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  • CRIAS – Cine de Rua Infantil de Sergipe chega à terceira edição e desembarca, pela primeira vez, em Laranjeiras

    Com o tema “Erês no Mundo”, mostra acontece de 19 a 21 de dezembro, com programação gratuita que reúne cinema a céu aberto, oficinas e vivências culturais. Imagem: Divulgação A Floriô de Cinema realiza, entre os dias 19 e 21 de dezembro de 2025, a terceira edição do CRIAS – Cine de Rua Infantil de Sergipe, que, pela primeira vez, acontece fora de São Cristóvão e ocupa a cidade histórica de Laranjeiras. Com o tema “Erês no Mundo”, o evento será realizado no Terreiro Filhos de Obá, primeiro terreiro de Sergipe, e volta seus olhares para o lugar das infâncias nas religiões de matriz africana. Toda a programação é gratuita e contará com intérprete de Libras, garantindo acessibilidade ao público. As duas primeiras edições do CRIAS aconteceram em São Cristóvão, na região do Rosa Elze. A mudança de território, segundo Thais Galindo Ramos, produtora executiva do evento, reforça um princípio que atravessa o projeto desde a sua criação. “A gente sentiu a necessidade de expandir nossa zona de atuação justamente para ampliar essa função de descentralizar o acesso ao cinema, que o CRIAS já carrega desde a sua origem. A parceria com a Sociedade de Culto Afro-Brasileiro Filhos de Obá nos permite alcançar crianças e adolescentes do Vale do Cotinguiba, de Laranjeiras e de toda a região”, destaca Thais. Realizada em uma instituição centenária, reconhecida como patrimônio histórico e cultural de Sergipe pelo IPHAN, a terceira edição assume de forma ainda mais direta o diálogo com as raízes africanas e as religiões de matriz africana. “Pensar o CRIAS dentro do Terreiro Filhos de Obá é também afirmar esse território como espaço de resistência, de memória e de transmissão de saberes. Isso atravessa tanto a curadoria dos filmes quanto a programação para além das exibições”, afirma Thais. Imagem: Divulgação A curadoria desta edição reúne curtas-metragens brasileiros que abordam as chamadas “infâncias enterreiradas”, a partir da percepção negro-religiosa do mundo, dos itans do candomblé e do encontro da criança com a natureza pelo prisma do sagrado e do encantado. “Os terreiros são espaços de convívio ancestral, que salvaguardam modos de vida, formas de organização comunitária e conexão com o sagrado. As crianças ocupam um lugar central nesses espaços, como mostram os Ibejis, os orixás-meninos”, explica o curador Sidjonathas Araújo. A programação tem início na sexta-feira (19) com atividades formativas e vivenciais, todas com vagas limitadas. Pela manhã, das 10h às 12h, acontece a Trilha dos Orixás, um passeio lúdico pelo território do terreiro. Em seguida, das 12h30 às 14h30, será realizado o Banquete de Chão, celebração da culinária afro-brasileira. À tarde, das 14h30 às 17h30, ocorre a oficina “Fotoescrevivência: retratos do nosso mundo”, ministrada pela fotógrafa Luiza Bomfim, utilizando o próprio espaço do terreiro como campo de criação. Para participar dessas ações, é necessário verificar previamente a disponibilidade de vagas pelo WhatsApp da Floriô de Cinema: (79) 99898-9681. No sábado (20), das 17h30 às 19h, acontece a Abertura da Mostra “Abre Caminhos”, com sessão de cinema a céu aberto dedicada ao público infantil, seguida de debate lúdico pós-exibição. O encerramento do evento ocorre no domingo (21), com uma cerimônia, das 17h30 às 18h, seguida da Mostra “Onde está o Erê?”, das 18h às 19h, também em formato de cinema a céu aberto e com conversa lúdica após a sessão. Para além da parceria com o Terreiro Filhos de Obá, a escolha por Laranjeiras passa pelo reconhecimento de sua profunda tradição cultural afro-brasileira e, ao mesmo tempo, pela carência de espaços voltados ao cinema e a ações culturais destinadas às infâncias. “É uma cidade com cerca de 29 mil habitantes e um público infantil expressivo. O CRIAS é pensado para as crianças, mas também para quem está ao redor delas: pais, mães, avós, tios e toda a comunidade”, ressalta Thais. Toda a programação é gratuita e pode ser acompanhada pelas redes oficiais da Floriô de Cinema (https://www.instagram.com/floriodecinema/) e do CRIAS no Instagram (https://www.instagram.com/cinecrias/). Ao chegar à sua terceira edição, o CRIAS se consolida não apenas como uma mostra de cinema, mas como uma plataforma cultural voltada ao protagonismo infantojuvenil, celebrando as potências das infâncias periféricas e tradicionais e reafirmando o compromisso com a descentralização do acesso à cultura e ao audiovisual em Sergipe. A terceira edição do CRIAS é uma realização da Floriô de Cinema, com apoio da Sociedade de Culto Afro Brasileiro Filhos de Obá (SCAFO), e incentivo da Política Nacional Aldir Blanc (Lei 14.399/2022), por meio do Edital 06/2025, executado pela FUNCAP/SE.

  • NYFCC - Wagner Moura traz vitória inédita para o cinema latino-americano

    ‘O Agente Secreto’ leva dois prêmios e consagra o ator brasileiro como o primeiro latino premiado na categoria. Imagem: Divulgação Na última terça-feira (02), o New York Film Critics Circle, associação que reúne o grupo de críticos mais antigo dos Estados Unidos, divulgou os vencedores de sua tradicional premiação anual. Considerado um termômetro importante para a temporada de premiações, o New York Film Critics Circle Awards destacou as melhores performances de 2025 e deu uma prévia do que está por vir em 2026. Entre os destaques da premiação, ‘O Agente Secreto’ ganha fôlego no circuito internacional ao conquistar dois prêmios: Melhor Filme Internacional e Melhor Ator para Wagner Moura. Em 90 anos de premiação, esta é a primeira vez que um ator latino americano é premiado na categoria. Para o diretor do longa, Kleber Mendonça Filho, o prêmio já é o segundo de sua carreira, o primeiro foi com o filme ‘Bacurau’ em 2022. No Brasil, entre os vencedores anteriores do NYFCC estão ‘Pixote: A Lei do Mais Fraco’ (1981), do diretor Hector Babenco, e ‘Cidade de Deus’ (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund, também na categoria de Melhor Filme Internacional. Outro destaque foi ‘Uma Batalha Após a Outra’, novo longa do diretor Paul Thomas Anderson, que foi o grande vencedor nas categorias Melhor Filme e Melhor Ator Coadjuvante para Benício Del Toro. Confira abaixo os vencedores do New York Film Critics Circle Awards 2025: MELHOR FILME Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson MELHOR DIREÇÃO Jafar Panahi, por Foi Apenas um Acidente MELHOR FILME INTERNACIONAL O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho (Brasil) MELHOR ATOR Wagner Moura, por O Agente Secreto MELHOR ATRIZ Rose Byrne, por Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria MELHOR ATRIZ COADJUVANTE Amy Madigan, por A Hora do Mal MELHOR ATOR COADJUVANTE Benicio Del Toro, por Uma Batalha Após a Outra MELHOR ROTEIRO Marty Supreme, escrito por Josh Safdie e Ronald Bronstein MELHOR FOTOGRAFIA Pecadores, por Autumn Durald Arkapaw MELHOR ANIMAÇÃO Guerreiras do K-Pop, de Chris Appelhans e Maggie Kang MELHOR DOCUMENTÁRIO My Undesirable Friends: Part I – Last Air in Moscow, de Julia Loktev MELHOR PRIMEIRO FILME Eephus, de Carson Lund

  • Entrevista | “O filme dialoga com nosso presente”: Luiza Mariani e Flávia Castro falam sobre “Cyclone”

    Em entrevista ao Oxente Pipoca, atriz e diretora comentaram como o filme ressoa na atualidade com sua protagonista à frente do seu tempo. Imagem: Divulgação Após ser exibido em diversos festivais, como o Festival do Rio e a Mostra de São Paulo, Cyclone enfim tem data para seu lançamento nos cinemas brasileiros: 04/12. Dirigido por Flávia Castro, o longa é baseado numa história real e acompanha a história de Daise “Cyclone” (Luiza Mariani), uma operária que divide seu tempo entre o trabalho em uma gráfica, onde garante seu sustento, e sua paixão pela dramaturgia. Quando ganha uma bolsa para estudar teatro em Paris, logo descobre que o maior obstáculo para realizar seus sonhos é ter nascido em um mundo onde as mulheres sequer são donas do próprio corpo. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de assistir o filme tanto no Rio (você pode ler a crítica aqui) quanto em São Paulo, onde ele foi eleito um dos melhores exibidos no festival (confira a lista aqui). Agora entrevistamos Luiza Mariani e Flávia Castro, que comentaram sobre o longo processo de produção do filme – cujas sementes remontam ao trabalho de Mariani como a protagonista no teatro, há 20 anos –, as escolhas feitas para distanciá-lo do modelo padronizado de dramas históricos, e sobre como o cinema pode ajudar a visibilizar as histórias de mulheres como Daise. A entrevista na íntegra está disponível abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Luiza, você interpretou a personagem Cyclone no teatro há 20 anos e desde então vem tentando trazer sua história para as telonas. Queria que você falasse mais sobre por que esse processo demorou tanto e quais as principais diferenças que observa em relação à sua performance no teatro e agora no cinema? Luiza Mariani: Eu acho que um intervalo de tempo de 20 anos entre uma coisa e outra naturalmente faz com que elas sejam muito distintas. São personagens completamente diferentes, porque eu me tornei uma mulher completamente diferente ao longo de 20 anos e porque o mundo, as demandas, e os assuntos e as questões e onde esse filme está inserido hoje são muito diferentes de onde essa peça estava inserida em 2005, 2006. Eu era uma atriz de 25 anos, a peça falava de uma história de amor, tratava desse do encontro e do desencontro amoroso dessa personagem com o personagem do Oswald de Andrade. Eu decidi transformar essa história em filme em 2007, e foi um processo muito longo, que levou muito tempo mesmo. E foi curioso ver como o filme, esse tempo de maturação, esse trabalho e de espera, como essa história ia ficando cada vez mais inserida dentro do presente, se fundindo com o tempo de agora. Então uma história que acontece em 1919, que parecia uma coisa tão distante, foi ficando cada vez mais urgente. É quase como se o tempo tivesse me dado uma grande oportunidade de fazer esse filme da forma como ele é hoje. Então eu acho que o interessante é isso, poder ter jogado com o tempo dessa forma positiva, ter renovado o sentido e o desejo da coisa ao longo dos 20 anos, e não ter ficado uma peça estanque. Eu acho que o filme tem essa beleza, ele dialoga com o nosso presente, vai trazer questões como autoria, liberdade, autonomia financeira feminina, a questão do corpo, do desejo de não ser mãe, o desejo de ter uma profissão, de inscrever o seu talento no mundo. Aos quase 40 anos, numa segunda etapa da vida, essa mulher escolhe fazer um aborto porque ela quer escrever, porque ela quer existir através da escrita dela. Eu acho que são questões muito contemporâneas, então acho que o tempo foi um grande amigo no final das contas, ele foi um grande aliado do projeto. Só para ficar mais claro, em 2005 isso era uma história de amor desencontrada e claro que isso foi perdendo completamente o valor ao longo desse tempo. Quanto mais eu entrava na história ia entendendo que não dava para contar uma história de amor. Era fundamental que a história colocasse essa mulher no centro, que o filme tratasse da subjetividade e do desejo dessa mulher. Ela estava muito submetida ao olhar masculino, tudo que a gente tem de referência dessa personagem histórica é sempre através de um olhar masculino. Então era importante que a gente construísse a Cyclone e que ela fosse o centro. Com as suas questões, seus desejos, desafios, impeditivos e impedimentos, mas estando ela no centro da história. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Flávia, você comentou em algumas entrevistas sobre a sua recusa em fazer um filme histórico tradicional, e assistindo ao filme isso fica muito perceptível, como no uso dos planos fechados, então há bastante esse jogo anacrônico. Como foi pensar e fazer essas escolhas que ajudassem a fazer essa abordagem histórica de maneira menos ortodoxa? Flávia Castro: Quando a Luiza me mandou o roteiro para ver se se eu gostaria de começar uma conversa, eu senti que o roteiro já tinha essa possibilidade de ser um filme que não fosse datado. Ele se passa em 1919, mas os diálogos já eram super contemporâneos, não tinham uma coisa de tentar repetir a forma como se falava. E quando eu entrei, já tinha também uma coisa que eu achei saudável, que era um afastamento do personagem original. Já tinha uma construção ali, inspirada na história que a Miss Cyclone talvez pudesse ter tido se ela tivesse vivido mais tempo, mas já não era a história dela. Eu já tinha feito um filme que se passava nas décadas de 1970 e 1980, o Deslembro. Mas quando penso nele, não penso como um filme de época, talvez porque fosse minha época, porque eu já eu fosse já adolescente naquele tempo. Mas mesmo no Deslembro eu já tinha essa questão de não querer marcar o tempo do figurino, de se ter um figurino totalmente atemporal, das pessoas terem sinais do tempo, mas que não fossem sufocadas pelo tempo dentro do filme. Ou seja, é para gente poder olhar para Cyclone e se ver nela, acho que para mim isso era fundamental. Por uma questão de gosto, eu prefiro um cinema que nos traga para o presente do que para o passado. Eu tinha algumas referências que a gente consideraria de época, do cinema mudo, s grandes atrizes que os diretores europeus que foram para Hollywood deram espaço, ou que elas mesmas cavaram seu espaço. Como a Lilian Gish, que foi um pouco como a Luísa no Cyclone: ela tem um filme que eu amo, que é O Vento, do Victor Sjöström, ela quem produz, quem vai buscar o diretor para fazer o filme. Ou a Musidora em Les Vampires, de Louis Feuillade, que serviu de inspiração para o Irma Vep, do Oliver Assayas. Tem várias figuras assim no cinema mudo, então isso foi uma inspiração, mas justamente porque elas tinham algo de muito atemporal. Quando a gente vê esses filmes hoje, ainda tem alguma coisa de muito sedutora e bacana na forma como essas mulheres expressam algo além do tempo histórico em que elas se inserem. Tinha essa vontade de pensar um formato que é um espelhamento desses filmes, de se ficar no quadrado, de limitar a personagem, o campo da nossa visão, de ficar muito perto dela, o resto era tratar como um filme contemporâneo. Eu acho que tem uma montagem abrupta, brusca, que eu acho que vem da vontade de trazer a violência do que a gente está retratando na forma. Tem o som, que é muito onipresente, tem a construção daquela São Paulo do início do século XX, com barulhos e sons. E também a forma como a Cyclone se alimenta disso para criar os diálogos que ela ouve, todas as situações que ela atravessa, os mundos que ela atravessa nessa mesma São Paulo, entre o cortiço e o [Theatro] Municipal, tem um trajeto, tem um bonde, tem mundos sonoros diferentes. Então, tudo isso era uma coisa que eu achei que era bacana para gente trazer para frente, a subjetividade dessa mulher, que no final é o que interessa; a mulher que cria e que está tentando, lutando para conseguir alcançar o desejo dela. Imagem: Divulgação Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Fico pensando em quantas Cyclones foram apagadas da história oficial, mesmo com suas contribuições relevantes, não só nas artes, mas no geral. Nesse sentido, como o cinema pode ajudar a dar visibilidade às histórias dessas mulheres? Flávia Castro: Acho que ao fazer um filme desses, a gente está contribuindo com um grãozinho de areia para a história das mulheres invisibilizadas, apagadas. Mas eu acho que para além disso, talvez o que me toque mais é o conjunto das coisas que o filme compõe e que se relacionam ainda com esse presente, em que as mulheres são tantas vezes invisibilizadas, a falta de direitos sobre o próprio corpo, a não legalização do aborto no Brasil. São um monte de questões que o filme atravessa e que ainda estão absolutamente presentes, e são questões para a gente. Luiza Mariani: Eu estava esses dias com uma amiga minha que está dirigindo uma série para o streaming e ela me falou que o orçamento dado para um homem nesse papel de showrunner de uma grande série é infinitamente maior do que o dado para uma mulher. A gente olha para o Congresso, o número de mulheres lá, mas também para a quantidade baixa de mulheres diretoras de cinema, sem falar dos outros cargos, como diretoras de fotografia. Eu acho que isso também fala da gente agora. Acho que tem avanços, mas a gente parece que está permanentemente nesse lugar da conquista. Quer dizer, o tempo inteiro é uma luta para conquistar coisas que não deveriam precisar ser conquistadas. Então, parece que tem um permanente estado de alerta para que as coisas não retrocedam de novo e de novo.

  • Crítica | Wicked: Parte 2

    Conclusão faz enxertos precisos para recontar final apressado da melhor forma possível. Imagem: Divulgação O capítulo final da história não contada das bruxas de Oz começa com Elphaba e Glinda separadas, vivendo com as consequências de suas escolhas. Elphaba (Cynthia Erivo) vive no exílio, escondida na floresta de Oz, enquanto continua sua luta pela liberdade dos Animais silenciados e tenta desesperadamente expor a verdade que conhece sobre O Mágico (Jeff Goldblum). Enquanto isso, Glinda se tornou o glamouroso símbolo da Bondade para todo o reino de Oz - ela vive no palácio da Cidade das Esmeraldas e desfruta das vantagens da fama e da popularidade. Sob a orientação de Madame Morrible (Michelle Yeoh, vencedora do Oscar), Glinda tem se tornado um conforto efervescente ao povo de Oz ao tranquilizar as massas de que tudo está bem sob o governo do Mágico. O segundo ato da peça Wicked é uma bagunça. O encerramento é apressado, alguns personagens de O Mágico de Oz aparecem sem a mesma importância que outros, o arco da crueldade com os animais simplesmente deixa de ser mencionado, e além de isso tudo possui as músicas menos marcantes (ou pelo menos as menos populares) do espetáculo. Então, para mim, é impossível avaliar Wicked: Parte 2 sem levar em consideração isso tudo, e que é, obviamente diferente da peça, uma capítulo à parte do primeiro filme. E o longa soube bem preencher, bem, a maioria pelo menos, das lacunas da obra de teatro. Uma das principais forças dessa produção está na permanência da química entre Cynthia Erivo e Ariana Grande. As duas retomam com naturalidade a sintonia emocional apresentada no primeiro longa e mais uma vez percorrem um alcance cênico que vai do humor ao drama em segundos sem perder coerência com as trajetórias de suas personagens. Ambas entregam performances vocais de alto nível, preenchendo os espaços invisíveis das cenas com interpretações que soam orgânicas, precisas e profundamente sentidas. Imagem: Divulgação Os números musicais continuam bem planejados e coreografados, utilizando cenografia, iluminação, sombras e enquadramentos diferenciados para ampliar a intensidade das ideias que cada canção pretende transmitir. A sequência As Long As You’re Mine, No Good Deed e For Good seguem uma curva ascendente de emoção que praticamente salta da tela, alcançando o espectador de forma quase física graças à sensibilidade das atrizes e do desenho musical que acompanha a narrativa visual com a força necessária. Também é possível perceber que os animais finalmente recebem a atenção devida, tendo seus conflitos valorizados e conduzidos a uma conclusão que, na peça, se finda de maneira abrupta demais. Além disso, o trabalho recebe duas novas músicas que acrescentam camadas às protagonistas, reforçando dilemas internos e motivações que ajudam a enxergá-las com ainda mais profundidade. Ariana Grande, em especial, confirma seu domínio pleno da personagem, entregando presença, maturidade emocional e carisma inquestionáveis. Ainda assim, mesmo com os acréscimos bem incorporados, algumas conexões com o enredo de O Mágico de Oz continuam parecendo um pouco deslocadas, como se a necessidade de justificar pontos específicos pesasse mais do que a fluidez orgânica da narrativa. A conclusão propriamente dita, especialmente os últimos trinta minutos, segue com ritmo ligeiramente apressado, como se a produção ainda estivesse equilibrando fidelidade ao material original e a obrigação de dar respostas ao público. No fim, é uma obra mais contida que a anterior, menos festiva e também menos óbvia em suas mensagens. É justamente no segundo ato que Wicked revela a complexidade real de suas personagens, mostrando que não existem dualidades absolutas e que os vínculos de afeto se constroem em caminhos sinuosos que às vezes se cruzam e às vezes se afastam, mas que, no fundo, seguem uma direção comum, a da construção de quem cada uma deseja ser. O resultado é bonito, é denso, e não desanda apesar das falhas. Nota: 4/5

  • Coluna | O Mês em Série: Janeiro

    Comentando os retornos e estreias do mês, entre minisséries que causaram alvoroço e boas séries que ainda passam despercebidas Divulgação Inaugurando este novo quadro aqui no site onde eu, Filipe, vou comentar as séries que estrearam no mês, sejam novas ou veteranas, dizendo o que achei da temporada ou dos episódios que foram exibidos até então de uma maneira mais leve. O que eu não conseguir assistir no mês (como The Beauty, por exemplo), será comentado no próximo e assim por diante. Em janeiro tivemos o burburinho causado por All Her Fault, que é do ano passado, mas chegou este mês no Prime Video. Na mesma pegada, ainda que em uma proporção menor talvez, Dele & Dela, chegou à Netflix. A vencedora do Emmy The Pitt retornou com sua 2ª temporada na HBO Max e Industry voltou com tudo para sua 4ª na HBO. Tivemos também os episódios finais das segundas temporadas de Percy Jackson e Fallout (o penúltimo até a data de hoje, 2 de fevereiro, quando o último será exibido) e deram uma guinada na coisa. E outras coisas mais, que comentarei abaixo, sem spoilers. 📺 Séries comentadas neste mês: • O Gerente da Noite – 2ª temporada (Prime Video) • The Pitt – 2ª temporada (HBO Max) • Industry – 4ª temporada (HBO) • O Cavaleiro dos Sete Reinos – 1ª temporada (HBO) • Percy Jackson – 2ª temporada (Disney+) • Fallout – 2ª temporada (Prime Video) • Girl Taken (Paramount+) • O Roubo (Prime Video) • Falando a Real – 3ª temporada (Apple TV) • Dele & Dela (Netflix) • All Her Fault (Prime Video) Com isso, vamos lá... Divulgação O Gerente da Noite 2ª temporada | Prime Video Depois de 10 anos, o retorno. Sim, porque sabemos que era mais uma minissérie que se transformou em série e já está renovada para a 3ª temporada. Ainda que inferior à temporada de estreia, a série é uma espionagem envolvente de se acompanhar, mesmo que quase todo contorno seja extremamente previsível. São seis episódios, a trama é ágil e o elenco é ótimo, com destaque para Tom Hiddleston e Diego Calva. Camila Morrone é linda, mas é evidente sua limitação diante dos colegas mais talentosos e Olivia Colman foi só uma participação de luxo. A história poderia ser nova, mas prefere fazer conexões com o passado e com a quantidade de ganchos deixados no último episódio, a 3ª seguirá na mesma pegada. Resta esperar e saber se haverá fôlego para mais. Divulgação The Pitt 2ª temporada (episódios 1–4) | HBO Max Voltou uma delícia, como sempre. Ainda que sem nenhum evento principal, afinal é apenas o começo do dia e mesmo em feriado as pessoas começam a festejar depois, né? Mas o movimento no hospital não para, os casos continuam inteligentes, alguns até engraçados e a dinâmica dos personagens é fantástica de se acompanhar. Isso é crucial em uma série como The Pitt, que é feita por quem realmente entende de televisão e a força da mídia: fazer o telespectador gostar de passar tempo com aquelas pessoas sem se importar somente com o próximo choque ou reviravolta. Vem aí, mas tem uma construção forte para se ter de base. Toda quinta é meu programa favorito e saber que ainda tenho onze semanas com Dr. Robby e cia. é uma maravilha. Divulgação Industry 4ª temporada (episódios 1–3) | HBO Max O tanto que eu gosto dessa série e fico feliz que finalmente ela está tendo mais visibilidade. A temporada começou com o pé na porta, mesmo que o tabuleiro ainda esteja sendo montado para mais um embate entre Yasmin e Harper. Ninguém presta ali e eu gosto de todo mundo, rs. Inclusive, o melhor episódio até então foi o 2º, centrado no casamento turbulento de Yas e mais ainda em seu marido, Henry, um aristocrata mimado que rendeu uma montanha russa alucinante e deu mais profundidade ao personagem e – olha que eu achei que nunca ia dizer isso – uma bela atuação de Kit Harrington. É bom demais saber que tem série boa todo domingo na HBO e Industry tá se encaminhando para sua melhor temporada, o que não é fácil já que a 3ª também foi divertidíssima. Divulgação O Cavaleiro dos Sete Reinos 1ª temporada (episódios 1–2) | HBO Max E falando em domingo na HBO, temos mais uma série do Universo Game of Thrones, mas desta vez com uma pegada cômica e mais leve, o que me agrada bastante. A luta não é pelo trono de ferro, mas é a história de um rapaz e um menino desamparados pela vida e em busca de algo que a faça valer a pena em Westeros, basicamente. O primeiro episódio não me disse tanto a que veio, mas ainda curti, principalmente o humor mais escrachado. No segundo, a trama começa a tomar mais forma e a construção da relação entre Dunk e Egg ganha mais potência, gostei bastante e me animou a continuar vendo essa aventura de meia hora semanal. Divulgação Percy Jackson e os Olimpianos 2ª temporada | Disney+ A série é a prova cabal de que para uma adaptação ser boa, não basta ela ser fiel. A temporada começa com o mesmo problema da anterior, nada parece empolgar e a sensação de assistir uma luta em meio a uma corrida é a mesma de olhar uma parede branca. Apatia define. No entanto, os episódios finais ganharam uma tração maior na montagem e direção, com riscos que realmente pareçam palpáveis, que ofereçam perigo, o que andava em falta no começo. Deixa uma ponta de esperança para que os ponteiros se acertem na 3ª temporada e o potencial do material fonte realmente seja atingido. A mídia televisiva permite que haja tempo para aprofundar a história e os personagens, então não basta apenas jogar informações sem que elas sejam desenvolvidas. Divulgação Fallout 2ª temporada (episódios 4–7) | Prime Video Depois de uma sólida 1ª temporada, a série retornou morna. Nem quente, nem fria, mas com alguns momentos inspirados, que não passavam de momentos apenas. Mas ao investir na relação entre o Ghoul e Lucy, o roteiro construiu uma base para a melhora nos episódios que foram exibidos neste mês. Entre traições e reviravoltas do passado, o mundo pós-apocalíptico se mostra cada vez mais perigoso para aqueles que tentam sobreviver a ele, com um vilão de Justin Theroux que se mostrou uma bela adição à esta equação. Alguns personagens ainda continuam chatos, como é o caso de Maximus, enquanto outros coadjuvantes ganham destaque, como Stephanie, e as histórias que estavam soltas, aparentemente se conectarão no último episódio que irá ao ar hoje. Estou ansioso. Divulgação Girl Taken Minissérie | Paramount+ Das minisséries estreantes do mês, esta é a melhor e que menos causou burburinho. Protagonizada pelo excelente Alfie Allen (Theon de Game of Thrones) como um professor que sequestra uma aluna em uma pequena cidade do Reino Unido. O suspense é mantido em alta até o fim, os desdobramentos fazem sentido e ganham escopo porque vão além de uma mera obsessão de um homem cometendo atrocidades, é chocante, é forte e emocionante. São seis episódios que valem a pena. Divulgação O Roubo Minissérie | Prime Video Mais uma estrelada por uma ex-Game of Thrones. Desta vez, Sophie Turner (a Sansa) trabalha em um banco de investimentos em Londres, onde ocorre um mega assalto. O primeiro episódio é ótimo, quando o fato acontece, mas já deixa a desconfiança se tem história para mais cinco. A impressão de que a minissérie poderia ter sido um filme é confirmada, mas não dá para dizer que é um martírio assistir, já que pelo menos os episódios não são longos. Assistível, porém esquecível. Divulgação Falando a Real 3ª temporada (episódio 1) | Apple TV+ Quando eu vi que o episódio tinha 1 hora de duração já virei o olho e fiquei receoso de virar mais uma comédia que se alonga demais e perde o rumo (sim, estou falando com você, 3ª temporada de Ted Lasso). Porém, felizmente, o episódio passou voando e foi uma delícia, como sempre. A mistura de riso e choro, com personagens mega carismáticos que dão gosto de acompanhar continua em alta. Tirando umas piadas exageradamente bobas – tipo aquela de Jimmy quando a filha está prestes a bater uma falta no futebol –, tem tudo para ser mais uma bela temporada. Divulgação Dele & Dela Minissérie | Netflix Então, finalmente, vamos falar das minisséries que causaram um alvoroço nas redes por causa dele: o plot twist. A primeira aqui, protagonizada por Tessa Thompson e Jon Bernthal faz um check list de todos os clichês de “história de assassinato de uma mulher em uma cidade pequena” e tudo bem. Entretém. Claro, no final há a famigerada reviravolta super imprevisível que não faz muito sentido e uma montagem marota tentando dar algum sentido. O ponto é que ela só quer chocar e ser comentada. Funciona por algum tempo, mas sem profundidade, não há impacto e o choque pelo choque só faz dela mais uma produção esquecida em três meses. É a tal minissérie de algoritmo e muitas outras virão. Divulgação All Her Fault Minissérie | Prime Video E enfim chegamos a este fenômeno atual. Uma embalagem vazia. Deixei por último, propositalmente, e entendo como é fácil se envolver com All Her Fault porque ela é feita para prender sua atenção. O primeiro episódio já te joga no olho do furacão e em, possivelmente, um dos piores dias na vida de qualquer mãe: seu filho sumiu. O desespero é palpável ali e Sarah Snook está espetacular no papel, assim como a maior parte do elenco. A produção é caprichada na ambientação daquele mundo dos ricos, mas o texto é de uma pobreza tremenda, sem qualquer sutileza, e a elegância fica só para as mansões e figurinos. O que é uma pena. Claro que é fácil assistir uma série que é feita unicamente de reviravoltas, por mais descabidas que elas sejam, mas pra mim isso não é suficiente. Há uma tentativa de deixar uma “mensagem” do quanto as mães são culpabilizadas injustamente – o título, dã –, mas isso é feito da maneira mais rasa possível, servindo apenas de muleta para a sucessão de choques gratuitos no enredo e vai assim até o fim. Eu vi gente comentando que parecia Big Little Lies, mas é só na casca mesmo e falta muito para chegar no patamar daquela 1ª temporada (que deveria ter sido a única, vamos combinar). Ps: Eu sei que a queridinha Bridgerton retornou com sua 4ª temporada, mas por aqui neste post vocês não vão vê-la, porque eu tentei ver 3 episódios da série e achei um saco. Porém, minha colega Gabriella fará a crítica, então os fãs não ficarão desamparados. Nos próximos capítulos... Divulgação Então é isto. Mês que vem tem The Beauty, que eu ainda não consegui ver. As estreias de Vanished, Love Story, novos episódios de The Pitt, Industry, O Cavaleiro dos Sete Reinos, Falando a Real e muito mais. Ah sim, e outra série que está na 3ª temporada, mas eu só comecei a ver este ano. Mês que vem eu conto qual é, para combinar com a temática da coluna, vou deixar de gancho, rs.

  • Entrevista | Scott Schultz, Christian Jacobs e Kamryn Smith sobre nova temporada de “Yo Gabba Gabbalândia!”: “É sobre a essência de estarmos juntos”

    Os produtores executivos e a apresentadora da série do Apple TV falam sobre memória, criação e os desafios da segunda temporada Imagem: Divulgação No Brasil, a televisão aberta foi, durante décadas, uma verdadeira porta de entrada para o universo dos desenhos animados e dos programas infantis. Para quem cresceu nos anos 1990 ou 2000, é quase inevitável associar a infância à experiência de organizar a rotina em função dos horários das animações seriadas. Mesmo para quem tinha TV a cabo em casa, o cenário não era tão distinto assim. Embora a programação dos canais infantis fosse menos restrita em termos de horário e marcada por constantes reprises, o gesto de escolher, esperar e acompanhar episódios específicos seguia fazendo parte do dia a dia da criançada. Quem tinha entre três e cinco anos em 2007 ou 2008 provavelmente reconhece o universo de “Yo Gabba Gabba!”. Criada e escrita por Scott Schultz e Christian Jacobs, a série acompanhava cinco amigos-monstrinhos em fantasias coloridas, reunindo música, humor e uma pedagogia lúdica. Após a quarta e última temporada, exibida em 2011, o projeto ganhou, treze anos depois, uma nova reimaginação: “Yo Gabba Gabbalândia!” (Yo Gabba Gabbaland!), já disponível no Apple TV. Agora, com a chegada da nova apresentadora Kammy Kam (Kamryn Smith), histórias inéditas, novas canções e uma lista renovada de convidados especiais, a produção alcança sua segunda temporada, que estreia em 30 de janeiro de 2026. O Oxente Pipoca conversou com os criadores Schultz e Jacobs sobre o processo criativo por trás da série, os desafios de pensar a atenção infantil em um cenário marcado pela multiplicação de telas e pelo consumo acelerado de conteúdo, e as expectativas em torno da nova fase do programa. Além disso, ouvimos também a atriz e dançarina Kamryn Smith, que fala sobre o processo de dar vida à personagem Kammy Kam e sobre como uma obra pensada para crianças pode, ao mesmo tempo, dialogar com públicos de diferentes gerações. Confira a entrevista completa abaixo: Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Oi, gente. Tudo bem? Obrigada por me receberem hoje. Parabéns pela segunda temporada da série! Christian Jacobs: Oi, Ana. Tudo bem? Seu nome se pronuncia “Âna” ou “Êna”? Ana Beatriz Andrade: Como sou do Brasil, a pronúncia é “Âna”. Mas do outro jeito também está ótimo. Christian Jacobs: Ah, ok! Somos grandes fãs do Brasil aqui em casa. Scott Schultz: É algo parecido com “Gabba”, há duas formas de pronunciar dependendo de onde você mora [risos]. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): É verdade! Para começar, quando vocês olham para o início de “Yo Gabba Gabba!” e agora para a segunda temporada de “Yo Gabba Gabbalândia!”, o que mudou no processo criativo ao longo desse tempo? Scott Schultz: Primeiramente… quando começamos “Yo Gabba Gabba!”, nós éramos pais muito jovens. Não sabíamos exatamente o que queríamos; apenas que buscávamos algo mais próprio para nós e para nossos filhos. Não pensamos em dinheiro ou em criar uma série com vários episódios. Queríamos apenas apresentar algo novo para as nossas crianças. E agora veio a idade, eu já tenho cabelos grisalhos… Foi um momento de perceber o impacto da série na vida das crianças. Aquelas crianças que assistiram ao primeiro programa cresceram, hoje são adultas. Ver a trajetória delas, poder fazer parte de algo tão importante em seus anos de formação, é algo sagrado. Abordamos isso com muita reverência. E fazemos o possível para viver nossas vidas e criar o programa fora das câmeras da mesma forma que queremos vê-lo diante delas e compartilhá-lo com nossos filhos. Christian Jacobs: Sim, e desta vez, como o entretenimento está sempre nas mãos das crianças e elas são constantemente bombardeadas por conteúdo, publicidade e estímulos, queríamos criar algo que dialogasse com esse novo mundo. Usamos tecnologia de tela volumétrica e uma paisagem mais em 3D para tornar o universo do programa maior e mais amplo, dando às crianças uma perspectiva mais abrangente e estimulando ainda mais a imaginação. Assim, elas olham para o horizonte e veem uma montanha, um lago ao fundo, uma floresta… e pensam: “Nossa, isso é um lugar real”. Elas veem a apresentadora em um pequeno mundo em miniatura que se estende até o horizonte. A ideia era expandir a imaginação das crianças para que percebessem que existe mais do que ficar sentadas no sofá olhando para o celular ou o iPad. Há um mundo lá fora para explorar, investigar e aprender, e essa é uma parte essencial do programa. Criar essa dimensão tecnológica exigiu muito aprendizado, e ainda estamos aprendendo. Scott Schultz: E foi bem difícil também [risos]. Christian Jacobs: Sim… mas é algo que esperamos que ajude as crianças a continuarem desenvolvendo sua imaginação e, quem sabe, se tornarem as criadoras da próxima grande novidade para o mundo. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Isso serve de gancho para a minha próxima pergunta. “Yo Gabba Gabbalândia!” sempre foi um programa muito sensorial, com muita cor, dança e música. Como vocês pensam hoje o processo de capturar a atenção das crianças em um mundo tão cheio de telas e conteúdos acelerados? Scott Schultz: Acho que algo que o Christian disse em outra entrevista é muito verdadeiro. Todos nós estamos tentando reencontrar nossa imaginação, certo? E todos estamos tentando ser melhores. Essa oportunidade de voltar nos ensinou muito sobre como podemos estar mais unidos. Para mim, individualmente, estar com o Christian e fazer isso de novo depois de tantos anos significou tudo. Mais do que capturar atenção, estamos tentando criar uma experiência verdadeira. Christian Jacobs: Concordando com o Scott, a parte da conexão – com sinos, apitos, música, luzes e cores – é clinicamente comprovada para manter o interesse das crianças. Mas fazemos isso de uma forma que estimula a imaginação e incentiva a conexão com outras pessoas. A parte emocional da série que acontece na tela também se desenrola nos bastidores: o Scott e eu nos reunindo novamente, nos conectando com nossa equipe, garantindo que haja amor em todos os lugares e que todos estejam fazendo isso pelos motivos certos. E dá para sentir isso quando você assiste à série. Dá para perceber que não é algo feito apenas para ganhar dinheiro. É feito porque amamos o que fazemos e porque queremos nos conectar com as pessoas, no Brasil, no Japão ou no Reino Unido. A música, as cores e os personagens funcionam como uma ponte que nos une como seres humanos, através de nossos filhos. Scott Schultz: Exatamente. Não estamos tentando prender a atenção das crianças a qualquer custo. Estamos focados em proporcionar a melhor experiência possível. Se você não estiver sentado olhando para a tela o tempo todo, mas estiver de pé dançando com seus pais, sua babá, com todos participando, esse é o objetivo. Não se trata de visualizações ou de tempo de retenção. Trata-se da essência de estarmos juntos. Esta é uma série para crianças em idade pré-escolar, mas também para todos nós que já passamos dessa fase, para revisitarmos quem éramos naquela idade e participarmos. É música, é emoção. Esperamos que as pessoas sintam isso, porque nós sentimos. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Falando em música, as canções sempre foram uma parte importante da série, e esta temporada está muito especial nesse sentido. Tive a oportunidade de assistir aos episódios antes desta entrevista. Há algum estilo novo ou alguma colaboração pela qual vocês estejam particularmente animados? Scott Schultz: Sim! Outros programas infantis podem repetir bandas ou gravar duas temporadas ao mesmo tempo, mas não nós. Aqui, a música é completamente nova: canções novas, bandas novas, tudo novo. Eu ainda não consigo acreditar que tivemos Sharon Van Etten, Hemlocke Springs, Santigold. Eu tentava trazer a Santigold desde a primeira série, e finalmente conseguimos. Christian Jacobs: A série está repleta de artistas incríveis. Temos Sleigh Bells, Chicano Batman, Silversun Pickups, aquela versão maravilhosa de “Party in My Tummy” produzida por Butch Vig, que produziu o “Nevermind”, do Nirvana, além do Flea. Essa é a mágica do programa: você coloca as pessoas no set e coisas mágicas acontecem. Como no episódio da Hemlocke Springs, em que ela ensina a acender e apagar a luz com os dançarinos. Scott Schultz: Acabei de me lembrar de uma história. O Billy Eichner participou de uma sessão de contação de histórias, e foi muito divertido. Em certo momento eu disse para ele: “Billy, você não está acostumado com crianças, né?”. As crianças são imprevisíveis, e nós deixamos que elas respondessem livremente. Ele adorou. Imagem: Divulgação Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Para encerrar, a série valoriza muito a imaginação. O foco não está em números ou no aprendizado do alfabeto. Na opinião de vocês, como a imaginação ajuda as crianças a lidar com situações da vida real, como o medo, a amizade e as mudanças? Scott Schultz: Vou dar aqui um “hot take”. Há um gesto da personagem Tootie que diz: “use sua imaginação”. E isso é algo bonito para crianças, adultos, para qualquer pessoa. A imaginação é a porta de entrada para sonhar que você pode ser mais. Se eu sonho que sou mais, eu me torno mais. Se sonho que sou menor, eu me torno menor. As crianças sabem disso e usam a imaginação naturalmente. Nós apenas observamos essa experiência e a transformamos em um programa de TV. Christian Jacobs: Sem querer soar esotérico, mas todos nós emitimos e recebemos frequências. E se você estiver cercado por música, energia positiva e imaginação positiva, o programa pode ser um espaço seguro para crianças que estejam passando por momentos difíceis. Nos últimos anos, todos fomos bombardeados por frequências negativas, raiva, ódio, descontentamento. Mas, se conseguirmos preservar a imaginação e a fé no positivo, tudo bem. Vai ficar tudo bem. E, se há algo que podemos oferecer aos nossos filhos, é essa imaginação positiva para ajudá-los a atravessar o mundo. Porque vivemos em um mundo bonito, podemos ser amigos e amar uns aos outros. Scott Schultz: É exatamente isso que queremos com a nossa série. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Muito obrigada pela conversa, pessoal! Imagem: Divulgação A entrevista continua com a atriz e dançarina Kamryn Smith, a apresentadora da série, que fala sobre sua relação com a personagem Kammy Kam e a experiência nos bastidores. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Oi, Kamryn. Muito obrigada por conversar comigo hoje. Parabéns pela segunda temporada da série! Kamryn Smith: Muito obrigada. Estou muito animada. Me sinto abençoada e muito feliz por todos poderem assistir à segunda temporada. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Para começar, como é voltar como Kammy Kam na segunda temporada? É diferente da primeira vez? Kamryn Smith: Para ser honesta, acho que é igual e um pouco diferente ao mesmo tempo. Eu continuo sendo a mesma Kammy Kam, mas agora estamos vivendo aventuras diferentes e ensinando lições diferentes para as pessoas que estão assistindo. Às vezes eu sinto que aprendo coisas novas, e às vezes sinto que eu e a Kammy Kam somos praticamente a mesma pessoa. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): A série é conhecida por ter muitos convidados incríveis. Se você pudesse escolher uma pessoa para dançar ou cantar com você e outra para atuar ao seu lado, quem escolheria? Kamryn Smith: Nossa, qualquer pessoa? [risos]. Acho que alguém com quem eu adoraria dançar seria a Taylor Swift. E, para atuar, tem tantos atores bons… talvez a Margot Robbie. Acho que seria um episódio incrível. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): A Kammy Kam é uma personagem bem alegre e divertida. Você sente que aprendeu algo com ela que conseguiu aplicar na sua vida real ou na sua dança? Kamryn Smith: Eu realmente sinto que eu e a Kammy Kam somos praticamente a mesma pessoa. Então é difícil separar muito. Acho que aprendi muitas coisas ao longo do processo, mas às vezes nem sei se aprendi mais com a personagem, comigo mesma ou com a própria Kammy Kam. É tudo muito misturado. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Qual foi o momento mais engraçado que você viveu durante as filmagens desta temporada? Há algum episódio especial? Kamryn Smith: Provavelmente foi durante a gravação do episódio final. Não posso contar muitos detalhes, mas foi muito divertido porque todo mundo estava lá. Parecia uma grande festa. Havia muita energia naquele dia, era algo contagiante. Todo mundo estava sorrindo o tempo todo. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Muitas pessoas dizem que a série não é só para crianças. Você sente isso também? Kamryn Smith: Sim, totalmente. Eu ouço muitos adultos dizendo: “Meu filho nem assiste, mas eu assisto”. Até o meu irmão mais velho, que já está na faculdade, adora. Acho que é importante as pessoas saberem que é uma série para crianças e adultos. Você vive muitas aventuras e nunca sabe o que vai acontecer em seguida. Dá para aprender muitas coisas incríveis. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Como você descreveria o universo de “Yo Gabba Gabbalândia!” para alguém que ainda não conhece a série? Kamryn Smith: Eu descreveria como um mundo imaginário, divertido e alegre. Muitas pessoas pensam que “Yo Gabba Gabba” é só para crianças, mas não é bem assim. Eu mesma comecei a assistir por causa do meu irmão, quando era mais nova. E sinto que tudo aconteceu no momento perfeito da minha vida. Sou muito grata por isso e por tudo o que aconteceu, por ter conhecido o Christian e por essa oportunidade. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Para encerrar, que conselho você daria a crianças que sonham em cantar, dançar, atuar ou aparecer na televisão? Kamryn Smith: Eu diria simplesmente: vá em frente. Aprendi que, se você realmente quer algo, não pode ter vergonha. Não dá para ficar esperando. Se não for agora, quando vai ser? Qualquer sonho que você tenha pode se tornar realidade. Eu sonhei com isso e aconteceu. Então é só seguir em frente. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Muito obrigada, Kamryn! A primeira e a segunda temporada de “Yo Gabba Gabbalândia!” estão disponíveis para streaming mundialmente no Apple TV.

  • Entrevista | “Estou firmando a assinatura artística do tipo de cinema que quero contar para minha vida”: Ana do Carmo fala sobre “Nevrose” e “Sol a Pino”

    Diretora baiana exibiu “Nevrose” na Mostra Panoramas, no Festival de Tiradentes, e inicia as gravações de “Sol a Pino” ainda este ano. Imagem: Divulgação/Taylla de Paula A diretora e roteirista baiana Ana do Carmo, sócia da Saturnema Filmes, acaba de lançar seu novo curta-metragem, Nevrose, no Festival de Tiradentes, na última sexta-feira (30). Exibido na Mostra Panoramas, que é destinada a obras que expandem os limites da linguagem cinematográfica, o filme conta a história da média Francisca (Josi Varjão), a qual, consumida pela culpa após a morte da filha, se torna obcecada em salvar vidas. Até que tudo muda quando seu caminho se cruza com o de uma suicida, Elizabete (Tainah Paes), que não deseja ser salva. Além disso, ela se prepara para gravar ainda este seu primeiro longa-metragem: Sol a Pino. A ficção científica é descrita como uma história de amor entre duas mulheres negras da terceira idade que precisam se acolher durante o luto, mas que se desconectam uma da outra ao se refugiarem em um universo de realidade virtual. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Ana do Carmo, que falou a respeito das temáticas principais abordadas pelo curta – morte, luto e fé –, o estigma que o formato de curta-metragem ainda sofre no Brasil, seus passos futuros com a produção de Sol a Pino e o percurso do cinema de gênero dentro do nosso audiovisual. Confira a entrevista abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): “Nevrose” tensiona as relações entre a morte, o luto e a fé, especialmente a partir do lugar dos dogmas católicos. Suas inspirações vieram de um lugar pessoal? Qual foi seu interesse em trabalhar com o tema? Ana do Carmo: Eu acho que em todos os filmes que eu trabalho sempre trago a morte como um tema, sobretudo por ser um tema que me intriga, que me movimenta, que me traz mais perguntas do que respostas. Inicialmente Nevrose integrou uma antologia de curtas chamada Insubmissas, e a proposta do Insubmissas era adaptar contos escritos por mulheres do século XIX para os dias de hoje. Então, foram quatro contos adaptados e cada um deles foi dirigido por uma diretora diferente. No meu caso, eu fiquei responsável por adaptar Nevrose de dois contos, um que era homônimo e outro que se chamava A Suicida, ambos de uma autora chamada Délia, pseudônimo de Maria Benedita Bormann. Dentro dos contos, tanto no de Délia quanto nos outros contos adaptados pelas outras diretoras, a morte e a loucura, fé, redenção, eram temas muito trabalhados entre mulheres no século XIX. Quando a gente leu esses textos pensou na hora: “Nossa, isso daí que é atemporal, porque também faz sentido a gente falar de como nós experienciamos esses temas nos dias de hoje”. Originalmente esses contos não eram racializados e obviamente, enquanto uma realizadora negra, me interessa muito colocar personagens protagonistas negros nas telas. E foi muito interessante e transformador para a equipe da gente conseguir falar sobre como nós mulheres negras também experienciamos vida e morte enquanto temas existenciais. Então acho que dentro do meu trabalho o que me motiva muito é trazer para as nossas vivências negras temas existenciais, de forma que a gente consiga colocar em tela que temos sentimentos plurais, formas de ver o mundo diferentes. Então é esse tipo de construção de personagem que tem me instigado a pesquisar. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Há um certo preconceito e relutância do público geral de cinema em lidar com o formato do curta-metragem. A que você atribui essa relutância? E quais foram os motivos pelos quais quis trabalhar nesse formato? Ana do Carmo: Eu acho que justamente porque os longas-metragens estão nesse espaço comercial que os curtas metragens não ocupam, muitas vezes isso faz com que a gente acabe olhando para o curta-metragem como meramente uma porta de entrada para o mercado ou como um exercício de audiovisual. Eu acho um pecado a gente olhar para o exercício curta-metragista com um olhar tão simplório assim, acho que o curta-metragem está num lugar de possibilitar a gente a experimentar de uma forma muito mais ousada que o longa-metragem muitas vezes não está. Estou inclusive falando disso porque estamos em pré-produção do meu primeiro longa, Sol a Pino. E aí eu estou justamente nesses dois momentos distribuindo Nevrose e fazendo o meu primeiro longa, mas Nevrose é, sei lá, meu 11º curta-metragem. E mesmo já fazendo um longa, eu ainda estou desenvolvendo outros curtas. Então, eu encaro o fazer do curta-metragem tal qual eu encaro qualquer outro tipo de formato. Eu acho que todo fazer audiovisual, em qualquer formato que seja, é muito precioso e o curta comunica de uma forma que o longa não se comunica. E eu acho que a gente deve olhar para isso sem fazer juízo de valor, porque eu acho que cada um dos formatos tem o seu lugar, de janela, de visibilidade, de encontrar as pessoas. Muitas vezes pelo curta também ter uma minutagem menor, ele me provoca no lugar de me desafiar a contar uma história dentro de uma janela de tempo. Muitas vezes quando a gente vai para o longa, são mil possibilidades e quando a gente vai para o curta, a gente tem aquele desafio. E eu acho esse sentimento enquanto criadora, realizadora me coloca muito no lugar de me sentir realizada. É um desafio gostoso. Imagem: Divulgação/Carolina Guerreiro Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Aproveitando o gancho, como está a produção de “Sol a Pino”? Nós até noticiamos no nosso Twitter/X há algumas semanas que o filme iria iniciar suas gravações este ano. Ana do Carmo: É muito simbólico que a gente está filmando o nosso primeiro longa no ano em que fazemos 10 anos de produtora, na Saturnema Filmes. E Sol a Pino é um projeto que a gente vem colocando na estrada faz uns 5 anos. Ele foi selecionado para muitos laboratórios e eventos de mercado, ele foi o finalista do Frapa também, que é o maior concurso de roteiro da América Latina. E eu aprendi muita coisa com Sol a Pino. Enquanto eu estava ali, escrevendo o meu primeiro longa, eu aprendi a ser roteirista, amadureci muito enquanto roteirista. E ele me abriu muitas portas. Então, eu ganhei o prêmio Cabíria, que é um prêmio voltado para a autoria feminina. Eu ganhei o prêmio de melhor roteiro de longa-metragem e isso me fez entrar no projeto Paradiso também, que é uma organização que tem como objetivo alavancar e internacionalizar carreiras de cineastas brasileiros. E a gente ganhou também edital de desenvolvimento, ganhamos prêmio de desenvolvimento também da Netflix, da Telecine. E aí agora fomos contemplados também para produção, estamos em pré-produção de um sci-fi baiano, negro, que conta histórias de amor entre duas mulheres negras, 60+. Então é um filme LGBT, é um filme negro, é um filme baiano, é um filme de ficção científica, é tudo que eu sempre quis fazer. Então eu estou muito é feliz com esse momento que a gente está vivendo e de sobretudo conseguir trazer para a nossa equipe técnica pessoas que já trabalham com a gente no nosso curta-metragem. Eu sinto que Sol a Pino é uma continuidade do trabalho que a gente vem desenvolvendo, e fortalecendo dentro da Saturnema. E eu sinto que eu estou firmando a minha assinatura artística do tipo de cinema que eu quero contar para minha vida. Acho que cada projeto é um desafio novo e a gente está tendo os desafios internos, sobretudo pensando que é muito difícil fazer cinema quando você tem pouca verba. Mas o que não falta na nossa equipe são pessoas talentosas e com sede de ver essa história no mundo tanto quanto eu. Então eu me sinto muito honrada de trabalhar com as pessoas que eu trabalho. A gente está agora em pré-produção, vamos filmar depois do Carnaval, e acho que por enquanto é o que eu posso falar, quero muito que vocês vejam esse filme esse filme da tela muito em breve. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): “Nevrose” integrou a Mostra Panorama do Festival de Tiradentes. Trata-se de um filme que está fortemente ancorado no cinema de gênero, o qual percebo que ainda luta por um certo espaço e respeito dentro da produção audiovisual brasileira. De que maneiras você acredita que o cinema de gênero pode ser mais acolhido como parte da nossa identidade cinematográfica? Ana do Carmo: É muito complexo porque eu cresci consumindo cinema de gênero, dentro da cultura pop. Eu cresci assistindo Senhor dos Anéis, Star Wars. E sempre eram futuros tão distantes da gente, não somente em termos de estamos falando de ficções distópicas, obviamente, mas ao mesmo tempo tão distantes em representação. Eu não via personagens como eu representados positivamente dentro da cultura pop, e naturalmente, quando eu comecei a fazer cinema, queria produzir o cinema que gostaria de ter assistido na minha adolescência. E encontramos ainda muitos desafios dentro do Brasil para gente sequer produzir cinema, imagine cinema de gênero. A gente tem sentido que o mercado está cada dia mais fechado então, estamos num lugar em que todas as portas que a gente batia, a gente sempre ouvia o mesmo feedback. “No Brasil não se produz cinema de gênero”, “cinema de gênero é caro”, “cinema de gênero não dá público porque o brasileiro prefere assistir cinema de gênero gringo do que o nacional”, mesmo a gente tendo vários produtos que tem desafiado essa lógica. A gente teve o 3%, que foi um super sucesso. A gente tem o Cidade Invisível como referência também. Tem o próprio Bacurau, que foi um grande fenômeno. Quando eu nesse lugar, enquanto uma diretora negra, baiana, nordestina, periférica, chego nesse lugar e quero também trabalhar com esse tipo de cinema, todas as portas estão fechadas para uma pessoa como eu. Então eu sinto que o que a gente está fazendo é provocar o mercado mesmo, porque se todas as portas estavam fechadas, a gente precisa precisou ter a nossa própria produtora, o nosso próprio CNPJ, para a gente poder investir nas histórias que a gente acredita, uma vez que muitas pessoas não acreditavam. Sobretudo por não ter a referência, como é que você vai investir num território tão movediço quando você não tem uma referência e um mercado aquecido para o cinema de gênero no nosso país? E ao mesmo tempo nós tivemos muita honra de conhecer pessoas que também estão dentro desse lugar minoritário batalhando para construir uma diversidade muito grande dentro do cinema nacional. Então, eu me orgulho muito de estar presenciando um momento no audiovisual de disputas de narrativas muito positivas, da gente conseguir ver projetos em desenvolvimento entrando em fase de produção. Porque quando a gente olha também para o cenário agora não tem só a Saturnema que está neste lugar. Nós temos os nossos parceiros do audiovisual que também começaram com a gente e muitas outras pessoas que já estavam no mercado e abriram portas também pra gente começar a trabalhar no cinema de gênero, que estão provocando esse lugar de outras representações, e eu acho que a gente tem um público que está ávido para ver coisas legais sobre a gente. Na Saturnema a gente tem buscado criar outros mundos e mundos possíveis para nossa existência. Então, eu tenho olhado para o cinema de gênero como um desafio muito grande, porque muitas vezes é muito mais fácil só escrever uma comédia romântica, que é o que todo filme está buscando. E está tudo bem se em algum momento também eu começar a escrever narrativas que o mercado está buscando, mas eu não quero que sejam as únicas narrativas possíveis para pessoas como eu e para pessoas que vêm de onde eu venho. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, pedimos aos nossos entrevistados que indiquem filmes brasileiros que acham que o público deva assistir. Quais seriam suas indicações? Ana do Carmo: Acho que há duas indicações que me marcaram muito, sobretudo para construção de Sol a Pino no lugar de inspiração. Acho que o primeiro foi Marte Um, que foi um filme feito com baixíssimo orçamento, um filme negro, de um realizador negro, de uma produtora independente como a Filmes de Plástico, que tem uma trajetória muito semelhante com a nossa, de começar com essa trajetória de curtas-metragens e de fazer um cinema que é muito particular e ao mesmo tempo muito universal. É um cinema que parte de dentro para fora e mesmo fazendo um filme com baixíssimo orçamento, Marte Um mostrou a potência do cinema negro ao chegar a ser o filme indicado no Brasil para nos representar no Oscar, e eu acho que isso é um grande feito. E Gabriel Martins é uma grande inspiração enquanto cineasta para mim nesse lugar, inclusive nós tivemos a honra de tê-lo como consultor dramatúrgico de Sol a Pino, ele foi um dos primeiros leitores do projeto. Então é um filme que eu indico muito, e o que eu gosto muito de Marte Um é que ele consegue hackear o gênero. Ele pega um drama familiar, mas coloca uma criança que é protagonista que o sonho dele é ir para Marte. Então, mesmo sendo um filme de um gênero muito pé no chão, ele usa esse poder do sonhar para trazer essa possibilidade afro-futurística para um drama familiar. E o outro foi O Último Azul. Quando a gente assistiu ele, percebeu que estava no caminho certo, com um filme que traz esse olhar, essa lupa sobre a terceira idade sobre um viés de ficção científica. O diretor, Gabriel Mascaro, ele é esse diretor que também já tem trabalhado esse lugar da experimentação do cinema de gênero dentro do trabalho dele, da estética muito marcada nos filmes dele. Então acho que tanto o trabalho de Gabriel Martins quanto de Gabriel Mascaro tem uma identidade muito própria, que me inspira muito. E obviamente falando dentro do nosso território não tem como não falar de mulheres negras que estão fazendo cinema acontecer em todo o país. Uma diretora em que eu me inspiro muito é a Safira Moreira, que é uma grande amiga também, cineasta baiana muito potente, e lançou o primeiro longa dela, Cais, que também fala desse lugar da família dela. Safira é uma pessoa que tem uma sensibilidade muito grande, me toca muito assim a forma como ela faz. Além disso, Safira também é diretora de fotografia, então eu sinto que ela trabalha do lugar dela enquanto diretora muito pensando na imagem, na sensibilidade da imagem. Então isso me inspira muito nesse lugar de olhar para como as nossas mais velhas podem e devem inspirar o nosso cinema assim. E Sol a Pino também é muito disso, tem muito da minha mãe, muito das minhas tias, muito dessa família matriarcal brasileira.

  • Entrevista | “Sempre foi muito importante um festival que fosse conectado com aonde ele está”: Antonio Gonçalves Jr. fala sobre o Olhar de Cinema

    Em entrevista ao Oxente Pipoca, diretor geral do festival fala sobre a 15ª edição, que acontecerá entre 4 e 13 de junho em Curitiba e conta com inscrições abertas Imagem: Divulgação/Walter Thoms O Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba anunciou que estão abertas as inscrições para a sua 15ª edição. Os interessados em participar de um dos mais importantes eventos dedicados ao cinema independente do Brasil, podem inscrever suas produções até o dia 26 de fevereiro pelo site oficial www.olhardecinema.com.br. Serão aceitos curtas e longas-metragens de todas as tipologias e gêneros, inéditos no Brasil. Desde 2012 o festival já levou mais de 250 mil pessoas para as salas de cinema, 50 mil pessoas vendo filmes online e exibiu mais de 1200 filmes de todo o mundo. Dentre as Mostras que o compõem destacam-se a Competitiva Internacional e Brasileira, Novos Olhares, Olhares Clássicos e Mirada Paranaense, dentre outras. O Oxente Pipoca pôde entrevistar Antonio Gonçalves Jr., diretor geral do festival e um dos seus fundadores. Ele pôde falar sobre a história do Olhar de Cinema, seu papel para a visibilidade do cinema paranaense e a importância dos festivais para o ecossistema do audiovisual brasileiro. Você pode conferir a entrevista na íntegra abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Este ano o Olhar de Cinema completa 15 anos de existência. Em relação à primeira edição, o que você acha que mais mudou? Quais os principais fatores que você considera que permitiram ao festival chegar a este número tão importante? Antonio Gonçalves Jr.: Eu sou um dos cofundadores do festival, então estou nele desde a criação dele, quando ainda era uma ideia, uma vontade, um desejo de fazer um festival. E eu acho que o que acabou dando essa longevidade foi muito dessa nossa vontade que estava lá no início, que era uma vontade muito genuína, muito verdadeira de querer compartilhar filmes com as pessoas. De querer primeiro possibilitar que as pessoas daqui de Curitiba pudessem ter acesso a alguns filmes que eles não teriam de outra maneira. Antes de tudo, a gente tem uma produtora chamada Grafo Audiovisual, que começou em 2007. A a gente começou a circular com os nossos curtas em vários festivais e começamos a encontrar vários filmes que a gente achava sensacionais e queria compartilhar com as pessoas daqui. E a gente começou a estudar muitos formatos de festivais e aí pensamos num formato a gente acreditava que fazia mais sentido dentro do Brasil, do Paraná, de Curitiba. Quando a gente montou o festival, nós éramos três estudantes de cinema, e nosso maior medo era que não desse ninguém no festival [risos]. Era nosso terror, era um pesadelo total de que não desse ninguém, porque vários festivais que tinham em Curitiba, que inclusive tinham acabado em 2010, 2009, acabaram às mínguas, às moscas, não tinha mais público, não tinha mais aderência de nada. Falamos: "Pô, a gente tem que fazer um festival que pelo menos vai a gente, né?", de alguma maneira as pessoas tinham que ir. E então pensamos muito nesse formato de festival. E aí a gente chegou num formato que dialogava muito com a cidade, até a época do ano a gente pensou. “Pô, vou fazer no inverno”, porque verão aqui em Curitiba é morto, sabe? Vai todo mundo pra praia, que é a uma hora daqui, então todo final de semana a galera tá lá. No inverno a galera não tem para onde ir, porque inverno é frio, frio mesmo, você esteve aqui, então já entendeu como que é [risos]. Todo o formato do festival toda a linha curatorial, ela mudou muito pouco de 2012 para cá. E aí, respondendo sua pergunta depois dessa contextualização gigante, o sucesso foi muito dessa proposta ter surgido lá atrás de uma maneira muito sólida, e a gente só foi aprimorando ela ao longo desses 15 anos. Isso ajuda demais as pessoas a se conectarem com o festival, porque ele não fica mudando, não é cada ano uma coisa diferente. Não, ele tem uma construção. A pessoa que veio na primeira edição do festival e que vem hoje, a única coisa que vai notar de mudança é que ele tá muito maior. Mas continuam a característica dos filmes, a abordagem dos filmes, a apresentação, a forma que a gente lida muito carinhosamente com cada um dos filmes que estão sendo exibidos aqui, com os realizadores e realizadoras que vem para cá, com a própria imprensa. Então, todo mundo que compõe essa comunidade, que forma o Olhar de Cinema, a gente sempre realmente presta tenta trabalhar com de uma maneira muito cuidadosa com cada um dos públicos. Você como imprensa tem necessidades, desejos, ambições diferentes de um realizador ou do público geral. E a gente tentou entender essas vontades, essas visões de cada um desses públicos, e a partir daí montar algo que fosse legal de alguma maneira para todo mundo se sentir acolhido dentro do festival sem perder aquela proposta curatorial que a gente tinha, e que sabia que era muito difícil num primeiro momento, mas que hoje acredito que foi muito acertada. Nossa abertura era pra 300 pessoas – acho que no primeiro ano foi umas 250, nem chegou a 300 – e hoje já tá com 1600, e com o mesmo tipo de filme. Porque o público foi crescendo, as pessoas foram entendendo o que é o Olhar de Cinema e o boca-a-boca foi a nossa maior propaganda. As pessoas verem, falarem, comentarem, curtirem. E isso faz com que o nosso público vá aumentando ano a ano e isso ajuda muito nessa consolidação. Imagem: Divulgação/Walter Thoms Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): A edição passada apresentou recorde de público e de exibição de longas e curtas-metragens. Quais suas expectativas para este ano, especialmente considerando que se trata da 15ª edição? Haverá novas Mostras, por exemplo? Antonio Gonçalves Jr.: A gente tá bem animado com essa edição e pensando em várias coisas. A gente tem pensado os filmes, as mostras dos filmes, mas quanto a elas não vai ter nenhuma grande mudança, até porque não gostamos de mudar muito na estrutura do festival. Eu acho que o grande atrativo do festival é justamente essa estrutura que foi criada, quem frequenta o festival uma ou duas edições se entende muito bem dentro dessa estrutura. Então, a gente gosta de manter esse lugar acolhedor para a pessoa no sentido de que ela chega no festival e já sabe mais ou menos como que ele funciona, e isso é bom para as pessoas. Mas, claro, todo ano a gente tenta colocar alguma coisa diferente. Nesse ano temos apostado muito mais esse ano nas experiências, porque um festival também tem um desafio muito grande, principalmente com esse novo público, que é um público é muito jovem. Como tirar essas pessoas da sala, da frente do streaming, da TV? Então, não basta só o filme, a gente tem que trazer alguma experiência, alguma proposta a mais. No ano passado a gente começou com o MECI (Mercado do Cinema Independente), fez um protótipo, e nesse ano a gente quer consolidá-lo como esse espaço de mercado que atende o cinema independente brasileiro e internacional, então a gente vai dar um passo também para fora do MECI, para abrir um pouco mais as fronteiras. Então são pequenos ajustes que a gente vai fazendo, e eu acho que também isso é muito bacana do Olhar de Cinema, porque acaba que a gente tem uma continuidade, vai construindo o tijolinho por tijolinho. A gente todo ano muda alguma coisa, mas nunca faz uma coisa completamente radical. A gente não quer que ele perca a sua característica, o perfil dele, a proposta. Mas sim, vão ter surpresas, vão ter novidades e já estamos trabalhando em algumas delas que vão ser bem legais, mas muito focado também nessa experiência e no fortalecimento do MECI. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Nós temos vistos polos regionais do cinema despontarem nos últimos anos, como o cinema cearense ou mineiro. Em relação ao cinema paranaense, pude ver o espaço significativo que ele teve na edição passada, principalmente através da Mirada Paranaense. Como você espera que o Olhar de Cinema continue a alimentar e expandir esse espaço de forma a dar ainda mais visibilidade ao audiovisual do estado? Antonio Gonçalves Jr.: Essa foi sempre uma preocupação nossa desde o primeiro ano. A Mirada Paranaense, por exemplo, existe desde 2012. Então, ela vai completar 15 anos também, assim como várias outras mostras que a gente tem no festival. Digo isso porque para nós sempre foi muito importante um festival que fosse conectado com aonde ele está. Para também ter essa conexão, a gente entendeu que precisava ter esse espaço, e tinha de ser um espaço nobre. Então as exibições da Mirada Paranaense não são no dia da semana à tarde, mas nos finais de semana ou à noite. Com isso, a gente acabou tendo um respeito, um contato, uma comunicação muito direta com os realizadores e as realizadoras locais. Então eu sou muito feliz com relação a isso, muito grato no sentido de que a gente conseguiu atingir o nosso objetivo, que é o de que todo mundo que faz filme aqui no Paraná tem interesse em estrear no Olhar de Cinema. E isso gera um problema bom para nós, porque como chegam muitos filmes daqui, têm vários em estreia. E tirando as exibições especiais, a gente tem que acabar programando esses filmes de alguma maneira, desde que estejam alinhados com o festival também, claro. Então acaba que a gente recheia a programação do festival com filmes paranaenses em todas as mostras. Antigamente, cinco, seis anos atrás, as os filmes paranaenses acabavam ficando muito na Mirada, mas com as políticas públicas sendo um pouco melhor estruturadas em âmbito nacional e até local, se teve um fruto muito grande agora nos últimos anos de filmes paranaenses. Então temos uma safra de filmes muito bons, muito potentes, e que cabem em diversas mostras do festival, desde a Olhares Clássicos até a Mostra Competitiva. Mas o espaço da Mirada Paranaense sempre vai permanecer porque ele é intocável. Ele dá muito espaço também para jovens realizadores, principalmente os curtas-metragistas que tão começando, galera das faculdades aqui de Curitiba, das faculdades do interior, principalmente de Foz do Iguaçu. Então, para nós também isso é legal, porque aí o pessoal vem para cá, com esse primeiro contato, tá no festival, tem o debate depois e que coloca eles de alguma forma para refletir sobre aquilo. Os coloca numa situação que é importante para o realizador iniciante, ter essa experiência. Tem os críticos que fazem cobertura, que falam sobre os curtas, e a gente acha sensacional quando isso acontece. É um processo de aprendizado. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, pensando de uma maneira mais geral no atual do cenário do cinema brasileiro, como você enxerga o papel do Olhar de Cinema e outros festivais para a visibilidade do nosso cinema? Antonio Gonçalves Jr.: A gente tem hoje no cinema brasileiro uma produção muito grande, talvez nesses últimos anos estejamos vendo a maior de todos os tempos, muito por conta da [Lei] Paulo Gustavo. E tem muitos filmes que acabam passando em festivais e acabam nem conseguindo espaço comercialmente, porque temos poucas salas de cinema no Brasil, bastante concentradas em poucos polos. Então temos muitos filmes que são exibidos num festival e nunca mais são exibidos, sequer passam numa sala de cinema ou se passam é só por uma semana para cumprir tabela. Então o festival tem uma importância, porque você também tem muitos filmes que são extremamente interessantes, extremamente ousados, inventivos e que não faz sentido esses filmes não existirem. Senão a gente vai ser sempre querendo uma mesmice né, se existir só o que passa na sala comercial a gente tá ferrado, porque 95% do que passa na sala comercial é Hollywood, para começar. Então aonde vai ficar a vanguarda, onde vai ficar a invenção, onde vai ficar a inovação de linguagem do cinema? Por isso que é extremamente importante o papel dos festivais de dar espaço para isso. Com essa quantidade de filmes é impossível colocar todos eles na sala de cinema, assim, na estrutura que a gente tem hoje. Eu adoraria e eu acho que deveriam, mas sejamos realistas que não vai rolar. Então, acho que esse é um papel muito importante do festival de ser essa resistência, de ser esse espaço aberto para uma gama muito maior de filmes do que aquilo que a gente vai ter na sala na sala de cinema comercialmente e nos streamings. Falando especificamente do Olhar de Cinema, para nós é muito importante também de alguma maneira ajudar esses filmes, porque a gente escolhe hoje filmes de realizadores que estão às vezes não no seu primeiro longa, mas no seu segundo, terceiro, quarto e que também têm essa dificuldade de entrar na sala de cinema, de ser visto. Então a gente tenta trazer uma visibilidade para esses filmes, e tentamos criar todo esse evento por trás. O nosso maior interesse também é isso, que os filmes, depois daqui, consigam ir para a sala de cinema, consigam ser exibidos no streaming, consigam ir para fora do Brasil. Então, a gente tenta sempre criar uma a melhor condição possível de exibição, de convidados, de equipes, para que esses filmes realmente saiam daqui fortalecidos. Com isso em mente, também pensamos muito no entrecruzamento entre o cinema independente brasileiro e mundial, para que haja esse diálogo entre as diferentes linguagens, diferentes propostas cinematográficas em diferentes países, porque isso oxigena muito a cabeça. Se você pensar em juntar o filme lá do Curdistão que a gente trouxe com o filme da Argentina, com o filme brasileiro de Alagoas, isso dá uma mexida na cabeça. Enfim, são alguns pilares principais que a gente tem aqui.

  • Entrevista | Thales Banzai, Camila Cornelsen e Iraci Estrela falam sobre “Antônio Odisseia”

    Filme, que é uma coprodução Brasil e EUA, terá sua première mundial no Slamdance Film Festival Foto: Divulgação Primeiro longa-metragem do diretor paranaense Thales Banzai, Antônio Odisseia foi um dos filmes escolhidos para compor a programação deste ano do Slamdance Film Festival, que será realizado em Los Angeles entre 19 e 25 de fevereiro e é dedicado a primeiros longas, curtas e produções de baixo orçamento sem distribuição comercial. No filme, co-roteirizado por Banzai e Kelson Succi, o protagonista Antônio (Succi) e sua melhor amiga Ivone (Iraci Estrela) decidem assaltar o boteco onde ele trabalha para roubar uma nova droga, dando início a uma jornada surreal que os conduz a encontros improváveis — inclusive com Deus. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Banzai, Camila Cornelsen (produtora, diretora de fotografia do filme e esposa de Banzai) e Estrela a respeito da natureza experimental de Antônio Odisseia, seu processo de produção, o caráter mais teatral das performances e as expectativas para a première mundial do filme em Slamdance. Confira a entrevista abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme convida o espectador a se relacionar com ele numa dimensão que é muito sensorial e experimental, passeando por essa “odisseia” psicológica e metafísica. Por quais maneiras foi pensada essa jornada do protagonista em busca de Deus e a sua transposição para as telas através da linguagem cinematográfica (o uso do P&B, a trilha, os efeitos visuais, as diferentes partes do filme)? Thales Banzai: Eu acho que desde o começo a ideia do filme já era ir para um caminho um pouco mais experimental, mais subjetivo, que não ficasse numa linha narrativa tão linear. Desde quando eu comecei a trocar a ideia do projeto com o Kelson [Succi], eu tinha meio que um primeiro storyline do que poderia ser o filme. Já tinha essa ideia de a partir do primeiro ato a gente já romper e caminhar para um lugar que não fosse essa narrativa linear e que a gente conseguisse entrar em memórias, num psicológico do personagem, coisas que ele viveu na infância, sonhos, desejos de explorar mais esse lugar. O grande desafio ia ser como não virar um grande filme de “arte” no sentido pejorativo do termo de ser um filme que às vezes pode ser meio chato, ou que as pessoas podem se perder, ou que é muito didático. A gente tentou achar um balanço que funcionasse. Íamos entrar na viagem e ao mesmo tempo tentar criar uma estrutura de roteiro que funcionasse pra ir trazendo o público com a gente, e ter alguns arcos narrativos de personagens ao longo do filme pra que, mesmo dentro da viagem, a gente tivesse alguma lógica nela, mesmo que essa lógica não fosse muito lógica [risos]. Mas isso acho que estava desde o começo. Sobre a fotografia, eu particularmente gosto muito de filme preto-e-branco, e na nossa realidade, do filme de um filme de baixo orçamento, também ajuda muito, acho que fortalece a narrativa. Primeiramente foi uma escolha de fato criativa, mas também ajudava muito a gente a conseguir produzir o filme em pouquíssimo tempo, que foi o que a gente fez, filmamos em 17 diárias. Mas mesmo assim tivemos um resultado em que a gente conseguia ser rápido no set, ter uma luz mais expressiva, trazer uma cara pro filme. Foto: Divulgação Camila Cornelsen: Eu trabalho muito nesses dois universos, de filme e televisão como diretora de fotografia e de publicidade como diretora. E na publicidade normalmente a gente tenta iluminar tudo, mostrar tudo, e no cinema, principalmente no cinema independente, você quer trazer o foco para algumas coisas específicas. Você quer que o olhar do espectador vá para algum lugar. E quando você trabalha com uma gama de cores, principalmente no cinema independente, você não consegue controlar todas as cores, então vai ter uma placa lá que é vermelha e de repente essa placa vermelha vai levar o teu olhar para lá. Então existia obviamente uma escolha, um desejo do Thales. Ele trabalha muito com preto-e-branco, mas nesse projeto em especial, o preto-e-branco vem um pouco para ajudar, não só na construção da história, mas também no jeito de filmar, o que nos ajuda a gastar tempo nas coisas que realmente importam. Então já na pesquisa de locação e na decupagem do filme, a gente mudou o celular de todo mundo da equipe técnica, da equipe de arte, da equipe de maquiagem, equipe de figurino, para que todo mundo já começasse a ver o filme em preto-e-branco. Então a gente tirou a cor do celular de todo mundo, e começamos a treinar também a nossa equipe para assistir as coisas e olhar em preto-e-branco. Apesar de ter sido uma escolha narrativa e também de produção, a gente tentou se adaptar ao máximo a tudo, não foi algo que só iríamos mudar na pós. Se você vê a maquiagem dos atores, as roupas, ao vivo, com cor, é terrível [risos]. Mas ajudou muito a gente a pensar no visual do filme como uma forma também de linguagem. Era como transformar nada em ouro, já que a gente tinha pouco recurso. Nós somos os produtores do filme, então o meu olhar ali era de diretora de fotografia, mas também de um lugar criativo, de entender que o dinheiro fala mais na tela, não atrás da tela. Então tem uma certa inteligência de produção. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Sinto que o filme aproveita essa proposta não-narrativa para recusar um certo naturalismo, e isso se dá muito nas performances, antes mesmo de Antônio e Ivy consumirem a “pasta”. Como vocês trabalharam isso? Havia uma demanda da performance já marcada desde o roteiro ou isso foi sendo improvisado no decorrer das gravações? Iraci Estrela: A gente teve preparação, foi mais de uma semana com o Éder dos Anjos, e foi muito legal para mim como atriz, porque foi meu primeiro filme e a gente acha que vai fazer um primeiro filme super dramático, com choros e essas coisas. Então para mim foi muito desafiador, o Éder falava assim: "Gente, abandonem seus corpos, abandonem o drama, tragédia, abandona tudo isso, a gente vai ler, a gente vai trocar a ideia e a gente vai fazer uns exercícios". Então teve muito trabalho de conexão, minha com Kelson, minha com a Ivone, Kelson com o Tony, a gente com os outros personagens. Então, o que eu acho que rolou foi um trabalho de conexão com o texto e entre a gente. Então, isso se tornou um conforto no set mesmo. Porque não era sobre eu fingir que estou ali sob efeito de alguma substância. Era sobre o que esse texto tá falando, sobre o que esse corpo pede agora. Esse corpo tem algum tique? Esse corpo tem uma voz diferente? Ele tá com a voz mais rouca? Então, acho que teve uma preparação muito massa do Éder, que foi essa coisa da gente abandonar mesmo o drama burguês e experimentar. Eu acho um filme muito teatral e eu e o Kelson somos atores teatrais. Então isso foi massa também, porque a gente trouxe muita coisa do teatro ali para cena também, pudemos misturar essas linguagens que nem sempre os diretores gostam que se misture. Isso deu muita liberdade para a gente agir em cena e fazer a cena mesmo, no geral. Foto: Divulgação Thales Banzai: Desde o começo já se tinha essa ideia bem clara de não ir para esse caminho necessariamente naturalista, de explorar outros lugares, que acho que se conectam com cinema no Brasil dos anos 60, 70, por aí. Mas acho que o roteiro do Kelson já se apresenta de uma forma meio espetacular. Eu quis chamar o Kelson em parte porque ele é do teatro, na verdade, porque a gente sabia que era um filme que a gente queria fazer independente. E a gente estava bem consciente de ir tanto para esse caminho mais teatral, como também não ser teatro, porque é cinema, mas que bebe de algumas fontes também. A gente gostava muito de Macunaíma, por exemplo, que tem essa loucura, e tem uma outra atuação, e tem outras fontes que funcionam, que não tá no lugar do naturalismo. A gente vinha desse lugar que era quase uma sátira do cinema brasileiro: drogas, armas, guerra, bar, assalto, não sei o quê, para te pegar e te levar para outro lugar. E daí entrando cada vez mais nos monólogos, nos textos. Mas não improvisamos muito não, só algumas ações minhas em relação ao set. Camila Cornelsen: O teste da Iraci foi o primeiro teste que a gente assistiu para essa personagem, e a gente ficou muito impressionado com a leitura que ela teve da Ivone, porque ela leu uma Ivone completamente diferente de todas as outras atrizes que leram esse papel. Ela trouxe para a personagem algo que não estava no papel, não estava nas linhas. Ela trouxe uma graça, um deboche, deu à Ivone um alívio que a gente não conseguiu enxergar. A questão da droga é a primeira leitura, e a que eu acho a mais óbvia é que a Ivone é uma cracuda, está sempre high, está sempre buscando alguma coisa. E aí Iraci trouxe um brilho para essa personagem, que é a viajante. Ela é uma pessoa que está em busca de algo e isso não necessariamente está atrelado ao consumo da droga. Então ela trouxe uma leveza para a personagem, trouxe todo um brilho para o filme e para Ivone, e isso fechou a dupla. A gente precisava de um contraponto para Antônio, e eles ficam nessa troca de energia ao longo do filme. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme será exibido no festival de Slamdance, que é uma grande vitrine para o cinema independente. Qual a sensação de ter o filme exibido no festival e que tipo de recepção vocês esperam encontrar por lá? Thales Banzai: Quando a gente fez o filme, ele estava na nossa lista de festivais que queríamos estrear e ficamos muito feliz que rolou. É um festival super importante, principalmente aqui nos Estados Unidos, porque é meio que um berço do cinema independente, onde vários diretores atuais que estão aí ganhando o Oscar mainstream começaram com seus primeiros filmes. É onde o Christopher Nolan passou o primeiro filme dele, o Sean Baker passou o primeiro filme dele, é um festival que lança carreiras. São filmes que eu acho que o teto de orçamento deles é 1 milhão de dólares, então não tem nenhum filme que tenha um super orçamento de estúdio, o que significa que a forma de curadoria e entrada no festival também é diferente. A gente entende que nos festivais grandes como Sundance, Tribeca, Cannes, Berlinale, enfim, em todos os grandes selos existe um grande lobby das distribuidoras, das produtoras, uma diretriz de cima para baixo. Já o Slandance, ele surgiu faz uns 30 anos, e nasceu para ser um festival meio punk, anarquista. E com essa curadoria que fizeram ao longo desses 30 anos, outros festivais no mundo olham para ele e pensam: "Ah, se eles escolheram esses filmes é porque esses filmes merecem serem vistos". É sempre uma resposta muito positiva saber que é um selo que valida muita coisa, e que as pessoas sabem que é um filme independente, sabem que é um filme que foi feito a suor e lágrimas. A estreia vai ser bem no DGA [Sindicato dos Diretores], que é um puta cinema foda. E a galera também está ligada no boom do cinema brasileiro. Iraci Estrela: Eu achei muito chique e muito simbólico o meu primeiro filme estar estreando fora do Brasil. Eu sou uma mulher periférica do subúrbio de Salvador. Então ninguém vai imaginar que eu vou sair de Vista Alegre para estrear um filme em Los Angeles. E realizar esse sonho contando essa história escrita por um homem preto, onde basicamente boa parte do elenco é de pessoas pretas. A gente tá falando de várias outras coisas, a gente tá falando de sonhar, de desejar, de querer, de buscar. Então é emocionante, porque a gente quer falar de outras coisas, a gente quer viver outras coisas. E acho que o filme é isso. É um filme também sobre migração e que tá migrando, espero que migre para outros países também. É muito simbólico um filme brasileiro selecionado, só um brasileiro lá na lista, entre 10 filmes, é um filme com muitas primeiras vezes. Toda a equipe estava buscando fazer o filme acontecer. Enfim, acho que é metalinguístico [risos]. Camila Cornelsen: Eu acho que pra gente é legal como uma porta de entrada que vai abrir para outros festivais também. Ficamos sempre na expectativa de onde seria o festival de estreia, e estamos super felizes que foi nesse festival. A gente até tentou aplicar para alguns festivais brasileiros no ano passado e não entramos, então é bem possível que depois de entrar lá fora a gente consiga entrar em algum brasileiro, porque tem um pouco disso, a gente só valoriza o filme quando outros deram o selo de que ele é importante. Acho que tem um orgulho real de ser brasileiro, mas ele também às vezes precisa de uma certa validação. Então esse festival vem para validar a qualidade do filme, a qualidade da história, o valor da história. E a gente tá com um anúncio que vai sair em breve também de um outro festival, aqui nos Estados Unidos. Então a gente tá bem empolgado com tudo que tá para sair. Porque agora é isso, eu acho e o mais desafiador é para nós é realmente fazer o filme chegar e ser visto e quem que vai assisti-lo. Então, como a gente ainda não tem distribuidor e esse suporte de fazer o filme chegar nas pessoas, esses selos são importantes justamente para validar. Porque com essas validações, as distribuidoras entendem que o filme tem o seu respeito, seu valor e que tem o seu público. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos aos nossos entrevistados que indiquem filmes nacionais que acham que o público deva assistir. Quais seriam suas indicações? Thales Banzai: Eu vou pegar algum que tem a ver com o nosso filme, então eu indicaria O Bandido da Luz Vermelha, do [Rogério] Sganzerla, que acho que tem muito a ver com essa São Paulo que a gente retrata ali no filme, acho que é uma boa conexão. Camila Cornelsen: Los Angeles é uma cidade muito do cinema e passa muito filme, a gente engole filme aqui. E reassistimos recentemente um filme que eu lembro de ter visto quando criança, mas que faz muito sentido com esse momento do nosso cinema após Bolsonaro, que é o Carlota Joaquina – A Princesa do Brasil. Esse filme foi o primeiro feito depois de uma baita recessão no país, e eu acho que de certa forma estamos vivenciando isso no pós-Bolsonaro. A obra em si é a reunião de dois gênios da dramaturgia, a Marieta Severo e o Marco Nanini. Então apesar de não ser exatamente o tipo de filme que eu amo e gosto de assistir, eu me diverti muito revendo e eu acho que ele tem um espírito incrível e é meio que um grande clássico. Iraci Estrela: Eu indico assim que tá no universo do nosso filme, mesmo que de forma distante, que é Bacurau. Esse é um filme que eu assisto todas as vezes que tá passando, porque todas as vezes que eu assisto vejo uma coisa nova. Então eu indico ele porque está no nosso subconsciente, até mesmo com a substância [usada pelos personagens em Antônio Odisseia].

  • Crítica | Destruição Final 2 (2026)

    Continuação não economiza na destruição para passar mensagem ecológica de positividade tóxica Imagem: Divulgação Dando continuidade à história do primeiro filme, a família Garrity, que sobreviveu a um evento de quase extinção quando um cometa interestelar atingiu a Terra, precisa deixar a segurança do bunker na Groenlândia e embarcar em uma jornada perigosa através do deserto congelado e devastado da Europa para encontrar um novo lar e uma esperança de recomeço. Possuo o anseio ancestral de ver o ser humano pagar por seu descaso ambiental em forma de filmes catástrofes. É um entretenimento que se justifica com pouquíssimo texto e que requer, para mim pelo menos, apenas bons efeitos que consigam sustentar os absurdos geológicos até o minuto final. Então o primeiro Destruição Final (2020) fez direito o arroz com feijão e passou por média nos meus critérios citados, e ainda deixou o pano para manga de um eventual desdobramento, que de fato aconteceu, provando que a destruição inicial não era de fato a final. Agora a simpática família está morando no bunker onde se enfiou ao término da produção anterior, mas não demora para que tudo desmorone, literalmente, e eles precisem botar a cara no mundo exterior outra vez para procurar um novo abrigo. A premissa é simples, direta e desenha bem os limites narrativos (não que isso seja necessário para o bom funcionamento da história), e deixa toda a surpresa e o entretenimento de fato para o visual e seus exageros. E mais uma vez a produção faz apenas o necessário para passar sem grandes falhas, apesar de caprichar na variedade de elementos vingativos da natureza, mas também não ousa brincar com o potencial do tema para criar situações que surpreendam e/ou planos marcantes o suficiente para serem lembrados. Imagem: Divulgação O longa também se isenta de aprofundar o debate sobre o papel do ser humano em meio ao caos ambiental, uma vez que usa de uma “causa natural” como motivadora dos desastres. A mensagem de união e paz para recomeçar soa mais como uma cansada versão da cansada canção Imagine, e menos como uma tentativa real de elaborar uma trama social e geopolítica minimamente complexa que imprima alguma semelhança com a realidade fora do espaço fílmico. É um escapismo que se disfarça de engajado, mas é até bem covarde. Mas talvez eu estivesse esperando demais de um filme catástrofe que passou por média nos meus critérios citados. É um trabalho que entretém dentro de sua curta duração, mas que não faz o menor esforço para ir além disso, e talvez nem quisesse desde o início. Nota: 3/5

  • “O Brasil faz as melhores novelas do mundo”: elenco e produção falam sobre Dona Beja em coletiva de imprensa

    Nova novela da HBO Max estreia em 2 de fevereiro e reescreve história real sobre empoderamento feminino Imagem: Coletiva de Imprensa Dona Beja/HBO Max Nesta terça-feira (27), a HBO Max realizou a coletiva de imprensa de sua nova novela, Dona Beja, que estreia a partir do dia 2 de fevereiro. A produção marca o retorno da plataforma à teledramaturgia brasileira após o sucesso de Beleza Fatal e reforça a aposta no formato de novelas para o streaming, inaugurando um novo momento para o mercado audiovisual brasileiro. Exibida originalmente em 1986, Dona Beja não é um remake, mas uma releitura contemporânea do clássico da Rede Manchete, agora apresentada em 40 capítulos. Assim como Beleza Fatal, a produção consolida o investimento do streaming em narrativas longas, com identidade brasileira e abordagem atualizada. Inspirada na trajetória histórica de Ana Jacinta de São José (1800–1873), a trama revisita uma personagem que, ao longo do tempo, foi cercada por mitos. Como lembrou a equipe durante a coletiva, a Beja que atravessou o imaginário popular é, em grande parte, fruto da imaginação de um jornalista, enquanto a figura histórica era, na realidade, uma mulher que vivia sozinha com dois filhos. A novela parte dessa construção simbólica para contar uma história sobre coragem e ousadia, abrindo caminhos para discussões que existiam naquele tempo e que permanecem atuais. Dirigida por Hugo de Sousa, a novela não suaviza seus conflitos centrais. O julgamento social, especialmente imposto por outras mulheres, as questões religiosas e a hipocrisia moral de uma sociedade conservadora atravessam a narrativa. Temas como racismo, transfobia, homofobia e a imposição de normas de comportamento e afeto surgem de forma direta, afastando qualquer olhar puritano sobre a protagonista. É nesse contexto que a discussão sobre sexualidade e afetos ganha destaque. Durante a coletiva, Indira Nascimento ressaltou como a novela dialoga com experiências que, no passado, sequer tinham vocabulário para serem debatidas. “A gente vive uma heterossexualidade compulsória e, na época, não tinha os termos para discutir isso. Se eu, com 12 ou 15 anos, tivesse assistido a uma novela com uma personagem que descobre que talvez seja de outra sexualidade, isso teria mudado a minha vida”, afirmou a atriz. Segundo ela, o avanço na representatividade feminina e LGBTQIA+ na televisão amplia possibilidades de identificação. “Hoje a gente vê mais personagens mulheres se relacionando na TV, e, no geral, o nosso trabalho fala justamente sobre essas normas”. Para Indira, Dona Beja pode ter um impacto direto sobre o público jovem: “Meu desejo é que meninas assistam a essa novela e pensem: ‘será que meu afeto não pode passar por aqui?’ E que, se se descobrirem em uma sexualidade, saibam que isso também é possível”. Durante a coletiva de imprensa, estiveram presentes integrantes do elenco principal, como Grazi Massafera (Ana Jacinta de São José / Dona Beja), David Junior (Antônio Sampaio), André Luiz Miranda (João Carneiro de Mendonça), Deborah Evelyn (Cecília Sampaio – Ceci), Erika Januza (Cândida da Serra – Candinha), Thalma de Freitas (Josefa Carneiro de Mendonça), Indira Nascimento (Maria Felizardo Sampaio) e Pedro Fasanaro (Severina). Também participaram do encontro Daniel Berlinsky, escritor da produção, e Renata Rezende, representante da Warner Bros. Discovery. Imagem: Coletiva de Imprensa Dona Beja/HBO Max Nos cinco primeiros episódios disponibilizados para a imprensa, Dona Beja se apresenta como uma novela de época que, em sua abordagem moderna, reafirma esses debates sociais. Beja surge como uma mulher livre que, em determinado momento, se vê presa a um homem agressivo, mas que encontra caminhos para se libertar e também empoderar outras mulheres. A questão racial também ocupa um lugar central na narrativa. Como destacou André Luiz Miranda, a novela propõe um olhar diferente sobre personagens negros dentro do contexto histórico, fugindo de estereótipos e reposicionando essas figuras de forma mais complexa e humana. Vivendo a protagonista, Grazi Massafera comentou sobre a recepção que a novela pode ter. “Os conservadores vão falar que é lacração, mas que falem. A novela coloca o dedo na ferida da sociedade”, afirmou a atriz, que classificou o projeto como “uma das novelas que mais gostei de fazer”. Segundo ela, críticas e tentativas de deslegitimar a obra já fazem parte do processo criativo atual: “Muita gente vai tentar tirar a dignidade da nossa história. Sinto que, nesses últimos anos de rede social, estamos acostumados a transformar a crítica em força”. O cuidado estético é outro destaque da produção. A trilha sonora surge em momentos precisos, ampliando a carga dramática das cenas, enquanto os cenários, figurinos e o design de produção ajudam a transportar o espectador para o ano de 1815. Para Thalma de Freitas, o projeto reafirma a força do audiovisual nacional: “O Brasil faz as melhores novelas do mundo”. Mais do que uma releitura histórica, Dona Beja se firma como uma obra que aposta na coragem narrativa e na ousadia temática, reafirmando a potência da teledramaturgia brasileira no streaming.

  • Crítica | O Último Azul

    A desmistificação do envelhecimento e a luta pela autonomia na terceira idade. Divulgação A autonomia e resistência são os temas centrais de O Último Azul, o novo longa de Gabriel Mascaro, que conquistou o Grande Prêmio do Júri (Urso de Prata) no Festival de Berlim 2025 e dois outros prêmios paralelos — o Júri Ecumênico e o prêmio do público do Berliner Morgenpost. O filme mostra com sensibilidade temas como etarismo, envelhecimento e resistência. O Último Azul se passa em um Brasil distópico onde os idosos são recompensados por suas contribuições à sociedade. A recompensa? Uma intervenção brega na porta de casa e uma passagem só de ida para A Colônia, um espaço de moradia apenas para idosos. É nesse pano de fundo que nos apresentam Tereza, uma senhora que se recusa a ser compulsoriamente aposentada sem realizar o próprio sonho: voar de avião. Ao assistir o filme, por diversas vezes lembrei da minha avó que se recusa a ser invisibilizada na sociedade. Dona Sônia, minha avó, assim como Tereza, mesmo depois dos 70 anos continua andando sozinha, fazendo compras, passeando, viajando e vivendo, coisa que parece ofensiva para a sociedade do filme. Denise Weinberg é muito sutil ao mostrar que o problema de Tereza não é envelhecer ou ser cuidada por estar idosa, e sim com a invalidez que querem empregar nela por isso. As interações dela com os personagens de Rodrigo Santoro e Adanilo demonstram que a conexão e o carinho são possíveis sem as máscaras intervencionistas. Divulgação Além disso, Mascaro traz uma leitura gentil de como a terceira idade não torna o cidadão em terceira classe. O mérito do filme é mostrar como o envelhecimento não é ruína, mas sim mais uma etapa da vida que merece ser vivida. É estar ativo, no pensamento, no desejo, é uma forma profunda de recusa à irrelevância. Tereza não deseja morrer; ela busca um último ato de liberdade. É uma ode à autonomia, à escolha e à dignidade, em meio a um sistema que tende a reduzir o idoso a estatística. Visualmente o filme é aconchegante. Gravado no clássico 4:3, cada plano parece estudar o tempo — o silêncio, a vida acumulada nas rugas, o rio como órbita de memória. A sensibilização não está na tragédia, mas na constatação de que a dignidade humana não pode ser medida em produtividade. O Último Azul é uma metáfora de nosso Brasil: um pouco místico, terno e inquietante. Ele nos faz perguntar: até que ponto uma sociedade é justa se ignora quem já viveu a maior parte da vida? Tereza propõe uma resposta: um último passeio, uma viagem simbólica que, mesmo por dias, devolve a ela — e a nós — um pouco da humanidade que insistimos em perder. Nota: 4/5

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