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- Crítica | Antártida
Mistério glacial que congela qualquer possibilidade de profundidade. Imagem: Divulgação Existe uma boa ideia no centro de Antártida: em uma estação de pesquisa isolada no continente gelado, uma mulher sofre uma violência sexual logo na primeira noite de trabalho. Cercada por homens e distante de qualquer possibilidade de fuga, ela se torna também o centro de uma investigação conduzida pela subcomandante Elisabeth, personagem de Andréa Beltrão. O problema é que o filme parece mais interessado em descobrir quem cometeu o crime do que em compreender o que esse crime provoca na vítima. A violência está no centro da história, mas Inês, interpretada por Marina Ruy Barbosa, é constantemente empurrada para as margens dela. É justamente aí que está a principal contradição do longa dirigido por Bruno Safadi, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (17), Antártida quer discutir a violência contra a mulher, o machismo estrutural e as relações de poder em um ambiente dominado por homens. Também tenta construir um suspense de investigação, com uma estação isolada funcionando como uma espécie de espaço claustrofóbico, onde todos podem ser suspeitos. Só que o trauma de Inês acaba tratado como combustível narrativo para um mistério que, por sua vez, não tem força suficiente para sustentar o filme. Como suspense, Antártida até funciona em alguns momentos. A atmosfera é bem construída, a estação tem uma presença visual interessante e existe uma tentativa evidente de criar tensão a partir do isolamento. Algumas imagens lembram a quarta temporada de True Detective, especialmente na maneira como o ambiente gelado é usado para produzir estranhamento e ameaça. Mas o filme parece mais preocupado em parecer misterioso do que em desenvolver uma investigação realmente envolvente. A pergunta “quem fez isso?” se sobrepõe à pergunta mais importante: o que aconteceu com Inês depois da violência? A personagem passa boa parte do filme sendo observada, comentada ou usada pelos outros. Antes mesmo do crime, sua apresentação já é marcada por uma sensualização insistente, como se o corpo dela precisasse estar permanentemente disponível ao olhar masculino. A escolha é ainda mais problemática porque Inês deveria ser uma pesquisadora chegando a um ambiente profissional e hostil, mas o roteiro constrói sua primeira aproximação com os homens da estação de maneira pouco convincente, misturando intimidação, bebida, exposição e sexualização. O filme parece querer mostrar como aquele espaço é violento, mas acaba reproduzindo parte da lógica que pretende criticar. Depois do estupro, a situação se torna ainda mais incômoda. Inês tem pouco espaço para existir como pessoa. Sua indignação parece autorizada apenas em uma cena de grito, quase como se o roteiro precisasse marcar, de maneira explícita, que aquilo é grave. O restante do tempo, ela é reduzida à função de vítima, peça de investigação e gatilho para os conflitos entre os demais personagens. O trauma não é elaborado; ele é utilizado para movimentar a trama. A contradição se torna evidente porque o filme parece querer denunciar o descaso com mulheres violentadas, mas trata sua própria vítima com o mesmo tipo de descaso. Inês sofre uma violência brutal e, ainda assim, a narrativa rapidamente desloca sua atenção para os homens ao redor dela, para as suspeitas, para as relações de poder e para a investigação conduzida por Elisabeth. O sofrimento da personagem passa a importar principalmente quando ajuda a revelar alguma coisa sobre o ambiente ou sobre os possíveis culpados. A proposta de acompanhar uma investigação conduzida por uma mulher é interessante, assim como a tentativa de discutir a sororidade em um espaço marcado pelo machismo. Elisabeth é, sem dúvida, o grande destaque do elenco. Andréa Beltrão encontra densidade mesmo em uma personagem que muitas vezes precisa carregar diálogos expositivos e decisões pouco desenvolvidas pelo roteiro. O elenco, de modo geral, se compromete com a história e impede que o filme desmorone completamente. Há bons trabalhos também entre os personagens secundários, mas quase todos parecem existir mais para representar uma ideia do que para funcionar como pessoas de fato. Esse é outro problema de Antártida: seus personagens raramente conseguem ultrapassar a função que receberam dentro do discurso. O homem machista, a mulher desacreditada, a mulher que enfrenta os homens, o sujeito aparentemente sensível, o suspeito misterioso. Tudo é apresentado de maneira muito evidente, como se o filme tivesse medo de que o público não entendesse o que está sendo discutido. As falas explicam o conflito, nomeiam o machismo, anunciam as relações de poder e sublinham aquilo que a imagem já havia mostrado. Não há confiança suficiente no silêncio, no comportamento ou na ambiguidade. Essa postura excessivamente explicativa enfraquece até mesmo as questões mais interessantes do roteiro. O filme fala sobre pequenos abusos, sobre a naturalização da violência, sobre o modo como homens protegem uns aos outros e sobre a dificuldade de uma mulher ser ouvida em um ambiente dominado por eles. Mas quase tudo aparece como tese pronta, e não como experiência vivida pelos personagens. Em vez de permitir que essas relações se revelem aos poucos, Antártida transforma cada situação em uma espécie de aula sobre o assunto. O tratamento dado à personagem negra feminina também merece atenção. Em determinados momentos, ela é apresentada como alguém que está “do lado dos homens”, quase como se sua postura precisasse ser explicada por uma espécie de afastamento da própria condição de mulher. A escolha reforça um estereótipo bastante problemático: o da mulher negra que não é reconhecida como vítima ou que precisa se aproximar da lógica masculina para sobreviver. O filme poderia explorar as contradições dessa personagem, mas prefere encaixá-la em uma posição já conhecida. Há ainda uma sensação constante de que Antártida tenta ser uma série condensada em um longa-metragem. A história possui personagens demais, conflitos demais e temas demais para o tempo que tem disponível. As relações não amadurecem, as suspeitas surgem e desaparecem rapidamente e algumas viradas parecem acontecer apenas porque o roteiro precisa avançar. O resultado é uma narrativa apressada, que apresenta possibilidades interessantes sem desenvolver quase nenhuma delas de maneira satisfatória. A própria estação, que poderia ser um elemento fundamental para o suspense, acaba subaproveitada. O isolamento deveria intensificar a paranoia, a sensação de confinamento e a impossibilidade de escapar daquela estrutura de poder. Mas o espaço funciona mais como uma locação visualmente bonita do que como uma força dramática. A Antártida está ali, mas raramente interfere de verdade nas escolhas, nos conflitos ou no comportamento dos personagens. Imagem: Divulgação O filme também parece não saber exatamente o que quer ser. Em alguns momentos, investe no mistério clássico de descobrir o culpado. Em outros, tenta construir um thriller psicológico. Depois, assume um tom de denúncia social, com diálogos que parecem retirados de uma discussão já pronta sobre violência de gênero. Nenhuma dessas camadas chega a ser completamente desenvolvida. A ideia central é boa, mas o roteiro não encontra uma forma de fazer com que suspense e crítica social se fortaleçam mutuamente. Eles acabam competindo pela atenção do filme. O resultado é especialmente frustrante porque Antártida não parte de uma questão menor. A violência contra a mulher continua sendo tratada pelo cinema de maneira repetitiva, muitas vezes como acontecimento que serve para justificar a jornada de outros personagens. O problema não está em abordar esse tema mais uma vez, mas em abordá-lo sem encontrar uma perspectiva capaz de escapar do óbvio. O filme parece querer quebrar um tabu, mas frequentemente apenas repete discursos já conhecidos, de maneira didática e pouco complexa. É possível reconhecer o esforço do elenco, a boa premissa e alguns momentos de tensão sem ignorar que o filme falha justamente no ponto em que pretende ser mais contundente. Antártida quer falar sobre o modo como as mulheres são desacreditadas, mas não consegue dar à sua protagonista o espaço necessário para existir para além da violência que sofreu. Quer discutir o machismo, mas recorre a personagens e diálogos tão esquemáticos que termina simplificando o próprio debate. Quer construir um mistério, mas não desenvolve uma investigação forte o bastante para sustentar a narrativa. O problema de Antártida não é escolher falar sobre violência contra a mulher. É transformar uma experiência devastadora em combustível para um suspense que, apesar do esforço do elenco e das imagens bonitas, nunca encontra força ou identidade própria. O filme tenta emular diferentes referências, mas não consegue reproduzir a tensão, a paranoia ou a densidade delas. No fim, sobra uma promessa vazia: um longa visualmente elaborado, cheio de possibilidades, mas que termina sem aprofundar seus temas, sem sustentar seu mistério e sem deixar muito além da sensação de que poderia ter sido muito mais. Nota: 2,5/5.
- Crítica | The Unknown (TIFF 2026)
Thriller existencial de Arthur Harari transforma uma história de troca de corpos em uma experiência desconcertante sobre identidade e solidão. Divulgação É difícil explicar exatamente o que acontece em The Unknown sem tirar parte da graça de descobrir o filme por conta própria. O novo longa de Arthur Harari começa como um thriller estranho sobre uma doença misteriosa e, aos poucos, se transforma em algo muito mais difícil de definir. Quando percebi que já não estava tentando entender exatamente para onde a história estava indo, mas simplesmente aceitando suas regras, percebi também que era justamente aí que o filme funcionava melhor. A história acompanha David (Niels Schneider), um fotógrafo recluso que passa seus dias registrando espaços esquecidos das periferias de Paris. Durante uma festa, ele conhece uma mulher misteriosa, Eve (Léa Seydoux), com quem se envolve sexualmente. Na manhã seguinte, porém, David acorda no corpo dela. Sem entender o que aconteceu, ele começa uma busca para encontrar seu próprio corpo e descobrir como voltar para ele. A premissa parece saída diretamente de um filme de ficção científica dos anos 1980. Existe algo de Possessão e Videodrome na maneira como Harari transforma o corpo em uma fonte constante de desconforto, mas The Unknown está menos interessado no terror físico do que na sensação de não reconhecer a si mesmo. O conceito de troca de corpos permite que Harari explore a identidade de uma maneira que dificilmente funcionaria através de uma narrativa tradicional. O que somos quando nosso corpo deixa de corresponder à pessoa que acreditamos ser? Até que ponto nossa identidade está ligada à nossa aparência? E, talvez mais importante, o que acontece quando as pessoas ao nosso redor deixam de reconhecer quem somos? Essas perguntas ficam ainda mais interessantes porque o filme nunca parece interessado em oferecer respostas. Quanto mais David tenta descobrir uma explicação lógica para o que aconteceu, mais a narrativa parece escapar de suas mãos. O filme não cria uma grande mitologia para explicar o vírus ou estabelece regras detalhadas para sua existência. Em vez disso, Harari transforma essa falta de respostas em parte da experiência. Visualmente, The Unknown é impressionante. A fotografia digital de Tom Harari cria uma sensação constante de deslocamento, como se a câmera também não soubesse exatamente onde deveria estar. Os enquadramentos são estranhos, os espaços parecem vazios e existe uma inquietação constante mesmo quando nada particularmente assustador está acontecendo. O mais interessante é que essa estética combina perfeitamente com o protagonista. David já era alguém deslocado antes mesmo de perder seu corpo. Ele fotografa lugares esquecidos de Paris, espaços que parecem não pertencer a lugar nenhum, tentando encontrar significado em ambientes que a maioria das pessoas simplesmente atravessa. Quando seu próprio corpo se torna um espaço desconhecido, essa obsessão ganha um novo significado. Mas talvez o maior destaque do filme sejam as atuações. Léa Seydoux e Niels Schneider enfrentam um dos desafios mais difíceis que um ator pode receber: interpretar alguém que está dentro do corpo de outra pessoa. Não basta mudar a voz ou os gestos. Eles precisam incorporar pequenos comportamentos que indicam que outra consciência está ocupando aquele corpo. Divulgação Seydoux, especialmente, consegue transmitir uma estranheza fascinante quando passa a carregar os movimentos e a personalidade de David. Schneider enfrenta um desafio ainda maior quando precisa interpretar diferentes identidades dentro de seu próprio corpo. A atuação nunca deixa de lembrar que estamos vendo uma pessoa tentando existir através de um corpo que não corresponde a ela. Quando Malia (Lilith Grasmug) entra nessa equação, o filme leva o conceito ainda mais longe. A nova troca de corpos adiciona outra camada à história e faz com que a pergunta inicial “como voltar ao meu corpo?” Comece a parecer menos importante do que “quem eu sou sem ele?”. Apesar de toda essa ousadia, The Unknown não é perfeito. A narrativa é bastante solta e, durante seus quase 150 minutos, existem momentos em que o filme parece simplesmente vagar sem uma direção muito clara. A ausência de uma mitologia mais definida pode ser libertadora, mas também pode deixar algumas passagens com a sensação de que estamos esperando por uma resposta que nunca virá. Para mim, porém, essa incerteza acaba fazendo parte do encanto. Um filme sobre pessoas que perderam a conexão com seus próprios corpos talvez não pudesse ser completamente confortável ou linear. Harari parece querer que o espectador também experimente essa sensação de deslocamento. A trilha sonora de Andrea Poggio reforça essa atmosfera, criando uma sensação de ameaça que raramente se transforma em terror convencional. Embora a premissa possa fazer parecer que estamos diante de um filme de horror, The Unknown é muito mais interessado no desconforto psicológico de estar preso em uma realidade que não conseguimos compreender, tornando o filme tão perturbador. O maior medo é perceber que nossa identidade pode ser muito mais frágil do que imaginamos. Arthur Harari pega uma premissa que poderia facilmente resultar em um thriller de gênero convencional e transformar-la em uma experiência existencial, estranha e profundamente desconfortável. Mesmo quando a narrativa perde um pouco o rumo, o diretor nunca perde o controle da atmosfera. The Unknown é um filme que não quer ser explicado, quer ser sentido. E quanto mais ele mergulha nessa sensação de não pertencimento, mais fascinante se torna. Uma obra ousada, visualmente inquietante e sustentada por performances excepcionais, que transforma a tradicional troca de corpos em uma investigação sobre o que realmente permanece quando tudo aquilo que nos define desaparece. Nota: 4.5/5
- Crítica | Clarissa (TIFF 2026)
Adaptação de Virginia Woolf atualiza “Mrs. Dalloway” para Lagos, mas se perde em sua própria contemplação. Imagem: Divulgação Existe algo naturalmente interessante em adaptar Mrs. Dalloway para os dias atuais. Mais de cem anos depois da publicação do romance de Virginia Woolf, suas reflexões sobre classe, isolamento, envelhecimento e as limitações impostas pela sociedade continuam extremamente atuais. Em Clarissa, os irmãos Chuko e Arie Esiri transportam essa história para Lagos, na Nigéria, mas acabam criando uma obra que, apesar de suas boas intenções, raramente consegue transformar suas ideias em uma experiência realmente envolvente. A história acompanha Clarissa, uma mulher da alta sociedade nigeriana que passa o dia preparando uma festa em sua casa. Enquanto organiza os últimos detalhes para receber amigos e conhecidos, ela começa a revisitar momentos de sua juventude e a refletir sobre as escolhas que a levaram até sua vida atual. Entre essas lembranças estão Peter, seu antigo namorado e escritor aspirante, Sally, sua amiga por quem Clarissa também demonstra sentimentos, e Ugo. O filme alterna constantemente entre o passado e o presente, mostrando como aquelas amizades foram transformadas pelo tempo e pelas circunstâncias. A ideia de transportar a história de Londres para a Lagos contemporânea é, sem dúvida, uma das decisões mais interessantes do filme. A obra de Woolf discutia uma sociedade britânica marcada pelo colonialismo, pelas diferenças de classe e pelas consequências da Primeira Guerra Mundial. Aqui, os Esiri utilizam a Nigéria para observar as marcas deixadas pelo colonialismo britânico e as contradições de uma sociedade que tenta conciliar tradição, modernidade e diferentes estruturas de poder. O problema é que Clarissa frequentemente parece mais interessado em demonstrar essas ideias do que em transformá-las em uma narrativa capaz de prender nossa atenção. Imagem: Divulgação A estrutura alternando passado e presente funciona melhor nos momentos em que conseguimos entender como as versões mais jovens dos personagens se relacionam com aquilo que se tornaram. As cenas da juventude possuem uma energia diferente, quase como uma memória idealizada de uma época em que tudo parecia possível. No presente, porém, existe uma sensação constante de estagnação. Essa diferença ajuda a construir a personagem de Clarissa, mas também torna o filme excessivamente contemplativo. Muitas cenas parecem existir apenas para reforçar o estado emocional dos personagens, enquanto a narrativa demora para avançar. Sophie Okonedo é, sem dúvida, um dos maiores destaques. Sua interpretação é construída principalmente através de pequenos gestos, silêncios e olhares. Existe uma melancolia evidente em sua Clarissa, uma mulher que parece ter passado boa parte da vida tentando se convencer de que fez as escolhas certas. David Oyelowo também funciona muito bem como Peter, especialmente na maneira como transmite o arrependimento e o desejo de recuperar uma conexão que parece perdida há décadas. Os dois atores conseguem criar uma relação marcada por uma intimidade que nunca é completamente verbalizada, e são justamente esses momentos mais silenciosos que fazem o filme funcionar melhor. O restante do elenco também é competente, embora alguns personagens acabem parecendo mais importantes para as ideias do roteiro do que para a própria história. Isso fica particularmente evidente com Septimus, um veterano traumatizado que vive uma realidade completamente diferente da de Clarissa. Seu arco é provavelmente o mais pesado do filme. Enquanto Clarissa está cercada de conforto e pode escolher até onde deseja enxergar os problemas de seu país, Septimus carrega diretamente as consequências da violência e do abandono estatal. É uma contraposição interessante, mas a ligação entre os dois é tão distante que sua presença acaba parecendo quase como uma segunda história inserida dentro da primeira. Visualmente, os Esiri encontram algumas soluções interessantes para conectar passado e presente. Reflexos em espelhos e na água aparecem constantemente, criando uma espécie de ponte entre as diferentes versões dos personagens. A ideia funciona especialmente bem porque reforça o conflito central de Clarissa: a diferença entre aquilo que somos, aquilo que os outros enxergam e aquilo que imaginamos ter sido. O filme também utiliza sons e imagens para aproximar os diferentes personagens e momentos da história. Ora ouvimos sirenes, ora orações ecoando pela cidade, substituindo elementos presentes no romance original e ajudando a construir uma identidade própria para Lagos. Ainda assim, muitas dessas escolhas parecem mais interessantes isoladamente do que dentro do conjunto. Clarissa é um filme que claramente quer discutir questões importantes. Fala sobre colonialismo, classe social, privilégios, repressão, envelhecimento, liberdade e as consequências de viver em uma sociedade que constantemente exige que seus indivíduos se conformem. Existe muito conteúdo para ser explorado aqui. Mas, ao longo de seus 125 minutos, senti que o filme nunca encontrou uma maneira suficientemente dinâmica de conectar todas essas ideias. A adaptação de Mrs. Dalloway também cria uma expectativa difícil de cumprir. O romance de Woolf é conhecido justamente por sua capacidade de transformar pensamentos, memórias e pequenas observações do cotidiano em algo profundamente cinematográfico na imaginação do leitor. Clarissa tenta reproduzir essa sensação através de imagens, sons e mudanças temporais, mas nem sempre consegue alcançar a mesma força. No fim, a pergunta sobre liberdade permanece no centro da obra. Clarissa vive em uma posição privilegiada, mas ainda está presa às expectativas de sua classe, de seu casamento e de sua sociedade. Peter, Sally e os demais personagens também carregam diferentes versões dessa mesma prisão. E Septimus representa aqueles que sequer possuem o privilégio de escolher como querem viver dentro desse sistema. É uma ideia poderosa, mas Clarissa acaba sendo um filme que admiro mais do que realmente gosto. As atuações de Sophie Okonedo e David Oyelowo são excelentes, a atualização para Lagos é inteligente e existem momentos visualmente belos. Porém, a narrativa excessivamente lenta e contemplativa faz com que boa parte de seu potencial se perca. Ao invés de transformar suas grandes ideias em uma experiência emocionalmente marcante, o filme muitas vezes apenas nos explica, através de imagens bastante bonitas, por que elas são importantes. Clarissa entende perfeitamente o que Virginia Woolf queria discutir. O problema é que, ao tentar encontrar sua própria voz, os irmãos Esiri acabam criando uma adaptação mais interessante no papel do que na tela. Nota: 2.5/5
- Crítica | A Queda 2: No Limite
Sequência repete a fórmula do primeiro filme, mas não consegue reproduzir sua tensão. Divulgação Depois de transformar uma torre abandonada em cenário para uma das experiências mais claustrofóbicas do cinema recente, A Queda retorna com uma sequência que tenta reproduzir a mesma sensação de perigo em um novo cenário. A Queda 2: No Limite estreia no Brasil em 1º de outubro e acompanha a irmã de uma das protagonistas do primeiro filme, que decide honrar o legado da jovem ao se aventurar em uma trilha proibida nas montanhas da Tailândia. Ao lado de outra jovem, ela se coloca diante de uma situação extrema, mas a sequência logo deixa evidente que repetir a fórmula não é suficiente para recuperar o impacto do original. O primeiro filme funcionava porque sua premissa simples permitia explorar até o limite o medo da altura, o isolamento e a sensação de que qualquer movimento poderia ser fatal. Aqui, esse mecanismo perde força. O suspense é mais fraco e muitas das situações de perigo surgem a partir de decisões tão questionáveis das personagens que a apreensão dá lugar à irritação. Em vez de acompanhar a tentativa desesperada de sobrevivência, frequentemente nos perguntamos por que elas simplesmente escolheram se colocar naquela situação. Divulgação É como assistir ao mesmo truque de mágica pela segunda vez. Pode até funcionar durante alguns minutos, mas você já sabe como ele termina, e nada supera a primeira vez. A Queda 2 reproduz os principais elementos do original sem encontrar uma nova maneira de provocar o mesmo desconforto. O filme ainda tenta ampliar sua discussão ao abordar a relação entre fãs, legado e a necessidade de transformar determinadas experiências em prova de coragem. A ideia poderia render uma camada interessante à história, mas fica na superfície e acaba funcionando mais como justificativa para a aventura do que como algo realmente desenvolvido pelo roteiro. A inclusão de uma trama envolvendo tráfico de drogas também parece deslocada. Em vez de surgir naturalmente da história, o elemento funciona como uma tentativa de aumentar as apostas e tornar a situação mais perigosa. O resultado é uma narrativa que acumula conflitos, mas não consegue transformar essa escalada em tensão de verdade. No fim, A Queda 2: No Limite ainda consegue entreter em alguns momentos, especialmente para quem compra a proposta de acompanhar mais uma aventura de sobrevivência. O problema é que, quando comparado ao primeiro, o longa parece menos interessado em encontrar uma identidade própria do que em reproduzir uma experiência que já funcionou. A torre mudou, mas o filme não encontra uma maneira convincente de fazer com que o público sinta novamente aquele medo de olhar para baixo. Nota: 1,5/5
- Entrevista | Ticiana Augusto Lima, Noá Bonoba e Guto Parente falam sobre o ritual coletivo do cinema independente em “Morte e Vida Madalena”
Em conversa com o Oxente Pipoca, Ticiana Augusto Lima, Noá Bonoba e Guto Parente abordam as rimas entre vida e ficção, a desconstrução da figura do diretor e a exaltação do papel da produção executiva. Divulgação Estreia no próximo dia 17 de setembro o premiado longa-metragem Morte e Vida Madalena, dirigido por Guto Parente. Em entrevista exclusiva ao Oxente Pipoca o diretor, a protagonista Noá Bonoba e a produtora Ticiana Augusto Lima falaram sobre o processo de criação do filme, as rimas entre vida e ficção e as nuances do fazer audiovisual no cinema independente nordestino. Vida, Ficção e Rimas Oníricas: As Inspirações de Ticiana Augusto Lima Co-fundadora da produtora Tardo Filmes ao lado de Guto Parente, Ticiana Augusto Lima explicou que a concepção da protagonista Madalena surgiu do acompanhamento direto de suas vivências na produção executiva, além de releituras de episódios tragicômicos e pesadelos ocorridos nos sets de filmagem de amigos. Para a produtora, "como fazer cinema é sempre um ritual, cada projeto é um ritual específico". A idealizadora destacou que a produção do longa esteve cercada de coincidências e "rimas" entre a realidade e a ficção. Logo após a conclusão da etapa de produção do filme, Ticiana descobriu que estava grávida, o que definiu como "uma rima ao contrário" com a própria trajetória narrada na obra. Além disso, a inclusão de sua filha, Pocan, interpretando a personagem Feline, ocorreu de forma não planejada durante a montagem e pós-produção, exemplificando a abertura necessária aos imprevistos da criação artística. Como resumiu a produtora, o filme se estrutura em uma construção "baseada em fatos reais, abstratos e oníricos", brincando de forma livre com as alegorias e o cotidiano do trabalho de uma produtora executiva. Atuação e Realismo: Noá Bonoba e a Construção da Protagonista Responsável por dar vida à protagonista Madalena, a atriz, diretora e preparadora de elenco Noá Bonoba comentou sobre a reação do público diante de sua atuação. Noá revelou achar curioso o fato de alguns espectadores afirmarem que a personagem seria idêntica a ela na vida real. "Eu acho isso muito estranho porque eu não me reconheço nem um pouco na Madalena", revelou a atriz, acrescentando que, quando atua na produção executiva, costuma ser "muito calma, muito sorridente, muito simpática", em contraste com a postura objetiva e pressionada de Madalena. Apesar dessa diferença de personalidade, Noá explicou que a "compreensão do que é a complexidade do fazer cinematográfico independente" foi o fator determinante para compor a personagem. A atriz pontuou ter trabalhado estritamente na "chave do realismo", o que gerou na audiência a impressão de um registro documental de si mesma. Ela reforçou ainda que o distanciamento temporal das gravações tornou a disparidade entre sua própria personalidade e a da personagem cada vez mais evidente. Do Set de Atuação à Cadeira de Direção: O Aprendizado em 'Iguaraguá' A experiência em Morte e Vida Madalena funcionou como um treinamento direto para que Noá Bonoba assumisse a direção de seu primeiro longa-metragem, Iguaraguá. Segundo a cineasta, "o Iguaraguá foi o Morte e Vida Madalena 2", brincou a atriz afirmando que toda a equipe que participou de sua estreia na direção identificou paralelos imediatos com o universo e as dificuldades vividas no set anterior. Noá relatou que lidar com as exigências da produção independente, como filmar cenas na praia e em alto-mar, forneceu a base técnica para orientar sua própria equipe de produção. A diretora defendeu ainda uma postura de integração e escuta no ambiente de trabalho: "Eu sou uma atriz que não fico só na minha profissão [...] eu observo todo mundo, eu falo com todo mundo, eu odeio esse tipo de ator de método que fica ali 'ninguém pode falar comigo'. Eu tô ali como qualquer outra pessoa". Para ela, estar atenta ao trabalho coletivo no set é o maior aprendizado para a realização audiovisual. Descentralizar a Direção e Exaltar a Produção: As Reflexões de Guto Parente O diretor e roteirista Guto Parente abordou a decisão de retratar a figura do criador audiovisual em crise, explicando que o filme busca tensionar a centralidade atribuída ao diretor no cinema autoral. Guto observou que a obra procura "apontar para um lugar de que, na verdade, talvez em alguns projetos o diretor seja até dispensável, que às vezes em alguns projetos o diretor até atrapalha o filme". O cineasta enfatizou que existe no set "um organismo vivo, uma coletividade" que muitas vezes é ofuscada pela figura da direção. Por isso, o objetivo central do longa foi "tirar um pouco as atenções desse lugar da direção" e deslocar os holofotes para "o papel fundante que uma produtora num filme tem de segurar a onda mesmo", reconhecendo uma função cujo valor raramente é compreendido em sua plenitude pelo grande público.
- Crítica | The Debut (TIFF 2026)
Julianne Moore e Paul Giamatti brilham em uma comédia absurda sobre teatro comunitário Divulgação Existe algo muito especial em quem decide subir em um palco sem necessariamente ter experiência para isso. Em pequenas cidades, grupos de teatro comunitário reúnem pessoas que passam o dia em empregos completamente diferentes e, mesmo assim, dedicam noites e finais de semana a ensaiar musicais para algumas apresentações. Não importa se o cenário é simples, se o elenco é amador ou se a produção está longe da Broadway. Existe uma vontade genuína de fazer parte de alguma coisa. É justamente essa paixão que Jesse Eisenberg faz em uma das comédias mais divertidas de The Debut. Ambientado em Nova Jersey nos anos 1990, o filme acompanha Mona Friedman (Julianne Moore), uma dona de casa que parece ter desaparecido dentro da própria rotina. Seus filhos gêmeos, Matty e Maya, estão quase adultos e mal prestam atenção nela, enquanto seu marido Howard (Patrick Fabian) parece enxergá-la apenas como alguém responsável pelo jantar e pelas tarefas domésticas. Mona é tímida, insegura e acostumada a colocar as necessidades dos outros acima das suas. Até que encontra um anúncio de audição para uma produção de teatro comunitário chamada Nosy Neighbors e decide fazer algo completamente fora de sua zona de conforto: tentar atuar. Sem nenhuma experiência no palco, sua audição é tão ruim que parece impossível imaginar que ela será escolhida. E ela realmente não é. O papel de Miss Danielle, a síndica de um prédio, vai para Serena Cherry (Bernadette Peters), veterana do teatro local e praticamente uma celebridade dentro daquela pequena comunidade. Mas quando Serena abandona a produção, o diretor Jerry (Paul Giamatti) fica sem opção e decide escalar Mona. O problema é que Mona é péssima. Sua única fala importante na peça é simplesmente “o aluguel está vencido”, mas ela consegue entregar a frase como se estivesse pedindo desculpas por estar incomodando alguém. Jerry, conhecido como o maior nome do teatro comunitário de Nova Jersey, percebe que tem um desastre nas mãos e decide tentar descobrir se existe alguma coisa dentro daquela mulher capaz de transformá-la em atriz. É nesse momento que The Debut começa a ficar realmente engraçado. Jerry força Mona a abandonar sua timidez e entender por que sua personagem precisa cobrar aquele aluguel. O exercício rapidamente deixa de ser uma simples aula de atuação e se transforma em uma espécie de interrogatório emocional. A cada nova tentativa, Mona vai ficando mais intensa, até finalmente liberar uma versão de si mesma que estava escondida havia anos. E o que Jerry não percebe é que acabou criando um monstro. Julianne Moore é simplesmente fantástica. Existe uma transformação gradual em Mona que poderia facilmente parecer exagerada nas mãos de outra atriz, mas Moore entende exatamente como equilibrar o ridículo e a humanidade da personagem. No começo, ela parece quase invisível, com uma postura retraída e uma expressão constantemente cansada. Conforme Mona começa a descobrir sua voz, Moore transforma cada pequeno gesto em uma explosão. Uma das melhores cenas do filme acontece justamente durante esse processo, quando Jerry insiste que Mona encontre uma maneira diferente de dizer sua única fala. O exercício começa de maneira relativamente normal e termina em uma sequência de absurdos que fez a plateia da sessão de imprensa reagir com aplausos. É uma demonstração perfeita do que Eisenberg pretende fazer com o filme. Conforme Mona mergulha cada vez mais no método de atuação, ela começa a tentar experimentar a realidade de Miss Danielle. Em determinado momento, chega a passar noites em um hotel decadente e até entra na casa de uma desconhecida fingindo ser a responsável pela manutenção do prédio. A lógica é absurda, mas o mais engraçado é que, de alguma maneira, funciona. Mona finalmente encontra confiança. O problema é que ela não sabe mais como desligá-la. É aí que Eisenberg leva a história para um território cada vez mais surreal. A personagem começa a abandonar completamente a vida que conhecia e a transformar sua atuação em uma espécie de obsessão. O que inicialmente parecia uma simples tentativa de participar de uma peça passa a consumir sua identidade. Essa mudança poderia fazer com que o filme perdesse o espectador, mas Julianne Moore nunca deixa de nos fazer torcer por Mona. Mesmo quando suas decisões ficam cada vez mais absurdas, conseguimos entender de onde elas vêm. Ela passou tanto tempo sendo ignorada que, quando finalmente encontra algo que faz com que se sinta viva, não consegue simplesmente voltar para casa e preparar o jantar. Paul Giamatti também é essencial para esse equilíbrio. Jerry poderia facilmente ser apenas o diretor rabugento que grita com atores amadores, mas Giamatti encontra uma melancolia por trás da frustração. Ele também é alguém que teve sonhos teatrais que nunca se realizaram completamente. Por isso, sua relação com Mona é mais complexa do que parece. Ele quer que ela seja boa, mas também parece estar tentando recuperar através dela algo que perdeu em sua própria vida. Os dois formam uma dupla perfeita. Divulgação Enquanto Moore vai ficando cada vez mais exagerada, Giamatti funciona como uma espécie de âncora. Seu personagem reage aos acontecimentos praticamente da mesma maneira que o público, olhando para Mona e tentando entender até onde aquela situação pode chegar. E Eisenberg não economiza nas excentricidades. O próprio Nosy Neighbors é uma piada. O musical fictício parece uma produção de segunda categoria inspirada em grandes espetáculos da Broadway, com músicas propositalmente cafonas e personagens exageradamente simpáticos. Ao mesmo tempo, existe um carinho evidente por aquele universo. Eisenberg não está simplesmente zombando de pessoas que fazem teatro comunitário. Pelo contrário, parece admirar a coragem necessária para subir naquele palco e se expor diante de uma plateia. Ao lado do diretor de fotografia Drew Daniels, Eisenberg utiliza planos longos que permitem acompanhar os ensaios e observar os personagens dentro daquele pequeno universo teatral. O filme também está cheio de pequenas piadas visuais, algumas tão discretas que funcionam melhor justamente porque não chamam atenção para si mesmas. Até as músicas, escritas pelo próprio Eisenberg, ajudam a construir esse mundo. Elas são ruins de propósito, mas ruins de uma maneira suficientemente convincente para parecerem músicas que realmente poderiam existir em um musical comunitário dos anos 1990. O mais interessante é que The Debut não tenta repetir a fórmula mais realista de A Real Pain. Se o filme anterior de Eisenberg encontrava humor em situações extremamente humanas e reconhecíveis, aqui o diretor está muito mais interessado no absurdo. A história começa como uma comédia sobre teatro comunitário e, aos poucos, se transforma em algo quase surreal. Mas, nem todas essas escolhas funcionam perfeitamente. O terceiro ato leva a obsessão de Mona a extremos que podem parecer exagerados demais, e alguns dos personagens secundários são tão caricatos que tornam difícil acreditar completamente naquele universo. Para quem não embarcar na proposta de absurdo desde o início, algumas dessas decisões provavelmente serão mais cansativas do que engraçadas. Felizmente, o filme sabe exatamente o que quer ser. No centro de tudo está a ideia de que atuar é, de certa maneira, uma forma de descobrir quem somos. Mona começa o filme sem saber exatamente o que quer da própria vida. Ela encontra no palco uma oportunidade de experimentar outra versão de si mesma e, ao tentar entender uma personagem fictícia, acaba encontrando partes de sua própria personalidade que estavam escondidas. É uma ideia simples, mas Eisenberg consegue explorá-la sem transformar o filme em uma lição de moral. The Debut é uma carta de amor ao teatro comunitário, mas também uma celebração de pessoas que decidem fazer algo simplesmente porque amam aquilo. Não importa se o palco é pequeno ou se o espetáculo está longe de ser perfeito. É se permitir ser vulnerável diante de outras pessoas. Com uma Julianne Moore completamente entregue ao absurdo, um Paul Giamatti hilário e melancólico e uma direção que sabe quando abraçar o ridículo, The Debut é uma comédia surpreendentemente doce. Nem todas as loucuras do seu final funcionam com a mesma força, mas Eisenberg demonstra mais uma vez que sabe encontrar humanidade em personagens extremamente específicos. E, em uma época em que comédias desse tipo estão cada vez mais raras nos cinemas, é difícil não comemorar quando uma delas simplesmente quer fazer a plateia rir. Ela pode até não ser perfeita, mas é difícil não sair dele querendo aplaudir. Nota: 4/5
- Lista | Para ficar de olho: séries que estreiam em breve
Novos títulos que chegam aos streamings logo menos e prometem. Imagem: Divulgação Toda semana estreia uma série nova, isso não é novidade para ninguém. Mas com esse mar de escolhas, é fácil ficar perdido. No entanto, trouxe hoje uma lista com as próximas estreias que chamaram minha atenção, já com as datas em que estarão disponíveis. Habeas Corpus Imagem: Divulgação Onde: Netflix Quando: 23 de setembro Sinopse: A trama acompanha a Dra. Inez (Marjorie Estiano), uma renomada professora de Direito e ex-advogada criminalista que lidera um grupo de revisão criminal. O objetivo da equipe é reexaminar o caso de um jovem preso injustamente por um crime que não cometeu. Brothers Imagem: Divulgação Onde: Apple TV Quando: 23 de setembro Sinopse: Os atores Matthew McConaughey e Woody Harrelson são grandes amigos há anos, mas um segredo de família pode revelar que esse vínculo é ainda mais profundo. A Leste do Éden Imagem: Divulgação Onde: Netflix Quando: 1º de outubro Sinopse: Estrelada por Florence Pugh como uma mulher de espírito extremamente independente no início do século XX, que provoca uma ruptura entre dois irmãos, desencadeando uma saga que atravessa duas gerações. Guerra Imagem: Divulgação Onde: HBO Max Quando: 1º de outubro Sinopse: Em Londres, dois prestigiados escritórios de advocacia se enfrentam em um escandaloso caso de divórcio. Num mundo de amor, escândalo, traição e ambição, vencer é tudo. Kill Jackie Imagem: Divulgação Onde: Globoplay Quando: 2 de outubro nos EUA. Ainda sem data de estreia no Brasil. Sinopse: Jackie (Catherine Zeta-Jones), uma traficante aposentada, acredita ter deixado seu passado perigoso para trás. Essa ilusão é rapidamente desfeita quando ela descobre que "The Seven Demons", um grupo de assassinos de elite, foram contratados para matá-la. Jackie decide eliminá-los, um a um, antes que consigam cumprir a missão. Carrie, A Estranha Imagem: Divulgação Onde: Prime Video Quando: 7 de outubro Sinopse: Após a morte abrupta de seu pai arremessá-la no ecossistema implacável de um colégio público, Carrie é forçada a lidar com um escândalo de cyberbullying que destrói sua comunidade e o despertar de misteriosos poderes que surgem com sua adolescência. Mike Flanagan adapta esta nova versão do clássico de Stephen King. Cupertino Imagem: Divulgação Onde: ainda sem streaming no Brasil Quando: 8 de outubro (nos EUA) Sinopse: Na trama, um advogado descobre que sua empresa de tecnologia o enganou. Em vez de aceitar a derrota, decide lutar. Ele se junta a outra advogada que também foi demitida injustamente, e começam a representar pessoas que foram enganadas por grandes empresas. Profundezas Imagem: Divulgação Onde: Netflix Quando: 8 de outubro Sinopse: Quando uma misteriosa criatura marinha aterroriza uma pequena cidade, um pescador durão e sua família lutam para proteger a comunidade. Estrelada por Josh Hartnett e Mackenzie Davis. Crystal Lake Imagem: Divulgação Onde: Universal+ Quando: 16 de outubro Sinopse: A história foca em Pamela Voorhees (interpretada pela vencedora do Emmy Linda Cardellini), explorando o luto e os eventos anteriores à transformação da personagem na clássica assassina, quase um ano após a morte do filho Jason. Noturno Imagem: Divulgação Onde: Apple TV Quando: 30 de outubro Sinopse: Quando uma vítima do notório serial killer Jurek Walter (Stephen Graham) reaparece viva inesperadamente, o detetive Jonah Lynn (Liev Schreiber) corre contra o tempo para encontrar a única pessoa que ainda está desaparecida, enquanto sua protegida, Saga Bauer (Zazie Beetz), infiltra-se em segredo para obter respostas do próprio assassino. The Good Daughter Imagem: Divulgação Onde: ainda sem streaming no Brasil Quando: 12 de novembro nos EUA Sinopse: Protagonizada por Rose Byrne e Meghann Fahy, a trama segue duas irmãs que são forçadas a confrontar um evento traumático do passado quando um novo crime acontece em sua pequena cidade. 12 12 12 Imagem: Divulgação Onde: Apple TV Quando: 13 de novembro Sinopse: Estrelada por Anthony Mackie e Jamie Dornan, a trama acompanha um agente do FBI desonrado e um criminoso americano em um jogo de gato e rato pela Europa, tendo como centro um assalto a um cofre sob as ruas de Zurique. The Altruists Imagem: Divulgação Onde: Netflix Quando: 19 de novembro Sinopse: Estrelada por Julia Garner e Anthony Boyle, a trama apresenta dois idealistas que correm para reconstruir o mercado financeiro global, quando são acusados de roubar 8 bilhões de dólares e se tornam Bonnie & Clyde da geração Z. Dig Imagem: Divulgação Onde: ainda sem streaming no Brasil Quando: 23 de novembro nos EUA Sinopse: Estrelada por Amy Poehler e Hugh Laurie, a trama gira em torno de quatro mulheres que trabalham em uma escavação arqueológica na Grécia e quando a equipe descobre um segredo há muito enterrado com o potencial de reescrever a história, elas se veem no centro de uma conspiração internacional de alto risco. Blade Runner 2099 Imagem: Divulgação Onde: Prime Video Quando: 25 de novembro Sinopse: Cinquenta anos após os acontecimentos de Blade Runner 2049, Los Angeles renasceu, mas não pelas mãos da humanidade. Cora, uma fugitiva numa última tentativa de deixar de fugir, assume uma última identidade: a de Blade Runner. Obrigada a ser parceira de Olwen, uma Replicante a dias de morrer, ela persegue um fugitivo que esconde uma verdade capaz de acabar com sua frágil cidade. Michelle Yeoh e Hunter Schafer protagonizam. Sem data de estreia, mas provavelmente ainda em 2026: Dom de Iludir Imagem: Divulgação Onde: Netflix Sinopse: Estrelada por Marieta Severo, Alice Wegmann e Nanda Costa, a trama segue Lúcia e Maíra, mãe e filha da elite carioca que nutrem uma relação complexa e turbulenta. Quando seus caminhos cruzam com Irina e Bóris, a teia de segredos, traições e mistérios se intensifica. Enfim Sós Imagem: Divulgação Onde: Netflix Sinopse: Na trama, um casal se muda para Paraty em busca de paz e tranquilidade, até que a volta dos filhos bagunça os seus planos. Estrelada por Fábio Assunção. Andréa Beltrão, Cláudia Abreu e Marco Ricca.
- Crítica | Club Kid (TIFF 2026)
Estreia de Jordan Firstman impressiona em uma história sobre paternidade e vida noturna queer em uma das surpresas mais divertidas e emocionantes de Cannes Divulgação Existe uma nostalgia muito específica em Club Kid. Não apenas pela Nova York de 2016, pelas festas, pelas músicas ou pela sensação de que a vida noturna ainda poderia durar para sempre, mas pela lembrança de uma época em que ninguém imaginava exatamente o que aconteceria nos dez anos seguintes. É nesse período que conhecemos Peter, vivido pelo próprio diretor Jordan Firstman, um jovem promoter de festas que parece ter transformado a própria vida em uma celebração interminável. Dez anos depois, porém, a festa acabou. Ou pelo menos deveria ter acabado. Peter continua vivendo entre drogas, ressacas e noites que se confundem umas com as outras. Ao lado de sua melhor amiga e parceira de negócios, Sophie (Cara Delevingne), ele tenta expandir seu império de festas enquanto mal consegue funcionar durante o dia. Até que uma mulher de seu passado aparece em sua porta trazendo uma notícia que muda completamente sua vida: Peter tem um filho de oito anos chamado Arlo (Reggie Absalom), e agora precisa cuidar dele após a morte de sua mãe. A premissa poderia facilmente resultar em mais uma comédia sobre um homem irresponsável que é obrigado a amadurecer depois de descobrir que tem um filho. Mas Club Kid encontra algo muito mais interessante nessa história. Ao invés de transformar Peter em um pai incompetente que precisa aprender tarefas básicas, Jordan Firstman utiliza a relação entre os dois para falar sobre família, comunidade e, principalmente, sobre as diferentes formas que encontramos para pertencer a algum lugar. E talvez seja isso que torna o filme tão especial. Firstman já era conhecido por seu humor extremamente particular e por seus vídeos nas redes sociais, nos quais observa situações cotidianas e transforma pequenos comportamentos humanos em comédia. Em Club Kid, essa mesma sensibilidade é transportada para o cinema. O roteiro parece entender que uma conversa pode mudar completamente por causa de uma única palavra, um olhar ou uma expressão facial. Nem tudo precisa ser uma piada para ser engraçado. Há algo deliciosamente espontâneo nos diálogos do filme. Os personagens interrompem uns aos outros, mudam de assunto, dizem coisas absurdas com a maior naturalidade e, principalmente, parecem pessoas de verdade conversando. Firstman encontra humor justamente na maneira como tentamos esconder aquilo que estamos sentindo, mesmo quando todo mundo ao nosso redor já percebeu. Essa honestidade também é o que impede Club Kid de se tornar uma comédia cínica. Peter vive em um universo completamente caótico, cercado por drogas, festas e pessoas que parecem ter transformado a própria identidade em uma extensão da vida noturna. Ainda assim, existe uma generosidade enorme entre essas pessoas. Quando Arlo entra nesse mundo, ele não é tratado como alguém que precisa necessariamente ser afastado daquela comunidade. Pelo contrário, ele encontra ali pessoas dispostas a acolhê-lo. E isso muda a maneira como enxergamos a própria ideia de família. Divulgação Arlo rapidamente demonstra ter interesses em comum com Peter, principalmente através da música. O garoto cresceu ouvindo Cocteau Twins e acaba descobrindo uma conexão inesperada com os amigos queer de seu pai. Em uma das cenas mais bonitas do filme, ele chega a tocar como DJ ao lado de uma das amigas de Peter, mostrando que talvez aquele ambiente que parecia tão inadequado para uma criança seja justamente o lugar onde ele finalmente encontra pessoas que o compreendem. A relação entre Peter e Arlo é construída com uma sinceridade que torna ainda mais emocionante a transformação do protagonista. Peter não simplesmente decide virar um bom pai. Ele começa, aos poucos, a perceber que existe alguém dependendo dele e que talvez sua vida não precise continuar sendo uma sequência de noites que terminam em arrependimento. A mudança é rápida em alguns momentos, mas Firstman consegue fazer com que ela pareça emocionalmente verdadeira. Visualmente, o filme também surpreende. Filmado em 35mm, Club Kid captura uma Nova York que parece estar desaparecendo diante dos nossos olhos. A cidade não funciona apenas como cenário, mas como parte da própria identidade do filme. As ruas, os apartamentos, os clubes e os espaços onde os personagens vivem ajudam a construir a sensação de estar observando o fim de uma determinada era da vida noturna nova-iorquina. A fotografia de Adam Newport-Berra encontra beleza tanto no caos das festas quanto nos momentos mais íntimos. As cenas de balada são sensuais e quase sufocantes, enquanto os momentos entre Peter e Arlo são muito mais simples. Existe uma diferença física entre esses dois mundos, e o filme utiliza essa mudança para acompanhar a transformação do personagem. Cara Delevingne também merece destaque como Sophie, uma personagem que parece estar sempre a poucos segundos de perder completamente o controle. Ela poderia facilmente ser apenas uma caricatura da melhor amiga drogada, mas Delevingne encontra humanidade por trás da energia frenética da personagem. E Reggie Absalom é uma descoberta. Arlo poderia facilmente se tornar apenas o elemento fofo da história, mas o ator consegue dar ao personagem uma personalidade própria. Ele não é apenas o motivo para Peter mudar. Ele também tem seus próprios traumas e maneiras de enxergar o mundo. Mas, pra mim, o mais impressionante é como Club Kid consegue mudar de tom sem perder sua identidade. Durante boa parte do filme, estamos diante de uma comédia acelerada sobre situações absurdas. Conforme a relação entre Peter e Arlo se aprofunda, a história começa a desacelerar. O que antes parecia uma grande festa vai se transformando em uma ressaca emocional. E quando o filme finalmente mergulha em suas consequências mais sérias, a mudança não parece artificial. É como se o próprio filme seguisse a estrutura de uma noite de drogas: começa eufórico, fica cada vez mais intenso e, inevitavelmente, chega o momento em que as luzes acendem. Essa transição poderia facilmente destruir uma comédia desse tipo. Aqui, ela faz exatamente o contrário. Club Kid entende que humor e drama não são opostos. Muitas vezes, os momentos mais engraçados são justamente aqueles em que os personagens estão tentando esconder algo doloroso. E os momentos mais emocionais funcionam porque já aprendemos a rir com aquelas pessoas. É essa intimidade que torna o terceiro ato tão eficaz, especialmente quando a história assume uma dimensão mais dramática e Peter precisa lutar para manter Arlo em sua vida. O conflito poderia parecer exagerado em outro filme, mas aqui ele funciona porque passamos tempo suficiente entendendo o quanto aquela relação se tornou importante para os dois. Divulgação No fim, o que começa como uma história sobre um homem tentando escapar de sua própria vida acaba se tornando uma história sobre encontrar uma razão para permanecer nela. Jordan Firstman poderia ter usado Club Kid simplesmente para transformar sua experiência na cultura queer e na internet em uma longa piada. Em vez disso, ele faz algo muito mais difícil: leva seus personagens a sério sem deixar de rir deles. É uma estreia surpreendentemente madura, caótica (no bom sentido) e, acima de tudo, sincera. Club Kid é sobre drogas, festas, sexo, paternidade e uma Nova York que parece pertencer ao passado, mas também é sobre a necessidade universal de encontrar pessoas que nos aceitem exatamente como somos. Por trás de toda a irreverência, Jordan Firstman não está tentando provar nada, ele apenas usou seu poder pra falar sobre pessoas. E, por quase duas horas, faz isso com uma honestidade rara. Nota: 5/5
- Crítica | Salón de Belleza (Festival de Veneza 2026)
Apesar de uma fotografia competente, o longa de Nathalia Acevedo traz uma narrativa complexa e sem sentido Divulgação Nos primeiros momentos, a premissa de transformar um espaço dedicado à beleza e ao bem-estar em um lugar que lida com a morte é, no mínimo, intrigante. Sendo ainda uma coprodução entre México e França, seria possível esperar que o encontro entre diferentes tradições cinematográficas trouxesse um impacto significativo. Infelizmente, a combinação entre o olhar latino-americano e a experiência europeia nem sempre resulta em uma obra impactante. Em Salón de Belleza, o potencial da premissa parece, na maior parte do tempo, mais do que aquilo que o filme efetivamente consegue desenvolver. Em uma cidade que nunca é nomeada, um salão de beleza se transforma em um espaço de passagem para pessoas marcadas pelo abandono, onde beleza e morte passam a coexistir. No centro desse lugar está o Individuo, uma figura solitária que cuida do espaço enquanto testemunha a chegada e o desaparecimento daqueles que o atravessam. Entre rituais, lembranças e visões, o filme dissolve as fronteiras entre presente e passado, realidade e imaginação, transformando o salão em um território suspenso. Em uma sequência que parece interminável, nas profundezas de um aquário, o longa apresenta um personagem que nunca é nomeado, assim como a própria cidade onde a história se passa. Desde os primeiros momentos, fica evidente que há diferentes camadas em sua construção, fazendo com que o espectador tente compreender de onde partem suas motivações e o que o mantém preso àquele ambiente. O problema é que essas causas raramente são aprofundadas. A diretora introduz questões relacionadas à sexualidade e à maneira como o protagonista parece estar aprisionado por elas, mas as aborda de forma tão superficial que, ao final, pouco reverberam. O que inicialmente surge como uma dimensão importante para compreender o personagem termina sem força suficiente para se tornar, de fato, uma questão narrativa convincente. Questões relacionadas à desigualdade mexicana também vêm à tona e estão entre os pontos mais fortes do longa, ainda que sejam abordadas de maneira superficial. Revoltas populares, pessoas em situação de vulnerabilidade e minorias que passam pela falta de acolhimento e de espaços onde possam existir de fato. São questões que levam ao próprio espaço que dá nome ao longa, transformando o salão em um reflexo, ainda que fragmentado, das tensões que existem do lado de fora. Divulgação Outro ponto de destaque é a fotografia, profunda e carregada de textura, que encontra nos primeiros planos alguns de seus momentos mais fortes. O silêncio também ocupa um lugar central na narrativa. Mesmo quando a ausência de explicações pode afastar o espectador, a falta de diálogos funciona como uma extensão dos sentimentos do protagonista e das pessoas que estão ao redor. Mais do que explicar o que acontece, o filme usa a falta de diálogo como uma demonstração dos sentimentos dos protagonistas, e as sensações daqueles que tiveram um fim ao seu lado. A montagem, infelizmente, não acompanha a mesma força. As cenas transitam entre presente e passado e são intercaladas por momentos submersos, reforçando uma espécie de fixação do filme pelos espaços aquáticos, sobretudo pelo aquário, que ocupa um lugar na trajetória do protagonista. Embora essa escolha visual desperte curiosidade desde a primeira cena, é apenas próximo ao final que seu significado começa a se revelar. A demora em estabelecer essa conexão, junto aos fragmentos sem sentido, acaba tornando a narrativa confusa em vez de instigante, fazendo com que algumas das escolhas mais interessantes do longa pareçam menos orgânicas do que poderiam ser. No fim, Salón de Belleza é mais um filme com uma premissa e uma estética interessantes, mas que não consegue transformar seu potencial em uma experiência narrativa igualmente potente. Sem dúvidas a escolha de transformar um salão de beleza em um espaço entre a vida e a morte, assim como na tentativa de aproximar questões de sexualidade, desigualdade e vulnerabilidade de uma narrativa tão abstrata é uma escolha interessante. A fotografia e o uso do silêncio resultaram em momentos bonitos mas não são suficientes para compensar uma montagem que frequentemente dificulta a compreensão de personagens cujas motivações permanecem pouco exploradas. O filme termina deixando mais perguntas do que respostas, o que não seria necessariamente um problema, se suas perguntas encontrassem maior força ao longo do caminho. Nota: 2/5
- Crítica | Diane in the Loop (Festival de Veneza 2026)
Filme belga-francês aborda a armadilha e o peso do trauma Divulgação “Diane in the Loop”, longa dirigido por Ann Sirot e Raphaël Balboni, traz uma perspectiva diferente sobre o que se espera de uma relação entre mãe e filha e, além disso, como traumas podem ser projetados. O filme busca estabelecer dois lados dessa conexão maternal, de forma crua e honesta. Na trama, acompanhamos Diane (Ninon Borsei), que navega seus anos de jovem adulta e sua relação com sua mãe. Tudo muda quando Diane descobre que sua mãe foi violentada, despertando uma fúria e vontade de vingança. Ao mesmo tempo, sua mãe tenta reconstruir a sua vida, tentando se tornar a pessoa que sempre quis. Apesar de objetivos tão diferentes, a forma como as duas lidam com suas questões definem o rumo do longa. O impacto da revelação do trauma da mãe impulsiona Diane em uma busca conturbada por reparação. A narrativa avança quase que como uma fábula, onde uma coisa vai abrindo outra e se torna maior que a anterior. Aqui, destaco a forma como o texto e atuação traz uma certa leveza ao espectador, apesar de tocar em assuntos tão sérios e traumáticos sem hesitações. E é muito interessante como a relação de mãe e filha é explorada aqui. É possível entender o quanto a mãe de Diane se vê na filha, ao mesmo tempo que a repreende por fazer coisas que não conseguiu. E não é por inveja ou desdém, mas para protegê-la do que aconteceu com ela. Por outro lado, a jornada da Mãe de desabrochar e ir em busca de si mesma é algo bonito de se assistir. Algo que se torna controverso é a forma como algumas atitudes de Diane são justificadas por tomar para si as dores de sua Mãe. Muitas vezes, apesar de mesmo ser algo não proposital, ela acaba “forçando” a Mãe a lidar com o seu trauma. Essa imposição, ainda que mascarada de proteção, reproduz uma forma de violência ao privar a vítima do controle sobre a própria história. O loop que é mencionado no título está diretamente conectado com isso, com a forma dessa perpetuação de traumas. A narrativa acerta ao discutir a necessidade de interromper esse fluxo, mas acaba perdendo um pouco à mensagem quando normaliza alguns comportamentos da protagonista. “Diane in the Loop” é um filme bom, apesar de certas ressalvas e faz com que o espectador tire suas próprias conclusões, gerando um bom debate pós-filme. Nota: 3/5
- Crítica | House Of The Wind (Festival de Veneza 2026)
Diretor Auguste Bernard Kouemo Yanghu apresenta um balanço perfeito entre formas de abandono e a necessidade de pertencer Divulgação O que acontece quando a casa, que deveria representar pertencimento, passa a ser construída para convencer quem foi embora a voltar? Esse é o dilema principal da protagonista de House Of The Wind, Josette, uma camaronesa que persiste em seu país natal enquanto seus filhos estão espalhados pelo mundo. Por meio de uma vídeo chamada, existe uma distância que nenhuma conexão de internet consegue diminuir. É desse espaço entre quem parte e quem permanece que Kouemo Yanghu constrói em House of the Wind. Em Camarões, Josette é uma mulher idosa que vive sozinha enquanto os filhos estão espalhados por diferentes partes do mundo. Na tentativa de reuni-los novamente, ela decide construir uma casa que possa servir como ponto de retorno para um dos filhos. É durante esse processo que conhece Sarah, uma jovem que também enfrenta o afastamento de seus familiares e está prestes a se casar com um estrangeiro. De um acordo marcado por interesses particulares, nasce uma relação inesperada entre duas mulheres de gerações distintas, unidas por diferentes formas de solidão, desejo de pertencimento e busca por autonomia. O próprio espaço se torna personagem nessa história. A partir de uma fotografia banhada por tons quentes e de uma ambientação que preserva as particularidades de Camarões, Kouemo Yanghu constrói um olhar atento para as contradições do país. A desigualdade não aparece apenas como pano de fundo, mas atravessa a própria composição do filme, seja nas marcas estruturais da precariedade, seja na distância que separa Josette dos filhos, cuja partida também remete à chamada fuga de cérebros. Sem transformar essas questões em discurso expositivo, o diretor permite que elas surjam naturalmente do cotidiano da protagonista. É justamente nessa contenção que o diretor faz um ótimo trabalho ao construir um retrato ao mesmo tempo íntimo e sociopolítico, de uma forma sutil e impactante. Sarah está longe de ser uma personagem secundária, ainda que, à primeira vista, possa ocupar esse lugar dentro da narrativa. Assim como Josette, ela carrega as marcas do afastamento familiar, mas sua trajetória aponta para uma direção diferente. Como os filhos da protagonista, Sarah experimentou a vida fora do país e foi assim que conheceu o estrangeiro que a pediu em casamento. De maneira mais silenciosa e de forma um pouco ilegal, ela constrói seu próprio caminho para seguir em frente sem os pais, ao mesmo tempo em que estreita os laços com alguém que, em movimento contrário ao seu, faz de tudo para trazer os filhos de volta à sua realidade. É justamente nesse contraste que a personagem ganha força: enquanto Josette tenta reconstruir os vínculos com quem foi embora, Sarah parece aceitar que, para construir o próprio futuro, talvez seja necessário aprender a viver com a ausência. Divulgação Além do simbolismo familiar, mesmo que complexo, algumas passagens do longa acabam se tornando monótonas e repetitivas. Ainda assim, a fotografia calorosa mantém seu poder mesmo nesses momentos, fazendo com que os espectadores raramente sintam que a narrativa parece se prolongar. Em determinadas cenas, também não é tão evidente qual sentimento o filme pretende gerar: seria apenas a saudade da família ou a melancolia por aquilo que um dia foi sonhado e nunca chegou a se concretizar? Essa certa indefinição, talvez possa afastar o espectador em alguns momentos, mas em parte é compensada pela força das atuações. Há uma verdade e uma intensidade tão presentes no trabalho das atrizes que muitas dessas oscilações acabam sendo absorvidas pela própria experiência emocional do filme. Por fim, o questionamento: O que acontece quando a casa, que deveria representar pertencimento, passa a ser construída para convencer quem foi embora a voltar?, é respondido por um final um pouco confuso, e definitivamente triste. É uma pergunta que o filme deixa suspensa. O próprio vento que atravessa as casas, levando aqueles que decidiram sair, mas também revelando quem escolheu permanecer. Os últimos momentos não trazem exatamente as respostas que procuramos durante o filme, especialmente na relação entre Josette e Sarah, mas a narrativa não falha ao homenagear as mães que fazem de tudo para que seus filhos criem asas ao mesmo tempo em que sentem falta de suas presenças. Nota: 4/5
- Crítica | Julián (TIFF 2026)
Animação colorida do Cartoon Saloon encontra beleza em sua mensagem de aceitação, mas transforma uma história cheia de possibilidades em uma experiência previsível e superficial. Imagem: Divulgação Quando criança, alguns filmes parecem muito maiores do que realmente são. A imaginação consegue preencher os espaços que o roteiro deixa vazios, transformar personagens simples em grandes aventuras e fazer uma história permanecer na memória por anos. É justamente por isso que Julián, novo filme do Cartoon Saloon, acaba sendo uma experiência frustrante. A animação tem tudo para ser uma daquelas obras que crianças podem assistir e guardar com carinho, mas falta ao filme a profundidade necessária para que ele também funcione para quem está do outro lado da infância. Baseado no livro infantil Julián Is a Mermaid, de Jessica Love, o filme acompanha Julián, um garoto enviado para passar o verão em Nova York com sua avó, Abuela, que ele mal conhece. Curioso, criativo e completamente fascinado pelo oceano, Julián encontra na cidade um grupo de meninas que está preparando fantasias para a parada das sereias de Coney Island. Ao descobrir o evento, ele decide que também quer participar, e que precisa se transformar em uma sereia. A partir dessa premissa, Julián constrói uma história sobre identidade, criatividade e aceitação. O relacionamento entre Julián e sua avó é o verdadeiro coração do filme. Enquanto o garoto tenta descobrir quem é, Abuela também começa a reencontrar partes de si mesma que havia deixado para trás. A princípio, ela não entende completamente o comportamento do neto, mas aos poucos passa de uma posição de resistência para alguém disposto a ajudá-lo a realizar seu sonho. E é justamente nessa relação que o filme encontra seus melhores momentos. A mensagem de aceitação é genuinamente bonita, principalmente porque não precisa ser transformada em um grande discurso. Abuela simplesmente aprende a enxergar o neto como ele é. Existe algo muito sincero na maneira como o filme mostra que o amor de uma família pode significar permitir que uma criança seja livre para descobrir sua própria identidade. Visualmente, a animação também é um dos grandes destaques. O filme abandona o estilo das ilustrações originais de Jessica Love e constrói uma identidade própria, cheia de cores vibrantes, brilhos, glitter e texturas que parecem ter saído diretamente dos desenhos de Julián. A decisão funciona especialmente bem porque estamos vendo o mundo através dos olhos do protagonista: tudo parece maior, mais colorido e mais mágico. O design da casa de Abuela também é impressionante. Cada objeto parece ter sido colocado ali para revelar um pouco mais sobre sua personalidade e sua história, enquanto o bairro de Brooklyn é apresentado como uma comunidade viva, cheia de pequenos detalhes. Existe um carinho evidente na construção desse universo, desde a loja de esquina até as crianças brincando pelas ruas. O problema é que toda essa beleza visual parece esconder um roteiro que nunca consegue acompanhar sua própria imaginação. Imagem: Divulgação Julián é um personagem que poderia enfrentar diversos conflitos interessantes. Ele é uma criança que chega a uma cidade nova, mora com uma avó que mal conhece, está tentando encontrar seu espaço em uma comunidade desconhecida e expressa sua identidade de uma maneira que poderia gerar diferentes reações. Mas o filme parece ter tanto medo de criar conflitos que resolve quase todos eles antes mesmo que possam começar. Sempre que surge a possibilidade de alguma dificuldade, ela desaparece rapidamente. A comunidade o aceita. As meninas o recebem no grupo. Abuela muda de ideia. E quando finalmente aparece um conflito mais significativo, já estamos perto do terceiro ato e as consequências são pequenas demais para causar impacto. Isso faz com que Julián seja previsível justamente quando deveria ser mais emocionante. Sabemos para onde cada situação está indo, sabemos que os personagens vão encontrar uma maneira de se entender e sabemos que a mensagem de aceitação será reafirmada antes dos créditos. O problema não é o fato de o filme ser otimista, mas a maneira como ele confunde otimismo com ausência de conflito. Essa escolha também é especialmente frustrante quando lembramos do histórico do Cartoon Saloon. Filmes como Wolfwalkers e Song of the Sea conseguiam abordar temas infantis com uma enorme sofisticação visual e narrativa, criando histórias que funcionavam tanto para crianças quanto para adultos. Julián possui a mesma preocupação estética, mas não encontra a mesma complexidade. Em alguns momentos, parece que estamos assistindo a uma coleção de pequenas cenas fofas conectadas apenas pela necessidade de chegar à próxima mensagem positiva. Há elementos fantásticos que parecem importantes, mas nunca são desenvolvidos o suficiente para que entendamos exatamente como fazem parte daquele universo. Outros conflitos aparecem e desaparecem sem deixar consequências. Isso não significa que crianças não possam encontrar muito para gostar aqui. As cores são lindas, os personagens são carismáticos e a história transmite uma mensagem importante de maneira acessível. Para o público infantil, Julián provavelmente funciona muito melhor do que para adultos. Mas uma boa animação infantil não deveria precisar escolher entre entreter crianças e oferecer algo para os adultos. As melhores obras do gênero conseguem fazer os dois. Julián parece ter sido construído pensando principalmente no primeiro grupo, e isso acaba limitando bastante sua experiência. No fim, Julián é uma animação bonita sobre uma mensagem importante, mas que nunca consegue transformar essa mensagem em uma história realmente marcante. A direção de Louise Bagnall cria um mundo colorido e cheio de personalidade, enquanto a relação entre Julián e Abuela oferece alguns momentos genuinamente emocionantes. Ainda assim, o roteiro excessivamente previsível e a falta de conflitos relevantes fazem com que tudo pareça mais superficial do que deveria. Para uma criança, talvez seja uma porta de entrada encantadora para uma história sobre identidade e aceitação. Para um adulto, porém, fica a sensação de que havia um filme muito mais interessante escondido dentro dessas cores. Nota: 2/5












