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  • FSA aprova plano de investimento de R$ 1.4 bilhão para 2026 no setor audiovisual

    Entenda o que isso significa para o setor e as novas perspectivas de mudança Créditos: Victor Vec Após uma série de deliberações com foco no desenvolvimento do audiovisual brasileiro para os próximos anos, o Comitê Gestor do Fundo Setorial do Audiovisual aprovou, no dia 30 de março, o Plano Anual de Investimento, estimado em cerca de R$ 1,4 bilhão para o setor. Junto com esse aporte expressivo, surge também um planejamento voltado para a reestruturação do FSA, numa tentativa de corrigir velhos gargalos do sistema, como concentração regional, dificuldade de previsibilidade dos editais e necessidade de acompanhar melhor os resultados das políticas públicas. O que muda? Em termos objetivos, a escala. O plano aprovado prevê o aporte de cerca de R$ 1,4 bilhão, sendo R$ 976 milhões para ações de investimento e R$ 460 milhões para operações de crédito. Dentro desse pacote, entram linhas como Prodecine e Prodav, voltadas respectivamente a cinema, conteúdos para TV e vídeo sob demanda (o streaming), além da Proinfra, que concentra operações reembolsáveis. Portanto, é um volume expressivo e que recoloca o FSA no centro da política audiovisual do país. A segunda mudança, e talvez uma das mais simbólicas, é a tentativa de enfrentar a histórica concentração regional dos recursos no eixo Rio-SP. Segundo os dados apresentados pelo próprio governo, em 2025, o Sudeste concentrou cerca de 66,3% dos investimentos do fundo, mais de dois terços de todo o aporte disponível do país. Para 2026, o plano prevê cotas de até 40% para projetos das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, sendo esta uma resposta direta a uma crítica antiga do setor, se torna ainda mais evidente com a chegada dos grandes players e plataformas de streaming. Reprodução: Gov.br Outra novidade importante é a retomada da linha de núcleos criativos, voltada ao desenvolvimento de projetos. Na prática, isso significa voltar a financiar a fase em que uma obra ainda está sendo estruturada, com criação de roteiro, desenho de universo, amadurecimento de conceito e preparação inicial. Esse passo é importante para os criadores que estão ainda se inserindo no mercado. Isso porque, sem investimento nessa etapa, muitos projetos acabam naufragando antes mesmo de chegar à etapa de produção, seja pelos gargalos na captação de recursos, falta de investimento, escassez de linhas voltadas para capacitação, dentre outros. Além disso, a reestruturação promete também atuar na forma de acompanhar o desempenho da política pública através do Plano de Diretrizes e Metas, que passará a orientar o Comitê Gestor com uma metodologia de monitoramento baseada em indicadores. Em outras palavras, o Estado passa a ter um papel mais ativo na fiscalização da eficiência dessas políticas públicas, medindo se o dinheiro aportado está realmente chegando onde deveria, com análise do impacto e sua respectiva geração dos resultados esperados. Mas, porque isso é importante? O FSA é uma categoria específica do Fundo Nacional da Cultura voltada para financiar o desenvolvimento da cadeia audiovisual no Brasil. Ele foi criado para apoiar não só filmes e séries em si, mas também diferentes etapas e segmentos do mercado, como produção, distribuição, comercialização, exibição e infraestrutura. Desde o início, a proposta foi tratar o audiovisual como indústria e política pública ao mesmo tempo, com função de giro de mercado, aporte em “negócios” emergentes e retorno financeiro após a comercialização desses produtos culturais. Na prática, o fundo funciona com uma governança tripartite. O Comitê Gestor do Audiovisual define diretrizes, prioridades e planos de investimento. A Agência Nacional do Cinema (Ancine) atua como secretaria-executiva, organizando e acompanhando a política. E o BNDES, além de outras instituições credenciadas, pode operar financeiramente os recursos. E de onde sai esse dinheiro? Principalmente da Condecine, que seria uma contribuição cobrada sobre atividades econômicas ligadas à exploração de obras audiovisuais, inclusive em telecomunicações, isso inclui empresas de radiodifusão, produtoras e demais agentes do mercado. Ou seja, parte do valor gerado pelo próprio mercado audiovisual volta para financiar o crescimento do setor, através de concentração nesse Fundo. Isso porque, diferentemente de modelos baseados apenas em renúncia fiscal, o FSA opera por fomento direto. Ou seja, o recurso público entra diretamente no setor, seja por investimento, crédito ou outros mecanismos financeiros para o investimento nesses projetos culturais. A partir disso, quando o projeto incentivado, após seu lançamento, passa a gerar receitas nas condições previstas, parte dos valores retornam ao próprio Fundo, por mecanismos contratuais como a chamada retenção prioritária, que dá ao FSA preferência na recuperação do investimento público. E como os projetos costumam ser escolhidos? Bom, embora cada chamada pública tenha suas regras próprias, o padrão histórico do FSA combina uma etapa de habilitação formal com uma fase de avaliação técnica e, depois, decisão de investimento por uma comissão de seleção. Entre os critérios que aparecem nas regras do fundo, estão qualidade e interesse artístico da proposta, adequação ao público, capacidade da produtora ou distribuidora, consistência do orçamento, plano de financiamento e viabilidade econômico-financeira. No fim das contas, o que 2026 coloca na mesa é a tentativa de atualizar o FSA para um audiovisual que hoje é muito mais multifacetado do que o de quando o fundo foi criado. O mercado mudou, o streaming inverteu a lógica de produção e distribuição, as desigualdades regionais ficaram mais visíveis e a demanda por diversidade e eficiência também cresceu. Assim, o novo plano tenta responder a tudo isso ao mesmo tempo: com mais recurso, novas linhas, metas monitoradas e um esforço de descentralização. O desafio, como sempre, vai estar menos no anúncio e mais na execução. Para isso, ficaremos por perto e acompanhando essa nova etapa, que promete favorecer um mercado que vem ganhando cada vez mais notoriedade não apenas nas temporadas de premiação, mas sim no fazer diário de cada idealizador que nasce em nossas terras.

  • Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba divulga programação da 15ª edição

    Longa-metragem “Yellow Cake” tem estreia nacional na Ópera de Arame, durante a abertura. Ao todo serão mais de 70 filmes espalhados pela capital paranaense. Imagem: Divulgação O Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba, um dos principais eventos dedicados à sétima arte no Brasil, apresenta a programação de sua 15ª edição. O festival ocorre de 4 a 13 de junho e contará com sessões em espaços culturais importantes da capital paranaense, sendo o MON - Museu Oscar Niemeyer (Auditório Poty Lazzarotto), a Ópera de Arame, o Cine Passeio, a Cinemateca, e o Teatro da Vila. “Esta edição marca o amadurecimento e a concretização do Olhar de Cinema como um dos principais eventos voltados ao segmento do Brasil e com um crescimento de público constante. São 15 anos de programações pensadas por meio de um olhar aguçado e que busca fugir do comum, com títulos vindos de todo o mundo e que mostram a importância das especificidades das variadas artes de como fazer cinema, com produções apresentadas anos antes de sua circulação nacional e uma grade voltada a diferentes idades”, comenta Gabriel Borges, co-diretor artístico do Olhar de Cinema. “O Olhar promove diferentes olhares sobre determinado segmento, pauta, idade, direção ou estilo de produção”, completa Antonio Gonçalves Jr, diretor geral do festival. Para este ano, o evento anuncia mais de 70 filmes em sua programação, entre curtas e longas-metragens, que estão divididos nas mostras Competitiva Brasileira, Competitiva Internacional, Novos Olhares, Mirada Paranaense Sanepar, Exibições Especiais, Olhares Clássicos Cine Passeio, Olhar Retrospectivo, Pequenos Olhares, Filme de Abertura e Encerramento. Os ingressos estarão à venda a partir do dia 12 de maio, com valores que vão de R$8 (meia-entrada) a R$16, disponíveis pelo site oficial: www.olhardecinema.com.br. O Olhar de Cinema ainda contará com sessões gratuitas no Teatro da Vila, no CIC e algumas sessões no MON. Filme de abertura O longa-metragem que abrirá a edição 2026 do Festival Internacional de Curitiba é o “Yellow Cake”, filme de Tiago Melo, que retrata as consequências de um experimento conduzido por cientistas estrangeiros que tentam erradicar o mosquito Aedes aegypti com o uso de urânio. Quando o experimento falha, uma pesquisadora brasileira precisa, com a ajuda de garimpeiros locais, conter o desastre antes que seja tarde demais. A produção é estrelada por Rejane Faria (“Marte Um”) e Tânia Maria (“O Agente Secreto”). A exibição ocorre na Ópera de Arame em uma tela especial de mais de 400 polegadas montada especialmente para a sessão e para um público de cerca de 1.500 pessoas. Confira todos os filmes que fazem parte da 15ª edição do Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba: Mostras Competitivas As produções selecionadas para as Mostras Competitivas, tanto a Internacional quanto a Brasileira, concorrem pelos prêmios de Melhor Filme, Direção, Roteiro, Atuação, entre outros, concedidos pelo Júri, além das premiações do público, responsável por eleger o Melhor Longa e Melhor Curta nas duas mostras. Competitiva Brasileira - Longas Oito longas-metragens integram a Competitiva Brasileira neste ano. São eles: - “A Noite e os Dias de Miguel Burnier” (Dir. João Dumans| Brasil | 2026 | 80’) - Convivendo com o tédio e a falta de oportunidades, abraçados ao álcool como único companheiro das noites e dos dias, um grupo de amigos se esforça para levar a vida adiante num pequeno distrito minerário do interior do Brasil. - “Adulto/Homem” (Dir. Pedro Diógenes | Brasil | 2026 | 70’) - O que podem dizer 20 rostos de atores que estão à espera de um teste de elenco? - “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha” (Dir. Janaína Marques | Brasil | 2026 | 92’) - Cercada pelo zumbido hipnótico de uma máquina de ressonância magnética, Rosa é instruída a pensar em um momento feliz de sua vida. É dentro dessa odisseia subconsciente que ela reencontra sua mãe, Dalva, com quem inventa memórias inexistentes. - “Maxita” (Dir. Mariana Machado, Ana Maria Machado |Brasil | 2026| 64’) - Davi Kopenawa, xamã yanomami e uma das principais vozes indígenas do Brasil, enfrenta a ameaça da chegada de grandes mineradoras em seu território na Amazônia. O acompanhamos em travessia até Brumadinho, Minas Gerais, onde se depara com as marcas do rompimento de uma barragem de mineração em 2019. Entre a terra e o plano espiritual, sua jornada SE CRUZA com a dos maxita watimapë — os “comedores de terra” — e reencontra seu velho amigo de luta, Ailton Krenak. - “Olhe Para Mim” (Dir. Rafhael Barbosa | Brasil | 2026 | 89’) - A mãe de Marcelo desapareceu quando ele tinha 10 anos de idade, deixando nele um vazio sem fim. O menino se tornou um jovem que vaga por cemitérios e se refugia em memórias inventadas para suportar a realidade. Um dia, dois seres misteriosos atravessam seu caminho. Marcelo embarca com uma dupla numa viagem pelas fronteiras entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. - “Quase Inverno” (Dir. Rodrigo Grota|Brasil | 2026 | 93”) - Três irmãs retornam para a fazenda em que nasceram. Em meio ao reencontro com o irmão, recebem a visita de militares e encaram questões e segredos do passado. - “Reparação” (Dir. Marcus Curvelo | Brasil | 2026 | 70’) - No dia em que completa 35 anos, Marcus e sua mãe procuram um lugar no litoral para espalhar as cinzas do pai. Quando sua mãe adoece, ele passa a sentir que o sal do mar onde o pai descansa corrói lentamente a sua vida. - “Telúrica, a íntima utopia” (Dir. Mariana Lacerda | Brasil | 2026 | 104’) - Em São Paulo, a companhia teatral Ueinzz — formada por atores que vivem em sofrimento psíquico — cria uma peça sobre a extinção da Terra e a vontade humana de perdurar. Durante os ensaios, sonhos, palavras e modos de existência emergem como espécies frágeis a serem preservadas. Enquanto atuam, o grupo contempla a sobrevivência, o pertencimento e a preservação contínua de sua própria comunidade. Competitiva Brasileira - Curtas Já entre os curtas, são oito produções. São elas: - “Cerimônia” (Dir. Fabio Ramalho, André Antonio, Chico Lacerda | Brasil | 2026 | 24’) - Quando eu fui morar com amigos pela primeira vez, virou hábito receber gente em casa o tempo todo. - “Disciplina” (Dir. Affonso Uchôa | Brasil | 2026 | 45’) - Kelly, jovem professora de Português, começa a dar aulas em uma escola pública. Em uma aula, ela discute com Nicolas, jovem aluno do segundo ano, e os dois tem de resolver o conflito diante do diretor. A discussão traz ensinamentos: Kelly aprende que na periferia do Brasil, a exceção é a regra; e Nicolas aprende que é preciso reconstruir o presente para ver o futuro. - “Duwid Tuminkiz - Makunaima é Duwid?” (Dir. Gustavo Caboco Wapichana | Brasil | 2026 | 15’) - Makunaima é Duwid? Uma pergunta, um processo, um filme e memória viva do povo Wapichana. O filme propõe um mergulho nas narrativas tradicionais Wapichana a partir do território da Serra da lua, em Roraima. O roteiro instiga o público a uma reflexão sobre o famoso personagem Macunaíma de Mário de Andrade, que completará 100 anos em 2028 e suas relações com as suas raízes indígenas, em especial do Povo Wapichana. - “Marimbã está acontecendo” (Dir. Maryn Marynho | Brasil | 2026 | 15’) - O pensamento de Marimbã percorre diversos sonhos através das águas, tecendo relações de afeto para corpos dissidentes, em um vislumbre de futuro possível. Transparentalidade, rede de apoio, infância, envelhecimento, espiritualidade… como nós, pessoas trans, imaginamos estar daqui 20, 40, 60 anos? - “O Segredo Sagrado” Dir. Everlane Moraes | Brasil | 2026 | 12’) - Duas tribos inimigas esperam há séculos pela grande revelação do segredo sagrado. Mas a escolhida pelo Deus Supremo para receber o segredo foi a princesa Sikán. Ao ser injustiçada pelos homens de ambas as tribos, o dia se transformou em noite eterna. - “Pinguim de Doce de Leite” (Dir. Ana Vitória Miotto Tahan | Brasil | 2026 | 22’) - Futuras lembranças sendo formadas em uma noite goiana qualquer. Nos fundos da casa de sua avó, Caju, uma criança de 10 anos, viverá sua primeira madrugada em claro com os amigos de seu tio Tiago, um jovem rebelde. - “Pirexia” (Dir. Nico da Costa | Brasil | 2026 | 20’) - Baby, um rockstar em ascensão, é atormentado por uma febre que o impede de criar músicas novas. Ao receber uma ligação de Pepeu, seu ex-companheiro musical e ex-amante, eles decidem compor uma última música juntos: uma melodia de cura e ressurreição para ser tocada em uma noite de lua de sangue. - “Um Filme Para Lembrar da Utopia” (Dir. Reinaldo Cardenuto | Brasil | 2026 | 20’) - Nos registros cinematográficos de Esdras Baptista, por décadas guardados em sua residência, é possível sentir o fervor dos que acreditaram em um novo amanhã. Filmadas no Brasil do início dos anos 1960, no calor de uma política libertária em movimento, as imagens do cineasta materializam a incandescência dos desejos coletivos no instante de sua eclosão. A utopia, mesmo inalcançável, nunca é mera abstração. Força que mobiliza ações e sentimentos, ela constitui o ímpeto necessário à existência. Competitiva Internacional - Longas A Mostra Competitiva Internacional conta com sete longas e oito curtas. Entre os longas, estão: - “Um Calendário Incompleto” (“An Incomplete Calendar” | Dir. Sanaz Sohrabi | Canadá, Irã, Turquia, Vanuatu, Venezuela | 2026 | 70’) - Um vinil pouco conhecido de 1980 é o ponto de partida deste filme. “Rhymes and Songs for OPEC” é um disco especial do coro da Universidade Central da Venezuela para comemorar o 20º aniversário da Organização dos Países Exportadores de Petróleo. Combinando canções e arquivos raramente vistos, o filme redefine o petróleo não como uma mercadoria, mas como uma alavanca política para as lutas de libertação na Palestina e a construção da solidariedade pan-árabe entre 1960 e 1970. - “Bouchra” (Dir. Orian Barki, Meriem Bennani | Itália, Marrocos, Estados Unidos | 2025 | 831) - Bouchra, uma coiote marroquina de 35 anos em Nova York, documenta seu relacionamento à distância com a mãe, que vive em Casablanca, enquanto exploram juntas o amor, a dor e os segredos que as unem através de ligações e conversas íntimas. - “Cartas a Meus Pais Mortos” (“Cartas a Mis Padres Muertos”| Dir. Ignacio Aguero | Chile | 2025 | 124’) - Raúl Ruiz, cineasta chileno como Ignacio Agüero, escreveu em seu texto Para um Cinema Xamânico: “Embora muitos filósofos tenham considerado os conceitos de Sonho e Memória contraditórios […] se misturarmos esses dois termos, não deve nos surpreender que a pessoa com quem estamos falando esteja morta há anos; nem devemos nos chocar com o espanto do morto ao descobrir que estamos vivos.” - “Se Pombos Virasse Ouro” (“If Pigeons Turned to Gold” | Dir. Pepa Lubojacki | República Tcheca, Eslováquia | 2026 | 110’) - Uma mulher explora a luta geracional de sua família contra o alcoolismo através de uma perspectiva profundamente pessoal, misturando imagens documentais, ritmo, texto e imagens aprimoradas por IA para criar um retrato honesto e compassivo dos impactos do vício. - “A Noite Já Está Partindo” (“La noche está marchándose ya” | Dir. Ramiro Sonzini, Ezequiel Salinas | Argentina | 2025 | 104’) - Pelu, na casa dos trinta, é o humilde projecionista de um cineclube municipal. Diante da crise, ele precisa se tornar o vigia noturno do cinema e, com o tempo, o local se transforma em seu novo lar. Pouco a pouco, uma pequena comunidade começa a se formar dentro do cinema após o horário de fechamento. Ela é composta por um grupo de “laranjinhas” (flanelinhas) que dormem ali e, eventualmente, se tornam seus amigos mais próximos, junto com Vale, uma ex-colega de escola que usa o espaço para gravar vídeos para o OnlyFans. - “Não Me Deixe Morrer” (“Nu mă lăsa să mor” | Dir. Andrei Epure | Romênia, Bulgária, França | 2025 | 108’) - Certa manhã, Maria descobre o corpo de uma vizinha na entrada do prédio. A morte dela passa a assombrála e as noites se tornam mais longas. - “O Profeta” (Dir. Ique Langa | Moçambique, África do Sul | 2026 | 88’) - Um pastor bondoso em conflito com sua fé busca ajuda em poderes obscuros e tudo vai bem até deixar de ir. Competitiva Internacional - Curtas Já entre os curtas da Competitiva Internacional, estão: - “Outra Terra” (“Another Earth” | Ben Russell | França | 2025 | 11’) - Da boca à caverna, do fogo à tela, da guerra à pele, este é um vertiginoso retrato em 16mm de um presente cada vez mais caótico, cujos contornos políticos são afetados por tudo e por nada ao mesmo tempo. Nas palavras de Zadie Smith: O tempo não é o que é / Mas como é sentido - “Má Sorte” (“Bad Luck” | Dir. Jan Eilhardt | Alemanha | 2025| 17’) - Um musical interseccional centrado em um coletivo ativista de dançarinos com e sem deficiência, onde o pé lesionado de uma solista faz com que os outros se esforcem para encontrar uma maneira de encenar sua estreia iminente, enquanto tentam evitar um mergulho no abismo de suas próprias neuroses. - “Desencaixar” (“Detach” | Danielle Kaganov | França | 2025 | 16’) - Dentro de uma instalação de treinamento médico, um dos robôs cirúrgicos “Da-Vinci” ganha autonomia e autoconsciência. Ele começa a vagar pelo prédio e descobre um espaço híbrido onde o progresso clínico se mistura com ecos de guerra. Criado pelo Exército dos EUA na década de 1980, o propósito inicial do DaVinci era operar soldados feridos em campos de batalha remotos. O filme reflete sobre a fronteira entre curar e matar: ser uma ferramenta de cuidado, bem como uma arma pós-humana de precisão. - “Dragão” (“Dragón” | Yashira Jordán | Bolívia, México | 2025 | 27’) - Dragón Rojo e Puma Punku, dois adolescentes abandonados e perdidos em uma cidade boliviana, tornam-se viciados em um videogame retrô chamado Dragon para escapar de sua realidade monótona — trabalhando no mercado com suas tias e lutando contra o tédio. No jogo, eles jogam ao lado de Elfo, um gamer sino-boliviano, e Hada, um velho bêbado preso aos anos 1990. Mas um dia, Puma Punku rouba o bem mais precioso de Hada — sua espada. Em busca de vingança, Hada parte para capturar o ladrão e queimá-lo vivo. - “Cada Época Sonha com a Próxima” (“Every Epoch Dreams the Next” | Dir. Johannes Gierlinger | Áustria, Albânia | 2025 | 18’) - Começando com um excerto de um longa-metragem da era comunista da Albânia, no qual um menino sonha com a construção de uma cidade moderna, ‘Cada época sonha com a próxima’ gira em torno dos processos de transformação histórica e atual do espaço urbano. O filme reflete sobre o poder das imagens, utopias históricas e contemporâneas, e como as estruturas de poder podem se sobrepor ao bem comum e ao público em geral. - “O Inimigo” (“Il nemico” | Dir. Andrej Chinappi | Itália | 2025 | 17’) - Durante uma viagem à montanha, um grupo de crianças passa a tarde brincando de guerra. Quando uma criança local pede para se juntar a elas, recebe o papel de “inimigo”. Essa escolha aparentemente inocente levará a consequências inesperadas. - “Nan Ginen” (Dir. Feguenson Hermogène | Cuba | 2025 | 22’) - Em um canto remoto de Santiago de Cuba, uma família cubana de origem haitiana homenageia a deusa Erzulie, revelando memórias ocultas da trágica história migratória de trabalhadores haitianos nos vestígios da indústria açucareira cubana. - “Sussuros de um Perfume Ardente” (“Whispers of a Burning Scent” | Dir. Mo Harawe | Somália, Áustria, Alemanha | 2026 | 28’) - No dia de uma audiência decisiva no tribunal e uma importante apresentação em um casamento, um discreto músico de casamentos vê sua vida privada exposta ao escrutínio público. Acusado de explorar seu casamento, ele se move entre o tribunal, as ruas da cidade e o palco, carregando o peso do julgamento, da lealdade e de uma culpa não dita. Forçado a tomar uma decisão contida mas irreversível, o filme observa um homem cuja verdade interior permanece elusiva, preso entre devoção, dignidade e perda. Novos Olhares A Mostra Novos Olhares é voltada a produções ousadas, que flertam com o risco, a invenção e caminhos desconhecidos em seu uso da linguagem cinematográfica, optando pela radicalidade e desprendimento das convenções do cinema. Estão na programação da mostra: - “A Paixão Segundo GHB” (Dir. Gustavo Vinagre, Vinicius Couto | Brasil | 2026 | 82’) - Um encontro casual vira um ménage à trois; o ménage à trois vira uma orgia. Nesta odisseia de realismo mágico em um quarto gay, Matias rememora seus encontros passados e considera seu futuro, enquanto conversa com uma figura fictícia da literatura brasileira. - “Como Todo Mortal” (Dir. Maria Molina Peiro | Países Baixos, Espanha | 2026 | 93’) - Em um planeta distante, um robô procura por sinais de vida. A anos-luz de distância, em uma das minas mais antigas do mundo, sob toneladas de resíduos de mineração, um ecossistema entre exploração e exploração se revela, uma paisagem entre Andaluzia e Marte. - “Gato na Cabeça” (“Es domāju par kaķi” | Dir. Laila Pakalnina | Letônia | 2025 | 85’) - Nós literalmente encontramos nosso filme junto a uma lixeira. Era uma sacola com 36 rolos de negativos fotográficos expostos dos anos 1960 aos 1980 por um fotógrafo desconhecido. Nós o nomeamos Anton, o filho da Tia Emma. Ao examinar seus projetos (com muitas imprecisões: nitidez indistinta, elementos aleatórios nas tomadas, transições em wipe, exposições acidentais e duplas, etc.), tentamos imaginar como seriam nossas vidas se essas fossem nossas fotos. - “Joy Boy: Um Tributo a Julius Eastman” (“Joy Boy: a tribute to Julius Eastman” | Dir. Walking Backwards Collective | Bélgica, República Democrática do Congo, França | 2026 | 64’) - Joy Boy é uma constelação de expressões fílmicas, coreográficas e sônicas inspiradas na vida e obra do músico e ativista revolucionário Julius Eastman. Desenrolando-se através de quatro capítulos dedicados a quatro peças musicais, o filme é costurado com uma montagem em camadas da voz de Eastman – interlúdios que conectam cada parte e ecoam sua presença visionária. Cru, radical, cristalino. Uma performance coletiva, multipartidária, chamativa e transnacional de seis artistas. Uma homenagem. - “O Mez da Gripe” (Dir. William Biagioli | Brasil | 2026 | 85’) - Em Curitiba, um professor universitário inicia uma pesquisa sobre a gripe espanhola. À medida que reúne fotografias, relatos e fragmentos de memória, a investigação começa a escapar do controle. Entre vozes de imigrantes, imagens de arquivo e ecos de uma cidade assombrada, o passado retorna como um enigma que insiste em permanecer vivo. - “Passado Futuro Contínuo” (“Past Future Continuous | Dir. Firouzeh Khosrovani, Morteza Ahmadvand | Irã, Noruega, Itália | 2025 | 76’) - Aos vinte anos, Maryam fugiu do Irã escondida em uma pele de carneiro. Décadas depois, agora vivendo nos EUA, ela permanece atada à casa para a qual não pode mais retornar. Através de câmeras de vigilância instaladas na casa de seus pais idosos, imagens de vídeo tremeluzentes se tornam sua única janela para um mundo deixado para trás. Este documentário íntimo e poético explora o exílio, a memória e os laços invisíveis que persistem através da distância e do tempo. - “Segunda Pele” (Dir. Dea Ferraz | Brasil | 2025 | 60’) - Segunda Pele testemunha 6 artistas habitando seus corpos. Mulheres que atravessam a própria pele para nos falar de suas existências. De uma forma experimental e poética, o filme faz uma jornada do corpo marcado ao corpo fluido, tentacular e livre. Mostra Pequenos Olhares Este espaço reúne uma seleção de produções voltada às crianças, entre longas e curtas-metragens, com o intuito de promover aos pequenos uma experiência única dentro do festival. O longa-metragem deste ano é o “Papaya” (Dir. Priscilla Kellen | Brasil | 2025 | 74’), em que uma pequena semente de mamão, apaixonada pela ideia de voar, precisa continuar se movendo para evitar enraizar-se. Perseverante, ela descobre o poder de suas raízes, que conectam a vida por caminhos profundos e misteriosos, desencadeando uma grande revolução, transformando seu ambiente e realizando seu sonho da forma mais inusitada. Já os curtas da Mostra Pequenos Olhares são: - “A Menina que Queria ser Pedra” (Dir. Jackson Abacatu | Brasil | 2026 | 9’) - Um menino curioso e uma menina serena se encontram à beira de um lago. Ali surgem reflexões sobre a vida, de forma sutil e inesperada. Afinal, o que é ser uma pedra? - “Aterro Zeitgeist”( Dir. Kapel Furman | Brasil | 2026 | 8’) - Uma história sobre uma estranha ilha e seus cidadãos com cabeças de concreto, e um aterro onde eles achavam que poderiam se livrar dos seus males, até uma pequena Carranca de barro aparecer. Um conto surreal sobre como toda ação gera consequências. - “Canção de Peixes e Pássaros” (“Balada de peces y pájaros” | Dir. Anny Uribe, Juan José Arévalo | Espanha | 2025 | 7’) - Carlina perdeu o pai no conflito armado colombiano e vive sozinha com a mãe. A dor ainda é avassaladora, e ambas se apegam às suas memórias e objetos pessoais para sobreviver. Tudo muda com o aparecimento de um peixe místico que será o guia de Carlina durante sua aventura. - “Ecos do Amanhã” (Dir. Antônio Eder |Brasil | 2026 | 7’) - Em um mundo onde o cotidiano revela silenciosamente os sinais do colapso ambiental, uma pequena abelha percorre três histórias interligadas que expõem os dilemas da nossa era: a alienação urbana, o consumismo desenfreado e a escassez de recursos naturais. Sem diálogos, o curta-metragem Ecos do Amanhã nos convida a refletir sobre nossos hábitos e escolhas diante da crise climática. Além do alerta, é um convite à reflexão do presente e do futuro incerto. - “Kika Não Foi Convidada” (Dir. Juraci Júnior | Brasil | 2026 | 15’) - Uma menina descobre que não é bem-vinda em uma festinha de aniversário. Enquanto aprendem sobre o valor de uma verdadeira amizade, crianças ensinam sobre empatia e acolhimento. - “Nosso Tempero” (Dir. Alunos e alunas da Escola Municipal João Victor Lagoa Nova/RN e Equipe Animazul, Vitória/ES | Brasil | 2026 | 9’) - Num pequeno povoado dominado pelo caju, no interior do Rio Grande do Norte, uma menina nascida e criada ali confessa que detesta o fruto. Filme realizado a partir de uma oficina de cinema do Projeto Animação (IMA). - “O Jardim Mágico” (Dir. Carlon Hardt, Naira Carneiro | Brasil | 2025 | 6’) - Dois amigos descobrem um tesouro escondido, mas ambos se recusam a aceitá-lo. Juntos, encontram uma solução que fará brotar um lindo futuro para toda a aldeia. O Jardim Mágico é uma história sobre generosidade e o poder transformador dos verdadeiros tesouros. - “Theo” (Dir. Monica Palazzo, Jo Galvv | Brasil | 2026 | 15’) - Em 1986, uma criança de sete anos desafia os padrões de gênero e o preconceito em sua escola ao lutar para jogar futebol entre os meninos — e descobrir, no campo, a força de ser quem se é. Mirada Paranaense Sanepar A Mirada Paranaense Sanepar promove um panorama da produção audiovisual do Paraná, com um olhar dedicado a filmes de todo o estado. O longa-metragem desta edição é o “A Holandesinha” (Dir. João Gabriel Kowalski, Luisa Godoi | Brasil | 2026 | 90’), que acompanha Luiza Godoi Acosta, uma jovem com Síndrome de Down que sonha em ser cineasta e realiza o seu primeiro curta-metragem “Lágrimas de um Pierrot”. O documentário percorre todas as etapas do processo criativo, revelando sua visão de mundo, os desafios enfrentados e as superações diante do capacitismo. Produzido no interior do Paraná, o filme celebra a inclusão e afirma o cinema como espaço de possibilidades, pertencimento e perseverança. Os curtas-metragens da Mostra Mirada Paranaense Sanepar são: - “Enluarada” (Dir. Pedro Nascimento | Brasil | 2026 | 10’) - Lucília busca por paz sob a luz do luar, mas é acometida por manifestações intensas de seu subconsciente, que a obrigam a buscar, em sua individualidade, uma forma de enxergar um mundo melhor dentro de sua vida caótica. Ao longo de uma noite atravessada por emoções da personagem, que ganham forma e presença, a narrativa parte de um caráter surrealista e subjetivo que propõe uma imersão no íntimo invadido de Lucília, desencadeando uma jornada que representa um processo de escuta interior. - “Estrelas Terrestres” (Dir. Rafael Neri M. Ferreira | Brasil | 2025 | 15’) - Miguel, 17 anos, morador de uma pequena cidade do interior do Brasil, sonha em se tornar ator. Ao passar em um teste em uma grande cidade, ele se vê diante do dilema de deixar para trás sua casa e seu melhor amigo, João. Miguel percebe que fugir é mais fácil do que se despedir. - “Imunidade” (Dir. Milla Jung, Candida Monte | Brasil | 2025 | 26’) - Imunidade explora a fabulação de futuros através de uma narrativa audiovisual experimental tecida por mulheres-artistas. Partindo da ideia de que “dizer é agir”, substitui o discurso do apocalipse pela urgência da voz situada — a “garganta de carne” que carrega a memória e a corporeidade da América Latina. Por meio de performances vocais e coreografias de palavras, o vídeo cria um território vibrátil de resistência, desafiando o silenciamento histórico para projetar outros modos de existir. - “Las Vegas, Cuba” (Dir. Felipe Eugênio Lovo | Brasil, Cuba | 2026 | 11’) - No futuro, uma androide viajante desembarca em uma Havana deserta em busca de Las Vegas, um cabaré mítico fundado por um guerrilheiro. - “O Caçador” (Dir. Lucas Mancini | Brasil | 2025 | 20’) - No interior rural do Paraná, um trabalhador idoso, atormentado pela fome, segue o rastro de um misterioso cachorro preto que caça para sobreviver. - “Reza para Baobabs: Um Ebó de Palavras para Ayami e Zola” (Dir. Bea Gerolin | Brasil | 2026 | 4’) - Os ibejis recém nascidos Ayomi e Zola recebem seu primeiro ebó de palavras: uma oferenda de proteção, fé e ancestralidade. “Tornar-se Ciborgue no Interior” (Dir. Louisa Savignon | Brasil | 2026 | 20’) - Leo e Julia, proprietários de um sítio, querem filhos, mas estão com problemas de fertilidade. Ava e Mia, um casal lésbico, acabaram de se mudar para o sítio vizinho. A vinda das duas mulheres criará tensão com os vizinhos. - “Yvyra’ijá há Jate’í Reheguá - Os Quatro Guerreiros e o Jatei” (Dir. Coletivo Ava Guarani de Cinema | Brasil | 2025 | 9’) - Quando era um jovem xondaro, guerreiro do povo Guarani, Libório desbravava fazendas e enfrentava fazendeiros em busca da abelha Jateí. Hoje, já ancião, Libório ensina seus netos a criar as abelhas na própria aldeia: “Antigamente o mato era livre. Se quisesse podia entrar e trazer Jateí, caçar e trazer os bichos. Hoje em dia não, a gente só tem esse pedacinho de mato onde os Ava Guarani podem entrar.” Mostra Exibições Especiais Esse espaço é dedicado a obras inéditas no Brasil de grandes nomes do cinema mundial, assim como filmes brasileiros incontornáveis da última temporada que estrearam em outros eventos, mas chegam para Curitiba no Olhar de Cinema. Fazem parte da Mostra Exibições Especiais os títulos: - “Anistia 79” (Dir. Anita Leandro | Brasil | 2026 | 105’) - Roma, junho de 1979. Exilados brasileiros filmam a Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, o maior encontro da esquerda brasileira fora do país. Quase meio século depois, essas imagens reacendem o debate sobre a manutenção do aparato repressivo da ditadura e a impunidade dos torturadores. - “Barbara Para Sempre” (“Barbara Forever” | Dir. Brydie O’Connor | Estados Unidos | 2026 | 102’) - Uma exploração orientada por arquivos da vida, obra e legado da icônica e pioneira cineasta lésbica Barbara Hammer. - “Flora & Airto: O Som Revolucionário” (Dir. Jom Tob Azulay | Brasil | 2026 | 98’) - Documentário musical de longa-metragem sobre a história do célebre casal de músicos Flora Purim e Airto Moreira, que marcaram o panorama da música mundial a partir dos anos 1970 como pioneiros da jazz-fusion. Durante uma gravação fonográfica nos dias de hoje, o filme entrelaça as vidas pessoais e profissionais dos dois artistas no passado e no presente. - “Futuro Futuro” (Dir. Davi Pretto | Brasil | 2025 | 86’) - Em um chuvoso futuro próximo, um homem sem memória nomeado K embarca em uma jornada trágica e absurda para tentar encontrar o seu lugar no mundo após usar um estranho dispositivo de IA criado para ajudar pessoas com uma nova síndrome neurológica. - “Histórias de um Bom Vale” (“Histoires de la bonne vallée” | Dir. José Luis Guerin | Espanha, França | 2026 | 122’) - Nos arredores de Barcelona, Vallbona é um enclave cercado por um rio, linhas férreas e uma rodovia. Antonio, filho de trabalhadores catalães, cultiva flores ali há quase 90 anos. Ele é acompanhado por Makome, Norma e Tatiana, que vêm de diferentes origens sociais. Ao ritmo da música, de banhos proibidos e de amores florescentes, uma forma poética de resistência emerge diante dos conflitos urbanos, sociais e identitários do mundo. - “Rita Moreira: Crônicas, Memórias e Videotape” (Dir. Sérgio Santos Barroso | Brasil | 2026 | 70’) - Partindo da ideia de que a memória é uma ilha de edição, a veterana cineasta lésbica Rita Moreira revisita sua trajetória através de seus filmes. Entre imagens da Nova York dos anos 1970 — onde se autoexilou durante a ditadura militar brasileira — e obras mais recentes, do final dos anos 2010, o filme costura tempo e experiência para refletir sobre as transformações políticas, sociais e afetivas que atravessam tanto a história do Brasil quanto a vida da diretora. Olhares Clássicos Cine Passeio Este espaço reúne uma seleção diversa de filmes de todo o mundo que marcaram a história da sétima arte, integrando a mostra como uma homenagem a seus realizadores, assim como por seus posicionamentos inovadores em relação às produções contemporâneas da edição. São eles: - “Beirute Fantasma” (“Ashbah Beyrouth” | Dir. Ghassan Salhab | Líbano, França | 1998 | 120’) - Cheio de fantasmas e memórias, o longa-metragem de estreia de Ghassan Salhab se passa no final dos anos 1980, perto do fim da Guerra Civil Libanesa. O protagonista Khalil retorna a Beirute sob uma nova identidade para um confronto com os velhos amigos e companheiros de armas que ele deixou para trás após sua morte forjada uma década antes. - “Veludo Azul” (“Blue Velvet” | Dir. David Lynch | Estados Unidos | 1986 | 120’) - A atmosfera é calma e colorida. É mais um sonho americano. Até que Jeffrey (Kyle MacLachlan) encontra uma orelha humana jogada em um campo. O jovem se vê atraído para uma conspiração cada vez mais profunda pelo submundo de sua antes tão perfeita cidade natal. Em ares surreais, o clima noir e detetivesco toma conta da intrincada trama, conduzida em um mundo de sensualidade e violência. Um dos mais reconhecidos trabalhos de David Lynch (1946-2025) é exibido 40 anos após seu lançamento, no ano em que o cineasta completaria 80 anos de idade. - “Corações Desertos” (“Desert Hearts” | Dir. Donna Deitch | Estados Unidos | 1986 | 91’) - Enquanto aguarda os papéis do divórcio, uma reprimida professora de literatura é inesperadamente seduzida por uma jovem lésbica despreocupada e cheia de vida. - “As Aventuras do Príncipe Achmed” (“Die Abenteuer des Prinzen Achmed” | Dir. Lotte Reiniger | Alemanha | 1926 | 67’) - Baseada nos contos de As Mil e Uma Noites, a animação de silhuetas narra as aventuras mágicas de Príncipe Achmed em terras distantes onde ele faz amizade com uma bruxa, conhece Aladin, luta contra demônios e se apaixona por uma princesa. - “High School” (Dir. Frederick Wiseman | Estados Unidos | 1968 | 75’) - High School foi filmado em uma grande escola urbana na Filadélfia. O filme documenta como o sistema escolar existe não apenas para transmitir “fatos”, mas também para disseminar valores sociais de uma geração para outra. High School apresenta uma série de encontros formais e informais entre professores, alunos, pais e administradores, através dos quais a ideologia e os valores da escola emergem. - “Hollywood Studios” (Dir. Arthur Rogge | Brasil | 1930 | 46’) - Filmado durante a estadia de Rogge nos Estados Unidos entre 1927 e 1928, o filme percorre as ruas de Hollywood, Los Angeles, interessado em revelar ao público brasileiro as estruturas dos grandes estúdios, os atores e atrizes famosos, a cultura e as curiosidades locais. Com gosto de atualidade cinematográfica, este quase centenário filme “paranaense” demonstra por detrás de suas cartelas informativas e retratos peculiares o interesse do empresário tornado cineasta, Arthur Rogge, pelo desenvolvimento de uma indústria cinematográfica local. - “Aqui e em Qualquer Lugar” (“Ici et ailleurs” | Dir. Jean-Luc Godard, Anne-Marie Miéville | França | 1976 | 53’) - Quando o “eu”, “ele” e “ela” chegam a uma região próxima da Palestina, onde combatentes revolucionários se educam com princípios socialistas, em resposta ao sionismo, entra em cena o povo, a luta do povo, até a vitória. Ou seja, estamos diante do “nós”, um princípio coletivo que Jean-Luc Godard e Anne-Marie Miéville revelam na ilha de montagem. O “aqui” europeu e o “lá” palestino se encontram num filme ensaio feito em solidariedade à luta palestina, num momento em que diretores de cinema do mundo inteiro criaram parcerias com o braço cinematográfico da OLP, Organização pela Libertação da Palestina. - “Eles Não Existem” (“Lays lahum wujud” | Dir. Mustafa Abu Ali | Palestina | 1974 | 25’) - Filmando em condições extraordinárias, o diretor que fundou a divisão de cinema da OLP, aborda as condições nos campos de refugiados do Líbano, os efeitos dos bombardeios israelenses, e a vida dos guerrilheiros em campos de treinamento. - “Vento Norte” (Dir. Salomão Scliar | Brasil | 1951 | 73’) - A rotina de uma pequena vila de pescadores no litoral do extremo sul do Brasil é abalada pela chegada de um misterioso forasteiro. Sua presença irá despertar paixões e desencadear uma série de ações violentas entre os habitantes locais, conduzindo a trama a um desfecho trágico. - “As Harmonias de Werckmeister” (“Werckmeister harmóniák” | Dir. Béla Tarr, Ágnes Hranitzky | Hungria | 2000 | 145’) - Adaptado de um romance de László Krasznahorkai, As Harmonias de Weckmeister se desenrola em um tempo desconhecido, em um vilarejo sem nome, onde, um dia, um circo misterioso — com direito a uma enorme baleia empalhada e uma figura sombria e demagógica conhecida como o Príncipe — chega e parece despertar nos cidadãos uma espécie de loucura que caminha inexoravelmente em direção à violência. Filme de Encerramento O longa selecionado para encerrar a 15ª edição do Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba é “Salvação” (“Kurtulos”| Dir. Emin Alter | Turquia, França, Países Baixos, Grécia, Suécia | 2026 | 120’), que tem sua estreia mundial no evento. Com direção de Emin Alper, o filme se passa em uma aldeia remota no alto das montanhas turcas, em que o regresso de um clã exilado reacende uma antiga disputa de terras. Ressentimentos adormecidos ressurgem e Mesut, irmão do líder local, é acometido por visões perturbadoras que acredita serem avisos divinos. À medida que as convicções religiosas, as lutas pelo poder e as tensões aumentam na comunidade, eles seguirão para a tragédia ou para a salvação? Mais informações sobre o 15º Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba pelo site oficial: www.olhardecinema.com.br, assim como pela rede sociais Instagram - @olhardecinema; Facebook/Olhar de Cinema; Tik Tok: @olhardecinema; X/Twitter: @Olhardecinema_. 2º MECI – Mercado do Cinema Independente Depois do sucesso no último ano, o Olhar de Cinema apresenta em sua programação o 2º MECI - Mercado do Cinema Independente, com o objetivo de fortalecer o cinema independente em um espaço dedicado à conexão entre realizadores, distribuidores, exibidores, plataformas de streaming, canais e profissionais do setor audiovisual. A nova edição do MECI ocorre de 9 a 11 de junho no MON - Museu Oscar Niemeyer. O evento foi a primeira iniciativa no Brasil a oferecer um encontro de mercado audiovisual focado em longas-metragens independentes, com foco na ampliação de oportunidades, fomento de parcerias estratégicas e impulsionamento de negócios que movimentam e fortalecem o cinema. Mais informações sobre a programação do Mercado do Cinema Independente direto pelo site www.meci.com.br ou pelo perfil oficial no instagram: @meci.brasil. O 15º Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba é um projeto realizado com recursos da Lei Rouanet, patrocínio master do Terminal de Contêineres de Paranaguá e patrocínio de Peróxidos do Brasil, Mili, Fomento Paraná e Sanepar. Apoio da Cinemateca, Teatro da Vila, Cine Passeio, Icac, Projeto Paradiso e Uninter. Projeto realizado com recursos do Programa de Apoio, Fomento e Incentivo à Cultura de Curitiba - Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba. Projeto aprovado no Programa Estadual de Fomento e Incentivo à Cultura | PROFICE da Secretaria de Estado da Cultura | Governo do Estado do Paraná. Lei Rouanet - Incentivo a projetos culturais, Ministério da Cultura - Governo Federal - União e Reconstrução.

  • Entrevista | “Uma minoria também tem o direito de existir com sua própria cultura”: Jean Claude Barny fala sobre “Fanon”

    Longa que explora vida e trabalho do psiquiatra francês Frantz Fanon durante Guerra da Argélia estreia 14 de maio nos cinemas brasileiros. Imagem: Divulgação Dirigido por Jean Claude Barny, o longa francês Fanon chega aos cinemas do país no próximo dia 14 de maio. Sessão de abertura do Festival Internacional de Brasília no último dia 29, o filme é uma celebração aos 100 anos de existência e trajetória do psiquiatra e filósofo Frantz Fanon (1925 - 1961). Natural da Ilha Martinica, uma colônia francesa no Caribe, Fanon chega à Argélia na década de 50 para chefiar o hospital Blida-Joinville, onde iniciou a sua pesquisa sobre os impactos psicológicos da colonização. Ambientado, em sua maior parte, durante seus anos de atuação no país africano, o longa explora as relações entre colonos e colonizadores, conflitos ideológicos e a violência com a população local, uma das principais razões que levou Fanon a se juntar à Frente de Libertação Nacional e lutar contra o colonialismo africano. Obras como “Pele Negra, Máscaras Brancas” e “Os Condenados da Terra” se consolidaram como marcos da luta racial e colonial, e influenciam movimentos de mudança até os dias atuais. Em entrevista ao Oxente Pipoca, o diretor Jean Claude Barny falou um pouco sobre o processo de criação do filme, as influências de Frantz Fanon em sua carreira e na organização contemporânea, além dos desafios de transformar uma importante figura histórica em uma narrativa cinematográfica. Confira a entrevista abaixo: Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Primeiramente Jean queria agradecer pela disponibilidade. Este é o seu segundo trabalho como diretor, certo? Queria saber o que te motivou a retratar essa trajetória, especialmente em um contexto político tão efervescente. Jean-Claude Barny: Na verdade é o meu quinto filme mas o meu terceiro longa-metragem. E você tem razão ao dizer que este é um filme que conclui temáticas que venho trabalhando há 25 anos: a questão da desculturalização e também a forma como precisamos reconhecer que um país, um lugar com uma origem cultural, também tem o direito de participar do cinema. Este quinto filme fecha esse fio condutor — que é a pessoa que me ajudou a construir todos os outros filmes. Esse fio é justamente como explicar a uma população dominante que uma minoria também tem o direito de existir com sua própria cultura. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Por que você decidiu escolher esse momento específico da vida dele? Jean-Claude Barny: Para mim, esse foi o momento mais importante, quando Fanon realmente conseguiu reunir todas as temáticas que defendia. A Argélia foi o laboratório onde a colonização foi mais brutal, mais radical. Foi ali que ele escreveu “Os Condenados da Terra”. Não foi por acaso. Ao me inscrever nessa escrita, consegui também contar a revolta de todos os povos dominados. É o momento mais importante da vida dele, quando ele enfrenta a colonização mais dura - quando ele vê e escreve diretamente a partir dessa experiência. O filme fala justamente disso: do momento em que ele está ali, vivenciando e escrevendo. É uma forma de compreender todo o sistema e também de não fazer um filme superficial, mas algo que venha do coração da questão. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Houve algum momento da vida de Fanon que você decidiu não mostrar? Jean-Claude Barny: Não, fui muito transparente. Tentei mostrar tudo, inclusive aspectos mais íntimos. É um filme muito autêntico. No fim, é um filme que ajuda a entender quem era o ser humano por trás de Fanon, seu processo de pensamento, escrita e análise. Imagem: Divulgação Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Quais foram os maiores desafios ao transformar um pensador tão complexo em linguagem cinematográfica? Foi difícil equilibrar o lado humano com o peso histórico? Jean-Claude Barny: Isso foi o mais arriscado. O mais difícil era não glorificar demais o personagem, para não esvaziar sua radicalidade. O não “desossar” o personagem, ou seja, não tirar sua essência. Manter sua radicalidade e, ao mesmo tempo, oferecer ao público um filme acessível, usando todas as ferramentas do cinema. Um filme aberto ao público, que se comunique com todos, como a música, os cenários, os figurinos, o roteiro — tudo com a mesma precisão que encontramos na escrita de Fanon. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Que recursos e abordagens foram utilizados para construir os personagens, e como foi esse processo especialmente com o elenco principal? Jean-Claude Barny: Foi um trabalho de quase três anos. Quando lidamos com a psique, especialmente em alguém como Fanon, é complexo. Era preciso mostrar que estamos lidando com traumas e identificá-los, a psiquiatria entra muito nisso. A força do cinema é trabalhar a psicologia, mas Fanon vai além: ele trabalha a psique, que inclui o acúmulo de traumas. Ele busca esses traumas para curá-los. Então, na escrita, precisávamos definir bem esses traumas. Isso levou à criação de elementos visuais, como o quadro vermelho, a floresta e a relação simbólica entre os personagens. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Considerando que o Brasil também vive crises políticas intensas, como você espera que o público brasileiro receba o filme? Jean-Claude Barny: Acho que o Brasil é um espelho de outros lugares onde a colonização foi brutal. Esse povo ainda precisa de elementos para continuar seu processo de crescimento, essa “mutação” ainda não terminou, e Fanon é necessário para o povo brasileiro. Minha intenção é que o filme se torne popular e seja exibido nas escolas, para que os jovens cresçam com consciência. Que alcance diferentes realidades, tanto jovens das favelas quanto os mais privilegiados. E Fanon fala disso: não podemos construir uma sociedade sem enfrentar essas relações, não são apenas sociais mas humanas. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Para finalizar, no Oxente Pipoca sempre pedimos para que o entrevistado nos indique um filme de sua preferência. Você poderia indicar um filme e um livro do Fanon para o nosso público? Jean-Claude Barny: Vou indicar um filme que vi recentemente, um filme cubano chamado “Ao Oeste, em Zapata”. Para mim, é uma obra-prima absoluta, quase perfeita, pela estética e pela forma como conta o que normalmente não é dito. É uma obra atemporal, de grande força emocional, feita por um jovem diretor. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): E um livro? Jean-Claude Barny: Vou indicar dois. Primeiro, “Irmãos Soledad”, um livro afro-americano marcante sobre injustiça. E claro, “Os Condenados da Terra”, Fanon. Esses livros são complementares, pois mostram que o problema central é a opressão sistêmica de uma minoria por uma maioria sobre uma maioria. Se você pegar apenas a Argélia, terá a Argélia como referência. Mas, se você pegar também outro país, terá algo mais amplo. Não se deve ficar somente na questão argelina; é preciso realmente focar na questão de quem domina, do opressor. No caso “Os Condenados da Terra” não é uma questão argelina, mas sim sobre estruturas de dominação, ele assume todas as formas. Assume a forma do capitalismo, assume a forma dos patrões, de relações de poder… é um sistema amplo.

  • Crítica | O Diabo Veste Prada 2

    Carisma, perspicácia e charme continuam em alta, para mostrar que a moda é cíclica, a mídia está sucateada, e que o bom e velho cinema leve deveria voltar a ser tendência. Imagem: Divulgação Em O Diabo Veste Prada 2 (2026), Miranda Priestly (Meryl Streep) luta contra Emily Charlton (Emily Blunt), sua ex-assistente que se tornou uma executiva. Miranda se aproxima da aposentadoria enquanto compete pela publicidade em meio ao declínio da mídia impressa. Mesmo tendo plena consciência da crise criativa que assola Hollywood de forma intensa há pelo menos uma década, não sou o purista que critica sequências, remakes e recomeços contanto que haja de maneira incisiva uma motivação clara que “justifique” aquele movimento, para além do monetário, que é a unanimidade. O Diabo Veste Prada (2006) é um longa-metragem que tem uma legião de fãs ao redor do mundo por unir, essencialmente, cinema, moda e comunicação. Algumas coisas me confortaram nesta continuação antes mesmo de assisti-la, como a distância temporal entre ela e o anterior, o fato de ser o mesmo elenco, David Frankel na direção de novo (junto com quase toda a equipe técnica do primeiro filme) e Aline Brosh McKenna como roteirista mais uma vez. Ou seja, querendo ter uma perspectiva positiva, é uma produção que estava alinhada para acontecer eventualmente, e que maturou por necessários 20 anos para vir à luz. E o resultado surpreende. Moda, enquanto termo referente à roupas e acessórios, vai muito além do vestuário, sendo um fenômeno social, cultural e simbólico que acompanha a história da humanidade e reflete valores, hierarquias e transformações sociais. Para alguns teóricos, os ciclos da moda levam em torno de 20 anos para se repetir e, coincidentemente ou não, este foi o período que levou para a continuação estrear. Reassistir ao longa de 2006 dias antes de ver o de 2026, e tendo passado alguns anos desde que o vi por completo pela última vez, foi, de fato, uma revisita. Em 2006 não existiam smartphones como os conhecemos hoje, nem a lógica dominante de redes sociais, influencers e tendências virais instantâneas, e uma revista fashion a nível Vogue/Runway, de fato, ditava tendências; o e-commerce se limitava aos computadores, e os algoritmos não nos acompanhavam por onde íamos. O segundo filme sabe de tudo isso e mostra de maneira nada sutil logo nos seus primeiros minutos. Num cenário onde os grandes veículos demitem suas forças de trabalho em massa por mensagens impessoais, é como se toda a representação do que aqueles jornalistas, redatores e críticos defendiam também sumisse um pouco, especialmente no tocante à arte. A pauta central é como esse novo direcionamento da mídia, guiado por marcas, patrocinadores e espaço de propaganda, luta para se manter relevante enquanto as métricas e os números altos importam mais do que a qualidade de um trabalho substancial. Ao mesmo tempo, o longa entende que o cenário mudou de forma irreversível. Há um olhar irônico para esse novo ecossistema, em que relevância e autoridade são constantemente disputadas em medidas voláteis. O roteiro evita um posicionamento simplista, tomando partido claro na defesa de que profissionais com repertório teórico sólido, senso estético apurado e vivência cultural não apenas continuam relevantes, como deveriam ocupar os espaços de protagonismo, mesmo em um ambiente cada vez mais orientado por imediatismo. A impressão é de que as críticas e as cutucadas descompromissadas do primeiro, dessem segurança para que o segundo carregasse na munição, tudo isso dialogando sem perder a sofisticação. David Frankel é um dos cineastas responsáveis por consolidar certa leveza “feel good” característica do cinema estadunidense da segunda metade dos anos 2000, e outra vez ele demonstra plena consciência desse legado ao atualizá-lo sem perder sua identidade. Acho que não existam mais palavras a serem ditas que contemplem a maestria de Meryl Streep. E sem contar com o inquestionável talento da dupla Streep e Anne Hathaway, existe um magnetismo entre as duas e um fascínio já estabelecido para além da diegese e que funciona como propulsor para a construção e ambientação deste filme. Ademais, o retorno de Emily Blunt e Stanley Tucci com mais cenas e com um mais profundo (pelo menos em quantidade de texto) desenvolvimento de seus personagens, ajuda a dar sustentação para que o roteiro não dependa exclusivamente das duas protagonistas. Imagem: Divulgação O desfile de figurinos funciona não apenas como deleite estético, mas como comentário sobre permanência e reinvenção. Elementos que marcaram os anos 2000 retornam com naturalidade, como statement belts, botas de cano alto, blazers estruturados e boinas, convivendo com clássicos atemporais do ambiente corporativo feminino, como a saia lápis, o vestido envelope e o trench coat. Nesse sentido, a figurinista Molly Rogers acerta ao tratar o vestuário como narrativa, utilizando marcas como Prada, Chanel, Dior, Zadig&Voltaire, Dries Van Noten, Emporio Armani e Valentino não apenas como vitrine, mas como extensão das personagens e de seus lugares naquele universo competitivo. Naturalmente, trata-se de um filme que encontrará forte ressonância entre entusiastas da moda, especialistas e diletantes, e espectadores atraídos pelo espetáculo visual e pelo status de filme-evento. A trilha sonora carregada de música pop de passarela e as participações especiais ampliam essa sensação, transformando a experiência num produto que ultrapassa a tela. O Diabo Veste Prada 2 compreende que seu maior trunfo está justamente nesse equilíbrio entre nostalgia e atualização, revisitando um universo já consagrado enquanto reflete sobre sua permanência em tempos de transformação acelerada. É uma produção que sabe se curtir, sabe se referenciar (a direção de arte brinca bastante com o cerúleo), e sabe exagerar sem perder a linha que costura a trama principal. É engraçado, é ácido, é emocionante, é energético e, tal qual seu antecessor, será “atual” por pelo menos mais 20 anos. É uma continuação que atinge o exato mesmo frescor do original, e encontra relevância ao reconhecer que, assim como a moda, o cinema também se reinventa em ciclos, adaptando-se sem mudar os aspectos de seu cerne temático, mesmo o cinema brando, reconfortante e inofensivo. É a lembrança de um estilo comercial recente, mas já obsoleto, onde a diversão não anula o muito que se tem a dizer. Nota: 4,5/5

  • Entrevista | “É um filme sobre retomada de poder”: Everlane Moraes dá novos detalhes sobre ‘O Segredo de Sikán’

    Cineasta comenta a construção de sua primeira ficção, que parte de um mito africano para discutir ancestralidade, território e protagonismo feminino. Imagem: Divulgação/EGBÉ – Mostra de Cinema Negro A cineasta Everlane Moraes prepara o lançamento de O Segredo de Sikán, seu primeiro longa de ficção, previsto para 2027. O filme nasce de uma longa pesquisa iniciada durante um período em Cuba e atravessa mais de uma década de desenvolvimento até chegar às filmagens. Misturando realismo fantástico, mitologia africana e contemporaneidade, a obra reconstrói o mito da princesa Sikán a partir de uma perspectiva feminina, conectando territórios da Nigéria ao Recôncavo Baiano.O filme reúne nomes consagrados do cinema nacional, como Grace Passô, Sérgio Laurentino, Noélia Montanhas e Severo D’Acelino, além de talentos locais da região. A produção traz um elenco majoritariamente composto por atores negros, incluindo também Taise Paim, Sara Barbosa e Heraldo de Deus, em uma narrativa que reimagina o mito da princesa africana Sikán, subvertendo seu destino em uma trama de drama, suspense e mistério. Ambientado em um universo distópico, o filme acompanha a história de Sikán, que, para proteger um segredo, se lança ao rio Oddán, na Nigéria. Transformada em um peixe luminoso, sua chegada ao rio Paraguaçu, no Recôncavo Baiano, provoca conflitos entre Cachoeira, cidade matriarcal, e São Félix, cidade patriarcal. Grace Passô interpreta Sara, inspirada na artista cubana Belkis Ayón; Sérgio Laurentino vive Ajamu, guerreiro que busca controlar a energia de Sikán; e Severo D’Acelino é Nasakô, ancião cego que guarda segredos nas águas do Paraguaçu. Outros personagens incluem Matriarca Perpétua (Noélia Montanhas), Naira (Sara Barbosa), Eno (Heraldo de Deus), Tânia (Taise Paim), Zita (Manuela Neves) e Leda (Andreia Anjos). Confira a entrevista com Everlane, realizada na EGBÉ — Mostra de Cinema Negro, em Aracaju (SE): Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Você pode falar um pouco sobre o projeto e como surgiu O Segredo de Sikán? Everlane Moraes: O Segredo de Sikán, que é um projeto que iniciou quando eu estava em Cuba. Foram quatro anos de pesquisa, que foi o tempo que eu fiquei lá, mais oito anos de captação no Brasil, passando por vários laboratórios, várias ideias de projeto, até conseguir finalmente, no ano passado, filmar. Agora eu vou passar para o processo de edição e espero poder lançar em 2027. Então, é um filme que conta uma lenda, um mito antigo que surgiu em Calabar, na Nigéria, que conta a história da princesa Sikán. Uma princesa que supostamente contou um segredo que não deveria contar e foi condenada e julgada por indiscrição, por ter revelado esse segredo. No mito original, é um mito muito violento. Mas eu pego esse mito e reconto desde uma perspectiva feminina e mudo o destino de Sikán. Em vez de uma mulher indefesa, indiscreta, que contou o segredo, eu digo: e se ela não contou o segredo? E se foi mentira? Ela não contou o segredo. Ela conseguiu fugir da condenação e se lançou no rio, levando consigo o segredo, se transformando em um peixe que nadou por rios e oceanos por vários séculos, até chegar ao Rio Paraguaçu, em Cachoeira, no Recôncavo da Bahia, onde eu moro, onde eu nasci. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): E como essa transposição entre territórios e tempos acontece no filme? Everlane Moraes: Então, eu conto essa história na contemporaneidade, a partir desse mito transformado, desse peixe que se encontra dentro do rio. E as mulheres vão ter que se reunir em sororidade, num mundo que é regido por homens, pela masculinidade, pela violência. Elas precisam ter esse segredo ancestral para salvar o mundo, trazer a luz de volta, unificar territórios, devolver o poder à mulher, que foi perdido quando Sikán supostamente contou o segredo. É bem complexo, são várias camadas. Mas também tem uma coisa muito interessante que é a questão do território. No mito original, existiam duas tribos inimigas, Efik e Efor, separadas pelo grande rio Odan. Esses territórios existem, eu fui até lá na Nigéria. E aí eu descobri que eu poderia transpor essa história para a contemporaneidade porque onde eu moro, em Cachoeira, existe Cachoeira de um lado e São Félix do outro, também separadas por um rio, o Paraguaçu. Então é o mesmo tipo de cartografia, o mesmo tipo de território. Eu peguei esse mito antigo e trouxe para um território contemporâneo que tem essa mesma divisão. Foi fácil transpor essa cartografia. O difícil foi fazer a ressignificação do mito, retomar essa história, reviver um mito que estava um pouco esquecido, apagado. Imagem: Divulgação/EGBÉ – Mostra de Cinema Negro Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): O filme parece trabalhar com muitas camadas simbólicas. Como você define essa proposta estética e narrativa? Everlane Moraes: É um filme com muitas camadas, é difícil até explicar. Mas é um filme de realismo fantástico, minha primeira ficção. E tem um desafio plástico muito grande, porque ele é filmado todo à noite, é um filme cheio de mistérios, de segredos, até porque é o segredo de Sikán. Então é um filme em camadas de segredo. É um filme que fala sobre liberdade, sobre retomada de poder, sobre um mundo que está em trevas e que as mulheres recuperam e trazem a luz. É sobre uma perspectiva do mundo que a gente quer criar, com integridade entre mulheres, com outras formas de existência. Tem muitos temas, muitas camadas, mas é isso. Foi muito difícil de fazer, mas eu espero que as pessoas gostem. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Para finalizar, você poderia indicar filmes ou cineastas que te influenciam ou que você recomenda para o público? Everlane Moraes: Eu recomendo toda a filmografia da Sara Gómez, que é uma cineasta pioneira, com um documentário híbrido, social, crítico, muito consciente. Uma gênia. Indico também os filmes do Eduardo Coutinho, que é um mestre do documentário, dos encontros, das fabulações. E eu diria para as pessoas assistirem cinema brasileiro, de todos os gêneros, de todos os temas, do mais simples ao mais complexo. Assistir os clássicos, revisitar o cinema do Glauber Rocha, entender o que construiu a identidade do nosso cinema. Porque a gente precisa entender o que foi construído para poder ressignificar, criar novas formas, novas abordagens. Olhar para dentro para poder transformar. E assistir filmes brasileiros, ver o nosso povo, nossos atores, nossas histórias. É nessa diversidade de olhares que a gente consegue desenvolver um olhar crítico e imaginar novas possibilidades.

  • Entrevista | “Todo mundo torce para um time e para o Zico também”: João Wainer fala sobre 'Zico, O Samurai de Quintino'

    Diretor comenta o desafio de retratar um dos maiores ídolos do futebol brasileiro e explica por que o filme vai além do esporte para falar sobre valores, memória e coletividade. Imagem: Divulgação O documentário Zico, O Samurai de Quintino, dirigido por João Wainer, revisita a trajetória de Zico, um dos maiores nomes da história do futebol brasileiro. Do subúrbio carioca aos gramados internacionais, o filme percorre a carreira do jogador ao mesmo tempo em que busca entender o homem por trás do ídolo. Em cartaz nos cinemas, a produção aposta em um olhar que vai além das quatro linhas, explorando temas como disciplina, família, respeito e coletividade. Com vasto material de arquivo e um trabalho técnico cuidadoso, o documentário constrói uma experiência que dialoga tanto com fãs de futebol quanto com quem pouco acompanha o esporte. Na conversa a seguir, João Wainer fala sobre o processo de construção do filme, as escolhas narrativas e o impacto de revisitar a história de um personagem que ultrapassa rivalidades. Confira na íntegra: Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): É um prazer falar com você. Eu assisti ao filme no início da semana passada e gostei bastante. Uma coisa que me chamou atenção, inclusive conversando com colegas e familiares, é como o Zico é um personagem que ultrapassa a torcida do Flamengo. Muita gente que nem acompanha futebol ainda tem uma relação com ele. Como foi, para você, dar luz a tantos aspectos da vida dele com esse olhar no documentário agora nos cinemas? João Wainer: Eu acho que o Zico, na verdade, é a maior torcida do Brasil. Não é o Flamengo, não é o Corinthians. Todo mundo torce para um time e para o Zico também. Eu brinco que falo que sou “ziquense”, porque eu não sou flamenguista, eu sou santista. Mas eu sou ziquense. Então eu entendi que o Zico é isso mesmo, está acima de qualquer rivalidade, de qualquer clubismo. Todo mundo gosta do Zico. E foi muito legal fazer esse filme e perceber que pessoas que não torcem para o Flamengo, que não gostam de futebol, se conectam com ele de algum jeito. Porque tem uma coisa ali que não é só sobre futebol. É sobre família, amor, respeito, várias outras coisas que vão além. O futebol está lá, claro, mas a gente tentou trazer esse Zico mais humano, esse cara que pensa no outro, que tem um olhar coletivo. Porque, para entender o atleta, a gente precisava entender esse cara. Muitos documentários focam só no esportivo. Quando você traz esse lado, você entende por que o atleta é daquele jeito. Eu sempre cito uma frase do começo do filme, quando ele diz que está há 60 anos no futebol e nunca perdeu um voo. Isso fala muito mais sobre ele do que qualquer estatística. Mostra o comprometimento, o respeito pelos outros. E é bonito ver como dá certo você ser uma pessoa que pensa no outro. Por mais talentoso que você seja, isso não costuma dar errado. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Uma coisa que me chamou atenção foi essa filosofia dele, especialmente no período no Japão, que aparece no título, O Samurai de Quintino. O que motivou destacar esse lado? João Wainer: É porque a gente entendeu que o Zico é a mistura desses dois elementos. Desse elemento do talento, da criatividade, do improviso, com a disciplina, o senso de coletivo, a resiliência que o japonês tem. Então acho que o “Samurai de Quintino” resume bem quem o Zico é. Porque ele tem a disciplina de um samurai e a criatividade e o talento do subúrbio do Rio de Janeiro. E o mais curioso é que isso meio que aconteceu sem querer. A gente já tinha o título antes de entender completamente isso. Quando a gente entendeu que fazia sentido, ficou mais legal ainda. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Teve alguma parte do processo que foi mais difícil do que você esperava? João Wainer: Não, muito difícil eu não diria, não. Eu já fiz bastante coisa, então eu já não me assusto tanto com o documentário. Eu já conheço bem o processo. O que teve foram surpresas boas. Porque, normalmente, quando você se aproxima de um ídolo, você se decepciona um pouco, né? Você descobre que o cara é um ser humano. E com o Zico foi o contrário. A gente foi se apaixonando cada vez mais por ele, entendendo cada vez mais o jeito dele de lidar com a vida, com as coisas. Então foi muito legal nesse sentido. A surpresa foi positiva, não teve uma dificuldade negativa. Talvez a maior dificuldade tenha sido lidar com tanto material e fazer uma história tão grande caber em uma hora e quarenta. Imagem: Divulgação Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): O Zico tem muitos registros ao longo da carreira. Como foi o processo de selecionar o que entraria no filme? João Wainer: É melhor sobrar material do que faltar. Melhor você deixar coisa boa de fora do que não ter coisa boa para colocar. A gente trabalhou com muita coisa, muito arquivo, muito arquivo legal, muita coisa mesmo. Então valeu muito, porque ele tinha um material muito grande. E a Sandra também foi muito importante, porque ela guardou muita coisa. Tem coisa que só está no filme porque ela guardou. Senão, por mais que existisse, a gente não ia conseguir encontrar. Então foi meio por aí. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): A gente tem visto uma onda de documentários celebrando figuras ainda em vida. Isso influenciou a decisão de fazer o filme agora? João Wainer: Acho que a gente não pensou nisso, não, de fazer com ele em vida ou não. Até porque o Zico ainda tem muita lenha para queimar. Ele nunca parou.Eu tenho brincado que a missão do Zico não era só jogar bola. A missão dele é levar essa palavra, esse espírito, essa postura de vida. Ele é quase um pastor nesse sentido, de levar essa forma de enxergar o mundo. Eu queria muito que as novas gerações prestassem atenção nisso. Porque ele era um jogador extremamente talentoso, mas era o primeiro a chegar no treino, o último a sair, pensava no coletivo, voltava para marcar, não tinha estrelismo, não tinha frescura. Ele fazia todo mundo crescer junto com ele. Não pisava na cabeça de ninguém para crescer. Então acho que ele é muito essa referência para as próximas gerações. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Como você espera que o filme ressoe no público? E, para fechar, queria uma indicação de filme ou série brasileira. João Wainer: Eu recomendo muito Cangaço Novo, que acabou de lançar a segunda temporada. Eu adoro essa série, acho impressionante a profundidade, os atores, tudo. Para mim, é uma das melhores séries brasileiras já feitas. E deixo o convite para as pessoas irem ao cinema assistir Zico, O Samurai de Quintino. É um filme que merece muito ser visto na tela grande, porque a gente fez um trabalho de som muito especial. A gente gravou os instrumentos da torcida em canais separados, para espalhar pelo cinema, criar essa sensação imersiva, com som vindo de diferentes lados, aquela coisa do 7.1. A gente regravou gritos de guerra antigos e trabalhou as imagens de arquivo com novas tecnologias. Então você vê imagens que antes eram pequenas com uma qualidade muito maior. É uma experiência que faz o cinema parecer um estádio. Tem coisas ali que até o próprio Zico se surpreendeu quando viu.

  • Crítica | Treta (2ª temporada)

    Mais personagens com protagonismo não foi a melhor ideia para superar o brilhantismo do ano de estreia. Imagem: Divulgação Quando estreou lá em 2023, Beef (ou Treta aqui no Brasil) me arrebatou de cara. Inicialmente, seria uma minissérie – o que já faria dela uma das melhores coisas que a Netflix já fez, mas dado o tremendo sucesso, a renovação aconteceu e a transformaram em uma série antológica, como acontece de vez em quando. Ainda é uma das melhores coisas do streaming? Definitivamente. A 2ª é tão boa quanto a 1ª? Definitivamente não, mas passa longe de ser ruim. Desta vez, a trama é focada em quatro personagens (ou cinco, quase). Um casal jovem e apaixonado que não consegue se desgrudar, feitos por Cailee Spaeny e Charles Melton, que acabam flagrando uma terrível briga entre um casal mais maduro, interpretado por Oscar Isaac e Carey Mulligan – em uma reunião nostálgica para os fãs do excelente Inside Llewyn Davis, como este que vos fala. E é daí que começa a treta do ano. O problema é que ela me soou menos orgânica do que a briga no trânsito da 1ª temporada, e portanto, quando tudo vai escalonando, há uma fragilidade mais aparente do roteiro. Josh (Isaac) é gerente de um clube de alto escalão que acaba de ser comprado por uma bilionária sul-coreana, que é o papel da vencedora do Oscar Youn Yuh-jung. Josh é casado com Lindsay (Mulligan), mas a relação já não está das melhores, e com toda a aflição das possíveis mudanças, tudo piora. Ashley (Spaeny) tem um emprego pequeno no mesmo clube e seu noivo Austin (Melton) tem menos ainda, pois trabalha apenas meio-período. Já perceberam a pirâmide das classes sociais refletidas nos relacionamentos aqui? Pois é, é um dos temas basilares da temporada, sendo os debates sobre capitalismo um dos principais motores. Austin e Ashley querem mudar de vida, enquanto Josh e Lindsay querem mais do que têm, enquanto a Presidenta Park (Yuh-jung) quer manter o império que já possui. Tudo isso leva os personagens do ponto A ao ponto B, mas a devida substância em cada um deles, porque afinal, mesmo estando em relacionamentos – que é o maior debate – eles ainda são indivíduos. Na primeira temporada, tínhamos dois protagonistas, tudo girava em torno deles e os eventos escalonavam com naturalidade, por mais absurdos que fossem. Agora nesta segunda, alguns me parecem um tanto forçados, devo dizer, e o absurdo não soa mais tão genuíno assim, bem como os personagens mostrando suas piores facetas, justamente por não ter este desenvolvimento mais aprofundado em cada um deles. Josh é um homem de 40 anos meio acomodado com a vida que leva, mas ainda assim com um sentimento de que não pertence aquele lugar, mas finge pertencer. Enquanto Lindsay, insatisfeita com o casamento e com a vida estagnada, clama por alguma mudança já que não pode voltar no tempo e fazer outras escolhas. Ashley é uma jovem louca para formar uma família e Austin é um bobão que faz tudo o que todo mundo quer. Claro, de início, até que as situações vão mostrando novas facetas, boas e ruins. Imagem: Divulgação O elenco, claro, fantástico. Oscar Isaac divide seu Josh entre a amargura e o desconforto, enquanto tenta disfarçar suas verdadeiras emoções. Carey Mulligan tem o rosto mais doce do mundo e sempre parece ser boazinha, mas eu adoro ver quando ela não é. A atriz é versátil e tem um controle genial ao mostrar suas emoções. Cailee Spaeny tem uma personagem onde a juventude salta aos olhos, bem como a inquietude de meter os pés pelas mãos – o que todos fazem, na verdade. Charles Melton, para mim, o destaque principal. Justamente por seu Austin ser tão subdesenvolvido pelo texto, o ator mostra sua força que já surpreendeu em May December e consegue nos dar informações de suas inseguranças com uma sutileza impecável. Youn Yuh-jung tem um papel bem diferente dos que eu a vi, como em Minari ou Pachinko, e foi um deleite assisti-la em algo mais vilanesco, digamos assim. Todos eles e os mais diversos coadjuvantes – até participações de alguns famosos como eles mesmos – brilham no tom da série, passeando com facilidade entre o drama e o humor. Formigas são sinônimo de persistência, força e união. Então não é à toa que aparecem em vários momentos dos oito episódios para nos lembrar de que aqueles personagens podem não se amar, e até se odiar às vezes, mas precisam um do outro para sobreviver, como casal, pelo menos. E ainda que este segundo ano não seja tão substanciado ou bem equilibrado como o primeiro, ele ainda é acima da média de tantas produções que temos hoje em dia. A direção excelente é prova disso, não só por tirar o melhor dos atores, mas indo de belíssimos enquadramentos à insanos planos-sequências, ditando o tom da loucura que é a série. Outros aspectos como os figurinos, que realmente conversavam com os personagens, a trilha sonora espectacular e o design de produção tão cuidadoso mostrado principalmente nas desigualdades sociais. São detalhes que fazem o valor de uma produção. No entanto, Lee Sung Jin pecou pelo excesso de personagens centrais, não dando o desenvolvimento que eles mereciam. Ainda temos excelentes cenas e momentos pelos episódios, mas substancialmente faltou. O final, que não é ruim, reflete esta queda de uma temporada para outra. Enquanto o primeiro tem uma pegada mais filosófica que encerra um ciclo, nesta segunda vemos que a vida é cíclica e de uma maneira mais cínica e pouco surpreendente, não que seja isso seja um defeito, é apenas uma constatação. Treta ainda é uma das melhores coisas no ar, mas definitivamente a primeira a gente nunca esquece. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Maldição da Múmia

    Terror surpreende por não medir esforço para chocar, mesmo com obstáculos na narrativa. Divulgação Katie, a jovem filha de um jornalista estadunidense, desaparece no Cairo sem deixar rastros. Oito anos depois, a dilacerada família já de volta aos EUA fica chocada quando recebem a notícia de que sua filha está viva e fora encontrada. Após resgatarem a menina e voltarem para casa, o que deveria ser um reencontro feliz se transforma em um pesadelo vivo. Maldição da Múmia é o tipo de filme onde o espectador que chega desinformado não faz ideia do que esperar e ainda assim não é nada do que se espera. Sob o comando de Lee Cronin, a produção mergulha de cabeça no grotesco e não economiza nos visuais, apostando em imagens e situações feitas justamente para incomodar. É um trabalho assumidamente gore, que aproveita toda oportunidade que encontra para empurrar suas ideias até o limite do absurdo, quase desafiando o espectador a continuar encarando. O terror físico aqui não é sugestão, é exposição direta, detalhada, sem pudor algum em mostrar cada camada do que está acontecendo. Nesse cenário, o que mais chama atenção é como a estrutura física de Katie, já transformada em múmia, se torna peça central da narrativa. Mais do que símbolos antigos ou referências fáceis ao misticismo, o longa encontra força no corpo em decomposição e em movimento. A atuação de Natalie Grace é um espetáculo à parte, com um trabalho corporal impressionante que sustenta boa parte da tensão. Cada movimento estranho, cada contorção desconfortável, ajuda a construir um clima agonizante que entranha na pele de quem assiste. Divulgação Curiosamente, a produção cresce justamente quando decide largar qualquer amarra com lógica ou plausibilidade. Quanto mais exagera, melhor funciona. O desfecho vai se tornando cada vez mais incômodo de olhar, quase insuportável em alguns momentos, mas também impossível de ignorar. Ainda assim, fica aquela sensação de que o excesso de elementos, monstros, frases soltas, orações, encantamentos e rituais acaba se resolvendo de maneira simplória demais, como se tantas ideias interessantes fossem encaixadas às pressas. Além disso, o texto também tenta construir uma camada emocional que vai além do impacto visual imediato. Em alguns momentos, isso funciona melhor do que se poderia esperar, adicionando textura e um certo peso dramático que ajuda a sustentar a narrativa. Essa abordagem evita que a história se torne apenas um desfile de horrores desconectados, diminuindo o distanciamento que o teor sobrenatural poderia causar. Quando acerta esse tom, o longa encontra um equilíbrio interessante entre o choque e o envolvimento. Mesmo com essas escolhas questionáveis, o trabalho entrega bons momentos de susto e até um suspense investigativo que sustenta o ritmo. É uma nova perspectiva sobre uma assombração mitológica conhecida no mundo inteiro, tentando encontrar seu próprio caminho dentro de um terreno já explorado. Pode até deixar pontas soltas entre causas e consequências e apresentar soluções que não fecham completamente os buracos, mas é uma produção que se leva a sério e não desperdiça nenhuma chance de chocar, e isso merece respeito. Nota: 3/5

  • Entrevista | “Desejo que as pessoas de Goiânia se sintam homenageadas com esse trabalho”: Ana Costa fala sobre “Emergência Radioativa”

    Atriz destacou importância da série para conscientização sobre o caso e reflete sobre saída do Nordeste para construção de sua carreira no eixo Rio São Paulo. Divulgação Mesmo separadas por uma distância de pouco mais de 1.500 km, a cidade piauiense de São Raimundo Nonato e a capital goiana passaram a compartilhar uma conexão significativa. Lançada no dia 18 de março, a série da Netflix Emergência Radioativa, segundo a revista Exame, já soma mais de 10,8 milhões de visualizações e alcançou o Top 10 em 55 países. Entre nomes como Jonny Massaro, Marina Merlino, Bukassa Kabengele e Alan Rocha, Ana Costa coloca o Piauí em evidência ao interpretar Antônia. Inspirada em Maria Gabriela Ferreira — responsável por levar a cápsula com Césio-137 à Vigilância Sanitária e que se tornou símbolo da tragédia —, a personagem traz à tona a luta e as dores de uma heroína que impactou o destino de uma cidade inteira. Em conversa com o Oxente Pipoca, a atriz falou sobre a importância de retratar narrativas de impacto social, a responsabilidade de dar vida à Antônia, o trabalho com o diretor Fernando Coimbra e compartilhou um pouco de sua trajetória profissional. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Parabéns pela série Ana, que série maravilhosa. Quando sua entrevista chegou para mim, eu tinha acabado de ver a morte da Antônia. Aquilo me doeu de uma forma, meu Deus. Vou reviver todo aquele luto de novo conversando aqui com você! Ana Costa: Ô, mulher, é um momento bem delicado, assim. Para você ter uma ideia, eu fiz a série, mas quando eu assisto, não tem condição. A gente já assistiu tantas vezes, o elenco já assistiu junto, já assisti com amigos, e era sempre muito profundo para mim. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Então vou começar falando sobre Emergência Radioativa. Apesar de ser um caso que agora se sabe que teve uma repercussão mundial, ele certamente chegou com mais impacto na região centro-oeste, sudeste, principalmente ali em Goiânia. Para você, como nordestina e como piauiense, como essa história chegou? Ana Costa: Eu conto sempre para as pessoas que, na época, eu tinha sete anos, e eu juro, nunca ouvi falar sobre o caso. Eu vim conhecer o caso depois que fui aprovada para esse trabalho, foi aí que entramos com uma pesquisa profunda sobre, estudando sempre, continuo até hoje. Tem tanta coisa acontecendo, e eu me percebo ainda com mais curiosidade sobre tudo. Então, eu falei com os meus pais e aí eles me falaram. Inclusive, na época que eu contei, ano passado, eles até falaram que tinham a intenção de mandar rejeitos também para o Piauí, lá em Valença. E isso é uma coisa que a gente não via. Quando você dá um Google, e vai pesquisar sobre o Césio, você não vê essa informação. E agora, recentemente, com esse boom da série, surgiram algumas postagens, as pessoas estão mandando para mim, inclusive fotos de manifestações que aconteceram lá em Valença no Piauí, que é o meu estado. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Então, você teve essa responsabilidade muito grande de trazer a história da Maria Gabriela, mesmo que não diretamente, já que foram mudadas algumas coisas, mas você já havia estado dentro de uma história baseada em fatos reais em Tremembé, mas agora para a Ana, interpretar um personagem tão forte, que é símbolo de um acontecimento tão devastador, qual foi o peso disso tudo para o seu pessoal e para a Ana atriz também? Ana Costa: É um peso bem diferente do que aconteceu em Tremembé, porque a minha personagem em Tremembé não era inspirada numa pessoa real. No caso de Emergência Radioativa, sim. E vem toda essa responsabilidade, né? A gente entende que como atriz, independente de qualquer história que está sendo contada, sendo ela inspirada num caso real ou não, a gente já tem essa responsabilidade embutida porque é formador de opinião. Então, assim, tem pessoas ali te assistindo, muita gente ouve aquilo que você diz enquanto personagem, e traz para a vida. Então, imagina, representar pessoas reais num acidente que marcou tantas vidas, que está marcando ainda mais agora com a história voltando. Eu só consigo enxergar, assim, muito respeito, continuo tendo mais respeito pela história. A Ana, enquanto atriz, muito responsável...feliz por poder contar essa história dessa maneira e por participar dessa narrativa. Eu sinto que a partir de agora, em meus próximos trabalhos vou sempre lembrar da Antônia nesse lugar, independente se eu só pegar ficções e não histórias inspiradas em casos reais, eu vou sempre lembrar de contar essa história com muita profundidade, respeito à memória das pessoas, das vítimas envolvidas, e trazer isso para a vida agora, sabe? Ser uma contadora de história requer muita responsabilidade. Divulgação Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Que lindo. Eu li em uma entrevista que você não reconheceu o Fernando Coimbra de primeira, né? Achei sensacional! Eu queria que você falasse um pouco como foi esse processo de audição e qual foi o momento que caiu a ficha que você ia estar trabalhando com uma equipe tão grande como essa, você trabalhou com nomes gigantes ali, como o Johnny Massaro, por exemplo, que está com tudo agora. Queria que você contasse um pouquinho mais sobre esse processo. Ana Costa: Olha, essa história, eu falo que foi assim, a cereja do bolo. Porque pensa só, o Fernando Coimbra é gigante. Imagina se eu sei que aquele homem que está ali dentro é ele, quando eu entrei para fazer o teste. Eu ia tremer. Por que isso acontece? A gente vem de uma onda de muito selftape. Desde a pandemia, isso virou muito recorrente. Então, assim, não são todas as produções que te chamam para um teste presencial. Quando eu fiz o teste para Emergência Radioativa, eu fiz um self-tape primeiro, em dezembro, que acredito que foi um teste genérico. Todas as mulheres faziam o teste para Catarina, todos os homens faziam o Evenildo, algo assim. Fiz aqui na minha cozinha, comendo cuscuz, inclusive. Foi bem legal esse teste. Mandei para eles. E aí foram tentativas de presencial até que aconteceu no dia 5 de fevereiro, inclusive. Só que, assim, não é descaso com a quantidade de teste, mas é que a gente já vem tão desgastado, sabe, fazendo teste, que você nem olha muito ali as informações que vêm da ficha técnica da equipe. Você olha a sinopse da personagem quando te mandam, um pedacinho falando alguma coisa dela, porque senão você tem que adivinhar o que você vai fazer. E depois de tudo vai para o texto. Quando eu vi lá o que dizia o texto, aí fui atrás da história mesmo. A minha agente, a Nani, acabou falando, “Isso é um caso real, pesquisa! ” Então, eu pesquisei antes do teste e fui. Não olhei os nomes, porque depois que acabou o teste, que fui olhar a mensagem da assistente da minha agente, eu vi estava escrito “Fernando Coimbra”, foi quando fui no Instagram e vi a cara do homem. Falei “Meu Deus, eu estava com o Fernando Coimbra! ” Mas foi tão maravilhoso, foi genial, porque o Fernando, além desse grande diretor, ele é ator também. Então, ele te traz tanta tranquilidade. Dentro da sala tinha o diretor, uma atriz fazendo réplica para mim, que a Rebeca, que inclusive está na série também. E um fotógrafo com a câmera, em movimento, tá? Que é uma delícia. Então, o teste foi em movimento. Muito legal. E eu já cheguei conversando.... Tinha encontrado com o Felipe Frazão... Saindo do teste também, que é um querido com quem trabalhei no meu segundo trabalho na TV... Estava bem à vontade e o teste foi muito bonito. O Fernando tem muita empatia, ele me dava coordenadas ali, a gente fez uma vez, depois ele falava “Agora vamos experimentar tal coisa”... E fomos por aí. Falei que era do Piauí, ele já foi para o Piauí também, e a gente entrou com o assunto Serra da Capivara, e quando vimos, se passaram horas no teste. E eu sou muito grata por esse momento, porque era pra ser minha mesmo, Antônia. Eu adoro quando ele diz que quando eu saí da sala, ele falou, “Achamos Antônia”. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Deve ter sido muito emocionante receber esse feedback do Fernando Coimbra. Ana Costa: Nossa, muito. Assim, no set ele é tão parceiro, não é aquele.... Porque eu venho do teatro, né? Então estou muito acostumada com o estereótipo do diretor que é carrasco, que tem que ser. Ele é autoridade máxima dentro de um set. Então, óbvio que a gente respeita essa hierarquia, mas com o Fernando parecia que a gente estava ali, em um grupo de teatro, todo mundo fazendo junto, daqui a pouco vai tocar o terceiro sinal e vai todo mundo fazer e entregar o seu melhor. Foi assim, eu nunca mais vou esquecer essa experiência. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Na mesma entrevista, você falou um pouco que esperava que a série atraísse o olhar das pessoas. Levando em consideração que a série alcançou o top 1 da Netflix, e se consolidou no ranking de muitos países, eu queria que você falasse um pouquinho, acima de tudo, como você espera que as pessoas daquela região que foram diretamente ou indiretamente afetadas por essa situação enxerguem o trabalho de vocês? Ana Costa: Você sabe que quando a gente começou a fazer esse trabalho a nossa maior preocupação era de fato com as pessoas de Goiânia com as famílias que foram atravessadas com esse acidente. Porque para nós jamais faria sentido se não chegasse neles da maneira como a gente gostaria que chegasse, que foi uma maneira respeitosa, cuidadosa, com muita sensibilidade com respeito, acima de tudo. Então, não vou mentir para você, a gente ficou apreensivo de como eles receberiam. E tem sido esplêndido receber mensagens dos goianos. Eu recebo muitas mensagens de Goiânia, do Goiás, no geral, no Instagram. Eles se sentem sim representados. Claro que não dá para agradar todo mundo, mas mais que agradar, a gente entende que o importante está sendo feito, que as pessoas enxergarem que o trabalho é para além de entretenimento. Realmente, a gente está ali usando a função da arte mesmo como um produto de transformação social. Porque eu tenho falado com muita gente que nunca ouviu falar sobre esse acidente, com pessoas que tinham ouvido e não lembrava mais. Então, assim, como é importante ter Emergência Radioativa aí no topo para a gente não esquecer…. Eu acho que ninguém nunca mais vai esquecer desse acontecimento, né? Eu desejo que as pessoas de Goiânia, as pessoas que foram afetadas de maneira direta, até indiretamente, com esse acidente, se sintam homenageadas com esse trabalho. Porque a nossa intenção, de fato, sempre foi contar essa história para que ela jamais possa ser esquecida, para que a gente não caia no vacilo de repetir algo tão doloroso. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Verdade. Para a gente aqui do Oxente Pipoca, hoje eu falo de Sergipe, que é o menor estado do país. É maravilhoso poder falar uma nordestina presente em uma produção desse nível. Não é seu primeiro trabalho numa plataforma grande, mas eu queria que você contasse um pouco da sua trajetória desde São Raimundo Nonato, não é isso? Até aqui. E hoje você se estabeleceu 100% no Eixo Rio-São Paulo? Ana Costa: Sim, 100%. Eu tô aqui desde 1999, que eu acho que tu nem era nascida. Eu tô aqui há bastante tempo. Tanto que, assim, sofro bullying pelos meus amigos do Piauí, porque meu sotaque ficou aquela coisa misturada. Mas não tem como, ainda mais trabalhando com arte. Às vezes você pega um trabalho que as pessoas pedem que você “neutralize” o seu sotaque. Então a gente tem que trabalhar dessa maneira. Mas eu saí de lá com 18 aninhos, tinha acabado de me formar como professora lá em São Raimundo. A vida toda eu fui ligada à arte. A gente dançava, interpretava, criava historinhas na escola. Dos 17 aos 18 trabalhei com comunicação diretamente, trabalhei em rádio, tive programa Jornalístico, programa musical Jornalista. Então quando eu cheguei aqui em São Paulo, lembro de ter na minha mente essa ideia de buscar cursos de teatro. Eu queria ir para a televisão queria mesmo, mas eu entendi pelo menos aqui que o teatro era o início de tudo, que é a base, e graças a Deus eu escutei, porque eu fiquei de 2006 até 2018 só fazendo teatro. Participei de vários coletivos aqui em São Paulo, coletivos muito importantes, que formaram a atriz que eu sou hoje. Em 2018, depois de algum tempo, fui testando pra séries, mas não aprovava, porque eu fazia tudo muito grande. De tantos nãos eu fui aprendendo. Daí consegui meu primeiro trabalho, que foi Carcereiros 2, para a Globoplay. Com a Neide Aparecida, que era coadjuvante. Então, assim, são dois episódios e a personagem muito importante para a resolução de um contexto ali envolvendo um dos protagonistas, que é o Tony Tornado. No mesmo ano eu fiz Show da História, que eu faço uma indígena marajoara, onde eu conheci o Frazão, que eu te contei aqui a pouco. Participei de Ninguém Tá Olhando, que também é uma série premiada da Netflix, DNA do crime, sempre pequenas participações. Às vezes, chegava teste pra grandes personagens, mas eu ouvia “ Ana foi maravilhosa, a Ana foi ótima, mas infelizmente esse papel a gente não vai conseguir agora para ela. Será que ela topa fazer tal coisa” E a gente vai topando até chegar num lugar que a gente diz, não mais. Eu tenho 45 anos, tenho essa estrada toda, aprendendo, porque a gente nunca vai parar de aprender. Mas chega em alguns momentos que você precisa dizer uns nãos para poder que os sims. E aconteceu isso com a minha Emergência Radioativa. Quando eu recebi a aprovação e estava lá a atriz principal, eu juro, estava na fila de cinema com uma amiga. Eu só não cai para trás, porque eu sou nordestina resistente. Desde então estou no Rio de Janeiro fazendo esses trabalhos. Ano passado eu filmei um longa e fiquei um mês lá, que era um desejo muito grande daquela criança interior. Porque a gente criança no Nordeste, cidadezinha bem pequenininha, você cresce vendo novela, né? Você cresce vendo Leblon, Manuel Carlos. Ipanema, o céu, o cristo lá na ponta. E eu vivi a minha experiência, assim. É um longa que sai em breve e a gente vai poder falar sobre ele. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Estamos presenciando uma ascensão muito grande de artistas nordestinos, de filmes nordestinos. Só que o Nordeste é composto por nove estados que nem sempre são muito desbravados. Eu queria saber se tem alguma história do seu estado que ainda não foi contada e que você acha que merecia ser contada. E se você tem projetos para trabalhar em papéis nordestinos? Ana Costa: Eu sempre falo o seguinte, tem muita coisa para ser contada. Eu adoraria que fizessem um trabalho relacionando a Serra da Capivara. Os nômades ali, sabe? A ancestralidade daquela região. Eu desejo muito fazer uma personagem sertaneja e trazer todas essas camadas dessa mulher que nem preciso contar muito, mas que você olha e já identifique, sabe? Toda a força que tem atrás dela. Então, o meu desejo é latente. Adoraria filmar no Nordeste, mas principalmente ali, no sertão do Piauí, desbravando aquelas serras, contando um pouco dessa história relacionada à Serra da Capivara. A gente tem hoje um turismo cultural e histórico muito forte. Então, ia ser incrível para mim nas telas do cinema, uma personagem de São Raimundo Nonato, Serra da Capivara, Cânions do Viana, sabe? Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Então, por último, nós temos uma tradição aqui no Oxente Pipoca de pedir para nosso entrevistado uma indicação de filme ou série brasileira que você ache que o nosso público deveria assistir. Ana Costa: A série que eu quero indicar pra vocês é Emergência Radioativa. A gente é muito rico, né? Muito rico. Mas eu quero continuar indicando a Emergência Radioativa, sim. Temos muito tempo ainda aí pela frente com esse assunto em alta. Eu indico as pessoas procurarem sempre projetos que tenham, além do entretenimento, esse objetivo também histórico, cultural, acima de tudo, com raízes, com histórias que atravessaram pessoas, para que a gente possa, a partir da arte, ter modificações perfeitas na nossa vida, no nosso dia a dia, no nosso comportamento como cidadão. Então, assistam, compartilhem, contem para os amigos, mostrem para os filhos, tem muita criança assistindo. Recebo muita mensagem dos pais falando “minha filha assistiu, meu filho assistiu”, e eles falam “ai tadinho deles”. Continuem acompanhando a gente, nosso elenco é tão potente, tão poderoso, com outros nordestinos lá no elenco. Eu estou muito feliz mesmo com a repercussão e desejo que as pessoas continuem vendo a nossa série.

  • Entrevista | “É só isso? Então é pouco”: Elza Cataldo fala sobre memória, ausência e criação em O Silêncio de Eva

    Diretora comenta o processo de reconstrução da trajetória de Eva Nil, atriz do cinema mudo brasileiro, e reflete sobre fazer cinema fora do eixo, memória e o gesto radical de recusa. Imagem: Divulgação O documentário O Silêncio de Eva, dirigido por Elza Cataldo, resgata a trajetória de Eva Nil, uma das figuras mais enigmáticas do cinema brasileiro dos anos 1920. Apesar do destaque na época, grande parte de sua obra se perdeu, restando apenas fragmentos, fotografias e registros dispersos. Com uma linguagem híbrida, o filme mistura pesquisa histórica, imagens de arquivo e recriações ficcionais para lidar com essas lacunas, e, ao mesmo tempo, refletir sobre memória, apagamento e o papel das mulheres na história do cinema. Na entrevista abaixo, a diretora fala sobre o processo de descoberta da personagem, os desafios da narrativa e o que significa contar histórias a partir da ausência. Leia na íntegra: Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Primeiro, eu queria agradecer pela disponibilidade. Eu assisti ontem ao documentário e gostei bastante. É muito curioso revisitar uma memória que a gente nem sabia que existia. Queria começar te perguntando o que te motivou a contar essa história e como ela chegou até você. Elza Cataldo: Eu fui apresentada à personagem Eva Nil pela atriz Inês Peixoto, do Grupo Galpão. Ela tinha visto uma exposição sobre a Eva e ficou encantada com essa atriz que também não conhecia, ali da região de Cataguases, na Zona da Mata mineira, e me apresentou essa história. Eu também sou da Zona da Mata, nasci em uma cidade pequena próxima de Cataguases, chamada Tocantins, em Minas Gerais. Quando conheci a Eva, me encantei imediatamente. É uma personagem muito instigante, inclusive pela relação dela com o pai. A exposição que a Inês viu era composta por fotografias, e essas imagens são muito impressionantes. Mostram um processo criativo muito rico: Eva se vestia, usava figurinos, maquiagem, adereços, criava personagens, enquanto o pai fotografava. Muitas dessas personagens acabaram ficando mais registradas nesses retratos do que no próprio cinema. Outro aspecto que chama muita atenção, e continua chamando, é o fato de que quase ninguém conhece a história da Eva Nil. E, no entanto, ela foi uma jovem corajosa, uma atriz à frente do seu tempo, que sonhava em fazer cinema em uma pequena cidade de Minas Gerais. Também é importante lembrar que ela era filha de Pedro Comello, um homem cosmopolita, que viveu no Egito, onde a própria Eva nasceu, e que, ao chegar ao Brasil, passou a trabalhar com Humberto Mauro. Foi nesse ambiente criativo que ela iniciou sua trajetória. No Brasil, a preservação da memória ainda é muito limitada. Os filmes da Eva se perderam quase todos, restam apenas alguns fragmentos. O que ficou, em grande parte, foram esses retratos, que considero um legado fundamental dela e do pai. O que me moveu foi justamente esse mistério em torno da personagem e a vontade de resgatá-la, tanto para a história do cinema quanto para a história das mulheres. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): No documentário, vocês comentam que há materiais até das décadas de 70 e 80 que já se perderam. Então, imagina o que aconteceu com registros da década de 1920. Elza Cataldo: Então, o filme tinha esse grande desafio. A narrativa da trajetória da Eva é muito frágil. E, como você viu, a gente usou muitos dispositivos no documentário para conseguir chegar até ela. Uma das opções foi recuperar o roteiro de Senhorita, agora mesmo, que também chegou até nós de forma fragmentada. A gente recria, reconstitui, reescreve um pouco, junta esses fragmentos e constrói uma pequena parte do filme. É uma forma de responder a essa ausência de memória. Já que não temos, vamos criar uma memória para Eva. E aconteceu também uma coisa muito interessante: a Bárbara Luz, filha da Inês com o Eduardo Moreira, parece muito com a Eva Nil. É impressionante. Quando a gente coloca as imagens lado a lado, dá até um susto. E eles formam também uma família criativa. Então eu tentei fazer esse paralelo entre a família da Eva e essa família de artistas. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): O filme rompe com aquele formato mais tradicional de documentário e constrói uma linguagem própria, com recriações e paralelos. Como surgiu essa escolha? Elza Cataldo: Foi uma licença poética, uma forma de sair dessa linguagem documental mais tradicional. Como o nosso objeto é uma personagem com pouca informação factual, com pouca preservação de imagem, a solução foi recriar. A gente até usa o termo fabular. Vamos fabular sobre a vida da Eva Nil. E como ela era uma atriz do cinema mudo, a gente achou interessante recriar um fragmento de Senhorita, agora mesmo dentro dessa linguagem, usando inclusive a ideia de janelas. A gente trabalha com três janelas: a do documentário, a do estúdio recriado do Pedro Comello e a da encenação. E aí surgem essas coincidências, como a semelhança do Eduardo com o pai da Eva. Tem cenas em que isso fica muito forte. É quase uma conjunção misteriosa que permite que a gente conte essa história usando esses artifícios. Imagem: Divulgação Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): A Eva aparece como uma mulher à frente do seu tempo, mas também como alguém que decide parar. Existe um mistério aí. Elza Cataldo Existe, e isso é muito interessante. Falam até dela como uma “Greta Garbo brasileira”. O que me impressiona é esse lado visionário. Ela queria fazer cinema, gostava de Hollywood, tinha referências, queria cenários, figurinos, interpretação, queria ser paga, ser tratada com profissionalismo. Para uma jovem atriz naquele contexto, isso é muito forte. Ela queria um cinema mais grandioso, e muitos projetos não foram adiante porque eram elaborados demais. E tem o momento da recusa. Quando ela escreve aquela carta dizendo que está à disposição para qualquer coisa, menos para o cinema, isso tem elementos muito atuais. Ela fala de ego, de dificuldades de produção, de orçamento, de limitações que a gente ainda enfrenta. Às vezes, eu tenho a sensação de que ela pensou: “é só isso? Então é pouco, não quero”. E quem trabalha com cinema sente isso. Só que a gente continua. E eu não sei quem é mais corajosa, se ela que rompeu ou a gente que continua. Mas ela também se reinventou. Ela virou fotógrafa, continuou criando, do jeito que era possível, com mais autonomia. Viveu disso, construiu a vida dela assim até os 80 anos. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Nosso portal busca dar visibilidade a produções fora do eixo. Como você enxerga esse lugar de fazer cinema fora desse circuito? Elza Cataldo Tem muita afinidade. A gente compartilha essas dificuldades. Mas o que move a gente é o desejo de fazer cinema, a paixão. No meu caso, também a questão da história e de revelar personagens femininas, ser uma espécie de porta-voz dessas mulheres invisibilizadas. Eu não encaro o cinema só como entretenimento. Ele precisa ter sentido para mim, para que eu consiga ficar anos desenvolvendo um projeto. Mesmo no eixo, as coisas não são imediatas, mas o acesso é diferente.E, ao mesmo tempo, a gente vê hoje um cinema muito potente sendo feito fora desse eixo. O cinema do Nordeste, do Norte, com muita força, muita identidade. No fundo, o que move é isso, a paixão pelo cinema. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Como tem sido a recepção do público e o que você espera que as pessoas levem do filme? Elza Cataldo: Tem sido uma recepção muito positiva, porque é uma história que pouca gente conhece. E, mesmo sendo da década de 1920, ela tem muitas semelhanças com o presente. O público se conecta com essa mulher jovem, visionária, autêntica. E eu espero que as pessoas se surpreendam com essa história e reconheçam a importância da Eva, tanto para o cinema quanto para a história das mulheres. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Para encerrar, queria pedir uma indicação de filme ou série e também um convite para o público assistir ao filme. Elza Cataldo Eu acho que, neste momento, não poderia deixar de citar O Agente Secreto, que também fala sobre memória, ainda que por outro ponto de vista. E, internacionalmente, eu citaria Hamnet, que me emocionou muito. É um filme histórico, com um olhar feminino muito forte e que eu queria ter feito. E convido o público a assistir O Silêncio de Eva e conhecer essa história. É uma trajetória que ainda é pouco conhecida, mas que pode surpreender bastante.

  • Crítica | Cangaço Novo (2ª temporada)

    Ao intensificar a ação, a série faz do sertão um palco de revolta, resistência e coletividade. Imagem: Divulgação Por mais que um crítico tente expressar seu parecer de maneira objetiva e impessoal, sabemos que isso é impraticável: crítica é, fundamentalmente, opinativa e toda opinião é, necessariamente, atravessada por experiências pessoais. Ainda assim, cultivamos a impressão de que nossos juízos se apoiam em um suposto parâmetro universal de letramento audiovisual, como se estivéssemos julgando a partir de critérios estáveis e previamente estabelecidos. Tudo para sustentar uma falácia de que o autor que se distancia do próprio texto escreve mais autoridade. Para que eu possa falar de Cangaço Novo, no entanto, esse fingimento não se sustenta. Não há como elaborar uma análise que ignore a minha própria história, porque não houve um único frame que não a evocasse. Abro mão, então, dos protocolos e começo esta crítica falando de mim. Na infância, visitava com frequência o sertão onde meu pai nasceu e onde sua família vive até hoje. Em Poço Redondo (SE), me acostumei com gente entrando sem cerimônia para um café na casa da minha avó; vi meu avô, político, ser tratado como celebridade local; caminhei pelas ruas com minha prima como se, aos 10 anos, fôssemos donas do mundo; ouvi histórias improváveis contadas com a convicção de quem jura ter provas. Lá, deixei de ser meu nome e passei a ser “a filha de”, “a neta de”. Lá, conheci homens de voz alta e ameaça fácil, e também as figuras mais doces, de fé inabalável e vocação para o cuidado. Depois da adolescência, rendida à vida cosmopolita, essas visitas se tornaram raras. Consigo contar nos dedos quantas vezes voltei ao sertão na última década. Ainda assim, certas obras funcionam como gatilho, trazendo de volta memórias vívidas, que tem gosto de farofa de ovo e bolo de macaxeira. Dois momentos, em específico, intensificaram esse retorno: quando assisti a Bacurau (2019) e ao acompanhar Cangaço Novo (2023 -). Em sua Poética, Aristóteles defende que a arte tem a capacidade de gerar empatia ao nos permitir experimentar, por meio da representação, as ações e emoções de outros. Trata-se de um exercício de deslocamento: ao nos colocarmos no lugar do personagem, compreendemos melhor suas motivações e conflitos. Existe, porém, uma catarse distinta quando esse “outro” nos é familiar, quando a representação toca diretamente em vivências que reconhecemos como nossas. Nesse caso, a catarse deixa de ser apenas de empatia e passa a ser pertencimento, resistência e celebração. Evidentemente, a minha experiência de menina da capital passando férias no interior não se compara às batalhas – literais – dos Vaqueiros em Carcará. Nunca precisei defender terra ou presenciei violência explícita. O que se aproxima, porém, é o entorno: a arquitetura, o sotaque, os costumes, as roupas, as relações sociais, as tradições, as piadas, os flertes, as festas, os velórios. A semelhança é tamanha que, em certos momentos, chega a arrepiar. Esse efeito certamente não é casual. Há um trabalho de pesquisa minucioso que se materializa com precisão na direção de arte, especialmente na cenografia e na caracterização dos personagens. Casas, objetos, tecidos, cortes de cabelo e até o desgaste das superfícies funcionam como marcadores sociais precisos, compondo um universo verossímil e profundamente ancorado em referências concretas. Cada detalhe se mostra pensado para além das funções narrativas, entrando no difícil e maravilhoso terreno da representatividade. A trilha sonora e a seleção musical reforçam esse enraizamento, evocando o sertão sem recorrer a clichês fáceis. A fotografia segue caminho semelhante: em vez de reiterar a estética da miséria, tão recorrente em representações mainstream do Nordeste, opta por evidenciar a beleza da paisagem, suas cores, texturas e luminosidades. Assim como na temporada anterior, a série traz uma estrutura semi-maniqueísta: há um vilão de perfil autocentrado mais evidente (Gastão, vivido por Bruno Bellarmino) e uma personagem que se aproxima de certa santificação (Zeza, interpretada por Marcelia Cartaxo), o que delimita lados com maior nitidez. Ainda assim, essa oposição demarcada não resulta em contornos novelescos, já que o restante do elenco é construído a partir de nuances e contradições. Ninguém é inteiramente bom ou mau – o que evita simplificações e adiciona densidade às relações. Nesse equilíbrio, o sofrimento dos protagonistas não é vitimizado, ao passo que suas vitórias são celebradas com mais intensidade, atravessadas por uma combinação ambígua de alívio, prazer e mesmo um certo desconforto moral. A única ressalva relevante está na trajetória de Dilvânia, que, ao buscar (merecidamente) mais espaço nesta temporada, acaba enveredando por uma linha narrativa que tangencia um misticismo sagrado. A escolha, ainda que pouco aprofundada, destoa do realismo cru que orienta o restante da série e fragiliza a suspensão de descrença, justamente por não dialogar com o que havia sido previamente estabelecido. Como uma nota desafinada, o descompasso se evidencia e, ainda que de forma pontual, interrompe a imersão. Imagem: Divulgação O elenco, por sua vez, se mantém como um dos maiores trunfos da produção. Há uma organicidade que atravessa do núcleo protagonista às menores participações, criando a impressão de que aquelas figuras saíram diretamente das minhas próprias memórias do interior sergipano. Tamanha verossimilhança, claro, tem um motivo: ela nasce da decisão de escalar atores nordestinos para interpretar personagens nordestinos, eliminando artificialidades e dispensando qualquer esforço de “construção” de sotaque. Como resultado, tem-se atuações que estão mais para presença que para performance. Mérito direto de Gabriel Domingues e Carol Martins, cuja direção de elenco demonstra notável sensibilidade. Por falar de elenco, o entrosamento dos criminosos principais — Alice Carvalho, Allan Souza Lima, Ênio Cavalcante e Joálisson Cunha — é um dos pontos altos da trama, alcançando a harmonia perfeita entre afeto e conflito que deve ter um bando de cangaceiros. A chegada de novos personagens (entre eles, a ótima participação de Xamã) não desestabiliza essa engrenagem – ao contrário, amplia e reforça a coesão do grupo. O destaque recai sobre Alice Carvalho, que imprime a Dinorah uma naturalidade impressionante. Sua interpretação, sendo a única mulher dentre tantos bandidos, transita com fluidez entre irreverência, humor, seriedade, afeto, zelo, inconsequência e fúria, compondo uma figura complexa e profundamente humana. É de uma entrega rara, que consolida Carvalho, com folga, como atriz mais promissora de sua geração. Com os personagens já consolidados, a nova temporada avança com mais fluidez e intensidade. A estrutura que abre cada episódio com flashbacks centrados na família Vaqueiro amplia o contexto emocional e histórico do que está por vir, aprofundando as motivações em jogo. As cenas de ação, por sua vez, se organizam a partir de conflitos claros e bem encadeados, sempre coerentes com as características previamente estabelecidas de cada personagem. Tudo faz sentido e nada soa arbitrário. A progressão dramática se constrói em sucessivos picos de tensão, mantendo o espectador em estado constante de alerta e reiterando, a cada novo desdobramento, o risco permanente da missão assumida por eles. O roteiro, assinado por Mariana Bardan, Eduardo Melo e Fernando Garrido, acerta especialmente ao aprofundar o eixo político da narrativa, evidenciando como, em última instância, os impactos das disputas de ego dos dirigentes recaem sobre a população mais pobre. Entre os arcos, ressalto o que aborda a crise hídrica, contrariando o senso comum ao apontar que o problema do sertão não é a escassez de água, mas a má gestão e falta de políticas públicas. Em tese, a história da segunda temporada de Cangaço Novo poderia acontecer em diversos outros contextos. Trata-se, no fundo, de mais uma variação do mito de Robin Hood, o anti-herói que rouba dos ricos para dar aos pobres – uma construção narrativa que atravessa épocas, de Zorro ao Arqueiro Verde, de A Princesa Prometida (1987) a Rogue One (2016). Poucas coisas são tão sedutoras quanto assistir à justiça social sendo operada pelas próprias mãos daqueles que foram historicamente privados dela. Contar essa história no sertão nordestino, entretanto, adiciona uma camada de significado impossível de replicar em outro cenário. Trata-se de uma região marcada por uma longa história de negligência e ostracismo, onde a luta e a revolta se inscrevem como traços culturais. Não por acaso, afinal, foi o palco da trajetória de Lampião e seu bando. Assim, ainda que a trajetória de Dinorah, Dilvânia e Ubaldo pudesse ser transposta para outros contextos — das favelas cariocas a territórios indígenas ou assentamentos do MST— sem prejuízo estrutural ao enredo, algo essencial se perderia no caminho. Algo que se explicita nas telas mas que, por mais que eu insista em encarar o teclado à minha frente, resiste às palavras, escapa qualquer descrição. É por isso que sustento a ideia de que há dois tipos de espectador para Cangaço Novo: aquele que conhece o sertão e aquele que apenas ouviu falar. A nova temporada tem fôlego narrativo de sobra para conquistar ambos. Ainda assim, não escondo o privilégio de pertencer ao primeiro grupo. Nota: 4,5/5

  • Cineasta sergipano é selecionado por programa da Warner Bros. Discovery voltado a documentaristas negros

    Fellipe Paixão integrou grupo de 10 profissionais escolhidos entre 596 inscritos em iniciativa voltada ao desenvolvimento de carreiras e projetos no audiovisual. Imagem: Divulgação O cineasta sergipano Fellipe Paixão foi um dos dez participantes selecionados para a 3ª edição do programa Narrativas Negras Não Contadas — Black Brazil Unspoken, iniciativa da Warner Bros. Discovery voltada ao desenvolvimento e aceleração de carreira de documentaristas negros no Brasil. Com 596 projetos inscritos de diferentes regiões do país, o processo seletivo escolheu profissionais com base no potencial criativo, relevância das propostas e conexão com o público contemporâneo. Ao longo de dois meses, os participantes passaram por uma jornada intensiva de formação, com mentorias, workshops e acompanhamento de especialistas da indústria audiovisual e executivos da companhia. O realizador foi selecionado com o projeto Rainhas da Palavra, documentário que fala sobre o protagonismo negro feminino na construção do slam (competições de poesia falada) em Sergipe, articulando performance, poesia e a construção de uma cena cultural no estado. “Eu tento manter os pés no chão sobre o que significa esse tipo de seleção, mas, ao mesmo tempo, entendo como um marco importante na minha trajetória. Para quem está construindo a carreira, esse reconhecimento funciona como um validador dentro da indústria. Também me interessa a possibilidade de dialogar com um público mais amplo, de pensar um cinema que circule para além de nichos, sem abrir mão de uma perspectiva autoral”, afirma. Natural de Tabocas, povoado de Nossa Senhora do Socorro, Fellipe atua como diretor, roteirista e diretor de arte, com formação em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e especialização em Direção de Arte pelo Ateliê Bucareste de Cinema. É membro fundador do coletivo Agora Seremos, que desenvolve projetos audiovisuais colaborativos em contextos periféricos, articulando cinema, território, memória e formação. Sua trajetória recente inclui a codireção do curta-metragem ALIVE (2024), selecionado para a Mostra de Cinema de Tiradentes e o Festival de Gramado, além da participação no Laboratório Universitário do Nordeste Lab, onde foi premiado pelo YouTube Brasil para a realização do curta Pretinha (2025), centrado em masculinidades negras e juventude periférica sergipana. Fellipe também assina a direção de arte do curta Óleo, produção sergipana selecionada para o Festival de Cannes. Entre seus projetos em desenvolvimento, o cineasta finaliza o curta Fotopintura, que investiga memória e fabulação a partir de arquivos familiares, explorando a materialidade da imagem em película Super 8. Paralelamente, trabalha na realização de seu primeiro longa-metragem e na continuidade de projetos autorais voltados ao cinema ensaístico e territorial. A participação no programa da Warner Bros. Discovery marca um novo momento na trajetória do cineasta, ampliando sua inserção em circuitos de desenvolvimento e reforçando a presença de realizadores sergipanos em iniciativas nacionais do audiovisual.

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