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  • Crítica | Eles Vão Te Matar (2026)

    Aventura, terror e comédia se misturam em filme divertido com referências claras e sem grandes pretensões. Imagem: Divulgação Uma mulher responde a um anúncio enigmático para uma vaga de governanta em um luxuoso e sombrio arranha-céu em Nova York. Ao chegar, ela descobre que moradores desapareceram sem deixar rastros por décadas, alimentando boatos de um segredo maligno escondido nas sombras. O longa Eles Vão Te Matar deixa evidente desde seus primeiros minutos que não pretende se esconder atrás de sutilezas. Sob a direção de Kirill Sokolov, a obra abraça um estilo exagerado e energético, assumindo suas inspirações sem receio. É a produção pós-Kill Bill que mais exalta a energia Kill Bill descaradamente. E isto se encontra não apenas na violência estilizada, mas também na cadência das cenas de ação e no gosto por composições visuais marcantes com forte influência do cinema oriental. A cenografia é um dos trunfos da experiência, com ambientes que não apenas servem de pano de fundo, mas impulsionam a narrativa. O prédio ganha vida como um personagem próprio, repleto de detalhes e enquadramentos quase que teatrais, que enriquecem a sensação de mistério e perigo constante. Esse cuidado visual somado a um desenho de som límpido, que valoriza cada impacto, cada passo e cada momento de tensão, contribui para a imersão do espectador. Outro destaque é o trabalho de câmera, ágil e preciso, que acompanha o ritmo frenético da trama sem perder clareza. Os movimentos ajudam a construir momentos chave com eficiência, especialmente nas sequências de ação, onde a coreografia violenta ganha ainda mais força. Há um senso de timing bem ajustado, que mantém o público envolvido mesmo quando a narrativa decide abraçar o caos. Imagem: Divulgação Ainda assim, o filme claramente passa do ponto em alguns momentos, tanto nos efeitos visuais quanto nos efeitos práticos, o que não é exatamente um problema, mas também não ajuda na contenção dos limites imaginários na narrativa. O exagero é constante e por vezes quase caricatural, mas curiosamente isso se transforma em parte essencial do charme do longa. Em um cenário atual marcado por produções mais padronizadas, essa ousadia acaba funcionando como um diferencial e oferece algo que foge do previsível. O elenco acompanha esse espírito com entusiasmo visível. Há um senso de diversão coletiva, como se todos estivessem plenamente conscientes da bagunça institucionalizada proposta pelo nem sempre tão forte roteiro. O texto tem sim seus cutucões sociais também escrachados, mas escolhe não se aprofundar tanto nesta abordagem. As atuações exigem entrega física e isso aparece em cena, aliás um trabalho espetacular da equipe de dublês, tornando as situações-absurdo mais memoráveis e mais impactantes. É um tipo de filme que não surge mais com frequência, quase artesanal em sua construção, mas que consegue imprimir personalidade e originalidade mesmo apoiado em referências tão explícitas. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Treta (2ª temporada)

    Mais personagens com protagonismo não foi a melhor ideia para superar o brilhantismo do ano de estreia. Imagem: Divulgação Quando estreou lá em 2023, Beef (ou Treta aqui no Brasil) me arrebatou de cara. Inicialmente, seria uma minissérie – o que já faria dela uma das melhores coisas que a Netflix já fez, mas dado o tremendo sucesso, a renovação aconteceu e a transformaram em uma série antológica, como acontece de vez em quando. Ainda é uma das melhores coisas do streaming? Definitivamente. A 2ª é tão boa quanto a 1ª? Definitivamente não, mas passa longe de ser ruim. Desta vez, a trama é focada em quatro personagens (ou cinco, quase). Um casal jovem e apaixonado que não consegue se desgrudar, feitos por Cailee Spaeny e Charles Melton, que acabam flagrando uma terrível briga entre um casal mais maduro, interpretado por Oscar Isaac e Carey Mulligan – em uma reunião nostálgica para os fãs do excelente Inside Llewyn Davis, como este que vos fala. E é daí que começa a treta do ano. O problema é que ela me soou menos orgânica do que a briga no trânsito da 1ª temporada, e portanto, quando tudo vai escalonando, há uma fragilidade mais aparente do roteiro. Josh (Isaac) é gerente de um clube de alto escalão que acaba de ser comprado por uma bilionária sul-coreana, que é o papel da vencedora do Oscar Youn Yuh-jung. Josh é casado com Lindsay (Mulligan), mas a relação já não está das melhores, e com toda a aflição das possíveis mudanças, tudo piora. Ashley (Spaeny) tem um emprego pequeno no mesmo clube e seu noivo Austin (Melton) tem menos ainda, pois trabalha apenas meio-período. Já perceberam a pirâmide das classes sociais refletidas nos relacionamentos aqui? Pois é, é um dos temas basilares da temporada, sendo os debates sobre capitalismo um dos principais motores. Austin e Ashley querem mudar de vida, enquanto Josh e Lindsay querem mais do que têm, enquanto a Presidenta Park (Yuh-jung) quer manter o império que já possui. Tudo isso leva os personagens do ponto A ao ponto B, mas a devida substância em cada um deles, porque afinal, mesmo estando em relacionamentos – que é o maior debate – eles ainda são indivíduos. Na primeira temporada, tínhamos dois protagonistas, tudo girava em torno deles e os eventos escalonavam com naturalidade, por mais absurdos que fossem. Agora nesta segunda, alguns me parecem um tanto forçados, devo dizer, e o absurdo não soa mais tão genuíno assim, bem como os personagens mostrando suas piores facetas, justamente por não ter este desenvolvimento mais aprofundado em cada um deles. Josh é um homem de 40 anos meio acomodado com a vida que leva, mas ainda assim com um sentimento de que não pertence aquele lugar, mas finge pertencer. Enquanto Lindsay, insatisfeita com o casamento e com a vida estagnada, clama por alguma mudança já que não pode voltar no tempo e fazer outras escolhas. Ashley é uma jovem louca para formar uma família e Austin é um bobão que faz tudo o que todo mundo quer. Claro, de início, até que as situações vão mostrando novas facetas, boas e ruins. Imagem: Divulgação O elenco, claro, fantástico. Oscar Isaac divide seu Josh entre a amargura e o desconforto, enquanto tenta disfarçar suas verdadeiras emoções. Carey Mulligan tem o rosto mais doce do mundo e sempre parece ser boazinha, mas eu adoro ver quando ela não é. A atriz é versátil e tem um controle genial ao mostrar suas emoções. Cailee Spaeny tem uma personagem onde a juventude salta aos olhos, bem como a inquietude de meter os pés pelas mãos – o que todos fazem, na verdade. Charles Melton, para mim, o destaque principal. Justamente por seu Austin ser tão subdesenvolvido pelo texto, o ator mostra sua força que já surpreendeu em May December e consegue nos dar informações de suas inseguranças com uma sutileza impecável. Youn Yuh-jung tem um papel bem diferente dos que eu a vi, como em Minari ou Pachinko, e foi um deleite assisti-la em algo mais vilanesco, digamos assim. Todos eles e os mais diversos coadjuvantes – até participações de alguns famosos como eles mesmos – brilham no tom da série, passeando com facilidade entre o drama e o humor. Formigas são sinônimo de persistência, força e união. Então não é à toa que aparecem em vários momentos dos oito episódios para nos lembrar de que aqueles personagens podem não se amar, e até se odiar às vezes, mas precisam um do outro para sobreviver, como casal, pelo menos. E ainda que este segundo ano não seja tão substanciado ou bem equilibrado como o primeiro, ele ainda é acima da média de tantas produções que temos hoje em dia. A direção excelente é prova disso, não só por tirar o melhor dos atores, mas indo de belíssimos enquadramentos à insanos planos-sequências, ditando o tom da loucura que é a série. Outros aspectos como os figurinos, que realmente conversavam com os personagens, a trilha sonora espectacular e o design de produção tão cuidadoso mostrado principalmente nas desigualdades sociais. São detalhes que fazem o valor de uma produção. No entanto, Lee Sung Jin pecou pelo excesso de personagens centrais, não dando o desenvolvimento que eles mereciam. Ainda temos excelentes cenas e momentos pelos episódios, mas substancialmente faltou. O final, que não é ruim, reflete esta queda de uma temporada para outra. Enquanto o primeiro tem uma pegada mais filosófica que encerra um ciclo, nesta segunda vemos que a vida é cíclica e de uma maneira mais cínica e pouco surpreendente, não que seja isso seja um defeito, é apenas uma constatação. Treta ainda é uma das melhores coisas no ar, mas definitivamente a primeira a gente nunca esquece. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Maldição da Múmia

    Terror surpreende por não medir esforço para chocar, mesmo com obstáculos na narrativa. Divulgação Katie, a jovem filha de um jornalista estadunidense, desaparece no Cairo sem deixar rastros. Oito anos depois, a dilacerada família já de volta aos EUA fica chocada quando recebem a notícia de que sua filha está viva e fora encontrada. Após resgatarem a menina e voltarem para casa, o que deveria ser um reencontro feliz se transforma em um pesadelo vivo. Maldição da Múmia é o tipo de filme onde o espectador que chega desinformado não faz ideia do que esperar e ainda assim não é nada do que se espera. Sob o comando de Lee Cronin, a produção mergulha de cabeça no grotesco e não economiza nos visuais, apostando em imagens e situações feitas justamente para incomodar. É um trabalho assumidamente gore, que aproveita toda oportunidade que encontra para empurrar suas ideias até o limite do absurdo, quase desafiando o espectador a continuar encarando. O terror físico aqui não é sugestão, é exposição direta, detalhada, sem pudor algum em mostrar cada camada do que está acontecendo. Nesse cenário, o que mais chama atenção é como a estrutura física de Katie, já transformada em múmia, se torna peça central da narrativa. Mais do que símbolos antigos ou referências fáceis ao misticismo, o longa encontra força no corpo em decomposição e em movimento. A atuação de Natalie Grace é um espetáculo à parte, com um trabalho corporal impressionante que sustenta boa parte da tensão. Cada movimento estranho, cada contorção desconfortável, ajuda a construir um clima agonizante que entranha na pele de quem assiste. Divulgação Curiosamente, a produção cresce justamente quando decide largar qualquer amarra com lógica ou plausibilidade. Quanto mais exagera, melhor funciona. O desfecho vai se tornando cada vez mais incômodo de olhar, quase insuportável em alguns momentos, mas também impossível de ignorar. Ainda assim, fica aquela sensação de que o excesso de elementos, monstros, frases soltas, orações, encantamentos e rituais acaba se resolvendo de maneira simplória demais, como se tantas ideias interessantes fossem encaixadas às pressas. Além disso, o texto também tenta construir uma camada emocional que vai além do impacto visual imediato. Em alguns momentos, isso funciona melhor do que se poderia esperar, adicionando textura e um certo peso dramático que ajuda a sustentar a narrativa. Essa abordagem evita que a história se torne apenas um desfile de horrores desconectados, diminuindo o distanciamento que o teor sobrenatural poderia causar. Quando acerta esse tom, o longa encontra um equilíbrio interessante entre o choque e o envolvimento. Mesmo com essas escolhas questionáveis, o trabalho entrega bons momentos de susto e até um suspense investigativo que sustenta o ritmo. É uma nova perspectiva sobre uma assombração mitológica conhecida no mundo inteiro, tentando encontrar seu próprio caminho dentro de um terreno já explorado. Pode até deixar pontas soltas entre causas e consequências e apresentar soluções que não fecham completamente os buracos, mas é uma produção que se leva a sério e não desperdiça nenhuma chance de chocar, e isso merece respeito. Nota: 3/5

  • Entrevista | “Desejo que as pessoas de Goiânia se sintam homenageadas com esse trabalho”: Ana Costa fala sobre “Emergência Radioativa”

    Atriz destacou importância da série para conscientização sobre o caso e reflete sobre saída do Nordeste para construção de sua carreira no eixo Rio São Paulo. Divulgação Mesmo separadas por uma distância de pouco mais de 1.500 km, a cidade piauiense de São Raimundo Nonato e a capital goiana passaram a compartilhar uma conexão significativa. Lançada no dia 18 de março, a série da Netflix Emergência Radioativa, segundo a revista Exame, já soma mais de 10,8 milhões de visualizações e alcançou o Top 10 em 55 países. Entre nomes como Jonny Massaro, Marina Merlino, Bukassa Kabengele e Alan Rocha, Ana Costa coloca o Piauí em evidência ao interpretar Antônia. Inspirada em Maria Gabriela Ferreira — responsável por levar a cápsula com Césio-137 à Vigilância Sanitária e que se tornou símbolo da tragédia —, a personagem traz à tona a luta e as dores de uma heroína que impactou o destino de uma cidade inteira. Em conversa com o Oxente Pipoca, a atriz falou sobre a importância de retratar narrativas de impacto social, a responsabilidade de dar vida à Antônia, o trabalho com o diretor Fernando Coimbra e compartilhou um pouco de sua trajetória profissional. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Parabéns pela série Ana, que série maravilhosa. Quando sua entrevista chegou para mim, eu tinha acabado de ver a morte da Antônia. Aquilo me doeu de uma forma, meu Deus. Vou reviver todo aquele luto de novo conversando aqui com você! Ana Costa: Ô, mulher, é um momento bem delicado, assim. Para você ter uma ideia, eu fiz a série, mas quando eu assisto, não tem condição. A gente já assistiu tantas vezes, o elenco já assistiu junto, já assisti com amigos, e era sempre muito profundo para mim. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Então vou começar falando sobre Emergência Radioativa. Apesar de ser um caso que agora se sabe que teve uma repercussão mundial, ele certamente chegou com mais impacto na região centro-oeste, sudeste, principalmente ali em Goiânia. Para você, como nordestina e como piauiense, como essa história chegou? Ana Costa: Eu conto sempre para as pessoas que, na época, eu tinha sete anos, e eu juro, nunca ouvi falar sobre o caso. Eu vim conhecer o caso depois que fui aprovada para esse trabalho, foi aí que entramos com uma pesquisa profunda sobre, estudando sempre, continuo até hoje. Tem tanta coisa acontecendo, e eu me percebo ainda com mais curiosidade sobre tudo. Então, eu falei com os meus pais e aí eles me falaram. Inclusive, na época que eu contei, ano passado, eles até falaram que tinham a intenção de mandar rejeitos também para o Piauí, lá em Valença. E isso é uma coisa que a gente não via. Quando você dá um Google, e vai pesquisar sobre o Césio, você não vê essa informação. E agora, recentemente, com esse boom da série, surgiram algumas postagens, as pessoas estão mandando para mim, inclusive fotos de manifestações que aconteceram lá em Valença no Piauí, que é o meu estado. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Então, você teve essa responsabilidade muito grande de trazer a história da Maria Gabriela, mesmo que não diretamente, já que foram mudadas algumas coisas, mas você já havia estado dentro de uma história baseada em fatos reais em Tremembé, mas agora para a Ana, interpretar um personagem tão forte, que é símbolo de um acontecimento tão devastador, qual foi o peso disso tudo para o seu pessoal e para a Ana atriz também? Ana Costa: É um peso bem diferente do que aconteceu em Tremembé, porque a minha personagem em Tremembé não era inspirada numa pessoa real. No caso de Emergência Radioativa, sim. E vem toda essa responsabilidade, né? A gente entende que como atriz, independente de qualquer história que está sendo contada, sendo ela inspirada num caso real ou não, a gente já tem essa responsabilidade embutida porque é formador de opinião. Então, assim, tem pessoas ali te assistindo, muita gente ouve aquilo que você diz enquanto personagem, e traz para a vida. Então, imagina, representar pessoas reais num acidente que marcou tantas vidas, que está marcando ainda mais agora com a história voltando. Eu só consigo enxergar, assim, muito respeito, continuo tendo mais respeito pela história. A Ana, enquanto atriz, muito responsável...feliz por poder contar essa história dessa maneira e por participar dessa narrativa. Eu sinto que a partir de agora, em meus próximos trabalhos vou sempre lembrar da Antônia nesse lugar, independente se eu só pegar ficções e não histórias inspiradas em casos reais, eu vou sempre lembrar de contar essa história com muita profundidade, respeito à memória das pessoas, das vítimas envolvidas, e trazer isso para a vida agora, sabe? Ser uma contadora de história requer muita responsabilidade. Divulgação Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Que lindo. Eu li em uma entrevista que você não reconheceu o Fernando Coimbra de primeira, né? Achei sensacional! Eu queria que você falasse um pouco como foi esse processo de audição e qual foi o momento que caiu a ficha que você ia estar trabalhando com uma equipe tão grande como essa, você trabalhou com nomes gigantes ali, como o Johnny Massaro, por exemplo, que está com tudo agora. Queria que você contasse um pouquinho mais sobre esse processo. Ana Costa: Olha, essa história, eu falo que foi assim, a cereja do bolo. Porque pensa só, o Fernando Coimbra é gigante. Imagina se eu sei que aquele homem que está ali dentro é ele, quando eu entrei para fazer o teste. Eu ia tremer. Por que isso acontece? A gente vem de uma onda de muito selftape. Desde a pandemia, isso virou muito recorrente. Então, assim, não são todas as produções que te chamam para um teste presencial. Quando eu fiz o teste para Emergência Radioativa, eu fiz um self-tape primeiro, em dezembro, que acredito que foi um teste genérico. Todas as mulheres faziam o teste para Catarina, todos os homens faziam o Evenildo, algo assim. Fiz aqui na minha cozinha, comendo cuscuz, inclusive. Foi bem legal esse teste. Mandei para eles. E aí foram tentativas de presencial até que aconteceu no dia 5 de fevereiro, inclusive. Só que, assim, não é descaso com a quantidade de teste, mas é que a gente já vem tão desgastado, sabe, fazendo teste, que você nem olha muito ali as informações que vêm da ficha técnica da equipe. Você olha a sinopse da personagem quando te mandam, um pedacinho falando alguma coisa dela, porque senão você tem que adivinhar o que você vai fazer. E depois de tudo vai para o texto. Quando eu vi lá o que dizia o texto, aí fui atrás da história mesmo. A minha agente, a Nani, acabou falando, “Isso é um caso real, pesquisa! ” Então, eu pesquisei antes do teste e fui. Não olhei os nomes, porque depois que acabou o teste, que fui olhar a mensagem da assistente da minha agente, eu vi estava escrito “Fernando Coimbra”, foi quando fui no Instagram e vi a cara do homem. Falei “Meu Deus, eu estava com o Fernando Coimbra! ” Mas foi tão maravilhoso, foi genial, porque o Fernando, além desse grande diretor, ele é ator também. Então, ele te traz tanta tranquilidade. Dentro da sala tinha o diretor, uma atriz fazendo réplica para mim, que a Rebeca, que inclusive está na série também. E um fotógrafo com a câmera, em movimento, tá? Que é uma delícia. Então, o teste foi em movimento. Muito legal. E eu já cheguei conversando.... Tinha encontrado com o Felipe Frazão... Saindo do teste também, que é um querido com quem trabalhei no meu segundo trabalho na TV... Estava bem à vontade e o teste foi muito bonito. O Fernando tem muita empatia, ele me dava coordenadas ali, a gente fez uma vez, depois ele falava “Agora vamos experimentar tal coisa”... E fomos por aí. Falei que era do Piauí, ele já foi para o Piauí também, e a gente entrou com o assunto Serra da Capivara, e quando vimos, se passaram horas no teste. E eu sou muito grata por esse momento, porque era pra ser minha mesmo, Antônia. Eu adoro quando ele diz que quando eu saí da sala, ele falou, “Achamos Antônia”. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Deve ter sido muito emocionante receber esse feedback do Fernando Coimbra. Ana Costa: Nossa, muito. Assim, no set ele é tão parceiro, não é aquele.... Porque eu venho do teatro, né? Então estou muito acostumada com o estereótipo do diretor que é carrasco, que tem que ser. Ele é autoridade máxima dentro de um set. Então, óbvio que a gente respeita essa hierarquia, mas com o Fernando parecia que a gente estava ali, em um grupo de teatro, todo mundo fazendo junto, daqui a pouco vai tocar o terceiro sinal e vai todo mundo fazer e entregar o seu melhor. Foi assim, eu nunca mais vou esquecer essa experiência. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Na mesma entrevista, você falou um pouco que esperava que a série atraísse o olhar das pessoas. Levando em consideração que a série alcançou o top 1 da Netflix, e se consolidou no ranking de muitos países, eu queria que você falasse um pouquinho, acima de tudo, como você espera que as pessoas daquela região que foram diretamente ou indiretamente afetadas por essa situação enxerguem o trabalho de vocês? Ana Costa: Você sabe que quando a gente começou a fazer esse trabalho a nossa maior preocupação era de fato com as pessoas de Goiânia com as famílias que foram atravessadas com esse acidente. Porque para nós jamais faria sentido se não chegasse neles da maneira como a gente gostaria que chegasse, que foi uma maneira respeitosa, cuidadosa, com muita sensibilidade com respeito, acima de tudo. Então, não vou mentir para você, a gente ficou apreensivo de como eles receberiam. E tem sido esplêndido receber mensagens dos goianos. Eu recebo muitas mensagens de Goiânia, do Goiás, no geral, no Instagram. Eles se sentem sim representados. Claro que não dá para agradar todo mundo, mas mais que agradar, a gente entende que o importante está sendo feito, que as pessoas enxergarem que o trabalho é para além de entretenimento. Realmente, a gente está ali usando a função da arte mesmo como um produto de transformação social. Porque eu tenho falado com muita gente que nunca ouviu falar sobre esse acidente, com pessoas que tinham ouvido e não lembrava mais. Então, assim, como é importante ter Emergência Radioativa aí no topo para a gente não esquecer…. Eu acho que ninguém nunca mais vai esquecer desse acontecimento, né? Eu desejo que as pessoas de Goiânia, as pessoas que foram afetadas de maneira direta, até indiretamente, com esse acidente, se sintam homenageadas com esse trabalho. Porque a nossa intenção, de fato, sempre foi contar essa história para que ela jamais possa ser esquecida, para que a gente não caia no vacilo de repetir algo tão doloroso. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Verdade. Para a gente aqui do Oxente Pipoca, hoje eu falo de Sergipe, que é o menor estado do país. É maravilhoso poder falar uma nordestina presente em uma produção desse nível. Não é seu primeiro trabalho numa plataforma grande, mas eu queria que você contasse um pouco da sua trajetória desde São Raimundo Nonato, não é isso? Até aqui. E hoje você se estabeleceu 100% no Eixo Rio-São Paulo? Ana Costa: Sim, 100%. Eu tô aqui desde 1999, que eu acho que tu nem era nascida. Eu tô aqui há bastante tempo. Tanto que, assim, sofro bullying pelos meus amigos do Piauí, porque meu sotaque ficou aquela coisa misturada. Mas não tem como, ainda mais trabalhando com arte. Às vezes você pega um trabalho que as pessoas pedem que você “neutralize” o seu sotaque. Então a gente tem que trabalhar dessa maneira. Mas eu saí de lá com 18 aninhos, tinha acabado de me formar como professora lá em São Raimundo. A vida toda eu fui ligada à arte. A gente dançava, interpretava, criava historinhas na escola. Dos 17 aos 18 trabalhei com comunicação diretamente, trabalhei em rádio, tive programa Jornalístico, programa musical Jornalista. Então quando eu cheguei aqui em São Paulo, lembro de ter na minha mente essa ideia de buscar cursos de teatro. Eu queria ir para a televisão queria mesmo, mas eu entendi pelo menos aqui que o teatro era o início de tudo, que é a base, e graças a Deus eu escutei, porque eu fiquei de 2006 até 2018 só fazendo teatro. Participei de vários coletivos aqui em São Paulo, coletivos muito importantes, que formaram a atriz que eu sou hoje. Em 2018, depois de algum tempo, fui testando pra séries, mas não aprovava, porque eu fazia tudo muito grande. De tantos nãos eu fui aprendendo. Daí consegui meu primeiro trabalho, que foi Carcereiros 2, para a Globoplay. Com a Neide Aparecida, que era coadjuvante. Então, assim, são dois episódios e a personagem muito importante para a resolução de um contexto ali envolvendo um dos protagonistas, que é o Tony Tornado. No mesmo ano eu fiz Show da História, que eu faço uma indígena marajoara, onde eu conheci o Frazão, que eu te contei aqui a pouco. Participei de Ninguém Tá Olhando, que também é uma série premiada da Netflix, DNA do crime, sempre pequenas participações. Às vezes, chegava teste pra grandes personagens, mas eu ouvia “ Ana foi maravilhosa, a Ana foi ótima, mas infelizmente esse papel a gente não vai conseguir agora para ela. Será que ela topa fazer tal coisa” E a gente vai topando até chegar num lugar que a gente diz, não mais. Eu tenho 45 anos, tenho essa estrada toda, aprendendo, porque a gente nunca vai parar de aprender. Mas chega em alguns momentos que você precisa dizer uns nãos para poder que os sims. E aconteceu isso com a minha Emergência Radioativa. Quando eu recebi a aprovação e estava lá a atriz principal, eu juro, estava na fila de cinema com uma amiga. Eu só não cai para trás, porque eu sou nordestina resistente. Desde então estou no Rio de Janeiro fazendo esses trabalhos. Ano passado eu filmei um longa e fiquei um mês lá, que era um desejo muito grande daquela criança interior. Porque a gente criança no Nordeste, cidadezinha bem pequenininha, você cresce vendo novela, né? Você cresce vendo Leblon, Manuel Carlos. Ipanema, o céu, o cristo lá na ponta. E eu vivi a minha experiência, assim. É um longa que sai em breve e a gente vai poder falar sobre ele. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Estamos presenciando uma ascensão muito grande de artistas nordestinos, de filmes nordestinos. Só que o Nordeste é composto por nove estados que nem sempre são muito desbravados. Eu queria saber se tem alguma história do seu estado que ainda não foi contada e que você acha que merecia ser contada. E se você tem projetos para trabalhar em papéis nordestinos? Ana Costa: Eu sempre falo o seguinte, tem muita coisa para ser contada. Eu adoraria que fizessem um trabalho relacionando a Serra da Capivara. Os nômades ali, sabe? A ancestralidade daquela região. Eu desejo muito fazer uma personagem sertaneja e trazer todas essas camadas dessa mulher que nem preciso contar muito, mas que você olha e já identifique, sabe? Toda a força que tem atrás dela. Então, o meu desejo é latente. Adoraria filmar no Nordeste, mas principalmente ali, no sertão do Piauí, desbravando aquelas serras, contando um pouco dessa história relacionada à Serra da Capivara. A gente tem hoje um turismo cultural e histórico muito forte. Então, ia ser incrível para mim nas telas do cinema, uma personagem de São Raimundo Nonato, Serra da Capivara, Cânions do Viana, sabe? Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Então, por último, nós temos uma tradição aqui no Oxente Pipoca de pedir para nosso entrevistado uma indicação de filme ou série brasileira que você ache que o nosso público deveria assistir. Ana Costa: A série que eu quero indicar pra vocês é Emergência Radioativa. A gente é muito rico, né? Muito rico. Mas eu quero continuar indicando a Emergência Radioativa, sim. Temos muito tempo ainda aí pela frente com esse assunto em alta. Eu indico as pessoas procurarem sempre projetos que tenham, além do entretenimento, esse objetivo também histórico, cultural, acima de tudo, com raízes, com histórias que atravessaram pessoas, para que a gente possa, a partir da arte, ter modificações perfeitas na nossa vida, no nosso dia a dia, no nosso comportamento como cidadão. Então, assistam, compartilhem, contem para os amigos, mostrem para os filhos, tem muita criança assistindo. Recebo muita mensagem dos pais falando “minha filha assistiu, meu filho assistiu”, e eles falam “ai tadinho deles”. Continuem acompanhando a gente, nosso elenco é tão potente, tão poderoso, com outros nordestinos lá no elenco. Eu estou muito feliz mesmo com a repercussão e desejo que as pessoas continuem vendo a nossa série.

  • Crítica | The Groove Under the Groove: Os Sons de Paulinho da Costa

    Documentário protocolar e americanizado encontra respaldo no carisma e genialidade de seu protagonista. Divulgação Você pode nunca ter ouvido falar de Paulinho da Costa, mas certamente já o ouviu em algumas das músicas mais famosas de todos os tempos. A percussão que abre La Isla Bonita, de Madonna; a cuíca em Wanna Be Startin’ Something, de Michael Jackson; I’Ve Had (The Time of My Life), da trilha sonora de Dirty Dancing; Footloose, de Kenny Loggins; Up Where We Belong, da trilha sonora de A Força do Destino; Serpentine Fire, do Earth, Wind and Fire; Crazy, de Seal; Snow (Hey Oh), de Red Hot Chilli Peppers; e muito, muito mais. O percussionista, radicado nos EUA desde os anos 1970, tocou em incontáveis gravações indicadas e vencedoras do Grammy e também do Oscar, e será o primeiro brasileiro nato a receber uma estrela da Calçada da Fama, em maio. Como tamanho legado pode ser expresso nas telas e chegar a um público talvez alheio às vastas contribuições de Paulinho à música pop do último meio século? É o grande desafio enfrentado por The Groove Under the Groove: Os Sons de Paulinho da Costa, documentário dirigido por Oscar Rodrigues Alves sobre o músico. Gravado ao longo de um período de seis anos, o documentário cobre desde a infância de Paulinho no bairro do Irajá, no Rio de Janeiro, centrando-se no auge profissional nos EUA, até chegar em tempos mais recentes, com sua reconexão com as raízes brasileiras. Para além do próprio Paulinho, que serve como fio condutor principal da sua própria história, The Groove Under the Groove também conta com um desfile de músicos de alto calibre, que relatam suas parcerias com o artista e exaltam seus feitos e sua genialidade. Nomes como Quincy Jones, George Benson, Verdine White, Philip Bailey, Natahan East, Greg Philinganes Lalo Schifrin, além de produtores e engenheiros de som que trabalharam com ele ao longo das décadas, e também a aparição de artistas nacionais celebrados (Roberto Carlos, Carlinhos Brown, Zeca Pagodinho, Ivete Sangalo e João Marcello Bôscoli). Divulgação Assim, estruturalmente o filme me faz lembrar de Milton Bituca Nascimento, ao recorrer a essas figuras lendárias nacionais e internacionais para destacar o seu personagem principal. Como no documentário sobre Milton, porém, a ênfase é muito mais sobre as figuras internacionais, e embora faça certo sentido em decorrência da carreira de Paulinho ser muito mais conhecida lá fora do que aqui no Brasil, de modo que até a participação dos artistas brasileiras soa deslocada, já que suas contribuições são ínfimas e superficiais perto do que ouvimos uma figura como Quincy Jones falar sobre Paulinho. Assim, a impressão é de que o produto final é mais pensado para o público estrangeiro do que para o brasileiro – ainda que as contribuições do artista para músicos brasileiros sejam também vastas. Isso é perceptível na escolha pela própria narração em off ser em inglês, assim como a maior parte das entrevistas com o próprio Paulinho. O filme fica então neste lugar híbrido que talvez até refletisse a própria identidade plural do seu protagonista, mas soa mais como um produto protocolar e voltado a um mercado específico. Isso em si não seria um problema, mas a impressão que se tem ao final é de um desperdício de uma oportunidade valiosa de trazer mais visibilidade a um artista nosso tão celebrado lá fora. Não à toa alguns dos momentos mais pungentes do filme vêm na sua parte final, quando Paulinho retorna ao Rio e tem a oportunidade de tocar num desfile da Portela, sua escola do coração. A emoção vívida do artista reflete muito da saudade que ele certamente sentiu do Brasil por tantas décadas, mesmo construindo uma carreira tão consolidada nos EUA. De fato, os momentos de maior destaque do filme vêm justamente quando a câmera se volta a Paulinho, e é impossível não se deixar contagiar pelo seu carisma radiante, o sorriso tão característico e sobretudo pela genialidade e humildade. Cenas como a em que ele conta sobre como utilizou um par de colheres ou um cowbell para tocar em algumas das músicas mais icônicas do Earth, Wind & Fire, ou as imagens de arquivo que mostram suas performances assombrosas em palco com vários artistas diferentes, conseguem refletir muito mais do peso e da relevância de Paulinho do que todo um desfile de convidados e entrevistados. É louvável o esforço em lançar luz a um músico tão subestimado, e ao mesmo tempo tão valioso para a música popular dos últimos 50 anos. Mas ao se amparar em toda uma estética estrangeira, The Groove Under the Groove parece apenas manter o distanciamento que o público brasileiro já poderia ter em relação ao Paulinho. Se isso não acontece por completo, é porque o músico (e o homem) é essa figura tão fascinante de acompanhar e conhecer quando tem espaço para ele próprio se apresentar. Passaria horas ouvindo contar causos e anedotas sobre as músicas em que participou – e de preferência em português, e não em inglês. Nota: 2.5/5

  • Entrevista | “Fazer um filme é querer olhar para um mundo distante do meu”: Miguel Antunes Ramos e Daniel Pentecoste falam sobre “A Voz de Deus”

    Documentário explora as transformações no meio evangélico brasileiro através de dois pastores mirins e estreia nesta quinta (16). Divulgação Nesta quinta (16) chega aos cinemas o documentário A Voz de Deus, dirigido por Miguel Antunes Ramos. O filme, que já foi exibido no 14º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba (e cuja crítica você pode ler aqui) e na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, acompanha dois pastores mirins de diferentes gerações, Daniel Pentecoste e João Vitor Ota, aprofundando-se em seus cotidianos para ilustrar as significativas mudanças pelas quais o meio evangélico brasileiro passou nos últimos 15 anos e como essas mudanças são atravessadas pelo entranhamento com a política do país. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Miguel e Daniel para falarem mais a respeito de A Voz de Deus. Eles falaram sobre o longo processo de gravação do documentário – que durou cerca de 10 anos –, da escolha por trazer um olhar menos julgador e mais curioso com as vivências dos seus personagens e em como o filme destoa das representações habituais e enviesadas que evangélicos ainda recebem no audiovisual brasileiro. Confira a entrevista abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Miguel, o que te motivou a investigar este universo evangélico para o filme? Como você chegou às figuras de Daniel e João Vitor? Miguel Antunes Ramos: Eu acho que eu comecei a imaginar o filme por volta de 2016. Tinha uma certa surpresa com o que estava acontecendo com o Brasil e se falava muito do crescimento dos evangélicos no Brasil como se fosse um certo planeta muito desconhecido. Eu fui querendo me aproximar desse mundo e olhar para ele, para mim fazer um filme tem muito a ver com querer ver, querer olhar para um mundo distante do meu. Então, inicialmente começou um pouco disso, algo estava acontecendo e eu queria entender, olhar e me aproximar. Em um dado momento eu vi por matérias da imprensa esse mundo das crianças pregadoras, que é esse mundo em que tem algo sendo aprendido e ensinado, com uma voz que se propaga. E eu achei muito interessante, muito contraditório, e aí aos poucos eu fui me aproximando, pesquisando. E ainda nesse contexto eu cheguei no Daniel, quando eu o conheci ele tinha 17 anos. E eu achei muito interessante a história dele até então, que era de alguém que tinha sido uma criança pregadora a vida toda, desde os 6 anos, e que naquele momento estava em crise com a vida, com os caminhos dele, estava buscando uma outra forma de viver. E eu achei uma coisa muito diferente do que eu teria imaginado. Aí, seguindo a trajetória dele, teve esse momento em que ele foi pregar no Gideõezinhos, e seria o seu último Gideõezinhos, já que ele estava deixando de ser criança. Esse mundo tem isso de uma certa síndrome de Peter Pan, em que as pessoas crescem e de repente é um problema crescer. E aí tem um momento em que tem uma certa passagem de bastão, o pastor no palco pega o João [Vitor Ota] e fala: "Tá vendo, Daniel, um cresce e Deus manda um novo para a gente". Então, tinha uma passagem acontecendo, e eu falei: "Acho que o filme é sobre essa passagem. Eu comecei com o Daniel, que está saindo, agora tem esse novo menino entrando". E eles são muito diferentes, quase antagônicos. E eu achei isso também muito interessante, porque estava tudo mudando: o país, a tecnologia. Então acho que começou um pouco daí. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme evita alguns recursos clássicos dos documentários, como a narração em off e as entrevistas. No lugar disso, a câmera praticamente “passeia” pelas vidas destes personagens e de suas famílias, se tornando até mesmo íntima deles. Para você, Daniel, como foi o processo de ter sua vida registrada por essa câmera por tantos anos? Daniel Pentecoste: Como pregador mirim, aquele não era o primeiro contato com imprensa, com uma câmera. Mas era entrevista, e na entrevista rola aquela coisa, a gente conversa no off, e aí de repente está gravando. E o Miguel não, ele simplesmente se instalou na minha casa e de repente estava tudo sendo filmado, eu lembro até que uma hora eu saí do banheiro de toalha e tinha gente me filmando. Eu fiquei bem incomodado e, além do incômodo, eu não conseguia visualizar como que aquilo seria um filme. E foi assim até eu estar lá em Brasília, ali por volta de 2022, 2023, quando eu assisti ao filme com o Miguel. O filme ainda não estava pronto, mas ali eu realmente entendi que que aquilo era uma jornada, mas até então não tinha noção do de como seria um filme. Então teve esse estranhamento, mas a experiência foi boa. Eu acho que eu não repetiria não, mas foi boa [risos]. Miguel Antunes Ramos: Eu lembro que nesse primeiro dia que eu filmei eles, quando terminou o pai dele chegou e me perguntou: "Ah, então quando lança o filme?”. Aí falei: "Não, não, não, você não está entendendo. A gente está só contando isso aqui. Vai levar anos ainda”. Divulgação Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Voltando a uma cena que o Miguel citou, eu considero bem emblemático esse único momento do filme onde vemos Daniel e João Vitor juntos. De fato, é como se houvesse uma “passagem do bastão” ou, no linguajar evangélico, uma “passagem do manto” entre as duas realidades evangélicas que eles representam. Na visão de vocês, quais as maiores diferenças que podem ser observadas entre o mundo evangélico mais atual de João Vitor e aquele de Daniel do início da década passada? Miguel Antunes Ramos: Para mim, a principal questão é tecnológica, que era uma coisa que eu não sabia quando começou. Mas o Daniel, no fundo, ele viveu no mundo analógico, então ele gravava DVD uma vez por ano e vendia esse DVD, e aí no resto do tempo vivia a vida dele sem ser filmado tanto. Era sempre a mesma imagem. E o João é o contrário, é o mundo digital, ele se filma no celular o dia inteiro, todos os dias. É o mundo em que ele está hoje, e ele começou muito cedo nesse mundo. Então acho interessante como um dos assuntos do filme talvez seja essa mudança tecnológica, a mediação de tudo pelo celular, que está em todo lugar hoje em dia, não só na vida do João, mas na nossa vida, na de todo mundo; ele muda tudo, é radicalmente diferente, então isso é o que mais me impressiona. Eu acho que a gente também tentou olhar e narrar as semelhanças. Então, por exemplo, apesar de todas essas diferenças, inclusive de postura, de posição política, são duas famílias da classe trabalhadora lutando para sobreviver. São coisas que a gente foi percebendo, os ecos, apesar das diferenças havia as inúmeras semelhanças de trajetória. Daniel Pentecoste: Essa mudança vem de um de um lugar aonde eu era um pregador mirim e fazia meus sermões, subia no púlpito e depois tinha um tempo muito longo para viver. E aí a parte do João já é mais performática, de estar à frente da câmera. E eu acho que hoje em 2026 já teve uma outra passagem de bastão, já tem uma galera que vem depois do João que é ainda mais performática do que ele. E isso diz muito a respeito do nosso Brasil. A gente vive num lugar onde todo mundo está toda hora dando opinião, todo mundo é especialista em absolutamente tudo. Acho que quando eu vejo o filme, essa passagem de bastão, eu vejo isso. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Tempos atrás entrevistei um diretor, ex-evangélico, que lamentava como uma boa parte do audiovisual brasileiro, especialmente o ligado à esquerda, ainda trata os evangélicos com um tom acusatório ou condescendente e paternalista, especialmente em razão dos últimos anos e o entrelaçamento da população evangélica com o bolsonarismo e a extrema-direita. Vocês concordam com essa afirmação? Se sim, de que formas sentem que “A Voz de Deus” evita esse tipo de tratamento? Miguel Antunes Ramos: Eu concordo sim. Acho que um pouco da minha sensação lá atrás que eu estava descrevendo em 2016 era um pouco essa. Quer dizer, o mundo evangélico era cada vez mais narrado como uma coisa importante, decisiva do país, das guinadas políticas que estavam acontecendo, mas completamente ausente da nossa cinematografia. Quando estava presente era sempre de uma forma, sei lá, um pouco negativada, mas também com um certo preconceito de classe em alguns filmes. E acho que o meu interesse foi olhar de perto e tentar traduzir com justeza as várias complexidades desse mundo, sem diminuir também os diversos problemas, inclusive a forma como como a política atravessou esse universo. Enfim, eu não estava tentando fazer apologia de nada, muito pelo contrário. Mas eu acho que o que tentei fazer foi um retrato justo de um mundo que é acima de tudo muito complexo. Daniel Pentecoste: Para mim A Voz de Deus é um olhar sensível e respeitoso do Miguel acerca de um universo que não é dele. E ele teve todo o cuidado e carinho para registrar e para apresentar tanto eu quanto o João Vitor. No mundo binário que a gente vive, você está sempre agradando um lado, desagradando o outro, mas o filme não tem isso. Não é uma apologia e nem uma denúncia, ele é um olhar do Miguel e aí você que assiste tira a sua própria conclusão do que entende. A gente rodou alguns festivais e eu vi as mais diversas conclusões das pessoas, e de alguma forma tá todo mundo certo, cara. O padre Leonardo Boff diz que todo ponto de vista é a vista de um ponto, então, partindo dessa premissa, todo mundo vê da forma de onde se enxerga no mundo o filme. Mas sobre a religião sempre ser olhada com esse olhar de que ou são vilões ou são muito ignorantes, aí é um problema mais estrutural da igreja evangélica, que hoje é um fenômeno. É como se a igreja não se ajudasse muito com o que sai na grande mídia. É claro que a gente tem uma igreja na base da sociedade, que está na periferia, que está nos bairros, que estão nas ruas, mas o público evangélico que aparece hoje na grande mídia, que está falando em nome do evangelho é de fato uma galera um pouco problemática, então eles não se ajudam muito. Miguel Antunes Ramos: Acho curioso que eu tinha essa sensação lá em 2016 e agora 10 anos depois essa sensação continua. Porque você conta no dedo de uma mão os filmes que que estão retratando esse universo evangélico. Eu ainda acho pouco para um assunto tão decisivo, sendo que toda eleição que chega é um dos principais assuntos políticos. O voto evangélico, por exemplo, é um tema tão forte pro país, são 40 milhões de pessoas, é uma é uma conjunção, inclusive, da classe trabalhadora. E ainda vejo uma ausência muito grande de retratos cinematográficos sobre. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos aos nossos entrevistados que indiquem filmes brasileiros que achem que o nosso público deve assistir. Quais seriam suas indicações? Miguel Antunes Ramos: Eu gosto muito dos filmes do Adirley Queirós, o último filme dele eu gosto muito, Mato Seco em Chamas. Gosto muito também do filme do Afonso Uchôa, o Arábia, e o Baronesa da Juliana Antunes, eu também indicaria. Daniel Pentecoste: Eu conheço os filmes brasileiros mais conhecidos, como Meu Nome Não é Johnny. Recentemente teve O Agente Secreto também. Mas eu se eu pudesse indicar mesmo o filme, eu ia indicar de um diretor que eu gosto muito, por quem tenho o maior apreço, que é o Miguel Antunes Ramos [risos]. Além de A Voz de Deus, que para mim é o seu melhor filme, ele tem um filme chamado A Flecha e a Farda. Fala sobre os povos indígenas, do trabalho militar com os povos indígenas na época da ditadura, uma coisa do nosso país que eu nem imaginava, e o Miguel retratou nesse filme. Então, assistam.

  • Entrevista | “Ele sempre colocou o Brasil nas faixas em que tocou”: Oscar Rodrigues Alves fala sobre “The Groove Under The Groove: Os Sons de Paulinho da Costa”

    Documentário trata das contribuições do percussionista brasileiro para a música pop nos últimos 50 anos. Divulgação Por décadas o Brasil tem sido um terreno fértil de artistas que construíram sua carreira primeiro aqui e depois ganharam espaço no exterior. Um dos casos mais emblemáticos é o de Paulinho da Costa, percussionista carioca que, após se mudar para os EUA em 1972 a convite de Sérgio Mendes, trabalhou e gravou com centenas de artistas, incluindo nomes como Michael Jackson, Earth, Wind & Fire, Dizzy Gillespie, Miles Davis, Herb Albert, Lionel Ritchie, Madonna, Seal, Red Hot Chilli Peppers e tantos mais. A vida e o trabalho prolífico de Paulinho são o foco do documentário The Groove Under The Groove: Os Sons de Paulinho da Costa, de Oscar Rodrigues Alves. Atualmente disponível na Netflix, o filme se inicia na infância de Paulinho no bairro do Irajá, no Rio de Janeiro, detalhando seus primeiros contatos com a percussão, e segue pela sua trajetória profissional no Brasil e sobretudo nos EUA. Além do próprio Paulinho, outros entrevistados incluem figuras de renome como Quincy Jones, Bill Withers, Verdine White, Herb Albert, will.i.am e Lalo Schifrin, além de artistas brasileiros como Roberto Carlos, Ivete Sangalo, Zeca Pagodinho e Carlinhos Brown. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Oscar, que falou da sua admiração por Paulinho e o árduo processo de fazer The Groove Under The Groove ganhar vida. Ele também discutiu sobre as escolhas dos entrevistados e sobre como espera que o filme ajude a fazer o nome de Paulinho ser mais reconhecido pelo público. Confira a entrevista abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Fico imaginando que um documentário como esse exige uma pesquisa muito profunda, especialmente quando e trata de uma figura com uma carreira tão vasta e prolífica como Paulinho da Costa. O que te motivou a fazer um filme sobre ele e quais foram os principais desafios que você encontrou ao longo de todos esses anos de gravação? Oscar Rodrigues Alves: Eu conheço o Paulinho desde que eu tenho 9 para 10 anos. Toco percussão também, mas como percussionista talvez eu seja um bom diretor de filmes [risos]. Mas eu admiro Paulinho desde muito criança, desde muito moleque. Conheci ele nos créditos dos álbuns de vinil, quando a gente botava o vinil para tocar ficava ali ouvindo a música, e quem gostava de saber quem estava tocando os instrumentos naquela faixa específica, podia consultar os créditos que vinham nos encartes dos vinis e depois dos CDs. E a maioria das músicas que eu mais curtia, eu via lá “Paulinho da Costa – Percussão”. Até que chegou o momento em que eu comecei a ouvir músicas novas e falava: "Aqui é o Paulinho tocando”, antes mesmo de olhar nos créditos dos álbuns. E assim nasceu um fã. Então, eu sempre tive o Paulinho nos meus ouvidos e no meu coração, e tentava imitar um pouco as levadas dele nas bandas em que eu tocava. E aí em 2009, depois que lancei meu filme Titãs: A Vida Até Parece uma Festa, tinha que me colocar um novo desafio, e aí decidi contar a história desse cara espetacular. Mas muita gente tentou me tirar desse caminho, me demover dessa ideia, por conta da dificuldade que seria liberar todas essas faixas. Tem 55 músicas no filme, mas para quem não sabe, só porque o Paulinho tocou nessas faixas todas isso não significa que você pode apenas usá-las. Tem que pagar direitos para todo mundo que tocou nessa faixa, para quem produziu, para quem arranjou, para as gravadoras e editoras. E são hits mundiais, ou seja, são músicas com direitos caros de se pagar. E o documentário normalmente é um primo pobre do cinema [risos]. Ele normalmente tem muito menos dinheiro do que uma ficção, que eventualmente pode trazer uma pessoa famosa, e com isso angariar espectadores. Mas eu realmente não ouvi essas pessoas, ainda bem. Fui teimoso e arrumei alguns produtores teimosos que toparam entrar nessa comigo, e o resto é a história. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): É difícil não ficar impressionado com o desfile de entrevistados que o filme possui, seja de músicos brasileiros ou estadunidenses, para falar e enaltecer Paulinho. Temos até alguns que já faleceram, como Quincy Jones e Lalo Schifrin. Como foi o processo de selecionar esses nomes? Quais foram seus critérios para que fossem esses os entrevistados, ainda mais dentro do total de quase 1000 artistas com quem Paulinho já trabalhou? Oscar Rodrigues Alves: Existem alguns parceiros mais óbvios e importantes do Paulinho, no sentido de quantidade de faixas que trabalharam juntos. Por exemplo, Michael Jackson, que não está mais aqui entre nós, mas o Quincy estava na época. Então começamos por ele, mas antes disso, entre 2009 e 2015 eu fiquei convencendo o Paulinho a topar o documentário, porque ele é um cara muito reservado, mais na dele. Mas aí o Quincy acabou tendo de ser internado no hospital por causa de um coma diabético e quase foi embora. E ali o Paulinho percebeu o quão importante seria deixar registrada a vida e a obra dele, então o Quincy também tem essa função importante de destravar o projeto e fazer com que o Paulinho topasse fazer o filme. A maioria dos entrevistados o próprio Paulinho foi quem chamou. O Quincy, os caras do Earth, Wind & Fire... o Lalo Schifrin, que se definia como um “soul brother”, um irmão de alma do Paulinho, não só um parceiro musical. O Bill Withers, outro que foi embora, que era sensacional, espetacular. No caso do Bill Withers, tem uma história bacana de contar. Quando o Paulinho disse que queria filmar com ele, me disse que o Bill não cantava há anos; ninguém sabe se por uma questão física ou emocional. Tanto que quando ele foi conduzido ao Hall da Fama do Rock and Roll pelo Stevie Wonder, o Stevie tocou tocando Ain't No Sunshine e o Bill ficava só do lado dele, não cantava. E se há uma situação em que se espera que um artista cante sua música, é quando o Stevie Wonder está tocando ela e cantando ao seu lado, mas o Bill ficou quietinho ali. O Paulinho não tinha gravado nenhum grande sucesso do Bill Withers. Então na nossa gravação eu destaquei ali Use Me, que é uma faixa que eu gosto muito e que eu achei que tinha um groovezinho brasileiro que Paulinho podia colocar ali na naquela faixa. A gente filmou mais ou menos por uma hora e meia, e o Ray Parker Jr., que estava tocando violão, de vez em quando puxava a música, mas o Bill não ia, até uma hora em que o Bill chegou e falou: "Diretor, está legal aqui? Podemos terminar?”. Aí cheguei bem pertinho dele e falei: "Bill, será que você pode dizer a sua letra de Use Me?”. Eu não perguntei para ele se podia cantar, porque talvez travasse o cara ali. E daí ele fez aquela performance maravilhosa, e eu tenho certeza que essa performance foi pro Paulinho. Tenho certeza que ali o amor do Bill pelo Paulinho é o que fez aquele momento tão especial. Divulgação Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Eu sinto que ainda há muito desconhecimento em torno do trabalho e do legado de Paulinho, sobretudo aqui no Brasil. Eu o conhecia e mesmo assim fui pego de surpresa pela quantidade de músicas dos anos 70 e 80 que amo e que tiveram participação dele. Nesse sentido, como você espera que o filme possa trazer mais reconhecimento a ele? Oscar Rodrigues Alves: Eu mesmo, que sou fã do cara há 46 anos, me surpreendi muito. A gente estava na Bahia, por exemplo, em Cachoeira, filmando lá. Aí entramos na van para voltar para Salvador, estava tocando Nightshift, do Commodores, aí Paulinho falou: "Olha, eu tô tocando aqui também" [risos]. O cara não para, você vai aprofundando e vai brotando faixa que o Paulinho tocou. Provavelmente Nightshift nem estaria no filme se não tivesse rolado esse momento em Cachoeira. A obra dele é muito grande, muito ampla, é uma carreira muito prolífica. Nem ele lembra de tudo que gravou. Ele deu muita sorte, porque estava ali em Los Angeles nos anos 70, onde todo mundo estava gravando – The Jacksons, depois Michael Jackson na carreira solo, Earth, Wind & Fire, os caras do jazz como Miles Davis e Dizzy Gillespie –, então ele estava no epicentro do furacão. E os estúdios ficavam muito perto uns dos outros, naquela época Los Angeles era a capital da indústria fonográfica, então ele tinha chance de em um espaço de alguns poucos dias gravar em dois, três álbuns. Saía de um estúdio, andava uns 10 minutos e já estava em outro, e assim conseguiu gravar milhares de músicas. Então foi uma coincidência maravilhosa de fatores ali. E outra coisa que eu quero muito com esse filme – e que já está acontecendo, muita gente tem me falado isso – é de que as pessoas, depois que assistam o filme, ouçam essas músicas de uma outra maneira. São músicas que estão tão presentes na vida da gente, seja no rádio, numa festa de casamento, na nossa festa de aniversário, mas as pessoas prestam muita atenção no cantor ou outros instrumentos. Agora, depois de assistir ao filme e de ver o que o Paulinho tocou e contribuiu artisticamente para aquela faixa, as pessoas me contam que estão ouvindo a música de um outro jeito. Às vezes são músicas que você nem aguenta mais ouvir [risos]. Sei lá, você está no casamento, toca I Will Survive, da Gloria Gaynor, aí começa a ouvir o Paulinho ali no meio e pensa em como ele dá uma sobrevida às faixas. Você começa a ouvir aquelas faixas de uma outra maneira e isso é muito bacana. Eu estou muito contente de ver que a gente conseguiu fazer com que as pessoas sintam o groove do Paulinho. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Eu mesmo passei por isso depois do filme. Naquela hora em que se fala sobre Wanna Be Startin’ Something, pô, é uma das minhas músicas favoritas do Michael Jackson e eu não fazia ideia de que tinha uma cuíca tocando ali. Até mandei para um amigo meu destacando que o Paulinho toca nela, e ele me disse que o fone direito dele estava privilegiando bastante o som da cuíca. Oscar Rodrigues Alves: É isso aí. Quando Paulinho chegou em Los Angeles em 1972, ele encontrou um ambiente de percussionistas latinos, essencialmente porto-riquenhos e cubanos. Então ele decidiu que para sobreviver ali tinha de trazer um molho novo, um groove novo, e o que seria isso? Um groove brasileiro. Então conseguiu ao máximo colocar o Brasil ali, seja com instrumentos como a cuíca, ou mesmo com grooves de ritmos menos caribenhos e mais brasileiros. Ele sempre tentou colocar o Brasil... sempre tentou não, sempre colocou o Brasil nas faixas em que tocou. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos aos nossos entrevistados que indiquem filmes brasileiros que achem que o nosso público deva assistir. Quais seriam as suas indicações? Oscar Rodrigues Alves: Eu vou indicar O Barato de Iacanga [dir.: Thiago Mattar], que é um filme muito bacana sobre o Festival de Águas Claras. É um festival que eu não fui, eu era muito moleque, mas vi na televisão e recentemente saber todo o perrengue que foi é, o que aconteceu ali por trás do que a gente via nas câmeras, foi maravilhoso. Acho que uma das coisas mais bacanas dos documentários é isso, mostrar o que a gente não vê, revelar o que o evento não mostrou. Então essa é minha indicação.

  • Mostra Quarta Parede acontece em museu de São Cristóvão (SE) entre 24 e 26 de abril

    Evento conta com relançamento de Um é Pouco... Dois é Bom (1970), de Odilon Lopez. Divulgação O Cineclube Voyage realiza a segunda edição da Mostra Quarta Parede entre os dias 24 e 26 de abril no Museu Histórico de Sergipe, em São Cristóvão, no estado de Sergipe. Do primeiro ao último dia, o público tem acesso a filmes de treze estados brasileiros, assim como a debates, lançamentos de livros e shows, de forma gratuita. As sessões da mostra oferecem um panorama da produção autoral brasileira, sobretudo do curta-metragem independente e universitário. Os filmes têm caráter mais ou menos artesanal, segundo Breno Silva, que é membro do Voyage. “Sinto que a programação”, diz ele, “tenta dar conta de uma diversidade de olhares e não se mantém num único tom”. No geral, os trabalhos selecionados passam por tópicos como arquivo, experimentação, memória e processos coletivos. Um dos destaques da Mostra Quarta Parede é o relançamento de Um é Pouco... Dois é Bom (1970), longa-metragem de Odilon Lopez, na noite da sexta-feira, dia 24 de abril. Dado como parcialmente perdido, o filme retorna ao circuito comercial brasileiro aos poucos: “quase como se fosse uma obra ‘nova’ ou ‘recente’”, diz Regina Bomfim, também membro do Voyage. O valor de novidade se associa a uma marca curatorial do evento, cuja equipe se interessou tanto por narrativas sobre a juventude quanto por formas experimentais na hora de selecionar os trabalhos e desenhar as sessões. A ideia de juventude, por sinal, aparece menos por uma abordagem temática do que por uma vontade de renovação, “mais ligada ao gesto criativo e à experimentação”, confirma Regina. Outro traço experimental do evento está na escolha do local, o Museu Histórico de Sergipe — espaço que foi reinaugurado no segundo semestre de 2025. A equipe do cineclube faz visitas ao espaço desde as primeiras semanas deste ano, a fim de adequá-lo para o período de exibição. Assim, o pátio do museu vai se transformar em sala de cinema, criando um contraste entre passado e presente. Isso é um desejo do projeto curatorial da Mostra Quarta Parede, que crê na ampliação da experiência cinematográfica. Ao mesmo tempo, a seleção do museu tem a ver com o desgaste dos equipamentos culturais da região metropolitana de Aracaju, que dispõem de poucos recursos para receber uma mostra de cinema. Apesar do cenário, Breno Silva reflete: “A sala de cinema, eu imagino, é onde há uma tela, qualquer tela”. Nesta edição, a Mostra Quarta Parede conta com o apoio da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), por meio da Funcap (Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe) e do Governo do Estado de Sergipe. O apoio garantiu não só a ampliação das atividades, mas também a remuneração de todos os profissionais que se envolvem na produção do evento, o que é uma novidade para o coletivo. À época da primeira edição, o trabalho era totalmente voluntário. Em 2023, a equipe se esforçou para colocar em circulação os filmes dos estudantes do curso de Cinema e Audiovisual da UFS (Universidade Federal de Sergipe), onde o cineclube deu início às atividades. De acordo com Breno Silva, importava, assim como importa, fazer do cinema uma forma de pensamento experimental. Hoje, isso se dilui para todas as etapas de concretização da mostra. Serviço O que: Mostra Quarta Parede, do Cineclube Voyage; Onde: Museu Histórico de Sergipe (rua Professor Leão Magno, s/n, bairro Centro, São Cristóvão, Sergipe); Quando: tardes e noites dos dias 24, 25 e 26 de abril de 2026; Entrada: gratuita; Programação completa em: .

  • Entrevista | “Eu tive uma dor de crescimento durante o filme”: Julia Guggisberg Hannud fala sobre “Carcereiras”

    Documentário, que estreou no festival É Tudo Verdade, marca o retorno da diretora ao universo do sistema prisional feminino. Divulgação Estreou hoje (10) no festival É Tudo Verdade o documentário Carcereiras, dirigido por Julia Guggisberg Hannud. Ambientado no sistema prisional feminino do estado de São Paulo, o filme acompanha Ana Paula e Mariana, as quais trilham caminhos paralelos como agentes penitenciárias, distantes de suas raízes e laços afetivos. Enquanto Mariana sonha com uma transferência que impulsione sua carreira e vida adulta, Ana Paula almeja o retorno a São Paulo e a vida na metrópole. Os dias exaustivos dentro das unidades prisionais tornam as decisões cada vez mais difíceis pela busca por um futuro. Essa não é a primeira incursão de Julia Hannud no universo do sistema prisional feminino. Em 2016 ela codirigiu com Catharina Scarpellini Saudade Mundão, que acompanhava de perto a realidade de mulheres marginalizadas muito antes de serem encarceradas. Além da direção, Julia também é fundadora da UMA FILMES, produtora independente sediada em São Paulo dedicada a narrativas autorais e à amplificação de vozes femininas no cinema. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Julia para falar sobre Carcereiras. Na ocasião, a diretora comentou sobre como chegou até Ana Paula e Mariana, sobre como buscou aliar elementos do documentário e da ficção e sobre como buscou retratar as mulheres presas, além de refletir sobre sua trajetória desde Saudade Mundão. Confira a entrevista abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme traz as trajetórias dessas duas guardas prisionais, Ana Paula e Mariana, uma mais velha e outra mais jovem. Como você chegou até elas? E por que a decisão de nunca cruzar seus caminhos durante o filme, mas apresentá-los paralelamente? Julia Guggisberg Hannud: Quando eu comecei a escrever o roteiro de Carcereiras, a pensar em como eu gostaria de construir a narrativa desse filme, eu pensava em duas personagens, uma que fosse mais velha e outra que fosse mais nova. Justamente para a gente entender como que talvez a mais nova fosse o espelho da mais velha e que a velha fosse o espelho da mais nova. Será que a Mariana vai ser Ana Paula daqui a 10 anos? Será que a Ana Paula já foi a Mariana de alguma forma? Então eu pensei nessas duas personagens com facetas diferentes, justamente para a gente entender como seria uma ou outra no lugar. E aí quando eu resolvi que queria uma personagem mais nova para o filme, me perguntei como que acharia essa personagem mais nova, sendo que a maior parte das mulheres que estão já no sistema prisional são mais velhas. Então eu fui para o curso preparatório de agente penitenciário, que existe aqui em São Paulo, perto do antigo Carandiru. E aí eu descobri que tinha uma nova turma se formando e fui lá para ver também quais eram as aulas que elas tinham, nesse momento de pesquisa ainda do filme, e foi onde eu encontrei a Mariana. Eu pedi para entrevistar algumas meninas do curso e aí eu fiz uma entrevista com a Mariana, e ela me pareceu uma pessoa muito interessante, porque tinha um corpo físico bem robusto, imponente, mas ela parece uma menina muito doce. A Mariana também tem pai e mãe que trabalham no sistema prisional, o que é diferente de muitas das servidoras, a maior parte delas nunca teve contato com o sistema prisional. Então, ela acabou escolhendo essa profissão, mesmo sabendo os riscos. Então foi uma personagem que me instigou desde o começo. E na primeira entrevista que a gente fez, ela disse uma coisa que me chamou muito a atenção, que foi: "Eu tenho medo de ficar com o coração peludo, igual ao meu pai”. E aí eu perguntei: "Bom, o que é ficar com o coração peludo?”, e ela me disse que é essa rigidez que o sistema na verdade vai trazendo quando as pessoas entram para esse trabalho. E sobre a Ana Paula, eu a encontrei quando já estava na pré-produção do filme. Eu não tinha essa personagem secundária, porque a personagem que eu tinha escolhido acabou saindo do presídio, então tinha que encontrar essa nova pessoa. E aí comecei dentro de Pirajuí [uma das prisões onde o filme foi gravado] a fazer várias também entrevistas, sempre com o caderno, o lápis na mão, porque não pode entrar com o celular, não pode entrar com computador, não pode entrar com nada. E fui entrevistando várias mulheres, carcereiras, mas no último dia ainda não tinha ninguém 100% definido. Aí eu vi a Ana Paula na enfermaria, e perguntei quem era ela. Comecei a conversar com ela, que falou assim: "Ai, nem vai adiantar você falar comigo porque eu tô saindo de férias amanhã". Eu falei: "Mas não tem problema", e conversamos um pouco. Ela é formada em enfermagem, trabalhava na enfermaria do presídio, mas como agente penal, era servidora. E começou a contar um pouco sobre a vida dela, contou que tinha uma família, que tinha a mãe dela, que tinha um sobrinho, que tinha um hobby, que gostava de cavalo. E aí vi que ela tinha essa vida para além do presídio, o que é uma coisa muito difícil no sistema prisional. Então perguntei se podia falar com ela durante as férias, ela topou e depois conheci sua família. Eu acho que a Ana Paula, por mais que tenha uma idade um pouco mais avançada que a Mariana, ela é super nova ainda também, já está há 8 anos no sistema prisional, o que já é um tempo de carreira diferente de quem tá começando. Mas Ana Paula tem um lugar do cuidado muito forte, ela por ter essa formação de enfermagem fora do sistema prisional, traz uma outra camada também para essas mulheres, para as servidoras que trabalham dentro do sistema. Ela tem um conhecimento que não pode exercer dentro do sistema prisional, porque ela não é enfermeira ali dentro, é servidora, mas põem ela trabalhando dentro da enfermaria. E Ana Paula sabe pensar nos outros, está sempre preocupada com a mãe, com o sobrinho, com a presa que tá passando mal, dificilmente ela está ali pensando no que realmente quer. E aí o filme põe um pouco isso em questão: “O que você realmente quer? Você queria voltar para São Paulo? Você queria estar longe da sua família enquanto todo mundo quer estar perto?”. E aí eu acho que Ana Paula entra nesse pequeno dilema também dentro do filme. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Percebo no filme uma forte estética ligada ao docudrama, até mesmo à docuficção. Claro que um documentário não necessariamente “captura” a realidade tal qual ela é, mas houve esse trabalho de encenação, sobretudo nos diálogos entre as protagonistas e outras personagens? Se sim, o que te levou a essa escolha formal? Julia Guggisberg Hannud: Foi desafiador, acho que é exatamente essa a palavra que eu tenho para te dizer. No Saudade Mundão, que é meu primeiro filme, eu vinha mais de um documentário clássico, até de entrevistas, por mais que não eram entrevistas sentadas, planejadas, mas havia, essas entrevistas com as mulheres. Fiz esse filme em 2016, então faz 10 anos que eu estou trabalhando sobre o sistema prisional. E eu revi o filme, é um filme que eu tenho muito respeito, muito carinho; ele é muito forte, realmente não é para qualquer pessoa, porque é muito doído. Mas eu ficava um pouco incomodada com essa quantidade de informação via verbal, sentia que o filme era muito verborrágico e ficava pensando como que poderia fazer um documentário onde brincasse com essa coisa da ficção ou dessa encenação, sem ter necessariamente essas informações sendo ditas. Sabe quando é aquela dor de crescimento? Eu tive essa dor de crescimento durante o filme. Porque ficava quebrando muito a minha cabeça, porque por mais que eu planejasse coisas dentro do presídio, é muito difícil de você conseguir ter controle de tudo, praticamente impossível, ainda mais que a gente tá gravando num presídio que está em funcionamento. E eu sugeria e planejava coisas que poderiam ou não acontecer. Quando eu resolvi que queria roteirizar certas coisas dentro do filme, chamei uma diretora de teatro que também me ajudou no processo de ambientação dessas personagens com a câmera – com elas, entre elas, elas comigo –, que ajudou muito no começo do filme, mas a gente nunca chegou a testar nenhuma cena específica. As ideias iam surgindo conforme eu tinha pensado durante o processo de roteirização do documentário, mas também conforme iam acontecendo ali ao vivo. Então, por exemplo, tem uma cena em que eu queria que Ana Paula começasse a falar sobre o irmão dela ou falasse sobre o pai, ou falasse sobre pessoas que não estavam ali e que não queriam aparecer, esses homens que tinham sumido nesse filme. E eu queria que ela começasse um diálogo com alguém, mas não tinha como eu simplesmente jogar essa pergunta porque ia ficar super falsa. Então, eu ia lá e cochichava no ouvido de uma das mulheres e falava assim: "Olha, se você puder perguntar para ela sobre a família dela, como é que ela vai passar o Natal, não sei o quê". E aí eu cochichava no ouvido de Ana Paula uma outra coisa, e assim ia criando meio que ao vivo as cenas que iam acontecendo. Então, teve muita coisa espontânea, mas teve muita coisa encenada também. A única coisa que tenho para te dizer é que eu nunca consegui repetir nenhum take. Então tudo que você viu foi take único. E isso foi um dos grandes desafios para mim, porque eu percebi que eu precisava de mais takes para realizar coisas e eu não tinha planejado isso. Divulgação Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): É perceptível que as presas são muitas vezes deixadas fora do quadro, ou vistas de costas, mas vemos o rosto de algumas conforme interagem com as guardas. Muitas são indicadas pelo código do crime cometido, mas vejo que mesmo que não as enquadre diretamente, sua câmera se interessa muito em humanizar essas mulheres, inclusive evitando registrar alguns dos atos de violência e mantendo-os fora do campo, deixando apenas os sons para a gente ouvir. Como foi esse processo de gravar dentro dos presídios? E como definir quais mulheres apareciam ou não na frente da câmera? Julia Guggisberg Hannud: Sobre o som, vale falar a respeito, porque era um desejo muito forte que eu tinha de trabalhar algo em que você não visse necessariamente o que estava acontecendo. De trabalhar esse som que povoa a cabeça das pessoas que estão dentro do sistema prisional. E eu trabalhei com o Vitor Coroa e o Paulo Gama, que foram os designers de som do filme, e aí o Vitor me falou assim: "Julia, você tem que entender que você tem que gravar muito som. Não existe banco de som de presídio feminino". Têm pouquíssimos filmes feitos em presídios femininos, então tem mais banco de som de presídios masculinos, e não dava para usar. Isso foi uma coisa que pomos na ordem do dia: gravar barulho de cadeado, barulho de grade e tudo mais. Então foi uma escolha narrativa, trabalhar esse som ambiente com uma segunda, terceira camada do filme. Sobre o rosto das pessoas, existem algumas questões aí. A primeira questão é autorização em relação ao rosto das presas. Eu não podia, por termos legais, estar filmando rostos de presa sem que elas tivessem consentimento, e era completamente oposto também ao que eu queria fazer em relação ao meu filme. Os recortes de corpos e de coisas que você vê é justamente para entender que naquele espaço tem pessoas morando ali. Então, a forma que eu encontrei para que essas mulheres não fossem simplesmente apagadas do filme, foi conseguir filmar com essa câmera os corpos dessas mulheres que tão atrás das grades. E aí, conforme essas mulheres chegavam perto da equipe enquanto a gente estava filmando pedíamos autorização, que foi o que aconteceu também na enfermaria. A gente antes conversou, explicou do filme, perguntou se ela [a presa na enfermaria] topava participar, e ela falou que sim. E eu também achava muito importante ter uma voz ali representada. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Quais principais diferenças você observa em relação ao seu trabalho e tratamento com as mulheres presas em Saudade Mundão e agora em Carcereiras? Pensando nos 10 anos de diferença entre os dois filmes. Julia Guggisberg Hannud: Eu sinto que o meu jeito continua sendo muito parecido ainda. Existe um lugar de aproximação e de entrega muito sincero. Porque muitas pessoas falam: "Nossa, como você é uma patricinha de São Paulo e consegue se conectar com essas pessoas?" [risos]. Mas é verdade, existe uma questão de classe muito forte. Eu fiz FAAP, estudei dentro de escola de escola privada, e eu vou para dentro do sistema prisional, onde a gente tem um abismo de classe muito escancarado. Mas existe um lugar que habita dentro do se fazer documentário do jeito que eu penso e se fazer documentário, que faz com que esse lugar exista. Por mais que essas diferenças de classe sejam muito gritantes, por mais que seja uma questão de classe e falar sobre sistema prisional. E acho que no Carcereiras isso fica muito claro, as mulheres que também estão trabalhando como carcereiras são mulheres pobres. Não têm uma condição de vida 300 vezes melhor do que uma mulher que está presa, muito pelo contrário. Então eu acho que tanto em Saudade Mundão como em Carcereiras existe um lugar do encontro muito importante, de chegar com a sua calmaria de perguntar, delas entenderem o porquê. E eu acho que do Saudade Mundão para cá, o que muda mesmo é o olhar em relação à estética, de como como fazer esses recortes. Sair da entrevista, tentar fazer mais uma docuficção, tentar experimentar lugares que para mim eram mais difíceis. E também estar falando com um grupo de pessoas que são muito mais rígidas também, porque esse é um trabalho que exige muita rigidez, que exige muita disciplina, que exige muito desconfiar. Eu tinha que estar ali todos os dias de alguma forma pronta para dizer que estava ali para confiar nelas e que elas podiam confiar em mim. Isso foi um trabalho constante, diário. Para você ter uma noção, no último dia de gravação eu estava filmando com essa presa que estava na enfermaria, e aí chegou a diretora de disciplina e falou para mim: "Que que você tá fazendo? Você não pode fazer isso". Eu falei: "Quem disse que eu não posso fazer isso? De onde veio essa informação agora?”. O tempo todo você estava sendo testada para ver se ia desistir. Acho que o Carcereiras foi muito mais desafiador nesse sentido que o Saudade Mundão, porque no Saudade Mundão a partir do momento que eu entrei, eu fiquei. Acho que nele existia um lugar de troca, de falar do feminino, de falar da mulher, de falar de homem, que eu acho que gerava uma empatia para além do cinema. E eu acho que isso é muito importante quando a gente pensa em fazer documentário. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos às nossas entrevistadas e entrevistados que indiquem filmes nacionais que acham que o nosso público deva assistir. Quais seriam suas indicações? Julia Guggisberg Hannud: Acho que um filme que para mim foi uma grande referência para o Carcereiras foi o Mato Seco em Chamas, que eu acho que traz um protagonismo feminino muito importante, que traz uma construção de docuficção muito massa. Traz uma realidade muito profunda do Brasil, que eu acho que Carcereiras também traz, por mais que seja em outro aspecto. O Prisioneiro da Grade de Ferro, do Paulo Sacramento, também foi o que fez eu entrar em todo o universo prisional, me mostrar outras possibilidades de fazer documentário. Ele passa a câmera para os presos, dá essa autonomia de filmagem, sai da mão do diretor, no Saudade Mundão também tem isso. Eu bebi muito da fonte do Paulo Sacramento também. E [Eduardo] Coutinho. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Coutinho sempre, né? Acho que não tem como. Essa capacidade dele de fazer a gente ver o Outro é um negócio. Cada filme dele que eu assisto, eu fico mais maravilhado como que ele faz isso com facilidade, fazendo parecer fácil. Julia Guggisberg Hannud: Exato. Eu acho que ele tem esse negócio que era uma coisa que me impressionava muito, que é o poder do encontro. Quando você tá com a câmera, quando tudo se junta, parece que você vira uma bolha, o tempo fica suspenso. O filme vira uma espécie de matéria à parte de tudo aquilo, do que é a vida, do que é o mundo. Você entra num universo completamente diferente assim. E isso sempre me impressionou muito no Coutinho, e eu sempre tentei trazer isso para dentro de mim também, como que esses espaços viram espaços suspensos. Enfim, a gente pode brisar muito [risos].

  • Crítica | Sagrado (É Tudo Verdade 2026)

    Em comunidade marcada por ocupação histórica, documentário revela estruturas que sustentam a educação pública. Divulgação Em 4 de agosto de 1989, mais de 300 famílias ocuparam uma área de aproximadamente 150 mil m² no bairro paulista Casa Grande, mais conhecido como ‘Buraco do Gazuza’. Essa ocupação antecipada do Movimento de Moradia causou um conflito direto com a prefeitura local, que pretendia declarar a região de utilidade pública para fins habitacionais e de lazer. A movimentação resultou na reintegração de posse, realizado por meio de uma forte intervenção policial - é desse motim que surge a protagonista do documentário de Aline Riff. Sagrado acompanha o dia a dia dos professores e colaboradores da Sagrado Coração de Jesus, uma escola pública localizada no Conjunto Habitacional Gazuza, em Diadema. Embora a instituição seja tratada como eixo central, a narrativa de Riff evidencia como a estrutura da comunidade local dita o ritmo do ambiente escolar. Entre a rotação geracional de alunos e projetos que conectam a vida no Gazuza com o processo de aprendizado e convivência escolar - que vão desde de reuniões de pais e mestres a desenhos infantis - a diretora aposta em momentos simbólicos eficazes para sugerir que as paredes do Sagrado são, na prática, homenagem concreta aos mais de 30 anos da ocupação. Como uma metáfora aparentemente despretensiosa, o momento que se destaca é a entrega de um espelho à um colaborador que, ao vociferar frases de impacto como “O novo êxodo tá acontecendo aqui” e “O povo vai ocupar a terra prometida”, reafirma o espaço escolar como reflexo direto da comunidade que o sustenta. Assumindo sua posição como um documentário, a montagem linear e acolhedora nos faz sentir como parte daquele cotidiano. A narrativa revela, com sensibilidade, processos como a dificuldade de alfabetização e os desafios da permanência no ambiente escolar, ao mesmo tempo em que aproxima os adultos e as crianças ao colocá-los em etapas de formação e descoberta. Apesar de preservar a imagem dos alunos, a sonoridade do documentário se torna um elemento fundamental na construção de suas presenças diante das circunstâncias impostas. Entre gritos eufóricos durante as atividades esportivas, ou murmurinhos desconfiados em sala de aula, o filme se apoia na parceria entre alunos e figuras de autoridade para firmar seu enredo. Mesmo onde os momentos de tensão potencializam fragilidades do ensino público - seja no âmbito acadêmico ou estrutural - a câmera opta por permanecer junto aos colaboradores, defendendo a legitimidade e humanização dos processos que sustentam o futuro do Gazuza. Por mais que a escolha por uma observação contínua faça com que o ritmo soe cansado ou repetitivo, essa insistência parece dialogar com a própria lógica do espaço, em que o aprendizado se constrói com tentativa, repetição e permanência. Mais do que registrar o cotidiano, o documentário também implanta no espectador uma empatia diante dos esforços da comunidade em transformar o Buraco do Gazuza em um lar em todos os sentidos. Mas acima de tudo, o filme se impõe como uma ode ao ensino público brasileiro na perspectiva de quem o fortalece - não como apenas uma instituição abstrata, mas como um testemunho de que, alí, educar também é um ato contínuo de ocupação, memória e futuro. Nota: 4,5/5

  • Crítica | Falando a Real (3ª temporada)

    Todo mundo precisa de um abraço no fim do dia e a série continua sendo o equivalente a isso. Divulgação Sabe aquele tipo de série conforto, que não precisa ter grandes reviravoltas e tramas complicadíssimas, mas apenas pessoas vivendo seu dia a dia, te fazendo rir e te emocionar? Pois é, Shrinking – ou Falando a Real aqui no Brasil – pra mim é isso e eu fico feliz de dizer que a nova temporada continua consistente com o tom estabelecido nos anos anteriores. Foram onze ótimos episódios (ou doze, se a gente contar que o primeiro teve 1 hora de duração, rs) e um tema constante neles foi como seguir em frente diante das inevitáveis tragédias que a vida apronta pelo caminho, o que permeou o arco geral da trama de cada personagem. Na 2ª temporada, muito se falava em perdão, o que deixou a brecha para o intragável Louis (Brett Goldstein) aparecer e isso nunca funcionou para mim. Continuou não funcionando aqui, mas felizmente, Gaby (Jessica Williams) disse tudo que estava entalado e o homem tomou seu rumo, deixando as coisas fluírem como tinham que ser. Se antes, mesmo não gostando, eu entendia a existência do enredo, agora ele retornar parecia apenas uma satisfação do ego de Goldstein – um dos co-criadores da série – que sequer estava bem no papel, vamos combinar. Então quando Gaby desabafa em um grande momento catártico, nada me soou mais justo. Que ele continue apenas como roteirista mesmo e que nós e os personagens sigamos sem sua presença na frente das câmeras. Divulgação Paul (Harrison Ford) está aprendendo a lidar, ou tentando, com seu diagnóstico de Parkinson e isso garante muita comoção, ainda mais com a participação do espetacular Michael J. Fox. Ford continua brilhante sendo o turrão mais amado do mundo, fora das telas e dentro, pois todos estão lá para apoiá-lo, o que às vezes passava uma impressão de despedida, mas a realidade é que o personagem está mais do que ciente da finitude da vida. Enquanto Jimmy (Jason Segel) está relutante em arranjar um novo relacionamento e custa a aceitar a iminente partida de Alice (Lukita Maxwell) para a faculdade, ainda para complicar um pouco mais, o retorno de seu pai, feito com maestria Jeff Daniels, abala sua estrutura ainda mais. Já no namoro de Gaby, tudo vai bem como Derrick (Damon Wayans Jr.), mas no campo profissional ela enfrenta uma das pacientes mais desafiadoras da sua carreira, o que tem contornos bem dramáticos. No lado mais cômico, meus favoritos Liz (Christa Miller) e Derek (Ted McGinley) precisam colocar um filho acomodado para viver sua vida fora da asa deles. E claro, não deixam de emocionar também, porque Derek tem um probleminha no coração ali pelo meio da temporada e rendeu um dos melhores episódios, com o incrível título de ‘Dereks Don’t Die’. O elenco tem uma química fantástica e mesmo que cada um tenha seus próprios arcos, eles sempre estão entrosados e por dentro da vida um do outro, como é o caso de Liz querendo ser a mãe do filho de Brian (Michael Urie) e Charlie (Devin Kawaoka) e metendo sempre que pode na criação, o que é engraçado de fato. Toda essa união é uma das principais forças da produção, de que aquelas pessoas sempre vão estar ali umas pelas outras e isso garante tanto momentos fofos quanto comoventes. É comum nas séries de Bill Lawrence esse equilíbrio entre a comédia e o drama, seja em Scrubs ou Ted Lasso, mas Shrinking tendo este título e como protagonistas três terapeutas, o foco maior em saúde mental é um fator diferencial, principalmente nos tempos em que vivemos. Os personagens enfrentam o luto, doenças incuráveis e a solidão, por exemplo, e a série aborda isso de uma maneira balanceada para não perder o tom, com o texto afiado sempre com uma piada na ponta da agulha com o intuito de trazer leveza para algumas cenas mais pesadas. A vida precisa de leveza e é por isso que Shrinking é tão especial, mesmo que vez ou outra exagere em alguma sequência boba que passe do ponto, a série ainda vai ser aquele abraço no fim do dia, onde você vai rir e chorar na mesma medida e aquela cena belíssima que Paul e Jimmy dividem nos minutos finais do último episódio resumem essa essência muito bem. Nota: 4/5

  • Crítica | Carcereiras (É Tudo Verdade 2026)

    Docudrama encontra força no cotidiano de suas protagonistas no sistema prisional sem apelar à desumanização. Divulgação O Brasil é o país com a terceira maior população carcerária feminina do mundo, com mais de 31 mil mulheres presas em 2025. A maioria destas mulheres são negras, pobres e estão presas por crimes sem violência, como tráfico de drogas e crimes contra o patrimônio. Apenas 7% das unidades prisionais do país são destinadas à essa população feminina, e são em duas delas que trabalham as agentes prisionais Ana Paula e Mariana, as protagonistas de Carcereiras, longa-metragem de Julia Guggisberg Hannud. Apresentando em paralelo as duas personagens (que nunca chegam a se encontrar), Carcereiras se ancora na tradição do docudrama presente no gênero documental brasileiro para construir um panorama deste sistema prisional, das relações entre agentes prisionais com as presas e com suas famílias. E, embora seja sempre ingênuo que um documentário retrata a realidade tal qual ela é – e não a partir de escolhas formais e também políticas dos seus realizadores –, Hannud escolhe este tênue equilíbrio entre encenação e registro documental para acompanhar essas duas mulheres, encontrando força justamente na naturalidade com a qual sua câmera se imiscui com esses ambientes e com as vidas destas personagens. Em essência, cada uma das duas se encontra em momentos diferentes da vida profissional: Mariana acaba de ser transferida para uma unidade prisional no interior de São Paulo, marcando um recomeço da sua vida, enquanto Ana Paula anseia por uma transferência que a leve de volta para a capital paulista. A primeira, jovem, encontra espaço para as risadas e para a leveza mesmo naquele ambiente muitas vezes opressivo, enquanto a segunda já carrega anos de experiência e um certo desgaste e desilusão. Divulgação Evitando muitas vezes dar rosto às presas conforme elas interagem com as protagonistas (salvo algumas exceções), a câmera de Hannud faz dessa decisão uma escolha de preservá-las humanizá-las, mesmo que as capte de costas ou fora de campo, com apenas suas vozes sendo ouvidas quando conversam com Ana Paula, Mariana e suas colegas. Há um esforço constante em tratar com uma certa naturalidade as vidas dessas mulheres e seus crimes (muitas vezes apresentados apenas pelos artigos do Código Penal), evitando-se julgamentos para retratar essas figuras como seres humanos, repletos de contradições mas nem por isso menos dignos de cuidado ou visibilidade. Até em instantes onde a violência invade aqueles ambientes, a câmera opta pelo fora de campo ou pelas reações das agentes prisionais, destacando como são profissionais já acostumadas – ou em certa medida anestesiadas – àquele cotidiano. Assim, Carcereiras é uma obra que, mesmo carregando certo aspecto de encenação em si (sobretudo em alguns diálogos), não opta por uma narrativa clássica, com altos e baixos emocionais ou alguma espécie de catarse. Há uma escolha por acompanhar esse cotidiano, o qual pode muitas vezes ser tedioso, e o longa abraça esse tédio, goste o espectador ou não. Mas mais do que funcionar como um manifesto político ou filme-denúncia, escancarando as condições muitas vezes precárias nas quais essas agentes e presas podem viver, o trabalho de Hannud aqui encontra êxito em conferir humanidade a essas mulheres, independentemente de que lado das grades elas estão. Nota: 4/5

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