Crítica | Reparação (15º Olhar de Cinema)
- Vinicius Oliveira

- há 3 dias
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Quando o exercício do luto se transforma num exercício de autocentralidade.

O cinema, como qualquer arte, é um canal poderoso de expressão dos sentimentos e visões dos seus realizadores perante o mundo, havendo variados graus dessa expressão, desde o campo do alegórico até o brutalmente direto. Nesse sentido, talvez poucos sentimentos podem ser tão poderosamente trabalhados quanto o luto, dada a sua intensidade e complexidade.
Em Reparação, o diretor baiano Marcus Curvelo propõe um exercício do seu luto frente a morte do pai e o adoecimento da mãe. No primeiro caso, a perda já é dada logo no começo, quando uma conversa entre os dois se converte em um descarrego de lágrimas; já o segundo se dá progressivamente, e somos colocados juntos a Marcus, forçados a ver sua mãe morrer aos poucos, mesmo com sua personalidade espirituosa se mantendo firme.
O diretor evita alguns caminhos mais óbvios na construção do filme, adentrando o reino do cinema experimental e deixando que suas imagens assumam contornos mais poéticos, com um enquadramento 4:3 e a fotografia P&B que faz de Salvador e do interior em que sua família viva lugares quase oníricos, transcendentais. Em especial, o mar assume uma dimensão crucial à obra: imagens de águas revoltosas se chocando contra as pedras, as narrações sobre os efeitos do salitre em Salvador, a própria figura de Marcus fantasiada e pintada perambulando a esmo pela praia, buscando ouvir as vozes dos pais.
E é a figura do diretor que mais vemos na obra. Ele escolhe fazer de seu luto o motor de Reparação, mais do que as memórias dos seus pais ou suas reflexões sobre os lutos. Os diálogos e narrações são esparsos, e o filme busca no silêncio (ou nos sons ambientes, sobretudo do mar) a sua voz. O vemos se filmando a todo instante, seja em crises de choro, ou assumindo outras personas que o ajudem a lidar com o luto; vemos até mesmo cortes auto infligidos em seu braço.
O problema é que, ao se apresentar de forma tão crua perante seu público, Marcus acaba caindo num lugar demasiadamente autocentrado, visto que volta a câmera quase que única e exclusivamente para si mesmo durante todo o processo. O resultado é um exercício de luto tão particular que se torna importante para ele, mas falha em sê-lo para o restante do público. É como ver uma sessão de terapia que em tese devia ser privada, mas é exposta para o mundo ver. E não há problema em externalizar estes sentimentos, mas pressupõe-se que tal externalização tenha como objetivo capturar uma resposta por parte do público.
Nisto reside o grande problema de Reparação: não há resposta a ser capturada além do tédio. Toda a beleza formal e estética não é suficiente para fazer com que o filme saia dessa dimensão tão particular para seu realizador, deixando-nos em dúvida sobre o que estamos assistindo: um exercício de vulnerabilidade que o aproxima do seu público ou um exercício tão egóico que o afasta. Ao final, salvo alguns instantes inspirados (as conversas por telefone com os pais, os poucos momentos centrados em sua mãe que revelam uma potência desperdiçada na obra), a segunda opção é a mais evidente.
Nota: 1.5/5



















