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- Crítica | Nosso Segredo
O luto como herança. Imagem: Divulgação Há algo de sufocante em Nosso Segredo. Não apenas porque o filme de Grace Passô acompanha uma família negra atravessada pelo luto, mas porque, desde os primeiros minutos, existe a sensação de que aquela casa está tomada por uma ausência. Uma ausência que ninguém consegue nomear completamente, mas que está presente em cada silêncio, em cada gesto e em cada relação. Escrito e dirigido por Grace Passô, Nosso Segredo marca a estreia da mineira na direção de um longa-metragem. O filme chega aos cinemas nesta quinta-feira, dia 27, depois de conquistar três Kikitos no Festival de Gramado: Melhor Filme, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte. A história acompanha uma família negra que tenta retomar a rotina depois de uma perda. Enquanto cada integrante encontra sua própria maneira de lidar com o luto, o filho caçula guarda um segredo que pode fazer com que todos precisem encarar as raízes daquela dor. É uma premissa simples, mas que Grace Passô transforma em algo muito maior. O filme constrói um relato profundo sobre luto, racismo e memória, mostrando como determinadas experiências não terminam em uma única geração. Elas são herdadas, transformadas e, muitas vezes, silenciadas dentro das próprias famílias. Na primeira meia hora, Nosso Segredo faz uma escolha bastante interessante: não tem pressa para explicar o que aconteceu. Antes de entregar respostas, o filme quer que o espectador compreenda aquela família. Aos poucos, conhecemos a dinâmica entre os personagens, seus silêncios, suas tensões e a maneira particular como cada um reage à perda. O mais interessante é que o filme consegue fazer com que o espectador também se sinta oprimido pelo luto, mesmo sem conhecer completamente o personagem cuja ausência provocou toda aquela atmosfera. A casa se transforma em uma extensão desse sentimento. Os cômodos, os objetos e os próprios corpos dos personagens parecem carregar o peso daquilo que aconteceu. A direção de Passô demonstra bastante segurança ao trabalhar com esses elementos, especialmente na construção dos planos. É uma direção muito madura para uma estreia. Grace entende quando precisa deixar a câmera observar e quando pode transformá-la em parte da própria experiência dos personagens. A fotografia e a direção de arte ajudam ainda mais nessa construção, criando um ambiente que parece cada vez menor conforme o filme avança. Também é difícil assistir a Nosso Segredo sem pensar na trajetória de Grace Passô como atriz e nas experiências cinematográficas que ela acumulou ao longo dos anos. Existe algo de Temporada, No Coração do Mundo e O Dia que Te Conheci naquilo que aparece na tela. Os três filmes são produções da Filmes de Plástico e compartilham uma sensibilidade muito particular na maneira de observar personagens, espaços e relações. Isso não significa que Nosso Segredo seja uma extensão desses filmes. Grace Passô encontra uma voz própria como diretora. Ainda assim, principalmente em sua primeira metade, existe uma familiaridade estética que remete bastante ao cinema produzido pela Filmes de Plástico. O filme começa a caminhar por um registro mais próximo da ficção de suspense, construindo uma atmosfera sufocante em que existe constantemente a sensação de que alguma coisa está prestes a acontecer. É nesse momento que o surrealismo fantástico aparece de maneira mais evidente. A realidade da família começa a se misturar com uma dimensão mais estranha, quase como se o próprio luto alterasse a percepção daqueles personagens. Essa escolha funciona muito bem porque não transforma o fantástico em um elemento gratuito. Ele está diretamente relacionado aos sentimentos que o filme quer investigar. O grande mérito de Nosso Segredo, porém, está na maneira como ele conecta o luto às questões raciais. O racismo não aparece como um tema isolado ou como uma discussão inserida artificialmente na narrativa. Ele atravessa a história dos personagens e interfere na maneira como aquela família compreende suas próprias dores. O filme entende que o sofrimento também possui uma dimensão histórica. Algumas experiências não pertencem apenas a quem as viveu diretamente. Elas atravessam gerações, aparecem nos comportamentos, nos medos, nos silêncios e na forma como determinadas famílias aprendem a sobreviver. Imagem: Divulgação Por isso, o luto em Nosso Segredo nunca é apenas sobre uma morte. Ele também diz respeito a tudo aquilo que veio antes dela. Grace Passô encontra uma maneira bastante sensível de relacionar essas duas dimensões. A família precisa lidar com uma ausência concreta, mas também com dores muito mais antigas, que continuam presentes mesmo quando ninguém fala sobre elas. Outro grande destaque é o elenco. Os personagens parecem ter uma vida própria, como se suas relações existissem antes mesmo de a câmera começar a acompanhá-los. Essa naturalidade é fundamental para que o filme funcione. Grace não transforma seus personagens em instrumentos para apresentar uma tese sobre racismo ou luto. Eles são pessoas com contradições, afetos, ressentimentos e maneiras diferentes de lidar com aquilo que aconteceu. É justamente essa dimensão íntima que impede Nosso Segredo de se tornar excessivamente explicativo.O filme confia nas imagens, nos silêncios e nas relações para construir seus sentidos. Em alguns momentos, isso funciona melhor do que qualquer diálogo poderia funcionar. Se existe um problema, ele está principalmente na maneira como o filme transita entre seus diferentes registros. A primeira metade estabelece uma atmosfera muito particular, próxima do suspense e do fantástico, e nem sempre a narrativa consegue manter a mesma força quando começa a revelar suas cartas. Ainda assim, isso não diminui o impacto da estreia de Grace Passô como diretora de longa metragem. Nosso Segredo é um filme que demonstra consciência de imagem, espaço, ritmo e atmosfera. Mais do que isso, demonstra uma diretora interessada em entender como experiências individuais podem carregar histórias coletivas. É um filme sobre luto, mas também sobre aquilo que permanece depois dele. Sobre segredos que atravessam gerações. Sobre famílias que aprendem a conviver com aquilo que não conseguem dizer. E talvez essa seja a maior força de Nosso Segredo: entender que algumas dores não desaparecem quando deixam de ser mencionadas. Nota: 4.5/5
- Lista | Os melhores episódios do ano (até agora)
2026 está sendo um bom ano para a televisão, mas conseguiu ser excelente aqui nestes episódios. Imagem: Divulgação Pessoalmente, eu adoro exaltar a força episódica da desta mídia. E principalmente pelo fato de que em até temporadas que não são um tanto irregulares, algum episódio pode se destacar – como é o caso de alguns presentes na lista – e, às vezes, a temporada pode manter uma qualidade alta e se sobressair no geral, mas não tem aquele episódio que seja melhor do que os outros pois manteve uma regularidade, o que pode explicar algumas ausências na lista. Escolhi dezesseis opções, um por série, que, na minha humilde opinião, merecem o devido destaque. Mas antes, algumas menções honrosas: Menções Honrosas: “Search and Recovery” (História de Amor: John F. Kennedy Jr. & Carolyn Bessette, Temporada 1, Episódio 9); “6:00 P.M.” (The Pitt, Temporada 2, Episódio 12); “Dereks Don’t Die” (Falando a Real, Temporada 3, Episódio 6); “Litlle Thanksgiving” (As Quatro Estações do Ano, Temporada 2, Episódio 6); “La Hora de la Verdad” (A Casa dos Espíritos, Minissérie, Episódio 8); “Eran Más de Tres Mil” (Cem Anos de Solidão, Parte 2, Episódio 6). 16. “The Mailman” (Temporada 2, Episódio 5), Paradise Imagem: Divulgação Xavier (Sterling K. Brown) encontra Gary (Cameron Britton) e descobre o que acontece com Teri (Enuka Okuma) no dia do evento. Pessoalmente, tenho problemas com Paradise, mas acho a 2ª temporada realmente melhor do que a 1ª em tantos pontos, principalmente no arco da personagem de Shailene Woodley. E apesar dela não estar presente neste episódio, ele condensa muito bem o lado dramático que a série sempre teve o potencial para explorar ao ser contado da perspectiva de um personagem novo como Gary. E claro, com aquela reviravolta no final se não, não seria Paradise. O bom é que desta vez ela realmente fez sentido. Poderia estar na lista: “Graceland” (Temporada 2, Episódio 1) 15. “Queen’s Landing” (Temporada 3, Episódio 2), A Casa do Dragão Enquanto Alicent (Olivia Cooke) arrisca tudo para cumprir sua parte do acordo, Rhaenyra (Emma D’Arcy) deve decidir se o preço do Trono de Ferro é alto demais. O episódio que, provavelmente, seria o final da 2ª temporada, se tornou o meu favorito de todos. Apesar da série ter problemas basilares em como constrói seus personagens, é inegável que Rhaenyra e Alicent são as mais interessantes, ou pelo menos, o roteiro investe mais nuances. Aqui, Rhaenyra finalmente vive o luto de uma forma mais palpável e um plano - um tanto estapafúrdio - dá certo. O Trono é dela, mas não sem antes tomar decisões difíceis, para ambos os lados. O jogo dos tronos ganha mais forma, força e substância, mostrando já de início que reinar jamais será um mar de rosas. A temporada pode não ter mantido o nível o tempo todo, mas ainda assim conseguiu ser bem mais consistente do que o ano anterior. 14. “For Everything Else, There Was Bowling” (Temporada 2, Episódio 6), Seus Amigos e Vizinhos Imagem: Divulgação Coop (Jon Hamm) e a família enfrentam um velório e um funeral carregados de tensão e temos mais um belo episódio sobre o luto. Sem deixar de lado os toques de humor da série, aqui há um equilíbrio muito bem dosado com o peso de uma perda, seja em momentos mais sutis ou não. Umas das questões que eu mais gosto em Seus Amigos e Vizinhos, é como eles abordam a questão da idade e do tempo e esse episódio traduz muito bem isso, não só através do texto sensível de Danielle DiPaolo e Cara Pomanti, mas pela direção inebriante de Stephanie Laing, que te deixa tão atordoado quanto os personagens. É uma experiência imersiva e reflexiva que mostra o real potencial que eu sempre enxerguei na série. 13. “Lariat Takedown” (Temporada 1, Episódio 7), Margo Está em Apuros Imagem: Divulgação Margo (Elle Fanning) enfrenta finalmente Mark (Michael Angarano), enquanto Jinx (Nick Offerman) tem um dos piores dias da sua vida. Sabe aquele episódio onde as séries atingem o clímax? Pois é, isso costuma acontecer nos penúltimos das temporadas, principalmente quando elas são adaptadas de livros, como é o caso aqui. Neste ano de estreia, Margo Está em Apuros se mostrou uma série leve e gostosa de se assistir, mesmo abordando temas pesados e o fazendo com seriedade, mas é aqui que ela atinge essa dosagem perfeita. Enquanto temos uma cena hilária de Michelle Pfeiffer socando Marcia Gay Harden, há outra sequência pesadíssima envolvendo Elle Fanning e Nick Offerman. O elenco é um primor neste passeio entre o drama e a comédia e atinge todas as notas, assim como a direção que consegue dar o tom exato que a série pedia em um episódio cheio de acontecimentos importantíssimos para a trama. 12. “Rise of Apocalypse, Part 2” (Temporada 2, Episódio 4), X-Men ´97 Imagem: Divulgação Uma aliança entre os X-Men e En Sabah Nur começa a ruir quando Rama-Tut busca o poder supremo. Definitivamente, a temporada atinge seu ápice aqui, o que não é uma coisa exatamente positiva para o plano geral porque ainda faltavam mais cinco episódios e ficou notório que os rumos estavam, no mínimo, estranhos. No entanto, com este episódio focando no surgimento de Apocalypse, os riscos estavam tão elevados quanto a carga dramática, e era justamente esse equilíbrio que fez tanto sucesso no impecável primeiro ano da animação. O sacrifício feito aqui tem peso e comove, é uma pena que a temporada não seguiu no mesmo nível. 11. Episode 4 (Minissérie, Episódio 4), Pela Metade Imagem: Divulgação Em 2008, após um colapso nervoso, Niall (Jamie Bell) descobre que Ruben (Richard Gadd) retornou. A obsessão toma conta dele, e um confronto força os irmãos a encararem seu passado conturbado. A intensa minissérie constrói sua narrativa ao redor da relação conturbada entre os meio-irmãos e é aqui que o estopim de todo o conflito. Não bastando Niall atingir o fundo do poço como consequência de tudo, a cena do hospital em que os dois se enfrentam é de uma visceralidade absurda e onde a série assume a história que quer contar e como quer abordá-la. Durante os seis episódios, há um certo desequilíbrio no exagero, mas aqui, até o excesso de violência foi crucial para impactar, e não somente chocar. 10. “They Make a Noise Like Feathers” (Minissérie, Episódio 6), Fúria Imagem: Divulgação Alice (Emmy Rossum) e Catherine (Lola Petticrew) se encontram e a gente tem uma hora para ganhar a confiança da assassina. O episódio mais recente da lista, é uma aula de roteiro, onde as duas personagens de lados opostos da lei percebem que têm mais em comum do que imaginam. A complexidade e as nuances são muitas naquelas mulheres e na trama no geral, sem falar na construção da tensão que se instaura, enquanto todos os núcleos se movimentam. A minissérie aborda temas sérios e sabe equilibrar com um humor pontual sem se perder. É uma das surpresas do ano e só melhora. Poderia estar na lista: “Memory Distortion” (Episódio 3) 9. “Valerie Cherish” (Temporada 3, Episódio 8), The Comeback Imagem: Divulgação Enquanto a NuNet se apressa para fazer o anúncio sobre o uso da inteligência artificial, Valerie repensa seu futuro… com ou sem How’s That. Em seu último episódio – a não ser que Valerie volte daqui a 10 anos de novo, rs – , a série de Lisa Kudrow e Michael Patrick King traz sua veia tragicômica à tona na melhor forma e honrando sua protagonista tão rica. Ter a inteligência artificial como tema norteador aqui e não poderia ser mais relevante e modo como Valerie lida com isso ressalta todo o crescimento da personagem durante estas três temporadas. A cena final é brilhante e emocionante, carregada com todas as emoções que Valerie desperta, seja do choro ao riso. Poderia estar na lista: “Valerie Does It All” (Temporada 3, Episódio 4), “Valerie Has a Secret” (Temporada 3, Episódio 2) 8. “Awl in a Sack” (Temporada 1, Episódio 6), Cidade das Estrelas Imagem: Divulgação As consequências chegam na Cidade das Estrelas e tudo desmorona. É o tipo de episódio onde o clímax é construído há tempos e aqui vários são atingidos. Reviravoltas fomentam a tensão latente e os personagens são colocados no limite, onde basicamente todos são afetados. O valor de uma boa base de desenvolvimento no roteiro é mostrado aqui, principalmente na tomada das decisões drásticas, que são impactantes e emocionam. A série derivada de For All Mankind foi uma das melhores surpresas do ano e este episódio mostra justamente o porquê. Poderia estar na lista: “Bite Your Elbow” (Temporada 1, Episódio 5) 7. “Caramel” (Temporada 5, Episódio 7), The Bear Imagem: Divulgação A temporada toda leva a este momento e finalmente é a hora do serviço, com o caos que estamos habituados na série. No penúltimo episódio de sua história, Carmy (Jaremy Allen White) está a pouco tempo de deixar o restaurante de vez, enquanto Syd (Ayo Edebiri) precisa aprender a liberar. Os limites são testados em meio a uma tempestade que não cessa e os clientes não param de chegar, a tensão é latente e tudo parece que vai dar errado, mas como sempre, a união faz a força e a equipe se sobressai, com cada personagem tendo seu espaço para brilhar e mostrando o quanto se desenvolveu. É o tipo de episódio que faz a gente lembrar o porquê amamos a série um dia, mesmo com seus altos e baixos ao longo das temporadas. 6. “In the Name of the Mother” (Temporada 1, Episódio 5), O Cavaleiro dos Sete Reinos Imagem: Divulgação A coragem de Dunk (Peter Claffey) é posta à prova no brutal julgamento dos sete. Por meio de flashbacks, vemos a vida sofrida do rapaz. O episódio tem absolutamente tudo que fez a gente se encantar pelo mundo de Game of Thrones. Dividir este momento da batalha com uma história do passado, me causou certa desconfiança de início, mas o roteiro e a direção souberam equilibrar de maneira fantástica e emocionante o drama e ação, sem deixar de lado o desenvolvimento dos personagens. O que a direção faz para disfarçar o orçamento menor nas cenas de batalha é absolutamente impressionante e não deixa em nada a desejar, bem como manter a carga dramática elevadíssima. Poderia estar na lista: “Seven” (Temporada 1, Episódio 4) 5. “Montecito” (Temporada 5, Episódio 7), Hacks Imagem: Divulgação Depois de escolher seu figurino para o show no Madison Square Garden, Deborah (Jean Smart) descobre que ele pertence a uma ex-amiga e para conseguí-lo, precisa fingir ser um casal junto com Ava (Hannah Einbinder) em um fim de semana em Montecito. O que poderia parecer apenas um mero fanservice, abre brecha para que a relação de Ava e Deborah seja ainda melhor explorada, de uma forma tão hilária quanto emocionante, assim como as personagens individualmente. Há tantas camadas ali e o texto é brilhante em desenvolvê-las com aquela dosagem perfeita entre a comédia e o drama que a série faz tão bem. A participação de Cherry Jones e Leslie Bibb coroa o episódio como um dos melhores episódios da série. Poderia estar na lista: “The Garden” (Temporada 5, Episódio 9), “D’Amazing” (Temporada 5, Episódio 5), “Hacks” (Temporada 5, Episódio 10) 4. “Quem Não Reage, Rasteja” (Temporada 2, Episódio 7), Cangaço Novo Imagem: Divulgação O destino dos Vaqueiros é selado em uma batalha sangrenta pela defesa do arraial e uma perda irreparável fará todas as certezas estremecerem. Se Cangaço Novo fosse uma série internacional, tenho absoluta convicção que este episódio seria comentado por todos, daqueles que realmente marcam a televisão. Por isso, acho importante reconhecer um produto que é tão nosso e merece todos os louros. Surpreendente, devastador, violento, sombrio e com – mais uma vez – uma atuação visceral da genial Alice Carvalho e sua fantástica Dinorah, que para mim, é facilmente uma das melhores anti-heroínas da TV. Toda a equipe de produção estava comprometida em entregar seu melhor, e eu digo que conseguiram se sobressair. Poderia estar na lista: “O Maior Assalto de Todos os Tempos” (Temporada 2, Episódio 6) 3. “Both, And” (Temporada 4, Episódio 8), Industry Imagem: Divulgação Depois de Whitney (Max Minghella) ser descoberto e fugir, enquanto Yasmin (Marisa Abela), Henry (Kit Harrington) e Harper (Myha´la) precisam lidar com as consequências. Não à toa, Industry apresentou uma temporada madura e que se tornou minha série favorita do ano. É impressionante como a série evoluiu a cada ano e este episódio é o exato reflexo disto. A relação complexa entre Yasmin e Harper é uma das mais fascinantes da TV atualmente e a construção das personagens individualmente fica cada vez mais rica. O que os roteiristas fazem com Yasmin aqui é de uma ousadia louvável e que poucas séries têm coragem de fazer hoje em dia: desafiar sua audiência. Mesmo que a personagem já fosse um tanto amoral, ela cruza uma linha indefensável, mas toda a sua construção levou àquilo. A cena em que Harper tenta “salvar” a amiga é de partir o coração e nos deixa aflitos sobre os rumos que a 5ª e última temporada tomará. Poderia estar na lista: “Dear Henry” (Temporada 4, Episódio 6), “The Commander and the Grey Lady” (Temporada 4, Episódio 2), “1000 Yoots, 1 Marilyn” (Temporada 4, Episódio 4) 2. “Montreal” (Temporada 3, Episódio 6), The Vampire Lestat Imagem: Divulgação Lestat (Sam Reid) e Louis (Jacob Anderson) encontram alguém que revela dolorosas verdades aos dois e Louis acaba descobrindo o maior segredo de Lestat. Ambos os personagens são brilhantes e mesmo a temporada sendo focada em Lestat, Louis não é deixado de lado. Esse episódio com foco quase exclusivo nos dois, se mostrou extremamente necessário para que os pingos fossem colocados nos is. Há muita bagagem entre os dois e aquele relacionamento intenso e por mais tóxico que seja, não deixa de existir amor. “Montreal” faz praticamente um estudo deles ao enfrentarem coisas que não queriam enxergar e nos reafirmando quão multifacetados são aqueles personagens. E o final chocante é a cereja do bolo em um episódio que entra para a história. Poderia estar na lista: “Toronto” (Temporada 3, Episódio 3), “New York” (Temporada 3, Episódio 5), “The Failures” (Temporada 3, Episódio 7) 1.“Beach Reads” (Temporada 1, Episódio 4), O Segredo de Widow’s Bay Imagem: Divulgação Quando Patricia (Kate O’Flynn) descobre um livro de autoajuda, ela resolve dar uma festa e convidar todo mundo da ilha, mas as coisas não são exatamente como parecem ser. A natureza episódica da série permite que os episódios sejam centrados em determinados personagens e em arcos mais pessoais – sem deixar de lado a trama central – e aqui é a hora e vez da espetacular Patricia. Interpretada brilhantemente por O’Flynn, a moça ainda não tinha aparecido tanto, mas sua acidez já tinha mostrado potencial. Em “Beach Reads”, a série consegue atingir seu alcance completo de equilibrar a comédia e o horror de uma forma genial, surpreendendo na reviravolta, enquanto desenvolve uma personagem tão fascinante e trágica como Patricia. Não deixa de ser hilário, ao mesmo tempo que é assustador, na mesma medida que é comovente. Aula de televisão. Poderia estar na lista: “Your Baggage” (Temporada 1, Episódio 8), “Seasickness” (Temporada 1, Episódio 7), “What to Expect on Your Trip” (Temporada 1, Episódio 5)
- Crítica | Leite em Pó (54º Festival de Cinema de Gramado)
Primeiro longa-metragem de ficção de Carlos Segundo aborda o estranhamento do luto e reafirma a originalidade do cinema feito no Nordeste. Imagem: Divulgação Por: Diego Benevides (Colaboração especial para o Oxente Pipoca do 54º Festival de Cinema de Gramado) É comum que, em filmes sobre luto familiar, o drama transborde nas ações e nos diálogos dos personagens como estratégia emocional que, além de conduzir a narrativa por caminhos previsíveis, favorece a identificação do público diante do bombardeio sentimental provocado pela temática. Leite em Pó, longa-metragem dirigido por Carlos Segundo, opta pela direção inversa. Há uma contenção emocional na jornada do protagonista Vicente, interpretado por Vinícius de Oliveira, que precisa repensar a vida após a morte trágica de sua avó, Helena, papel de Zezita Matos. Essa economia é consciente e, ainda que possa frustrar quem busca maior intensidade emocional, pode ser entendida como uma estratégia mais efetiva para refletir sobre os efeitos das perdas familiares explorados pela obra. Em seu lugar, há uma série de escolhas dramáticas maduras que o roteiro de Segundo, em parceria com Rafael Copel, prefere explorar, sem prejudicar a trama ou transformá-la em uma experiência apática. A originalidade autoral de Segundo, já presente em trabalhos anteriores, com destaque para os curtas-metragens Sideral (2021) e Big Bang (2022), adiciona, aos poucos, camadas afetivas à narrativa de Leite em Pó, sem convertê-la em um grande lamento. Vicente, o “Paulista”, é um homem pacato e sem muito carisma que leva uma vida ordinária em Natal (RN). O protagonista tem o sonho de ser cantor de rock, ainda que falte a ele não só a oportunidade para despontar como artista, mas também um pouco de talento. A morte de sua avó o deixa sozinho e complica a sua situação financeira. Após tomar uma decisão mórbida envolvendo a falecida, ele precisa agir para garantir a sua permanência na cidade. É assim que Vicente começa a trabalhar como vendedor de álbuns de fotografias de formatura e conhece diversas pessoas que afetam a sua visão de mundo. Cada encontro traz novas perspectivas para Vicente, em especial os que acontecem com Iara, papel de Rejane Faria, e com Shirley, interpretada por Priscilla Vilela. As conversas criam um ecossistema de relações de pertencimento, que contribui para a tentativa de reorganizar essa nova fase de vida do personagem, interpretado com precisão por Vinícius de Oliveira. Vicente é um ouvinte que analisa sem pressa o que começa a descobrir sobre as pessoas e sobre o espaço social em que está inserido, transformando sua letargia em movimento, guiado com destreza pela direção de Segundo. Imagem: Divulgação Em paralelo a esses encontros, Vicente recebe um diário escrito por sua avó, que revela um histórico de violência que ele desconhecia, confrontando-o com traumas do passado e colocando em pauta outra dimensão política da história. Ainda que, neste ponto, o roteiro seja excessivamente expositivo, pela forma direta como apresenta os fatos, a atmosfera fantasmagórica da voz de Zezita Matos adensa o debate sobre as estruturas históricas que ainda afetam a existência das mulheres na sociedade. De todas as mensagens cravadas por Segundo, talvez a mais contundente seja aquela que reflete sobre a coragem que precisamos tanto para viver quanto para morrer. A melancolia da narrativa é interrompida, algumas vezes, por figuras cômicas que aliviam o peso da estrutura dramática, como a personagem de Titina Medeiros, em seu último papel no cinema, que vive a chefe de Vicente na empresa de fotografias, ou mesmo um casal libertário que injeta desejo e aventura na vida do protagonista. Segundo traz uma variedade de personagens e de corpos que surgem para compor essa jornada, sob uma condução formal rigorosa, característica de seu cinema. A construção sonora de Waldir Xavier ajuda na caracterização dos espaços e das pessoas que atravessam o percurso do protagonista, enquanto a montagem de Jéròme Breau preserva o equilíbrio entre humor e estranhamento. Durante a coletiva de imprensa no 54º Festival de Cinema de Gramado, a primeira pergunta dirigida a Segundo e à equipe foi sobre as limitações de filmar em Natal (RN). Ainda há quem ache exótico que filmes indomáveis como Leite em Pó nasçam fora do eixo tradicional de produção, quando, na verdade, são obras como essa que reafirmam a diversidade da experiência autoral no cinema nacional. Mais importante do que saber se houve estrutura suficiente para a realização do filme é entender por que uma obra com essa consistência consegue se destacar entre os demais títulos da programação. Não é possível contar a história do cinema brasileiro sem passar pela persistência da produção nordestina, e realizadores como Segundo continuam ampliando essa tradição. Nota: 4/5
- Citronela Doc chega à 6ª edição com premiações inéditas, mostra internacional com o renomado festival FICCI e masterclasscom João Moreira Salles
Evento gratuito acontece de 25 a 30 de agosto em Ilhabela (SP). Imagem: Divulgação A 6ª edição do Citronela Doc - Festival de Documentários de Ilhabela, que acontece de 25 a 30 de agosto em Ilhabela (SP), inaugura uma nova fase do festival, cheia de novidades. Pela primeira vez, a Mostra Nacional e a Mostra Regional serão competitivas. Além disso, o festival traz uma Mostra Internacional realizada em parceria com o Festival Internacional de Cine de Cartagena de Indias (FICCI), na Colômbia, uma Mostra Infantil em parceria com o festival Recria Cine e uma masterclass com João Moreira Salles, um dos mais importantes documentaristas, roteiristas e produtores do cinema brasileiro. Todas as atividades são gratuitas. A premiação é uma das principais novidades desta edição. As obras selecionadas dentre mais de 550 inscritas representam 12 estados brasileiros mais o Distrito Federal e cinco cidades do Litoral Norte e do Vale do Paraíba. Os filmes nacionais concorrem aos prêmios de Melhor Longa-Metragem, Melhor Curta-Metragem e Menção Honrosa. Já a Mostra Regional premiará o Melhor Filme Regional e o Melhor Filme de Diretor(a) Estreante. A programação também contará com o Prêmio Utopia Docs, oferecido pela distribuidora internacional Utopia Docs, e com o Prêmio Aquisição todesplay. Os prêmios serão definidos por um júri formado por profissionais da área do audiovisual: Tatiana Lohmann, diretora, Paulina Chamorro, jornalista, Willen Dias, montador, Erika Araujo, produtora executiva, Lygia Barbosa, diretora e Paulo Delfini, curador e membro do Fórum de Cinema do Interior Paulista (Icine).Entre os oito longas-metragens da competição nacional estão "A Fabulosa Máquina do Tempo", da premiada cineasta Eliza Capa, que estreou na edição 2026 do Festival Internacional de Cinema de Berlim, a Berlinale; "Na Passagem do Trópico", de Francisco Miguez, filmado em Ubatuba; "O Pai e o Pajé", de Iawarete Kaiabi, Felipe Tomazelli e Luís Villaça, vencedor do Prêmio Abraccine na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo; "Lendo o Mundo", de Catherine Murphy e Iris de Oliveira, sobre Paulo Freire; "Apopcalipse Segundo Baby", de Rafael Saar, que acompanhou a cantora Baby do Brasil por 18 anos para contar sua trajetória; "Cartas para…", de Vânia Lima, que acompanha a transformação de quatro mulheres por meio da troca de cartas; "Mãos à Terra", de Sérgio Guidoux Kalil, sobre a história da Feira de Agricultores Ecologistas; e "VIVO 76", de Lírio Ferreira, dedicado ao histórico álbum “Vivo!” de Alceu Valença. A seleção de curtas-metragens reúne produções contemporâneas premiadas em festivais nacionais e internacionais que abordam temas como memória, povos indígenas, cultura afro-brasileira, violência de Estado, mineração, encarceramento juvenil e tradições populares. A lista inclui "A Pele do Ouro", de Marcela Ulhoa e Yare Perdomo; "Caldeirão", de Oliveira Júnior, Milena Rocha e Weslley Oliveira; "Cordel da Marujada", de Gabriel Paixão; "Cordões e Sinos de Além-mar", de Yuji Kodato e Jeremias Brasileiro; "Escudo", de Andrey Haag e Cauê Santiago; "Logos", de Britney; "Minhocuçu", de Leonardo Branco e Lucas Campos; "Os Arcos Dourados de Olinda", de Douglas Henrique; "Thayara", de Mila Leão; e "Vinte Vinte Quatro", de Davi Pieri. A Mostra Regional evidencia a força da produção audiovisual do Litoral Norte paulista e do Vale do Paraíba com "A Força da Raiz", de Maria Sol Aranda (Ubatuba); "Janelas da Memória", de Yasmin Bilard (São Luiz do Paraitinga); "Kaeté", de Pedro Ciampolini (Ubatuba); "Menina Moça e a Cobra de Duas Cabeças", de Letícia Andra (São Sebastião); "Narrativas ao Sol", de Isabella Gonçalves e Thais Chaves (Ilhabela); "Renato Canoeiro Caiçara", de Dannyel Leite (Jacareí/Ubatuba); e "Resíduos de Esperança", de Roseane Moura (Ubatuba). Com direção majoritariamente feminina, os filmes revelam a diversidade de olhares e narrativas sobre os territórios da região, trazendo à tela saberes ancestrais, memória, identidade e cultura dos povos, a relação com a natureza, sustentabilidade e os impactos da crise climática. As obras também refletem sobre as transformações sociais e ambientais que atravessam essas comunidades, valorizando histórias, personagens e saberes pouco representados no cinema. Os filmes foram selecionados por uma equipe de curadores que reuniu profissionais do audiovisual com diferentes perfis e de regiões distintas do país (saiba mais sobre os curadores ao final do texto), auxiliados por um comitê de seleção formado por nove pessoas que se inscreveram para participar do processo. Outra estreia desta edição é a Mostra Internacional, realizada em parceria com o renomado Festival Internacional de Cine de Cartagena das Índias (FICCI), na Colômbia, o mais antigo festival de cinema da América Latina. O festival é conhecido por promover a diversidade cultural e exibir centenas de produções gratuitas para o público. A seleção apresenta produções colombianas de 2025 e 2026, que foram destaque no FICCI, como o longa "Andariega", de Raúl Soto Rodríguez, que acompanha a rotina nômade de uma colhedora de café (estreia no Festival Internacional de Documentários de Amsterdã - IDFA e no FICCI), e os curtas "Decair", de Juan Camilo González, animação que confronta a busca pelo passado (Prêmio de Melhor Contribuição Artística no FICCI 65); "Filme Pin", de Maria Rojas Arias e Andres Jurado, que conta histórias de solidariedade internacional por meio de broches (Menção Especial em Curtas Colombianos no FICCI 65), "Niña Chilapa", de Juana Lotero, que tem como tema a gravidez na adolescência e seus desafios, (Melhor Curta Colombiano no FICCI 64) e "Sombras na Névoa", de Pedro Pablo Vega Reyes, que mostra o cotidiano de uma família criadora de ovelhas em uma região de altas montanhas (Prêmio do Público e Melhor Direção em Curtas Colombianos no FICCI 65).Com exceção de “Filme Pin”, todas as obras terão sua estreia brasileira no Citronela Doc. “Sombras na Névoa” faz também sua estreia internacional no festival ilhabelense. Nas sessões especiais, fora das mostras competitivas, o Citronela Doc apresenta o premiado “Mounir”, de Juliana Borges, premiado Melhor Filme Longa-Metragem na mostra competitiva Territórios e Memória da 15ª Mostra Ecofalante de Cinema (2026). O filme acompanha um imigrante centro-africano e a jovem cineasta brasileira que registra sua história ao longo de dez anos e três continentes, em uma narrativa que transita entre realidade e ficção. Também será exibido “Artacho Jurado, Sinfonia de um Arquiteto”, de Teresa Eça e Pedro Gorski, que revisita a trajetória do arquiteto responsável por uma das linguagens mais singulares da arquitetura paulistana. A programação também reúne debates, oficinas, apresentações artísticas e shows. Entre os destaques estão a masterclass “O Problema do Documentário”, com o documentarista João Moreira Salles, no sábado, 29 de agosto, das 11h30 às 13h, no Esporte Clube Ilhabela, com entrada gratuita e aberta ao público, sem necessidade de inscrição prévia. Salles é autor de obras marcantes como “Notícias de uma Guerra Particular” e “Santiago” e ‘No Intenso Agora” e, recentemente, publicou “Arrabalde”, série de sete reportagens sobre sua experiência na Amazônia.O Encontro de Realizadores, coordenado pela Escola de Cinema Citronela, também é um grande destaque da programação. Serão três dias de formação, entre 28 a 30 de agosto, com atividades formativas realizadas em parceria com atores importantes no mercado, como Spcine, Sebrae, Icine, Ilhacine e Ilhabela Convention & Visitors Bureau. As atividades acontecem no Esporte Clube Ilhabela e no píer da Vila. Outra novidade no Citronela Doc em 2026 é a Mostra Infantil, que trará nove produções em parceria com o festival Recria Cine, e também a realização de uma Mostra Educativa, com a realização de nove sessões de cinema para alunos do infantil, fundamental 1 e fundamental 2 de escolas públicas de Ilhabela, no Cine Villa Bella & Clube, localizado no Centro Cultural Waldemar Belisário.O festival também terá programação online, disponível de 1º a 10 de setembro em todo o Brasil pelas plataformas Spcine Play e todesplay. Mais informações estão disponíveis em www.citroneladoc.com.br e no Instagram @citroneladoc. O 6º Citronela Doc é uma realização do Programa de Ação Cultural (ProAC), da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Governo do Estado de São Paulo, com produção da Associação Cultural Citronela e coprodução de Ver Para Crer, Salga Filmes e BR8 Cultural.
- Crítica | Ponto Sem Retorno
Filme sofre com um ritmo irregular e com uma história que parece grande demais para caber em um longa-metragem. Imagem: Divulgação Em um mundo devastado por uma pandemia que praticamente dizimou a humanidade, os poucos sobreviventes precisam encontrar maneiras de continuar vivos em meio ao isolamento, à violência e à escassez. É nesse cenário que acompanhamos Hig (Jacob Elordi), um piloto que vive em um aeroporto abandonado ao lado de seu cachorro e de Bangley (Josh Brolin), um ex-militar que se torna seu parceiro de sobrevivência. Quando Hig capta uma misteriosa transmissão de rádio, decide seguir o sinal e descobrir se ainda existe algo além daquele mundo destruído. Baseado no livro The Dog Stars, de Peter Heller, Ponto Sem Retorno estreia nesta quinta-feira (27), é dirigido por Ridley Scott e conta com Jacob Elordi, Margaret Qualley, Josh Brolin, Guy Pearce, Allison Janney e Benedict Wong no elenco. E é justamente na construção desse universo pós-apocalíptico que o filme encontra um de seus maiores acertos. Ridley Scott cria muito bem a atmosfera de um mundo depois do fim. O isolamento, os espaços abandonados e a sensação constante de perigo ajudam a estabelecer uma ambientação convincente, fazendo com que seja fácil acreditar nas regras daquele universo. O filme também sabe aproveitar visualmente esse cenário e demonstra, mais uma vez, a segurança de Scott na direção. O problema é que toda essa construção não é acompanhada por um ritmo tão eficiente. Ponto Sem Retorno tem dificuldade em encontrar uma cadência constante e alterna momentos bastante interessantes com outros que acabam se arrastando. Isso pesa principalmente porque a história possui elementos suficientes para sustentar uma narrativa muito mais envolvente. Imagem: Divulgação O elenco, felizmente, ajuda a manter o interesse. Jacob Elordi funciona muito bem como Hig, principalmente ao transmitir a solidão e o desgaste emocional de alguém que vive em um mundo praticamente vazio. Margaret Qualley também se destaca e consegue trazer uma dinâmica interessante para a história. Além deles, o filme conta com ótimos atores em participações mais pontuais, que mesmo aparecendo pouco conseguem deixar sua marca. As cenas de ação são outro ponto positivo. Elas funcionam bem dentro da proposta do longa e são conduzidas com segurança, sem deixar de lado a atmosfera de tensão. Quando Ponto Sem Retorno acelera e coloca seus personagens em situações de perigo, o filme encontra uma energia que nem sempre consegue manter nos momentos mais contemplativos. E talvez seja justamente aí que esteja sua maior fragilidade. O longa apresenta diversas questões que poderiam ser melhor exploradas, principalmente sobre sobrevivência, relações humanas, solidão e o que significa tentar reconstruir uma vida depois de uma catástrofe. Porém, muitas delas acabam sendo apenas apresentadas, sem receber o desenvolvimento necessário. Algumas soluções também parecem fáceis demais diante dos problemas estabelecidos anteriormente. Como não li o livro de Peter Heller, não dá para avaliar se a adaptação consegue traduzir bem a obra original ou se parte dessa sensação vem justamente do processo de condensar a história. Mas, assistindo apenas ao filme, fica a impressão de que esse universo teria muito mais a ganhar com uma série. O tempo adicional permitiria desenvolver melhor os personagens, explorar as regras daquele mundo e trabalhar com mais profundidade algumas das questões que aqui acabam passando rapidamente. De maneira geral, Ponto Sem Retorno está longe de ser um filme ruim. Ele tem méritos claros, especialmente na direção, na ambientação, nas cenas de ação e em seu elenco. Mas também está longe de ser tudo aquilo que poderia. É uma história com potencial, bons personagens e um universo interessante, mas que parece ter precisado correr para colocar muita coisa dentro de um tempo limitado. O resultado é um filme que funciona em alguns momentos, mas deixa a sensação de que poderia ter encontrado um caminho muito mais interessante. Nota: 3/5
- Crítica | Pão Doce (2025)
Precariedade do trabalho é abordada em curta que joga com a leveza visual e a densidade do texto. Imagem: Divulgação Em Guarulhos, Fernando (Francisco Gaspar) tenta preservar o sexto aniversário de sua filha. Forçado a levar Sophia para o trabalho, ele precisa navegar pelo espaço estreito entre a sobrevivência profissional e o cuidado de um pai. O retrato da realidade encontra em Pão Doce uma forma de representação que nunca precisa recorrer ao excesso para revelar sua dureza. O curta dirigido por Wesley Gabriel parte de uma aparência leve e acolhedora, para construir aos poucos um retrato de vidas comprimidas por jornadas, responsabilidades e condições que deixam pouco espaço para a dignidade. Escadas, ruas, paredes de apartamentos, janelas e construções urbanas aparecem como elementos que organizam e limitam não apenas o espaço, mas também as divisões sociais que atravessam aqueles personagens. A fotografia desenha essas estruturas com clareza, explorando formas e texturas com precisão. Há ainda uma escolha especialmente expressiva nas cenas da cozinha, quando o quadro abandona o 16:9 e passa ao 4:3, contraindo a imagem e transformando o próprio formato em uma espécie de confinamento. É uma solução visual delicada, mas de enorme força. Wesley Gabriel conduz a câmera com uma observação precisa, quase analítica, sem permitir que esse rigor afaste o filme daquilo que há de mais humano em sua narrativa. O olhar acompanha os acontecimentos com atenção aos pequenos gestos, aos espaços e aos silêncios, encontrando sentimento justamente naquilo que não precisa ser sublinhado. Essa contenção encontra em Francisco Gaspar um intérprete extraordinário. Seu personagem se torna o centro gravitacional da obra sem que o ator precise disputar a atenção do quadro. Há uma economia em sua atuação que combina perfeitamente com o registro do filme, traduzindo em expressões, movimentos e pausas a densidade de um roteiro que poderia facilmente cair no discurso direto. Gaspar sustenta boa parte da experiência com uma presença que parece simples à primeira vista, mas revela sucessivas camadas conforme a história avança. O texto também brinca com a possibilidade de uma ruptura, insinuando uma pequena chance de felicidade em meio àquela realidade. Por alguns instantes, Pão Doce parece assumir os contornos de uma fábula contemporânea, como se uma distorção da vida cotidiana pudesse abrir caminho para um desfecho diferente. Essa expectativa, porém, é interrompida de maneira brusca, embora o filme preserve até nesse corte a delicadeza que conduz sua encenação. A escolha impede qualquer acomodação do espectador diante de uma solução confortável. Não há milagre capaz de reorganizar aquela existência nem exceção que transforme a exploração em oportunidade. O que parecia uma fresta logo se fecha, devolvendo o personagem ao mundo concreto e às limitações que o cercam. É nesse ponto que o curta deixa de ser apenas o retrato de uma rotina individual e assume uma dimensão política mais evidente. A crítica à precarização das condições de trabalho e às escalas que impedem o trabalhador de viver para além do emprego encontra sua síntese na defesa do fim da escala 6x1. A mensagem aparece como uma rubrica final endossando aquilo que a narrativa já havia construído por meio das imagens e das relações humanas. O curta não precisa transformar seus personagens em porta vozes de um manifesto para revelar a violência de uma rotina que consome tempo, corpo e possibilidades. Sua força está justamente em fazer da delicadeza uma ferramenta de confronto. Pão Doce olha para uma estrutura que naturalizou o cansaço e lembra que uma vida digna não deveria ser aquilo que sobra depois do trabalho. Nota: 4/5
- 5º Festival Internacional de Cinema de Itabaiana reúne mais de 4 mil pessoas e celebra produções nacionais e internacionais
Com oficinas, masterclasses, laboratório de roteiro e homenagem a Yoya Wursch, evento consolidou o município como espaço de encontro e formação para o audiovisual. Imagem: Divulgação Após quatro dias de programação, a 5ª edição do Festival Internacional de Cinema de Itabaiana chegou ao fim neste sábado, 22, reunindo mais de 4 mil pessoas e fortalecendo a presença do agreste sergipano no circuito do cinema nacional e internacional. Realizado na Universidade Federal de Sergipe (UFS) – Campus Itabaiana, o evento exibiu mais de 60 obras, entre produções brasileiras e internacionais, e promoveu oficinas, masterclasses e o primeiro Laboratório de Roteiro da história do festival. Ao longo de sua programação, o evento foi além das sessões de cinema e reuniu diferentes experiências voltadas à formação, circulação e valorização do audiovisual. Além de filmes sergipanos, o público teve acesso a produções de diferentes regiões do Brasil e de outros países, enquanto realizadores, estudantes e profissionais participaram de atividades e momentos de troca sobre diferentes aspectos da produção cinematográfica. Entre os destaques do festival, o Laboratório de Roteiro reuniu roteiristas de diferentes partes do país para o desenvolvimento de projetos com o acompanhamento de consultores. O evento incluiu ainda oficinas e masterclasses sobre temas como fotografia, maquiagem, mercado audiovisual e uso de inteligência artificial generativa. A movimentação também ultrapassou as barreiras da sétima arte. O festival mobilizou profissionais de diferentes áreas e, segundo a organização, gerou cerca de 175 postos de trabalho, entre empregos diretos e indiretos. De acordo com o idealizador do evento, Andrei Ferreira, a expectativa é de que a edição tenha movimentado cerca de R$ 500 mil na economia local. Noite de celebração A noite de encerramento foi marcada pelo reconhecimento das produções que integraram o Laboratório de Roteiro e a programação competitiva. A cerimônia reuniu realizadores e participantes para anunciar os filmes premiados nas diferentes categorias da edição, avaliados pelo júri composto por Alana Gois, Magali Wistefelt, Thallys Neutron, Paulo Victor Almeida e Victor de Rosa. Na ocasião, a 5ª edição também celebrou a trajetória da diretora e roteirista Yoya Wursch por sua contribuição para o cinema brasileiro e sergipano. Homenageada desta edição, Yoya ressaltou que Sergipe não foi apenas cenário para suas produções, mas teve papel fundamental em sua trajetória como roteirista. “Para mim, essa homenagem tem um significado muito maior, porque Sergipe é o estado responsável por grande parte da trajetória que construí no cinema. Eu comecei a fazer cinema aqui. Quando conheci o Mercado Municipal, olhei para aquele espaço e pensei que ele era um cenário próprio para um filme. Foi assim que nasceu “Arcanos, o Jogo”. Então, quando penso nessa homenagem, penso em tudo isso. E eu só consigo dizer: viva Sergipe!”, destacou. Além da premiação, a solenidade foi marcada por literatura e música. A programação contou com o lançamento do livro “O Santo Queijo de Alcabriça”, do autor itabaianense Tácio Andrade, uma ficção ambientada em Portugal que apresenta personagens marcantes em uma trama de tensão crescente. Já a música foi conduzida pela banda Baccos, também natural de Itabaiana. Premiação e reconhecimento Entre as produções premiadas na noite de encerramento, o curta-metragem pernambucano “Os Arcos Dourados de Olinda”, do diretor Douglas Henrique, conquistou três prêmios no festival: Melhor Edição para Douglas Henrique; Melhor Filme Brasileiro; e o prêmio do júri popular ao lado dos filmes “Aracaju: A Construção de uma Capital”, de Anne Samara (SE) e “Secas Tristes”, de Danne Hinch e Wagner Mazzega (SE). “Quando a gente exibe um filme como esse para um público que não é de Pernambuco e percebe que existe uma conexão tão forte com a obra, é muito especial. Estar aqui e levar três prêmios para Pernambuco, especialmente o prêmio do público, é muito significativo. Estou encantado pela resposta que a gente recebeu das pessoas daqui. É muito especial ver um filme que nasceu de uma política pública conseguir circular, encontrar outros públicos e ser reconhecido dessa maneira”, destacou o produtor executivo do curta, Vinicius Gouveia. Na categoria Filme Sergipano, o júri oficial premiou o curta “Ponto de Partida”, de Carol Barros, que também levou o prêmio de Melhor Direção. Já na categoria Filme Internacional, o prêmio de Melhor Filme ficou com “Looking for Daddy”, de Ahmad Heydarian, produção do Irã. Para o idealizador do festival, Andrei Ferreira, o encerramento de mais uma edição representa um sentimento de entusiasmo, felicidade e dever cumprido. “São cinco anos de história, e estamos encerrando este primeiro ciclo com a certeza de que ainda há muitos outros pela frente. Cada pessoa que passou por aqui ajudou a construir esta edição. Que venham mais tantos outros ciclos, para que o festival tenha uma vida longa”, reforçou. Do primeiro filme exibido ao último prêmio entregue, o festival transformou Itabaiana em ponto de encontro para diferentes gerações, territórios e olhares do audiovisual. Ao reunir público, realizadores, estudantes e profissionais em torno das telas e também de espaços de formação, o evento ampliou o acesso ao cinema, movimentou a economia local e criou oportunidades para a circulação de diferentes histórias e perspectivas. Confira a lista completa de premiados: CATEGORIA MELHOR FILME - JÚRI POPULAR Aracaju: A Construção de uma Capital, de Anne Samara (SE) Os Arcos Dourados de Olinda, de Douglas Henrique (PE) Secas Tristes, de Danne Hinch e Wagner Mazzega (SE) CATEGORIA MELHOR FILME INTERNACIONAL Looking for Daddy, de Ahmad Heydarian (Irã) CATEGORIA MELHOR FILME BRASILEIRO Os Arcos Dourados de Olinda, de Douglas Henrique (PE) CATEGORIA MELHOR FILME SERGIPANO Ponto de Partida, de Carol Barros (SE) CATEGORIA MELHOR VIDEOCLIPE Luz! Sangue Quente Vivos, de César Griot Nagô (SE) CATEGORIA MELHOR DIREÇÃO Carol Barros, Ponto de Partida (SE) CATEGORIA MELHOR ROTEIRO Dois Nilos, de Samuel Lobo e Rodrigo de Janeiro (RJ) CATEGORIA MELHOR ATOR Renato Novaes, FrutaFizz (SP) CATEGORIA MELHOR ATRIZ Samanta Vilareal, Época de Plagas (Equador, Espanha, EUA) CATEGORIA MELHOR FOTOGRAFIA Pedra-Mar, de Janaína Lacerda (PB) CATEGORIA MELHOR DIREÇÃO DE ARTE Trapo, de João Chimendes (RS) CATEGORIA MELHOR TRILHA SONORA Ajude os Menor, de Janderson Felipe e Lucas Litrento (AL) CATEGORIA MELHOR SOM Grão, de Leonardo Rosa e Gianluca Cozza (RS) CATEGORIA MELHOR EDIÇÃO Os Arcos Dourados de Olinda, de Douglas Henrique (PE) CATEGORIA MENÇÃO HONROSA Aceita-me Oceano, Nahiara Baddini (SE)
- Como fazer acontecer um festival de cinema no agreste sergipano?
Uma memória pessoal e uma entrevista com Andrei Ferreira, idealizador do Festival Internacional de Cinema de Itabaiana. Imagem: Divulgação Durante boa parte da minha infância e adolescência, os filmes sempre ocuparam um lugar muito especial no emaranhado de coisas que acabaram formando o que eu sou hoje. E parte disso também foi formada pela cidade em que morei por 21 anos e que sigo morando até hoje, entre idas e vindas. Itabaiana, localizada no agreste sergipano, é aquela cidade que foi crescendo seus limites ao longo dos anos. Eu sempre morei no Centro, onde a vida comercial sempre foi agitada e ajudava a compor um dos grandes estereótipos associados aos moradores da cidade. Por vezes, me perguntavam se eu tinha algum parente comerciante ou caminhoneiro. Embora a resposta fosse negativa no meu contexto atual, a pergunta era justa. Muitos dos parentes dos meus amigos eram mesmo. Durante a minha infância, morar no Centro de Itabaiana sempre me garantiu facilidades e, o melhor de tudo, uma locadora de filmes literalmente em frente à minha casa. A Fênix Vídeo Locadora foi a parte mais legal do meu dia por muitos anos. Ainda lembro da sua logomarca azul, estampada na placa lateralizada, e da ordem de organização dos filmes. Os filmes de animação ficavam logo à frente, na prateleira direita. Do outro lado, tínhamos os filmes de comédia e ação, mas, na época, eles não me interessavam muito. O meu negócio era alugar o mesmo filme naquela prateleira da direita: "Aconteceu de Novo no Natal do Mickey". Sim, era a continuação de "Aconteceu no Natal do Mickey", que eu nunca nem tinha assistido. Os filmes de terror ficavam próximos ao caixa. Eu não arriscaria levar nenhum deles, mas, enquanto meu pai puxava uma nota de dois reais para garantir a diária do meu filme, eu esbugalhava os olhos e lia, temerosamente, a sinopse de "Chucky: O Boneco Assassino". Eu não sabia dizer qual era o meu momento favorito daquela visita. Tudo era bom demais: desde escolher o filme até analisar as capas mais legais. Até o calendário me fazia esperar pela sexta-feira desde a infância, antes mesmo de pensar nos dias úteis. Sexta-feira significava que podíamos ficar com o filme até a segunda, sem precisar devolvê-lo no dia seguinte. Logo depois, a Fênix e outras locadoras começaram a sumir. Eu lembro também da RM Locadora e da Vídeo Laser, todas no Centro da cidade. Vivíamos um momento em que a TV a cabo estava cada vez mais popular, assim como a internet. Consequentemente, aquele tipo de aluguel se tornou insustentável. Com a internet, a informação chegou rapidamente. E, para alguém que sempre gostou de assistir a filmes, a ideia de um festival de cinema era tudo de bom. Eu lia sobre esses eventos em que realizadores, críticos e amantes do cinema se reuniam para debater sobre filmes e conversar com atores e diretores. E, por muito tempo, desejei que a minha cidade pudesse me dar isso, assim como ela me deu a Fênix Locadora. Eis que, em 2021, Itabaiana ganha o Festival Internacional de Cinema de Itabaiana, idealizado por Andrei Ferreira. Acompanhei as primeiras edições de longe, pelo Instagram, sem nunca conseguir ir pessoalmente, até que, na quarta edição, em 2025, finalmente cheguei lá, acompanhando o evento pelo próprio Oxente Pipoca. Foi ali que tive esse gostinho de estar em um lugar cheio de gente com o mesmo gosto em comum, algo que talvez eu nunca fosse encontrar em outro contexto. Foi também nessa edição que conversei com Andrei pela primeira vez. Já este ano, acompanhei dois dias da quinta edição do festival, e o crescimento de audiência e de alcance do evento era palpável. Quando estava de saída, comentei com Andrei que queria entrevistá-lo mais uma vez, dessa vez depois do festival, para falarmos das expectativas e do que ainda estava por vir. Dito e feito. Marcamos uma ligação para conversar sobre os bastidores, as expectativas e os próximos passos. Quando finalmente conversamos, uma semana já tinha se passado desde o encerramento da quinta edição, tempo suficiente para os sentimentos assentarem. Perguntei a Andrei como era fechar essa marca, meia década de festival, e a resposta veio carregada de entusiasmo. Andrei Ferreira: É interessante porque é um trabalho importante. Muita gente fala, principalmente não só da organização, mas de como as pessoas são tratadas. E até agora não houve nenhuma reclamação. Então, é um sinal positivo, pelo menos do tratamento que a gente dá às pessoas. Como a gente acolhe as pessoas na cidade. As expectativas, inclusive, foram superadas. Porque a gente tem a expectativa de público, e o público foi o dobro da expectativa. Eu acho que a principal surpresa mesmo foi a participação do público, no geral. Como o público participou do evento. Na sexta foi basicamente o caos, porque todas as sessões foram lotadas. A sala usada esse ano é o maior auditório do estado, com capacidade para 500 pessoas, e ainda assim ficou apertada em alguns momentos. É curioso pensar que, no ano anterior, o espaço menor que usaram já tinha se tornado pequeno demais dentro de um único ano. Mas o que mais me chamou atenção na fala de Andrei foi como ele descreve o público do festival. Diferente de outros festivais de cinema, cujo público é majoritariamente formado por quem já faz cinema, por quem já está dentro da cadeia de produção audiovisual, o público de Itabaiana é outra coisa. Andrei Ferreira: Você que foi há alguns dias, eu acho que você deve ter percebido que a maioria das pessoas realmente que estavam no festival não fazem cinema. Diferente dos outros três que acontecem, que realmente são de pessoas que fazem cinema que são o público-alvo. Já o nosso, não sei qual o segredo ou qual o caminho que a gente está traçando, mas realmente a gente tem um público muito maior de pessoas que gostam de cinema, mas que não fazem cinema como realização artística. Penso que isso diz muito sobre Itabaiana. Diz sobre uma cidade que, mesmo sem um curso de cinema, sem uma tradição de produção audiovisual instalada, decidiu se interessar, aparecer e ocupar as cadeiras de um auditório de 500 lugares. Enquanto ele falava sobre esse processo, lembrei de como pude ver rapidamente a preparação da equipe que faz o festival acontecer. A intérprete de Libras ensaiando a tradução simultânea das sessões, e a equipe de comunicação correndo para transformar cada detalhe do evento em conteúdo para as redes sociais. Foi justamente pensando nisso que perguntei a Andrei se, depois de cinco edições, existia vontade de contar essa história também. Andrei Ferreira: Talvez a gente vai ter um documentário sobre o Festival de Cinema de Itabaiana, já pensando longe. Porque realmente, cinco anos, ele tem essa marca. É realmente uma ideia que a gente tem para a próxima edição, de fazer um documentário. Inclusive é uma ideia do Max, que é da nossa equipe, de realizar esse documentário. É uma ideia que ele já vem falando desde a terceira edição. Perguntei também o que ainda falta, o que ele ainda não conseguiu trazer para o festival depois de cinco anos. Andrei Ferreira: A nossa maior missão é a busca pelo orçamento para que a gente consiga trazer os realizadores de fora do país. Eu acho que falta. Quando a gente fala em festival internacional, as pessoas só vão começar a lidar com essa ideia de fato, quando elas verem os realizadores de fora dentro do evento. Eu acho que seria um momento muito legal de intercâmbio. Já existe o intercâmbio do cinema brasileiro, acontecendo dentro do festival. Nessa edição, a gente tem realizadores de novos estados, mas ter os realizadores também dos outros países vindo participar, eu acho que seria um momento de ápice não só do festival, mas do cinema sergipano no geral. Encerramos a conversa falando sobre o que sustenta um festival como esse. Perguntei sobre iniciativas de patrocinadores, editais e políticas públicas de fomento à cultura. Andrei também trabalha como agente territorial de cultura do Ministério da Cultura, e foi enfático sobre isso. Andrei Ferreira: O principal é realmente entender o objetivo do festival que você quer traçar, porque é a coisa mais importante quando a gente fala de editais. Entender qual é o objetivo, qual é o diferencial que o seu festival tem para os outros. Não é só um espaço de exibição. E realmente ler o edital, acho que é o essencial. É o básico do básico. De que realmente o segredo para passar em editais é realmente ler os editais. E também entender quais projetos estão passando em determinados editais, analisar os últimos resultados, ver como esses projetos foram escritos. E buscar esse incentivo em vários editais, não tentar só o edital municipal. Tentar em outros âmbitos, até nacionais mesmo, para buscar esses incentivos para que o seu evento, o seu projeto continue acontecendo. Quando um festival cria um público, ele cria público também para os outros festivais. Então é importante, por fortalecimento também do audiovisual, se outros festivais em outros municípios surgissem também. Terminamos a chamada, e fiquei pensando em como a minha amada cidade serrana, capital nacional do caminhão, famosa pelo comércio, pela feira livre, pelo Parque dos Falcões e pela fé fervorosa em Santo Antônio, também pôde construir para si um lugar no mapa da sétima arte. E acho que a Ana Beatriz que adorava passar as noites escolhendo filmes na Fênix, lá pelos anos 2000, ficaria muito feliz em saber que, duas décadas depois, a sua própria cidade também tem um festival internacional de cinema. Ainda que, naquela época, ela voltasse quase sempre para o mesmo filme.
- Crítica | Fúria (1ª temporada)
Série transforma perseguição entre duas mulheres em um retrato amargo sobre violência e poder. Imagem: Divulgação Quando Fúria começou, a série do Disney+ parecia seguir um caminho relativamente conhecido: uma agente do FBI perseguindo uma serial killer enquanto tenta entender o que conecta uma série de assassinatos. A premissa funciona, mas felizmente a produção criada por Elizabeth Meriwether não se contenta em entregar apenas mais um thriller policial. Ao longo de seus oito episódios, Fúria se transforma em uma história muito mais complexa sobre violência, abuso e os mecanismos que permitem que esses ciclos se perpetuem. E é justamente essa ampliação de sua proposta que faz da série uma das melhores produções que assisti em 2026. A trama acompanha Alice Black (Emmy Rossum), ex-detetive de homicídios de Nova York que agora trabalha como agente do FBI. Durante a investigação de mortes aparentemente desconectadas, ela chega até Catherine (Lola Petticrew), uma mulher que escolhe cuidadosamente seus alvos e parece sempre estar alguns passos à frente. A princípio, a dinâmica entre as duas funciona como um clássico jogo de gato e rato. Alice quer descobrir quem Catherine é e impedi-la, enquanto Catherine parece cada vez mais interessada em dar continuidade com sua vingança. Só que, conforme a história avança, fica claro que a série está muito menos interessada em determinar quem é a caçadora e quem é a caça do que em entender o que levou essas mulheres até ali. Esse é um dos grandes acertos de Fúria. A série não transforma Catherine simplesmente em uma vilã que precisa ser derrotada e tampouco apresenta Alice como uma heroína infalível. As duas são personagens atravessadas por traumas, escolhas e contradições, e suas histórias acabam se conectando de maneiras cada vez mais perturbadoras. Além do roteiro, Fúria chama atenção pela qualidade de sua realização. A série tem uma estética bastante sofisticada, que contribui diretamente para a atmosfera de tensão construída ao longo dos episódios. A fotografia e a direção trabalham bem a sensação de desconforto e paranoia, criando uma atmosfera que combina com uma história na qual nem sempre sabemos quais personagens estão dizendo a verdade ou quem realmente está no controle. Existe um cuidado evidente na composição das cenas, nos espaços e na maneira como Alice e Catherine são colocadas dentro deles. A produção também consegue encontrar um equilíbrio interessante entre o thriller policial e uma abordagem mais psicológica. A tensão não depende apenas de perseguições ou grandes reviravoltas. Muitas vezes, ela está nos silêncios, nos olhares e na sensação constante de que alguma coisa está prestes a sair do lugar. Esse cuidado estético faz diferença porque Fúria não parece uma série policial genérica. Há uma identidade visual que acompanha o amadurecimento da narrativa e ajuda a transformar a investigação em uma experiência mais imersiva. Mais do que falar sobre violência individual, Fúria olha para as estruturas que permitem que ela aconteça e continue acontecendo. Abusos são silenciados, vítimas não são ouvidas e homens em posições de poder encontram maneiras de permanecer protegidos pelas próprias instituições que deveriam responsabilizá-los. É nesse aspecto que a série ganha uma dimensão especialmente forte. A violência não aparece apenas como um acontecimento isolado, mas como algo que se perpetua quando existe uma estrutura disposta a ignorá-la. E, para as mulheres que estão dentro dela, as consequências podem atravessar anos e deixar marcas profundas. Imagem: Divulgação Por isso, a relação entre Alice e Catherine funciona tão bem. A série não está apenas interessada em descobrir quem vencerá esse confronto. Ela quer discutir justiça, vingança e obsessão, e o quanto essas coisas podem se misturar quando alguém passa anos esperando por uma resposta que nunca chega. Emmy Rossum está excelente como Alice. A atriz constrói uma protagonista inteligente e extremamente competente, mas também marcada por feridas que interferem na forma como ela se relaciona com o trabalho e com as pessoas ao seu redor. Lola Petticrew não fica atrás e entrega uma Catherine assustadoramente calculista, mas também cheia de camadas. A atriz consegue fazer com que a personagem seja simultaneamente perturbadora e intrigante, sem permitir que ela seja reduzida a uma simples caricatura de serial killer. O restante do elenco também acompanha esse nível de qualidade, com destaque para Scoot McNairy, Quincy Tyler Bernstine e Jake Lacy. A série entende que seus personagens secundários precisam existir para além da investigação, dando a eles conflitos e relações próprias que ajudam a ampliar o universo da trama. E então chegamos ao episódio final. Sem entregar spoilers, é impossível não terminar Fúria com um gosto amargo. O encerramento consegue condensar boa parte das discussões levantadas ao longo da temporada e deixa uma sensação particularmente incômoda sobre o que significa ser mulher em uma sociedade onde violência e abuso ainda podem ser ignorados, relativizados ou protegidos por estruturas de poder. É um final que não oferece exatamente o conforto de uma justiça plenamente alcançada. E talvez seja justamente por isso que ele funcione tão bem. Ao mesmo tempo, a temporada termina deixando um excelente gancho para a continuação. Depois de tudo o que foi construído nesses oito episódios, fica a sensação de que Alice e Catherine ainda têm muito a revelar e, principalmente, de que Fúria ainda tem muito a dizer. Nota: 4,5/5
- Entrevista | “A comédia é transformadora”: Jorge Furtado, Daniel de Oliveira, Luisa Arraes e Samantha Jones falam sobre 'Muito Prazer'
Em entrevista exclusiva ao Oxente Pipoca, diretor e elenco do filme falam sobre comédia, brasilidade e… moteis. Imagem: Divulgação Ao longo de mais de quatro décadas de carreira, Jorge Furtado construiu uma das assinaturas mais reconhecíveis do cinema brasileiro. Do humor de Saneamento Básico e O Homem que Copiava à experimentação de Ilha das Flores, seu cinema frequentemente encontra no absurdo uma maneira de olhar para questões profundamente concretas – da burocracia à desigualdade, da política à própria linguagem cinematográfica. Em Muito Prazer, seu novo longa-metragem como diretor e roteirista, Furtado volta à comédia para falar de um mundo em que a intimidade também se tornou conteúdo. O filme acompanha Ruben (Daniel de Oliveira), um motorista de aplicativo que herda um motel decadente, e Grace (Luisa Arraes), ex-funcionária que transformou o estabelecimento em sua casa. Ao lado de Nalva (Samantha Jones), eles encontram uma forma cada vez mais ousada – e judicialmente questionável – de tornar o negócio lucrativo, em uma escalada imprevisível. Em entrevista ao Oxente Pipoca, Furtado, Oliveira, Arraes e Jones conversaram sobre a tradição da comédia brasileira, a brasilidade dos motéis, a construção do filme e a relação entre tecnologia e sexualidade.. Aianne Amado (Oxente Pipoca): Em uma entrevista que Jorge deu anteriormente ao Oxente Pipoca, você disse que, desde que começou a fazer filmes, o cinema brasileiro morreu pelo menos duas vezes: a primeira com o fechamento da Embrafilme e a segunda durante o governo anterior. Hoje, felizmente, vivemos um momento de reconstrução das políticas culturais e de reconhecimento do cinema brasileiro, tanto no país quanto internacionalmente. Ainda assim, existe uma certa resistência em relação à comédia, com uma valorização maior dos chamados filmes de “prestígio”, geralmente associados ao drama. Para vocês, qual é a importância de fazer comédia no Brasil? E que lugar esse gênero ocupa na nossa tradição cinematográfica? Daniel de Oliveira: Em algumas bolhas existe, realmente, um certo preconceito em relação à comédia. Mas acho que o brasileiro, de modo geral, gosta muito de comédia. Não é à toa que tivemos grandes sucessos de bilheteria nesse gênero, filmes que arrecadaram muito dinheiro e tiveram uma repercussão enorme no país. E acredito muito no nosso filme, não apenas pela comédia. É um filme muito engraçado, é uma comédia, mas também tem profundidade. Ele traz outras camadas. Jorge Furtado: A comédia é um gênero como todos os outros. Tem filme bom e filme ruim de qualquer gênero. E o brasileiro sempre gostou de comédia. Se você pegar os 20 filmes de maior bilheteria da história do cinema brasileiro, 14 são comédias. As pessoas gostam de se divertir no cinema, e eu também gosto muito. Não sou nada contra o drama, claro. Os dramas são importantes, as tragédias também. Mas acho que a gente deve aprender a rir dos nossos problemas. Existe um ditado, ridendo castigat mores, que significa “rindo, a gente corrige os costumes”. O riso, o humor, sempre aponta para defeitos humanos, para defeitos da sociedade. A comédia é sempre crítica: ela faz uma crítica de alguma coisa. Pega um filme como Saneamento Básico: é uma comédia, é engraçado, as pessoas riem, mas ele está falando da falta de saneamento básico, da burocracia, de muitos assuntos sérios. Muito Prazer é uma comédia, é para rir, as pessoas saem do cinema felizes, mas estamos falando de invasão de privacidade, internet, inteligência artificial, bullying, de muita coisa séria. Lembro de uma frase do Voltaire sobre uma ópera de Beaumarchais, O Casamento de Fígaro, que satirizava a nobreza, falava mal dos nobres. Voltaire disse que aquilo já era a revolução em marcha. Quando começa a sacanear o poder, acho que talvez esteja faltando isso no Brasil. A gente tem que debochar dos políticos, não apenas denunciá-los. Todo dia a gente liga a televisão e tem roubo, denúncia, sempre tudo muito grave, sempre muito sério. Tem que sacanear, tem que debochar para que a gente mude, para que a gente transforme. A comédia é transformadora. Aianne Amado: O motel é uma instituição muito brasileira. Em outros países, ele costuma ser associado a hospedagens de baixo custo ou a hotéis de estrada, enquanto no Brasil, ganhou uma finalidade muito específica. Ao trazer o motel para o centro da narrativa, vocês acreditam que também estão falando de brasilidade? Jorge Furtado: Acho que sim. Nos outros lugares, o motel é um lugar na estrada, um hotel rápido onde você pára por uma noite. No Brasil, virou uma instituição onde as pessoas vão para transar, para namorar. E ele mudou. Na minha adolescência, o motel era um lugar onde a gente ia porque não podia transar em casa, porque os pais não deixavam. Hoje isso mudou muito. Atualmente, a frequência dos motéis é muito concentrada entre as 11 da manhã e as 2 da tarde: aquele almoço em que a pessoa finge que saiu para almoçar e vai namorar. E tem também as fantasias dos cenários, as suítes: Suíte Grécia, Suíte Roma, Veneza. São lugares imaginários que hoje viraram quase um negócio para o Instagram. Acho que as pessoas também vão lá para tirar foto daqueles cenários malucos. No Rio Grande do Sul, as suítes têm até churrasqueira para fazer churrasco. Eu vi coisas incríveis, motéis absurdos durante a pesquisa. É um cenário engraçado, que dá muita matéria para o humor. Aianne Amado: E a construção desse cenário contribui muito para a brasilidade do filme. O motel de Muito Prazer é um espaço extremamente brasileiro. Como esse ambiente influenciou a construção dos personagens e das relações entre vocês? Daniel de Oliveira: O motel é um personagem do filme. A gente usou realmente uma locação que era um motel e que estava muito envelhecida. E a primeira coisa que foi feita nesse cenário foi a suíte da Grace, que ela transformou na casa dela. Tinha um jardinzinho, as coisinhas dela, e ela estava meio Vênus, naquela concha maravilhosa. E o impacto que tive como personagem, o Ruben chegando naquele lugar e falando “uau”, foi o mesmo impacto que tive como pessoa quando cheguei ali e vi aquele visual. Porque era lindo. Luisa Arraes: É bonito porque é um motel caindo aos pedaços, mas você percebe que, muitas vezes, a vida básica é a gente que faz. A Grace pega aquele lugar que, para todo mundo, é abandonado, não serve para nada, e diz: “Não, esse aqui vai ser o melhor lugar”. Como a Drica diz, “esse aqui é o melhor lugar do mundo”. Acho que isso também faz parte do filme: esses três personagens pegam uma ruína e transformam aquele lugar no melhor lugar do mundo. Samantha Jones: Eu nunca tinha entrado em um motel antes. Daniel de Oliveira: Ah, Samantha! [risos] Luisa Arraes: Nem eu! [risos] Daniel de Oliveira : Uma “amiga”, uma “amiga” dela foi. Samantha Jones: Pornografia, sim; motel, não! [risos] Foi muito... É impressionante. A direção de arte é impressionante, embora o mofo seja real. Acho que a gente fez um laboratório junto com o filme, foi entendendo como reagir àquilo. Eu juro que nunca tinha entrado em um motel. Aconteceram umas coisas engraçadinhas também. No Dia dos Namorados, a gente estava gravando e passou uma moto ali. Tentou entrar no motel, eu não sei se... Daniel de Oliveira : É, a gente atrapalhou a vida de duas pessoas. Samantha Jones: Atrapalhou. Daniel de Oliveira: Mas a gente podia ter ganhado um dinheiro, né? Samantha Jones: 90 por três horas. [risos] Imagem: Divulgação Aianne Amado: Conta um pouco da pesquisa sobre os motéis. Jorge Furtado: Eu pesquisei muitos motéis. Encontrei um motel, por exemplo, com a suíte “Operação Lava-Jato”, em Curitiba, que tinha o Moro e o Lula presos em uma gaiola, com as notícias da prisão do Lula. O que tem de erótico nisso, gente? Transar na Operação Lava-Jato. Tinha suíte com balcão de embarque de aeroporto, aparelho de raio-X de mala e balança para pesar a bagagem. Quem acha isso erótico? É aquele lugar de onde normalmente a gente quer sair correndo o mais rápido possível. Tinha suíte atômica, abrigo nuclear, muitas coisas divertidas. E promoções de todo tipo: ganha um vinho, vem almoçar no motel. É um ambiente engraçado. Mas acho que essa é a beleza da sexualidade: não existe uma receita de bolo. O filme fala sobre isso. A paixão não tem algoritmo. As pessoas se apaixonam dos jeitos mais esquisitos, estranhos e humanos. A inteligência artificial não entende isso porque a paixão é uma coisa totalmente humana, assim como a sexualidade. Existem milhares de sexualidades diferentes. Cada um tem a sua. A sexualidade é muito pessoal. Aianne Amado: Quando olhamos para a sua filmografia (Saneamento Básico, Lisbela e o Prisioneiro, O Sanduíche, Ilha das Flores), percebemos uma recorrência da metalinguagem, de uma reflexão sobre o próprio fazer cinematográfico. Fui pesquisar sobre isso e encontrei, inclusive, uma tese de doutorado dedicada à metalinguagem e ao dialogismo na sua obra. Você já sabia disso? E você se reconhece nesse padrão? Jorge Furtado: Acho que sim. Eu gosto disso. Eu acho que a gente deve falar sobre aquilo que nos interessa e que a gente conhece, e eu trabalho com isso há 44 anos, penso nisso todos os dias. Como é que filma? Como representa a realidade? Como a gente apreende a realidade? É possível fazer isso? Tem outro filme chamado Esta Não É a Sua Vida, que é um documentário sobre uma mulher e eu questionei justamente isso: será que eu consigo representar a vida de uma pessoa com um filme? Essa preocupação, para mim, é constante. Quando vou escrever, penso muito em representação. Além disso, quando você faz uma representação dentro de outra, acaba impregnando o filme de um certo realismo, porque os personagens parecem existir de verdade por estarem fazendo um filme dentro do filme. Fica mais real. Eu gosto de falar disso. Aianne Amado: E, além dessa característica, você acredita que existe outra assinatura recorrente nos seus filmes? Eu tenho a sensação de que, mesmo sem saber que um roteiro ou uma direção são seus, conseguiria reconhecer com facilidade. Por que você acha que isso acontece? Jorge Furtado: Talvez por causa do humor, do jeito como trato os diálogos. É um estilo de escrita. Como eu faço o roteiro, não saberia dirigir um filme escrito por outra pessoa. Nunca nem tentei. Já fiz muitos roteiros para outras pessoas dirigirem, mas dirigir o texto de outros roteiristas eu não saberia fazer. Então acho que, no texto escrito, o estilo fica meio impossível de evitar. É um jeito de escrever o diálogo, a conversa, que acaba ficando reconhecível. Acho que é isso que você reconhece: o estilo do texto, talvez mais do que o da direção. Muito Prazer está em cartaz nos cinemas brasileiros.
- Crítica | Muito Prazer
Novo filme de Jorge Furtado tem humor, crítica social e uma premissa contemporânea, mas não alcança a potência de seus clássicos. Imagem: Divulgação Se houvesse um Monte Rushmore dos roteiristas e diretores do cinema brasileiro, o rosto de Jorge Furtado certamente estaria lá, esculpido em pedra. Ao longo de mais de quatro décadas de carreira, Furtado dominou as diversas linguagens e formatos que o audiovisual permite. Na comédia cinematográfica, assinou clássicos como Saneamento Básico, O Homem que Copiava e Lisbela e o Prisioneiro. Na televisão, escreveu de quadros do Fantástico a séries e minisséries, passando pela comédia em A Invenção do Brasil e chegando ao drama de Sob Pressão. Como documentarista, dirigiu e roteirizou Ilha das Flores, pelo qual recebeu o Urso de Prata no Festival de Berlim. E, apesar dessa variedade, existe algo profundamente “jorgefurtadiano” em sua obra — uma espécie de impressão estilística que um espectador atento é capaz de reconhecer mesmo antes de saber quem está nos créditos. Talvez esteja no humor, no tom, no ritmo, na maneira como o absurdo se infiltra no cotidiano. Talvez seja a combinação de tudo isso. É difícil definir, mas fácil reconhecer. Longe de ser um problema, essa recorrência é justamente o que os cinéfilos mais tradicionais tanto amam no tal “cinema de autor”. A assinatura de Furtado atravessa gêneros, formatos e décadas sem deixar de ser identificável. Seu cinema tem uma lógica própria, na qual o humor e a crítica social quase nunca aparecem separados – um serve de veículo para o outro. Esse traço é particularmente evidente em Muito Prazer, seu novo filme como roteirista e diretor. Mais uma vez, Furtado parte de uma situação aparentemente banal para construir, através do absurdo, um comentário sobre o presente. Um motorista de aplicativo (Daniel de Oliveira) herda um motel abandonado que, por acaso, também se tornou a moradia de Grace (Luisa Arraes), ex-funcionária que decidiu permanecer no local depois de meses de salário atrasado. Afundados em dívidas, os dois resolvem reabrir o estabelecimento. Reformas, faxinas, promoções – nada parece suficiente para tornar o negócio rentável. Até decidem ir um pouco além: filmar e divulgar na internet os casais que frequentam o motel, convencendo-se de que estão apenas ocupando uma conveniente zona cinzenta moral e o judicial. Quando percebem o potencial de lucro, vão mais além. Depois, um pouco mais. E mais uma vez. Com a ajuda de Nalva (Samantha Jones), especialista em computação, a escalada parece não ter fim. Sem dúvidas, uma premissa bastante “jorgefurtadiana”. Imagem: Divulgação Muito Prazer é um filme profundamente interessado no espírito do seu tempo, atravessado por inteligência artificial, plataformas digitais, exposição da intimidade e transformação da vida privada em conteúdo. Há algo quase premonitório nesse exercício de imaginar até onde essa lógica pode nos levar. Mas, justamente por estar tão preso ao presente, Muito Prazer talvez não tenha a mesma capacidade de permanência de alguns dos filmes mais conhecidos de Furtado. O que hoje parece uma sátira afiada pode envelhecer junto com as tecnologias e comportamentos que o filme tenta capturar. O maior problema, entretanto, está na execução. O roteiro é inteligente e preserva o ótimo humor que se espera, mas nem sempre encontra nos atores a tradução necessária para seu potencial. Não se trata de questionar a capacidade de Daniel de Oliveira ou Luisa Arraes, cujas trajetórias tornam o talento indiscutível. O problema talvez seja menos de competência do que de sintonia: juntos, não encontram completamente o registro exigido pelo texto. Há uma artificialidade deliberada na maneira como os personagens de Furtado falam e se comportam. E essa artificialidade é essencial. Quem lembrar das divagações de Leléo, vivido por Selton Mello, ou das divertidíssimas discussões entre os personagens de Fernanda Torres e Wagner Moura em Saneamento Básico, vai saber do que estou falando. São figuras que não precisam parecer naturais, mas devem ser convincentemente artificiais. Quando bem executado, esse registro transforma a artificialidade em uma sátira irresistível – um diálogo impossível, o qual não conseguimos parar de assistir. Para isso, porém, é preciso um timing extremamente específico, com um ritmo suficientemente veloz para que a estranheza se transforme em humor, mas precisamente controlado para que o espectador compreenda a piada antes que ela se perca. É um equilíbrio difícil, e não é por acaso que alguns dos melhores exemplos estejam justamente nas mãos de nomes como Mello, Torres e Moura. Em Muito Prazer, Oliveira e Arraes não parecem encontrar essa balança por completo. A artificialidade do texto, que deveria produzir sátira e inventividade, permanece muitas vezes apenas como… artificialidade. E isso tem uma consequência maior do que simplesmente tornar algumas cenas menos engraçadas: os personagens não convencem e tampouco despertam a empatia necessária para sustentar a própria narrativa. O filme pede que nos importemos com aquelas pessoas para que sua escalada moral tenha algum peso. Mas, à medida que elas ultrapassam cada novo limite, estamos mais interessados em descobrir qual será a próxima situação absurda do que em acompanhar as consequências de suas escolhas. É por isso que a participação especial de Drica Moraes no terceiro ato é tão bem-vinda. Em poucos minutos, ela encontra com muito mais precisão o tom que o roteiro vinha procurando. Sua presença injeta energia na narrativa e mostra, ainda que tardiamente, como aquele humor pode funcionar. No fim, Muito Prazer é um filme que parece ter todos os elementos para ser marcante, mas entre a perspicácia do argumento e sua realização existe uma distância que o filme não consegue superar. O problema, talvez, esteja justamente na régua “jorgefurtadiana”: de quem já nos deu tanto, esperamos sempre um pouco mais. Nota: 2,5/5
- Entrevista | “Precisávamos que tivesse sentimento de família o tempo todo no filme”: Maurício Manfrini e Paulo Fontenelle falam sobre ‘Marido de Aluguel”
Em entrevista ao Oxente Pipoca, ator e diretor falam sobre a dinâmica familiar no set e as brasilidades cômicas como influência. Divulgação Nesta quinta-feira, 24 de setembro, estreia nos cinemas brasileiros Marido de Aluguel, novo filme do diretor Paulo Fontenelle, responsáveis por comédias como Divã a Dois e Se Puder…Dirija! No novo longa, o diretor repete a parceria de O Porteiro, e traz Maurício Manfrini como um protagonista heroico e acolhedor. O elenco também é composto por nomes como Mariana Xavier, Alexandre Lino, Alexandra Richter, Heitor Martinez, Letícia Isnard, Letícia Braga, Theo Fontenelle, Danilo Moura e Raphael Vianna. Na trama, Alice (Mariana Xavier), uma mulher falida e endividada, precisa de soluções para manter sua casa em pé, até encontrar Vadeco (Maurício Manfrini), um desenrolado marido de aluguel que tem sempre uma solução na manga. No entanto, tudo muda quando o ex-marido de Alice, um fora da lei, foge da prisão determinado a virar de cabeça para baixo a dinâmica da família. Em entrevista ao Oxente Pipoca, o ator Maurício Manfrini e o diretor Paulo Fontenelle, falaram um pouco sobre a construção de uma comédia envolta em um ritmo de ação, as referências de animações e dos grandes personagens das comédias brasileiras, além de destacar a dinâmica familiar construída pelos atores no set. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Paulo. O Marido de Aluguel mistura comédia com elementos de ação e suspense, já que o ex-marido se foge da prisão no meio da trama. Como foi equilibrar esse tom cômico com esse fiozinho de tensão que atravessa a história? Paulo Fontenelle: Na verdade, assim, a gente foi muito na linguagem do desenho animado, né? Onde o vilão, ele é mau, mas ele nunca é 100% mau. Então, a ideia pra gente poder ter o cara que fugiu da cadeia, que ameaça com uma arma e tal as pessoas, foi isso. Foi a gente focar muito no desenho animado, nos desenhos mais antigos, Hanna Barbera, Peach Paul, essas coisas, e fazer um vilão que ele é exagerado em todos os sentidos. Então, o filme tem muito isso, é toda parte de comédia física. Onde as pessoas, se a gente estivesse obedecendo a física do mundo, as pessoas se machucaram e tal. A ideia foi transformar no grande desenho animado. Então, você pode dar uma panelada na cabeça das pessoas, você pode dar choque nas pessoas. E aí, mesmo quando você aponta uma arma, que já é uma coisa um pouco mais real, como a linguagem já está toda de desenho animado, é uma coisa que não choca, né? Não é uma coisa violenta. Você sabe desde o início que esse cara, no fundo, ele não é tão mau assim, ele não vai dar um tiro em ninguém. Ele está ali no desespero de querer levar a filha pra Europa com ele, e aí, no desespero, ele é um cara que puxa uma arma para as pessoas. Mas é isso, o Roger é um vilão muito de desenho animado. Na verdade, o filme é todo nessa pegada de desenho animado, das comédias mais antigas, dos grupos mais antigos. Trapalhões, Três Patetas, O Gordo e o Magro, Oscarito e Grande Otelo. Uma coisa mais nessa pegada onde você não tem maldade, apesar de ter coisas que poderiam ser levadas para o lado um pouco mais violento em si. O filme é uma grande diversão, um grande desenho animado, uma grande comédia para fazer as pessoas rirem sem nenhum tipo de preocupação com violência ou qualquer coisa, porque na verdade ela não existe, é como se fosse um grande desenho animado. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Você falou dessa parte mais de desenho animado, e apesar de ser uma comédia bem clássica, ela traz umas quebras de expectativa de vez em quando. Você espera que vai ser aquilo um pouco mais do mesmo em alguns momentos, algumas reações mais do mesmo, e aí não. A gente tem aquela quebra e fica meio que, opa, não era isso que eu pensava que ia acontecer. Então, como foi misturar esses gêneros na hora de assumir a direção do projeto? Paulo Fontenelle: Tem uma coisa que é super legal, que a gente não vai conseguir esconder do espectador, mas que quando a gente mostrou o filme para pessoas que não tinham visto, que não sabiam nada, às vezes a gente mostra para amigos, para pessoas para darem uma olhada, e aí tinha gente que não tinha ideia de que o Roger era pai da Maria, de que o Heitor Martinez era pai do personagem da Letícia Braga. E aí na hora que você descobre, que ele pega o telefone, que ele está em frente de casa, é muito legal isso, para quem não sabe. Óbvio que as pessoas já vão ver o filme meio que sabendo, mas quem não souber vai se surpreender. Mas assim, isso é muito pensado desde o início. Tem uma coisa que eu não gosto muito em filmes, que me incomoda muito, principalmente nos roteiros, é quando você vê alguma coisa e você, como espectador, fala assim “Ah, não, isso é muito forçado, isso não aconteceria”. Se o Roger não fosse pai da Maria, o próprio Vadeco, o próprio Manfrini, estaria naquela praça ali, na hora que a Alice está ali. E aí ela precisa de um marido de aluguel, e aí ela chama ele para ir para a casa dela. Seria uma coisa meio forçada. Então, na verdade, tudo é pensado desde o início. O encontro do Heitor com o Manfrini, o encontro do Vadeco com o Roger. É uma coincidência da vida, os dois estão ali no posto de gasolina e o Manfrini perde o ônibus e acaba se encontrando com o Roger. Mas a partir dali, todo o caminho que é feito a partir desse encontro de coincidência, ele só existe por causa desse primeiro encontro. Porque assim, o Roger deixa o Vadeco na praça, porque ele vai espionar a casa da Alice, que é a ex-mulher dele. Então a praça é perto da casa. Por isso o Vadeco acaba conhecendo a Alice, por isso o Vadeco acaba indo parar lá, e aí o Roger quando vai sequestrar não consegue, sequestra Sheila porque é vizinha. Então nada no filme, tudo no filme tem uma lógica. E o que eu acho legal é isso, é que assim, a partir do momento que você cria uma estrutura que funciona, você pode brincar com tudo. Você pode dar choque, você pode dar panelada, você pode arremessar metros e aí acorda e aí não acorda, caí da, escada, ratoeira. Então você pode brincar, que na verdade é isso, é uma grande brincadeira. Na verdade, o filme é uma grande brincadeira, é isso. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Você falou do Vadeco e puxando o (Maurício) Manfrini um pouquinho mais para essa conversa. Ele é descrito como alguém de um jeito estabanado, um herói bem improvável. Como foi esse processo, você como diretor, de moldar esse arco do personagem do cômico ao heroico? Paulo Fontenelle: Cara, eu acho que trabalhar com Manfrini é fácil. Acho que é uma coisa que na verdade... A gente agora fez uma comédia romântica. Que é uma coisa que sai um pouquinho até do Manfrini é um cara que é um gênio de concepção de personagem. O Paulinho Gogó já é uma coisa fora do comum e por isso é tão longevo e com tanto sucesso. O Lima também é uma coisa mais para o caricato. O Vadeco também tem... Na verdade, eu acho que a gente se apropria dessa genialidade do Manfrini para criar personagens. E aí, muito legal assim, porque a gente fez um filme, eu e o Manfrini agora, que a gente lançou no ano que vem, que é uma comédia romântica que sai um pouco do espectro que a gente está acostumado a ver o Manfrini. E aí, eu acho que o legal é isso, assim. Caramba, o Manfrini arrebentando também numa coisa que sai um pouco do que a gente está acostumado a ver. Mas eu acho que o Vadeco é nota 10 para o Manfrini. É uma coisa que ele já domina como ninguém. E o processo criativo foi muito fácil. Na verdade, eu falei para o Manfrini, ele é um mineiro do interior, e o Manfrini me trouxe o Vadeco. Maurício Manfrini: Apesar de eu ser carioca, convivo com muitos amigos mineiros, e isso me facilitou bastante. O próprio Nerso da Capitinga, que é o Pedro Bismarck, o Saulo Laranjeiras, entre outros humoristas mineiros. Então, como convivo com eles, eu tenho uma facilidade muito grande de assimilar sotaques, principalmente o sotaque mineiro. Então, isso me facilitou bastante. E eu gosto muito dessa composição de personagens. O Paulinho Gogó já é uma coisa que já caminha sozinho, porque eu já faço há muitos anos, já fiz bastante, faço bastante. O Lima dos Farofeiros foi uma coisa carioca também, que eu só dei uma segurada mais. Mas ele tem um pouquinho do Gogó ainda, aquela malandragem carioca. O Vadeco, ele nem é um malandro, ele é um camarada muito prestativo, mas com uma pureza muito grande, aquela pureza peculiar do mineiro, que eu pude compor com uma certa rapidez. A gente conversou, vamos fazer o mineiro, ele é de Santo Antônio do Rio Abaixo. Eu conversei com algumas pessoas e fui absorvendo isso e consegui passar para o personagem em conversa com o Paulinho. “Paulinho vai me dirigindo aqui, porque aqui eu não sei se estou falando no tom certo”. A gente conversava bastante, a gente conversa muito, vai tomando conta de mim para saber se eu não estou passando do ponto, se eu não estou oferecendo de menos, não oferecendo demais. E a gente conseguiu achar um tom ideal ali para o filme. Mas eu gosto dessa composição de personagem. O Mentira Tem Perna Curta, que vai ser lançado ano que vem, já é uma coisa bem naturalista, é um personagem que, lógico, eu tive que compor, mas não pesei tanto a mão, não acentuei muito na tinta, com a Roseane Muholland, que fez a minha par romântica. Então é uma coisa que fugiu um pouco, um pouco não, fugiu bastante da onde eu costumo trabalhar, na minha linha de interpretação. O humor, naturalmente, é um tom mais acima. E o Mentira Tem Perna Curta, alguns momentos que a gente saiu do tom, mas basicamente a gente ficou mais ali, naquela área que eu não estava acostumado a interpretar. E foi, assim, na minha concepção, foi um negócio muito legal, vai ficar muito legal, está ficando muito bacana, a gente viu algumas passagens aí. Mas o Vadeco em si, é uma descoberta minha. Eu nem sabia que sabia fazer. E a gente quer que o Vadeco vire o novo Gogó, né? Se Deus quiser, vai ter Vadeco 1 e Vadeco 2. Em uma outra entrevista me perguntaram, e eu joguei para o universo, falei, com certeza vai ter o Vadeco 2. Eu acho que tem uma coisa do grupo, que é principalmente com o trio, com o Vadeco, o Jorge e o Agenor, que é o Manfrini, o Agenor é o Alexandre Lino e o Jorge é o Danilo Moura. Eles são tão diferentes entre si, como personagens e tal, e como as personalidades deles, o jeito que eles são, acabou criando um equilíbrio muito legal. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Manfrini, o maior desafio, eu acredito, de interpretar o Vadeco, é justamente essa virada cômica para esse herói improvável, na segunda parte da trama. Como é que você trabalhou essa transição sem perder o lado cômico do personagem? Maurício Manfrini: Foi muito normal, foi muito em conversa com o Paulinho (Fontenelle), dando o tom da cena. Então, foi uma coisa bem suave, sem nenhum sofrimento. O meu sofrimento maior, o nosso sofrimento maior foi o calor. A gente filmou em janeiro do ano passado, foi um negócio absurdo, com muitas cenas externas. Então, isso foi a pior parte. Agora, o resto foi muito tranquilo, muito normal, muito suave. Divulgação Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Enfim, o Paulo falou um pouco sobre esse trio, mas todo elenco é composto por grandes nomes da comédia. Assim como a Mariana Xavier, a Alexandra Richter também, que são figurinhas carimbadas dos filmes do Paulo Gustavo, por exemplo. Como foi construir essa relação com esse elenco tão grande e um elenco jovem também? Uma coisa que eu achei muito legal é que tem um elenco jovem como apoio. Como foi construir essa relação, você já tão consagrado ali no meio da galera? Maurício Manfrini: Foi rápido, assim. Todo mundo na mesma energia. A Mariana, eu não conhecia pessoalmente. A Richter também não conhecia pessoalmente. Mas a gente se admirava profissionalmente. O Alexandre Lino eu já conhecia. Foi rápido demais. O Theo (Fontenelle) que fez brilhantemente com a Letícia (Braga). O Heitor Martinez. Enfim, o Danilo (Moura) eu já conheci ali no set de filmagem. Mas acho que todo mundo estava sempre muito bem intencionado, com uma vontade muito grande de fazer bem feito. Acho que quando as pessoas levam para o set somente a vontade de fazer, sem levar outros problemas, sem levar outras maneiras de pensamento, que não seja fazer o trabalho, isso facilita bastante. Foi o que aconteceu. Eu não tive nenhuma dificuldade, nenhuma falta de entrosamento. Todas as cenas, com todo mundo do elenco, sempre fluía muito, muito tranquilo, muito fácil de fazer. Entendeu? Então, eu acho que, em se tratando de humor, quando todo mundo está com vontade, quando todo mundo está bem humorado, quando todo mundo está fazendo com coração, com a alma, sai bem feito. Paulo Fontenelle: A gente precisava, na verdade, que tivesse muito sentimento de família o tempo todo no filme. Porque o público precisa comprar isso como uma grande família. Ele precisa olhar e falar cara, é uma grande família e torcer por essa família. Não só porque a Alice é a mãe da Maria, a Mariana é a mãe da Letícia, mas esse sentimento de família que os grandes grupos de comédia mais antigos tinham. Os Trapalhões não são irmãos, mas é como se fossem. Você já entra com um pouco desse pensamento. E, na verdade, a gente, tinha muita gente que não tinha ainda trabalhado junto, mas tinha focos de grandes trupes que a gente já tinha trabalhado. Então, eu já tive uma relação muito pessoal com o Lino, que começou no O Porteiro. E o Danilo Moura, já é o quarto ou quinto trabalho dele comigo. O Theo, meu filho, o Manfrini já conhecia o Theo por ser meu filho. O Lino conhece o Theo desde que a gente começou a fazer o Porteiro há dez anos atrás. E o Lino preparou o Theo para um outro filme que a gente fez num drama chamado Mariana que a gente lança no ano que vem. E aí, o Raphael Viana já tinha feito dois filmes comigo. O Rafa já tinha feito o Multishow com o Manfrini. Então, assim, eu acho que aí vem a Mariana (Xavier), que a gente não conhecia direito, mas aí vem a Alexandra também, a Letícia Isnard. Aí elas já se integram direto. O Heitor (Martinez) fez O Porteiro com a gente, já era um cara que também a gente já tinha trabalhado. Então, é uma trupe, né? Era uma grande família no set. A gente teve um primeiro dia, na verdade, no posto de gasolina, que estava 45º na sombra. Foi um pesadelo, mas que ficou ótimo. E que aí foi só com o Manfrini e com o Heitor, né? Mas quando a gente chega para a primeira filmagem na casa, já era uma galera que já se conhecia. Então, assim, eu acho que o legal, quando o elenco é coeso, ele funciona, porque essa relação de família que a gente precisava para o filme, ela meio que já vinha das relações pessoais também, que existiam. Então, quando você junta um time que é talentoso para caramba, só de gente legal, só de gente foda, entendeu? Só de profissionais que te põe lá em cima. Eu acho que você consegue fazer isso, fazer um time que vai te entregar o que você precisa que seja entregue. Foi muito legal fazer o filme. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Manfrini, tem algo do Valdeco que você reconhece em você mesmo ou foi uma construção totalmente distante da sua forma de ser? Tem alguma abordagem diferente do que você está acostumado em projetos de comédia? Maurício Manfrini: Não, eu acho que são temperadas. A não ser a tranquilidade. O Valdeco é um personagem tranquilo. Mesmo nas confusões ali, às vezes ele se mantinha com uma tranquilidade maior. Acho que é a única semelhança entre eu e ele. De resto, não. É completamente diferente. E sobre a abordagem, o sotaque mineiro foi, assim, o principal obstáculo no início. Depois começou a fluir normalmente. Eu fui até me arriscando nos improvisos, umas coisas aqui, outras ali. Mas não fugi muito do texto, porque já estava tudo praticamente já mastigado para mim ali. Eu só fui adicionando mesmo o sotaque. O jeito de olhar, o jeito de falar, a intensidade, a rapidez. Ou botar ele mais lento, mais centrado ali. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Para finalizar, nós do Oxente de Pipoca temos uma tradição de pedir aos nossos entrevistados que indiquem três produções brasileiras para o pessoal nos acompanha. Maurício Manfrini: Farofeiros 3, vindo dia 5 de novembro. Minha melhor amiga, que está bombando nos cinemas. E vindo aí com força total também, dia 24 de setembro, Marido de Aluguel. Sem querer puxar a sardinha para o nosso lado, mas é um filme para você levar a sua família, levar seus amigos, levar sua esposa, seu namorado e se entregar. Só se entregar, chegar no cinema com aquela pipoca, com aquela vontade de se divertir e com certeza não vai sair decepcionado. Paulo Fontenelle: Eu vou tentar fugir dos três, na verdade. O Porteiro foi um prazerzão fazer, assim. Foi quando eu conheci esse cara aí que, pô... Amigo para toda a vida e está no Prime Video. O Sala Escura é um filme de terror diferente que eu sempre que eu posso, eu divulgo porque a gente passou meio batido pelo cinema porque é um filme gore brasileiro. É um filme que tem sangue, tortura. E aí é difícil você chegar... O público brasileiro ainda está se formando para aceitar o terror no Brasil. E estamos chegando agora, Marido de Aluguel, dia 24 de novembro, para fazer todo mundo rir nesse momento que eu acho que o que a gente precisa, rir para relaxar, sabe? Para esquecer um pouco dos problemas da gente.












