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  • Crítica | Peaky Blinders: O Homem Imortal

    Finalmente temos o capítulo final da saga de Tommy Shelby, mas não sem algumas ressalvas. Imagem: Divulgação Quando a última temporada da série foi ao ar em 2022, eu tive a impressão que Steven Knight – criador do programa e roteirista do longa – estava “guardando histórias”. Depois de um determinado acontecimento, a trama pouco avançou e me pareceu que o fim daqueles arcos aconteceriam no filme, que ainda não estava oficialmente confirmado, mas os boatos existiam. Bom, o filme chegou e trouxe novos enredos, mas muito mais encerramentos do que a série. Agora, Tommy (Cillian Murphy) está recluso, lidando com o luto e as perdas da vida do crime. No entanto, seu filho Duke (Barry Keoghan) assumiu a liderança dos Peaky Blinders, está possivelmente se aliando a um nazista interpretado por Tim Roth e Tommy precisa salvá-lo, digamos assim. A narrativa é a mais superficial da franquia, provavelmente, até porque não dá para comparar um aprofundamento que acontece em seis episódios com um filme de duas horas. Insere uma gama de novos personagens e outros antigos têm pouco destaque. Ada (Sophie Rundle) tem um papel pequeno, mas relevante. Enquanto Arthur, “aparece” ainda menos, mas o seu destino é crucial para como Tommy se sente, embora que fosse algo melhor desenvolvido se tivesse acontecido na série, ainda que tenha algum impacto. Imagem: Divulgação Outra personagem nova é Kaulo (Rebecca Ferguson), uma mulher misteriosa que explora o lado mais místico da história, mas sem muitas camadas, devo dizer. O vilão de Tim Roth é ótimo, porém mais por causa do trabalho do talento e carisma do ator, do que pelo roteiro em si. A série sempre foi excelente em desenvolver seus antagonistas, no entanto, desta vez ele funciona mais como uma muleta para que a relação de Tommy com o filho ganhe alguma substância. Murphy sempre fantástico na pele do gângster e Keoghan está à altura, então o elenco definitivamente não é um problema. A trilha sonora, o design de produção e os figurinos continuam pontos extremamente positivos aqui no longa, que não deixa de ser um presente para nós fãs que merecíamos um encerramento digno para aqueles personagens que acompanhamos por tantos anos. Pessoalmente, eu preferia que tivesse acontecido dentro da própria série com o tempo necessário para que pudessem se desenvolver melhor. Mas o que temos é o filme dirigido por Tom Harper. Ainda que ele tenha dirigido apenas três episódios de Peaky Blinders, lá dá primeira temporada, eu gosto do que ele faz aqui e como parece ter familiaridade com o tom e a atmosfera que estavam bem presentes. O roteiro de Steven Knight é um tanto superficial e mesmo que dê a sensação de que alguns encerramentos sejam apressados, como os de Ada e Arthur, eu acho que Tommy consegue sair de cena de forma nobre. É algo que vinha realmente se acumulando durante sua jornada e faz sentido com o que vimos até então. É bonito e emocionante e mesmo que não exista nenhum homem imortal, quando se deixa um legado, ele se torna. Nota: 3,5/5

  • Crítica | A Cronologia da Água

    Filme transforma trauma em linguagem e faz disso sua maior força. Imagem: Divulgação “Alguns filmes são gravados. Esse foi dirigido.” A frase, pescada no Letterboxd, resume bem a experiência de assistir A Cronologia da Água. Não é um filme que se desenrola. É um filme que te atravessa. Na estreia de Kristen Stewart na direção de longas, a cinebiografia de Lidia Yuknavitch abandona qualquer compromisso com a linearidade para mergulhar em uma construção sensorial. Filmado em 16mm, o longa aposta em uma fotografia granulada e orgânica, que transforma corpo e memória em matéria bruta. A imagem pulsa, respira e, em muitos momentos, parece invadir o espectador. A montagem é talvez o elemento mais radical. Fragmentada, agressiva e por vezes sufocante, ela traduz o caos interno da protagonista sem tentar organizá-lo. Há excessos claros e um certo apego a maneirismos de cinema independente, o que faz com que o filme demore a encontrar seu próprio ritmo. Ainda assim, quando encaixa, a experiência ganha força. É nesse ponto que Imogen Poots assume o centro de tudo. Sua performance é física, exposta e profundamente desconfortável. Poots não suaviza a dor de Lidia, ela a deixa à mostra. Cada gesto, cada olhar, carrega uma intensidade que transforma o filme de um exercício estilístico em algo vivo e perturbador. Imagem: Divulgação Kristen Stewart, por sua vez, demonstra uma direção ousada e consciente. Ela não busca agradar nem facilitar. Coloca o espectador dentro da experiência de Lidia, e isso significa lidar com tensão constante, com sobrecarga sensorial e com uma narrativa que se recusa a ser domesticada. Com 128 minutos, o filme por vezes se alonga além do necessário. Mas o excesso também parece fazer parte da proposta. O cansaço, a repetição e o acúmulo são elementos que constroem essa sensação de afogamento emocional que o longa quer provocar. Irregular, arriscado e muitas vezes excessivo, A Cronologia da Água não é um filme fácil. Também não quer ser. É uma obra que aposta no desconforto como linguagem e encontra, nesse caminho, momentos de beleza brutal e uma honestidade rara sobre o feminino, o abuso e o luto. Nota: 4/5

  • Crítica | Uma Segunda Chance

    Drama funciona, mas romance não acompanha em mais uma adaptação de Colleen Hoover. Imagem: Divulgação Lançado na última quinta-feira (19), Uma Segunda Chance é mais uma adaptação de Colleen Hoover a chegar aos cinemas, dessa vez sob direção de Vanessa Caswill. A história acompanha Kenna Rowan (Maika Monroe), uma jovem que, após cumprir pena por um erro do passado, retorna à sua cidade natal tentando reconstruir a própria vida e se aproximar da filha pequena, que nunca conheceu. Rejeitada pela família do pai da criança, ela encontra algum acolhimento em Ledger, um ex-jogador de futebol americano, e os dois acabam se envolvendo em um romance marcado por segredos, culpa e a dificuldade de recomeçar. Tem algo em Uma Segunda Chance que soa artificial o tempo todo. A ambientação country, o violão suave entrando nas cenas, os personagens tentando parecer comuns, próximos… tudo parece muito calculado. Não chega a ser falso, mas é claramente esforçado. A trilha de Tom Howe até tenta segurar essa ideia de intimidade, mas acaba soterrada por uma lógica muito mais comercial do que emocional. Isso fica ainda mais evidente quando a gente olha pro contexto. Essa já é mais uma adaptação de Colleen Hoover chegando rápido aos cinemas. Depois de É Assim que Acaba, que repercutiu muito mais pelas polêmicas do que pelo filme em si, e de Se Não Fosse Você, que passou quase batido, parece claro que essas histórias viraram produto antes de qualquer outra coisa. Ainda assim, dentro desse cenário, Uma Segunda Chance até se sai melhor do que o esperado. Como adaptação, funciona. Não abraça tudo do livro, simplifica relações que já não eram tão profundas e deixa muita coisa pelo caminho, mas mantém o núcleo emocional. E é justamente quando o filme encosta nesse núcleo que ele melhora bastante. A relação da Kenna com a filha, as lembranças antes do acidente, o peso de voltar pra uma cidade onde ela não é bem-vinda… tudo isso tem mais força do que o romance em si. E isso passa muito pela Maika Monroe. Ela já mostrou que é muito boa no terror, em filmes como Corrente do Mal e Observador, e aqui encara um drama mais direto. Não é a melhor atuação da carreira dela, mas segura bem o filme. Tem presença, entrega a dor da personagem e faz a gente se importar mesmo quando o roteiro não ajuda tanto. Imagem: Divulgação A química com Tyriq Withers funciona logo de cara. As cenas iniciais entre os dois são leves, naturais, tem um flerte que convence. Só que o filme não desenvolve isso direito. O romance existe, mas nunca cresce como deveria. Fica sempre meio travado, meio interrompido. E talvez isso aconteça porque o filme está muito mais interessado na tragédia do que no amor. A relação entre Kenna e Ledger acaba ficando em segundo plano, enquanto o vínculo dele com a filha do Scotty acaba sendo até mais interessante. É estranho, porque o filme vende uma coisa e entrega outra. No fim, mesmo com elementos que poderiam funcionar muito bem, ele não chega naquele impacto emocional que parece prometer. Falta conexão de verdade. Falta aquele momento que faz tudo bater. Ainda assim, tem um ponto importante aqui. A direção da Vanessa Caswill faz diferença. Existe um olhar mais atento pra esse universo, uma sensibilidade maior com a protagonista. Isso já coloca o filme um pouco acima das outras adaptações recentes da Hoover, mesmo que a comparação também não seja das mais difíceis. No geral, é um filme que funciona em partes. Quando foca na Kenna, acerta. Quando tenta vender o romance, perde força. E no meio disso tudo fica essa sensação de algo que poderia ser mais, mas nunca chega lá. Nota: 3/5

  • Crítica | Eles Vão Te Matar (2026)

    Aventura, terror e comédia se misturam em filme divertido com referências claras e sem grandes pretensões. Imagem: Divulgação Uma mulher responde a um anúncio enigmático para uma vaga de governanta em um luxuoso e sombrio arranha-céu em Nova York. Ao chegar, ela descobre que moradores desapareceram sem deixar rastros por décadas, alimentando boatos de um segredo maligno escondido nas sombras. O longa Eles Vão Te Matar deixa evidente desde seus primeiros minutos que não pretende se esconder atrás de sutilezas. Sob a direção de Kirill Sokolov, a obra abraça um estilo exagerado e energético, assumindo suas inspirações sem receio. É a produção pós-Kill Bill que mais exalta a energia Kill Bill descaradamente. E isto se encontra não apenas na violência estilizada, mas também na cadência das cenas de ação e no gosto por composições visuais marcantes com forte influência do cinema oriental. A cenografia é um dos trunfos da experiência, com ambientes que não apenas servem de pano de fundo, mas impulsionam a narrativa. O prédio ganha vida como um personagem próprio, repleto de detalhes e enquadramentos quase que teatrais, que enriquecem a sensação de mistério e perigo constante. Esse cuidado visual somado a um desenho de som límpido, que valoriza cada impacto, cada passo e cada momento de tensão, contribui para a imersão do espectador. Outro destaque é o trabalho de câmera, ágil e preciso, que acompanha o ritmo frenético da trama sem perder clareza. Os movimentos ajudam a construir momentos chave com eficiência, especialmente nas sequências de ação, onde a coreografia violenta ganha ainda mais força. Há um senso de timing bem ajustado, que mantém o público envolvido mesmo quando a narrativa decide abraçar o caos. Imagem: Divulgação Ainda assim, o filme claramente passa do ponto em alguns momentos, tanto nos efeitos visuais quanto nos efeitos práticos, o que não é exatamente um problema, mas também não ajuda na contenção dos limites imaginários na narrativa. O exagero é constante e por vezes quase caricatural, mas curiosamente isso se transforma em parte essencial do charme do longa. Em um cenário atual marcado por produções mais padronizadas, essa ousadia acaba funcionando como um diferencial e oferece algo que foge do previsível. O elenco acompanha esse espírito com entusiasmo visível. Há um senso de diversão coletiva, como se todos estivessem plenamente conscientes da bagunça institucionalizada proposta pelo nem sempre tão forte roteiro. O texto tem sim seus cutucões sociais também escrachados, mas escolhe não se aprofundar tanto nesta abordagem. As atuações exigem entrega física e isso aparece em cena, aliás um trabalho espetacular da equipe de dublês, tornando as situações-absurdo mais memoráveis e mais impactantes. É um tipo de filme que não surge mais com frequência, quase artesanal em sua construção, mas que consegue imprimir personalidade e originalidade mesmo apoiado em referências tão explícitas. Nota: 3,5/5

  • Velhos Bandidos: o “dream team” brasileiro se reúne

    O Oxente Pipoca acompanhou de perto a coletiva de imprensa do filme, na última quinta-feira (19). Imagem: Aianne Amado Por volta das 12h30 do último dia 19, Fernanda Montenegro adentra a sala de conferência do hotel Fairmont Rio, em Copacabana, de braços dados com Vladimir Brichta, que, sorridente, lhe sussurra algo ao pé do ouvido. Logo atrás vêm Bruna Marquezine, Ary Fontoura e Lázaro Ramos, alinhando-se lado a lado. Dona Fernanda procura Lázaro com o olhar e chama por ele; fora de seu campo de visão, ele a tranquiliza: “estou aqui!”. Ela se dirige até ele para se posicionar para as fotos (mais tarde, iríamos entender mais sobre essa relação). Segundos depois, Cláudio Torres entra na sala, posiciona-se atrás do elenco e aponta, orgulhoso, para a mãe e para o “tio” — como chama Fontoura. Tem início a coletiva de imprensa de Velhos Bandidos, comédia nacional que estreia no próximo dia 26. Encerrada a sessão de fotos, todos se acomodam em seus lugares devidamente marcados. Enquanto Dona Fernanda caminha até sua cadeira, alguns jornalistas ensaiam palmas tímidas. Ela para, encara a “plateia” e, abrindo os braços, decreta: “podem me aplaudir!”. Era exatamente a autorização que faltava para a chuva de aplausos que seguiria. Duas coisas se tornam evidentes desde os primeiros minutos: (1) o peso simbólico daquelas figuras – não apenas algumas das personalidades mais conhecidas do país, mas também alguns dos nossos maiores artistas cênicos vivos; e (2) o afeto palpável que circula entre eles. São essas duas esferas que dão o tom do Q&A que se estende pela próxima hora. De imediato, Cláudio Torres já avisa: aquele elenco não foi feito para caber na tela do celular ou da televisão, urgindo que o público os assistam no cinema, em tela grande. Ao revelar sua estratégia para reunir o que chama de “dream team”, entrega o truque: “Foi só dizer que estava pensando em fazer um filme com a minha mãe que todo mundo falava ‘tô dentro!’”. Sem pudor, conclui que “foi uma carteirada”. Para Fernanda Montenegro, no entanto, o filme está mais para um presente. “Ele sabe que eu gosto de comédia — fiz muita comédia na vida. E tem também o conjunto dos companheiros de cena… Tudo foi uma festa! Dava até pena quando o dia acabava”. Há, em sua fala, algo entre o entusiasmo de estreia e a serenidade de quem já viu (e fez) de tudo um pouco. “Há uma hora na vida em que a gente não tem mais futuro — sem morbidez”, diz ela, com leveza desarmante. E completa: “Eu acho que só tenho o presente. E, no presente, estar com essa família de opção e ter meu filho me dirigindo é um momento especial”. O tom é celebratório. Ainda nesse registro afetivo, Ary Fontoura relembra seus 50 anos de amizade com Fernanda, marcados por inúmeras parcerias no teatro e na televisão — mas nunca antes no cinema. Montenegro aproveita para destacar as participações da velha guarda teatral no longa, classificando-as como uma “gentileza” de um diretor criado entre coxias e bastidores. Também sobre essa gentileza entre colegas, destaca o quão raro é ter uma obra com cinco protagonistas, todos com igual destaque e “sem querer ganhar de ninguém”. A mais jovem do grupo, Bruna Marquezine, descreve a experiência como “divertidíssima e, ao mesmo tempo, um tremendo aprendizado”, celebrando a chance de contracenar com artistas que sempre admirou. “Para mim foi mágico. É um privilégio!”. “Foi um encontro de felicidade e de vida”, resume Vladimir Brichta, antes de revelar que aquela versão polida diante das câmeras é mesmo uma versão. No set, garante, o clima era outro, bem mais bagunçado. “Era difícil parar de rir para dizer ‘ação’ e ‘corta’”, completa Cláudio. Essa deixa altera o eixo da coletiva. O elenco relaxa, as histórias começam a surgir e, por alguns minutos, temos acesso a uma espécie de making of oral e improvisado. Bruna confessa que, em certos momentos, queria apenas uma pipoca para assistir às trocas entre Lázaro e Vladimir – uma intimidade construída ao longo de décadas de amizade. Brichta, por sua vez, conta episódios da curiosa inversão entre mãe e filho em cena: em determinado momento, sem um objeto de cena adequado, Cláudio simplesmente coloca um saco de cerca de 20 quilos no colo da mãe, avisando: “Vai pesar, mas a senhora aguenta”. Vladimir está inconformado, o resto do elenco ri, mas ela apenas dá os ombros – dando a entender que, se preciso fosse para garantir uma boa cena, aguentaria sim. “Eu sou uma vocacionada!” Imagem: Aianne Amado Já Lázaro Ramos, que se autodeclara “irmão” de Cláudio e filho de Fernanda, a quem chama de “mamãe”, revela, com um leve constrangimento, que a fala “velha safada” surgiu no improviso. “Mamãe sabe que eu a amo e respeito”, apressa-se em dizer. Correspondendo o afeto, Montenegro pergunta há quanto tempo os dois “se cultuam”. “Desde que eu tinha 18 — quase 30 anos”, responde ele. Marquezine interrompe o diálogo para dizer que também está pleiteando essa certidão postiça. Entre uma piada interna e outra, fica claro que o set foi, de fato, um espaço de convivência prazerosa, quase um encontro de amigos com câmera ligada. E talvez resida aí a lógica mais simples (e mais eficiente) do projeto: se quem faz está se divertindo, há uma boa chance de quem assiste embarcar junto, como lembra Ary Fontoura. Com a autoridade de quem sabe do que fala, ele decreta que “fazer chorar é fácil; fazer rir é um problema sério” — motivo pelo qual ele considera a comédia um gênero superior. Fernanda concorda: “Fazer comédia é muito difícil: ou você nasce com talento ou não dá conta”. Na despedida, Cláudio Torres reireta: Velhos Bandidos foi pensado como entretenimento para toda a família, afinal, “o cinema nasceu nos parques de diversão”. E talvez seja essa a melhor síntese do que se viu ali: mais do que dirigir um filme, Torres parece ter orquestrado um ambiente em que o elenco pudesse se divertir sem freio – confiando que, em algum momento, essa alegria inevitavelmente transbordaria para a tela. Ao que tudo indica, transbordou. Confira nossa crítica de Velhos Bandidos aqui

  • Entrevista | “É sobre amadurecer e se reconectar”: elenco e diretor falam sobre O Velho Fusca

    Ao lado dos atores Caio Manhente e Giovanna Chaves, o diretor Emiliano Ruschel fala sobre o longa que estreia nos cinemas em 19 de março. Imagem: Divulgação Entre memórias afetivas, conflitos familiares e o desejo de liberdade, O Velho Fusca chega aos cinemas no dia 19 de março apostando em uma história sensível, divertida e cheia de emoção. O filme acompanha Junior, um jovem que, ao encontrar um Fusca abandonado na garagem do avô amargurado, enxerga no carro a chance de transformar sua vida. No entanto, para conquistar esse sonho, ele precisa enfrentar um passado mal resolvido e ajudar a reconstruir uma relação familiar marcada por anos de afastamento. Em conversa com o Oxente Pipoca, os atores Caio Manhente e Giovanna Chaves, ao lado do diretor Emiliano Ruschel, falaram sobre a construção dos personagens, os bastidores da produção e o encontro de gerações que marca o filme. Entre reflexões sobre amadurecimento e relatos de experiências no set, o trio destaca como a obra dialoga com diferentes públicos e reforça a força do cinema brasileiro. Confira a íntegra da conversa abaixo: Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Oi, gente! Eu sou Gabriella, do Oxente Pipoca, falando aqui de Aracaju, Sergipe. É um prazer conversar com vocês. Eu assisti ao filme ontem, gostei bastante, e queria começar perguntando o que mais chamou a atenção de vocês nos seus personagens. Caio, o seu personagem está nesse processo de tentar reconstruir a relação com o avô. Já a Giovanna começa como uma menina aparentemente mais frágil, mas ao longo da história a gente descobre uma força enorme nela e acaba se revelando uma verdadeira protagonista do próprio destino. Queria que vocês falassem um pouquinho sobre a construção desses personagens e o que mais atraiu vocês neles. Caio Manhente: Cara, a primeira coisa que eu queria falar é que eu sou doido pra conhecer Sergipe. Tenho um dos meus melhores amigos, que é o Samuca de Assis, Adaí. Apesar de eu ter ido muito pra Salvador, enfim… pô, que alegria! Quero muito conhecer. E aí, falando do Júnior… cara, eu acho que ele é uma pessoa que está nessa transição, né? Saindo da adolescência pra vida adulta, virando um jovem adulto. E ele enxerga nesse Fusca um passaporte pra liberdade. Ele acha que, quando tiver aquele carro, todas as questões da vida vão se resolver, que tudo vai dar certo. É óbvio que a vida não funciona assim, mas acho que a gente sempre deposita em algum objeto a resolução dos nossos problemas e o Júnior faz isso com o Fusca. Só que, ao longo da história, ele entende que não é bem por aí. Na verdade, o que ele precisa reconstruir é a relação da família, especialmente com o avô. E eu acho que o filme fala muito sobre isso, sobre reconstrução de relações. Então, o Júnior é esse personagem… e esse filme foi rodado há quatro anos. Eu estava muito mais próximo do Júnior do que estou hoje. Pra mim, é quase um registro de uma versão do Caio entrando nessa fase de jovem adulto. Giovanna Chaves: E falando um pouco sobre a Layla, eu acho que todo mundo sai do cinema meio com essa sensação de “meu Deus, eu não esperava que ela fosse isso”. Mas acredito que a Layla também está nesse processo de amadurecimento, de descobrir quem ela é no mundo. Ela já está meio de saco cheio das pessoas rotularem ela, de dizerem que ela é isso ou aquilo. Tanto o personagem do Jeff, que enxerga ela como a “menina bonita” e idealiza uma relação, quanto a treinadora, que chama ela de “princesa”. Então, ela já está acostumada a ser colocada sempre nesse lugar de fragilidade. Por isso, ela usa o esporte como uma espécie de fuga, um espaço onde consegue se descobrir de outras formas e entender que não é só aquilo que dizem sobre ela. Ao longo do filme, acho que o público vai se conectando com a Layla justamente por isso, porque ela vai se abrindo aos poucos. No começo, ela é mais fechada emocionalmente, mas, com o tempo, a gente vai entendendo melhor a personalidade dela, a relação dela com o Júnior e também com ela mesma. Então, acho que é por isso que muita gente vai se identificar, especialmente as meninas. É um filme muito legal e que também marca bem essa minha trajetória, essa transição de atriz adolescente para essa fase mais adulta. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Queria saber como essa história chegou até você e o que te motivou a transformá-la em filme. Você pode contar um pouquinho sobre o seu envolvimento com o projeto? Emiliano Ruschel: Você sabe, eu estava morando nos Estados Unidos na época. Eu tinha rodado um filme lá e também na França, e estava vindo para o Brasil para fazer um filme chamado Segredos, com a Dani Suzuki. Eram dois filmes com a mesma empresa. Aí o roteirista, Bio Labonia, que é de Fortaleza, mas estava morando no Canadá estudando roteiro, falou: “Cara, tô com um roteiro, queria muito que você lesse”. Eu respondi: “Pô, me manda”. Quando eu li, cara, eu me diverti, ri, chorei. O roteiro era muito bom. Ele já vinha desenvolvendo esse projeto há um tempo e já tinha ganhado vários prêmios, mais de dez, inclusive. Só que a ideia inicial era que a história se passasse nos Estados Unidos. Então eu sugeri levar a produção para o Brasil, já que eu estava vindo para cá. Comentei que poderíamos fazer no Rio de Janeiro, e ele adorou a ideia. Levei o projeto para a distribuidora, que já tinha me perguntado qual seria o próximo filme. Eles leram o roteiro, se divertiram, riram, se emocionaram e toparam produzir. A partir daí, fizemos uma adaptação da história dos Estados Unidos para o Brasil. Isso trouxe alguns desafios práticos. Por exemplo, a casa do avô e o espaço onde as meninas treinam boxe ficam lado a lado. Na versão americana, provavelmente não existiria um muro separando esses espaços, mas aqui isso fazia sentido. Então precisei encontrar uma casa com um muro muito específico. Não podia ser alto demais, nem baixo demais, nem ter cerca elétrica. Tinha que ser exatamente como eu imaginava. E aí comecei a rodar o Rio de Janeiro inteiro em busca desse lugar. Imagem: Divulgação Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu achei muito curioso você falar isso, porque, assistindo ao filme, tive a sensação de que o Rio funciona quase como um personagem. Mesmo sem nunca ter ido, eu me senti muito inserida naquele ambiente, no Rio de Janeiro. Fiquei curiosa pra saber se isso foi intencional. Era uma ideia sua fazer com que o Rio tivesse uma presença tão marcante na história? Emiliano Ruschel: É, ele é um personagem, sim, porque o Rio de Janeiro tem muito essa força, né? E acho que a gente complementou isso com a música, que ajudou a dar essa identidade bem carioca. O personagem do vovô também é muito carioca, no jeito, na forma de falar e de se comportar. Eu morei aqui no Rio, sou gaúcho e vim pra cá quando era bem jovem. Fiquei uns dez anos aqui, depois fui para os Estados Unidos e fiquei sete anos lá. Então eu conhecia bem esse universo e via muito filme ambientado no Rio. Quando eu encontrei aquela casa, lá na Urca, foi muito especial. A Urca tem, ao fundo, o Pão de Açúcar, que é um cartão-postal da cidade. Na hora eu pensei: “Cara, é essa casa”. Fui falar com a dona e pedi para usar o espaço para o filme. Acho que, naturalmente, o filme foi construindo essa identidade ao longo do processo. Ele acabou ganhando muito essa vibe de Rio de Janeiro, mas não só do ponto de vista turístico. Tem também esse olhar de quem mora na cidade, sabe? Porque é diferente de como o turista enxerga. Isso trouxe uma sensação muito gostosa. Aquela casa na Urca é linda. Tem cenas em que o vovô está sentado e a gente filma de dentro do pátio para fora, e você vê os barquinhos, a luz, as amendoeiras, as folhas no chão… tudo isso cria um clima muito próprio do Rio. E a música também ajuda muito. Ela é maravilhosa e transporta o espectador pra dentro desse universo, reforçando ainda mais essa atmosfera carioca. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): O Caio comentou que o filme foi gravado há quatro anos e que só agora vocês estão vendo o resultado final. Como foi essa experiência para vocês? Giovanna Chaves: Eu acho meio difícil assistir a algo que a gente gravou há muito tempo, sabe? Fico pensando: “Meu Deus, eu faria tudo diferente hoje em dia”. É engraçado se ver de outra forma. Mas, ao mesmo tempo, é muito bom ter esse registro de uma fase da vida, de um momento específico que você estava vivendo. Acho isso muito importante. Foi meio louco me ver assim, mais nova, diferente… até com o cabelo escuro, né? Não tão loira quanto eu estou agora. Mas acho que a vida é sobre isso, sobre amadurecimento, mudança. E o filme também fala um pouco sobre isso, sobre crescer e se transformar. Então, no fim das contas, foi uma experiência bem legal. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Uma coisa que me chamou atenção no filme foi justamente o encontro entre diferentes gerações de atores. Vocês têm artistas mais jovens, que já estão se consolidando, como o Caio, a Giovana e o Christian, ao lado de nomes mais experientes, como a Cleo, o Danton Mello e o Tonico Pereira. Queria saber como foi, pro Emiliano, trabalhar com esses dois universos. Como foi promover esse encontro de gerações no elenco, e de que forma isso contribuiu para o resultado final do filme? Emiliano Ruschel: Tem uma química muito grande, né? Eles se dão super bem. Você vê o Caio junto com o Dan e com a Cleo, parece realmente filho deles. Ficou muito natural. E isso é muito legal porque o próprio roteiro já traz esse conflito de gerações. Então, na hora de montar o elenco, a gente teve a oportunidade de juntar, de fato, diferentes gerações. O processo de escalação foi muito interessante. Quando li o roteiro, a primeira coisa que perguntei para o roteirista foi: “Em quem você pensou para o vovô?”. Porque é um personagem muito marcante. E ele respondeu que escreveu já pensando no Tonico Pereira. Aí eu falei: “Então eu vou atrás dele, porque é perfeito”. Consegui marcar um encontro com o Tonico, que tem um brechó em Botafogo. Fui lá conversar com ele, e ele estava super à vontade, de bermuda, naquele calor, e a gente ficou ali batendo papo, tomando um café. Foi um encontro muito especial. A partir do Tonico, o projeto foi ganhando força. Tive a sorte de contar com vários coprodutores, como o Diego Timbó, da Uno Filmes, que também assina a direção musical, a Flávia Gularte, e a própria Cléo, que entrou como coprodutora. Junto com a produtora de elenco, fomos construindo esse time. Foi realmente um trabalho coletivo, com muitas mãos e muito talento envolvido. E o resultado foi um elenco incrível. Eu me sinto muito honrado de ter reunido um grupo tão forte, com atores tão talentosos. E isso também se reflete na música. Como o Diego é diretor musical, pensamos em criar uma trilha original, e o filme acabou ganhando um álbum com músicas feitas especialmente para ele. Conseguimos reunir nomes consagrados da música brasileira, como Jorge Aragão, Péricles e Jorge Vercillo, junto com artistas mais jovens. Então existe esse mesmo encontro de gerações também na trilha sonora. É um equilíbrio muito interessante, que dialoga com o próprio tema do filme. E acho que tudo isso contribuiu para essa química que a gente vê na tela. Funcionou muito bem. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Caio e Giovanna contracenam com atores bem experientes, como Danton Mello, Cléo Pires e Tonico Pereira. Queria saber como foi essa experiência para vocês. Principalmente pensando nesse contraste, já que vocês dois vêm de uma trajetória forte na televisão, com o Caio desde Detetives do Prédio Azul e a Giovana também com trabalhos voltados ao público mais jovem. Como foi esse encontro de gerações, agora nesse momento em que vocês já estão como jovens adultos, dividindo cena com nomes tão marcantes e dando continuidade à carreira de vocês no cinema? Caio Manhente: Cara, tem uma coisa interessante, né? O Danton também começou muito novo, ele e o Selton. Foi uma alegria conhecer o Danton e depois reencontrá-lo. Em Garota do Momento, a gente fez genro e sogro, e foi uma relação maravilhosa. Eu já tinha trabalhado com a Cléo também, em Magia de Aruna, da Disney. E essa foi a minha primeira experiência com o Tonico, que eu queria muito conhecer e contracenar. Foi incrível. Mas acho que uma das coisas mais legais do nosso trabalho é justamente isso: poder estar com pessoas mais experientes, com atores e atrizes que já têm uma longa trajetória. Claro que a nossa profissão exige dedicação, estudo, leitura… mas, honestamente, acho que a maior escola são os nossos colegas de cena que têm mais experiência. Eu tento aprender com eles ao máximo. E, ao mesmo tempo, entre a gente também rola muita troca. Eu, a Giovana, o Christian, que está no filme… a gente vai aprendendo uns com os outros, observando o que cada um traz, o que pode ensinar. Acho que o trabalho do ator é isso: estar sempre com o olhar atento, muito aberto para tudo. Essa troca, para mim, é uma das coisas mais ricas que a gente pode ter, tanto na profissão quanto na vida. Giovanna Chaves: Eu gosto muito de observar o outro, de prestar atenção, de entender o ambiente. Então foi muito gostoso contracenar com atores mais experientes, com mais bagagem do que eu. Saber ouvir, entender, perceber como eles se comportam em cena… acho que isso ensina muito. Cada trabalho é um novo desafio, mas também um presente. Então, para mim, foi uma experiência muito rica nesse sentido, de aprender com o outro, de desenvolver esse olhar e crescer a partir disso. Caio Manhente: E só um comentário engraçado… o Tonico Pereira já fez inúmeros filmes, né? Mas, na minha cabeça, por memória de infância, ele sempre vai ser o Lineuzinho, de A Grande Família. E é curioso porque o primeiro desses grandes atores com quem eu contracenei foi o Marco Nanini, em A Suprema Felicidade. Então agora virou quase uma missão pessoal: ir encontrando e trabalhando com cada um deles. Ainda faltam a Marieta e o Pedro Cardoso… mas eu chego lá. Vou dar um jeito de encontrá-los. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Vou aproveitar para fazer uma pergunta final, que eu sempre faço para todos os entrevistados aqui no Oxente. Queria que vocês deixassem uma indicação de filme ou série para o público. Pode ser algo favorito de vocês ou até algo que tenha ajudado no processo de construção durante O Velho Fusca. Só tem um detalhe: precisa ser uma produção brasileira. Emiliano Ruschel: Acho que agora todo mundo tem que assistir O Agente Secreto, né? É um filme que está vivendo um momento fantástico. Eu tive a oportunidade de trabalhar com o Wagner Moura em VIPs, contracenei com ele. Então, claro, estou torcendo muito por ele. E a gente fica muito feliz de ver o cinema brasileiro ganhando esse destaque. A gente torce muito pelo nosso cinema. Giovanna Chaves: De indicação de filme, acho que é O Agente Secreto, né? Com certeza, gente. Caio Manhente: O Agente Secreto está na cabeça, né? Wagner Moura, perna cabeluda… e afins. Mas eu tenho um filme que acho que é o meu brasileiro preferido, e que não é tão conhecido assim, apesar de ser do Walter Salles, que é Abril Despedaçado. Eu acho um filme inacreditável. Então fica a minha dica para quem quiser assistir. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Para finalizar, queria pedir que vocês deixassem um convite para os nossos seguidores irem ao cinema no dia 19 de março assistir O Velho Fusca. Emiliano Ruschel: Então, queria convidar todo mundo, a partir do dia 19 de março, para ir ao cinema. Essas primeiras semanas são muito importantes para o cinema brasileiro, para que o filme permaneça em cartaz. Então, venham prestigiar. Vão aos cinemas assistir O Velho Fusca, venham rir, se divertir e se emocionar com a gente. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): O final me emocionou muito, de verdade. Acho que o desfecho do filme vai pegar muita gente desprevenida no cinema. A pessoa vai achando que é só uma comédia, que vai rir o tempo todo… e, quando vê, está ali no final, fungando, emocionada. Emiliano Ruschel: Então, você sabe que o Zé Vaqueiro estava na exibição lá em São Paulo. E, quando saiu da sessão, ele falou: “Cara, chorei muito. Vou ligar para a minha avó”. Giovanna Chaves: Gente, assistam O Velho Fusca nos cinemas de todo o Brasil a partir do dia 19 de março. Caio Manhente: Isso aí, galera! O Velho Fusca, dia 19 de março no cinema. E, de preferência, assistam na primeira semana, é muito importante!

  • Entrevista | “Eu tive uma dor de crescimento durante o filme”: Julia Guggisberg Hannud fala sobre “Carcereiras”

    Documentário, que estreou no festival É Tudo Verdade, marca o retorno da diretora ao universo do sistema prisional feminino. Divulgação Estreou hoje (10) no festival É Tudo Verdade o documentário Carcereiras, dirigido por Julia Guggisberg Hannud. Ambientado no sistema prisional feminino do estado de São Paulo, o filme acompanha Ana Paula e Mariana, as quais trilham caminhos paralelos como agentes penitenciárias, distantes de suas raízes e laços afetivos. Enquanto Mariana sonha com uma transferência que impulsione sua carreira e vida adulta, Ana Paula almeja o retorno a São Paulo e a vida na metrópole. Os dias exaustivos dentro das unidades prisionais tornam as decisões cada vez mais difíceis pela busca por um futuro. Essa não é a primeira incursão de Julia Hannud no universo do sistema prisional feminino. Em 2016 ela codirigiu com Catharina Scarpellini Saudade Mundão, que acompanhava de perto a realidade de mulheres marginalizadas muito antes de serem encarceradas. Além da direção, Julia também é fundadora da UMA FILMES, produtora independente sediada em São Paulo dedicada a narrativas autorais e à amplificação de vozes femininas no cinema. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Julia para falar sobre Carcereiras. Na ocasião, a diretora comentou sobre como chegou até Ana Paula e Mariana, sobre como buscou aliar elementos do documentário e da ficção e sobre como buscou retratar as mulheres presas, além de refletir sobre sua trajetória desde Saudade Mundão. Confira a entrevista abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme traz as trajetórias dessas duas guardas prisionais, Ana Paula e Mariana, uma mais velha e outra mais jovem. Como você chegou até elas? E por que a decisão de nunca cruzar seus caminhos durante o filme, mas apresentá-los paralelamente? Julia Guggisberg Hannud: Quando eu comecei a escrever o roteiro de Carcereiras, a pensar em como eu gostaria de construir a narrativa desse filme, eu pensava em duas personagens, uma que fosse mais velha e outra que fosse mais nova. Justamente para a gente entender como que talvez a mais nova fosse o espelho da mais velha e que a velha fosse o espelho da mais nova. Será que a Mariana vai ser Ana Paula daqui a 10 anos? Será que a Ana Paula já foi a Mariana de alguma forma? Então eu pensei nessas duas personagens com facetas diferentes, justamente para a gente entender como seria uma ou outra no lugar. E aí quando eu resolvi que queria uma personagem mais nova para o filme, me perguntei como que acharia essa personagem mais nova, sendo que a maior parte das mulheres que estão já no sistema prisional são mais velhas. Então eu fui para o curso preparatório de agente penitenciário, que existe aqui em São Paulo, perto do antigo Carandiru. E aí eu descobri que tinha uma nova turma se formando e fui lá para ver também quais eram as aulas que elas tinham, nesse momento de pesquisa ainda do filme, e foi onde eu encontrei a Mariana. Eu pedi para entrevistar algumas meninas do curso e aí eu fiz uma entrevista com a Mariana, e ela me pareceu uma pessoa muito interessante, porque tinha um corpo físico bem robusto, imponente, mas ela parece uma menina muito doce. A Mariana também tem pai e mãe que trabalham no sistema prisional, o que é diferente de muitas das servidoras, a maior parte delas nunca teve contato com o sistema prisional. Então, ela acabou escolhendo essa profissão, mesmo sabendo os riscos. Então foi uma personagem que me instigou desde o começo. E na primeira entrevista que a gente fez, ela disse uma coisa que me chamou muito a atenção, que foi: "Eu tenho medo de ficar com o coração peludo, igual ao meu pai”. E aí eu perguntei: "Bom, o que é ficar com o coração peludo?”, e ela me disse que é essa rigidez que o sistema na verdade vai trazendo quando as pessoas entram para esse trabalho. E sobre a Ana Paula, eu a encontrei quando já estava na pré-produção do filme. Eu não tinha essa personagem secundária, porque a personagem que eu tinha escolhido acabou saindo do presídio, então tinha que encontrar essa nova pessoa. E aí comecei dentro de Pirajuí [uma das prisões onde o filme foi gravado] a fazer várias também entrevistas, sempre com o caderno, o lápis na mão, porque não pode entrar com o celular, não pode entrar com computador, não pode entrar com nada. E fui entrevistando várias mulheres, carcereiras, mas no último dia ainda não tinha ninguém 100% definido. Aí eu vi a Ana Paula na enfermaria, e perguntei quem era ela. Comecei a conversar com ela, que falou assim: "Ai, nem vai adiantar você falar comigo porque eu tô saindo de férias amanhã". Eu falei: "Mas não tem problema", e conversamos um pouco. Ela é formada em enfermagem, trabalhava na enfermaria do presídio, mas como agente penal, era servidora. E começou a contar um pouco sobre a vida dela, contou que tinha uma família, que tinha a mãe dela, que tinha um sobrinho, que tinha um hobby, que gostava de cavalo. E aí vi que ela tinha essa vida para além do presídio, o que é uma coisa muito difícil no sistema prisional. Então perguntei se podia falar com ela durante as férias, ela topou e depois conheci sua família. Eu acho que a Ana Paula, por mais que tenha uma idade um pouco mais avançada que a Mariana, ela é super nova ainda também, já está há 8 anos no sistema prisional, o que já é um tempo de carreira diferente de quem tá começando. Mas Ana Paula tem um lugar do cuidado muito forte, ela por ter essa formação de enfermagem fora do sistema prisional, traz uma outra camada também para essas mulheres, para as servidoras que trabalham dentro do sistema. Ela tem um conhecimento que não pode exercer dentro do sistema prisional, porque ela não é enfermeira ali dentro, é servidora, mas põem ela trabalhando dentro da enfermaria. E Ana Paula sabe pensar nos outros, está sempre preocupada com a mãe, com o sobrinho, com a presa que tá passando mal, dificilmente ela está ali pensando no que realmente quer. E aí o filme põe um pouco isso em questão: “O que você realmente quer? Você queria voltar para São Paulo? Você queria estar longe da sua família enquanto todo mundo quer estar perto?”. E aí eu acho que Ana Paula entra nesse pequeno dilema também dentro do filme. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Percebo no filme uma forte estética ligada ao docudrama, até mesmo à docuficção. Claro que um documentário não necessariamente “captura” a realidade tal qual ela é, mas houve esse trabalho de encenação, sobretudo nos diálogos entre as protagonistas e outras personagens? Se sim, o que te levou a essa escolha formal? Julia Guggisberg Hannud: Foi desafiador, acho que é exatamente essa a palavra que eu tenho para te dizer. No Saudade Mundão, que é meu primeiro filme, eu vinha mais de um documentário clássico, até de entrevistas, por mais que não eram entrevistas sentadas, planejadas, mas havia, essas entrevistas com as mulheres. Fiz esse filme em 2016, então faz 10 anos que eu estou trabalhando sobre o sistema prisional. E eu revi o filme, é um filme que eu tenho muito respeito, muito carinho; ele é muito forte, realmente não é para qualquer pessoa, porque é muito doído. Mas eu ficava um pouco incomodada com essa quantidade de informação via verbal, sentia que o filme era muito verborrágico e ficava pensando como que poderia fazer um documentário onde brincasse com essa coisa da ficção ou dessa encenação, sem ter necessariamente essas informações sendo ditas. Sabe quando é aquela dor de crescimento? Eu tive essa dor de crescimento durante o filme. Porque ficava quebrando muito a minha cabeça, porque por mais que eu planejasse coisas dentro do presídio, é muito difícil de você conseguir ter controle de tudo, praticamente impossível, ainda mais que a gente tá gravando num presídio que está em funcionamento. E eu sugeria e planejava coisas que poderiam ou não acontecer. Quando eu resolvi que queria roteirizar certas coisas dentro do filme, chamei uma diretora de teatro que também me ajudou no processo de ambientação dessas personagens com a câmera – com elas, entre elas, elas comigo –, que ajudou muito no começo do filme, mas a gente nunca chegou a testar nenhuma cena específica. As ideias iam surgindo conforme eu tinha pensado durante o processo de roteirização do documentário, mas também conforme iam acontecendo ali ao vivo. Então, por exemplo, tem uma cena em que eu queria que Ana Paula começasse a falar sobre o irmão dela ou falasse sobre o pai, ou falasse sobre pessoas que não estavam ali e que não queriam aparecer, esses homens que tinham sumido nesse filme. E eu queria que ela começasse um diálogo com alguém, mas não tinha como eu simplesmente jogar essa pergunta porque ia ficar super falsa. Então, eu ia lá e cochichava no ouvido de uma das mulheres e falava assim: "Olha, se você puder perguntar para ela sobre a família dela, como é que ela vai passar o Natal, não sei o quê". E aí eu cochichava no ouvido de Ana Paula uma outra coisa, e assim ia criando meio que ao vivo as cenas que iam acontecendo. Então, teve muita coisa espontânea, mas teve muita coisa encenada também. A única coisa que tenho para te dizer é que eu nunca consegui repetir nenhum take. Então tudo que você viu foi take único. E isso foi um dos grandes desafios para mim, porque eu percebi que eu precisava de mais takes para realizar coisas e eu não tinha planejado isso. Divulgação Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): É perceptível que as presas são muitas vezes deixadas fora do quadro, ou vistas de costas, mas vemos o rosto de algumas conforme interagem com as guardas. Muitas são indicadas pelo código do crime cometido, mas vejo que mesmo que não as enquadre diretamente, sua câmera se interessa muito em humanizar essas mulheres, inclusive evitando registrar alguns dos atos de violência e mantendo-os fora do campo, deixando apenas os sons para a gente ouvir. Como foi esse processo de gravar dentro dos presídios? E como definir quais mulheres apareciam ou não na frente da câmera? Julia Guggisberg Hannud: Sobre o som, vale falar a respeito, porque era um desejo muito forte que eu tinha de trabalhar algo em que você não visse necessariamente o que estava acontecendo. De trabalhar esse som que povoa a cabeça das pessoas que estão dentro do sistema prisional. E eu trabalhei com o Vitor Coroa e o Paulo Gama, que foram os designers de som do filme, e aí o Vitor me falou assim: "Julia, você tem que entender que você tem que gravar muito som. Não existe banco de som de presídio feminino". Têm pouquíssimos filmes feitos em presídios femininos, então tem mais banco de som de presídios masculinos, e não dava para usar. Isso foi uma coisa que pomos na ordem do dia: gravar barulho de cadeado, barulho de grade e tudo mais. Então foi uma escolha narrativa, trabalhar esse som ambiente com uma segunda, terceira camada do filme. Sobre o rosto das pessoas, existem algumas questões aí. A primeira questão é autorização em relação ao rosto das presas. Eu não podia, por termos legais, estar filmando rostos de presa sem que elas tivessem consentimento, e era completamente oposto também ao que eu queria fazer em relação ao meu filme. Os recortes de corpos e de coisas que você vê é justamente para entender que naquele espaço tem pessoas morando ali. Então, a forma que eu encontrei para que essas mulheres não fossem simplesmente apagadas do filme, foi conseguir filmar com essa câmera os corpos dessas mulheres que tão atrás das grades. E aí, conforme essas mulheres chegavam perto da equipe enquanto a gente estava filmando pedíamos autorização, que foi o que aconteceu também na enfermaria. A gente antes conversou, explicou do filme, perguntou se ela [a presa na enfermaria] topava participar, e ela falou que sim. E eu também achava muito importante ter uma voz ali representada. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Quais principais diferenças você observa em relação ao seu trabalho e tratamento com as mulheres presas em Saudade Mundão e agora em Carcereiras? Pensando nos 10 anos de diferença entre os dois filmes. Julia Guggisberg Hannud: Eu sinto que o meu jeito continua sendo muito parecido ainda. Existe um lugar de aproximação e de entrega muito sincero. Porque muitas pessoas falam: "Nossa, como você é uma patricinha de São Paulo e consegue se conectar com essas pessoas?" [risos]. Mas é verdade, existe uma questão de classe muito forte. Eu fiz FAAP, estudei dentro de escola de escola privada, e eu vou para dentro do sistema prisional, onde a gente tem um abismo de classe muito escancarado. Mas existe um lugar que habita dentro do se fazer documentário do jeito que eu penso e se fazer documentário, que faz com que esse lugar exista. Por mais que essas diferenças de classe sejam muito gritantes, por mais que seja uma questão de classe e falar sobre sistema prisional. E acho que no Carcereiras isso fica muito claro, as mulheres que também estão trabalhando como carcereiras são mulheres pobres. Não têm uma condição de vida 300 vezes melhor do que uma mulher que está presa, muito pelo contrário. Então eu acho que tanto em Saudade Mundão como em Carcereiras existe um lugar do encontro muito importante, de chegar com a sua calmaria de perguntar, delas entenderem o porquê. E eu acho que do Saudade Mundão para cá, o que muda mesmo é o olhar em relação à estética, de como como fazer esses recortes. Sair da entrevista, tentar fazer mais uma docuficção, tentar experimentar lugares que para mim eram mais difíceis. E também estar falando com um grupo de pessoas que são muito mais rígidas também, porque esse é um trabalho que exige muita rigidez, que exige muita disciplina, que exige muito desconfiar. Eu tinha que estar ali todos os dias de alguma forma pronta para dizer que estava ali para confiar nelas e que elas podiam confiar em mim. Isso foi um trabalho constante, diário. Para você ter uma noção, no último dia de gravação eu estava filmando com essa presa que estava na enfermaria, e aí chegou a diretora de disciplina e falou para mim: "Que que você tá fazendo? Você não pode fazer isso". Eu falei: "Quem disse que eu não posso fazer isso? De onde veio essa informação agora?”. O tempo todo você estava sendo testada para ver se ia desistir. Acho que o Carcereiras foi muito mais desafiador nesse sentido que o Saudade Mundão, porque no Saudade Mundão a partir do momento que eu entrei, eu fiquei. Acho que nele existia um lugar de troca, de falar do feminino, de falar da mulher, de falar de homem, que eu acho que gerava uma empatia para além do cinema. E eu acho que isso é muito importante quando a gente pensa em fazer documentário. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos às nossas entrevistadas e entrevistados que indiquem filmes nacionais que acham que o nosso público deva assistir. Quais seriam suas indicações? Julia Guggisberg Hannud: Acho que um filme que para mim foi uma grande referência para o Carcereiras foi o Mato Seco em Chamas, que eu acho que traz um protagonismo feminino muito importante, que traz uma construção de docuficção muito massa. Traz uma realidade muito profunda do Brasil, que eu acho que Carcereiras também traz, por mais que seja em outro aspecto. O Prisioneiro da Grade de Ferro, do Paulo Sacramento, também foi o que fez eu entrar em todo o universo prisional, me mostrar outras possibilidades de fazer documentário. Ele passa a câmera para os presos, dá essa autonomia de filmagem, sai da mão do diretor, no Saudade Mundão também tem isso. Eu bebi muito da fonte do Paulo Sacramento também. E [Eduardo] Coutinho. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Coutinho sempre, né? Acho que não tem como. Essa capacidade dele de fazer a gente ver o Outro é um negócio. Cada filme dele que eu assisto, eu fico mais maravilhado como que ele faz isso com facilidade, fazendo parecer fácil. Julia Guggisberg Hannud: Exato. Eu acho que ele tem esse negócio que era uma coisa que me impressionava muito, que é o poder do encontro. Quando você tá com a câmera, quando tudo se junta, parece que você vira uma bolha, o tempo fica suspenso. O filme vira uma espécie de matéria à parte de tudo aquilo, do que é a vida, do que é o mundo. Você entra num universo completamente diferente assim. E isso sempre me impressionou muito no Coutinho, e eu sempre tentei trazer isso para dentro de mim também, como que esses espaços viram espaços suspensos. Enfim, a gente pode brisar muito [risos].

  • Crítica | Sagrado (É Tudo Verdade 2026)

    Em comunidade marcada por ocupação histórica, documentário revela estruturas que sustentam a educação pública. Divulgação Em 4 de agosto de 1989, mais de 300 famílias ocuparam uma área de aproximadamente 150 mil m² no bairro paulista Casa Grande, mais conhecido como ‘Buraco do Gazuza’. Essa ocupação antecipada do Movimento de Moradia causou um conflito direto com a prefeitura local, que pretendia declarar a região de utilidade pública para fins habitacionais e de lazer. A movimentação resultou na reintegração de posse, realizado por meio de uma forte intervenção policial - é desse motim que surge a protagonista do documentário de Aline Riff. Sagrado acompanha o dia a dia dos professores e colaboradores da Sagrado Coração de Jesus, uma escola pública localizada no Conjunto Habitacional Gazuza, em Diadema. Embora a instituição seja tratada como eixo central, a narrativa de Riff evidencia como a estrutura da comunidade local dita o ritmo do ambiente escolar. Entre a rotação geracional de alunos e projetos que conectam a vida no Gazuza com o processo de aprendizado e convivência escolar - que vão desde de reuniões de pais e mestres a desenhos infantis - a diretora aposta em momentos simbólicos eficazes para sugerir que as paredes do Sagrado são, na prática, homenagem concreta aos mais de 30 anos da ocupação. Como uma metáfora aparentemente despretensiosa, o momento que se destaca é a entrega de um espelho à um colaborador que, ao vociferar frases de impacto como “O novo êxodo tá acontecendo aqui” e “O povo vai ocupar a terra prometida”, reafirma o espaço escolar como reflexo direto da comunidade que o sustenta. Assumindo sua posição como um documentário, a montagem linear e acolhedora nos faz sentir como parte daquele cotidiano. A narrativa revela, com sensibilidade, processos como a dificuldade de alfabetização e os desafios da permanência no ambiente escolar, ao mesmo tempo em que aproxima os adultos e as crianças ao colocá-los em etapas de formação e descoberta. Apesar de preservar a imagem dos alunos, a sonoridade do documentário se torna um elemento fundamental na construção de suas presenças diante das circunstâncias impostas. Entre gritos eufóricos durante as atividades esportivas, ou murmurinhos desconfiados em sala de aula, o filme se apoia na parceria entre alunos e figuras de autoridade para firmar seu enredo. Mesmo onde os momentos de tensão potencializam fragilidades do ensino público - seja no âmbito acadêmico ou estrutural - a câmera opta por permanecer junto aos colaboradores, defendendo a legitimidade e humanização dos processos que sustentam o futuro do Gazuza. Por mais que a escolha por uma observação contínua faça com que o ritmo soe cansado ou repetitivo, essa insistência parece dialogar com a própria lógica do espaço, em que o aprendizado se constrói com tentativa, repetição e permanência. Mais do que registrar o cotidiano, o documentário também implanta no espectador uma empatia diante dos esforços da comunidade em transformar o Buraco do Gazuza em um lar em todos os sentidos. Mas acima de tudo, o filme se impõe como uma ode ao ensino público brasileiro na perspectiva de quem o fortalece - não como apenas uma instituição abstrata, mas como um testemunho de que, alí, educar também é um ato contínuo de ocupação, memória e futuro. Nota: 4,5/5

  • Crítica | Falando a Real (3ª temporada)

    Todo mundo precisa de um abraço no fim do dia e a série continua sendo o equivalente a isso. Divulgação Sabe aquele tipo de série conforto, que não precisa ter grandes reviravoltas e tramas complicadíssimas, mas apenas pessoas vivendo seu dia a dia, te fazendo rir e te emocionar? Pois é, Shrinking – ou Falando a Real aqui no Brasil – pra mim é isso e eu fico feliz de dizer que a nova temporada continua consistente com o tom estabelecido nos anos anteriores. Foram onze ótimos episódios (ou doze, se a gente contar que o primeiro teve 1 hora de duração, rs) e um tema constante neles foi como seguir em frente diante das inevitáveis tragédias que a vida apronta pelo caminho, o que permeou o arco geral da trama de cada personagem. Na 2ª temporada, muito se falava em perdão, o que deixou a brecha para o intragável Louis (Brett Goldstein) aparecer e isso nunca funcionou para mim. Continuou não funcionando aqui, mas felizmente, Gaby (Jessica Williams) disse tudo que estava entalado e o homem tomou seu rumo, deixando as coisas fluírem como tinham que ser. Se antes, mesmo não gostando, eu entendia a existência do enredo, agora ele retornar parecia apenas uma satisfação do ego de Goldstein – um dos co-criadores da série – que sequer estava bem no papel, vamos combinar. Então quando Gaby desabafa em um grande momento catártico, nada me soou mais justo. Que ele continue apenas como roteirista mesmo e que nós e os personagens sigamos sem sua presença na frente das câmeras. Divulgação Paul (Harrison Ford) está aprendendo a lidar, ou tentando, com seu diagnóstico de Parkinson e isso garante muita comoção, ainda mais com a participação do espetacular Michael J. Fox. Ford continua brilhante sendo o turrão mais amado do mundo, fora das telas e dentro, pois todos estão lá para apoiá-lo, o que às vezes passava uma impressão de despedida, mas a realidade é que o personagem está mais do que ciente da finitude da vida. Enquanto Jimmy (Jason Segel) está relutante em arranjar um novo relacionamento e custa a aceitar a iminente partida de Alice (Lukita Maxwell) para a faculdade, ainda para complicar um pouco mais, o retorno de seu pai, feito com maestria Jeff Daniels, abala sua estrutura ainda mais. Já no namoro de Gaby, tudo vai bem como Derrick (Damon Wayans Jr.), mas no campo profissional ela enfrenta uma das pacientes mais desafiadoras da sua carreira, o que tem contornos bem dramáticos. No lado mais cômico, meus favoritos Liz (Christa Miller) e Derek (Ted McGinley) precisam colocar um filho acomodado para viver sua vida fora da asa deles. E claro, não deixam de emocionar também, porque Derek tem um probleminha no coração ali pelo meio da temporada e rendeu um dos melhores episódios, com o incrível título de ‘Dereks Don’t Die’. O elenco tem uma química fantástica e mesmo que cada um tenha seus próprios arcos, eles sempre estão entrosados e por dentro da vida um do outro, como é o caso de Liz querendo ser a mãe do filho de Brian (Michael Urie) e Charlie (Devin Kawaoka) e metendo sempre que pode na criação, o que é engraçado de fato. Toda essa união é uma das principais forças da produção, de que aquelas pessoas sempre vão estar ali umas pelas outras e isso garante tanto momentos fofos quanto comoventes. É comum nas séries de Bill Lawrence esse equilíbrio entre a comédia e o drama, seja em Scrubs ou Ted Lasso, mas Shrinking tendo este título e como protagonistas três terapeutas, o foco maior em saúde mental é um fator diferencial, principalmente nos tempos em que vivemos. Os personagens enfrentam o luto, doenças incuráveis e a solidão, por exemplo, e a série aborda isso de uma maneira balanceada para não perder o tom, com o texto afiado sempre com uma piada na ponta da agulha com o intuito de trazer leveza para algumas cenas mais pesadas. A vida precisa de leveza e é por isso que Shrinking é tão especial, mesmo que vez ou outra exagere em alguma sequência boba que passe do ponto, a série ainda vai ser aquele abraço no fim do dia, onde você vai rir e chorar na mesma medida e aquela cena belíssima que Paul e Jimmy dividem nos minutos finais do último episódio resumem essa essência muito bem. Nota: 4/5

  • Crítica | Carcereiras (É Tudo Verdade 2026)

    Docudrama encontra força no cotidiano de suas protagonistas no sistema prisional sem apelar à desumanização. Divulgação O Brasil é o país com a terceira maior população carcerária feminina do mundo, com mais de 31 mil mulheres presas em 2025. A maioria destas mulheres são negras, pobres e estão presas por crimes sem violência, como tráfico de drogas e crimes contra o patrimônio. Apenas 7% das unidades prisionais do país são destinadas à essa população feminina, e são em duas delas que trabalham as agentes prisionais Ana Paula e Mariana, as protagonistas de Carcereiras, longa-metragem de Julia Guggisberg Hannud. Apresentando em paralelo as duas personagens (que nunca chegam a se encontrar), Carcereiras se ancora na tradição do docudrama presente no gênero documental brasileiro para construir um panorama deste sistema prisional, das relações entre agentes prisionais com as presas e com suas famílias. E, embora seja sempre ingênuo que um documentário retrata a realidade tal qual ela é – e não a partir de escolhas formais e também políticas dos seus realizadores –, Hannud escolhe este tênue equilíbrio entre encenação e registro documental para acompanhar essas duas mulheres, encontrando força justamente na naturalidade com a qual sua câmera se imiscui com esses ambientes e com as vidas destas personagens. Em essência, cada uma das duas se encontra em momentos diferentes da vida profissional: Mariana acaba de ser transferida para uma unidade prisional no interior de São Paulo, marcando um recomeço da sua vida, enquanto Ana Paula anseia por uma transferência que a leve de volta para a capital paulista. A primeira, jovem, encontra espaço para as risadas e para a leveza mesmo naquele ambiente muitas vezes opressivo, enquanto a segunda já carrega anos de experiência e um certo desgaste e desilusão. Divulgação Evitando muitas vezes dar rosto às presas conforme elas interagem com as protagonistas (salvo algumas exceções), a câmera de Hannud faz dessa decisão uma escolha de preservá-las humanizá-las, mesmo que as capte de costas ou fora de campo, com apenas suas vozes sendo ouvidas quando conversam com Ana Paula, Mariana e suas colegas. Há um esforço constante em tratar com uma certa naturalidade as vidas dessas mulheres e seus crimes (muitas vezes apresentados apenas pelos artigos do Código Penal), evitando-se julgamentos para retratar essas figuras como seres humanos, repletos de contradições mas nem por isso menos dignos de cuidado ou visibilidade. Até em instantes onde a violência invade aqueles ambientes, a câmera opta pelo fora de campo ou pelas reações das agentes prisionais, destacando como são profissionais já acostumadas – ou em certa medida anestesiadas – àquele cotidiano. Assim, Carcereiras é uma obra que, mesmo carregando certo aspecto de encenação em si (sobretudo em alguns diálogos), não opta por uma narrativa clássica, com altos e baixos emocionais ou alguma espécie de catarse. Há uma escolha por acompanhar esse cotidiano, o qual pode muitas vezes ser tedioso, e o longa abraça esse tédio, goste o espectador ou não. Mas mais do que funcionar como um manifesto político ou filme-denúncia, escancarando as condições muitas vezes precárias nas quais essas agentes e presas podem viver, o trabalho de Hannud aqui encontra êxito em conferir humanidade a essas mulheres, independentemente de que lado das grades elas estão. Nota: 4/5

  • Crítica | Devoradores de Estrelas

    Um blockbuster simpático e esperançoso que tem em seus personagens o seu maior trunfo. Divulgação Em meio à onda incessante de remakes, legacy sequels, adaptações em live-action de animações – ou de videogames e produtos de outras mídias – e tudo mais que escancara a falta de criatividade de Hollywood e sua busca desesperada por novas IPs (como brilhantemente apontado por minha colega Aianne neste texto), é cada vez mais raro ver blockbusters que confiam no poder de sua estrela principal para conduzir um filme inteiro. Uma das poucas exceções dos últimos anos foram Tom Cruise e Top Gun: Maverick, e mesmo o ator não conseguiu repetir o feito com os dois últimos Missão Impossível. Nesse sentido, o sucesso que Devoradores de Estrelas vem fazendo se torna ainda mais curioso quando nos lembramos que o último filme de Ryan Gosling, O Dublê (que eu adoro) foi também um veículo para seu estrelato e fez uma bilheteria bem abaixo do esperado. Talvez diga um pouco das tendências atuais do público – ou da saturação dos modelos que listei no primeiro parágrafo – que tenhamos como segunda maior bilheteria do ano até o momento um longa-metragem de 2h30 ancorado sobretudo na relação de um astronauta e um alienígena em formato de rocha. Mas antes que Rocky (o alienígena) entre em cena, temos um primeiro ato que estabelece a premissa do filme: o Sol, assim como outras estrelas, está sendo vítima de uma espécie molecular alienígena, os astrófagos, que consome seu calor, o que fará com que a Terra resfrie entre 10ºC e 15ºC nas próximas décadas, extinguindo no mínimo metade da população mundial. Ryland Grace (Gosling), um professor que foi descredibilizado por defender a tese de que outras formas de vida podem prosperar mesmo sem a existência de água num planeta, é recrutado para o misterioso Projeto Hail Mary, que enviará uma nave espacial até Tau Ceti, a única estrela imune aos astrófagos, mesmo que se trate de uma viagem sem passagem de volta. É inevitável não tecer comparações entre Devoradores de Estrelas e Perdido em Marte, de Ridley Scott. Não só porque ambos são adaptações de livros do mesmo autor, Andy Weir, mas por serem ficções científicas de cunho mais leve (inclusive na maneira como expressam o didatismo científico necessário à compreensão da trama), com fortes doses de humor e estreladas por atores carismáticos e renomados. Lá, porém, havia um elenco estelar servindo de coadjuvante ao protagonista de Matt Damon; aqui, mesmo que tenhamos nomes como Sandra Huller, Lionel Boyce e Ken Leung, o protagonismo é quase que inteiramente de Gosling. E de Rocky, é claro. Se a direção de Phil Lord e Christopher Miller (voltando à cadeira de direção depois de mais de uma década) no início aposta em cortes rápidos – até demais – para expressar a desorientação de Grace ao acordar na nave depois de mais de uma década de viagem, aos poucos ela se assenta para dar conta das idas e vindas temporais, intercalando a jornada do personagem em redescobrir suas memórias com os flashbacks que mostram como ele foi parar no projeto. Mesmo com uma trilha sonora cativante de Daniel Pemberton (evocando o trabalho de Hans Zimmer em Interestelar e de Steven Price em Gravidade), Lord e Miller inteligentemente sabem usar o silêncio do vácuo ou dos interiores da nave para conferir ainda mais peso à vastidão do espaço, ainda que boa parte do filme se ambiente em espaços fechados, seja a nave (com um trabalho de direção de arte magnífico) ou na Terra, apresentada numa paleta de cores cinzenta e melancólica que contrasta com a cor encontrada no espaço, sobretudo no planeta Tau Ceti-E – onde o filme encontra seus melhores momentos, inclusive). O cuidado com o som do filme se estende para a própria figura de Rocky, que antes de ganhar sua “voz” se comunica com sons e estalidos que fariam Ben Burtt (designer de som e dublador de personagens como R2-D2 e Wall-E) se orgulhar. Quando ele enfim passa a ser dublado com a voz robótica de James Ortiz, ampliando ainda mais sua comunicação com Grace, é a oportunidade do filme enfim encontrar sua alma e coração na relação e amizade dos dois personagens. Tal qual o ET de Spielberg ou o Grogu de The Mandalorian, Rocky chegou para ingressar o panteão dos alienígenas mais queridos e adorados do audiovisual. Divulgação E nisso reside a magia e o milagre do cinema: nos emocionarmos com um alienígena rochoso sem rosto, com a amizade genuína construída entre ele e Grace. Este, nas mãos de Gosling, é uma oportunidade do ator flexionar tanto seus talentos cômicos quanto dramáticos, o que permite que ele não necessariamente repita o que já vinha fazendo em O Dublê ou Barbie. Seu timing para a comédia física continua ali, ou os gritinhos (que me fazem lembrar do seu personagem em Dois Caras Legais, ainda meu papel favorito da sua carreira), mas também há uma expressão genuína da gama de sentimentos que perpassam o personagem em face das decisões difíceis que precisa tomar. Ainda que o filme acabe se excedendo na duração, ou perdendo força após a dita sequência de Tau Ceti-E (sobretudo nos flashbacks, que diluem o impacto climático da obra), ele sempre se encontra no trato dado aos personagens. Isso é visto nas sequências no passado – a cena de Huller cantando Sign of the Times é uma das mais bonitas do filme todo, e curiosamente conversa com a de Emily Blunt cantando Against All Odds em O Dublê –, mas é inegável o quanto o filme sempre cresce ao centrar-se em Grace e Rocky. Não é à toa que os flashbacks se tornam mais escassos à medida que o longa progride (ao ponto de se tornarem uma pequena interferência nos quarenta minutos finais), porque Lord e Miller vão assumindo a confiança de que essa relação cativará o público. Portanto, mesmo com seus percalços narrativos, Devoradores de Estrelas resgata o espírito de um tipo de cinema industrial que tem sido cada vez mais incomum nesta década, embora o fosse nas décadas passadas. É satisfatório ver que ainda há espaço para um cinema grandioso e intimista em igual medida, otimista para tempos tão cínicos e desesperançosos, e que não precisa de multiversos ou easter-eggs para apreender a atenção do seu público. Apenas o star power de Ryan Gosling e de um alienígena. Nota: 3.5/5

  • Entrevista | “Os verdadeiros monstros estão entre nós”: Takehiro Hira fala sobre “Monarch: Legacy of Monsters”

    Ator japonês discutiu o drama humano na série, ambientada no universo da franquia Monsterverse. Divulgação [Contém spoilers da primeira temporada e dos episódios já lançados da segunda temporada.] Em um mundo no qual monstros colossais se digladiam entre si, que lugar o ser humano ainda é capaz de ocupar? Essa pergunta é talvez a essência de Monarch: Legacy of Monsters, série da AppleTV que integra a franquia Monsterverse e cuja segunda temporada está atualmente em exibição. Ambientada após os eventos de Godzilla (2014), a série acompanha os meios-irmãos Cate (Anna Sawai) e Kentaro (Ren Watabe), os quais descobrem a existência um do outro após o desaparecimento do pai Hiroshi (Takehiro Hira), o qual manteve em segredo por décadas a informação de que tinha duas famílias. A partir daí, os irmãos são auxiliados pela ex-namorada de Kentaro, May (Kiersey Clemmons), para descobrirem os segredos do pai, os que o leva a se envolver tanto com a Monarch, a misteriosa organização que monitora monstros como Godzilla e King Kong – os quais são chamados de Titãs –, quanto com um velho amigo de Hiroshi, o coronel Lee Shaw (Kurt Russell). Enquanto isso, no passado, um jovem Lee (Wyatt Russell) conhece os cientistas Keiko (Mari Yamamoto) – mãe de Hiroshi – e Bill Randa (Anders Holm), e suas descobertas e investigações não apenas ajudam a fundar a Monarch, como reverberam nos eventos do presente. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Takehiro Hira para falar mais sobre sua participação na série. O ator de 51 anos nasceu em Tóquio e já conta com vinte anos de carreira, e entre seus papéis de destaque estão a série britânica Giri/Haji (que conta com um elenco tanto britânico quanto japonês) e mais recentemente Xogum, pela qual foi indicado ao Emmy de Melhor Ator Coadjuvante – e onde também contracenou com Anna Sawai, que ganhou o Emmy de Melhor Atriz pela série. Questionado sobre o dilema enfrentado por Hiroshi a respeito das duas mulheres que amou e as duas famílias que constituiu, Hira destacou que, embora fosse fácil julgar seu personagem por estas ações, era importante lembrar que ele vem de uma longa linhagem de abandonos: primeiro por sua mãe, que supostamente morreu (embora descubramos ao final da primeira temporada que ela ficou presa por décadas no Axis Mundi, um mundo no interior da terra de onde vêm os Titãs); depois por Lee, também perdido no Axis Mundi; e então por seu padrasto Bill, que o negligenciou e o abandonou para seguir na sua busca pelos Titãs (e também por descobrir que Keiko teve um caso extraconjugal com Lee). “Acho que ele simplesmente procurou por qualquer tipo de amor ou carinho que pudesse conseguir. Tanto com sua esposa no Japão quanto nos EUA, acho que ele foi sincero naquele momento, ele amava aquelas mulheres e não estava tentando enganar ninguém, mas ele simplesmente não pensou muito, apenas, seguiu seu instinto”, disse Hira. Para o ator, a descoberta por parte de Hiroshi de que sua mãe Keiko traiu Bill com Lee no passado o enfureceu, mas não era algo pelo qual ela pode culpá-la, já que também fez a mesma coisa. Divulgação Devido às origens japonesas de Godzilla, há um esforço constante em Monarch não só de ambientar parte da sua trama em Tóquio – onde Hiroshi viveu parte da sua vida, e onde vivem Kentaro e sua mãe, assim como May – mas também de constituir uma parte significativa do elenco com atores japoneses ou de ascendência japonesa. Para Hira, como os atores e atrizes japoneses são bilíngues, conseguiam se sentir à vontade para falar tanto em japonês e inglês, mas era inegável que ao falarem em sua língua nativa se sentiam “mais próximos do coração”. Ele inclusive relatou uma anedota ligado ao quinto episódio da atual temporada, o qual foi intitulado Furusato em referência a uma antiga canção de ninar japonesa. Segundo ele, a ideia para usar a música partiu de Mari Yamamoto (intérprete de Keiko). “Então não se trata só da língua, mas da música, aquela música antiga que praticamente todo mundo no Japão conhece, que ressoa tanto em nós. Então, foi um momento realmente especial no final da vida de Hiroshi. A família se reuniu e não só conversou em japonês, mas também cantou a música que costumava cantar quando eram crianças”, afirmou. Por fim, Hira refletiu sobre mesmo como numa série onde se vê monstros e criaturas como Godzilla, King Kong ou Titã X (o “antagonista” da segunda temporada), questões ligadas à nossa realidade ainda se fazem presentes. “Nós japoneses às vezes usamos o Godzilla como metáfora para a sociedade, especialmente depois da guerra e depois daquela história do Godzilla ter ingerido radiação e tudo mais. E acho que na série a gente estava lutando ou tentando descobrir o que o Titã X ou aqueles monstros queriam fazer, mas, no final, os verdadeiros monstros estão entre nós”, pontuou Hira. Para o ator, a luta dos personagens contra a ganância corporativa da Apex Cybernetics, empresa rival da Monarch no universo da franquia, e a busca constante das pessoas por mais poder ao ponto de se tornarem mais monstruosas que os próprios monstros do universo, revela muitas metáforas sobre nosso mundo atual. A segunda temporada de Monarch: Legacy of Monsters segue em exibição, com os episódios saindo toda quinta-feira às 22h.

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