top of page

Resultados de busca

Buscar neste site

1407 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Oscar 2026 | Lista completa dos indicados com O Agente Secreto e curiosidades do prêmio

    O representante brasileiro aparece em 4 categorias, incluindo Melhor Filme e Ator (Wagner Moura) Na manhã do dia 22 de janeiro, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (AMPAS) anunciou a lista completa dos indicados ao Oscar 2026, considerada a maior premiação do cinema mundial. “Pecadores” bateu um recorde histórico e se tornou o filme mais indicado da história do Oscar, com 16 nomeações, superando as 14 indicações de La La Land, Titanic e All About Eve. Já “Uma Batalha Após a Outra” aparece logo atrás, com 13 indicações, ocupando o segundo lugar entre os filmes mais lembrados pela Academia. Entre os títulos internacionais, “Valor Sentimental” foi o filme de língua não inglesa mais indicado do ano, com 9 nomeações. O representante brasileiro, “O Agente Secreto”, também fez história ao conquistar 4 indicações, incluindo a categoria máxima da premiação, marcando um feito inédito para o cinema sul-americano. Algumas curiosidades e recordes das indicações: ‘O Agente Secreto’ se junta a ‘Ainda Estou Aqui’ e se torna o segundo representante brasileiro indicado a Melhor Filme no Oscar. E o melhor: de forma consecutiva! Wagner Moura se torna apenas o sexto latino indicado na categoria de Melhor Ator em quase 100 anos de Oscar: José Ferrer, Anthony Quinn, Edward James Olmos, Demián Bichir e Colman Domingo já foram indicados na categoria. O baiano Wagner Moura faz história ao se tornar o primeiro brasileiro indicado ao Oscar de Melhor Ator na história da premiação. Segundo ano consecutivo que o Brasil tem um atuação indicada ao Oscar: Wagner Moura e Fernanda Torres Gabriel Domingues foi indicado ao Oscar de Melhor Direção de Elenco por ‘O Agente Secreto’, no primeiro ano da categoria. ‘Sinners’ é o filme mais indicado na HISTÓRIA do Oscars, com 16 nomeações, superando as 14 de ‘La La Land’, ‘Titanic’ e ‘All About Eve’. Jessie Buckley se junta à Saoirse Ronan e à Ruth Negga como as únicas irlandesas indicadas ao Oscar de Melhor Atriz. Stellan Skarsgård é a primeira pessoa indicada ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por um filme internacional. Com sua indicação por ‘Hamnet’, Chloé Zhao se junta à Jane Campion como as únicas mulheres indicadas mais de uma vez à categoria de Melhor Direção no Oscar. Conan O'Brien retorna como apresentador da 98ª edição do Oscar no dia 15 de março. Confira a lista completa dos indicados abaixo: Melhor Filme • Sinners • Marty Supreme • Hamnet • One Battle After Another • Frankenstein • Sentimental Value • O Agente Secreto 🇧🇷 • Bugonia • Train Dreams • F1 Melhor Direção • Paul Thomas Anderson (One Battle After Another) • Ryan Coogler (Sinners) • Chloé Zhao (Hamnet) • Joachim Trier (Sentimental Value) • Josh Safdie (Marty Supreme) Melhor Ator • Leonardo DiCaprio (One Battle After Another) • Timothée Chalamet (Marty Supreme) • Wagner Moura (O Agente Secreto 🇧🇷) • Michael B. Jordan (Sinners) • Ethan Hawke (Blue Moon) Melhor Atriz • Rose Byrne (If I Had Legs I’d Kick You) • Jessie Buckley (Hamnet) • Renate Reinsve (Sentimental Value) • Emma Stone (Bugonia) • Kate Hudson (Song Sung Blue) Melhor Ator Coadjuvante • Stellan Skarsgård (Sentimental Value) • Sean Penn (One Battle After Another) • Benicio del Toro (One Battle After Another) • Jacob Elordi (Frankenstein) • Delroy Lindo (Sinners) Melhor Atriz Coadjuvante • Teyana Taylor (One Battle After Another) • Amy Madigan (Weapons) • Inga Ibsdotter Lilleaas (Sentimental Value) • Wunmi Mosaku (Sinners) • Elle Fanning (Sentimental Value) Melhor Roteiro Original • Blue Moon • Sentimental Value • Marty Supreme • It Was Just an Accident • Sinners Melhor Roteiro Adaptado • One Battle After Another • Hamnet • Bugonia • Train Dreams • Frankenstein Melhor Filme Internacional • Sentimental Value 🇳🇴 • It Was Just an Accident 🇫🇷 • O Agente Secreto 🇧🇷 • The Voice of Hind Rajab 🇹🇳 • Sirât 🇪🇸 Melhor Filme de Animação • Arco • Elio • KPop Demon Hunters • Little Amélie or the Character of Rain • Zootopia 2 Melhor Documentário • The Alabama Solution • Come See Me in the Good Light • Cutting Through Rocks • Mr. Nobody Against Putin • The Perfect Neighbor Melhor Fotografia • Frankenstein • Marty Supreme • One Battle After Another • Sinners • Train Dreams (Adolpho Veloso 🇧🇷) Melhor Montagem • F1 • Marty Supreme • One Battle After Another • Sentimental Value • Sinners Melhor Trilha Sonora Original • Bugonia • Frankenstein • Hamnet • One Battle After Another • Sinners Melhor Canção Original • “Dear Me” de “Diane Warren: Relentless” • “Golden” de “KPop Demon Hunters” • “I Lied To You” de “Sinners” • “Sweet Dreams Of Joy” de “Viva Verdi!” • “Train Dreams” de “Train Dreams” Melhor Seleção de Elenco (Casting) • O Agente Secreto 🇧🇷 • Hamnet • Marty Supreme • One Battle After Another • Sinners Melhor Direção de Arte • Frankenstein • Sinners • Hamnet • Marty Supreme • One Battle After Another Melhor Figurino • Frankenstein • Sinners • Avatar: Fire and Ash • Marty Supreme • Hamnet Melhor Maquiagem e Penteado • Frankenstein • Kokuho • Sinners • The Smashing Machine • The Ugly Stepsister Melhor Som • F1 • Frankenstein • One Battle After Another • Sinners • Sirāt Melhor Efeitos Visuais • Avatar: Fire and Ash • F1 • Jurassic World Rebirth • The Lost Bus • Sinners Melhor Curta-Metragem em Live Action • Butcher’s Stain • A Friend of Dorothy • Jane Austen’s Period Drama • The Singers • Two People Exchanging Saliva Melhor Curta-Metragem de Animação • Butterfly • Forevergreen • The Girl Who Cried Pearls • Retirement Plan • The Three Sisters Melhor Curta-Metragem Documentário • All the Empty Rooms • Armed Only with a Camera: The Life and Death of Brent Renaud • Children No More: “Were and Are Gone” • The Devil Is Busy • Perfectly a Strangeness

  • Crítica | O Último Azul

    A desmistificação do envelhecimento e a luta pela autonomia na terceira idade. Divulgação A autonomia e resistência são os temas centrais de O Último Azul, o novo longa de Gabriel Mascaro, que conquistou o Grande Prêmio do Júri (Urso de Prata) no Festival de Berlim 2025 e dois outros prêmios paralelos — o Júri Ecumênico e o prêmio do público do Berliner Morgenpost. O filme mostra com sensibilidade temas como etarismo, envelhecimento e resistência. O Último Azul se passa em um Brasil distópico onde os idosos são recompensados por suas contribuições à sociedade. A recompensa? Uma intervenção brega na porta de casa e uma passagem só de ida para A Colônia, um espaço de moradia apenas para idosos. É nesse pano de fundo que nos apresentam Tereza, uma senhora que se recusa a ser compulsoriamente aposentada sem realizar o próprio sonho: voar de avião. Ao assistir o filme, por diversas vezes lembrei da minha avó que se recusa a ser invisibilizada na sociedade. Dona Sônia, minha avó, assim como Tereza, mesmo depois dos 70 anos continua andando sozinha, fazendo compras, passeando, viajando e vivendo, coisa que parece ofensiva para a sociedade do filme. Denise Weinberg é muito sutil ao mostrar que o problema de Tereza não é envelhecer ou ser cuidada por estar idosa, e sim com a invalidez que querem empregar nela por isso. As interações dela com os personagens de Rodrigo Santoro e Adanilo demonstram que a conexão e o carinho são possíveis sem as máscaras intervencionistas. Divulgação Além disso, Mascaro traz uma leitura gentil de como a terceira idade não torna o cidadão em terceira classe. O mérito do filme é mostrar como o envelhecimento não é ruína, mas sim mais uma etapa da vida que merece ser vivida. É estar ativo, no pensamento, no desejo, é uma forma profunda de recusa à irrelevância. Tereza não deseja morrer; ela busca um último ato de liberdade. É uma ode à autonomia, à escolha e à dignidade, em meio a um sistema que tende a reduzir o idoso a estatística. Visualmente o filme é aconchegante. Gravado no clássico 4:3, cada plano parece estudar o tempo — o silêncio, a vida acumulada nas rugas, o rio como órbita de memória. A sensibilização não está na tragédia, mas na constatação de que a dignidade humana não pode ser medida em produtividade. O Último Azul é uma metáfora de nosso Brasil: um pouco místico, terno e inquietante. Ele nos faz perguntar: até que ponto uma sociedade é justa se ignora quem já viveu a maior parte da vida? Tereza propõe uma resposta: um último passeio, uma viagem simbólica que, mesmo por dias, devolve a ela — e a nós — um pouco da humanidade que insistimos em perder. Nota: 4/5

  • Inscrições para o Prêmio Grande Otelo 2026 estão abertas

    25ª edição da principal premiação do audiovisual brasileiro contemplará filmes e séries lançados entre maio de 2025 e abril de 2026 Rogério Resende/Divulgação A Academia Brasileira de Cinema abriu oficialmente as inscrições para a 25ª edição do Prêmio Grande Otelo, a mais importante premiação do setor audiovisual no Brasil. A cerimônia irá celebrar obras cinematográficas e séries brasileiras lançadas entre 1º de maio de 2025 e 30 de abril de 2026. Ao todo, serão anunciados 32 prêmios, contemplando longas-metragens, curtas-metragens e séries brasileiras. Desses, 31 produções serão escolhidas pelo amplo júri formado por profissionais associados à Academia Brasileira de Cinema. Já o tradicional Grande Otelo de Melhor Filme pelo Júri Popular será definido pelo público, por meio de votação aberta no site da Academia. Concorrerão ao voto popular os cinco finalistas das categorias Melhor Longa-metragem Ficção, Melhor Longa-metragem Comédia e Melhor Longa-metragem Documentário. A edição deste ano marca o retorno da categoria Melhor Longa-metragem Comédia e inclui o prêmio de Melhor Montagem Documentário. As inscrições para o Prêmio Grande Otelo 2026 seguem abertas até o dia 20 de março, e o regulamento completo pode ser consultado no site oficial da Academia Brasileira de Cinema. Divulgação Entre os destaques desta edição, está o retorno da categoria Melhor Longa-Metragem de Comédia, além da inclusão do prêmio de Melhor Montagem de Documentário, ampliando o reconhecimento técnico das produções nacionais documentais. Para quem você vai torcer nesta 25ª edição? Nomes grandes como 'O Agente Secreto', 'Manas' e 'Homem com H' devem estar entre os indicados, que serão anunciados após o meio do ano.

  • BAFTA 2026 | O Agente Secreto e Apocalipse nos Trópicos conquistam indicações

    O brasileiro Adolpho Veloso também aparece na categoria de Melhor Fotografia do prêmio máximo do cinema britânico Divulgação Na manhã desta terça-feira (27), a Academia Britânica de Cinema anunciou os indicados à edição de 2026 do BAFTA. Tradicionalmente vista como um termômetro importante para o Oscar, a premiação deste ano teve suas indicações divulgadas após o anúncio da Academia Norte-Americana. O Brasil marca presença em quatro categorias no BAFTA 2026. O longa O Agente Secreto é o principal representante nacional, aparecendo em duas categorias da premiação. Cinco filmes concorrem ao prêmio de Melhor Filme em Língua Não Inglesa: “It Was Just an Accident”, “Sirat”, “O Agente Secreto”, “The Voice of Hind Rajab” e “Valor Sentimental”. Já na categoria de Melhor Roteiro Original concorrem: “I Swear”, “Marty Supreme”, “O Agente Secreto”, “Valor Sentimental” e “Pecadores”. O cinema brasileiro também se destaca em outras frentes. Petra Costa aparece entre os indicados a Melhor Documentário com Apocalipse nos Trópicos. Enquanto isso, Adolpho Veloso concorre ao prêmio de Melhor Fotografia pelo trabalho no longa americano Sonhos de Trem. Com isso, 2026 se torna o ano com o maior número de indicações de brasileiros em uma única edição do BAFTA, superando 2003, quando Cidade de Deus apareceu em duas categorias da premiação. Divulgação Confira a lista completa de indicados ao BAFTA 2026, cuja cerimônia acontece no dia 22 de fevereiro: Melhor Filme Hamnet Marty Supreme One Battle After Another Sentimental Value Sinners Melhor Filme Britânico 28 Years Later The Ballad of Wallis Island Bridget Jones: Mad About the Boy Die My Love H Is for Hawk Hamnet I Swear Mr Burton Pillion Steve Melhor Estreia de Roteirista, Diretor ou Produtor Britânico The Ceremony – Jack King (diretor, roteirista), Hollie Bryan (produtora), Lucy Meer (produtora) My Father’s Shadow – Akinola Davies Jr (diretor), Wale Davies (roteirista) Pillion – Harry Lighton (diretor, roteirista) A Want in Her – Myrid Carten (diretora) Wasteman – Cal McMau (diretor), Hunter Andrews (roteirista), Eoin Doran (roteirista) Melhor Filme em Língua Não Inglesa It Was Just an Accident O Agente Secreto Sentimental Value Sirāt The Voice of Hind Rajab Melhor Atriz Jessie Buckley – Hamnet Rose Byrne – If I Had Legs I’d Kick You Kate Hudson – Song Sung Blue Chase Infiniti – One Battle After Another Renate Reinsve – Sentimental Value Emma Stone – Bugonia Melhor Ator Robert Aramayo – I Swear Timothée Chalamet – Marty Supreme Leonardo DiCaprio – One Battle After Another Ethan Hawke – Blue Moon Michael B Jordan – Sinners Jesse Plemons – Bugonia Melhor Atriz Coadjuvante Odessa A’zion – Marty Supreme Inga Ibsdotter Lilleaas – Sentimental Value Wunmi Mosaku – Sinners Carey Mulligan – The Ballad of Wallis Island Teyana Taylor – One Battle After Another Emily Watson – Hamnet Melhor Ator Coadjuvante Benicio del Toro – One Battle After Another Jacob Elordi – Frankenstein Paul Mescal – Hamnet Peter Mullan – I Swear Sean Penn – One Battle After Another Stellan Skarsgård – Sentimental Value Melhor Documentário 2000 Meters to Andriivka Apocalypse in the Tropics Cover-Up Mr Nobody Against Putin The Perfect Neighbor Melhor Filme de Animação Elio Little Amélie Zootropolis 2 Melhor Filme Infantil e Familiar Arco Boong Lilo & Stitch Zootropolis 2 Melhor Direção Bugonia – Yorgos Lanthimos Hamnet – Chloé Zhao Marty Supreme – Josh Safdie One Battle After Another – Paul Thomas Anderson Sentimental Value – Joachim Trier Sinners – Ryan Coogler Melhor Roteiro Original I Swear – Kirk Jones Marty Supreme – Ronald Bronstein, Josh Safdie O Agente Secreto – Kleber Mendonça Filho Sentimental Value – Eskil Vogt, Joachim Trier Sinners – Ryan Coogler Melhor Roteiro Adaptado The Ballad of Wallis Island – Tom Basden, Tim Key Bugonia – Will Tracy Hamnet – Chloé Zhao, Maggie O’Farrell One Battle After Another – Paul Thomas Anderson Pillion – Harry Lighton Melhor Direção de Elenco I Swear Marty Supreme One Battle After Another Sentimental Value Sinners Melhor Fotografia Frankenstein Marty Supreme One Battle After Another Sinners Train Dreams Melhor Montagem F1 A House of Dynamite Marty Supreme One Battle After Another Sinners Melhor Figurino Frankenstein Hamnet Marty Supreme Sinners Wicked: For Good Melhor Maquiagem e Penteado Frankenstein Hamnet Marty Supreme Sinners Wicked: For Good Melhor Trilha Sonora Original Bugonia Frankenstein Hamnet One Battle After Another Sinners Melhor Direção de Arte Frankenstein Hamnet Marty Supreme One Battle After Another Sinners Melhor Som F1 Frankenstein One Battle After Another Sinners Warfare Melhores Efeitos Visuais Avatar: Fire and Ash F1 Frankenstein How to Train Your Dragon The Lost Bus Melhor Curta de Animação Britânico Cardboard Solstice Two Black Boys in Paradise Melhor Curta-Metragem Britânico Magid / Zafar Nostalgie Terence This Is Endometriosis Welcome Home Freckles Prêmio EE Estrela em Ascensão (voto do público) Robert Aramayo Miles Caton Chase Infiniti Archie Madekwe Posy Sterling

  • Entrevista | Selton Mello e Tom Gormican sobre a “magia de trabalhar com pessoas talentosas” em Anaconda (2025)

    Ator e diretor contam ao Oxente Pipoca como foi reinventar a franquia clássica para uma nova geração – e a dificuldade de manter a seriedade enquanto isso. Imagem: Divulgação O jornalismo cultural é um sonho antigo para mim. Lembro de, ainda criança, assistir à Glória Maria conversando com as pessoas mais famosas do mundo e me perguntar como ela conseguia manter a compostura. Imaginava que, se fosse eu no lugar dela, certamente não conseguiria. Achei que o tempo tivesse me provado o contrário. Ao longo da minha — ainda breve — carreira como entrevistadora, tive o privilégio de conversar com artistas reconhecidos e admirados no Brasil e no mundo e, mesmo com um frio na barriga aqui e ali, sempre consegui ser calma e profissional. Até descobrir que entrevistaria Selton Mello. Eu mesma não sabia que era tão fã assim até receber a confirmação de que iria falar de cinema com o homem que deu vida a Leléu em Lisbela e o Prisioneiro, a Chicó n’O Auto da Compadecida, a Caramuru em A Invenção do Brasil, a Kuzco em A Nova Onda do Imperador, a Kenai em Irmão Urso, a Rubens Paiva em Ainda Estou Aqui e tantos outros. Ator, dublador, roteirista e diretor, Selton Mello é uma força singular no cinema brasileiro contemporâneo. Quando o país ainda insistia em ignorar sua própria produção cinematográfica — especialmente a popular — ele respondia oferecendo excelência ao público. Se aventurou no drama, no documentário, na animação, na cinebiografia e, claro, na comédia, seu território mais emblemático. Ao longo de 35 anos, atuou em 39 filmes brasileiros (sem contar seus inúmeros trabalhos na televisão). Não por acaso, um dia depois da nossa entrevista, um Selton emocionado subia ao palco da CCXP, em São Paulo, para receber o prêmio de “brasileiro mais amado do cinema”. Entre os que o homenagearam estavam Matheus Nachtergaele e Wagner Moura. Agora, com o cinema nacional finalmente demonstrando sinais de fortalecimento, Selton se permite explorar novos horizontes. A visibilidade internacional, que despontou no ano passado com a excelente recepção de Ainda Estou Aqui, se consolida com sua participação no novo filme da franquia Anaconda — clássico dos anos 1990 que retorna em nova roupagem, desta vez sob direção de Tom Gormican. No elenco, Selton divide cena com dois queridinhos de Hollywood, Jack Black e Paul Rudd, que já expressaram publicamente sua admiração pelo carioca. E, se Jack Black não consegue esconder seu encantamento, quem sou eu para esconder o meu? A entrevista aconteceu também com a participação de Gormican e, por isso, fui instruída a conduzi-la em inglês. Não tenho grandes dificuldades com a língua, já tendo feito entrevistas assim outras vezes. Mas misturar o inglês com o meu entusiasmo parecia uma combinação potencialmente perigosa. Invocando uma licença poética que talvez não honre tudo o que aprendi com a gigante Glória Maria, decidi confessar — e justificar — meu nervosismo logo de início, declarando minha admiração. Selton, pego de surpresa, respondeu com um agradecimento breve. “Fui muito pouco profissional, droga!”, pensei. Até que, ao final, nas despedidas, ele voltou a agradecer pelas palavras iniciais — como se precisasse de um instante para processar que alguém tinha parado uma entrevista para elogiá-lo. Ainda não sei se fiz bem. Me pergunto o que meus professores de jornalismo diriam dessa postura. Porém, não me arrependo do que pude expressar ao artista que fez eu — e tantas outras pessoas – ir ao cinema ver filme brasileiro quando filme brasileiro ainda nem sempre era sinônimo de ida ao cinema. A Selton, o que é de Selton. Confira a entrevista completa a seguir: Aianne Amado (Oxente Pipoca): Eu sei que temos só alguns minutos, mas acho que preciso usar meus primeiros segundos para tietar um pouco. Já fiz algumas entrevistas antes, mas esta é a primeira pela qual estou realmente nervosa — porque sou muito fã do Selton Mello. Cresci assistindo aos seus filmes, e eles tiveram um impacto enorme em mim, especialmente Lisbela e o Prisioneiro (Guel Arraes, 2003). Eu sou do Nordeste e sinto que esse filme me fez valorizar ainda mais a cultura nordestina. Hoje, ensino cinema, sou crítica de cinema, e acredito que sua filmografia teve um papel importante nessas minhas escolhas — e não só nas minhas, mas nas de muitas pessoas no Brasil. Então queria começar esta entrevista reconhecendo, parabenizando e agradecendo sua contribuição para o cinema brasileiro contemporâneo. Selton Mello: Meu Deus, que fofo. Obrigado. Muito obrigado, muito obrigado. AA (Oxente Pipoca): Como você tem uma carreira tão rica no Brasil — já fez de tudo, dirigiu, escreveu, passou por vários gêneros — eu queria saber: houve algo em Anaconda que foi nova para você? E houve algo que soou familiar? SM: Cara, foi uma experiência incrível. Porque assim, foi, por exemplo, a primeira vez que pude dizer que um filme meu estreia no dia 25 de dezembro no mundo inteiro! Isso eu nunca falei, é uma fala que eu nunca disse na minha vida, desde criança. Sempre falei “o filme estreia tal dia” — mas era no Brasil. Dessa vez, o filme estreia no mesmo dia no mundo todo. E já adiantando: foi um prazer trabalhar com o Tom. A ideia é muito original — não é um remake, não é um reboot. É uma ideia original – muito original, aliás: esses amigos que querem fazer um filme e precisam de uma cobra; meu personagem, Carlos Santiago, tem essa cobra. É muito engraçado, cheio de aventura, é um filme com ação, medo, terror… uma mistura muito saborosa. As pessoas vão amar. E precisam assistir até o fim dos créditos, porque é cheio de surpresas! Imagem: Divulgação AA (Oxente Pipoca): Tom, do seu ponto de vista trabalhando com o Selton, houve algo na atuação dele que refletisse a cultura brasileira, alguma característica nossa? Tom Gormican: Acho que o mais interessante em ter ele no filme — e talvez seja algo brasileiro, talvez seja só dele — é o senso de humor. É algo que acaba refletindo no personagem. A forma como interpreta o personagem com tanta seriedade que isso se torna muito engraçado. A maneira como improvisa, como constrói a cena quase como um diretor ou roteirista, e depois como ator… eu fiquei impressionado com sua habilidade de fazer isso – assim como Jack e Paul, que não tinham ideia de que tipo de presença ele seria no set. Foi uma descoberta muito empolgante para mim, e ele trouxe uma perspectiva cômica diferente para o filme. AA (Oxente Pipoca): Falando nisso, o filme traz alguns gênios da comédia no elenco. Houve alguma cena especialmente difícil de gravar porque ninguém conseguia ficar no personagem? TG: Para mim, só conseguir fazer com que esses caras [atuassem]… quero dizer, eles pegam um microfone e já estão tocando guitarra e bateria. Então, fazê-lo parar e realmente atuar no filme foi muito difícil. Mas há uma cena específica, um funeral no filme, em que o Selton meio que conduz tudo. Selton começa a rir TG: E, em certo momento, ele começou a cantar sobre o amor dele pela cobra de estimação. Isso fez todo mundo rir muito, porque era tão bizarro que eu pensava: “Não acredito que isso está acontecendo”. Então, todo o elenco começou a cantar junto com ele — e isso acabou entrando no filme. SM: Essa é uma imagem maravilhosa que vou levar comigo para sempre. Era o Tom e o Kevin, o corroteirista, com os fones ligados ao monitor, parecendo crianças de dez anos assistindo ao filme que eles criaram e vendo o que estava acontecendo — a improvisação, a loucura. E o tom era tipo [ele canta numa nota aguda]… eles estavam simplesmente adorando tudo aquilo. TG: Sempre que alguém cria algo melhor do que o que escrevemos, eu fico muito empolgado, porque isso é parte da magia de trabalhar com pessoas talentosas. AA (Oxente Pipoca): Essa franquia tem um legado forte dos anos 90 — uma nostalgia muito típica daquela época, cheia de momentos muito específicos da cultura pop. Como vocês, os dois, equilibraram homenagear essa nostalgia enquanto criavam algo novo para o público atual? TG: Bem, para mim e para o meu parceiro de roteiro, Kevin, nós simplesmente amamos o filme original e nos inspiramos nele. Então, fizemos com que os personagens do nosso filme também fossem inspirados por ele. Dessa forma, não precisamos mexer diretamente no legado do filme e dos personagens… não preciso expandir a mitologia que eles criaram. Podemos fazer um filme totalmente original que, ao mesmo tempo, presta homenagem ao original. SM: De um jeito original. AA (Oxente Pipoca): Dirigir um filme de criatura em grande escala exige equilibrar realismo, suspense e diversão. Qual foi a maior aposta criativa que você fez nessa mistura? TG: Bem, para mim, há muitas maneiras de um filme como esse sair do trilho e ficar bobo, exagerado ou amplo demais. Encontrar o equilíbrio do tom foi o maior risco — fazer o público acreditar que os personagens realmente correm perigo, enquanto também fazemos as pessoas rirem. O humor costuma diminuir a sensação de urgência numa narrativa, então isso foi um grande desafio. Eu pedia para todos os atores levarem tudo muito a sério, sabe? Para tratarem as cenas com total seriedade. Mas é muito difícil olhar para o Selton ou para o Jack Black e dizer: “Preciso que você leve isso muito a sério. Tem uma cobra gigante de 200 pés bem ali”. E eles precisarem tratar isso como real! Então, a gente acabava rindo da situação e de como nossos trabalhos são absurdos às vezes… e depois voltávamos a filmar. AA (Oxente Pipoca): Ok, pessoal, esse foi o nosso tempo. SM: Então vou terminar mandando um beijão para vocês e dizendo a todos os fãs do Oxente Pipoca que vocês são sempre muito queridos comigo nas redes sociais. E adorei o que você disse no começo, foi muito bonito — porque realmente Lisbela e o Prisioneiro, O Alto… não só fizeram parte da sua história, mas da minha também. Então é algo mútuo. Foi muito bonito falar com você, e que Anaconda seja um enorme sucesso!

  • Crítica | Sorry, Baby

    Eva Victor navega com fluidez de gênero(s) e sensibilidade para tratar de um tópico doloroso. Imagem: Divulgação Na esteira do #MeToo e movimentos que denunciaram diversos casos de abuso e assédio na indústria do entretenimento e em outros espaços, não foram poucos os filmes que abordaram a temática. Entre as muitas discussões sobre como retratar esse tipo de violência e sobre quem deveria ter a palavra para retratá-la, é fato que as abordagens foram variadas, bem como os resultados. Entra Eva Victor, que em seu longa de estreia Sorry, Baby (o qual também roteiriza e estrela) mostra que, longe de se determinar que haja um único viés para se falar sobre a violência sexual, ainda há espaço para abordagens únicas. Não é que o longa exatamente reinvente a roda, mas a sensibilidade e as escolhas formais de Victor ajudam a trazer um frescor e leveza – sim, leveza! – perante um tópico tão difícil. Adotando uma estrutura não-linear, Sorry, Baby acompanha Agnes (Victor), uma professora de uma faculdade de inglês na Nova Inglaterra que lida com a depressão e o isolamento após ser abusada sexualmente. Ao empregar essa estrutura – onde primeiro acompanhamos Agnes no presente, em suas interações com a melhor amiga Lydie (Naomi Ackie), antes de vermos os eventos relacionados ao abuso –, Victor já tira a violência do centro da narrativa. O interesse não está no abuso em si, mas sim nas marcas deixadas na vítima e como ela ainda assim continua a viver, mesmo que não sinta que está vivendo. São informações sutis nesta primeira parte (o uso de sombras que bebem do horror, silêncios desconfortáveis, a linguagem corporal de Agnes) que nos indicam que algo aconteceu à personagem. Imagem: Divulgação Mesmo quando o filme enfim nos revela o que houve, tudo é feito com um olhar que se permite ser distanciado, mas jamais desprovido de empatia. Tudo de que Victor precisa é de planos abertos e estáticos da casa onde ocorre o abuso, com cortes que evidenciam a passagem do tempo, e depois planos mais subjetivos da fuga de Agnes para nos dizer tudo que precisa ser dito. O ato de dar à protagonista a palavra sobre o que aconteceu num monólogo dilacerante (gravado em um único plano) é também uma forma de dar agência a ela e não nos deixar dúvida sobre o que aconteceu, mesmo que não ignore o que pode ser entendido como “brechas” e “nuances” desse tipo de violência, onde mesmo a vítima se vê incerta diante do que aconteceu. Esse aspecto de incerteza me fez lembrar do controverso Depois da Caçada, ainda que lá a dúvida e ambiguidade sejam muito mais os motores narrativos do que aqui, onde o interesse de Victor é por acompanhar o depois da vida de Agnes. Outra comparação cabível é com a minissérie I May Destroy You, onde Michaela Coel mostrava com excelência a humanidade e as contradições que cercam mulheres que passaram por tais experiências. Evitando os caminhos muito óbvios, Victor está sempre tratando a personagem e a narrativa com sutileza, mesmo em instantes como o monólogo. Há o peso daquilo que não é dito, ou do que não se dá para articular em palavras. Exemplo disso é a cena de Agnes com Pete (John Carrol Lynch, roubando a cena em uma aparição tão curta), onde ela descreve o que é conviver com o peso do abuso sobre sua mente e seu corpo. A composição da personagem é um acerto, inclusive na maneira como Victor traz elementos da sua própria não-binariedade para ela (a cena do preenchimento do formulário, a sua linguagem corporal, o figurino, etc) sem apelar para o didático. E ainda que este seja o filme de Victor em muitas frentes, inclusive na atuação, o elenco coadjuvante é um grande acerto, com Lynch e Ackie sendo outros destaques – esta última por conseguir transcender o tropo da melhor amiga negra – mas também nomes como Louis Cancelmi, Lucas Hedges e Kelly McCormack. Assim, o texto de Victor, aliado à sua direção, emprega um olhar sempre de muita sensibilidade e consideração para com Agnes. Não se furta a um certo humor que emana do inesperado e do desconfortável, o que ajuda a aliviar um clima a princípio pesado, mas se distingue sobretudo pela empatia e por não esconder as contradições e nuances que marcam uma vítima de abuso, entendendo-a antes de tudo como um ser humano. E esse é um dos motivos pelos quais Sorry, Baby consegue se distinguir em meio à seara de filmes que trataram de um tópico tão difícil e, em muitas maneiras, ainda tabu. Nota: 4/5

  • Crítica | O Agente Secreto (Mostra de SP 2025)

    Memória, verdade e identidade num país em disputa Foto: Reprodução A partir de Retratos Fantasmas – ou melhor dizendo, do seu processo de pesquisa e produção – Kleber Mendonça Filho parece ter entrado em uma nova fase da sua carreira, onde temáticas e discussões presentes em suas obras anteriores ganham novos recortes, contornos e abordagens. A memória, que parece um eixo central da sua filmografia, foi vista em seu último filme por uma perspectiva quase metalinguística, do fazer fílmico, e aqui em O Agente Secreto novamente se revela o coração e alma da obra, ainda que acessá-la não seja um caminho óbvio. Em seu sexto longa-metragem, somos transportados à Recife de 1977 pelos olhos de Marcelo (Wagner Moura), essa figura enigmática e cansada cujo passado é aos poucos descortinado para o público. Os objetivos de Marcelo parecem simples: reencontrar-se com seu filho e buscar provas documentais da vida de sua mãe. Mas quem ele é, do que (ou de quem) está fugindo, porque está recebendo o tipo de ajuda que recebe e porque há forças ocultas neste Brasil ditatorial dispostas a matá-lo são respostas que Kleber gradativamente nos dá (e nem sempre de maneiras que esperamos ou gostamos), em seu próprio ritmo não-convencional. Trata-se de um thriller político que abraça as influências fílmicas deste tempo, mas não o faz por caminhos óbvios. Sempre muito devedor a diretores como John Carpenter e Brian DePalma, Kleber parece fazer um maneirismo em cima do maneirismo: telas divididas, split diopters e zoons dramáticos (além das alusões diretas a obras como Tubarão e A Profecia) são alguns dos meios pelo qual o diretor pernambucano constrói seu cinema de referências, mas sempre num processo antropofágico, atrelando-as ao contexto local e nacional e não o contrário. Não à toa que um dos espaços principais da obra é o cinema São Luiz, com o qual o próprio Kleber tem uma relação profundamente pessoal e que se torna palco de alguns dos momentos mais importantes da narrativa. O cinema de Kleber também é um cinema extremamente atmosférico, como poucos diretores sabem fazer no Brasil atualmente. Mais importante que as referências, é o clima de paranoia e opressão que se instauram no decorrer das quase 2h40 do longa. A ditadura aqui é menos um elemento central e mais um pano de fundo que colabora para esse clima, expresso tanto em figuras individuais (como o deputado corrupto interpretado por Robério Diógenes e seus filhos) quanto na associação com o capital privado, que se revela a força antagonista motriz. Foto: Reprodução Aliás, é através dessa atmosfera que O Agente Secreto trabalha uma das suas premissas principais: a disputa pela verdade, e a manipulação desta. Dentre as muitas subtramas abertas no decorrer do filme, a mais instigante é certamente a da “perna cabeluda”, que não apenas permite a Kleber flexionar sua paixão pelo cinema de horror, mas também reflete as muitas maneiras pelas quais a verdade foi controlada e imposta à população. A ambientação do filme durante o Carnaval faz com que muito do que vemos em tela pareça um sonho febril, onde a euforia do momento é contraposta à violência praticada nas sombras e disfarçada sob as premissas mais absurdas. Uma das cenas mais emblemáticas é aquela com a impressão do jornal com a matéria sobre a perna cabeluda, enquanto a população entoa um canto carnavalesco e é filmada em ângulos holandeses que apontam para o desequilíbrio do momento. Assim, essa Recife de 1977 é um caldeirão prestes a explodir, mesmo que vá sendo cozinhada em fogo lento. Kleber passeia pela cidade e o faz com um profundo senso de reverência e paixão que não esconde suas contradições. O trabalho de direção de arte de Thales Junqueira merece e muito ser aplaudido nesse aspecto, pois transforma a cidade numa personagem à parte, de maneira ainda mais intensa e imersiva do que nos filmes anteriores do diretor (que já eram excepcionais no trato ao espaço urbano). Cenas como aquela em que Marcelo olha pela janela do cinema São Luiz são para serem guardadas na memória, tamanha é a capacidade de nos transportarem para este período. Talvez seja outra das heranças de Retratos Fantasmas, já que aqui a arquitetura, os figurinos, os veículos nas ruas, a cacofonia, tudo se revela muito orgânico e bem pensado nessa reconstituição de época, numa articulação entre direção de arte, figurinos, fotografia e outros elementos através da direção de Kleber que fazem de O Agente Secreto seu longa mais primoroso em termos técnicos. Já sobre as pessoas, um dos grandes méritos (e falhas) da obra reside em como ele abre seu mundo para além de Marcelo. O filme é povoado de uma galeria colorida de coadjuvantes, alguns beirando o caricatural (em especial os antagonistas), mas com uma organicidade que não apenas reflete o período, mas sobretudo o local. Há muito daquilo que o pesquisador Hamid Naficy chama de “sotaque fílmico”, termo apropriado pela pesquisadora pernambucana Angela Prysthon para descrever essa produção cinematográfica do estado que se afirma através da caricatura, do estranhamento, do excesso de caráter local, acentuando-se o folclórico na mesma medida que se adere a um discurso modernizante e tecnológico. Sobre o próprio Marcelo, é fundamental perceber como ele é tratado quase como um reagente ao mundo ao seu redor, enquanto carrega suas inquietações. Wagner Moura entrega uma atuação contida, onde o trabalho de maquiagem (seja com a barba, cabelo e as olheiras) indicam os diferentes momentos deste personagem, o quanto ele está cansado de fugir e isso pode tanto ser sua glória quanto sua ruína. Não diria que é a melhor atuação da sua carreira, mas certamente é uma das mais instigantes, porque rejeita noções típicas do processo atoral para fazer de Marcelo um personagem que navega entre essas múltiplas identidades, ao ponto de que em nenhum momento o filme parece querer nos responder em definitivo quem ele é, ou preencher certas lacunas do seu passado e futuro. Isso pode levar a um certo sentimento de frustração (especialmente com o final do personagem), mas uma das marcas do cinema de Kleber Mendonça Filho é justamente essa natureza mais aberta e menos “redonda” tanto em termos de narrativa quanto de construção dos personagens. Foto: Reprodução Mas quando eu digo que essa abertura do mundo proposta pelo filme se converte também numa falha, é porque esse deslocamento entre a trama de Marcelo para essas subtramas muitas vezes o incha e compromete seu ritmo, especialmente quando enfoca os personagens antagonistas; não digo que essas cenas precisassem ser extirpadas do filme, mas é visível que um trabalho de montagem se fazia mais necessário nestes momentos. Por outro lado, o núcleo de dona Sebastiana (vivida pela maravilhosa Tânia Maria, a qual rouba cada cena em que aparece) acaba sendo subutilizado durante a narrativa, mesmo carregando alguns dos melhores momentos do filme. Ele não apenas consegue trazer leveza e respiro necessários a uma obra tão densa e repleta de maus agouros, mas também por reforçar a noção de um “sotaque fílmico” repleto de estranhamentos e elementos caricaturais que, na verdade, são bem comuns a nós nordestinos – por exemplo, eu vi tanto em dona Sebastiana a antiga dona dos kitnets em que morei em Aracaju que era como estar de frente a ela mais uma vez. Outra grande questão do filme reside nos interlúdios que levam à narrativa ao presente para enquadrá-la como uma espécie de relato, onde a figura de Marcelo é apreendida a partir das suas interações com os outros personagens. Esses interlúdios se amarram ao epílogo da obra, destacando enfim como a obra é voltada para a perpetuação e disputa pela memória, mas isso não quer dizer que não haja um custo, tanto em termos de duração quanto de própria construção narrativa. Ao contrário de muitos, não desgosto do epílogo em si (até porque ele se conecta, ainda que indiretamente, com Retratos Fantasmas), mas desgosto sim do encerramento anticlimático que se dá logo antes dele, além da ênfase desproporcional na personagem Flavia (Laura Lufési), que é nitidamente utilizada mais como um motor narrativo durante os interlúdios e epílogo do que como uma coadjuvante mais trabalhada tal qual outras do filme. Acaba sendo um encerramento que se prolonga de maneira insatisfatória, especialmente considerando o quão abruptamente Kleber encerra o clímax que marcava o momento em que o filme enfim libera a explosão cozinhada a fogo lento durante as duas horas anteriores. Estes inchaços narrativos e decisões controversas quanto ao final comprometem o saldo final de O Agente Secreto, impedindo-o de ser o melhor longa de Kleber Mendonça Filho até agora. Mas é certamente o seu mais denso, exigente, ousado e complexo – não necessariamente em termos de narrativa, mas talvez de culminar seu projeto de cinema feito até aqui, enquanto se abre para novas possibilidades que aludem tanto a Recife quanto ao Brasil em si. Neste percurso atmosférico e cheio de pirraça, o diretor pernambucano mostra que, seja em 1977 ou 2025, continuamos a disputar pelas memórias, verdades e identidades que fazem da sua cidade (e do nosso país) o que é. Nota: 4/5

  • Crítica | Marty Supreme

    A busca pelo sonho americano entre delírio, ambição e ilusão Foto: Divulgação Ao entrar na sessão já sabendo que iria encarar um filme dos irmãos Safdie (nesse caso, apenas um deles), eu já esperava um alto nível de frenesi e histeria impresso na tela. De modo que a montagem se torna mais acelerada nos momentos em que é necessário manter o espectador em estado de atenção, acompanhando a progressão da narrativa em um movimento de intensificação contínua. E do mesmo modo que vimos que em Joias Brutas não era apenas um filme sobre apostas, mas sim um filme interessado em refletir a instabilidade de um ideal capitalista. E apesar do filme contar a história de Marty Mauser (Timothée Chalamet), um jovem determinado a seguir o sonho de se tornar campeão mundial de tênis de mesa, em uma época em que a modalidade ainda batalhava não só por visibilidade, mas também por legitimidade enquanto “esporte de verdade”, no início da década de 1950, Marty Supreme, definitivamente não é um filme sobre tênis de mesa. Temos o ponto de partida a partir da cena de abertura do filme onde observamos espermatozoides batalhando até alcançar o óvulo, o que acaba se tornando uma rima visual com a cena final, nos dando um pouco da noção de tempo no meio dessa viagem frenética pela vida de Marty Mauser. Ele é o típico americano que se agarra em um propósito e é capaz de passar por cima de tudo e de todos pra obter sucesso em sua jornada de puro individualismo. Ele é um anti-herói com uma narrativa que funciona muito bem com o que Josh Safdie pretende propor de toda a urgência por trás do tal sonho americano. A determinação de Marty funciona como afirmação sexual de sua integridade étnica: sua aposta, tal como a de Howard em Joias Brutas, busca redimir uma condição coletiva, ainda que sustentada por uma confiança que paira no ar. O ritmo frenético e caótico brinca com o próprio fato do ping-pong onde o personagem do Chalamet precisa lidar com imprevisibilidades a todo momento, o que faz ele tomar decisões questionáveis em vários momentos. Mas para ele tudo vale para realizar seu sonho. Safdie possui um grande talento em montar um ótimo elenco, nele temos figuras como Tyler, the Creator, o amigo proletário de Marty que o ajuda a conseguir dinheiro através de golpes, o ilustríssimo cineasta Abel Ferrara que surge como uma subtrama incrível, além de Gwyneth Paltrow que surge com uma atriz que faz Mauser sentir a sensação de prazer diante do sucesso que tanto almeja, e Odessa A'zion que carrega um filho do Marty em seu ventre. É interessante ver como Marty age quase como um sociopata diante de todas as pessoas que passam pela vida dele, lidando com eles quase como obstáculos. Foto: Divulgação Acredito que do mesmo modo que Sean Baker criou um gênero próprio diante de sua filmografia na forma como ele lida com personagens marginalizados, Josh Safdie com Bom Comportamento e Joias Brutas se consolida como um autor que visa personagens da classe trabalhadora que dão o seu jeitinho para prosperar na vida, diante de um capitalismo tardio que cobra urgência onde o fracasso é iminente, mas é preciso avançar mesmo diante de todo o caos. Chalamet conduz muito bem sem o seu personagem perder a leveza e mesmo demonstrando uma persona carismática, mas sem romantizar suas ações execráveis. É inclusive uma atuação do Chalamet que dialoga bastante com Um Completo Desconhecido, e mais uma vez aqui o Chalamet acredita na obra e no personagem que ele representa. Timothée Chalamet foi capaz de entregar um personagem humano, e que ele entende que Marty é alguém movido pelo desejo de afeto, antes de tudo uma figura que precisa ser percebida, ainda que à custa da rejeição. E isso fica muito claro na sequência final em que ele improvisa uma conquista, mesmo que mínima diante de uma multidão. Marty Mauser é narcisista e espelha o país que lhe foi berço. O sentimento frustração que é recorrente no filme funciona muito bem quando acontece quebras do ritmo frenético, remetendo diretamente a máxima do sonho americano, onde a mentira inofensiva que persuade o indivíduo de que talento e esforço são suficientes para abrir um horizonte ilimitado de oportunidades. Evidentemente, há um ponto em que o espectador se exaure diante dos discursos intermináveis de Marty sobre o destino grandioso que o aguardava, o que faz emergir a pergunta sobre quando a ambição deixa de ser projeto e passa a se confundir com delírio. E peço perdão pelo trocadilho, até nos momentos que o Safdie resolve esticar a trama ele não deixa a bola cair em momento algum, pois a trama está de algum modo amarrada para o propósito de Marty. Estamos, afinal, desejando sua vitória ou apenas aguardando que essa sucessão vertiginosa de glórias e vexames o liberte da crença de que só ele importa? Talvez a resposta esteja no frame final, que reformula muito do que veio antes e que suaviza o filme e põe espaço para reflexão. Nota: 4.5/5

  • Crítica | O Beijo da Mulher Aranha (2025)

    Empolgante e descompassado, musical se salva pela cafonice da metanarrativa Divulgação Durante a ditadura na Argentina no início dos anos 80, um prisioneiro político e militante marxista chamado Valentín (Diego Luna) divide a cela com um homem chamado Molina (Tonatiuh), um vitrinista gay condenado por sua orientação sexual. À primeira vista, suas realidades parecem inconciliáveis, mas encontram uma forma de resistir ao cotidiano brutal do cárcere refugiando-se nas histórias da trama de um musical de Hollywood que Molina recria em sua mente. Adaptado para os cinemas pela primeira vez em 1985 pelo diretor Hector Babenco, o romance de mesmo nome teve uma versão fílmica que foi sucesso de críticas e de prêmios. O longa-metragem estrelado por William Hurt, Raul Julia e Sônia Braga concorreu a 4 Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Direção, e venceu na categoria Melhor Ator, premiando Hurt. É até hoje um dos mais cultuados filmes da década de 80. De lá pra cá o romance argentino de Manuel Puig ganhou uma versão de teatro musical no início da década de 90, e é esta peça que agora ganha uma versão cinematográfica. Bill Condon é um cineasta fã declarado de musicais. Ele dirigiu e escreveu a versão para o cinema do musical Dreamgirls (2006), escreveu o roteiro de Chicago (2004), dirigiu o live action de A Bela e a Fera (2017) e foi um dos responsáveis pelo roteiro de O Rei do Show (2017). Entre filmes bons e péssimos, Condon nunca deixou seu exagerado cafona de lado em todas as suas produções, seja no texto exageradamente romântico ou no visual exuberante, suas produções são carregadas de um sentimentalismo manipulador típicos da Hollywood clássica. A nova versão da história deposita ainda mais força na metanarrativa, na história contada por Molina que, na maioria das vezes, se resolve bem melhor do que a narrativa da prisão. Jennifer Lopez dá vida ao papel de Ingrid Luna, a atriz do filme “O Beijo da Mulher Aranha”, narrado pelo vitrinista. E ela é a inquestionavelmente estrela do(s) filme(s). Lopez canta, dança muito e entrega um papel cheio de garra, de vontade, e, talvez, cheio de significado para ela. Ingrid Luna é vibrante, vulnerável, excitante e melancólica ao mesmo tempo, e Jennifer Lopez entendeu com precisão as nuances de sua personagem. Mas não menos relevante, brilhante e atraente é Tonatiuh em suas várias interpretações. A produção, no entanto, não se desenvolve tão bem no plano da “realidade". O tom sempre lúgubre eventualmente se torna enfadonho e sem modulação. É apenas no ato final, quando a ação e o volume emocional pendem mais para o plano da prisão, que ele ganha força e interesse. As construções imagéticas dos dois espaços, o da cela escura versus o do technicolor efusivo, ajudam o filme a se equilibrar quando as diegeses parecem não caminhar no mesmo compasso. Os números musicais são grandiosos e executados com bastante competência e talvez sejam o elo que amarra, às vezes a muito custo, o que não pesa igual. Sendo bem negativista, histórias de opressão, repressão, preconceito e escapismo parecem não perder o timing. Sempre parece haver em algum tempo, em algum lugar do mundo, um grupo sofrendo represália por parte de outro grupo momentaneamente dominante. Então o texto de O Beijo da Mulher Aranha segue sem perder o frescor, mesmo se passando num contexto sociopolítico específico, as comparações e analogias a outros tempos e momentos seguirão existindo. Para o bem da arte e para o mal estar social. Nota: 3,5/5

  • Entrevista | “Entre o desejo e ambição”: Marcio Reolon e Filipe Matzembacher falam sobre “Ato Noturno”

    Após estreia no Festival de Berlim, os diretores refletem sobre as influências do cinema maneirista e construção de performances ao longo da trama Divulgação: Rafael Barion Eleito Melhor Filme Brasileiro no Prêmio Félix, que contemplou as narrativas LGBTQIAPN+ na 27ª edição do Festival do Rio, Ato Noturno chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (15). O novo thriller erótico dos diretores Márcio Reolon e Filipe Matzembacher conta a história de Matias (Gabriel Farias) um ambicioso ator que vive um caso sigiloso com Rafael (Cirillo Luna), um político em ascensão que descobrem ter fetiche por sexo em lugares públicos. À medida que constroem sua fama, se torna mais intenso o desejo de se colocarem em risco. “Ato Noturno” ainda venceu três categorias na principal mostra competitiva do Festival do Rio 2025: Melhor Roteiro, Melhor Ator para Gabriel Faryas e Melhor Fotografia para Luciana Baseggio. Você pode conferir a crítica dele aqui. Em entrevista ao Oxente Pipoca, os diretores falaram um pouco sobre a mudança de ares em relação aos projetos anteriores, as construções performáticas de cada personagem, articuladas às dificuldades de se moldar às expectativas da sociedade neoliberal, e o cenário gaúcho como um personagem ativo na trama. Você pode conferir a entrevista na íntegra abaixo: Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Primeiro eu queria que vocês falassem um pouquinho sobre a influência do cinema maneirista, principalmente o De Palma no longa, considerando que a abordagem foi um pouco diferente dos anteriores. Filipe Matzembacher: Eu acho que é muito bom você estar falando dessa ideia do cinema maneirista e da relação com o nosso cinema anterior, com Beira-Mar, com Tinta Bruta, porque com o passar do tempo eu acho que a gente foi abandonando pouco a pouco um cinema que era muito centrado numa ideia naturalista, realista, e a gente começou a se aproximar um pouco desse cinema que brinca mais com o gênero, mais com as ferramentas de cinema. Visivelmente, ela apresenta essas ferramentas de maneira mais direta para o espectador. E nesse processo, nesse interesse de brincar com essas ferramentas e de se afastar um pouco desse naturalismo, quando a ideia do filme surgiu, a gente pensou, vamos mergulhar primeiro no cinema noir. Logo a gente começou a perceber, é próximo disso, mas não é exatamente isso. E daí a gente foi revisitar esse cinema erótico dos anos 70, 80 e 90, que é um cinema que a gente adora, um cinema que dialoga muito com o universo do Ato Noturno. E nesse processo foi um processo muito interessante, criar um diálogo contemporâneo, claro, nosso, brasileiro, mas que dialoga com esse cinema ali do De Palma, do Verhoeven, de tantos outros filmes também que eu acho que foram necessários, mas o De Palma, talvez como uma das grandes referências. Definitivamente foi muito prazeroso poder criar essa comunicação com o filme. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Queria perguntar também como vocês enxergam essa relação entre vivências queer e a performance, principalmente a performance teatral tão abordada no filme? Filipe Matzembacher: Sim, eu acho que tem um aspecto que é muito importante no conceito de performance, que a gente trabalha desde o Tinta Bruta, na verdade, mas aqui a gente mergulha um pouco mais ainda, que é pensar a performance enquanto ofício, no sentido de teatro, que você comentou, e na performance social. Que todos nós fazemos isso, né? Mas quando nós pertencemos a determinados marcadores sociais, a gente repensa o tempo todo, a maneira que a gente se veste, a maneira que a gente senta, a maneira que a gente fala, o desejo que a gente vai expressar para o público ou não. E esses são elementos que nos interessam muito. E a possibilidade de ter personagens que exploram performance nesses dois âmbitos nos interessa muito. Acho que é um prato cheio para poder brincar um pouco com isso, com essa ideia desse palco constante. Esses personagens saem do palco do teatro, entram na coxia e eles seguem num outro palco. Eles só mudam de certa forma de personagem, mas eles seguem tendo que exercer determinados pensamentos, tendo uma autoconsciência muito grande. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Falando de performance, uma coisa que me deixou muito entusiasmada no filme, no geral, é como as necessidades dos protagonistas são construídas ao longo do filme, apesar de eles possuírem posições muito diferentes, que socialmente são normalizadas como algo praticamente quase oposto, um político e um ator. Ambos têm essa necessidade de entregar uma persona muito forte, que vai mudando de acordo com o filme. Não vou dar spoiler aqui, mas o final me chocou bastante e eu gostei muito. Então, queria que vocês falassem um pouquinho sobre isso. Marcio Reolon: Eu concordo com você, que acho que são profissões muito distintas, por mais que eu ache que ambas têm, de novo, a performance como um elemento muito forte. O ator, claro, por motivos óbvios, subiu no palco, ele está interpretando um personagem, mas o político também depende dessa imagem e dessa necessidade de vender uma persona pública, seja no palanque, seja no debate, seja na frente das câmeras, e isso para a gente era muito fascinante. Filipe Matzembacher: Eu acho que tem um aspecto também que é interessante que o Márcio comenta dessa performance, como eu comentei antes, dessa autoconsciência, que vai para um... que os personagens começam a perceber que para ascender socialmente nessa sociedade ultra neoliberal, eles vão ter que começar a abrir mão de quem eles são, eles vão ter que começar a criar esses personagens, moldar, e isso começa a pressionar eles e começa a pressionar o desejo deles. E isso é uma força motora do filme muito forte. Então vira esse duelo entre desejo e ambição. A gente brinca que é como entre Eros e Thanatos. O tempo todo o filme fica nesse diálogo. E os personagens também fazem uma jornada um pouquinho na mesma direção, mas é um pouquinho contrária, no sentido que o Rafael inicia o filme entendendo que tem que jogar esse jogo dessa forma. A convivência com o Matias vai tencionando, ele vai se soltando aos poucos, vai entrando um pouco mais em conflito. Enquanto o Matias, ele é muito confiante com quem ele é no início do filme. E pouco a pouco ele começa, então, a entender: “Não, tá! Se eu preciso e quero virar o galã da série, vou ter que abrir mão um pouco disso”, e ele começa a aprender, jogar o jogo com o Rafael nessa perspectiva. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Outra coisa também que me deixou muito impressionada foram as localidades do filme, eu não conheço Porto Alegre, mas li muitas críticas gaúchas e eles trouxeram como um ponto positivo essa parte da capital como um personagem mesmo, isso foi algo pensado desde o início do filme? Marcio Reolon: Sim, Porto Alegre costuma ser um cenário recorrente nos nossos filmes, porque, enfim, é a cidade onde a gente nasceu, onde a gente cresceu, mas, claro, cada vez eu acho que a cidade entra de uma maneira um pouco diferente. No nosso filme anterior, no Tinta Bruta, Porto Alegre era quase uma antagonista. Enquanto nesse filme agora, eu acho que ela assume mais uma posição quase de uma femme fatale, se é para falar de cinema noir, que ela é uma cidade que é perigosa, mas ao mesmo tempo ela seduz e pode ser um caminho de perdição dos personagens, mas eles se sentem mesmo assim muito atraídos por ela. E foi muito bacana poder explorar a cidade, especialmente o centro histórico da cidade, que é onde a maior parte das locações estão. Através dessas lentes, através desse olhar, e ainda mais porque sendo um filme que fala muito sobre performance, que tem uma lógica estilizada, a gente quis trazer essa estilização que está nos palcos também para as ruas. Então, pensando quase os postos de luz como refletores de um palco de teatro, os faróis dos carros iluminando os prédios, criando, assim, esses contornos de um cinema neo-noir ou de um suspense erótico que, de certa forma, acabaram repaginando um pouco a estética da cidade. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): O filme estreou no Festival do Berlim, passou pelo Festival do Rio, inclusive, parabéns por todos os prêmios, foi incrível. Queria saber se vocês sentiram a recepção diferente lá em Berlim, lá no Rio, e como vocês esperam que ele seja recebido no resto do Brasil? Marcio Reolon: Eu acho que para cada público que a gente exibe, a gente tem reações que são próprias, talvez, daquele público, e também reações que tendem a ser comuns. E, claro, eu acho que o público alemão recebe de uma forma, o público brasileiro talvez de outra, mas tem coisas que a gente tem visto com uma certa frequência, que é o engajamento que as pessoas conseguem ter com a história. A gente criou um filme que queríamos muito que o espectador pudesse se divertir enquanto assistisse o filme. Por mais que estivéssemos falando de temas muito sérios, e pra gente essa jornada era fundamental que as pessoas pudessem ter uma jornada prazerosa durante a assistência, mas quando o filme terminasse, queríamos que aqueles temas que trazidos pelo filme estivessem pulsantes na cabeça delas, que elas saíssem da sala de cinema debatendo. Então, acho que a nossa expectativa agora para a estreia nos cinemas é que as pessoas vão lá, compareçam e desbravem essas noites dessa Porto Alegre e encarem o perigo, a diversão. Tudo isso de peito aberto para que consigam entrar em contato com essas outras realidades que o filme traz, com o gênero que o filme propõe e participar desse debate dos temas que o filme suscita. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): E para terminar, eu queria que vocês indicassem três filmes brasileiros que o nosso público deveria ver? Marcio Reolon: Então eu vou começar com um que foi uma influência muito grande para esse filme, que é o República de Assassinos, do Miguel Faria Júnior. Ele é um filme policial, ou talvez neo-noir, queer, brasileiro, é um filme muito bacana. A gente inclusive fez uma homenagem para esse filme dentro do Ato Noturno. Os personagens, o Matias e o Rafael, no apartamento deles, eles têm um quadro do República de Assassinos na parede. E, na nossa opinião, tem uma das, talvez, a maior femme fatale da história do cinema brasileiro. Filipe Matzembacher: Eu acho que um outro filme, assim mesmo com tanto filme bom, porque é difícil escolher só um. Assim, talvez, O Menino e o Vento…Poderia ser? Porque é um filme muito lindo, do Carlos Hugo Christensen. Que é um filme que fala sobre desejo também. E sobre repressão numa sociedade muito conservadora e como o desejo é uma força incontrolável. É muito lindo como o filme lida com isso. Acho que é uma pérola do cinema brasileiro, definitivamente. Marcio Reolon: E vou encerrar, então, o terceiro com o filme contemporâneo e daí falar do Sem Coração, da Nara Normand e do Tião, que é um filme lindo, que nos toca demais. Eu acho que é um cinema super sensível e muito bem feito. Eu lembro que quando a gente assistiu a pré-estreia desse filme em Porto Alegre, a gente saiu, assim... encantados, chorando. Tanto a Nara quanto o Tião, acho que tem um cinema muito interessante, muito propositivo e que nos encanta demais Filipe Matzembacher: E ainda fizeram uma dobradinha com um curta que é lindo também, algo que é muito difícil. Eles já tinham feito um curta que era maravilhoso, e ao adaptar em longa metragem, às vezes isso não dá muito certo, mas nesse caso deu completamente certo.

  • Entrevista | “A gente não é só dor”: Ísis Broken, Lourenzo Gabriel e Tainá Müller falam sobre Apolo

    Documentário premiado no Festival do Rio discute a parentalidade e o afeto, com estreia marcada para 27 de novembro nos cinemas. Imagem: Divulgação Apolo, que estreia nos cinemas no dia 27 de novembro, é daqueles filmes que chegam carregando verdade, delicadeza e uma força política que atravessa. O documentário acompanha a trajetória de Ísis Broken, Lourenzo Gabriel e do pequeno Apolo em meio a uma luta por direitos básicos, mas também por dignidade, arte e afeto. A obra venceu dois prêmios no Festival do Rio e conquistou o público pela forma sensível e inventiva como transforma uma experiência íntima em narrativa cinematográfica que marca a estreia na direção da atriz Tainá Müller. Nesta entrevista ao Oxente Pipoca, Tainá Müller, Ísis e Lourenzo revisitam a origem do filme, o processo de criação e os desafios de registrar momentos tão pessoais diante das câmeras. Eles falam sobre representatividade, sobre Aracaju brilhando na tela e sobre o impacto de construir um documento que é ao mesmo tempo denúncia, poesia e álbum de bebê, um gesto político e amoroso que chega agora ao grande público. Confira a íntegra da entrevista abaixo: Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Assisti ao filme; não estava no Festival do Rio, mas ele chegou até mim e eu adorei. Queria dizer que é um prazer estar falando com vocês pessoalmente, especialmente com a Isis, que é minha conterrânea. Eu também falo aqui de Aracaju, então estou muito feliz de estar aqui com vocês. Primeiro, eu queria saber como essa história se tornou um documentário. Li algumas entrevistas da Tainá em que ela comenta que se tocou pela trajetória de vocês depois das denúncias que começaram a surgir. Mas queria entender melhor como foi esse processo de deixar de ser apenas uma ajuda, um apoio naquele momento difícil, e se transformar em um filme. Qual foi o momento em que surgiu esse estalo de que isso deveria virar um documentário? Tainá Müller: Então, Gabriella, eu sou jornalista de formação antes de ser atriz. Trabalhei em alguns lugares no audiovisual antes de atuar e sempre tive essa vontade, porque eu sempre amei documentário. Eu sou muito público de documentário, adoro mesmo. Às vezes, entre ver uma ficção e um documentário, eu prefiro o documentário, porque para mim aquela verdade ali não tem igual. E quando me deparei com a história do Lourenzo, para além de ser uma história que estava me mobilizando como mãe, como cidadã, como aliada da causa, eu achei que seria muito interessante colocar isso na tela. Comecei a pesquisar, entrei no Instagram do Lourenzo e pensei: “Caramba, como assim eu não conhecia?”. Comecei a ouvir a música dele, entender sobre o que cantava, e percebi que havia algo muito forte ali de espiritualidade, desse desencaixe no mundo, mas que ele transformava em arte. Aí veio a Isis. A Isis é essa artista que eu não conhecia e pensei: “Meu Deus, como eu não sabia da arte dela?”. É muito louco estar no Sudeste, e mesmo eu não sendo daqui, sendo do Sul, mas morando aqui há muito tempo, eu não conhecia os clipes da Isis. Fiquei maravilhada. “Meu Deus, que mulher é essa?”. E eles dois ainda lindos, interessantes, que falam bem. Eu pensei: essas pessoas precisam ser registradas. Não tem como dar errado colocar uma câmera neles e contar essa história. Então foram esses dois pontos. Primeiro, ajudar na questão real, que era grave. Eles estavam passando por uma situação séria, com uma criança sem atendimento. Eu fiquei pensando em como poderia contribuir. Lembro que, na época, os dois eram artistas que estavam sem trabalho por causa da pandemia. Eu até fiz um pix, mas logo pensei: isso não vai ajudar em nada. Eu preciso de algo mais volumoso para realmente ajudar. Depois de uma conversa com a Isis, que eu achei que tivesse durado uma hora e que ela disse ter durado três, a gente fechou tudo. Tivemos muita afinidade desde o começo. O Lourenzo eu conheci depois, mas também nos conectamos muito. E entendemos que a melhor forma de resolver as duas questões — registrar a história, porque eles já tinham essa vontade para evitar que acontecesse com outras pessoas, e também levantar um fundo para resolver a situação — seria transformar tudo em um documentário. A solução foi correr atrás de amigos produtores, que no caso foram a Biónica, com Bianca Vilar, Fernando Fraiha e Karen, e a Capuri TV, com o Edu. Conseguimos levantar essa grana para ter uma justificativa institucional para ajudar e, ao mesmo tempo, documentar tudo. Então foi uma ação que tinha esses dois objetivos ao mesmo tempo. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Quando assisti ao filme, duas coisas me tocaram muito. Primeiro, quando a gente pensa em documentário, ele sai daquela narrativa tradicional. Esse filme parece quase uma carta, um álbum, e isso me tocou bastante. Acho que essa forma envolve a gente de um jeito muito profundo na história. A outra coisa em que fiquei pensando é que a Isis e o Lourenzo já devem estar acostumados com câmeras, mas acredito que vocês não estavam acostumados a registrar momentos tão íntimos, momentos em que a gente normalmente não quer se expor. Por isso queria saber como foi para vocês ter essa presença tão forte das câmeras em situações tão pessoais. E também como foi rever tudo depois, com o filme já pronto, quatro anos depois. Imagino que tenha sido uma experiência completamente diferente. Lourenzo Gabriel: Eu já digo de cara que foi super desconfortável ter as câmeras ali na minha cara quando eu acordava. Tinha coisa ali que foi muito real mesmo. Tem uma cena em que a Isis abre a janela e eu estou coberto, não queria levantar de jeito nenhum. Eu estava irritado, não queria câmera gravando. Mil hormônios acontecendo, várias situações. Mas foi necessário. Eu sabia que estava fazendo algo que, de alguma forma, teria um resultado, mesmo sem saber exatamente qual seria. Depois, quando o filme ficou pronto e a gente assistiu, eu confesso que tinha muito receio de que fosse algo que me causasse muitos gatilhos, por tudo que eu passei. Claro que existem coisas que precisam ser mostradas, mas o filme acaba ficando leve. Eu consegui ter uma outra perspectiva sobre o que vivi. Então, por mais que tenha sido super difícil e estressante para mim durante o processo, foi algo muito necessário. E a forma como foi narrado, como uma carta para o Apolo, torna tudo mais leve. Torna, como a Isis falou, os nossos corpos humanizados. Mostra que a gente tem família, que a gente tem pai, mãe, avó. E que a gente não é simplesmente dor, violência e tudo isso. Ísis Broken: Uma coisa que eu gosto muito nesse formato de álbum de bebê é que realmente foi uma ideia da Tainá. Acho que ela pode até falar melhor de como essa ideia nasceu, mas aconteceu que ela ficou super nervosa para contar pra gente. Porque, assim, a gente tinha as imagens, mas ainda precisava entender qual seria o formato para mostrar tudo aquilo. Como editar, como construir. Ia ser aquele documentário padrão, tradicional? Sendo que a gente não é isso. E a nossa história também não estava nesse lugar, ela tinha muita potência artística. O primeiro corte ficou muito preso a essa narrativa mais dura, mais maçante, contando a história de um jeito sem tanta conexão. Foi aí que a Tainá decidiu refazer tudo com outra perspectiva. E eu acho que isso acabou sendo um presente para a gente. Quando ela veio contar: “Vamos fazer assim”, a gente respondeu: “Não, super, é exatamente isso”. Era mesmo um filme para o Apolo. E o Apolo amou. Na primeira exibição lá no Rio, ele chorou, ele se emocionou. Foi muito bonito ver uma criança de três anos reagindo à própria história desse jeito. Então essa visão da Tainá acabou sendo um presente para todos nós. Tainá Müller: Eu fiquei muito feliz, só para complementar, porque quando o Apolo se emocionou eu estava do lado deles e, gente, ele se emocionou de verdade. Não era choro de criança. Ele tem três anos e realmente se emocionou, daquele jeito de fazer a lagriminha e secar. Depois eu até perguntei: “Apolo, você chorou?”. Aí o Lourenzo perguntou: “Você chorou de tristeza, filho?”. E ele respondeu: “Não, chorei de alegria”. Imagem: Divulgação Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): A Aianne entrevistou vocês e ela estava lá no festival e ela falou: “Nossa, gente, ele é um encanto. Ele conquistou todo mundo lá e todo mundo saiu apaixonado por ele”. Acho que isso vem muito do que vocês estão falando, e eu também senti isso assistindo. É algo muito potente no documentário: quando ele dá certo, quando o filme funciona, todo mundo sai encantado. E quando vimos no Festival do Rio, eu fiquei ainda mais encantada com ele. Muito lindo. E Aracaju ficou tão bonito no filme, um espetáculo. Foi muito especial ver a cidade na tela desse jeito. E eu até queria perguntar isso para você, porque você sair daqui de Aracaju… inclusive vale destacar que acompanho sua carreira há bastante tempo; assisti show seu em 2019, tem muito tempo, lá no FASC. Eu estava lá. Então, imagino que ocupar esses espaços seja algo muito especial. A gente sente isso aqui também: quando pessoas daqui ganham chance de ocupar lugares que geralmente são ocupados por pessoas do Sudeste. E eu imagino que, para você, com toda essa bagagem como artista e também como pessoa trans, isso tenha um peso ainda maior. Queria que você falasse um pouquinho sobre isso. E também queria que vocês comentassem como foi a recepção no Festival do Rio, já que o filme saiu premiado com dois prêmios. Ísis Broken: Eu sou de Sergipe. Sergipe é o melhor estado do país. Fazer arte em Sergipe é extremamente precário, é muito difícil. Quando eu falei que queria ser artista, as pessoas diziam: “Você vai morrer de fome”. Eu trabalhava no tribunal, era concursada, e decidi abandonar tudo aquilo para virar artista. Foi nesse momento que lancei o clipe de Clã. Eu lembro que o clipe foi algo que realmente revolucionou Sergipe de uma forma muito absurda. Existe uma produção audiovisual de videoclipes em Sergipe antes e depois de Clã. É muito claro isso, sabe? Então eu sempre fiquei muito nesse lugar de vanguarda em Sergipe, de ser a primeira artista LGBT a ter um posicionamento nacional. Para mim é muito gratificante um corpo trans, travesti, estar à frente disso. Estar numa novela da Rede Globo, tendo uma personagem relevante, com história e cenário próprios, e que não era uma mulher trans. Isso também é muito revolucionário. No horário das seis, ainda tendo um par romântico. Tudo o que eu me proponho a fazer, eu tento levar Sergipe e Aracaju junto comigo. É um pouco difícil, claro, mas por exemplo: eu mantive o meu sotaque sergipano na novela. Até acentuei um pouco mais. E o sotaque nem era para ser de Sergipe. Então eu tento sempre trazer um pouco de quem eu sou, de toda a minha bagagem: minha mãe professora, meu pai gráfico, meu avô violeiro, repentista. Para mim, é muito bonito ver tudo isso acontecendo. Eu fiquei muito chocada no Festival do Rio, porque nas primeiras categorias eu achei que a gente ia ganhar o Prêmio Fênix e não ganhamos. Aí pensei: “Caraca, então a gente não vai ganhar nada agora”. Fiquei bem triste. Quando anunciaram o primeiro prêmio, de Melhor Trilha Sonora, eu pensei: “É… deram um prêmio de consolação para a gente. Obrigadão, vamos aí. Só para não passar batido”. Mas quando eles falaram que o Melhor Documentário era Apolo, eu fiquei em choque. Eu olhei para a Tainá e falei: “Como assim?”. Porque a gente estava concorrendo com a elite ali, com gigantes, com muita gente talentosa concorrendo com a gente. Tinham outros documentários lindos, enormes, com muito mais dinheiro, muito mais investimento, muito mais recurso. E aí entra esse link com Aracaju, com esse lugar da precariedade. Eu fiz um videoclipe com 1.500 reais e ele ganhou o prêmio de melhor videoclipe do país no Festival de Cinema de Vitória. Então não é sobre ter grana, é sobre ter uma boa história e saber como contar essa história. É sobre criatividade. Tainá Müller: Acho que é importante também ressaltar que o Lino Profeta fez essa trilha belíssima, mas a trilha também tem música da Isis e do Lourenzo. Lá atrás eu pensei: poxa, isso aqui é uma história audiovisual que já carrega tudo isso, porque já tem trilha, eles cantam, isso faz parte da narrativa. E a gente ainda tem a Xênia França encerrando o filme. Tem também o Dharma Lovers, que é da minha cidade, e aí eu botei a minha Porto Alegre ali num cantinho, também. Ísis Broken: O convite da Tiê, que gravou para o filme, foi muito especial. E foi lindo como tudo aconteceu. Eu já falava desse documentário fazia tempo e dizia para ela: “A gente tem que ter uma música sua no meu documentário, por favor”. Mas tinha uma questão da gravadora, porque ela era da Warner. Um dia, fomos participar de um programa na Rádio Brasil aqui em São Paulo. Eu era entrevistada primeiro, e depois ela chegou. A gente acabou se encontrando no mesmo dia. Ela virou para mim e falou: “Amiga, tenho uma novidade para te contar”. Disse que tinha conversado com o advogado dela e descoberto que, depois de sete anos de um fonograma, ela poderia regravar e ser dona da própria música. Então ela disse: “Eu consigo te dar a minha música para colocar no filme”. Tainá Müller: E aí vira essa trilha maravilhosa do filme que, sinceramente, mereceu muito esse prêmio. E é muito legal porque essa ideia do álbum de bebê não é só um álbum visual, é quase um álbum musical também. Tem as músicas de “papai e mamãe”, sabe? Isso é muito especial para o Apolo, porque ele vai poder ver e ouvir o que os pais dele estavam cantando naquela época. Gabriella Ferreira: Minha última pergunta, na verdade, nem é exatamente uma pergunta. Eu faço isso com todo mundo que entrevisto aqui no Oxente. Eu sempre peço uma dica de filme, documentário ou série brasileira que inspire vocês de alguma forma. Pode ser algo pessoal, algo que marcou a trajetória de cada um, ou até alguma obra que tenha servido de referência enquanto vocês faziam o documentário. É totalmente livre. Eu peço sempre essa indicação para todo mundo. Ísis Broken: O primeiro que eu indico é o da Linn da Quebrada, o Pajubá. Eu acho que tem várias referências ali que a gente trouxe, especialmente nessa forma de contar a parte mais espiritual e mais poética. Vem muito do Pajubá da Linn. Inclusive, ela também está no filme, porque eu tenho um posterzinho dela no meu quarto. O próprio filme já entrega ali a dica da referência, de onde muita coisa foi tirada. Outra referência para mim é Corpo Elétrico, que inclusive os diretores também ganharam lá no Festival do Rio. Lourenzo Gabriel: E aí, eu acho que a falta de referência também nos levou a fazer o filme. Essa ausência está aí, presente, sabe? Foi justamente por não encontrarmos essas histórias que sentimos que precisávamos contar a nossa. Tainá Müller: Tava pensando… eu sou muito fã de documentário. E tem um documentário brasileiro que me veio na cabeça, que não tem nada a ver com o nosso, mas que, quando eu assisti, há muitos anos, eu falei: “Nossa…”. Fiquei muito impactada. Foi Estamira, do Marcos Prado. Nossa, Estamira! Vocês já assistiram esse documentário? Gente, é uma coisa que eu acho que todo mundo tem que assistir. A Estamira… poxa, que grande personagem. E a forma como ele consegue contar aquela história, que na verdade é uma história de dor, mas ele traz ela pra uma luz, pra um negócio que a gente fica babando pela Estamira, sabe? Como uma filósofa, como uma pessoa que reinventa a vida dela ali, de um jeito muito… enfim, muito forte. Ísis Broken: Também tem Divinas Divas, né? Que é da Biônica, da nossa produtora. É um super documentário LGBT, de arte, sobre as nossas ancestrais, principalmente da comunidade trans, das transformistas ali do Rio.

  • Crítica | Morra, Amor (2025)

    O 'Padecer no Paraíso' da maternidade em uma adaptação que não entrega a justiça prometida. Imagem: Divulgação A nova adaptação do livro Morra, Amor de Ariana Harwicz chega aos cinemas pelas mãos de Lynne Ramsay, uma diretora veterana em temas polêmicos, com Você Nunca Esteve Realmente Aqui e Precisamos Falar Sobre o Kevin no currículo. Ramsay parece confortável em explorar dinâmicas sociais tabus e parece querer romper com a visão de maternidade perfeita, trazendo sua protagonista Grace (Jennifer Lawrence) para “padecer no paraíso”. A premissa da adaptação de Lynne Ramsay é instigante, propondo uma imersão na mente de Grace, uma mãe que se sente aprisionada em um casamento falido e na maternidade idealizada. A escolha de Jennifer Lawrence para o papel principal é um dos grandes acertos do filme, trazendo uma atuação intensa digna dos dilemas morais explorados por Ramsay em trabalhos anteriores. Contudo, a execução dessa jornada mental é o grande tropeço de Morra, Amor. O filme erra em concentrar todo o seu ímpeto dramático e narrativo nos primeiros 20 minutos. É nesse breve período que o espectador é bombardeado com as tensões, os questionamentos e o prenúncio da espiral psicótica de Grace. A montagem inicial é frenética e desconfortável, cumprindo a função de nos inserir no estado de espírito caótico da protagonista. O problema é que, após essa explosão inicial, o filme mergulha em um marasmo que se estende pela maior parte da sua duração. A promessa de uma desintegração mental constante se transforma em uma repetição tediosa de cenas que não avançam a narrativa nem aprofundam a crise da personagem de forma eficaz. O ritmo arrastado da 1h30min subsequente esgota a paciência, perdendo qualquer interesse gerado no começo. Imagem: Divulgação Ramsay tenta traduzir a psicose de Grace através de uma fragmentação, utilizando cortes abruptos e flashbacks desconexos para simular a sensação de que o espectador está enlouquecendo junto com ela. No entanto, o resultado é apenas confusão. Em vez de criar empatia ou imersão na mente perturbada, essa estratégia de montagem falha em estabelecer um fio condutor claro, transformando a experiência em algo negativo. O filme tenta ser visceral, com cenas violentas e chocantes, mas acaba sendo apenas opaco. Apesar disso, outro grande acerto do filme são as atuações de Sissy Spacek e Robert Pattinson. Spacek interpreta Pam, sogra de Grace (Jennifer Lawrence), que se esforça para auxiliar a nora com a deterioração mental na maternidade enquanto enfrenta o próprio luto pela perda do cunhado e do marido no mesmo ano. Já Pattinson, inicialmente, apresenta-se como um marido amoroso e dedicado, mas, ao longo da trama, revela-se detestável devido ao constante gaslighting e às traições. No mais, a promoção do filme demonstrava que ele se propunha a ser uma representação justa para um momento tão delicado da vida de uma mulher, mas beira o apático em como o filme foi conduzido. Nota: 2/5

bottom of page