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  • Vamos conversar sobre a lista de inscritos brasileiros para o Oscar 2026 de Melhor Filme Internacional?

    Respondendo diversas dúvidas dos nossos seguidores e dando um panorama da temporada atual Divulgação Todo ano, a Academia Brasileira de Cinema organiza uma comissão responsável por avaliar os filmes inscritos e escolher apenas um título para representar o Brasil no Oscar de Melhor Filme Internacional. Essa decisão é estratégica e leva em conta tanto a força artística da obra quanto seu potencial de aceitação junto ao público e à crítica internacional. Neste ano, 16 filmes ficaram aptos a disputar essa vaga. O cronograma da seleção já está traçado: no dia 8 de setembro será revelada a pré-lista com seis filmes, e, uma semana depois, em 15 de setembro, a comissão anunciará oficialmente o longa que carregará a responsabilidade de representar o Brasil no Oscar de Melhor Filme Internacional. Uma vez escolhido, o representante entra na corrida ao lado de produções de mais de 80 países, passando a integrar oficialmente o radar da Academia de Hollywood e da temporada de premiações mundial. No entanto, nem todos avançam com o mesmo destaque: primeiro, alguns títulos são pré-selecionados pelos votantes do Oscar, em uma espécie de “Fase 1” que reduz a longa lista de inscritos. Em seguida, a “Fase 2” determina os indicados oficiais do ano, afunilando até os cinco finalistas que disputarão a tão cobiçada estatueta dourada. Divulgação Panorama da lista de inscritos • O Agente Secreto (Kleber Mendonça Filho) Marcelo é um especialista em tecnologia que foge de um passado misterioso e volta ao Recife em busca de paz. Ele logo percebe que a cidade está longe de ser o refúgio que procura. • O Último Azul (Gabriel Mascaro) Em um Brasil quase distópico, onde o governo transfere idosos compulsoriamente para uma colônia habitacional para “desfrutar” seus últimos anos de vida, Tereza embarca em uma jornada para realizar seu último desejo. • Homem com H (Esmir Filho) Desde uma infância reprimida até sua revolução artística, Ney Matogrosso transforma os palcos, e a si próprio, por meio da música, da criatividade e do seu entusiasmo. • Oeste Outra Vez (Erico Rassi) Totó e Durval são abandonados pela mesma mulher. Motivados pela dor do abandono, eles iniciam uma intensa guerra entre si. • Malu (Pedro Freire) Uma mulher com um passado glorioso se vê presa. A complexa relação com sua mãe conservadora e com sua filha adulta torna a crise ainda mais aguda, em meio a momentos de carinho e alegria entre as três. • Manas (Marianna Brennand) Marcielle, uma garota de 13 anos, vive com os pais e três irmãos em uma casa às margens do rio. Ela luta para proteger a si mesma e a irmã mais nova do abuso sexual do pai e da exploração nas balsas. • Baby (Marcelo Caetano) Logo após ser liberado de um Centro de Detenção, Wellington se vê à deriva nas ruas. Durante uma visita a um cinema, ele conhece Ronaldo, que lhe ensina novas formas de sobreviver. • A Praia do Fim do Mundo (Petrus Cariry) Estrelado por Marcelia Cartaxo, o aclamado filme cearense segue uma jovem que mora em uma casa prestes a ser invadida pelo mar e tenta convencer sua mãe adoentada a se mudar. • Os Enforcados (Fernando Coimbra) O casal Regina e Valério se vê envolvido em dívidas e traições herdadas da família de Valério. Uma noite, eles encontram o plano perfeito. Mas são sugados por uma espiral de violência que parece não ter fim. • Milton Bituca Nascimento (Flávia Moraes) A turnê de despedida de Milton, uma das maiores lendas vivas da música brasileira. Os últimos shows de Bituca, como é carinhosamente conhecido, e captura a profunda conexão entre o artista e seus fãs. • A Melhor Mãe Do Mundo (Anna Muylaert) Para escapar de um relacionamento abusivo, Gal coloca seus dois filhos no carrinho que usa para coletar lixo nas ruas da cidade e foge, convencendo-os de que estão em uma aventura. • Retrato de Um Certo Oriente (Marcelo Gomes) Baseado no livro “Relato de um Certo Oriente”, o filme se passa em 1949 e conta a história de Emilie e Emir, dois irmãos católicos que fogem de uma guerra iminente no Líbano. • O Filho de Mil Homens (Daniel Rezende) Conta a história um pescador solitário que sente o vazio da ausência de um filho e sonha em ser pai. Em sua busca por relacionamentos verdadeiros e profundos, ele encontra Camilo, um menino órfão, e decide criá-lo, construindo uma família atípica e singular. • Vitória (Andrucha Waddington e Breno Silveira) Narra a história real de uma aposentada que desmontou uma quadrilha de traficantes e policiais a partir de filmagens feitas da janela do seu apartamento. • Kasa Branca (Luciano Vidigal) Na trama, Dé é um adolescente da periferia da Chatuba, que recebe a notícia de que sua avó está na fase terminal da doença de Alzheimer. • Um Lobo Entre os Cisnes (Marcos Schechtman e Helena Varvaki) O filme conta a história de Thiago Soares, um garoto do subúrbio carioca que deixa para trás o hip hop e embarca no mundo do balé clássico. Divulgação Em termos de qualidade, pode-se dizer que esta é uma das listas mais fortes, senão a mais forte, da história dos inscritos brasileiros ao Oscar, com uma grande diversidade de gêneros e formatos. Dito isso, é importante lembrar: qualidade não garante representação. No Oscar, presença e visibilidade em festivais e outras premiações costumam pesar muito mais do que o mérito artístico isolado. Entre os destaques, temos títulos como Oeste Outra Vez e Os Enforcados, que certamente vão entrar nas listas de melhores do ano de muita gente. Há também Homem com H, um verdadeiro fenômeno de bilheteria e streaming, que conseguiu furar a bolha e alcançar um público imenso. Mas, sem dúvidas, os dois nomes mais fortes da disputa este ano são… Divulgação O caso de O Último Azul Vencedor de três prêmios na 75ª edição do Festival de Berlim, incluindo o Urso de Prata de Grande Prêmio do Júri, ‘O Último Azul’ já foi selecionado para mais de 40 festivais ao redor do mundo e tem distribuição garantida em 65 países. Estrelado por Denise Weinberg, Rodrigo Santoro, Adanilo, Miriam Socarrás e Rosa Malagueta, o longa foi o grande destaque brasileiro deste início de ano, coroando uma jornada de destaque em festivais até chegar aos cinemas nacionais em 28 de agosto. Com direção do pernambucano Gabriel Mascaro, ‘O Último Azul’ reúne muitos elementos que poderiam credenciá-lo como o representante brasileiro: uma narrativa envolvente premiada internacionalmente, a presença de Rodrigo Santoro - nome reconhecido mundialmente - e o prestígio de um prêmio de peso como o de Berlim. Em outros anos, isso talvez fosse suficiente para garantir a escolha. Porém, a ausência de distribuição nos Estados Unidos e a confirmação, até agora, de apenas um grande festival de outono (TIFF, na mostra Centrepiece, voltada a cineastas contemporâneos já consolidados) acabam reduzindo suas chances na corrida. Divulgação O caso de O Agente Secreto Marcando o retorno de Kleber Mendonça Filho à direção de um longa-metragem ficcional, ‘O Agente Secreto’ já pode ser considerado um dos maiores filmes brasileiros desta década. Em termos de relevância e força internacional, a produção se destaca de forma impressionante. Para ser ainda mais direto: em diversos parâmetros, trata-se do segundo maior filme brasileiro recente - ficando atrás apenas do nosso vencedor do Oscar, ‘Ainda Estou Aqui’. A estreia aconteceu na prestigiada competição oficial do Festival de Cannes, que há anos se consolidou como um dos principais termômetros para o Oscar de Filme Internacional. Lá, ‘O Agente Secreto’ foi o título mais premiado da edição, conquistando quatro troféus: Melhor Direção (Kleber Mendonça Filho), Melhor Ator (Wagner Moura), o Prêmio FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema) e o “Art et Essai”, concedido pela AFCAE (Associação Francesa de Cinema d'Art et d'Essai). Durante o festival, o longa foi adquirido pela distribuidora NEON, reconhecida pelo histórico vencedor de prêmios, garantindo estreia em novembro nos Estados Unidos com uma boa presença em salas - um passo decisivo para aumentar sua visibilidade entre os votantes. Antes disso, o filme ainda circulará por festivais fundamentais na temporada de premiações, incluindo o 50º Festival de Toronto, o Festival de Telluride e o 63º Festival de Cinema de Nova York. Acredito que todos esses fatores reforçam ‘O Agente Secreto’ como o candidato mais competitivo do Brasil neste ano. A combinação entre prestígio, reconhecimento internacional, estratégia de distribuição e presença em festivais-chave o coloca em uma posição praticamente incontestável. Só um grande choque poderia impedir sua escolha - algo que, vale lembrar, já aconteceu com Kleber Mendonça Filho no passado, quando 'Aquarius' acabou preterido, apesar de sua forte presença internacional e aclamação crítica. Divulgação Respondendo às dúvidas dos seguidores Quando postamos a lista anunciada pela ABC, alguns seguidores levantaram alguns questionamentos e acredito que aqui é o melhor momento… Com isso, vamos lá: PERGUNTA: O Brasil pode enviar mais de um filme na categoria de Melhor Filme Internacional? E nas outras categorias? RESPOSTA: Na categoria de Melhor Filme Internacional, cada país pode inscrever apenas um filme (obrigatoriamente em língua não inglesa) para concorrer. Já nas demais categorias não existe esse processo de inscrição por país: qualquer filme pode ser considerado, desde que cumpra os critérios da Academia. Porém, a disputa costuma ser muito mais difícil, já que a maioria das vagas é dominada por produções norte-americanas. Ainda assim, há exceções. Um exemplo recente é Anatomia de uma Queda: mesmo não tendo sido o escolhido da França para a categoria de Filme Internacional, o longa teve uma campanha forte em outras frentes e acabou indicado - e vencedor - em categorias principais. Casos assim são possíveis, mas são mais difíceis. PERGUNTA: Fernanda Montenegro (Vitória) e Denise Weinberg (O Último Azul) só poderiam concorrer ao Oscar de Melhor Atriz se os filmes delas fossem inscritos pelo Brasil em Filme Internacional, ou existe a chance de serem indicadas mesmo que o escolhido seja, por exemplo, ‘Agente Secreto’? RESPOSTA: Não precisa ser o filme selecionado em Melhor Filme Internacional. Elas poderiam sim ser indicadas, mas é algo quase impossível sem a força de uma campanha específica. Normalmente, os estúdios não investem em atores de filmes estrangeiros que os filmes não estejam na categoria internacional. Casos assim são muito raros - como aconteceu com Anatomia de uma Queda, em que Sandra Hüller foi indicada mesmo sem o longa ter sido o escolhido da França, graças ao forte investimento da distribuidora NEON. PERGUNTA: Vocês acham que a Globo poderia investir junto com a Sony em uma campanha para a Fernanda Montenegro (por Vitória)? Tenho a impressão de que, apesar dos elogios, esse papel não teria força suficiente sozinho para levá-la ao Oscar. RESPOSTA: Acho que não. É um caso muito específico, com chances quase nulas. Além disso, a Fernanda dificilmente conseguiria fazer uma campanha agressiva, viajando por meses para divulgar o filme - o que torna tudo ainda mais improvável, infelizmente. PERGUNTA: E ‘Apocalipse nos Trópicos’? RESPOSTA: O foco deve ser na categoria de Melhor Documentário - e, nesse caso, não precisa ser o filme inscrito pelo Brasil em Internacional para concorrer. Inclusive, vários sites apostam numa possível indicação. Vamos ficar de olho. PERGUNTA: Vocês acham que Jesuíta Barbosa (Homem com H) tem chance? RESPOSTA: Assim como a Fernandona, infelizmente não. Se fosse a atuação de um ator dos Estados Unidos, em uma biopic convencional, provavelmente já estrearia como um dos grandes favoritos. Mas, sendo brasileiro, sem distribuição nos EUA e sem a visibilidade internacional necessária, as chances dele acabam sendo nulas. PERGUNTA: Documentários podem ser escolhidos? Vi que ‘Milton Bituca Nascimento’ ta na lista. RESPOSTA: Pode sim! Documentários também podem concorrer na categoria de Melhor Filme Internacional. Em 2021, o Brasil escolheu ‘Babenco – Alguém tem que ouvir o coração e dizer: Parou’ para representar o país, mas, infelizmente, ele não avançou para a pré-lista de indicados. Divulgação O cenário internacional Este ano promete ser novamente dominado por filmes que saíram do Festival de Cannes. Só entre os premiados em diferentes mostras do evento francês, já despontam como possíveis inscritos: It Was Just an Accident, Sentimental Value, Sirât, No Other Choice, A Useful Ghost, Left-Handed Girl, Nouvelle Vague, Sound of Falling e, claro, O Agente Secreto. Mais uma vez, a categoria de Filme Internacional no Oscar se mostra a mais interessante da premiação, com uma liberdade narrativa e de gênero muito mais legal que a própria categoria principal. Vale destacar também a força da NEON neste ano. Só entre os títulos citados acima, cinco deles são distribuídos pela empresa nos Estados Unidos, incluindo o brasileiro. A grande questão é: será que a empresa que venceu o Oscar do ano passado com ‘Anora’ conseguirá dar uma campanha robusta para todos eles? A tarefa parece difícil, mas a expectativa é que o longa protagonizado por Wagner Moura esteja, ao menos, entre os três principais da distribuidora. Esse favoritismo inicial se sustenta nas movimentações estratégicas: presença confirmada em praticamente todos os grandes festivais e, principalmente, o prêmio que Moura receberá no Festival de Zurique, que pode ser apenas o primeiro de uma série de reconhecimentos durante a temporada. Divulgação Minha aposta atual para a categoria de Melhor Filme Internacional é… Sentimental Value (Noruega) O Agente Secreto (Brasil) No Other Choice (Coréia do Sul) Nouvelle Vague (França) ou Left-Handed Girl (Taiwan) - quem for a prioridade da Netflix Sound of Falling (Alemanha) Sim, tenho comentários. Podem perceber que não estou apostando em ‘It Was Just an Accident’. Isso porque não acredito que algum país inscreva o filme - embora eu torça para estar errado, já que quanto mais competição, mais interessante fica a disputa. O longa de Jafar Panahi tem três possibilidades: Irã (quase impossível), França (que não deve optar por ele) e Luxemburgo (a chance mais concreta). É uma situação muito parecida com a de ‘Tudo Que Imaginamos Como Luz’, que mesmo sendo o filme internacional mais aclamado do ano passado, com forte carreira em festivais e prêmios da crítica, acabou não sendo escolhido por nenhum país - inclusive dois desses que também poderiam selecionar o filme de Panahi. Enfim, só o tempo nos dirá. Talvez no meu próximo texto aborde isso novamente. Divulgação Enfim, esse é apenas o primeiro de diversos textos que pretendo elaborar durante essa temporada. A cada nova movimentação, festival ou anúncio de campanha, volto aqui para atualizar o cenário e compartilhar impressões sobre as chances brasileiras e o panorama internacional. O jogo está só começando. Tem mais alguma dúvida? Só chegar nas nossas redes sociais que tiramos na hora! Notícias, Críticas e Dicas: se inscreva no canal do Oxente Pipoca no WhatsApp

  • Crítica | Invocação do Mal: O Último Ritual

    Capítulo final resgata charme e sentimento de James Wan, mas peca pelo excesso de cafonice Divulgação Em Invocação do Mal: O Último Ritual os investigadores paranormais Ed e Lorraine Warren assumem o caso mais perturbador de suas carreiras. Jack e Janet Smurl, junto com sua família, começam a perceber que sua casa está apresentando sinais de infestação demoníaca. Sem saber como lidar com a situação, eles tentam de tudo até chamarem a atenção dos Warren que até então haviam deixado as investigações de lado. Os Warren então descobrem que a forma de mal envolvida é uma antiga conhecida da família. É curioso perceber como Invocação do Mal 4: O Último Ritual se mostra um filme particularmente sensível ao dedicar uma parcela generosa do tempo de tela aos laços familiares que sustentam Ed e Lorraine Warren. A relação entre os dois é mais uma vez o pilar da narrativa, mas agora soma-se ainda mais uma camada emocional ao adicionar a filha do casal, Judy Warren, como personagem essencial, peça-chave na trama. E é nesse viés que o filme encontra fôlego justamente quando se debruça sobre a intimidade desses vínculos, fazendo o horror reverberar de forma mais pessoal. Falando tudo isso parece que temos o mais polido dos dramas, no entanto, é impossível ignorar as limitações de Michael Chaves, cineasta que até aqui se mostrou mais confortável na cafonice do que na construção de um terror eficiente. Em sua filmografia, raramente se vê uma escolha criativa que não soe exagerada ou óbvia — ele insiste em escancarar o que poderia ser sugerido, perdendo assim um bocado da força que a gramática do terror encontra na sutileza. Ainda assim, é preciso admitir que, em comparação com o terrível terceiro filme da franquia, Chaves parece mais inspirado aqui. Há menos ansiedade em sua direção e, por vezes, ele alcança momentos de tensão bem construídos, além de costurar com mais cuidado as cenas familiares, apoiadas em diálogos funcionais que dão embasamento à narrativa. Mas o vício permanece, mesmo quando cria boas oportunidades, insiste em extrapolá-las visualmente, e desperdiçando o potencial do impacto que poderia ter alcançado. Divulgação O elenco também sustenta com segurança o peso da história. O elenco que dá vida a família Smurl trabalha com força e ajuda e ajuda a solidificar a atmosfera do filme, ampliando bem a dimensão dramática do terror. Destaque também para , os atores que encarnam a versão jovem dos Warren no início da trama adicionam um frescor inesperado, revelando um passado que opera diretamente com a essência do casal e garantindo a cena de abertura que funciona como um bom prólogo. A produção resgata parte da paixão que James Wan havia impresso nos primeiros capítulos da franquia, devolvendo à série sua capacidade básica de provocar bons sustos, algo que o filme anterior sequer conseguiu entregar. No pior dos cenários, ao menos o quarto filme cumpre o papel de encerrar de maneira satisfatória uma das mais influentes franquias de terror contemporâneas, ao mesmo tempo em que deixa aberta a porta para futuras derivações de qualidade duvidosa. A despedida pode não ser perfeita, mas é suficiente para lembrar por que a saga dos Warren se tornou um fenômeno. Nota: 3/5

  • Entrevista | Sérgio Machado fala sobre “3 Obás de Xangô”: “A Bahia negra foi inventada pelas grandes mães de santo”

    Em entrevista ao Oxente Pipoca, o diretor comentou sobre como a amizade de Jorge Amado, Carybé e Dorival Caymmi moldou muito da identidade baiana na cultura. Divulgação Lançado na última quinta-feira (4), o documentário 3 Obás de Xangô se centra na amizade entre os artistas Jorge Amado, Carybé e Dorival Caymmi. Atravessados pelas suas experiências com o candomblé e suas observações das vivências em Salvador, os três foram grandes responsáveis por definir muito da ideia de “baianidade” para o Brasil e para o mundo, seja nos livros de Jorge, as artes plásticas de Carybé ou as músicas de Dorival. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Sérgio Machado, diretor do longa, para falar sobre o processo de produção do filme, o uso das imagens de arquivo dos três protagonistas, a significância do candomblé em suas vidas e na construção do imaginário baiano e também sobre as tensões entre a ideia de uma identidade baiana restrita a Salvador e Recôncavo em oposição ao resto do estado. Você pode conferir a entrevista na íntegra abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Um dos grandes méritos do filme são as várias imagens de arquivo de Jorge, Carybé e Dorival. Como foi o processo de achar essas imagens e montar o filme de forma a estruturá-lo em torno desses materiais? Sérgio Machado: Esse filme começa de uma coisa muito pessoal, porque minha mãe era uma militante contra intolerância religiosa. Eu cresci frequentando com ela os terreiros de candomblé, os blocos afro, desde muito pequeno e é pessoal também porque de alguma maneira agora está me trazendo de volta para esse mundo, porque agora eu estou querendo me iniciar, querendo estar mais perto, cada vez mais perto da Bahia. Eu nunca me separei completamente, mas agora eu estou querendo estar mais perto do candomblé. Enfim, é um filme que que trata de muita coisa é pessoal e tem elementos que alinhavam um pouco a minha vida inteira. Sobre as imagens, por exemplo, tem uma história bacana com o Jorge Amado, foi um cara muito importante na minha vida. De certa forma, eu faço cinema hoje por causa dele, porque ele viu um curta que eu fiz na faculdade, mandou para o Walter Salles e aí a partir disso comecei a trabalhar com o Waltinho, abriram-se as portas do cinema. E nessa mesma época que eu conheci o Waltinho, através desse vídeo, o João Moreira Salles estava filmando um documentário sobre o Jorge Amado, e aí quando ele soube que eu ia fazer um filme sobre Jorge, Caymmi e Carybé, ele me deu de presente uma quantidade enorme de material filmado em película pelo grande Walter Carvalho. Então, eu já parti com uma parte grande do material nas mãos, e aí a gente foi procurando outras coisas, mas esse material do João abriu muito. Era tanto material que o difícil era justamente organizar isso, aí eu fico pensando em elementos na coisa do candomblé para costurar a história deles, o fato deles serem obás de Xangô, e costurando elementos que eu acho que estão presentes nas obras deles, como o fato de se apresentarem como documentaristas. Eles diziam que tudo que eles pegaram foram coisas na rua, que eles criaram muito pouco. Eu acho que uma coisa que tem a ver comigo também, que o meu primeiro filme, Cidade Baixa, ele é todo alinhavado de coisas que eu vivenciei, que eu ouvi. Aí tem o aspecto do feminino como algo central na obra dos três. O senso de humor, muito peculiarmente baiano, assim, é, eu acho que é algo que caracteriza os três, o mar como também um elemento aglutinador, eu fui achando elementos comuns e a e costurando a história a partir deles. Mas era um material muito vasto, e ficou muita coisa incrível de fora. Divulgação Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Eu também sou baiano, mas do interior, de Itapetinga, e às vezes fico incomodado com a maneira com a qual a Bahia é resumida culturalmente a Salvador, e é claro que há um papel dessas figuras notórias na construção dessa identidade baiana/soteropolitana. Mesmo que não seja o foco do filme, quais seriam suas reflexões a respeito do papel de Jorge, Carybé e Dorival para a construção de uma identidade baiana que parte antes de tudo de Salvador? Sérgio Machado: É engraçado quando você fala assim. Eu lembro quando eu comecei a fazer cinema com o Walter Salles, lá no Central do Brasil, ele falou o seguinte: "Não, o Sérgio é um nordestino”. Eu virei um consultor de assuntos nordestinos, mas na verdade eu sou um nordestino muito específico. A minha Bahia é a Bahia do Recôncavo, do Candomblé, dos pretos, do azeite de dendê. Essa Bahia do Sertão, para mim, é tão estranha quanto o Rio Grande do Sul ou talvez quanto a Alemanha. Eu conheci Itapetinga, conheci o Sul da Bahia, conheci um pouco o Sertão, mas assim, não é a minha Bahia, são territórios muito diferentes. E talvez seja pretensioso, mas a gente que é do Recôncavo fala da Bahia, só que essa Bahia é muito específica. A tese que eu defendi no documentário era que Jorge Amado, Dorival Caymmi e Carybé não inventaram a Bahia, eles na verdade a traduziram. A minha ideia é que na verdade essa Bahia negra foi inventada pelas grandes mães de santo, por Mãe Aninha, por Mãe Senhora, por Mãe Menininha do Gantois, por Dona Olga do Alaketu, essas ialorixás da Bahia inventaram um jeito de ser baiano e Jorge Amado, Dorival Caymmi e Caribé foram convocados por elas ou por Xangô, como queira, para traduzir essa Bahia com o talento deles. E eles levaram essa imagem da Bahia distante, mas você tem toda a razão, quando a gente está falando de Bahia, a gente tá falando de um recorte muito específico. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos aos nossos entrevistados que indiquem filmes nacionais que achem que o público deva assistir. Quais seriam suas indicações? Sérgio Machado: Um filme que me marcou muito, que talvez tenha sido um filme que me influenciou bastante, é o Edifício Master, do Eduardo Coutinho. Se eu quisesse dizer para as pessoas o que que eu quero dizer através do cinema, bastava andar com uma cópia de Edifício Master no bolso. Eu vou falar de um que não é um filme gostoso de ver, é um filme duro, é uma porrada, mas eu acho muito necessário, que chama Martírio, do Vincent Carelli. Eu acho uma bomba, uma porrada, quando vi no cinema passei mal, tinha que sair do cinema porque não aguentava ver aquilo, é tanta violência. Mas eu acho que é um filme fundamental para a gente entender o Brasil, é um filme que fala do massacre que os povos indígenas sofreram no Brasil historicamente. E é um filme que me incomodou muito, mas eu acho que é um incômodo importante, quem quiser entender o país e se posicionar politicamente precisa ver. Vou falar dos filmes dos meus amigos, que eu participei: Madame Satã, Central do Brasil, Ainda Estou Aqui, e também Cidade Baixa. Mas eu quero convidar mesmo agora para as pessoas verem os 3 Obás de Xangô. Eu torço muito para que ele faça uma carreira bacana, primeiro porque ele é uma bomba de afetividade; as pessoas estão precisando num momento tão duro como esse que a gente tá vivendo, então é bacana ver tanto afeto nas telas. Depois porque eu acho que fala de assuntos importantes como intolerância, coisas que estão super na ordem do dia.

  • Crítica | Papagaios (Gramado 2025)

    Douglas Soares satiriza a obsessão pelo estrelato em longa com referências óbvias, mas ancorado no poder da sua dupla principal. Divulgação Em tempos de redes sociais e streamings, a ênfase de Papagaios na TV pode parecer anacrônica ou datada, mas faz sentido num país onde 70 milhões de televisores todos os dias. Estreia de Douglas Soares na direção, o longa — que conquistou no último Festival de Gramado os prêmios de Melhor Ator para Gero Camilo e Melhor Longa-metragem Brasileiro pelo Júri Popular — mergulha na sátira e no suspense para contar a relação complexa e repleta de nuances desenvolvida entre seus dois protagonistas. Um deles é Tunico (Camilo), cearense radicado no Rio que ganhou a alcunha de “melhor amigo dos repórteres” por estar sempre aparecendo no fundo das matérias e reportagens dos jornais, sempre em busca de seus 15 segundos de fama. O outro é Beto (Ruan Aguiar), jovem misterioso e de índole questionável que se torna seu aprendiz. A relação entre os dois varia entre mentor e protegido, pai e filho e até mesmo assume contornos homoeróticos, o que se revela uma das maiores forças do filme — como na excelente cena dos dois no espelho ao som de Naquela Mesa, de Nelson Gonçalves, onde os movimentos dos corpos ditam não só um ritmo próprio, mas sintetizam a própria temática do filme. Divulgação Mesmo que trilhe caminhos óbvios, justamente por causa das referências a que alude (como O Abutre), o filme encontra força no tratamento dado à dupla de protagonistas e seus intérpretes. Chega ser bizarro que somente agora em 2025 um ator do porte e com a carreira de Gero Camilo finalmente tenha a oportunidade de estrelar num papel principal, e ele abraça esse papel com ferocidade, mas também sutileza e nuance, criando uma figura emblemática por si própria, especialmente na sua apresentação visual (a maquiagem, a peruca, os ternos). Já Ruan Aguiar, se ainda deixa transparecer sua inexperiência em alguns momentos, consegue enquadrar um papel ainda mais difícil que o de Camilo, dada as tendências progressivamente sociopatas de Beto. Às vezes ele é restrito a olhares carregados e outros clichês desse tipo de personagem, mas no geral o ator consegue dar conta da dubiedade do seu protagonista à medida que a relação entre Tunico e Beto se constrói e desconstrói. Ainda que perca força justamente quando antagoniza o par (descambando num final ligeiramente anticlimático, para além de previsível), Papagaios consegue costurar esse universo ligeiramente perturbador, onde vale tudo pela fama. Não reinventa a roda nem se propõe a isso, mas trata-se de um impressivo trabalho de antropofagia que nos aproxima de uma realidade tão brasileira através da sátira e da tensão. Ou como cantaria Kid Abelha e Léo Jaime (este com um papel significativo no filme) em A Fórmula do Amor: Eu tenho a pose exata pra me fotografar Aprendi no vídeo pra um dia usar Um certo ar cruel, de quem sabe o que quer Tenho tudo ensaiado pra te conquistar Eu tenho um bom papo e sei até dançar Não posso compreender, não faz nenhum efeito A minha aparição será que errei na mão As coisas são mais fáceis na televisão Nota: 3.5/5

  • Crítica | Desenhos

    Filme é suspense aventuresco cheio de sentimento para público infantil Divulgação Quando o caderno de desenhos de uma garota cai em um lago estranho, suas criações perigosamente reais ganham vida. Conforme a cidade se torna um caos, ela e o irmão precisam rastrear as criaturas antes que elas deixem danos permanentes. Desenhos é um filme que surpreende pela maneira como equilibra suspense, drama e comédia em uma narrativa coesa e envolvente. O longa não se apoia em truques fáceis: sua força está na forma como constrói emoções genuínas a partir do olhar infantil, sem cair na armadilha da caricatura ou do sentimentalismo exagerado. O resultado é uma obra emocionante, que entende a infância como um território de complexidade e contradições. O roteiro se destaca pelo texto inteligente, que valoriza e valida a experiência emocional das crianças. Ao invés de simplificar suas dores com metáforas bobas, ele as reconhece como parte central da história. Essa escolha faz com que o espectador se conecte não apenas com a aventura, mas com a humanidade dos personagens. A produção entende que a infância é também um espaço de enfrentamento, onde as emoções podem ser tão densas quanto na esfera da vida adulta. Divulgação O elenco infantil é o grande motor do longa. Não é com tanta facilidade que se vê um grupo de crianças carregar uma narrativa com tanta segurança. A naturalidade das atuações sustenta a tensão e o humor em igual medida, criando uma dinâmica crível entre as personagens. São atuações que não apenas conduzem a trama, mas dão corpo e voz às emoções impressas em crianças que muitas vezes são negligenciadas como luto, tristeza e encorajamento para vivenciá-las. As camadas e a intensidade das vozes infantis são tratadas aqui com respeito. A proposta narrativa de usar monstros como alegoria funciona bem como representação da repressão dos sentimentos, traduzindo em imagens aquilo que as crianças ainda não conseguem expressar plenamente. Essa solução dramática reforça o impacto do filme e amplia sua potência simbólica, trazendo a experiência completa de um sensível cinema comercial que parece ser ingênuo, podendo ser tanto entretenimento quanto reflexão. Desenhos é um filme surpreendente e sensível, capaz de dialogar com públicos de diferentes idades. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Amores à Parte

    Comédia encontra força na sua encenação para discutir relacionamentos modernos através do absurdo e do inesperado. Divulgação O segundo filme de Dakota Johnson no ano a discutir as dinâmicas dos relacionamentos modernos, Amores à Parte pode ser a resposta àqueles que sentiram falta de comédia em Amores Materialistas. Isso porque o filme de Michael Angelo Covino reforça seu humor não apenas do texto afiado (co-escrito por Covino e a outra estrela do filme, Kyle Marvin), mas sobretudo a partir da encenação, criando piadas visuais de um timing acertado que são fortalecidas pelo trabalho primoroso de direção. Na trama, Carey (Marvin) e Paul (Covino) são amigos de longa data, casados com Ashley (Adria Arjona) e Julie (Johnson), respectivamente. Durante uma viagem para a casa de Paul e Julie, Ashley inesperadamente pede o divórcio, lançando Kyle numa crise — e atirando-o para os braços de Julie, que vive um casamento aberto e não-monogâmico com Paul. Dividindo-se em capítulos, Amores à Parte parte deste momento de crise entre os casais, sem, no entanto, estar interessado em oferecer algum tipo de resposta definitiva sobre qual modelo de relacionamento é mais bem-sucedido. Covino e Marvin estão mais interessados em extrair humor dos mais diversos tipos de situação, sem ter medo de apelarem ao absurdo, inesperado e ridículo. Seja na briga entre Paul e Carey após este revelar que dormiu com Julie (que, sem brincadeira, concorre facilmente ao título de melhor cena de luta do ano), Carey lutando para segurar vários peixes em uma montanha-russa, a montagem que vai acrescentando novos parceiros de Ashley à casa em que ela e Carey vivem, ou todo o caos do clímax, o filme não se furta a nos fazer rir, e entende que, mais do que o texto ou a entrega cômica dos atores, é a encenação quem fortalece o humor da obra, como nas piadas e detalhes que ocorrem em segundo plano, ou nas tomadas longas, repletas de travellings e movimentações de câmera, que revelam ou escondem conforme o desejado, gerando ainda mais risos a depender da cena. Divulgação Talvez onde o filme mais peque é na subutilização de Adria Arjona em comparação aos seus colegas de elenco, mesmo que sejam suas ações o mote a partir do qual o filme se origina. Além disso, há um descompasso em relação à figura de Julie (a straight girl, por assim dizer), que não sei dizer se advém de uma escolha consciente do filme ou das limitações na atuação de Dakota Johnson. Felizmente, isso é compensado pela entrega magnífica de Marvin e Covino, ou até dos coadjuvantes que em poucos minutos roubam as cenas, como os(as) namorados(as) de Ashley vividos por Charlie Gillespie, David Castañeda, Nicholas Braun e Nahéma Ricci. Amores à Parte não vai te dizer se a monogamia ou a não-monogamia é o melhor caminho para um relacionamento, mas certamente te fará rir muito no processo. Chegando de maneira quase tímida, o filme acaba se solidificando como a melhor comédia (romântica?), fortalecendo através das escolhas seguras de Covino na direção o seu ótimo texto. Nota: 4/5

  • Crítica | It Was Just an Accident (TIFF 2025)

    Grande vencedor de Cannes é surpreendentemente contido em comparação à filmografia subversiva de seu diretor Divulgação Jafar Panahi tem expandido suas experiências no mundo cinematográfico há décadas, o que resultou em sua prisão e proibição de realizar novos filmes pelo governo iraniano, uma ordem que ele continua a desafiar. Desta vez, com seu novo longa It Was Just an Accident, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2025, o cineasta apresenta uma narrativa fictícia sobre um grupo de perseguidos políticos que sequestra um homem que pode ter sido um de seus torturadores. Apesar de estar mais familiarizado com os documentários do diretor, havia grande expectativa de ver como ele exploraria suas próprias experiências através dos dilemas de outros personagens. No entanto, o resultado acabou me decepcionando. Embora a trama, centrada na tentativa do grupo de obter uma confissão do sequestrador, seja intrigante, o filme não aprofunda as histórias pessoais desses personagens, nem o peso de suas vivências anteriores, que justificariam suas motivações. Em vez de mergulhar no arriscado e controverso universo político do Irã, como outros cineastas contemporâneos têm feito, Panahi opta por uma abordagem mais segura e superficial. Ainda assim, não há dúvidas sobre a grandeza de seu trabalho como diretor, os longos e precisos planos-sequência impressionam, e o próprio ato de realizar o filme em segredo, desafiando a censura, já é em si um gesto de resistência artística. Também é visível como sua fase mais recente, marcada pela metalinguagem, influenciou este trabalho, conferindo-lhe uma energia dinâmica e reflexiva. Divulgação A fotografia merece destaque especial por dialogar de forma orgânica com o blocking preciso de Panahi. Os enquadramentos criados pelo filme capturam os momentos íntimos dos personagens enquanto a câmera se movimenta pelo grupo, quase sempre deixando o suposto torturador, agora transformado em sequestrado, fora da visão do público. Essa escolha reforça que a narrativa não é sobre ele ou para ele, mas sobre as difíceis decisões pessoais e os dilemas complexos que recaem sobre os demais personagens, dilemas estes que, inevitavelmente, podem ser associados também ao próprio diretor. O que não funciona, porém, é o enquadramento do filme como “thriller” pelo estúdio. Em nenhum momento a narrativa provoca a tensão ou a ansiedade típicas do gênero. A dinâmica de poder entre os personagens tampouco consegue sustentar essa atmosfera, fazendo com que a classificação pareça mais uma estratégia de mercado do que uma definição orgânica. Assim, It Was Just an Accident certamente se tornará um filme importante para a trajetória de Panahi e para a história do cinema iraniano. No entanto, sua proposta contida e o roteiro raso deixam a sensação de que o diretor, desta vez, preferiu a cautela ao risco, algo que contrasta com o espírito desafiador que sempre marcou sua carreira. Nota: 3/5

  • Crítica | Moana (2026)

    Pra quê? Divulgação Moana (Catherine Lagaʻaia) responde ao chamado do Oceano e, pela primeira vez, aventura-se além do recife de sua ilha de Motunui junto ao infame semideus Maui (Dwayne Johnson) em uma viagem inesquecível para restaurar a prosperidade de seu povo. "Por quê?", "Pra quê?” e “Qual a necessidade disso?” são perguntas que não cabem ser feitas obrigatoriamente a peças de arte. Agora, quando um trabalho é menos uma peça de arte do que um produto comercial, essas perguntas devem ser feitas até alcançarem o constrangimento. Todos conseguem sentir que a exaustiva e preguiçosa leva de live-actions feita pelos grandes estúdios de Hollywood, (e encabeçada pela Disney) tentando jogar com uma nostalgia puramente econômica, está chegando ao fim, e talvez Moana (2026) ajude a acabar de vez com esse movimento. Há exatos 10 anos a animação Moana: Um Mar de Aventuras (2016) estreou nos cinemas do mundo todo se tornando um fenômeno instantâneo. A bilheteria foi altíssima, as músicas foram sucesso e somou incontáveis indicações a prêmios. Em 2024, o filme ganhou uma continuação mais tímida e menos inspirada, ainda assim chegou a 1 bilhão nas bilheterias mundiais. E agora, em meio a tudo isso, o indesejado live-action ganha vida e todo mundo se pergunta: Por quê? Pra quê? Qual a necessidade disso? Sempre falo que não sou o hipócrita dos remakes, reboots e derivados, mas acredito que seja obrigatório ter um diferencial do trabalho original para que essa nova versão tenha se valide minimamente. Quando as primeiras adaptações das princesas da Disney chegaram aos cinemas, grande parte de um público mais emocionado e menos propenso a mudanças se rasgava de raiva porque não eram cópias exatas do que conheceram nas animações de suas infâncias. Eis que as produções seguintes foram ficando cada vez mais literais a ponto de perderem qualquer possível traço de uma identidade hipotética. Um exemplo recente, mesmo não sendo Disney, foi a versão humana de Como Treinar o Seu Dragão (2025) que ganhou pontos pelo carisma e pelo bom acabamento nos quesitos visuais e sonoros, mas que covardemente fez uma cópia quadro a quadro da animação de 2010. Moana é uma sequência encadeada de erros. Nada parece novo. Nada aparenta frescor. Nada imprime qualidade. Perceba que os verbos que usei falam de simulação, por vezes um filme pode não ter um conteúdo bem consolidado, mas ele finge tão bem a ponto de aparentar um valor que não condiz com a realidade. Moana nem isso consegue. Divulgação É perceptível o quanto este projeto é importante para Dwayne Johnson. O ator que dublou o deus Maui na animação deu vida ao personagem também na versão de 2026, e ele se esforça bastante para fazer com que a nova leitura do personagem seja tão marcante quanto à primeira. Mas é difícil sem os recursos imagéticos e estéticos que a animação entrega. Da mesma forma vemos a tentativa de Catherine Laga'aia de quase competir com o desenho para entregar alguma voz própria, mas nunca chega lá, e por vezes a atriz parece perdida em meio a tanta construção digital nada orgânica. A ideia da animação ainda presente na mente do público é a maldição da adaptação, mas tenta ser a bênção, porque fica a sensação de que o que está sendo assistido de alguma forma remete ao que já conhecemos, como um reforço positivo, e o filme tenta empurrar isso goela à baixo, o que pode funcionar para alguns. As músicas estão ali, a história está ali, e esses continuam encantando como podem, mas todo o restante parece sem vida, sem vontade, sem qualquer expressão artística que se imponha. O visual do filme é estranho, o trabalho de cor é ruim, os efeitos visuais por vezes não parecem encaixar na ideia das cenas e ficam conflitando com os personagens. Uma produção com o orçamento que essa teve apresentar um resultado tão apático é, no mínimo, vergonhoso. Talvez, um grande e insustentável talvez, se não houvesse a animação de poucos anos atrás e esta fosse uma proposta original, Moana se saísse melhor dado o roteiro, as canções e as mensagens presentes, porque ainda assim o resultado parece barato, artificial e ruim mesmo. Se ainda restava dúvida que a fase dos live-actions merecia chegar ao fim, a conta chegou. Nota: 1/5

  • Crítica | Os Roses: Até Que a Morte os Separe

    Nova adaptação traz cinismo mais sutil e aposta na “inversão de papéis” para a receita do caos. Divulgação Os Roses: Até Que a Morte Os Separe acompanha a vida perfeita do casal Ivy (Olivia Colman) e Theo (Benedict Cumberbatch). Tudo parece extraordinário: Ivy é uma bem-sucedida chef de cozinha com seu próprio restaurante, Theo é um arquiteto renomado, o casamento dos dois é repleto de amor e carinho e seus dois filhos são maravilhosos. Um contratempo, porém, acaba desembocando num conjunto de ressentimentos e competição que acaba com essa fachada de família de margarina e vida ideal. É assim que a tempestade perfeita se forma e uma bomba cheia de mágoas escondidas, implicâncias em público e disputas ferozes se prepara para explodir. A nova adaptação do romance de 1981 que aborda o desgaste de um casamento em frente a interesses conflitantes, papéis de gênero e capitalismo tardio atualiza muito bem todas estas questões com organicidade, bem encaixados num texto esperto, do premiado escritor Tony McNamara, que não esquece do humor e que sabe amarrar bem suas motivações e desdobramentos sem esfregar na cara do espectador os detalhes das implicações. Alguém que não tenha assistido ao filme dos anos 80 ou lido o livro certamente vai achar natural que a esposa aqui seja a bem sucedida e o marido o “dono de casa”, sem perceber que esta é talvez a maior das mudanças do material original. Encontrar equilíbrio entre o romance, a comédia, o drama e a abordagem de tantos temas é um trabalho que facilmente poderia ruir, mas a direção experiente de Jay Roach consegue sustentar tudo isso com leveza. Divulgação A casa segue sendo um personagem importante na narrativa, e sua versão tecnológica também vestiu bem as necessidades criativas e cômicas dos confrontos entre o casal protagonista, refletindo as contradições entre juras de amor, poder e desejo de autonomia num mesmo lugar literal. Benedict Cumberbatch e Olivia Colman trabalham numa sintonia uníssona e souberam encontrar o mesmo tom tanto no humor quanto na tensão por vezes silenciosa. O elenco de apoio ajuda a desenvolver especialmente a via cômica do longa, mesmo achando que as situações da personagem de Kate McKinnon passem um pouco da proposta elaborada para todo o restante. A crescente narrativa ajuda a instigar o espectador e impulsiona o texto até literalmente o seu momento final. Jay Roach deixa o melhor para seu terceiro ato e vai soltando a compostura dos personagens e do roteiro devagar, mas de forma intensa, sem esquecer que por mais que aquele enredo esteja beirando o absurdo, ainda possui um casal de humanos com questões reais a serem trabalhadas e resolvidas, seja lá da forma que for acontecer. É um tipo de comédia estilo Nancy Meyers que não se acha mais e que o Globo de Ouro dos anos 2000 iria amar. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Anônimo 2

    Continuação repete a mesma fórmula do anterior e desperdiça potencial de expansão. Divulgação Anônimo 2 acompanha Hutch Mansell (Bob Odenkirk), um pacato pai de família com um passado violento, que mais uma vez é forçado a confrontar antigos perigos quatro anos após o primeiro filme - desta vez, em meio a segredos familiares e uma viagem com a família a um hotel controlado por um traficante. O primeiro filme da franquia, lançado em 2021, se apresentou tal qual seu protagonista, de forma despretensiosa, contida e sem prometer muita coisa, mas durante seu desenvolvimento ele cresce e mostra o alcance explosivo e a valorização da ação intrínseco ao seu texto e à natureza do personagem. Pois bem, o que funciona muito bem no longa anterior funciona apenas bem neste segundo, afinal, o efeito surpresa e a apresentação dos personagens não sustentam o mesmo impacto aqui, o que é natural para todo segundo filme, mas ao escolher trazer de volta a mesma estrutura narrativa ele deixa passar a oportunidade de impactar de qualquer outra maneira, na forma ou no enredo. E isso prejudica, por assim dizer, especificamente o início e o final do filme, uma vez que o “meio” requer apenas um texto simples para sustentar toda a porradaria que é vista. Divulgação A direção do indonésio Timo Tjahjanto valoriza as sequências de ação de forma precisa. A ação é, depois de Hutch, a segunda pessoa mais importante, mas até mesmo ela parece ter sido comprometida com o molde preexistente. Tudo parece estar cumprindo a cartilha e nada consegue se desvincular do passo a passo narrativo a ponto de ganhar vida própria, ou pelo menos cara própria. O elenco segue sendo um dos meus pontos altos, especificamente as adições de Colin Hanks e Sharon Stone que possuem bons momentos cômicos e contribuem para a criação do tom irônico constante. Inclusive fica a impressão de que os papéis desses atores tiveram mais cenas retidas na sala de montagem do que todos os outros, tamanha a carência de mais tempo de tela para com eles. Não é como se o resultado aparente preguiça ou descaso, é fácil de perceber que a intenção é mesmo criar um modelo de estrutura para a franquia (que certamente deve perdurar), o que não significa que reformulações e novas abordagens dentro dessas arestas não sejam bem-vindas. Adaptando um grandíssimo clichê do boca-a-boca, Anônimo 2 não é melhor, nem pior que o anterior, é apenas diferente – e nem tão diferente assim também. Nota: 3/5

  • Especial Leo Tabosa: 15 anos de cinema versátil, plural e nordestino

    O Oxente Pipoca celebra os 15 anos de carreira do diretor pernambucano, que terá seu primeiro longa-metragem exibido na abertura do Cine Ceará 2025. Foto: Alex Costa / Divulgação Na véspera da estreia de seu primeiro longa-metragem, Gravidade, na abertura do 35º Cine Ceará, o Oxente Pipoca convida você a revisitar a trajetória que consolidou Leo Tabosa como um dos nomes de destaque do cinema brasileiro. São 15 anos de carreira, oito curtas realizados e mais de 80 prêmios conquistados em festivais nacionais e internacionais. A chegada do longa marca uma virada importante, mas também celebra uma caminhada que foi construída com sensibilidade, consistência e muito afeto pelo cinema. Nascido em Caruaru, no agreste de Pernambuco, Tabosa é graduado em História e em Comunicação Social, além de mestre em Comunicação pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), onde hoje também atua como gestor cultural. Em 2014, fundou a produtora Pontilhado Cinematográfico, com sede no Recife e filial em São Paulo, e se tornou um articulador fundamental no audiovisual nordestino. É também idealizador e diretor artístico do Cine Jardim – Festival Latino-americano de Cinema de Belo Jardim, e da Mostra Curta Vazantes, realizada no interior do Ceará. Entre a criação de filmes e a criação de espaços de exibição, seu trabalho sempre foi atravessado pela ideia de fortalecer o cinema em contextos locais. Seus curtas marcaram presença em importantes mostras e festivais dentro e fora do Brasil: Brasília, Gramado, Cine Ceará, Havana, Guadalajara, Málaga, Queer Porto, entre outros. A cada novo trabalho, o cineasta ampliava seu alcance, acumulando prêmios de Melhor Filme, Direção, Fotografia, Atuação e Roteiro. Esse reconhecimento consagrou sua filmografia em curtas não apenas pela quantidade de conquistas, mas pela diversidade de linguagens exploradas, da animação ao documentário, passando pela ficção de forte impacto dramático. Agora, ao estrear Gravidade no Cine Ceará e já desenvolvendo seu próximo longa, Essa Tristeza que Não Vai Embora, Tabosa inicia um novo ciclo em sua jornada no cinema. Mas sua versátil trajetória até aqui prova que ele já deixou uma marca indelével no cinema brasileiro. Prestigiar seus curtas é reconhecer um percurso de persistência, talento e amor pela arte, que agora se expande para os longas com a mesma força que marcou cada um de seus trabalhos anteriores. Todos os curtas-metragens de Leo Tabosa estão disponíveis no canal da Pontilhado Cinematográfico no Vimeo. Retratos (2010) Documentário inaugural da carreira de Leo Tabosa, acompanha personagens comuns de Pernambuco, observando seus gestos, expressões e cotidianos. Um olhar poético sobre a identidade cultural e afetiva de sua cidade natal. Foi premiado com o Prêmio Júri Popular de Melhor Filme no Festival de Cinema Universitário de Sergipe (Sercine), além de ter recebido Melhor Documentário no Festival de Cinema Digital de Jericoacoara (CE) e no I Festival de Cinema de Rio Bonito (RJ), e Best Video e Best Direction no Focus Brazil Video Fest (Fort Lauderdale, EUA). Tubarão (2013) O documentário aborda as dificuldades de um estrangeiro em adaptar-se à sua nova realidade. Foi o grande vencedor na Mostra Competitiva de Curtas Nacionais do Cine-PE, conquistando Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Fotografia (Alex Costa e Breno César) e o Prêmio da Crítica/Abraccine. Ainda conquistou cerca de 22 prêmios em festivais e foi premiado com Melhor Direção de Curta-Metragem no Festival de Cinema de Triunfo (PE). As Aventuras do Menino Pontilhado (2016) Animação baseada no livro homônimo de Tabosa, acompanha um garoto que descobre o poder da imaginação diante das adversidades do mundo. Um curta lúdico, delicado e repleto de inventividade visual. O curta foi reconhecido como a Melhor Animação do XII Festival Curta Canoa, em Canoa Quebrada (CE). Baunilha (2017) Grande vencedor do V Recifest – Festival de Cinema da Diversidade Sexual e de Gênero, em Recife (PE), o documentário ambientado no Rio de Janeiro acompanha a jornada de um artista e pioneiro na comunidade BDSM brasileira. Nova Iorque (2018) Uma professora sai do sertão pernambucano e tenta ser atriz em São Paulo. Sem sucesso, ela retorna 20 anos depois para cuidar da mãe doente e dar aulas. Com isso, ela constrói uma forte amizade com um de seus alunos. O filme teve ampla vitória: no Festival de Gramado, ganhou o Kikito de Melhor Fotografia e o Prêmio Canal Brasil de Curtas; no 28º Cine Ceará, levou o Troféu Mucuripe de Melhor Curta, o Prêmio da Crítica (Abracine), Prêmio Mistika e Prêmio Cia Rio; e ainda ganhou no Festival Santa Cruz de Cinema (RS) os prêmios de Fotografia, Direção e Melhor Filme, além do troféu Tipuana. Marie (2019) Ficção premiadíssima que acompanha a personagem-título, uma travesti que retorna à sua cidade natal para rever a família. O reencontro é marcado por lembranças, conflitos e afetos, em uma narrativa que combina delicadeza e potência política. Ganhou o Prêmio Cinemateca Pernambucana no FestCurtas Fundaj e foi duplamente premiado no Cine Ceará 2019, conquistando o Troféu Mucuripe de Melhor Curta e o Prêmio Mistika. Dinho (2023) Drama de ficção ambientado no sertão cearense, segue o jovem Dinho em um momento de descoberta e transformação pessoal. O curta explora com intensidade as relações familiares e os dilemas da juventude em meio a um ambiente rural. No 33º Cine Ceará, o filme recebeu o Troféu Mucuripe de Melhor Direção. Também foi destaque no 13º Festival Internacional de Cinema – RIO LGBTQIA+ 2024 (Menção Honrosa Júri do Festival) e no 18º For Rainbow – Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual e de Gênero (Melhor Direção), entre outros. Cavalo Marinho (2024) Na véspera de São João, Francisca, uma viúva prestes a completar 75 anos, está a ponto de explodir como fogos de artifício. Com Divina Valéria, Tuca Andrada e Soia Lira no elenco. Entre os prêmios recebidos estão o de Melhor Atriz Coadjuvante (Soia Lira) no 48 Guarnicê – Festival de Cinema, o de Melhor Atriz (Divina Valéria) e o Prêmio de Aquisição do Sesc TV no 32º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade e o de Melhor Fotografia no 12º Curta Brasília – Festival Internacional de Curta-Metragem. Gravidade (2025) Sydia (Clarisse Abujamra) e Nina (Hermila Guedes) são mãe e filha que passam uma noite isoladas na antiga mansão da família. Enquanto enfrentam uma relação difícil, elas são surpreendidas com a chegada de uma desconhecida, Lara (Danny Barbosa), e com o retorno de Joana (Marcélia Cartaxo), uma funcionária da casa que havia sumido sem explicações e agora carrega notícias do mundo exterior. Diante de um colapso iminente, as quatro mulheres se deparam com traumas do passado e serão confrontadas com o peso de suas escolhas. FICHA TÉCNICA Gravidade – 2025 Classificação indicativa: 12 anos Duração: 90 minutos Gênero: Ficção País: Brasil Idioma: Português Direção: Leo Tabosa Roteiro: Leo Tabosa e Arthur Leite Elenco: Hermila Guedes, Clarisse Abujamra, Danny Barbosa, Marcélia Cartaxo e Helena Ignez Produção Executiva: Bárbara Cariry e Arthur Leite Direção de Produção: Priscila Lima e Teta Maia Direção de Fotografia: Petrus Cariry Direção de Arte: Sérgio Silveira Figurino: Lana Benigno Visagismo: Marcos Freire Som Direto: Guma Farias Montagem: Petrus Cariry Mixagem: Érico Paiva Trilha Musical: João Victor Barroso Produtora: Pontilhado Cinematográfico Distribuidora: Sereia Filmes

  • Entrevista | Rafael Carvalho fala sobre a importância da Mostra Cinema Conquista: "Um festival é uma vitrine"

    Em entrevista ao Oxente Pipoca, o crítico de cinema e curador discutiu sobre o papel da Mostra no cenário local e regional, bem como os papéis da curadoria, cineclubismo e crítica no ecossistema audiovisual. Divulgação Realizada entre os dias 7 e 12 de setembro, em Vitória da Conquista – BA, a 16ª edição da Mostra Cinema Conquista reuniu vários filmes premiados e promoveu diversos debates sobre os rumos do cinema brasileiro contemporâneo. Entre os longas exibidos, estiveram: O Último Azul, Oeste Outra Vez, Kasa Branca, Ritas, Saudade Fez Morada Aqui Dentro, Centro Ilusão, O Melhor Amigo, 3 Obás de Xangô e A Queda do Céu. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar o curador da Mostra, Rafael Carvalho, que é também crítico e pesquisador de cinema, além de natural de Vitória da Conquista. Na entrevista, Rafael falou da importância do evento trazer para o público conquistense filmes que não são exibidos no circuito comercial da cidade, ajudando também a descentralizar a cadeia audiovisual no país. Ele também comentou sobre o papel crucial dos cineclubes locais e do curso superior de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) para a realização da Mostra. Esses e outros temas discutidos você pode conferir na íntegra abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Conquista é uma cidade fortemente atrelada ao imaginário do cinema nacional por ser a terra natal de Glauber Rocha, mas só temos as redes Multiplex dos shoppings como ofertas de salas de cinema à população local. Lembro de quando era criança e ir no Cine Madrigal, algumas das minhas primeiras memórias no cinema foram lá, mas foi mais uma sala de rua que fechou depois de perder espaço para esses shoppings. Nesse sentido, como uma Mostra como a Cinema Conquista pode oferecer ao público da cidade a chance de ver filmes que normalmente não encontrariam espaço no circuito comercial? Rafael Carvalho: Essa é a 16ª edição da Mostra, mas ela tem mais de 16 anos, porque houve alguns anos em que a Mostra não conseguiu ser realizada. Então nisso isso aí a gente consegue perceber uma resistência, uma tentativa de manter esse evento. Hoje a gente tem um curso de Cinema na UESB, aqui em Vitória da Conquista, mas quando a Mostra começou, esse curso não existia. Então ela surge muito com essa vontade de fazer de Vitória da Conquista um polo voltado para o cinema, para o pensamento, pra discussão, pra circulação dos filmes. E agora a gente já pode falar também de produção, existem filmes produzidos pelos alunos, egressos, professores. Vitória da Conquista tem essa coisa de ser a terra de Glauber Rocha, mas a gente também tem um passado aqui de muitos cinemas. Década de 80, até início dos anos 90, assim. Aqueles cinemas de rua, cinemas enormes, que levavam muita gente. Então sempre teve essa atração muito grande, mas aí veio a coisa do Multiplex, esses cinemas de rua foram fechando. Eu sou de Vitória da Conquista, me formei aqui. Me lembro que na minha época de estudante de jornalismo tinha uma dificuldade imensa, mas também tinha muitos cineclubes. Tem um cineclube muito importante aqui, que é o Janela Indiscreta, e todas essas todas essas atividades, como a Mostra, ou o curso de Cinema da UESB, foram frutos do Janela Indiscreta. Eu sou fruto dele. Então, o que a gente fazia era assistir esses filmes nesses espaços, cineclubes e determinadas exibições que aconteciam, mas isso foi se perdendo um pouco. Então, a Mostra acabou ocupando esse espaço, que é um momento de atualização, eu sempre digo. A gente precisa atualizar as pessoas de Vitória da Conquista desses filmes que estão em destaque no cenário nacional e internacional. Eu acho que a gente pode até falar já desse fortalecimento no calendário cultural da cidade. Então para a gente é muito importante ter a Mostra como mais um polo de exibição, de discussão, de debate e de circulação. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): A edição deste ano presta homenagem aos 15 anos do curso de Cinema e Audiovisual da UESB. Como você avalia a relevância do curso para o audiovisual local? E pensando em um cenário mais geral, o quão importante é ter os cursos da área presentes nas universidades brasileiras? Rafael Carvalho: O curso de Cinema é um marco para a cidade, para esse cenário cultural da cidade. Eu digo isso porque não é só uma questão da formação, é uma questão de como você muda um pouco o cenário da própria cidade, e isso não é uma coisa que você faz em 1 ano, 2 anos, demora um pouco. E eu vejo hoje a gente pensando essa comemoração a partir das atividades que já estão acontecendo aqui, de debates, de conferências, em que o curso de cinema, além de ser homenageado, é um grande parceiro. Então, os professores, coordenadores do curso estão muito próximos da Mostra, contribuem com a programação. Uma coisa que é importante falar é sobre esses cursos de Cinema no interior, ou seja, que não são na capital. A gente tem um outro exemplo muito forte aqui na Bahia, que é o curso de cinema da UFRB (Universidade Federal do Recôncavo Baiano) em Cachoeira. Tem saído muita coisa interessante do curso de Cinema de Cachoeira, é um polo muito forte; é mais pertinho de Salvador, mas ainda é interior. E o curso de Cinema em Conquista tem se fortalecido nesse sentido, de pensar esses cursos em outros lugares. No Brasil também, têm surgido muitos cursos de Cinema que estão fora dos eixos centrais, das capitais ou das grandes cidades. Isso mostra que primeiro existe um interesse, uma vontade por essa formação. As pessoas se formavam muito a partir do jornalismo, até da publicidade, e as pós-graduações eram mais difíceis ainda. Então a gente poder dizer que tem no interior da Bahia um curso de Cinema que está fazendo 15 anos é uma vitória muito grande. E aí têm os problemas, as dificuldades do curso, mas tudo aquilo, todas as discussões, são no sentido de como vamos superar isso, quais os caminhos que a gente precisa enfrentar, quais os caminhos que a gente pode trilhar a partir de agora. Há todo o debate em relação às políticas públicas, de descentralização, como fazer com que a verba e o trabalho público cheguem também para o interior, não fique só no eixo Rio-São Paulo, mas também não só na capital Salvador, que venha também para o interior. E os alunos estão participando das atividades, fazendo colocações, participando das conferências, vindo nas sessões, participando dos debates, contribuindo também. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Você citou a importância do Janela Indiscreta para essa formação cinéfila e também para o incentivo à realização de eventos como a Mostra. Tenho feito algumas pesquisas que envolvem o cineclubismo, e é interessante ver como eles são elementos centrais na formação cinéfila e audiovisual, e temos visto um ressurgimento dos cineclubes, especialmente no meio online. De que formas você acredita que os cineclubes podem colaborar para o desenvolvimento de um ecossistema audiovisual local? Rafael Carvalho: Esse tema também me interessa muito, porque eu não sei se você tem essa impressão, mas quando a gente fala de cineclube, parece que é uma coisa um pouco antiga, do passado. Mas, cara, eu acho que existe hoje um movimento no Brasil inteiro, eu vejo em Salvador também e vejo aqui o movimento cineclubista muito forte, muito intenso. Principalmente porque a gente tá vivendo um momento de mudança na maneira como a gente assiste qualquer coisa partir dos dispositivos móveis. O streaming, a dificuldade de levar as pessoas para os cinemas, muitos cinemas de rua que estão fechando, ou tentando se manter. E aí, eu acho que o próprio cineclube se reinventou muito e tem se reinventado muito nos últimos anos. Os cineclubes online já existiam, mas a partir da pandemia eles se frutificaram muito. A gente tinha um cineclube presencial aqui em Vitória da Conquista, e eu estava na coordenação, e na época da pandemia a gente começou a fazer achando que ia ser muito complicado, mas deu muito certo, e por um tempo, depois da pandemia, a gente ainda continuou. Agora ele tá parado, mas existem outros assim. O cineclube sempre foi um sinônimo de resistência, mas hoje a gente tem uma diferença que para mim é muito central assim, talvez em relação a tempos atrás. Antigamente, existia uma dificuldade de conseguir os filmes. Então a gente ficava buscando os filmes, eu os assistia em boa qualidade ou em melhor qualidade, sem legendas. Acho que hoje é o oposto: tem um excesso de filmes, e a gente precisa encontrar outras maneiras de atrair essas pessoas para eles. E a atividade cineclubista tem uma dimensão um pouco mais calorosa. Porque não é só assistir ao filme, você assiste o filme, você conversa, tem debate, às vezes tem convidados. Sempre tem essa coisa da conversa, do debate, do encontro e a gente acaba criando uma comunidade em torno do cineclube. Divulgação Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Rafael, já acompanho suas pesquisas sobre a crítica de cinema há um bom tempo, foram fontes valiosas para a minha dissertação do mestrado e agora têm sido para a tese de doutorado. Como você enxerga o papel do crítico no ecossistema de uma Mostra como a Cine Conquista? De que forma você pensa que ele pode dar visibilidade ao evento e aos filmes nele assistidos, mas sem cair em um lugar de condescendência com o cinema brasileiro? Rafael Carvalho: A nossa mostra tem um orçamento limitado para trazer críticos de fora, mas eu acho que é primordial essa aproximação entre a exibição e a recepção. E aí, eu acho que a gente estabelece uma grande questão, que é o estado atual da crítica de cinema. Acho que você tá se batendo com isso aí, uma série de discussões e debates que a gente tem. Assim como estava falando dos cineclubes, a experiência e a atividade da crítica também têm mudado nos últimos anos, e a gente também de uma certa forma está aprendendo a lidar com isso e a se reinventar nesse cenário. Tem uma coisa que, pelo menos na época que eu fiz mestrado e doutorado em crítica, se discutia muito, era a coisa da “crise da crítica”. Mas a crítica sempre esteve em crise, e o ideal é que ela esteja em crise mesmo, porque a gente, enquanto crítico, tem que estar inquieto, não pode nunca achar que as coisas estão dadas. A crítica serve justamente para isso, para chacoalhar, para mexer um pouco no sistema. Pensando no futuro da crítica, o que será dela? Como que a gente vai se reinventar, como que a gente vai se manter? Existem aí uma série de discussões sobre a crítica especializada e os influenciadores digitais, e um certo embate em relação a isso, uma certa reinvenção desses modelos de produção, quer dizer. Na época que eu comecei a escrever, basicamente a gente tinha críticas escritas. Hoje a gente tem podcast, gente fazendo no YouTube, gente fazendo no TikTok, gente fazendo no Instagram, fazendo texto e vídeo, ou só texto, ou podcast. Então é um ecossistema muito variado, que nos dá um panorama muito aberto. Acho que a gente tá numa certa sinuca de bico, e precisa repensar algumas coisas, de uma certa forma tentar resgatar alguma relevância. Mas ainda sobre a questão da crise da crítica, apesar das perdas de alguns espaços, veículos que não existem mais, eu nunca vi aparecer tanto crítico quanto hoje em dia. Muita gente nas redes sociais, no Letterboxd, escrevendo para sites e veículos. Acho que não se tem mais aquele “grande crítico” que todo mundo conhecia; você tem os nichos, um crítico que trabalha em determinado espaço e tem aquele grupo ao redor dele. Então, os críticos também acabam criando espaços e criando modelos ao redor de si, ao redor de seus veículos, ao redor de suas atividades. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Ainda vemos uma grande concentração de festivais e lançamentos no eixo Rio-São Paulo, mesmo com a força que polos audiovisuais locais, como o baiano, pernambucano ou cearense, têm demonstrado nos últimos anos. Como eventos como a Cinema Conquista podem ajudar a descentralizar a produção e circulação de filmes brasileiros? Rafael Carvalho: Eu olho para a programação da Mostra Cinema Conquista e parece que a gente quis fazer uma seleção de filmes que tivessem um foco no Nordeste. Mas eu juro para você, não foi intencional. Simplesmente os filmes surgem, os filmes aparecem. Quando a gente vai ver, tem um monte de filme do Ceará, tem um monte de filme de Pernambuco, tem os filmes baianos. Tem Oeste Outra Vez, de Goiás. Claro que tem também Rio e São Paulo, mas eu acho que dava para montar uma programação só com filmes do Nordeste. E nem é por uma questão de “valorizar”, é porque os filmes se impõem, é incontornável. O Último Azul é um filme incontornável, assim como O Agente Secreto. Claro que quando a gente também olha e fala: "Poxa, temos que apostar nesses filmes, temos que apostar nesse cinema”. Porque acho que é um papel também da mostra, a gente estar atento a isso, não só as questões temáticas. A gente tem filmes de várias temáticas, esteticamente diferentes também, com várias propostas, mas essa questão regional também é um interesse muito grande que a gente tem. Eu faço curadoria e seleção para outros festivais, e sempre digo: o que é um festival? Um festival nada mais é do que uma vitrine onde a gente está expondo filmes e dizendo: "Olha, acho que você devia assistir esses filmes, não porque eu acho que eles sejam maravilhosos, incríveis, a melhor coisa que vocês vão assistir na vida, mas simplesmente porque que eles estão aí, eles são interessantes e acho que tem uma grande chance de você se identificar com esses filmes”. O pensamento é: o que eu vou colocar nessa vitrine? O que eu vou oferecer para esse público daqui? Inevitavelmente penso na descentralização, penso nesses filmes regionais. A gente tem filmes e curtas metragens feitos aqui em Vitória da Conquista que estão na programação. São filmes que vieram de professores, alunos e egressos do curso de Cinema. Então, isso também é descentralização; é a gente mostrando “olha, existe filme aqui”. Existe filme feito em Vitória da Conquista, no interior da Bahia, em Salvador, no Ceará, no interior do Ceará, no interior de Pernambuco. Mas a gente está muito feliz com a programação e com a seleção que a gente tem, porque realmente a gente tem a convicção de que está oferecendo para o público uma vitrine muito vistosa, muito bonita. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, sempre pedimos aos nossos entrevistados que indiquem filmes brasileiros que achem que o público deva assistir. Quais seriam suas indicações? Seja dos filmes exibidos na Mostra ou outros que você assistiu e amou. Rafael Carvalho: O filme de encerramento da mostra é o Oeste Outra Vez do Érico Rassi, que eu citei aqui. Eu acho esse filme tão maravilhoso, é um filme feito em Goiás, é um western à brasileira, que vai falar um pouco sobre um certo comportamento masculino tóxico. É um filme que tem muita violência, mas ao mesmo é muito bem-humorado, muito engraçado, muito divertido, e lida com essas questões. É um filme super bem realizado, é um trabalho primoroso que o Érico faz. E vou indicar um filme baiano, que é o Saudade Fez Morada Aqui Dentro, do Haroldo Borges. Acho esse filme maravilhoso, lindo, assim, de uma sensibilidade incrível. Sou muito fã do trabalho do pessoal da Plano 3. Não vou citar mais, mas acho que esses são filmes até mais acessíveis, eu gosto e indicaria para todas as pessoas assistirem.

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