de arte que se limita a repetir soluções vistas e revistas em outras produções distópicas, sem qualquer frescor ou identidade própria. Os personagens também não ajudam, pois parecem meras reencenações de arquétipos já utilizados em inúmeros outros filmes semelhantes, sem vida própria e sem um desenvolvimento dramático que sustente suas jornadas ou desperte verdadeiro interesse. Ainda assim, o longa não chega a ser totalmente tedioso porque o humor irônico típico dos trabalhos anteriores de Wright e algumas boas sequências de ação acabam funcionando como pequenos impulsos em meio à bagunça. São momentos de energia que impedem o filme de afundar de vez, mesmo que o enredo em si não apresente qualquer apelo narrativo que o torne realmente relevante, especialmente considerando que se trata de uma segunda adaptação de um romance publicado há mais de quarenta anos. Ao final o público fica com a sensação de que O Sobrevivente perdeu a oportunidade de se atualizar, se é que reinvenção foi alguma vez a proposta aqui. Nota: 2/5

  • Entrevista | “Começo o filme com o desejo de ser pai e termino entendendo que também fui filho”: Leandro Wenceslau fala sobre seu novo documentário “LAR”

    Em entrevista ao Oxente Pipoca, o diretor conta como foi revisitar sua própria história para refletir sobre a delicadeza do convívio familiar. Imagem: Divulgação O documentário “LAR”, dirigido pelo mineiro Leandro Wenceslau, teve sua estreia em 13 de novembro, nos cinemas de Belo Horizonte, Salvador, São Paulo e Vitória. A obra retrata o cotidiano de três famílias LGBTIAPN+ através do olhar sensível de seus filhos. Enquanto estes jovens navegam entre desafios e alegrias, o diretor entrelaça sua própria história de busca por identidade e pertencimento. Em paralelo às histórias retratadas, Wenceslau fala da sua própria jornada de autodescoberta, revisitando lembranças de infância e sua busca por um lugar no mundo. O resultado é um retrato íntimo, que amplia o conceito contemporâneo de lar, família e pertencimento. O Oxente Pipoca entrevistou o diretor, que falou sobre sua experiência de imersão ao conhecer as famílias, do desafio de se colocar em foco na narrativa e do que ele busca propor com o filme. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Leandro, tem uma cena em especial em que uma das crianças diz: “aproveita que você está em pé e busca uma água pra mim”. Isso me remeteu muito a memórias de infância, a certas relações entre pai e filho, irmão e irmã. Como foi decupar esse material bruto para construir a montagem do filme? Imagino que havia muitas cenas que remetiam até à sua própria infância. Como foi esse processo de escolha e decupagem? Leandro Wenceslau: Foi um processo, né? Acho que, para explicar um pouco o formato ao qual chegamos na lapidação do filme, é importante falar um pouco desse percurso. Fiquei quase dois anos filmando com essas famílias, um processo longo de conhecê-las, fazer imersões e, depois, o que chamamos de pesquisa, já nas filmagens com as famílias. Isso gerou uma quantidade muito grande de material. Acho que o maior norte na montagem era tentar, de alguma forma, entrar no convívio dessas famílias. Enquanto proposta de filme, isso estabeleceu um ritmo, um lugar mais imersivo, e não apenas a escolha de cenas com diálogos profundos. Interessa também esse espaço da rotina, das cenas do dia a dia, que são tão comuns. Por exemplo: você pede para o seu irmão buscar um copo d’água, começa um joguinho: “faz isso pra mim”, e por aí vai. Acho que isso demonstra uma cumplicidade. Nessa cena em específico, temos irmãos adotados, vindos de lugares e idades diferentes. Para mim, a montagem estava muito mais nesses momentos do que nas conversas profundas, que a gente tende a achar que criam os grandes vínculos. Foi por aí, mas foi desafiador, havia bastante material. Encontrar o equilíbrio entre esses dois tipos de momentos era essencial para conhecer a dinâmica desses personagens e dos gestos corriqueiros. Acho que foi isso que buscamos na montagem. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Uma coisa que me chamou atenção é que o documentário toma ciência de si em alguns momentos. A narração reconhece o próprio filme, especialmente nas cenas do parque de diversões. O documentário sabe que é um documentário. Essa escolha foi pensada desde o início ou surgiu ao longo da produção? Leandro Wenceslau: Essas inserções em que começo a narrar e entrar ali como locutor, colocando minha vida no filme, foram algo que fomos entendendo ao longo da montagem. Como fazíamos as imersões, tínhamos esse material, e percebemos que era importante colocar um pouco do processo e da minha relação com o filme, porque ele nasce de momentos muito distintos. Ele nasce de um desejo, mas se transforma ao longo dos anos da sua feitura. Acho que foi importante seguir esse caminho, uma escolha que surgiu pela necessidade de mostrar por que aquele filme existia. Tem a ver com a forma e com o conteúdo. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): “LAR” nasce de uma experiência autobiográfica, como você menciona na narração. Em sua trajetória como cineasta, em que momento você sentiu a necessidade de trazer sua história pessoal? Quando percebeu que ela precisava fazer parte de um dos filmes da sua cinegrafia? Leandro Wenceslau: Esse é meu primeiro longa. Já fiz alguns curtas, a maioria ficcionais, embora lidassem com questões LGBT+. Mas nunca foram filmes em que eu sentisse necessidade de me colocar como em “LAR”. Este filme tinha uma particularidade: ele não nasce de uma vontade de fazer um filme, ele nasce do desejo de ter um filho. Quando comecei as entrevistas, uma coisa me chamava atenção: nas conversas com famílias sobre o tema, os filhos quase nunca eram ouvidos ou participavam. Você ia à casa, as crianças estavam brincando, os adolescentes no quarto, e não eram chamados para conversar. Os pais, psicólogos, líderes — essas figuras de autoridade — assumiam o centro da discussão. Para mim, as figuras centrais, que são os filhos, eram deixadas de lado. Como se não soubessem elaborar suas questões. Claro que há um grau de entendimento diferente ao falar com uma criança, mas mesmo sem verbalizar, elas colocam seus sentimentos de outras formas. O filme nasce do desejo de voltar o olhar para essas crianças e adolescentes. E acho que trazer minha experiência acabou sendo importante. Era difícil me desassociar desse olhar e não olhar para mim. O grau de abertura das pessoas que me recebiam, eu entrando literalmente na casa delas, era muito verdadeiro e profundo. Eu sentia que não podia me colocar como simples observador, registrando algo tão próximo da minha vida. Começo o filme com o desejo de ser pai e termino entendendo que também fui filho. Foi um desafio. Não sou alguém que gosta muito de se expor, então tive receio de como participar. Mas fui entendendo que nem era tanto sobre mim. Minha história é também a de outras pessoas. Hoje fico feliz em ser um personagem (risos), mas foi um processo. Imagem: Divulgação Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Pegando esse gancho, o filme valoriza muito os momentos cotidianos. E mostra que o afeto familiar vai além de noções pré-estabelecidas de como uma família deve parecer. Que tipo de conversa você espera provocar com “LAR”, tanto nas famílias quanto fora delas, profissionais da adoção, políticas públicas e o público em geral? Leandro Wenceslau: Acho que quando carregamos uma idealização rígida do projeto de família, isso se distancia muito da realidade. Mesmo nas famílias “pai, mãe e filhinho”, sempre existem fissuras que não se encaixam no modelo que a sociedade impõe. O que eu gostaria de provocar com o filme — e acho que é sua grande potência — é que as pessoas se reconheçam nessas outras possibilidades de configuração familiar, nessas outras formas, nessas questões e desafios que atravessam todas as famílias. As famílias são muito mais do que conexões consanguíneas. Elas têm valor e o direito de existir, de não sofrer preconceito, de não serem atacadas por serem quem são. É um desejo quase utópico, mas acho que um pequeno movimento pode ajudar a ampliar a consciência sobre essas existências e sobre a diversidade da sociedade. Elas amam, sofrem, enfrentam desafios e merecem garantia de direitos. É um movimento humano, mas também político. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Para finalizar, queria que você indicasse três filmes brasileiros para o público do Oxente Pipoca. Leandro Wenceslau: Vou indicar “Helena”, da Petra Costa, um filme que me serviu de referência para “LAR”, pela forma como ela se coloca. Também “Edifício Master”, do Eduardo Coutinho, e “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”, do Karim Aïnouz. Todos muito relevantes para a cinematografia brasileira e muito inventivos.

  • Crítica | Slow Horses (5ª temporada)

    Mesmo em temporada ligeiramente inferior, os pangarés da AppleTV continuam brilhando. Imagem: Divulgação É bizarro pensar que nos três anos que separam a temporada anterior de Stranger Things da vindoura (que estreará na próxima semana), Slow Horses já conseguiu emendar nada menos que cinco temporadas em sequência. O drama de espionagem (ou seria comédia de espionagem?) da AppleTV evoluiu de “apenas” mais uma série no catálogo pouco divulgado do streaming para um de seus carros-chefes, acumulando indicações e prêmios em quantidade cada vez maior a partir da terceira temporada. Neste novo ano, que adapta o quinto livro da série original escrita por Mick Herron (intitulado London Roles), os pangarés liderados pelo irascível Jackson Lamb (Gary Oldman) se veem às voltas com um inimigo a princípio invisível, mas que parece ter especial interesse num deles, o detestável Roddy Ho (Christopher Chung). Conforme ataques vão se desenrolando em Londres, apontando para uma velha estratégia utilizada pelas próprias forças britânicas em outros países, fica claro que quem quer que esteja por trás do ataque, quer fazer o Reino Unido provar do seu próprio veneno – a não ser que os pangarés os impeçam a tempo. A essa altura, é evidente que cada temporada de Slow Horses trabalha dentro de uma fórmula bem-estabelecida, mas a graça é ver justamente como a série consegue se reinventar e trazer frescor a cada vez. Aqui tem-se uma temporada que aposta mais na coletividade, depois de um quarto ano que era mais centrado em River (Jack Lowden) e seu passado familiar, e onde se viu Oldman um tanto subutilizado. Dessa vez o ator veterano tem espaço mais que suficiente para roubar todos os holofotes possíveis, não poupando ninguém com suas tiradas implacáveis, mas também com instantes de maior latitude dramática, como seu monólogo no terceiro episódio, que certamente servirá de Emmy Tape para Oldman na próxima temporada de premiações. Quem também encontra espaço para brilhar é Chung, que tem aperfeiçoado a cada temporada a arte de fazer do seu Roddy um dos personagens mais escrotos da televisão contemporânea. O jeito como a série encontra novas formas de ridicularizá-lo pelo seu comportamento incel e completamente sem noção é sempre um primor, ainda que seja possível sentir sua perda de espaço na segunda metade de episódios. Falando em ausências, quem sai de cena cedo demais é Louisa (Rosalind Eleazar), ainda que felizmente a porta fique aberta para o seu retorno – o que, numa série conhecida por matar alguns personagens favoritos sem dó, é um alívio. Imagem: Divulgação Talvez onde a temporada decaia em relação às anterior seja justamente nas figuras antagonistas. Embora parte do mistério deste novo ano seja justamente sobre quem são e quais suas intenções, o prolongamento a respeito dessas revelações numa temporada de apenas seis episódios acaba sacrificando um tanto do impacto que se pretendia que eles tivessem na narrativa. Alguns dos principais motivos pelos quais a terceira e quarta temporadas foram as melhores até o momento se deram justamente pela força dos seus antagonistas/vilões (em especial Hugo Weaving na passada), mas aqui o grupo que emerge das sombras nem de longe deixa a mesma impressão. Além disso, a abordagem sobre eles não deixa de incorrer em velhos tropos que já vimos ao monte em obras ocidentais do gênero – embora haja uma sutil crítica para as práticas nada éticas do Reino Unido sobre países estrangeiros que não chega a ser devidamente aprofundada, mas merece a atenção. Mesmo não atingindo o mesmo grau de brilhantismo das duas temporadas anteriores, o quinto ano de Slow Horses vem mais uma vez para consolidar a excelente qualidade que a série vem mantendo (e desenvolvendo) desde seu início, tão pouco tempo atrás. Com duas novas temporadas a caminho – ver o trailer da próxima ao final desta foi mais uma vez um deleite – é nítida a fé da AppleTV na série, fé essa muito bem justificada a cada temporada que se passa. Afinal de contas, quanto mais incompetentes nossos pangarés, melhor a experiência televisiva. Nota: 4/5

  • Crítica | Five Nights At Freddy’s 2

    Dessa vez a estranheza não assusta nem faz rir. Imagem: Divulgação Five Nights At Freddy’s 2 acompanha Mike Schmidt (Josh Hutcherson), que está passando por alguns problemas financeiros. O jovem encontra a solução para seus problemas ao ser contratado para trabalhar como o vigia noturno em um restaurante familiar tipicamente americano chamado Freddy Fazbear's Pizza, que está atualmente desativado. O primeiro filme da estranha franquia de jogos, embora tenha deixado claro bem cedo que se tratava de uma grande bobagem, apresentou um certo carisma pela excentricidade de seus bonecos e pela curiosidade que gerou em como aquelas histórias ganhariam vida numa produção filmada. Five Nights at Freddys 2 surge como uma continuação que tenta reviver os raros acertos do antecessor, mas fracassa de maneira vexatória. O longa parece empenhado em repetir qualquer lampejo que o original apresentou, porém transforma cada tentativa em algo constrangedor. A narrativa já começa capenga, sem ritmo, sem um estilo de filmagem definido e sem qualquer sinal de ousadia criativa, apenas uma repetição fria e sem alma daquilo que já havia sido feito. Imagem: Divulgação As motivações dos envolvidos são frágeis e completamente desalinhadas, como se tivessem sido criadas de forma improvisada para justificar a existência do projeto. Os personagens retornam à trama sem pontos de partida firmes, parecendo ter sido inseridos apenas para preencher lacunas inexistentes. O reaparecimento do papel de Matthew Lillard é o exemplo máximo disso, já que ele surge sem função dramática, sem relevância para o enredo e sem qualquer justificativa que faça sentido dentro do universo apresentado. O texto é um emaranhado de pressuposições e ideias pré-moldadas que não dialogam entre si. Nada é realmente contado ao espectador (nada também é relevante a ponto de ganhar destaque), então o longa tenta compensar com diálogos expositivos e embaraçosos que apenas reforçam a fragilidade da construção narrativa. Os momentos de suposto terror raramente funcionam, pois carecem de sutileza, precisão e imaginação, resultando em cenas que provocam mais tédio do que tensão. As interpretações são irregulares, as passagens de ação não possuem clareza e a articulação geral do filme parece ter sido montada de maneira desajeitada tanto no detalhe quanto no panorama geral. O desfecho é desanimador e reforça a sensação de desperdício. O resultado é vergonhoso, marcado por falta de refinamento, escolhas estéticas duvidosas, sintaxe visual nula e uma condução visual que revela pouco cuidado. Nota: 1/5

  • Entrevista | “O cinema não existe”: Cristiano Burlan fala sobre seus filmes “Ulisses" e "Nosferatu”

    Longas são parte de uma série de adaptações literárias feitas pelo diretor, que concedeu entrevista ao Oxente Pipoca. Imagem: Divulgação Reconhecido por sua filmografia vasta e diversificada, o diretor Cristiano Burlan está em uma nova fase da carreira, marcada por adaptações de seminais obras do cânone literário mundial. Em Ulisses, Burlan traz o protagonista de A Odisseia para as ruas da São Paulo atual, ao passo em que em Nosferatu, exibido na 49ª Mostra de SP, ele se propõe a fazer uma releitura de uma das mais famosas encarnações de Drácula. Eles serão seguidos por uma nova versão de Dom Quixote, ainda sem previsão de estreia. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Burlan, que falou a respeito do seu interesse em reler e até subverter essas obras literárias, além das colaborações com gigantes do nosso cinema como Jean-Claude Bernardet e Helena Ignez e também sobre o aspecto intertextual dos seus filmes, que trazem elementos de outras artes. Você pode conferir a entrevista na íntegra abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Tanto “Ulisses” quanto “Nosferatu” são parte de uma trilogia que se propõe a fazer uma releitura experimental e contemporânea de grandes clássicos da literatura. O que te motivou a fazer essa releitura e por que a escolha por essas obras em específico, além de “Dom Quixote”, que será o terceiro filme da trilogia? Cristiano Burlan: Eu tenho sempre uma relação controversa e um pouco ruidosa com esses cânones, e o meu maior interesse é criar propor uma provocação antes de mais nada, porque depois de tantos anos, depois de tanto tempo, algumas dessas obras ainda nos falam. Posso citar, por exemplo, Shakespeare, porque ele é atual depois de quase 500 anos. E como eu sou uma pessoa que vem do teatro, então essas obras tem muita influência na dramaturgia também. Sobre esse conceito de experimental, eu vou discordar gentilmente de você. Eu o acho um pouco limitador, porque o que que é experimental? Alguém que experimenta a forma? Para mim o cinema praticamente não nasceu ainda, ele já tem 100 e poucos anos. Se a gente for comparar à pintura, a literatura, as artes plásticas, ele é praticamente uma arte embrionária e pouco se experimentou nele. A gente está muito preso a um conceito aristotélico em termos narrativos e a um conceito griffithiano em termos de sintaxe cinematográfica. A forma do cinema evoluiu muito pouco, então acho que existem muitas possibilidades. Eu prefiro mais usar o termo “alguém que experimenta” do que “alguém que é experimental”. Tanto no teatro como no cinema, eu não vejo o sentido se eu não me colocar numa posição de risco. Não seria como trabalhar numa fábrica, reproduzir as coisas. E também acho que tem todo tipo de cinema para todo tipo de público e espectador, e na verdade, acho que o cinema nem existe. Essa frase é do Paulo Emilio Salles Gomes, me foi dita pelo meu amigo Jean-Claude Bernardet, que faleceu há pouco tempo: “"O cinema não existe, [o que existe] são filmes e as relações que se constrói durante a pintura do filme e as relações que constrói do filme com o seu público”. Sobre a trilogia, ela na verdade se tornou uma tetralogia, porque além do Dom Quixote, que está mais próximo de ser produzido, eu estou trabalhando numa nova versão de Fausto. Fausto vai ser uma personagem feminina, a Faustina, é uma mãe solitária na periferia de São Paulo, migrante do Rio Grande do Norte e reside no filme numa região onde eu trabalho muito. Minha parceira, a Ana Carolina Marinho [atriz em Ulisses e Nosferatu], é do Rio Grande do Norte, e tem uma um grupo de teatro lá na região periférica, o Estopô Balaio, e reside artisticamente há muito tempo lá. Então, tem esse trânsito de linguagem de teatro e cinema e uma necessidade profunda de me colocar em risco, eu e meus próximos, já que eu não faço cinema sozinho. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Ambos os filmes estão entre as últimas performances do saudoso Jean-Claude Bernardet. Como foi o processo de trabalhar com ele? E também com a Helena Ignez em “Nosferatu”, que aliás tem aquele momento metalinguístico da recriação da famosa cena dela em “A Família do Barulho”. Cristiano Burlan: Antes de mais nada, eles são meus vizinhos e meus amigos. A gente mora aqui no Centro e Jean-Claude fez sete filmes comigo, Helena uns quatro ou cinco, começa a perder a conta. Mas eram parceiros costumazes e, claro, são duas personalidades históricas do cinema brasileiro, pessoas muito vigorosas e exigentes, consigo mesmos e com os outros. O que isso acaba gerando? O trabalho acaba sendo elevado a outros enunciados. Existe uma provocação muito grande e um respeito mútuo também. Jean-Claude foi meu amigo desde 2011, se não me engano. Eu realizei um filme com ele, que a gente até estava montando junto, onde eu fazia entrevistas, ele me entrevistava também. Existia um respeito muito grande meu por ele e a recíproca era verdadeira. Ele foi consultor de alguns roteiros também, além de ter atuado em alguns filmes meus. E era uma pessoa ímpar, não só um pensador ímpar, um ator ímpar. Ele era um ator não convencional na verdade, não se assumia como ator. Eu perguntava: "Se você não é ator, tá fazendo o filme, o que que você é?" Ele falou: "Sou um bailarino". Então, pedia para ele dançasse para minha câmera. E Helena é uma atriz ímpar da nossa cultura, uma entidade. Como eu disse para você, ela antes de mais nada é minha amiga e minha vizinha. Ela sempre tenta se colocar nesse lugar de provocadora também, trabalhou com Sganzerla, com Glauber, com Bressane, e é uma realizadora também. Trabalhou em filmes como O Padre e a Moça, era amiga do Orson Welles, atuou em A Grande Feira, do Roberto Pires, um dos filmes mais importantes do cinema baiano e brasileiro. É uma pessoa que fez parte do nosso cinema e do nosso teatro também, acredito que isso nos une. E sobre essa homenagem, essa piscadela que faço a A Família do Barulho em Nosferatu. Eu acho o Júlio Bressane um diretor fenomenal, até quando ele é menor é superior a tudo que eu vejo. E aí a ideia era fazer essa relação entre a Helena atriz de hoje com a Helena atriz do passado. Eu sou uma pessoa que ensaia pouco, mas conversa, toma muito café, liga para os atores. E os atores falam uma palavra que eu acho muito bonita, “liberdade”. Mas poucos atores utilizaram essa liberdade quando eu a dei. Mas os grandes atores, eles se expandem. E Helena é uma grande atriz, ela tem um profundo domínio do espaço fílmico, chego a dizer que ela tem consciência do valor do plano em que ela está sendo filmada. Imagem: Divulgação Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Me chama a atenção como os filmes fazem essa interlocução com outras artes, como as sequências de apresentações musicais e dança em “Nosferatu”. Você próprio já tem uma carreira muito bem estabelecida no teatro, então o que te motiva a explorar essa intertextualidade nos filmes? Cristiano Burlan: Posso dizer para você que a minha morada é o teatro. Embora eu tenha muita dificuldade em produzir teatro, ele faz parte da minha formação. Então, existe esse transtorno de linguagem, a intertextualidade é um conceito bem apropriado. Ao mesmo tempo, no Nosferatu os textos que eu cito dentro de um espaço fílmico – que aparentemente é um teatro e era um teatro – são de um livro do Bresson, que é um diretor que que de uma certa maneira tentava excluir uma certa teatralidade. Então, o ruído que eu crio ali na cena é porque existe um distanciamento da palavra quando é narrado, e em outros momentos do filme existe quase uma emolduração da palavra. Nos filmes do Bresson os atores falavam como se tivesse lendo o texto, e ele queria excluir uma certa teatralidade. Mas na verdade eu tento trazer no Nosferatu é uma volta à palavra, não ter medo de se emocionar diante de uma câmera e falando uma palavra. Às vezes, a gente escorrega um pouco nessa busca por um certo um falso naturalismo que a TV trouxe e impregnou o cinema. Eu mesmo já reproduzi isso, um certo realismo social de fundo de quintal impregnado por uma interpretação pseudo-naturalista que muito vem da TV, como se os atores não tivessem a capacidade de ser emissores de uma emoção. Eu também não acredito que o ator é responsável por emitir a emoção. Ele é muito mais um receptor de emoção do que um emissor. As artes plásticas também tem muita influência para mim, assim como a música. Na Mostra eu também lancei um filme chamado O Espaço Que se Move, que vem de uma fala do Michelangelo Antonioni para o Jack Nicholson depois que eles terminam o Profissão Repórter: “Jack, me desculpe, mas para mim os atores são e sempre serão um espaço que se move". É um é um conceito muito bonito para se pensar num corpo do ator numa voz que preenche um espaço vazio e um papel em branco. Então com certeza as artes plásticas, a música, a literatura e a arquitetura, tudo isso exerce influência em mim. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca gostamos de pedir aos nossos entrevistados que indiquem filmes brasileiros que achem que nosso público deva assistir. Quais seriam suas indicações? Cristiano Burlan: Indico o trabalho do Aloysio Raulino, que foi um grande diretor e fotógrafo, só dirigiu de longa-metragem o Noites Paraguaias, mas revolucionou o documentário paulista nos anos 1970. Além do Noites, indico também dois curtas dele, Porto de Santos e Lacrimosa. Eu estou revisitando a obra de um diretor paulista que gosto muito, o Ozualdo Candeias. Cito três filmes dele, A Margem, A Opção ou As Rosas da Estrada – esse tem um título duplo – e a versão dele de Hamlet [A Herança]. Também cito um filme que falei aqui, A Grande Feira, e um do [Paulo César] Saraceni, chamado Porto das Caixas, que tem uma fotografia primorosa do Mário Carneiro. Enfim, o nosso cinema é muito rico, muito diverso, esses foram alguns dos filmes que andei revisitando recentemente.

  • A ficção científica nordestina Yellow Cake vai estrear no Festival de Rotterdam 2026

    O filme é dirigido pelo pernambucano Tiago Melo e estrelado por Rejane Faria e Tânia Maria Divulgação: Gilvan Barreto Rodado no sertão da Paraíba, Yellow Cake terá sua estreia mundial na mostra competitiva principal do Festival Internacional de Cinema de Rotterdam (IFFR) 2026. Ao lado de outros 11 títulos selecionados, o longa brasileiro concorre ao principal prêmio do festival, o Tiger Award, concedido pela tradicional Tiger Competition. O júri da edição contará com a presença do cineasta brasileiro Marcelo Gomes entre seus integrantes. Dirigido pelo pernambucano Tiago Melo, Yellow Cake retrata as consequências de um experimento conduzido por cientistas estrangeiros que tentam erradicar o mosquito Aedes aegypti com o uso de urânio. Quando o experimento falha, uma pesquisadora brasileira precisa, com a ajuda de garimpeiros locais, conter o desastre antes que seja tarde demais. O longa marca o retorno de Melo ao Festival de Roterdã, onde recebeu o prêmio Bright Future por “Azougue Nazaré” em 2018. “Estar de volta a Roterdã, agora participando da Tiger, é muito especial… Acreditamos estar no lugar certo para mostrar o filme pela primeira vez, porque nos identificamos com o tipo de cinema que o universo fantástico explorado no longa”, destaca o diretor. Divulgação: Gilvan Barreto Com roteiro assinado por Amanda Guimarães, Anna Carolina Francisco, Gabriel Domingues, Jeronimo Lemos e Tiago Melo, a produção é da Lucinda Filmes, Urânio Filmes e Jaraguá Produções, com coprodução da Cinemascópio e Olhar Filmes. A distribuição nos cinemas brasileiro fica também com a Olhar Filmes. O longa foi realizado com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual, do Funcultura, Sic Recife e Lei Paulo Gustavo, e conta com apoio do Projeto Paradiso para o lançamento no festival. Sinopse oficial: Na cidade de Picuí, no sertão da Paraíba, um grupo de cientistas tenta erradicar o mortal mosquito Aedes aegypti — transmissor da dengue — por meio de um experimento secreto intitulado Yellow Cake. Utilizando o urânio extraído da região, o projeto pretende esterilizar os mosquitos e assim conter a disseminação da doença. A física nuclear Rúbia Ribeiro (Rejane Faria) integra o experimento. Além de Rejane Faria, o elenco conta com Alli Willow, Valmir do Côco, Tânia Maria, Spencer Callaham e Severino Dadá. O Festival de Rotterdam 2026 será realizado entre os dias de 29 de janeiro e 8 de fevereiro, apresentando um total de 428 longas e curtas-metragens.

  • Entrevista | Bruno Barreto, Larissa Manoela e Giovanna Rispoli falam do “desbocado” Traição Entre Amigas

    Em entrevista ao Oxente Pipoca, diretor e protagonistas contam sobre o processo de adaptar o clássico de Thalita Rebouças 25 anos depois. Divulgação Todas nós que fomos meninas ou adolescentes a partir dos anos 2000 e nos interessamos por leitura já ouvimos falar de Thalita Rebouças. A autora carioca é responsável por dezenas de livros, quase todos de ficção voltados ao público juvenil — muitos deles best-sellers. O alcance de sua obra é tamanho que nove filmes, além de uma peça e um musical, já foram adaptados a partir de seus textos. Na última quinta-feira (11/12), estreou Traição Entre Amigas, adaptação de seu livro de estreia, homônimo. Dirigido por Bruno Barreto e coestrelado por Larissa Manoela e Giovanna Rispoli, o longa acompanha a história de duas amigas inseparáveis que, após uma sucessão de desentendimentos, seguem caminhos distintos. Barreto é enfático ao destacar que, ao adaptar a obra original — publicada em 2000 —, não teve “intenção de atualizar” a narrativa, ainda que reconheça a necessidade de uma nova roupagem, mais próxima da juventude de mais de duas décadas depois. "A gente está contando uma história que se passa hoje. Não tinha [no livro], por exemplo, a Penélope ficando com uma menina. Mas a Penélope pegava Deus e todo mundo lá em Nova York, né? Está no livro! Hoje seria mais do que uma também pegar uma menina. (...) Poderia ser atual mesmo não pegando uma menina, mas por que não?", disse ele. É com essa mesma irreverência que conduz toda a produção. Em suas próprias palavras, define o filme como “solto”, “fluido”, “desavergonhado” e “desbocado” — algo que, segundo ele, “não se via no cinema brasileiro há muito tempo”, especialmente no que diz respeito à abordagem da sexualidade. Há, de fato, um frescor em ver um filme juvenil, voltado ao público feminino, tratar de desejo e relações sexuais com tamanha frontalidade. Para além da provocação, Traição Entre Amigas pode ser educativo (sem jamais resvalar no didatismo) e, por isso, libertador. Giovanna Rispoli observa que, “apesar do nosso público ser um público jovem adulto, é um filme que toca mulheres principalmente, em vários lugares, em diversos momentos das suas vidas – ou relembrando uma trajetória, ou refletindo sobre os novos tempos e [percebendo] como a gente pode realmente ser o que a gente quiser”. Encontrar esse tom, no entanto, não foi simples. A narrativa se estrutura a partir de duas linhas paralelas que raramente se cruzam, acompanhando protagonistas que não se falam. Para Barreto, esse foi o maior desafio do projeto — e também a razão de ele ter demorado tanto a levá-lo adiante: "eu tinha esse receio o tempo todo. A gente não testa mais os filmes, né? [depois da pandemia de Covid-19, as sessões-teste estão cada vez mais raras na indústria audiovisual] Então, eu não tinha como avaliar. É uma estrutura totalmente atípica, um campo minado para você se ferrar, que quebra todas as regras de roteiro". Rindo, o diretor admite que ainda hoje se surpreende: “meu Deus, eu não acredito que isso deu certo”. Divulgação Foi justamente nesse período de busca pelo tom ideal que Larissa Manoela e Giovanna Rispoli se juntaram ao projeto. As duas já haviam atuado em outra adaptação de Thalita Rebouças, Fala Sério, Mãe! (Pedro Vasconcelos, 2017), mas ainda não tinham contato com Traição Entre Amigas. Rispoli lembra do impacto imediato da leitura e confessa que seu primeiro pensamento foi: “como ela teve a audácia de contar essa história 25 anos atrás?!”. "É uma história muito potente e que agora, quando a gente traz às telas em 2025 – 25 anos depois –, a gente já percorreu um longo caminho para essas história ser bem recebida por um público mais amplo, que talvez no momento [da publicação] tenha ficado só ali entre as leitoras, esse público feminino que se identificava. Agora pode ganhar ainda mais camadas. A sociedade já está, – graças a Deus! – mais aberta a receber essa história – com as atualizações que a gente teve que fazer, mas com a essência do livro que permanece", comentou a atriz. Larissa Manoela também celebra o reencontro com a obra de Rebouças: “Existe uma magia em adaptar um livro, porque você sai das páginas e materializa um rosto, um corpo, uma presença. É um prazer enorme”. Bruno Barreto – cujos trabalhos incluem adaptações literárias como Dona Flor e Seus Dois Maridos, Gabriela, Cravo e Canela, O Que É Isso, Companheiro?, Bossa Nova e Flores Raras – parece compartilhar dessa visão. O diretor conta que, ao escolher um novo projeto, costuma se perguntar menos qual é a história e mais o que ele pode contar a partir dela – afinal, “você pode contar uma mesma história para falar de coisas diferentes”, segundo ele. Em Traição Entre Amigas, seu foco recaiu sobre o crescimento pessoal que nasce do erro, o que, segundo ele, torna a narrativa mais humana: “eu parto de um erro, de uma escolha, de um impulso, que tem um peso simbólico e deflagra várias outras coisas… e com humor também”. Aliás, o cômico também é característica bastante presente em sua filmografia. Apesar de afirmar não ter medo do melodrama, Barreto diz prezar pelo humor em todas as suas obras “porque a vida não é trágica o tempo todo, nem leve o tempo todo. A vida é uma comédia”. Essa dicotomia também atravessa as protagonistas. Penélope, vivida por Larissa Manoela, é expansiva, impulsiva e espontânea; Luiza, interpretada por Giovanna Rispoli, é mais tímida e introspectiva. A oposição entre as duas se materializa inclusive nos espaços: Penélope habita um verão novaiorquino de cores saturadas, enquanto Luiza vive em uma Curitiba descrita pelo diretor como “cinza, até quando faz sol”, nas palavras do diretor. É em Nova York que Penélope participa de uma audição para interpretar Carmen Miranda — personagem que Larissa Manoela viverá, de fato, em seu próximo filme, também dirigido por Barreto. Questionada sobre a coincidência (ou possível easter egg), a atriz brinca que já existia “um pó de pirlimpimpim de magia ali”. "A Carmen, na verdade, já me visitou algumas vezes, em alguns trabalhos. Em Além da Ilusão, quando fiz minha primeira novela na Globo, é, eu me vesti de Carmen Miranda, porque o ator que fazia meu pai tinha umas alucinações com a minha personagem vestida de Carmen Miranda. A novela que eu tô fazendo agora, Êta Mundo Melhor!, se passa num momento onde a Carmen está em ascensão. Então, a Dita Ribeiro, que é interpretada pela Jennifer Nascimento, uma cantora da rádio, canta várias músicas da Carmen. E quando eu interpretei a Penélope audicionanto para Carmen Miranda na Broadway, eu não sabia que eu estava sendo realmente testada, fazendo uma audição para vivê-la. Depois desses dois anos, fui surpreendida com o convite. Vou ficar muito feliz de dar mais detalhes ano que vem sobre esse projeto, mas já tenho um gostinho porque quando eu vi teve essa camada especial. Fiquei toda arrepiada. Realmente a arte nos surpreende de uma maneira muito especial", afirmou ela. Traição Entre Amigas está em cartaz nos cinemas de todo o Brasil.

  • CRIAS – Cine de Rua Infantil de Sergipe chega à terceira edição e desembarca, pela primeira vez, em Laranjeiras

    Com o tema “Erês no Mundo”, mostra acontece de 19 a 21 de dezembro, com programação gratuita que reúne cinema a céu aberto, oficinas e vivências culturais. Imagem: Divulgação A Floriô de Cinema realiza, entre os dias 19 e 21 de dezembro de 2025, a terceira edição do CRIAS – Cine de Rua Infantil de Sergipe, que, pela primeira vez, acontece fora de São Cristóvão e ocupa a cidade histórica de Laranjeiras. Com o tema “Erês no Mundo”, o evento será realizado no Terreiro Filhos de Obá, primeiro terreiro de Sergipe, e volta seus olhares para o lugar das infâncias nas religiões de matriz africana. Toda a programação é gratuita e contará com intérprete de Libras, garantindo acessibilidade ao público. As duas primeiras edições do CRIAS aconteceram em São Cristóvão, na região do Rosa Elze. A mudança de território, segundo Thais Galindo Ramos, produtora executiva do evento, reforça um princípio que atravessa o projeto desde a sua criação. “A gente sentiu a necessidade de expandir nossa zona de atuação justamente para ampliar essa função de descentralizar o acesso ao cinema, que o CRIAS já carrega desde a sua origem. A parceria com a Sociedade de Culto Afro-Brasileiro Filhos de Obá nos permite alcançar crianças e adolescentes do Vale do Cotinguiba, de Laranjeiras e de toda a região”, destaca Thais. Realizada em uma instituição centenária, reconhecida como patrimônio histórico e cultural de Sergipe pelo IPHAN, a terceira edição assume de forma ainda mais direta o diálogo com as raízes africanas e as religiões de matriz africana. “Pensar o CRIAS dentro do Terreiro Filhos de Obá é também afirmar esse território como espaço de resistência, de memória e de transmissão de saberes. Isso atravessa tanto a curadoria dos filmes quanto a programação para além das exibições”, afirma Thais. Imagem: Divulgação A curadoria desta edição reúne curtas-metragens brasileiros que abordam as chamadas “infâncias enterreiradas”, a partir da percepção negro-religiosa do mundo, dos itans do candomblé e do encontro da criança com a natureza pelo prisma do sagrado e do encantado. “Os terreiros são espaços de convívio ancestral, que salvaguardam modos de vida, formas de organização comunitária e conexão com o sagrado. As crianças ocupam um lugar central nesses espaços, como mostram os Ibejis, os orixás-meninos”, explica o curador Sidjonathas Araújo. A programação tem início na sexta-feira (19) com atividades formativas e vivenciais, todas com vagas limitadas. Pela manhã, das 10h às 12h, acontece a Trilha dos Orixás, um passeio lúdico pelo território do terreiro. Em seguida, das 12h30 às 14h30, será realizado o Banquete de Chão, celebração da culinária afro-brasileira. À tarde, das 14h30 às 17h30, ocorre a oficina “Fotoescrevivência: retratos do nosso mundo”, ministrada pela fotógrafa Luiza Bomfim, utilizando o próprio espaço do terreiro como campo de criação. Para participar dessas ações, é necessário verificar previamente a disponibilidade de vagas pelo WhatsApp da Floriô de Cinema: (79) 99898-9681. No sábado (20), das 17h30 às 19h, acontece a Abertura da Mostra “Abre Caminhos”, com sessão de cinema a céu aberto dedicada ao público infantil, seguida de debate lúdico pós-exibição. O encerramento do evento ocorre no domingo (21), com uma cerimônia, das 17h30 às 18h, seguida da Mostra “Onde está o Erê?”, das 18h às 19h, também em formato de cinema a céu aberto e com conversa lúdica após a sessão. Para além da parceria com o Terreiro Filhos de Obá, a escolha por Laranjeiras passa pelo reconhecimento de sua profunda tradição cultural afro-brasileira e, ao mesmo tempo, pela carência de espaços voltados ao cinema e a ações culturais destinadas às infâncias. “É uma cidade com cerca de 29 mil habitantes e um público infantil expressivo. O CRIAS é pensado para as crianças, mas também para quem está ao redor delas: pais, mães, avós, tios e toda a comunidade”, ressalta Thais. Toda a programação é gratuita e pode ser acompanhada pelas redes oficiais da Floriô de Cinema (https://www.instagram.com/floriodecinema/) e do CRIAS no Instagram (https://www.instagram.com/cinecrias/). Ao chegar à sua terceira edição, o CRIAS se consolida não apenas como uma mostra de cinema, mas como uma plataforma cultural voltada ao protagonismo infantojuvenil, celebrando as potências das infâncias periféricas e tradicionais e reafirmando o compromisso com a descentralização do acesso à cultura e ao audiovisual em Sergipe. A terceira edição do CRIAS é uma realização da Floriô de Cinema, com apoio da Sociedade de Culto Afro Brasileiro Filhos de Obá (SCAFO), e incentivo da Política Nacional Aldir Blanc (Lei 14.399/2022), por meio do Edital 06/2025, executado pela FUNCAP/SE.

  • NYFCC - Wagner Moura traz vitória inédita para o cinema latino-americano

    ‘O Agente Secreto’ leva dois prêmios e consagra o ator brasileiro como o primeiro latino premiado na categoria. Imagem: Divulgação Na última terça-feira (02), o New York Film Critics Circle, associação que reúne o grupo de críticos mais antigo dos Estados Unidos, divulgou os vencedores de sua tradicional premiação anual. Considerado um termômetro importante para a temporada de premiações, o New York Film Critics Circle Awards destacou as melhores performances de 2025 e deu uma prévia do que está por vir em 2026. Entre os destaques da premiação, ‘O Agente Secreto’ ganha fôlego no circuito internacional ao conquistar dois prêmios: Melhor Filme Internacional e Melhor Ator para Wagner Moura. Em 90 anos de premiação, esta é a primeira vez que um ator latino americano é premiado na categoria. Para o diretor do longa, Kleber Mendonça Filho, o prêmio já é o segundo de sua carreira, o primeiro foi com o filme ‘Bacurau’ em 2022. No Brasil, entre os vencedores anteriores do NYFCC estão ‘Pixote: A Lei do Mais Fraco’ (1981), do diretor Hector Babenco, e ‘Cidade de Deus’ (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund, também na categoria de Melhor Filme Internacional. Outro destaque foi ‘Uma Batalha Após a Outra’, novo longa do diretor Paul Thomas Anderson, que foi o grande vencedor nas categorias Melhor Filme e Melhor Ator Coadjuvante para Benício Del Toro. Confira abaixo os vencedores do New York Film Critics Circle Awards 2025: MELHOR FILME Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson MELHOR DIREÇÃO Jafar Panahi, por Foi Apenas um Acidente MELHOR FILME INTERNACIONAL O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho (Brasil) MELHOR ATOR Wagner Moura, por O Agente Secreto MELHOR ATRIZ Rose Byrne, por Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria MELHOR ATRIZ COADJUVANTE Amy Madigan, por A Hora do Mal MELHOR ATOR COADJUVANTE Benicio Del Toro, por Uma Batalha Após a Outra MELHOR ROTEIRO Marty Supreme, escrito por Josh Safdie e Ronald Bronstein MELHOR FOTOGRAFIA Pecadores, por Autumn Durald Arkapaw MELHOR ANIMAÇÃO Guerreiras do K-Pop, de Chris Appelhans e Maggie Kang MELHOR DOCUMENTÁRIO My Undesirable Friends: Part I – Last Air in Moscow, de Julia Loktev MELHOR PRIMEIRO FILME Eephus, de Carson Lund

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