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Resultados da busca por "Mostra SP 2026"

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  • Análise | Fjord (TIFF 2026)

    Cristian Mungiu transforma uma história sobre imigração, religião e intervenção estatal em drama judicial competente, mas distante da força de seus trabalhos anteriores. Divulgação Depois de assistir a tantos filmes que tentam transformar questões políticas em grandes discursos, é interessante encontrar uma obra que coloque o espectador diretamente no centro de um dilema moral. Fjord, novo filme de Cristian Mungiu, parte de uma história real para questionar até onde o Estado deve interferir na vida de uma família e, principalmente, quem tem o direito de decidir o que é melhor para uma criança. O filme acompanha a família Gheorghiu, formada por Mihai (Sebastian Stan), um imigrante romeno, Lisbet (Renate Reinsve), sua esposa norueguesa, e os cinco filhos do casal. Depois de se mudarem para uma pequena cidade na Noruega, a família tenta se adaptar à nova realidade enquanto mantém seus valores religiosos e conservadores. O conflito começa quando uma denúncia de possível abuso faz com que os serviços de proteção infantil retirem as crianças de casa antes mesmo de uma investigação ser concluída. A partir desse momento, Fjord abandona parte da apresentação inicial da família e se transforma em um drama judicial. E é justamente nessa mudança que o filme encontra tanto sua maior qualidade quanto seu maior problema. A grande escolha da obra é que Mungiu não apresenta uma resposta simples para o conflito. A questão não é exatamente saber se os pais estão certos ou errados, mas até que ponto determinados métodos de criação podem ser considerados aceitáveis e, principalmente, quando o Estado deve interferir na vida privada de uma família. Ao mesmo tempo em que conseguimos compreender a preocupação dos serviços sociais, também é possível enxergar a frustração dos pais ao perceberem que pessoas que pouco conhecem sua família passam a tomar decisões sobre seus filhos. O diretor coloca o espectador em uma posição desconfortável, obrigando-o a escolher entre dois lados que não são completamente corretos ou incorretos. O filme também apresenta uma discussão interessante sobre imigração e religião. A família vem da Romênia, um país de tradição religiosa e valores mais conservadores, para uma Noruega marcada pelo secularismo, igualdade e forte presença do Estado. O choque entre essas duas culturas poderia render uma análise ainda mais profunda sobre racismo, xenofobia e integração, mas Mungiu acaba deixando essas questões em segundo plano. E esse é um dos principais problemas de Fjord. Conhecendo os trabalhos anteriores do diretor, especialmente 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias e R.M.N., eu esperava uma crítica social muito mais afiada. Em vez disso, o longa frequentemente se aproxima de um drama judicial tradicional, seguindo caminhos que já vimos diversas vezes em histórias baseadas em casos reais. Apesar disso, Fjord é elevado pelas atuações. Sebastian Stan entrega uma performance bastante diferente de seus papéis mais conhecidos. Atuando em romeno, o ator consegue transmitir a frustração de um homem que tenta construir uma nova vida enquanto percebe que, independentemente de seus esforços, ainda é visto como alguém de fora. Sua atuação evita transformar Mihai em uma simples vítima, permitindo que suas contradições permaneçam visíveis. Renate Reinsve também impressiona justamente por fazer menos. Depois de personagens mais explosivas em filmes como A Pior Pessoa do Mundo e Sentimental Value, a atriz assume aqui uma presença muito mais contida. Lisbet é quase sempre silenciosa e controlada, mas existe uma tristeza constante em sua expressão que acaba dizendo mais do que seus diálogos. Visualmente, o filme também se beneficia bastante de sua localização. As montanhas, o mar e as pequenas casas espalhadas pela paisagem norueguesa criam um contraste curioso com a tensão que toma conta da família. É um lugar que parece tranquilo e acolhedor, mas que rapidamente se transforma em um espaço de vigilância e conflito. Infelizmente, quanto mais Fjord se aproxima de sua conclusão, mais evidente fica sua estrutura convencional. O terceiro ato, passado principalmente no tribunal, oferece os melhores momentos de tensão, mas também reforça a sensação de que Mungiu poderia ter feito um filme muito mais provocador a partir dessa história. No fim, o longa vencedor da Palma de Ouro funciona melhor como um dilema moral do que como comentário social. É um filme que consegue fazer o espectador questionar suas próprias opiniões, mas que raramente aprofunda as questões políticas que parecem ser seu maior interesse. Com atuações fortes de Stan e Reinsve, o longa se mantém envolvente mesmo quando seu roteiro segue caminhos previsíveis. Fjord está longe de ser um filme ruim, mas também não possui a força que se espera de Cristian Mungiu. Uma história complexa sobre família, religião, imigração e os limites da intervenção do Estado acaba transformada em um drama judicial competente, porém convencional. No final, fica a sensação de que havia um filme muito mais interessante escondido dentro deste. Nota: 3/5

  • Crítica | Eles Vão Te Matar (2026)

    Aventura, terror e comédia se misturam em filme divertido com referências claras e sem grandes pretensões. Imagem: Divulgação Uma mulher responde a um anúncio enigmático para uma vaga de governanta em um luxuoso e sombrio arranha-céu em Nova York. Ao chegar, ela descobre que moradores desapareceram sem deixar rastros por décadas, alimentando boatos de um segredo maligno escondido nas sombras. O longa Eles Vão Te Matar deixa evidente desde seus primeiros minutos que não pretende se esconder atrás de sutilezas. Sob a direção de Kirill Sokolov, a obra abraça um estilo exagerado e energético, assumindo suas inspirações sem receio. É a produção pós-Kill Bill que mais exalta a energia Kill Bill descaradamente. E isto se encontra não apenas na violência estilizada, mas também na cadência das cenas de ação e no gosto por composições visuais marcantes com forte influência do cinema oriental. A cenografia é um dos trunfos da experiência, com ambientes que não apenas servem de pano de fundo, mas impulsionam a narrativa. O prédio ganha vida como um personagem próprio, repleto de detalhes e enquadramentos quase que teatrais, que enriquecem a sensação de mistério e perigo constante. Esse cuidado visual somado a um desenho de som límpido, que valoriza cada impacto, cada passo e cada momento de tensão, contribui para a imersão do espectador. Outro destaque é o trabalho de câmera, ágil e preciso, que acompanha o ritmo frenético da trama sem perder clareza. Os movimentos ajudam a construir momentos chave com eficiência, especialmente nas sequências de ação, onde a coreografia violenta ganha ainda mais força. Há um senso de timing bem ajustado, que mantém o público envolvido mesmo quando a narrativa decide abraçar o caos. Imagem: Divulgação Ainda assim, o filme claramente passa do ponto em alguns momentos, tanto nos efeitos visuais quanto nos efeitos práticos, o que não é exatamente um problema, mas também não ajuda na contenção dos limites imaginários na narrativa. O exagero é constante e por vezes quase caricatural, mas curiosamente isso se transforma em parte essencial do charme do longa. Em um cenário atual marcado por produções mais padronizadas, essa ousadia acaba funcionando como um diferencial e oferece algo que foge do previsível. O elenco acompanha esse espírito com entusiasmo visível. Há um senso de diversão coletiva, como se todos estivessem plenamente conscientes da bagunça institucionalizada proposta pelo nem sempre tão forte roteiro. O texto tem sim seus cutucões sociais também escrachados, mas escolhe não se aprofundar tanto nesta abordagem. As atuações exigem entrega física e isso aparece em cena, aliás um trabalho espetacular da equipe de dublês, tornando as situações-absurdo mais memoráveis e mais impactantes. É um tipo de filme que não surge mais com frequência, quase artesanal em sua construção, mas que consegue imprimir personalidade e originalidade mesmo apoiado em referências tão explícitas. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Clarissa (TIFF 2026)

    Adaptação de Virginia Woolf atualiza “Mrs. Dalloway” para Lagos, mas se perde em sua própria contemplação. Imagem: Divulgação Existe algo naturalmente interessante em adaptar Mrs. Dalloway para os dias atuais. Mais de cem anos depois da publicação do romance de Virginia Woolf, suas reflexões sobre classe, isolamento, envelhecimento e as limitações impostas pela sociedade continuam extremamente atuais. Em Clarissa, os irmãos Chuko e Arie Esiri transportam essa história para Lagos, na Nigéria, mas acabam criando uma obra que, apesar de suas boas intenções, raramente consegue transformar suas ideias em uma experiência realmente envolvente. A história acompanha Clarissa, uma mulher da alta sociedade nigeriana que passa o dia preparando uma festa em sua casa. Enquanto organiza os últimos detalhes para receber amigos e conhecidos, ela começa a revisitar momentos de sua juventude e a refletir sobre as escolhas que a levaram até sua vida atual. Entre essas lembranças estão Peter, seu antigo namorado e escritor aspirante, Sally, sua amiga por quem Clarissa também demonstra sentimentos, e Ugo. O filme alterna constantemente entre o passado e o presente, mostrando como aquelas amizades foram transformadas pelo tempo e pelas circunstâncias. A ideia de transportar a história de Londres para a Lagos contemporânea é, sem dúvida, uma das decisões mais interessantes do filme. A obra de Woolf discutia uma sociedade britânica marcada pelo colonialismo, pelas diferenças de classe e pelas consequências da Primeira Guerra Mundial. Aqui, os Esiri utilizam a Nigéria para observar as marcas deixadas pelo colonialismo britânico e as contradições de uma sociedade que tenta conciliar tradição, modernidade e diferentes estruturas de poder. O problema é que Clarissa frequentemente parece mais interessado em demonstrar essas ideias do que em transformá-las em uma narrativa capaz de prender nossa atenção. Imagem: Divulgação A estrutura alternando passado e presente funciona melhor nos momentos em que conseguimos entender como as versões mais jovens dos personagens se relacionam com aquilo que se tornaram. As cenas da juventude possuem uma energia diferente, quase como uma memória idealizada de uma época em que tudo parecia possível. No presente, porém, existe uma sensação constante de estagnação. Essa diferença ajuda a construir a personagem de Clarissa, mas também torna o filme excessivamente contemplativo. Muitas cenas parecem existir apenas para reforçar o estado emocional dos personagens, enquanto a narrativa demora para avançar. Sophie Okonedo é, sem dúvida, um dos maiores destaques. Sua interpretação é construída principalmente através de pequenos gestos, silêncios e olhares. Existe uma melancolia evidente em sua Clarissa, uma mulher que parece ter passado boa parte da vida tentando se convencer de que fez as escolhas certas. David Oyelowo também funciona muito bem como Peter, especialmente na maneira como transmite o arrependimento e o desejo de recuperar uma conexão que parece perdida há décadas. Os dois atores conseguem criar uma relação marcada por uma intimidade que nunca é completamente verbalizada, e são justamente esses momentos mais silenciosos que fazem o filme funcionar melhor. O restante do elenco também é competente, embora alguns personagens acabem parecendo mais importantes para as ideias do roteiro do que para a própria história. Isso fica particularmente evidente com Septimus, um veterano traumatizado que vive uma realidade completamente diferente da de Clarissa. Seu arco é provavelmente o mais pesado do filme. Enquanto Clarissa está cercada de conforto e pode escolher até onde deseja enxergar os problemas de seu país, Septimus carrega diretamente as consequências da violência e do abandono estatal. É uma contraposição interessante, mas a ligação entre os dois é tão distante que sua presença acaba parecendo quase como uma segunda história inserida dentro da primeira. Visualmente, os Esiri encontram algumas soluções interessantes para conectar passado e presente. Reflexos em espelhos e na água aparecem constantemente, criando uma espécie de ponte entre as diferentes versões dos personagens. A ideia funciona especialmente bem porque reforça o conflito central de Clarissa: a diferença entre aquilo que somos, aquilo que os outros enxergam e aquilo que imaginamos ter sido. O filme também utiliza sons e imagens para aproximar os diferentes personagens e momentos da história. Ora ouvimos sirenes, ora orações ecoando pela cidade, substituindo elementos presentes no romance original e ajudando a construir uma identidade própria para Lagos. Ainda assim, muitas dessas escolhas parecem mais interessantes isoladamente do que dentro do conjunto. Clarissa é um filme que claramente quer discutir questões importantes. Fala sobre colonialismo, classe social, privilégios, repressão, envelhecimento, liberdade e as consequências de viver em uma sociedade que constantemente exige que seus indivíduos se conformem. Existe muito conteúdo para ser explorado aqui. Mas, ao longo de seus 125 minutos, senti que o filme nunca encontrou uma maneira suficientemente dinâmica de conectar todas essas ideias. A adaptação de Mrs. Dalloway também cria uma expectativa difícil de cumprir. O romance de Woolf é conhecido justamente por sua capacidade de transformar pensamentos, memórias e pequenas observações do cotidiano em algo profundamente cinematográfico na imaginação do leitor. Clarissa tenta reproduzir essa sensação através de imagens, sons e mudanças temporais, mas nem sempre consegue alcançar a mesma força. No fim, a pergunta sobre liberdade permanece no centro da obra. Clarissa vive em uma posição privilegiada, mas ainda está presa às expectativas de sua classe, de seu casamento e de sua sociedade. Peter, Sally e os demais personagens também carregam diferentes versões dessa mesma prisão. E Septimus representa aqueles que sequer possuem o privilégio de escolher como querem viver dentro desse sistema. É uma ideia poderosa, mas Clarissa acaba sendo um filme que admiro mais do que realmente gosto. As atuações de Sophie Okonedo e David Oyelowo são excelentes, a atualização para Lagos é inteligente e existem momentos visualmente belos. Porém, a narrativa excessivamente lenta e contemplativa faz com que boa parte de seu potencial se perca. Ao invés de transformar suas grandes ideias em uma experiência emocionalmente marcante, o filme muitas vezes apenas nos explica, através de imagens bastante bonitas, por que elas são importantes. Clarissa entende perfeitamente o que Virginia Woolf queria discutir. O problema é que, ao tentar encontrar sua própria voz, os irmãos Esiri acabam criando uma adaptação mais interessante no papel do que na tela. Nota: 2.5/5

  • Crítica | Moana (2026)

    Disney) tentando jogar com uma nostalgia puramente econômica, está chegando ao fim, e talvez Moana (2026 Há exatos 10 anos a animação Moana: Um Mar de Aventuras (2016) estreou nos cinemas do mundo todo se tornando Em 2024, o filme ganhou uma continuação mais tímida e menos inspirada, ainda assim chegou a 1 bilhão Um exemplo recente, mesmo não sendo Disney, foi a versão humana de Como Treinar o Seu Dragão (2025) que O ator que dublou o deus Maui na animação deu vida ao personagem também na versão de 2026, e ele se esforça

  • Crítica | A Noiva! (2026)

    Vampiros, zumbis, bruxos, lobisomens… todos eles passaram pela safra piegas de desconstrução do monstro A década de 2020 está vendo Hollywood requentar esses personagens, mas desta vez tentando dar mais camadas Engatando o comentado Frankenstein (2025) de Guillermo del Toro, A Noiva! Estamos em março de 2026, não há mais lacuna para duvidar da força que Jessie Buckley tem em cena.

  • Crítica | Street Fighter (2026)

    criativa de Hollywood sustentada por remakes e alimentada pela nostalgia barata agarrou outro jogo em 2026 Não dá para negar que Street Fighter (2026) tem energia para segurar suas 2 horas de duração. cineasta Kitao Sakurai não economiza nas cores, nos objetos, nos tons, nos jogos de luz e sombra e mostra

  • Crítica | Michael (2026)

    relação ao estilo, e reduzindo a cinebiografia de cantores, trago como exemplos bem sucedidos Elvis (2022 Quanto ao recorte, um bom exemplo recente é o premiado Um Completo Desconhecido (2024), onde James Mangold

  • Crítica | Talismã (Festival do Rio 2026)

    Exibido no Festival do Rio 2026, o longa de Thaís Fujinaga, premiado como melhor direção na mostra Novos Com estreia nacional no Festival do Rio 2026, Talismã saiu da mostra Novos Rumos com o prêmio de melhor O longa mostra que, por mais americanizadas que certas narrativas soem, a brasilidade dá a elas um brilho A direção, suave e sensível, também mostra o quanto a exposição às redes sociais pode ser prejudicial

  • Crítica | The Unknown (TIFF 2026)

    Thriller existencial de Arthur Harari transforma uma história de troca de corpos em uma experiência desconcertante sobre identidade e solidão. Divulgação É difícil explicar exatamente o que acontece em The Unknown sem tirar parte da graça de descobrir o filme por conta própria. O novo longa de Arthur Harari começa como um thriller estranho sobre uma doença misteriosa e, aos poucos, se transforma em algo muito mais difícil de definir. Quando percebi que já não estava tentando entender exatamente para onde a história estava indo, mas simplesmente aceitando suas regras, percebi também que era justamente aí que o filme funcionava melhor. A história acompanha David (Niels Schneider), um fotógrafo recluso que passa seus dias registrando espaços esquecidos das periferias de Paris. Durante uma festa, ele conhece uma mulher misteriosa, Eve (Léa Seydoux), com quem se envolve sexualmente. Na manhã seguinte, porém, David acorda no corpo dela. Sem entender o que aconteceu, ele começa uma busca para encontrar seu próprio corpo e descobrir como voltar para ele. A premissa parece saída diretamente de um filme de ficção científica dos anos 1980. Existe algo de Possessão e Videodrome na maneira como Harari transforma o corpo em uma fonte constante de desconforto, mas The Unknown está menos interessado no terror físico do que na sensação de não reconhecer a si mesmo. O conceito de troca de corpos permite que Harari explore a identidade de uma maneira que dificilmente funcionaria através de uma narrativa tradicional. O que somos quando nosso corpo deixa de corresponder à pessoa que acreditamos ser? Até que ponto nossa identidade está ligada à nossa aparência? E, talvez mais importante, o que acontece quando as pessoas ao nosso redor deixam de reconhecer quem somos? Essas perguntas ficam ainda mais interessantes porque o filme nunca parece interessado em oferecer respostas. Quanto mais David tenta descobrir uma explicação lógica para o que aconteceu, mais a narrativa parece escapar de suas mãos. O filme não cria uma grande mitologia para explicar o vírus ou estabelece regras detalhadas para sua existência. Em vez disso, Harari transforma essa falta de respostas em parte da experiência. Visualmente, The Unknown é impressionante. A fotografia digital de Tom Harari cria uma sensação constante de deslocamento, como se a câmera também não soubesse exatamente onde deveria estar. Os enquadramentos são estranhos, os espaços parecem vazios e existe uma inquietação constante mesmo quando nada particularmente assustador está acontecendo. O mais interessante é que essa estética combina perfeitamente com o protagonista. David já era alguém deslocado antes mesmo de perder seu corpo. Ele fotografa lugares esquecidos de Paris, espaços que parecem não pertencer a lugar nenhum, tentando encontrar significado em ambientes que a maioria das pessoas simplesmente atravessa. Quando seu próprio corpo se torna um espaço desconhecido, essa obsessão ganha um novo significado. Mas talvez o maior destaque do filme sejam as atuações. Léa Seydoux e Niels Schneider enfrentam um dos desafios mais difíceis que um ator pode receber: interpretar alguém que está dentro do corpo de outra pessoa. Não basta mudar a voz ou os gestos. Eles precisam incorporar pequenos comportamentos que indicam que outra consciência está ocupando aquele corpo. Divulgação Seydoux, especialmente, consegue transmitir uma estranheza fascinante quando passa a carregar os movimentos e a personalidade de David. Schneider enfrenta um desafio ainda maior quando precisa interpretar diferentes identidades dentro de seu próprio corpo. A atuação nunca deixa de lembrar que estamos vendo uma pessoa tentando existir através de um corpo que não corresponde a ela. Quando Malia (Lilith Grasmug) entra nessa equação, o filme leva o conceito ainda mais longe. A nova troca de corpos adiciona outra camada à história e faz com que a pergunta inicial “como voltar ao meu corpo?” Comece a parecer menos importante do que “quem eu sou sem ele?”. Apesar de toda essa ousadia, The Unknown não é perfeito. A narrativa é bastante solta e, durante seus quase 150 minutos, existem momentos em que o filme parece simplesmente vagar sem uma direção muito clara. A ausência de uma mitologia mais definida pode ser libertadora, mas também pode deixar algumas passagens com a sensação de que estamos esperando por uma resposta que nunca virá. Para mim, porém, essa incerteza acaba fazendo parte do encanto. Um filme sobre pessoas que perderam a conexão com seus próprios corpos talvez não pudesse ser completamente confortável ou linear. Harari parece querer que o espectador também experimente essa sensação de deslocamento. A trilha sonora de Andrea Poggio reforça essa atmosfera, criando uma sensação de ameaça que raramente se transforma em terror convencional. Embora a premissa possa fazer parecer que estamos diante de um filme de horror, The Unknown é muito mais interessado no desconforto psicológico de estar preso em uma realidade que não conseguimos compreender, tornando o filme tão perturbador. O maior medo é perceber que nossa identidade pode ser muito mais frágil do que imaginamos. Arthur Harari pega uma premissa que poderia facilmente resultar em um thriller de gênero convencional e transformar-la em uma experiência existencial, estranha e profundamente desconfortável. Mesmo quando a narrativa perde um pouco o rumo, o diretor nunca perde o controle da atmosfera. The Unknown é um filme que não quer ser explicado, quer ser sentido. E quanto mais ele mergulha nessa sensação de não pertencimento, mais fascinante se torna. Uma obra ousada, visualmente inquietante e sustentada por performances excepcionais, que transforma a tradicional troca de corpos em uma investigação sobre o que realmente permanece quando tudo aquilo que nos define desaparece. Nota: 4.5/5

  • Crítica | The Debut (TIFF 2026)

    E o que Jerry não percebe é que acabou criando um monstro.

  • Crítica | Club Kid (TIFF 2026)

    Não apenas pela Nova York de 2016, pelas festas, pelas músicas ou pela sensação de que a vida noturna

  • Oscar 2026 | Lista completa dos vencedores [ao vivo]

    15 de março, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (AMPAS) entrega os vencedores do Oscar 2026 seguir e ativar as notificações para não perder nada do que estamos preparando para a cobertura do Oscar 2026 No Brasil, o Oscar 2026 poderá ser acompanhado ao vivo pelo canal TNT e pelo streaming Max, com início Confira a lista completa dos vencedores do Oscar 2026 abaixo (atualizada ao vivo): Melhor Filme • Sinners

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